Fragmentos
Contos
Fragmentos
Contos
Escrito entre
1987 e 2011
Rio de Janeiro –
Brasil
Capa
Óleo
na tela de F. A. Pereira
Dedicado
a
Heleno Soares
Pinhão (padrinho)
Dário Gonçalves
(Sogro)
Em memória
Agradecimento
Ao meu filho
Otávio Emanuel por se dedicar pacientemente em revisar os textos
Introdução
De
agora em diante estaremos só nós dois.
Eu
por traz do livro, e você que começa a folheá-lo com a curiosidade
de conhecer minhas experiências, meus segredos e minhas imaginações.
Confesso
que relutei muito em colocar tudo no papel, mas de que valeria toda
uma existência se não a dividisse com você, leitor?
Meu
objetivo maior é que, no final da sua leitura, eu tenha conseguido
não só distraí-lo, mas também mostrar em algum desses contos como
o ser humano usa a dignidade para conseguir seus intentos ou
simplesmente a ignora.
Agora
sinta-se à vontade e saiba o que esse contador de histórias e
estórias tem a lhe dizer.
Boa leitura
O
caminho da morte
Fundada
em 1883, a estação ferroviária Chave do Faria deu início a
Aperibé, distrito de Santo Antônio de Pádua, que acabava de
emancipar-se. A pequena cidade, com uma população de pouco mais de
8.000 habitantes, agora teria uma vida independente e mais produtiva.
9
de agosto de 1992.
Até
agora a paz reinava na cidade e por consequência também na única
delegacia. Bastião, o único preso, mal abria a boca para dizer
alguma coisa, na verdade passava o dia dormindo. Já Mathias e
Domingos, os dois velhos agentes que estavam prestes a se aposentar,
adoravam tal situação. Diziam que quanto menos complicação
melhor, pois qualquer caso mais grave poderia vir a alterar seus
planos. Já Godofredo, o novo delegado que assumira a delegacia há
quatro dias e que sempre esteve às voltas com as agitações da
grande metrópole, estava preocupado com aquele marasmo e não
gostava nada daquela calmaria. Sabia por experiência que quando isso
ocorria, algo de muito grave estava prestes a acontecer.
Sabendo
da aposentadoria dos servidores, já havia providenciado reforço da
capital, mas até aquele momento não tinha recebido nenhuma
informação sobre os novos agentes que viriam para substituí-los.
Tentando acalmar os próprios nervos, o delegado perguntou outra vez
a seus ajudantes:
-
Para quando é mesmo a aposentadoria de vocês?
-
De novo doutor? O senhor já nos perguntou isso mais de mil vezes!
Está no Diário Oficial, olha aqui. É agora no dia 16 de agosto,
segunda-feira. Nesse dia já estaremos na beira do rio pescando - os
olhos deles brilhavam de alegria.
- Nossa! É para
daqui a uma semana. Como vai ser caso aconteça alguma coisa mais
séria?
- Se ainda
estivermos por aqui nós o ajudaremos com o caso, mas se for depois
dessa data o senhor vai ter de se virar sozinho. Quem sabe o senhor
já vai contar com os novos inspetores e não precisará da nossa
ajuda - Mathias deixou escapar um sorriso matreiro.
- Mas fica
tranquilo, doutor. O máximo que pode acontecer é o Naldino roubar
outro porco da fazenda de algum coronel e o senhor ter que prendê-lo.
E como sempre o sr. Severo, nosso juiz, condenará ele com três
meses na prisão a serem cumpridos aqui mesmo na cadeia - Domingos
acalmou o delegado.
- Como é isso?
Vocês conhecem esse ladrão?
- Claro doutor! Ele
é o primo aqui do Bastião - respondeu Mathias.
- E o que faz vocês
terem tanta certeza de que isso pode acontecer?
- É que eles se
revezam nesses roubos há mais ou menos dez anos, doutor. Um sai da
cadeia e o outro entra. São dois safados mais que conhecidos na
cidade e não querem nada com o trabalho. Como o juiz foi amigo de
infância dos pais deles, indeniza o coronel pelo porco roubado e
mete eles na cadeia por um tempo - explicou Domingos.
- Então o Bastião
está para ser solto por esse dias?
- Correto. Dia 14
agora ele está fora e provavelmente seu primo entra. Salvo algo novo
aconteça, o que não acredito - confirmou Mathias.
Sendo os
investigadores crias da cidade, o delegado ficou mais tranquilo. Com
a continuidade do papo, ficou sabendo que precisamente no dia
anterior à saída do Bastião, seu primo Naldino roubaria outro
porco e tudo se repetiria como nas vezes anteriores.
- Parece então que
virou folclore da cidade esse acontecimento.
- Quase isso,
doutor. No dia 13 o senhor verá a multidão que vai estar na frente
da delegacia fazendo a maior balbúrdia. Atualmente até barraquinhas
vendendo iguarias são montadas aqui na frente - Os dois riam sem
parar.
Os dias continuaram
a transcorrer sem nenhuma novidade, para alegria dos investigadores e
desespero do delegado, pois até aquele dia não havia chegado
ninguém para substituir seus subordinados.
No dia 12, em que
Godofredo completava uma semana no comando, para sua alegria parou um
carro com placa da capital na frente da velha delegacia por volta das
dezesseis horas. Dele, dois homens altos vestidos com ternos pretos
desceram e se dirigiram à porta principal do prédio. Seriam eles os
novos ajudantes, pensou rapidamente. Recebeu-os com um largo sorriso,
mas após as apresentações e cumprimentos, desamimou-se novamente.
Os forasteiros, que
fediam a enxofre e nicotina, queriam saber onde poderiam se hospedar
por uma noite pois seguiriam viagem pela manhã do dia seguinte. O
delegado informou-lhes sobre a pensão e o hotel, os únicos
estabelecimentos existente na cidade, e eles preferiram ir para o
hotel. Logo saíram rapidamente, mas a aparência deles ficou
registrada na mente do delegado. E muito bem registrada, eram
gêmeos. Sendo que o que realmente lhe chamou mais atenção foram os
anéis que portavam nas mãos esqueléticas e amareladas pelo fumo.
Um deles usava o grande anel de ouro com uma pedra de ônix ladeada
por duas caveiras, na mão direita. E o outro, na mão esquerda,
tinha um anel de prata com as iniciais AM envoltas numa foice.
Provavelmente tratava-se das iniciais de seu nome, já que se
apresentara como Altair Meira.
O restante do dia
transcorreu calmo, e como sempre às 9:00hs da noite, Godofredo
fechou a delegacia e foi jantar na pensão que fica do outro lado da
praça depois de mandar servir a refeição de Bastião. Como ainda
não tinha conseguido alugar uma casa para morar, sua estadia ali
mesmo estava reservada. Isso o deixava mais tranquilo.
Como Mathias e
Domingos tinham prevenido, o dia 13 amanheceu com a cidade
praticamente em frente da delegacia, mas diferente das outras vezes,
não havia balbúrdia e sim um burburinho. Saindo da pensão,
Godofredo caminhava por entre as barraquinhas em direção ao seu
local de trabalho quando encontrou seus auxiliares.
- Chefe! Já sabe o
que aconteceu? - perguntou Mathias.
- Claro que sei! O
Naldino roubou o porco de algum coronel e a festa está armada.
- Antes fosse,
delegado, antes fosse! Dessa vez o pior aconteceu! - reconheceu
Domingos.
- O que foi então?
- Godofredo se mostrou preocupado.
- Jurandir encontrou
o corpo do Naldino lá no caminho que dá no pequeno cais da beira do
rio - responderam os dois quase que ao mesmo tempo.
- Quem é esse tal
de Jurandir?
- É o velho
pescador aqui do lugar. Ninguém sabe quem chegou primeiro, se foi
ele ou a cidade - afirmou Mathias.
- E onde é isso?
Vamos até lá que eu quero ver de perto.
- É lá na saída
da cidade, chefe, mas se prepara que a cena é forte. Falou o
Mathias, bem emocionado.
- Está esquecendo
que eu vim transferido da capital? Lá o bicho pega todo santo dia!
Vamos logo ver isso.
Quando viram o
delegado, a multidão começou a gritar por justiça e pedir que o
caso fosse solucionado o mais rápido possível. Todos queriam saber
quem tinha roubado o porco. A representação estava armada como de
sempre. Em fim, o povo ainda não sabia do assassinato. Como o
tumulto estava se espalhando e poderia ficar sem controle caso
descobrissem a verdade, Godofredo entrou na delegacia, voltou à rua
de posse de um megafone e pediu que as pessoas se retirassem em calma
porque ele iria trabalhar no caso e manteria todos informados das
suas investigações. As pessoas não entenderam bem o pedido, mas
como achavam que o delegado não sabia daquela encenação por ser
novo na cidade, acalmaram-se e começaram a curtir a festa.
Rapidamente,
Godofredo e seus ajudantes se dirigiram ao local do crime. Lá, o
delegado não acreditava no que via. Realmente Mathias tinha razão,
a cena era dantesca. No corpo nu de Naldino via-se estampado no
centro do peito um tridente marcado a fogo. Estava dependurado na
árvore de cabeça para baixo, cheio de cortes que pareciam ter sido
feitos com navalha. Suas mãos e pés foram decepados, os olhos
arrancados e uma foice estava enfiada na cabeça. Na árvore ao lado
estava o porco amarrado, que ele tentara roubar, com as partes que
foram arrancadas do corpo.
Godofredo procurou
pelo local marcas de luta ou alguma pegada que pudesse levar a
esclarecer o caso, mas nada foi encontrado. Nenhuma gota de sangue no
chão, dando a entender que o crime fora cometido em outro local.
Mais tarde o
delegado ficou sabendo de que o porco pertencia à fazenda do próprio
juiz da comarca.
Quem teria cometido
tal atrocidade? - perguntavam os homens da lei.
Logo a notícia do
crime correu que nem rastilho de pólvora pela cidade. Agora, a
frente da delegacia virou palco de quase uma revolta. Estavam todos
horrorizados com o acontecido porque mesmo Naldino sendo um
ladrãozinho barato, era querido por todos e não deixava de fazer
parte da vida do lugar.
O delegado acalmou
os moradores prometendo que não tardaria em prender o assassino ou
os assassinos, afinal crimes bem mais intrigantes ele já havia
resolvido na grande cidade.
Quando todos já
tinham dispersado da frente da delegacia e a calma voltou a reinar
por toda a praça, Godofredo e seus auxiliares começaram a analisar
os últimos acontecimentos. Imediatamente lembrou dos forasteiros que
chegaram na tarde do dia anterior procurando hotel. Determinou que o
Mathias fosse até ao hotel saber tudo sobre os desconhecidos: nomes,
profissão, de onde vinham, para onde estavam indo e a que horas
foram embora. E quanto a Domingos, pediu-lhe para colher informações
pela região, do tipo: a hora em que Naldino saiu de casa, quem foi a
última pessoa que o viu e onde, a que horas e quem sentiu a falta do
porco na fazenda, quando Jurandir descobriu o corpo na beira do rio,
etc. Enfim, pediu que eles colhessem o máximo de informação
possível.
Duas horas mais
tarde voltaram com poucas respostas. Mathias obteve todas as
informações, mas que não levavam a nada porque os forasteiros
entraram no hotel na tarde anterior e só saíram às oito horas da
manhã daquele dia. Já Domingos muito pouco conseguiu, pois ninguém
viu nada. De concreto mesmo só a informação do Jurandir, o
pescador que encontrara o corpo.
Baseado no que
tinha, Godofredo pediu a Mathias que fosse buscar Jurandir para que
este esclarecesse suas dúvidas. Mathias prosseguiu. O tempo foi
passando e nada dele e da testemunha apareciam.
Resolveram ir
almoçar, voltaram à delegacia e nada. Preocupado, o delegado
perguntou a Domingos se era muito longe o local onde encontrar o
pescador.
- Não muito. Já
era para eles estarem aqui.
- Sabe onde é?
- Claro!
- Então faça o
favor de ir até lá ver o que está acontecendo. Enquanto isso eu
vou dar uma chegada lá no necrotério para saber se eles podem me
adiantar algum detalhe importante.
Jurandir morava do
outro lado do rio, mais ou menos na mesma direção onde tinha sido
encontrado o corpo de Naldino. E para lá também se dirigiu
Domingos.
Quando Godofredo
voltou do necrotério, encontrou Domingos sentado no grande banco da
delegacia. Ele estava sem cor, quase desfalecido e ainda tremia dos
pés à cabeça.
- O que aconteceu,
homem?
- Outra desgraça!
Encontrei o corpo do Mathias no mesmo local onde estava o Naldino.
- O quê? E o
Jurandir, cadê ele?
- Está
desaparecido, chefe - respondeu desolado.
- Alguém viu algum
movimento estranho ou escutou alguma coisa? Afinal o crime aconteceu
agora durante o dia!
- É verdade, mas
ninguém sabe de nada... Parecia que eu estava vendo a mesma cena,
tudo idêntico ao crime anterior, só não tinha o porco. É de
impressionar, delegado. Nesses meus 35 anos de polícia nunca vi nada
igual ou sequer parecido.
- Quero ver de
perto. Vamos!
Rapidamente chegaram
ao local. Vários moradores já estavam por lá e a consternação
era geral. Todos em silêncio olhavam para o delegado como que a
perguntar o que estava acontecendo na cidade. Uma cidade em que até
pouco tempo nem animal aparecia morto nas proximidades.
A cena era
horripilante. À primeira vista, era assegurado constatar que o crime
foi milimetricamente executado da mesma forma que o anterior. É como
se a mesma pessoa que fez aquele, repetiu o ato nesse. Godofredo
passou a encarar os casos como a prática de alguma seita macabra.
Mais uma vez,
nenhuma pista foi deixada. A cena do crime foi liberada e o cadáver
recolhido para autópsia. Agora só restava aguardar o resultado e
seguir as pistas que os corpos pudessem revelar.
No
dia seguinte, logo pela manhã, Godofredo recebeu os resultados das
autópsias, que não eram nada esclarecedores. Relatava que as
vítimas, tanto um quanto o outro, morreram de colapso cardíaco
causado por um grande susto. As amputações e os ferimentos pelo
corpo tinham sido cauterizados com uma substância desconhecida. Por
isso não havia nenhum vestígio de sangue.
Para o delegado era
um grande mistério a ser desvendado que provavelmente iria lhe tirar
algumas noites de sono.
À tarde, como em
todo dia 14, Bastião foi solto e prometeu ao delegado que não
roubaria nunca mais um porco, mas que não sossegaria enquanto não
descobrisse quem assassinou seu primo.
Godofredo pediu para
que ele não tentasse fazer o trabalho da polícia e o alertou que o
criminoso era muito perigoso.
O tempo passava e o
delegado não parava de pensar nos estranhos assassinatos que, agora
um mês depois, ainda não tinha conseguido solucionar. Não
desistiria enquanto não colocasse aquele ou aqueles assassinos na
cadeia. Dos novos inspetores que foram locados para a cidade, não
tinha nenhuma posição até aquele dia. Cansado e estressado,
Godofredo foi até a tendinha que ficava do outro lado da praça, bem
em frente à delegacia, a fim de espairecer. Precisava conversar com
alguém e se inteirar ainda mais sobre os hábitos da cidade.
Mal acabara de
chegar ao local e nem teve tempo de cumprimentar o pessoal. Ao olhar
para trás viu um carro, com placa da capital, parar em frente à
delegacia. Dele desceram dois indivíduos vestidos completamente de
preto que se dirigiram ao interior do prédio. Correndo na direção
da delegacia, pensava: “eu já vi esse filme, tomara que sejam os
novos investigadores”. Lembrou que também era dia 12, data igual
ao mês anterior.
Mais uma vez se
decepcionou. Não eram quem ele imaginava e também não eram aqueles
forasteiros que passaram por lá antes do crime. Entretanto eram
gêmeos, fediam igual aos outros e queriam saber onde se hospedar até
o dia seguinte. Mais uma vez informou a localização do hotel. Tudo
acontecia como há um mês, até os anéis em cada mão daqueles
homens eram iguais ao anéis que os outros portavam.
Godofredo não
resistiu à curiosidade e meio desconfiado comentou:
- Noto que os
senhores usam anéis bem interessantes.
- Ah, realmente - um
deles respondeu dando a entender desinteresse.
- Vocês os têm há
muito tempo?
- Não, não. Eu os
adquiri tem mais ou menos uma semana.
- Que interessante!
O senhor conhecia a pessoa que lhe vendeu os anéis?
- Eu os comprei numa
loja de antiguidades. Eu sou um colecionador - respondeu
ironicamente.
- Ah! Eu entendo -
dessa vez foi o delegado que usou de sarcasmo.
- Não entendo sua
ironia, delegado. O anel me chamou a atenção por ter as iniciais
idênticas ao meu nome. E como o senhor mesmo pode comprovar, ele
data do ano 666 - retirou o anel do dedo e o entregou ao delegado
para que ele comprovasse sua história.
Godofredo constatou
que o anel datava do ano mencionado.
- Qual o seu nome
mesmo? Estamos conversamos a tanto tempo e ainda não nos
apresentamos.
- Muito prazer,
Armando Mendes - o visitante apresentou um cartão de visita que
tinha seu nome e logo abaixo, estampado em letras góticas, sua
ocupação, que dizia “Colecionador de Antiguidades”.
- Prazer, Godofredo
- respondeu pegando o cartão e continuando o interrogatório, agora
mais curioso ainda.
- O anel com as
caveiras também é uma antiguidade?
- Sim, eles estavam
num estojo de joias e a loja só negociava o conjunto. Me custou um
bom dinheiro, mas valeu a pena.
- Que bom que o
senhor ficou satisfeito com a aquisição. Pôde ainda presentear seu
irmão! - outra vez usou de sarcasmo.
- É verdade! Bem,
delegado Godofredo, nós vamos indo. Até breve.
- Até!
Algo no ar não lhe
agradava, mas nada podia fazer, afinal aqueles homens acabavam de
chegar na cidade. Porém, aquele “até breve” o deixou bastante
intrigado.
Godofredo resolveu
ficar atento pelas próximas horas. Fechou a delegacia e também foi
para o hotel. Lá instalou-se no salão principal de uma forma que
podia ver todo o ambiente até a saída. Vigiando dali, não entrava
e não saía ninguém de que ele não tomasse conhecimento. Assim
passou toda a noite acordado. Na manhã seguinte, precisamente às
oito horas, aqueles homens deixavam o hotel.
Sem mais nada a
fazer ali, Godofredo foi até a pensão onde ficava para tomar banho,
trocar de roupa e voltar para delegacia. Entretanto não chegou no
meio do caminho. Encontrou com o tal Jurandir que lhe deu a notícia
das mortes.
- Você desaparece
todos esses dias e quando volta é com essa novidade?
- Venha ver com seus
próprios olhos. Estão lá no caminho para o rio, naquele maldito
lugar, o juiz e o Bastião, mortinhos da silva, que nem o Naldino e o
Mathias.
- Não é possível!
Pedi transferência para essa cidade a fim de descansar e por aqui
ficou pior que na capital! - Godofredo pensou alto.
Quando estava indo
para o local dois estranhos vestidos de preto o abordaram. Logo olhou
para as mãos deles, mas não viu nenhum anel. Percebeu que também
não eram gêmeos e nem fediam como os anteriores.
- É o delegado
Godofredo?
- Sim, sou eu -
respondeu secamente.
- Eu sou Mário e
esse é o Jorge. Somos os novos agentes transferidos.
- Nossa! Até que
enfim. Chegaram em boa hora. Venham comigo receber as boas vindas da
cidade.
Godofredo não os
alertou sobre o que iam encontrar. Queria ver a reação dos seus
novos ajudantes. Caminhando rápido, chegaram ao local onde os corpos
se encontravam. Os novos agentes estavam paralisados, mal acreditavam
no que viam. Dois corpos dependurados de cabeça para baixo na
árvore, como nas vezes anteriores, e nenhum vestígio de luta ou
sangue.
- Soubemos que nos
mês passado nesta mesma data também ocorreram dois assassinatos
aqui na cidade. É sempre assim por aqui? - um deles perguntou.
- Segundo seus
antigos colegas, aqui reinavam paz e tranquilidade, mas parece que
bastou eu chegar nessa maldita delegacia que a coisa degringolou.
- É, soubemos que o
secretário de segurança está uma fera e não para de atormentar o
Augusto. Quer porque quer o caso anterior resolvido o mais rápido
possível.
- Agora que a coisa
vai pegar. Esse aí era o juiz da cidade e pelo que sei é primo do
Governador. Imagina? Ainda nem resolvi aqueles crimes e agora mais
dois. Estamos fritos se não solucionarmos tudo rapidamente.
- Não creio que
seja tão difícil assim - previu Jorge, tentando levantar o moral.
Outra vez começava
um novo mistério, sendo que agora envolvia um figurão.
O tempo foi passado
e os casos continuavam na gaveta sem solução. Ninguém sabia de
nada e nenhuma pista que os levasse aos assassinos ou aos mandantes
dos crimes era encontrada.
Impaciente com as
cobranças do Governador, o secretário de segurança mandou o chefe
de polícia chamar Godofredo para saber como estava a apuração
daquele monstruoso caso e do que ele precisava para resolver de uma
vez os assassinatos.
Godofredo viajou à
capital. No início da manhã, já no prédio onde funcionava a sede
da polícia civil, dirigiu-se ao gabinete do Chefe de Polícia e não
foi recebido amigavelmente por Augusto. Seu superior encontrava-se
muito nervoso por estar sendo pressionado pelo secretário de
segurança em razão de o delegado não ter solucionado os crimes.
A conversa estava
tensa, quase fugindo ao controle emocional dos dois.
- Não é admissível
demorar tanto tempo para resolver um caso, mesmo que seja um tanto
complicado.
- Concordo com o
senhor. Já disse e repito, eu daria a minha vida para descobrir quem
são esses assassinos, mas...
O telefone vermelho
tocou e Augusto o interrompeu.
- Com certeza é o
secretário de segurança querendo saber como andam as investigações.
Atendeu a ligação
e confirmou manualmente com o polegar.
- Aguarda aqui
mesmo. Vou lá na sala dele e já volto para continuarmos.
Augusto mal acabara
de sair fechando a porta do gabinete e apareceram na frente de
Godofredo dois homens vestido de preto. Eram gêmeos, fediam a
enxofre e nicotina, usavam aqueles anéis que ele tanto conhecia. Mas
não eram os mesmos homens que ele encontrara nas outras vezes.
Rápido e instintivamente sacou da sua arma e apontando para eles
perguntou:
- Como entraram
aqui?
- Você nos chamou!
- Como assim? Vocês
só podem estar malucos! Quem são vocês?
- Não acabou de
dizer que daria a vida para nos ver? Pois aqui estamos e vamos
levá-lo. Na verdade somos um só. Pode me chamar de Anjo da Morte.
Nesse instante os
gêmeos se fundiram numa só pessoa e desapareceram como fumaça
deixando uma gargalhada ecoando por todo o prédio.
Augusto e outros
policiais correram para o gabinete. Ao entrarem, depararam-se com a
mesma cena dos assassinatos na cidadezinha.
Godofredo estava ali
imolado, pendurado na janela basculante de cabeça para baixo. Sua
arma ainda estava segura pela mão decepada no chão, abaixo do
corpo.
O
Feriadão
Olha
que se aproxima mais um feriado. Na verdade é um feriadão, pois sua
comemoração é justamente na quinta-feira e com toda certeza a
grande maioria dos brasileiros vai enforcar a sexta-feira. Certo?
Mais é claro que sim.
Uma
boa parte das famílias se reunirá, ou numa casa de praia ou num
pequeno sítio de sua propriedade. Um dia antes começam os
preparativos para viagem. Sim, eu disse preparativos para a viagem,
pois qualquer um dos dois lugares mencionados, sempre é afastado da
cidade que moram.
Tudo
pronto. Lá vão eles divididos em duas vans de luxo, dessas que
fazem turismo. No início da viagem tudo é festa, mas logo começam
os problemas... É verdade, começam os problemas. E é justamente
quando entram na estrada e descobrem que todo mundo também resolveu
passar o feriadão na mesma praia que eles.
Bem!
Para se ter ideia e conhecer o tamanho do problema, uma viagem que
normalmente é feita hora e meia, provavelmente vai levar de oito a
dez horas. E levou.
Chegaram
na casa de praia de madrugada. Logo constataram que o mato estava com
metro e meio de altura e quase não dava para ver a casa nos fundos
do terreno.
Deixaram
os veículos do lado de fora, pois não tinha como colocá-los no
interior. Afasta mato daqui, afasta mato da li conseguiram entrar na
casa. Não tem luz nem água. Ajeitam-se de qualquer maneira pelo
aposento iluminado por velas. Na verdade, um salão enorme onde os
colchonetes foram estendidos para receber os vinte e oito
afortunados. Depois de muita luta com os pernilongos dormiram,
preocupados com a segurança dos veículos é claro.
Será
que iriam arrombar algum deles? – Era o pensamento geral.
Pela
manhã conferiram se as vans estavam intactas antes de começar a
gincana.
Eram
oito horas quando Júlio, o dono da casa, saiu à procura de um
eletricista para resolver o problema da luz, logo um outro tentava
ver se na cisterna tinha água suficiente para ser mandada para a
caixa quando a energia fosse restabelecida. Enquanto outros três
começavam a capinar o terreno, na tentativa de deixar o local mais
habitável.
-
Vou comprar leite, café e pão. Ouviram um terceiro se oferecer para
realizar a tal façanha.
Chegou
o eletricista. Após duas horas estava tudo funcionando. Mas
descobriram que a água era pouca. Resolveram encomendar um caminhão
pipa. E lá foi aquele que antes achou o eletricista, comprar a água.
-
Gente... Já são quase onze horas da manhã e cadê o Henrique que
não chega com o nosso desjejum? – Reclamou Geny, a sogra do dono
da casa.
Por
volta das duas horas da tarde chega Antenor com duas caixas de leite
longa vida, meio quilo de café, trinta bisnagas, e dez quilos de
carne para o churrasco de Sábado. Tinha conseguido efetuar essas
compras depois de enfrentar uma fila durante três horas. Sem contar
que para ir ao centro da cidade e voltar gastou duas horas no
engarrafamento.
-
Nosso café da manhã está garantido para hoje, amanhã e domingo. –
Afiançou Henrique, cansado, mas cheio de orgulho por ter completado
sua missão.
Nesse
momento dona Geny perguntou.
-
Quem vai fazer o almoço hoje?
Ninguém
se manifestou.
-
Vamos tomar esse café para ir a praia, na volta cuidamos do almoço.
Enquanto
mulheres e crianças estavam na praia, os homens continuavam limpando
o terreno e desalojando ainda mais os mosquitos. A noite seria
promissora.
De
repente chega à notícia: – Carlinhos, de cinco anos, uma das
crianças havia desaparecido.
Para
tudo. Angústia no ar. E todos vão para a praia a procura do garoto.
Uma hora mais tarde, após um estresse danado encontram o menino
distante 2 km de onde estavam, sentado na padaria da praça. Chorava
mãe, chorava filho.
Os
homens voltam à limpeza enquanto as mulheres preparam o almoço,
diga-se jantar. As sete da noite tudo pronto, terreno limpo e comida
feita, mas banho nem pensar, o caminhão com a água ainda não tinha
chegado. Comeram assim mesmo.
A
água chegou as nove da noite. Ligada as mangueiras do caminhão a
cisterna, começa o abastecimento. Devido a vários furos na velha
mangueira, quase cai mais água fora do que dentro. O terreno fica
encharcado e o peso do caminhão abriu uma vala ao sair dele.
-
Já podemos guardar os carro aqui dentro. – Sugeriu Jorge.
Assim
fizeram, mas quando a segunda van entrou ficou atolada no lamaçal
que se formara bem na entrada do terreno, impedindo dessa forma a
saída da outra. Teriam que esperar secar tudo para depois retirar
aquela van do atoleiro e liberar a outra. Pelo menos iriam dormir
tranquilos naquela noite.
A
quinta feira passou e ninguém curtiu direito. Dormiram quase meia
noite depois de uma seresta desafinada. Outra briga com os mosquitos.
Até defumador fizeram para tentar espantá-los, mais nada deu jeito.
A
sexta feira amanheceu chuvosa e assim ficou o dia todo. Ninguém saiu
naquele dia. Lavam a louça do dia anterior e já sujam tudo
novamente, mas ninguém se preocupa em lavá-las.
Os
oitos adolescentes, filhos dos casais em questão, tiveram a
brilhante ideia de fazer uma festinha com os amigos que conheceram na
vizinhança. Eram onze horas da noite quando começou o baile funk e
se estendeu até as três da madrugada. Ninguém conseguiu dormir
direito. Primeiro com o barulho depois com os mosquitos.
Acordaram
quase meio dia e a maioria estava mal humorada e empolada com as
mordidas das muriçocas. Tomaram o café da manhã reforçado e foram
para a praia. As quatro da tarde voltaram.
-
Não tem comida. – Lembrou Ester.
-
Hoje é Sábado. Vamos comer no restaurante. – Sugeriu Margarida.
-
Quem é que vai lavar a louça de ontem? Está todinha lá em cima da
pia. – Perguntou dona Geny com ar sarcástico.
Mas
uma vez ninguém se manifestou.
Não
foi a toa que o Chico fez a música, “Joga bosta na Geny”. Ô
velha nojenta. Pensou todas as mulheres da casa, ao mesmo tempo,
menos sua filha. Afinal, mãe é mãe.
Resolveram
deixar os carros e ir andando até ao restaurante, pois o terreno
ainda estava muito molhado. Retornaram nove horas da noite. O ir e
vir para o jantar levou quase cinco horas.
-
Hoje não tem baile funk, festinha e nem seresta. O bate papo só até
as onze e meia. Amanhã é Domingo...Vamos acordar cedo para ir a
praia e aproveitar bem o final do feriadão. – Determinou Júlio,
afinal a casa era dele e alguém precisava colocar ordem no recinto.
-
Se não chover é claro. – Ponderou dona Geny.
Essa
velha é mesmo uma jararaca. Desta vez todos tiveram esse pensamento.
Menos já sabem quem, não é?
Logo,
logo estavam dormindo. Acordaram cedo com o barulho das trovoadas.
Chovia a cântaros. Era relâmpago pra todo lado. Assim deu duas
horas da tarde e nada de melhorar. Sol? Era mais certo no Japão do
que ali onde eles estavam.
-
Gente esse tempo não vai melhorar. Vamos arruma as coisas e ir
embora mais cedo, pelo menos não pegaremos a estrada engarrafada. –
Falou Antenor.
Assim
fizeram. Malas feitas e colocadas nos carros. Chegou à hora da
partida. Contataram que o lamaçal havia piorado devido a forte chuva
que ainda não tinha parado.
-
Vamos desatolar o van do Geraldo, mas com cuidado para não piorar
isso aqui mais ainda. – Recomendou Jorge.
Escorrega
daqui, escorregada da li conseguiram tirar o pesado veículo, mas
para desespero deles a outra também atolou naquele lugar. Esforço
redobrado. Quase cinco horas da tarde quando todos se acomodaram nas
vans para irem embora. Estavam todos molhados e enlameados. Os carros
também, por fora e agora por dentro. Criança chorando, adolescente
falando alto e mulher reclamando. O desespero era geral e piorou
ainda mais quando entraram na estrada.
Lá
estava o maldito engarrafamento novamente.
-
Esqueceram a carne! – Lembrou dona Geny. – Vamos voltar! Insistiu
ela.
Ninguém
disse uma única palavra, mas se olhar queimasse dona Geny estava
torrada.
O
Fascínio da Rua
A
rua sempre foi o grande fascínio para Murilo.
Ainda
criança, virava e mexia, lá estava ele pela rua a fazer alguma
coisa, como se ali estivesse o seu futuro.
Quase
todos os dias fugia de casa e lá, na rua, ia jogar futebol, soltar
pipa, jogar bola de gude, rodar pião ou simplesmente bater papo com
os amigos da mesma idade, alguns fugitivos como ele e outros que lá
estavam com a aquiescência dos pais.
Foi
na rua que aprendeu e conheceu muito do que sabe hoje, pois não deu
continuidade aos estudos, preferindo a ilusão da liberdade
momentânea à segurança da vida regrada. Entretanto, tal escolha
sem saber foi o combustível para o sofrimento futuro.
O
tempo não para e não perdoa. Logo Murilo sentiu na pele a grande
besteira que cometera na infância e juventude. Sem grandes estudos,
não conseguia uma boa colocação nas empresas, restando apenas as
funções inferiores destinadas a quem não tem muita cultura.
Via
de longe os amigos vitoriosos curtindo a vida numa boa e ele, com
aquele salário curto e sem uma estrutura familiar sólida, sofria
com tal situação.
A
cidade grande, com seus atrativos e facilidades, foi para ele a pior
das selvas e nela se perdeu. Passou a sair do trabalho e não voltar
para casa. No início uma ou duas vezes na semana era certo. Depois
quase todos os dias. Com isso passou a andar mau arrumado, pois tal
decisão custou-lhe o pouco apoio da família e o trabalho. Ferido na
alma, acabou entregando-se àquela que sempre foi sua fiel
companheira, a rua.
Nos
primeiros dias caminhava solitário pelas ruas do centro, de
preferência as mais afastadas para não correr o risco de se
encontrar com algum conhecido. Ainda corria em suas veias um pouco de
orgulho, mas com o passar do tempo
tudo se apagara.
Agora, no limiar da
demência, nada mais tinha importância; já não sofria. Dormia
debaixo de qualquer marquise e durante o dia procurava algo para se
alimentar nas lixeiras do caminho. Arrastando seus pertences,
imundamente maltrapilho e fedido, vagava sem noção entre a
multidão, que ao perceber seu estado desviava e se afastava
rapidamente do pobre fracassado.
Um
drama na oficina
Domingo,
o relógio marcava uma hora da madrugada quando as portas se abriram
abruptamente. Era mais um automóvel acidentado naquele fim de
semana. Com o barulho causado pelo correr da porta de aço, todos os
componentes da oficina acordaram ao mesmo tempo.
-
Olha lá gente. Parece mentira, mas está entrando um importado, e
bem amarrotado na frente. – Gritou alegremente o maçarico.
-
Oba! Amanhã será um grande dia. Vou bater muito naquela lata e
internacionalizar minhas marteladas. Rejubilou-se o velho martelo.
-
Mas o que é isso meu amigo barulhento? Não acha que você está
sendo muito pretensioso? – Perguntou um capô novo que estava
pendurado lá no alto.
-
Não sei porque, o enferrujado? – Riso geral na oficina. – Afinal
quem é o martelo aqui? Não sou eu? – Gritou perdendo a calma.
-
Que é você o barulhento nós sabemos, mas acha que o dono vai
deixar você bater naquela preciosidade? – Debochou a lixa d’água.
-
Além do mais, você chamar uma chapa daquela, de lata é muita
sacanagem. A única certeza aqui, é que serei eu que vou
desparafusar e soltar todas as peças amassadas. – Garantiu a usada
chave de boca.
-
E vão trocar essas peças por quem? – Perguntou rapidamente o capô
cheio de vaidade.
-
Você sim está sendo pretensioso seu enferrujado de uma figa. Não
vê logo, que você jamais fará parte daquela estrutura de primeiro
mundo. – Atacou a tinta importada.
-
E por que não? Não vejo nada que me impeça.
-
Eu também estou certo de que logo, logo estarei lá, fazendo parte
daquela beleza. – Garantiu o cromado para-choque.
-
E nós também! – Em coro, gritaram vários parafusos lá no fundo
da gaveta que estava aberta.
-
Gente? Vocês enlouqueceram? Aquilo é um importado! Não é para o
bico de vocês.
Essa
discussão se estendeu por toda madrugada e só deram conta da hora
quando amanheceu e a oficina foi reaberta. Estavam todos cansados e
resolveram parar com aquela conversa, mesmo porque os empregados
estavam chegando e os trabalhos começariam sob a orientação firme
do novo proprietário.
Nilton
o encarregado pela lanternagem assim que chegou foi logo designando
dois funcionários para desmontarem a frente da Mercedes que dera
entrada na madrugada. Segundo ele era preciso terminar aquele serviço
rapidamente. Também determinou que o lanterneiro Cezar acabasse de
desamassar primeiro a velha Rural, pois tinha acertado de entregá-la
na quinta feira. Chamou Aniceto o responsável por toda a pintura da
oficina e pediu para que ele já fosse preparando o capô, o
para-lama e o para-choque da Mercedes, pois queria que no dia
seguinte tudo estivesse no lugar pronto para ser pintado.
Nos
primeiros quinze minutos do dia, Nilton determinou todas as tarefas
de cada empregado. Ao terminar, entrou no escritório improvisado que
funcionava no meio do grande galpão. O novo dono determinou que
fosse instalado ali, pois assim poderia controlar todos os setores
sem precisar andar muito. Mal chegou no local, Adalberto o novo dono
da oficina perguntou com sua voz de trombone.
-
Então Nilton o que está achando da mudança?
-
Qual delas seu Adalberto? Deste local ou dos novos carros que
passaremos a consertar.
-
Das duas, claro!
-
Bem, daqui deste local realmente ficou muito melhor para administrar
a oficina, mas o senhor está pretendendo mesmo só trabalhar com
carros importados?
-
É o que pretendo, mas não deixarei de atender os carros velhos que
ainda possam aparecer.
Nesse
clima de mudanças e novas metas o dia continuou normal como todos os
outros, só que com a determinação de acabarem o mais rápido
possível com todos os serviços. Adalberto queria que aquela fosse a
última semana de trabalho com carros velhos.
Final
de expediente. Tudo voltou à tranquilidade na oficina e quando o
silêncio parecia ter tomado conta do local ouviu-se uma estrondosa
gargalhada seguida de um alerta.
-
Aí martelo! Parece que seus dias estão contados aqui na oficina. –
Sacaneava o macaco hidráulico.
-
Pega leve macaco hidráulico. Afinal, muita gente aqui dentro está
correndo o mesmo risco. Inclusive você. Lembre-se que você já está
bem usado. Não se esqueça disso. – Alertou o antigo maçarico.
-
Eu não corro esse risco. Terá sempre uma massa corrida para eu
assentar e alisar. – Vangloriou-se a espátula.
-
Parece que nossa amiga espátula não escutou quando o homem disse só
vai trabalhar com os carros novos. – Lembrou o macaco hidráulico
continuando a rir.
-
A mim não importa o que aconteça. Serei sempre de alguma utilidade,
pois haverá sempre um amassadinho em alguma chapa a ser reparado.
Mesmo que ela seja nova. E ai queira ou não eu entrarei em ação. –
Garantiu o martelo.
-
Calma gente, na verdade não há tanto perigo assim de ficarmos
parado. A meu ver os únicos que estão seriamente ameaçados são o
martelo e o maçarico. – A ensebada bancada das ferramentas tentava
acalmar os ânimos.
-
Engano seu bancada. Eu não existo só para esticar as chapas com meu
calor, eu também soldo qualquer peça, esqueceu? – Lembrou o
maçarico.
-
Nós estamos tranquilas. Eles vão sempre precisar da gente para
apertar ou afrouxar alguma porca. – Quem fazia esse comentário
alegremente era a mais velha das chaves de boca.
-
Se eu fosse você não teria tanta certeza assim. Afinal nosso novo
dono é meio estranho. – Lembrou o compressor, que até então não
havia dito nada.
-
Vocês estão muito pessimistas. Eu aconselho aguardarmos e ver como
tudo vai se comportar daqui pra frente. – Recomendou o maçarico.
Dito
isso, encerraram a discussão e o silêncio voltou a reinar no local.
Na
manhã seguinte Adalberto chamou o encarregado Nilton para dar-lhe
algumas instruções.
-
Nilton eu vou precisar dar uma saída e só voltarei após o almoço.
Fica atento que virão entregar daqui a pouco umas encomendas que
fiz.
-
Pode adiantar o que o senhor comprou?
-
Claro, comprei um ferramental e um quadro novo para a oficina. Assim
que chegar, reúna o pessoal, confere e coloque tudo aqui neste
local. Em seguida manda colocar todo o ferramental antigo lá na
bancada, que os próprios entregadores irão retirar tudo daqui e
levar para o ferro velho do Amílcar. Não me vá esquecer de nada. –
Recomendou o patrão.
-
Pode sair tranquilo, que eu já entendi perfeitamente o que temos de
fazer. Só mais uma pergunta?
-
Diga logo Nilton, que já estou atrasado.
-
Posso adiantar a novidade para os funcionários?
-
Claro, de qualquer forma eles vão saber mesmo.
Assim
que Adalberto saiu, o encarregado reuniu os empregados e falou sobre
a novidade. Tal notícia os deixou mais contentes, pois as
ferramentas já estavam muito precárias.
A
noite, depois da oficina fechada o ambiente não era mais o mesmo. A
tranquilidade reinava no local, mas no ferro velho? O chororó era
geral.
-
Que ingratidão. Depois de tantos anos trabalhando de sol a sol olha
aonde viemos parar. – Resmungava o velho compressor.
-
Nunca pensei que eu fosse terminar num ferro velho. – Reclamou o
martelo.
-
E pelo jeito não vão ter nenhuma consideração conosco. Largaram a
gente aqui ao relento. – Frisou o maçarico.
-
Agora mesmo é que iremos ficar iguais ao capô. Todos enferrujados.
– Alertou a chave de boca.
-
Eu estou com a esperança deles me protegerem. Afinal ainda estou
forte e posso muito bem levantar essas quinquilharias velhas. –
Torcia o macaco hidráulico.
-
Estou com você macaco. A esperança é a última que morre. – Dava
força o capô.
-
Pois nesse momento sou eu que não tenho mais tanta certeza e nem tão
pouco, esperança. Olhem bem para mim! Nunca fui usado e estou aqui
nesse cemitério. – Lamentava-se o para-choque cromado.
-
Já não fazem mais peças como antigamente, é tudo de plástico.
Que tristeza. – Lembrou o capô.
-
Tenho certeza de que não é aqui que iremos acabar. – Garantiu o
macaco hidráulico cheio de esperança.
Amanhecera
e todos ouviram o dono de ferro velho gritando para um dos
funcionários.
-
Pega todo esse material que chegou ontem e coloca no caminhão. Vai
tudo para a siderúrgica.
Coisas
da vida
Por
volta dos anos 50 um funcionário do Banco do Brasil era detentor de
muito prestígio e quando então gerente de agência, quase se
tornava uma autoridade.
É
verdade o que digo. Naquela época as personalidade mais importantes
e respeitadas eram a diretora e professoras da escola, o padre
responsável pela paróquia do bairro e o delegado de polícia.
Um
juiz então, nem se fala, estava acima de qualquer suspeita e era
olhado com o máximo respeito. Hoje em dia não tanto, o que é
lamentável.
Mas
voltemos ao que me propus.
Amoedo,
um morador lá de onde eu vivi quando criança, era um alto
funcionário do Banco do Brasil, mas sua arrogância e falta de
educação era de deixar qualquer um aborrecido. Não cumprimentava e
nem falava com ninguém a não ser quando voltava para casa e parava
no barzinho do caminho já próximo de sua residência, bêbado como
um gambá. Essa expressão popular deve-se ao fato de ser o gambá
facilmente caçado, pois atraído pelo cheiro da cachaça, vem, bebe
e cai bêbado.
Era
nesse momento deprimente da vida daquele senhor, que as pessoas
maldosas, despeitadas e inconsequentes se desforravam da conduta
dele, pois bêbado não tinha noção do que ocorria a sua volta.
Sacaneavam
o homem de toda sorte.
Lembro
que no bairro tinham duas piranhas bem safadas que se prestavam para
beijá-lo no rosto, sendo que a segunda sempre com aquele batom
vermelho marcava-lhe o colarinho ou a ponta do paletó.
Misturavam
sal e açucar na sua bebida, a famosa saideira.
Colocavam-lhe
rabo de papel com os famosos e inconvenientes “barbantinho
cheiroso” no exato momento em que ele se despedia, era o tempo
exato para que chegasse em casa levando aquele maldito fedor.
Como
a casa era bem próxima do bar todos ficavam aguardando quando ele
entrava, ocasião em a gritaria da pancadaria e do esporro que a sua
mulher, uma paraibana dobrada, lhe aplicava era ouvido.
Era
chamado de alcoolatra, mulherengo, depravado, enfim de toda sorte de
elogios que vinha a mente da mulher, sempre acompanhado do chinelo
que ela usava para bater.
Era
só diversão o resultado da vingança que a turma impingia ao pobre
coitado.
Na
mesma moeda
Um
senador que se dizia o grande representante dos pobres, inconformado
por ver aprovada uma lei de sua autoria, que protegeria grande parte
da população carente da nação, suicidou-se. Ninguém entendeu o
porquê daquele ato.
Sua
alma viajava dentro de um elevador envidraçado, indo vagarosamente
em direção ao céu. Aquela viagem estava demorada e enfadonha. No
caminho viu que no inferno estavam alguns de seus amigos que durante
a vida lutaram contra os seus supostos ideais. Acenou para eles, mas
foi ignorado, estavam à volta de uma mesa, todos muito ocupados,
entretanto lhe pareceu estarem bem alegres. Mais adiante passou por
um local que pensou ser o purgatório. Ali também estavam alguns
amigos da profissão, não eram seus opositores, entretanto esses
pareciam não fazer nada e estavam com ar de aborrecimento. O
elevador continuou subindo. Quando chegou no céu a porta se abriu, e
ele deu de cara com São Pedro.
-
Muito obrigado por me receber pessoalmente, senhor. Posso entrar?
-
Felizmente não. – Respondeu-lhe.
-
Como não? Minha vida inteira eu passei lutando pelos mais
necessitados. Na tentativa de melhorar suas vidas, e agora o senhor
diz que não posso entrar no paraíso.
-
Lamento, mas o senador perdeu esse direito quando tirou a própria
vida.
Sem
perder tempo, o senador tentou o famoso jeitinho, mas foi logo
descartado.
-
Esse artifício aqui não cola. Tenta noutro local.
-
E para onde é que eu vou?
-
Isso não é mais da minha responsabilidade... Todavia, desce e vê o
que consegue por aí.
-
O senhor tem coragem de me mandar ficar vagando?
-
Só estou cumprindo ordens superiores.
O
senador vendo que não tinha alternativa e que não ia mesmo
conseguir entrar no céu, resolveu descer. Ao lembrar-se do que tinha
visto quando subira, resolveu perguntar:
-
Senhor posso escolher onde ficar?
São
Pedro sabendo o que ele tinha visto pelo caminho riu tranquilamente e
não se opôs.
-
Faça como lhe aprouver, afinal o local que escolher será sua
moradia por um longo tempo.
-
Obrigado pelo conselho.
O
senador que a essa altura já estava para lá de ansioso, pegou o
elevador de volta, disposto a ir rapidamente para o inferno.
Desceu... Desceu... E ele achou que estava demorando demais para
chegar. Acreditou estar preso naquele local, tempo demais. Pensava
com seus botões; “todo esse descaso para comigo, deve ser uma
espécie de castigo”. Como não tinha acesso aos controles
conformou-se. Quando o elevador parou e a porta se abriu, lá estava
a sua espera, nada mais nada menos que o próprio Diabo em pessoa, e
sua cara não era a das melhores.
-
Interessante, o senhor também veio me receber pessoalmente.
O
senador fez a observação e foi entrando sem fazer cerimonia, mas
logo foi impedido pelo Diabo.
-
Aonde você pensa que vai?
-
Vim para encontrar meus amigos. Pretendo ficar por aqui.
-
Pois o senhor se enganou de porta. Esta casa não acolhe pessoas que
lutam e melhoram a vida dos pobres.
-
Mas tudo não passava de uma encenação. Foi a forma que encontrei
para manter sempre em alta o meu prestígio e ser eleito a cada
eleição.
-
Sim eu sei, mas você não cuidou para que a causa que defendias não
desse certo, e olha no que deu? Milhares daqueles que eu mantinha em
sofrimento, agora terão um alívio. Mesmo que pequeno, mas terão. E
o você é o grande responsável por isso. Todo fracasso tem seu
preço.
Mais
uma vez o senador apelou tentando subornar.
-
Tudo bem. Entendo, mas não sou qualquer um, além de ser um senador
daquela república, também sou um suicida. Tenho prioridades.
-
Sei disso, mas sua conduta durante o período em vida foi
comprometedor. Não posso deixar que entre. Suas ideias podem
subverter meus aliados.
-
Então onde vou ficar?
O
Diabo demonstrando grande insensibilidade aconselhou:
-
Tenta lá pelo purgatório, mas não garanto muito a sua entrada lá
também.
-
O senhor está querendo dizer que eu, o renomado senador, vai virar
um sem-teto?
-
Aqui a lei é para todos. Cada um colhe o que planta. – Dizendo
isso o Diabo fechou o grande portal.
Lá
estava mais uma vez o senador no elevador indo em direção ao
purgatório. O elevador voltou a subir. Desta vez a demora para
chegar, lhe pareceu uma eternidade. Tinha agora a certeza de que
estava preso ali, cumprindo algum tipo de penitencia pelos erros
cometidos. Novamente o elevador parou e a porta se abriu. Deu graças
a Deus quando viu que não havia ninguém a sua espera, como das
outras vezes.
Já
do lado de fora, olhou a volta e avistou mais na frente uma grande
porta. Acima dela pode ver escrito “Purgatório”. É para ali que
tenho que ir. Distraído encaminhou-se naquela direção, mas logo
também foi contido. Desta vez não soube identificar quem o parou,
só escutou aquele homem ordenar:
-
Queira, por favor, se dirigir ao final desta fila senhor e aguardar a
sua vez.
-
Mas eu sou um senador, tenho prioridades.
-
No final da fila. – Insistiu o homem já sem paciência e que
parecia ser o segurança do local.
-
Isso é um absurdo. Saiba que vou reclamar com o responsável sobre
essa sua forma de tratamento.
-
No final da fila. – Gritou grosseiramente.
O
senador como de hábito tentou subornar, mas foi em vão. Vendo mais
uma vez que não tinha alternativa procurou o final da fila. Começou
a caminhar e logo notou que seria longa a caminhada, pois não
conseguia ver o final. Depois de muito andar, parou e perguntou a um
dos que estavam na fila:
-
Esta fila é para se entrar no purgatório?
-
Não senhor. Esta é para pegar a senha do atendimento.
-
Como assim? – Quis saber o senador.
-
Aqui o senhor vai pegar a senha para fazer a triagem. Depois o senhor
vai para aquela outra fila. Se der tempo o senhor é atendido hoje,
caso contrário terá que voltar amanhã para essa fila e pegar uma
nova senha. Quando for atendido se estiver tudo certo, aí sim o
senhor será recebido no Purgatório.
-
Mas ainda corremos o risco de não podermos entrar.
-
Lógico, se o senhor não atender aos quesitos mínimos exigidos, não
entra.
-
E é muito rígida essa seleção?
-
Não muito. O senhor só não pode e ter se suicidado.
-
E quem se suicidou, vai para onde.
-
Essa informação eu não sei dar não. É melhor o senhor procurar
saber quando for atendido.
O
senador lembrou-se de quando em vida. Encontrava-se na mesma situação
daqueles pobres, que o procuravam para conseguir alguma melhora de
vida e ele os encaminhava a qualquer departamento do governo sabendo
de antemão que nada conseguiriam, mas como precisava manter a
aparência de grande defensor dos necessitados não tinha o menor
escrúpulo em enganá-los.
Pensou: – Estaria
ele sendo submetido ao mesmo processo?
Safado
não tem idade
Astrogildo
Camparato, estava completando sessenta anos. Como de costume, reunido
com seus familiares comemorava a data alegremente e gozando de
perfeita saúde. Já o mesmo não podia ser dito a respeito de
Amadeu, não que ele estivesse doente, mas quanto à alegria pode-se
dizer que o mesmo está muito longe dela e o responsável por esse
aborrecimento foi, um terrível golpe sofrido dias antes, dado por
seu amigo Henrique. Todavia Amadeu não deixou de comparecer a
comemoração do aniversário do seu cunhado, irmão da sua mulher,
mesmo sabendo que corria o risco de ser gozado por ele.
Estavam
todos na espaçosa varanda e durante a pequena, mas aconchegante
reunião, Astrogildo tomou conhecimento que seu cunhado havia sido
enganado por um corretor de imóveis da região dos lagos.
Amadeu
acabara de comprar uma casa inexistente. Para Astrogildo, gozador
nato, aquele acontecimento era um prato cheio para enaltecer suas
próprias qualidades de esperto. Sempre que podia ou lhe davam trela,
costumava dizer cheio de orgulho: “está para nascer alguém que
consiga me enrolar”. Sarcástico, não deixou passar a oportunidade
e cutucou o cunhado.
-
Não consigo entender, Amadeu. Como você pôde comprar uma casa na
praia sem pelo menos ter ido ao local confirmar sua existência?
-
Não havia razão, Astrogildo. Afinal, conheço o Henrique há anos.
Há bem da verdade, fomos criados juntos. Como eu poderia imaginar
que ele tornara-se um vigarista depois de tantos anos?
-
Acredito que depois desta você aprendeu a lição e não vai cometer
o mesmo erro outra vez. Vou lhe dar um conselho: quando for fazer
algum outro negócio, me chama. Comigo o negocio é diferente; não
se esqueça.
-
Pode deixar, Astrogildo. Não vou esquecer sua recomendação. – E
nem seu sarcasmo, mas eu ficaria muito feliz se você levasse uma
lição parecida. Ah! Se não ficaria. – Pensou Amadeu, fazendo um
esforço sobrenatural para não jogar na cara do seu cunhado toda a
raiva que estava sentindo naquele momento.
Terminada
a reunião familiar, e depois que todos foram embora, Astrogildo
ainda ficou na varanda do seu apartamento conversando com dois de
seus filhos.
-
Não havia razão para o Amadeu ficar aborrecido. – Comentou.
-
O tio perdeu mais de cem mil e o senhor ainda o goza? Queria o que?
Que ele ficasse satisfeito? – Repreendeu Petrônio, seu filho mais
velho.
-
Quando propus que me chamasse, eu estava falando sério. Jamais tive
tal intenção, apesar de ter tido vontade de rir.
-
O senhor vive de sacanagem! Achou mesmo que ele ia acreditar o
contrário? – Joel, o outro filho, completou a repreensão.
Astrogildo,
homem de temperamento forte, acostumado a concordarem sempre com ele
mesmo sem ter razão, vendo que já não tinha tanta ascensão sobre
os filhos, resolveu encerrar a conversa alegando estar tarde.
-
Bem, vamos dormir e esquecer tudo isso. Tenho certeza de que da
próxima vez ele tomará mais cuidado. Se ele tivesse viajado e feito
como eu, não estaria passando por isso.
Essa
colocação de Astrogildo era referindo-se à compra dos três
imóveis que acabara de adquirir em São Lourenço, famosa estação
de águas minerais e medicinais, que costumava ir frequentemente. Há
duas semanas atrás, quando lá esteve, tomou conhecimento de que seu
Honório, um senhor de noventa e dois anos, estava vendendo todos os
seus imóveis. Procurou vê-los e quis saber o porque da venda.
A
razão para tal procedimento era de que queria distribuir em vida o
dinheiro aos seus herdeiros, na tentativa de conservar a união da
família, pois segundo ele a experiência lhe mostrava que herança
era sinônimo de contenda, e ele não queria isso para sua família.
Astrogildo
sabendo que o preço dos imóveis estava bem abaixo do mercado,
comprou o galpão, dois apartamentos e três lojas comerciais. Na
ocasião da compra não pôde passar os imóveis para seu nome porque
estavam todos em escritura única. Orientado por seu advogado, fez um
documento particular de compra dos referidos imóveis e o reconheceu
no cartório daquela cidade. Ficou marcado para o dia 22 de março,
vinte e um dia mais tarde, o desmembramento de uma só vez dos
imóveis. Tal alegação foi em razão de ter um único gasto, pois o
outro comprador que adquiriu o restante dos imóveis só poderia
efetuar o pagamento na referida data.
Os
dias passaram e na data marcada Astrogildo viajou de volta a São
Lourenço para lavrar a escritura. Entretanto, para sua surpresa, ao
voltar à cidade para fazer o desmembramento e acertar a nova
escritura, ficou sabendo que os imóveis que adquirira, também
haviam sido vendidos para um terceiro comprador. Não havia passado
um mês da descoberta da compra do imóvel inexistente que seu
cunhado Amadeu fizera e agora era ele, o tão experiente Astrogildo,
passado para traz por um velhinho com mais de noventa anos e ainda
por cima, do interior.
“Estava
agora envolvido em uma ação contra o velho vigarista. Era demais”.
– Pensava Astrogildo.
Parece
que o destino escolhera aquela família para pegar suas peças, e
como não podia deixar de ser esse fato também não passou em branco
e acabou caindo nos ouvidos do seu cunhado Amadeu, que fingindo não
saber do que estava acontecendo; promoveu um churrasco em sua casa e
convidou toda a família. Quando todos já estavam reunidos, pediu um
momento de silêncio. Queria fazer um pedido. Todos passaram a
prestar atenção a ele, que falou:
-
Astrogildo, eu quero saber se ainda está de pé a sua proposta.
Astrogildo
logo imaginou que iria ser gozado por seu cunhado e procurou se
controlar, para não lhe dar o gosto da gozação.
-
Que proposta é essa? Não me lembro de ter-lhe proposto algum
negócio.
-
Da última vez que nos reunimos você me aconselhou a procurá-lo
quando eu estivesse para realizar outra compra de imóvel, certo?
-
Ah! Estou lembrando agora.
-
Então! Estou pretendendo comprar uns imóveis que o seu Honório
está pondo a venda lá em São Lourenço, o que você me aconselha?
Os
familiares reunidos não se contiveram e tiraram um sarro do
experiente Astrogildo; foi uma risada só. Afinal, o grande esperto
tinha sido passado para trás por um velho matuto do interior.
O
Bispo e o Fazendeiro – I
Padre
Juca adoecera. Religioso liberal muito querido na paróquia próxima
ao santuário localizado na cidade de Bom Jesus da Lapa, pequena
localidade do interior da Bahia. Devido à escassez de padres naquela
diocese, o próprio bispo Romualdo, conhecido por sua austeridade,
estava atendendo aos fiéis no confessionário, naquele final de
semana. Apesar da grande quantidade de romeiros frequentando a
pequena cidade, tanto o padre quanto o bispo conheciam cada fiel da
localidade e praticamente seus pecados.
-
Em uma das ocasiões em que estive com o padre Juca, ele falou-me a
seu respeito. Dado a sua penitencia, achei que não cometeria mais
esse tipo de erro, senhor Telmo. – Censurou o bispo.
-
Eu procuro me manter fiel ao que prometo ao padre, mas é muito
difícil. – Desculpou-se o fazendeiro.
-
E o que o senhor pretende fazer desta vez para amenizar sua falta.
-
Vou doar cem mil para a Igreja. Com essa quantia o senhor bispo pode
também me perdoar?
A
oferta de Telmo foi tão alta, nos dois sentidos, que ressoou por
toda igreja.
-
Jamais. – Esbravejou o bispo no mesmo tom. – A igreja e nem eu
aceitamos esse tipo de barganha.
-
É pouco? Posso oferecer bem mais! – Telmo continuou no tom alto.
O
bispo mostrou-se indignado. Silêncio total na igreja. Telmo não
teve resposta.
Diante
daquele silêncio inquietante, Telmo insistiu falando, desta vez
baixinho, para que só o bispo o escutasse.
-
Já entendi. Sendo o senhor um Bispo o preço é mais alto. Diga,
quanto?
-
De onde tirou essa ideia de que pagando será perdoado? – Perguntou
o religioso, no tom de voz alto para que todos o escutassem.
-
Ora, não tem um ano que doei ao padre Juca uma quantia igual a essa
e ele me concedeu o perdão. – Telmo continuava falando baixinho,
só para o religioso escutar.
-
Um homem não é perdoado pelo que paga, mas sim pelo seu real
arrependimento. – O bispo entendeu e também sussurrou.
-
Já que o bispo não perdoa, vou esperar e falar diretamente com
padre Juca quando ele retornar. – Insistiu falando baixo.
-
Mas ele também não irá perdoá-lo.
-
Então o padre Juca, lamentavelmente terá que devolver todo o
dinheiro que doei das outras vezes. – Telmo perdeu o controle e
voltou a falar alto.
-
Fale baixo, pecador. Quantas vezes o senhor já fez essas doações?
– Quis saber o bispo visivelmente interessado.
-
Vinte ao todo.
-
Virgem Maria Santíssima! – Espantou-se o bispo.
-
O senhor bispo precisa entender... Tenho muitos interesses e vira e
meche acabo pecando.
-
Não se trata só de entender, o senhor tem pecado de mais, meu
filho. – Repreendeu.
-
Mas sempre me arrependo e venho confessar.
-
Preciso consultar o Altíssimo para saber qual decisão devo tomar
para com o senhor.
-
E essa sua consulta vai demorar muito? O padre Juca costuma ter a
resposta imediata.
-
Não demora nada.
Novamente
o silêncio se fez por toda a igreja, dando margem dessa forma aos
comentários maliciosos de alguns dos fiéis que estavam presentes.
-
O que você acha Quinzinho? O bispo vai aceitar toda essa dinheirada
e perdoar o seu Telmo ou não?
-
Sei não. O bispo sempre se mostrou uma pessoa íntegra, mas agora
está me parecendo meio em dúvida.
-
Cem mil é muito dinheiro gente. Para mim ele vai aceitar. –
Garantiu Armandino, outro fiel que escutava a conversa dos dois.
O
bispo continuava pensando com seus botões: “A igreja já está
mesmo endividada na pessoa deste padre esperto. Não vejo razão para
não perdoá-lo também e tirar algum proveito disso tudo”. Logo o
bispo voltou a sussurrar.
-
Acabei de consultar o Altíssimo, senhor Telmo.
-
É mesmo? E o que ele disse?
Agora
em tom grave puxando para o solene o bispo continuou falando, mas
desta vez alto para que todos pudessem ouvi-lo.
-
Como o senhor é um grande fazendeiro; emprega varias pessoas; seu
gado e sua plantação são fontes de alimento para o lugar, e sendo
um fiel assíduo a igreja, não posso deixar de perdoá-lo.
-
Ah! Demos graças ao Senhor. – Agradeceu o fazendeiro também alto
para que todos o escutassem.
-
Porém terá que ser pelo dobro do prometido aceita? – Dessa vez o
bispo quase foi inaudível.
-
Eu pensei que tínhamos nos entendido quanto ao valor? Não está um
pouco exagerado essa quantia? – Indagou também sussurrando.
-
De forma alguma! É pegar ou largar, só assim tenho a certeza que o
senhor pensará melhor nas próximas vezes em que for pecar. –
Agora o bispo planejava. “Se ele aceitar fico com a metade e dou o
restante para a igreja”.
-
Duzentos mil? Mas isso é pior que ser assaltado. Não dou e desisto
de ser perdoado. – Gritou o fazendeiro.
Amarras
da ganância
Manuh
um alquimista rico e excêntrico, aproveitava-se da fraqueza humana e
mantinha seu sobrinho Emir, durante vinte e quatro horas, a seu lado
servindo-o como se um escravo fosse. Tratava-o rudemente dia após
dia e humilhava-o sempre quando havia alguém por perto. Sem contar
que este não podia se ausentar em hipótese alguma do apartamento
onde viviam. Para nada, nem mesmo para efetuar alguma compra por mais
necessária que fosse. Tudo era pedido por telefone e entregue na
residência pelo serviço de delivery.
Tal
imposição era enlouquecedora. Emir pensava em abandoná-lo, porém
a herança que tinha a receber o impedia de tomar aquela decisão.
Precisava
continuar sujeitando-se aos caprichos de seu tio até sua morte.
Dedicara-se a vida inteira cuidando dele, para ter o direito de ser
seu único herdeiro. Renunciar agora era perder tudo e isso com
certeza ele não faria jamais.
Seu
tio além de tudo era sádico, pois não perdia a menor oportunidade
de infernizar-lhe a vida.
-
Já pensou alguma vez em me matar, Emir?
-
Já, meu tio. E posso garantir que foram muitas vezes.
-
E por que não o fez ainda? Ficaria livre de mim para viver o que lhe
resta de vida.
-
Existe um contrato de segurança e eu sei muito bem que eu não posso
fazer isso, pois perco o direito da herança.
-
Matando-me, você estará me fazendo um bem enorme. Faça isso, eu
preciso descansar e você também.
-
De forma alguma. Eu prefiro me cansar agora e depois com o dinheiro
que vou herdar do senhor, descansarei aproveitando as delícias da
vida.
-
Aos quarenta anos você já está mais do que cansado. São trinta
anos que você está nessa luta e eu não morro. Quanto tempo mais
você acha que vai aguentar?
-
Falta pouco. Mais um ou dois anos no máximo e eu fico
definitivamente rico e livre do senhor.
-
Não vai ser tão fácil assim, meu sobrinho. Ainda vou viver muito.
Sempre
que mencionava essa frase Manuh balançava nas mãos um pequeno
frasco para que Emir o visse.
-
O senhor vai fazer cento e oito anos no próximo mês. Acredita mesmo
que ainda vá viver muito?
-
Quem sabe? Minha saúde continua perfeita.
-
Mesmo assim vou esperar a ação do tempo.
-
Como alquimista tudo posso transformar. Esqueceu?
-
É o que o senhor diz, mas eu particularmente nunca lhe vi
transformando nada.
-
Então aguarde a sua maior surpresa.
Os
meses foram se passando e nada mudava. Emir começava a dar mostra do
cansaço por tanto esperar a morte do tio, mas sempre botava a frente
de tudo a vantagens que passaria a usufruir quando ele se fosse e
assim ia vivendo dia após dia.
Algumas
semanas mais tarde Emir acordou e reparou que seu tio ainda não
tinha se levantado. Uma alegria estranha tomou conta do seu ser e ele
correu para a porta do quarto e parou, pois seu tio o proibia de
entrar ali, mas sua curiosidade era tanta que abriu a porta e entrou.
Na sua cabeça cansada pensava encontrá-lo morto. Ledo engano, o
velho estava lá firme e forte se arrumando para fazer o desejum como
sempre fazia, só estava um pouco mais atrasado do que o de costume.
-
O que houve Emir? Você não sabe que eu não gosto que entre no meu
quarto?
-
Pensei que estivesse precisando de ajuda. - Respondeu rapidamente.
-
Ou pensou que eu havia batido as botas? - Ironizou o velho
alquimista.
-
Não meu tio! Pensei realmente que precisasse de alguma coisa por
isso entrei.
-
Que isso não se repita mais. Já lhe falei a respeito e não vou me
repetir, se acontecer novamente nosso contrato será desfeito e você
perde toda minha herança. Quando eu morrer é claro. - Dizendo isso
deu uma estrondosa gargalhada.
Emir
saiu do quarto muito aborrecido e desanimado. Quando estava quase
chegando a copa onde serviria o café, escutou um barulho.
Voltou
correndo.
Viu
seu tio caído no corredor e de sua mão um pequeno vidro rolara para
o chão deixando como rastro um filete do líquido que ele
acondicionava. Lembrou que seu tio não o largava por nada. A alegria
tomou conta do seu ser quando viu que ele estava morto, quebrara o
pescoço na queda. Imediatamente associou o líquido do vidro
derramado no chão ao Elixir da Vida. Rapidamente lambeu toda a área
por onde se espalhara. Estava rico e agora teria uma longa vida, pois
bebera do líquido que seu tio inventara. - Pensou.
No
mesmo instante começou a passar mal. Tentou chegar ao telefone para
pedir ajuda, mas não conseguiu se mover um milímetro.
Ali
mesmo junto ao corpo do tio, também, morreu envenenado.
O
dilema
Arnaldo,
um adolescente de dezessete anos, destaca-se dos demais colegas da
sua faixa etária por ser compenetrado e sério. Todo dia, tanto indo
como voltando da escola, passa em frente àquela padaria, pois é seu
caminho obrigatório. Quase sempre está acompanhado por um ou mais
colegas, batendo papo - e quando não, está absorto em seus
pensamentos. Por essas razões ainda não tinha se dado conta das
moças que ali trabalhavam. Num desses dias em que voltava sozinho,
foi abordado por um rapaz que lhe entregou um pequeno bilhete. A
caligrafia era feminina, dessas bem desenhadas, e dizia o seguinte: -
“Vejo-o sempre passando por aqui e gostaria de conhecê-lo melhor.
Que tal nos encontrarmos para tomar um sorvete? Lígia, 96969696”.
Arnaldo
leu e não deu muita importância ao convite, porém resolveu mostrar
o bilhete para Júlia, sua mãe, uma senhora de sessenta anos, que
vive assistindo a filmes policiais na TV. Ela logo crivou o filho
temporão de perguntas e recomendações, dessas de quem está
preocupada. Talvez fosse um início de ciúmes, afinal, até ali não
tinha conhecimento de nenhuma namorada, a não ser das meninas do
colégio que estavam sempre à volta do garoto querendo alguma
informação de estudo:
-
Você conhece quem lhe entregou o bilhete?
-
Viu a moça?
-
É bonita?
-
Cuidado! Não diga seu telefone e nem aonde mora!
-
Não ligue para o celular dela, que nosso número vai ficar
registrado.
-
Pode ser algum esquema de sequestro.
Arnaldo
riu e retrucou:
-
Que sequestro, mãe? Lá somos ricos, por acaso?
À
noite, quando o pai chegou em casa, sua mulher o pôs a par da
novidade.
Este,
já encontrando o cenário pronto, achou muita graça e resolveu
esquentar mais ainda, também fazendo recomendações e alertas:
-
Hoje em dia está cheio de travesti atrás de garoto novo. Fique
atento!
-
Cuidado filho, pode ser de algum pedófilo. Já pensou nisso?
Não
achando graça na gozação, Júlia sentenciou:
-
Vou lá amanhã e tiro isso a limpo!
Nesse
momento, vendo que a coisa estava ficando séria, Arnaldo argumentou:
-
Gente, o cara da padaria só me entregou o bilhete. Por que tanta
preocupação?
No
dia seguinte, Arnaldo resolveu conhecer sua admiradora secreta.
Quando passou de manhã pela padaria, deu uma corujada e viu o rapaz,
um velho e duas mulheres. Uma era velha e feia, a outra bem mais
ajeitadinha e interessante. Sem muito tato e experiência, foi direto
ao assunto:
-
Quem é Lígia?
Esta
se apresentou rapidamente. Era a mais velha e feia.
Nossa!
Que falta de sorte. Tenho que sair fora. – Pensou.
-
Quantos anos você tem?
-
Vinte e sete! – Respondeu sorridente e sem nenhum escrúpulo.
Como
sempre sem muito tato, Arnaldo deu o desfecho.
-
Depois eu falo com você tia!
Dizendo isso,
escafedeu-se.
A
Vingança da Geni
Carlão e Pezão são
dois marginais pé de chinelo que mal dão conta de roubar galinha,
quanto mais executar um assalto de média proporção. Mesmo assim
resolveram assaltar a casa da dona Geni, uma senhora de mais ou menos
oitenta anos que sofria do mal de Alzheimer. Com ela moravam a filha
Roberta, de sessenta anos, suas netas Moema, na casa dos trinta,
Otília, com vinte anos, e um bisneto ainda criança.
Tal decisão de
assaltar aquela casa foi devido à constatação de a porta de
entrada estar sempre destravada, ou até mesmo aberta, a qualquer
hora que eles por ali passassem.
Depois de muita
observação na rotina dos moradores, Carlão sentenciou que fariam o
assalto na sexta-feira por volta das nove horas da noite, horário em
que dona Geni sempre ficava sozinha em casa. Dessa forma não teriam
muito trabalho para executar o serviço.
Pezão, que era por
demais supersticioso, reclamou lembrando ao amigo que aquela sexta
seria dia treze, mas sua reclamação não encontrou respaldo por
parte de Carlão. Afinal, não estavam no mês de agosto, lembrou
este.
O tempo passou
rapidamente e a sexta-feira chegou.
Pouco antes do final
da tarde, Carlão notou que o amigo estava nervoso e quis saber o
motivo de tanta tremedeira. Logo foi lembrado por Pezão que era dia
treze e que ele não estava muito seguro de realizar o assalto.
Diante desse impasse Carlão resolveu que eles iriam tomar uma
pinguinha e uma cerveja lá no bar do Chumba antes de começarem o
serviço. Assim ficariam mais relaxados.
Pezão novamente
reclamou alegando ser muito cedo para começarem a beber. Sentindo
que era mais uma das desculpas do amigo, Carlão mostrou-se
irredutível, e ainda assim foram para o bar.
Logo que chegaram
beberam a dose de pinga e pediram uma cerveja bem gelada. Outra dose
de pinga e outra cerveja bem gelada.
Depois
daquela rodada dupla, Carlão quis saber se o amigo já estava mais
tranquilo. Vendo que Pezão ainda tremia, mandou vir outra remessa
igual. Mais quatro pingas e duas cervejas foram servidas, e com esse
reforço Pezão pareceu-lhe estar no ponto ―
um pouco bêbado como ele, mas pelo menos tranquilo. Entretanto, só
depois de mais uma rodada de birita é que resolveram ir "trabalhar".
E lá foram eles
para o local do crime.
Chegaram. Mais uma
vez viram que a casa estava às escuras e totalmente franqueada à
visitação de quem nela quisesse entrar. Não perderam tempo.
Diante do pesado
portão de madeira que ficava na frente da casa, olharam para um lado
e para o outro da rua. Estava deserta, a maioria das janelas das
casas ao redor estavam fechadas. Foi quando Pezão perguntou se as
casas estavam mexendo. "Nada está mexendo, nós é que estamos
um pouco bêbados", revidou Carlão.
Pezão então
empurrou o portão até o fim e entrou largando-o, que estando sob a
pressão de uma potente mola, voltou com tanta violência na cara de
Carlão que arrancou-lhe no ato os quatro dentes frontais: dois de
cima e dois de baixo.
Sangrando e gemendo
baixo, Carlão também entrou, e sua vontade era de matar o amigo
pelo acontecido. Subiu o lance de escada do patamar que ficava antes
da entrada e não entendeu por que Pezão continuava parado em frente
da porta. Tendo pressa em entrar para sair da vista dos vizinhos,
Carlão decidiu ele mesmo abri-la e, empurrando o amigo para o lado,
meteu a mão na maçaneta. Esse ato o faria se arrepender por um bom
tempo.
A porta de ferro era
ligada à eletricidade para que dona Geni não fugisse e ficasse
perambulando pelo grande condomínio. Essa foi a forma que Roberta,
sua filha, encontrou para segurar a mãe em casa enquanto estavam
trabalhando fora. Assim, Otília, que era a última a sair, lá do
portão ligava o dispositivo na campainha que causava um pequeno
choque na senhora e a impedia de fugir. Entretanto, naquela tarde,
num instante de lucidez e cansada de levar choquinhos, dona Geni
resolveu se vingar e por conta própria prendeu um fio no cantinho da
porta, enfiando a outra ponta na tomada da casa. Tudo para que sua
filha tomasse um choque bem mais forte quando chegasse do trabalho.
Por alguma razão
desconhecida a combinação das correntes elétricas naquele momento
estava muito alterada, e Carlão tomou uma descarga tão forte que
sua mão ficou grudada na maçaneta. No esforço para soltar-se, deu
uma cotovelada em Pezão e o mesmo caiu do alto do platô já com o
nariz quebrado.
Os dois bêbados,
sangrando copiosamente, entraram na casa à procura de algo para
estancar tanto sangue. No curto trajeto da porta até a cozinha já
sentiram o mau cheiro no ar. Na escuridão não repararam que o chão
estava com bosta para todo lado; deram alguns passos e
simultaneamente escorregaram na merda: um tombo só e de costas na
sujeira. Agora não era só local que fedia, mas eles também.
Pezão lembrou ao
amigo que era sexta-feira 13, e por isso estava dando tudo errado.
Foi chutado por Carlão.
Não
podiam pôr as mãos na boca nem no nariz para limpar o sangue, pois
estavam sujas de bosta. Como não encontraram o interruptor para
acender a luz, continuaram no escuro. Com muito custo encontraram a
torneira da pia ― abriram
e não havia água.
Suas vistas
começavam a se acostumar com o ambiente e na penumbra viram uma
bacia com água. Não titubearam e ao mesmo tempo apanharam com as
mãos o precioso líquido para se lavarem. Mas ao molharem o rosto
descobriram que era mijo. Na raiva varejaram a bacia longe causando
um barulho estrondoso dentro da casa.
Já não estavam
mais tão bêbados.
Toda aquela
barulhada acordou dona Geni, que do alto da escada para o segundo
andar acendeu todas as luzes e pôde ver os dois meliantes no meio da
sala. Com a súbita claridade, os dois ficaram praticamente cegos e
sem saber para onde ir.
Dona Geni não
pensou duas vezes. Pegou seus dois penicos e dali mesmo acabou de
fazer o serviço. Jogou merda misturada com mijo em cima dos dois,
que ao tentarem fugir ainda levaram outro escorregão. Dessa vez
deslizaram em direção à porta e, ao encostarem molhados na
descarga elétrica, ficaram agarrados nela. Aos gritos pediam
socorro.
Com tanto barulho os
vizinhos chamaram os policiais do posto dentro do condomínio, os
quais rapidamente chegaram e prenderam os safados. Foram algemados e
como primeiro castigo tiveram que ir andando até a distante
delegacia, pois ninguém aguentava tanta fedentina.
A
Capelinha
Quem hoje passa pela
antiga e bucólica estradinha de terra, ainda pode ver a pequenina
igreja no alto do morro. Há mais de setenta anos encontra-se nesse
estado: solitária, abandonada e quase caindo aos pedaços; mas
outrora concorrida e com dias de glória.
Quando procurei
saber o porquê do abandono tive como resposta se tratar de “a
capela do capeta”.
Nos habitantes mais
velhos do lugarejo o difícil era encontrar alguém com a coragem de
contar ou que ainda se lembrasse do ocorrido.
O senhor Jorge
Casillas, um imigrante espanhol de oitenta e seis anos, era um dos
poucos que, quando perguntado, contava sua versão histórica. Talvez
pela idade avançada, explicava ora de um jeito, ora de outro, mas
basicamente não mudava o ocorrido. Isso segundo os demais habitantes
acostumados a sempre ouvir sua história - ou melhor, a história da
igrejinha.
Como todo viajante
curioso, parei para escutá-la, já que teria de passar a noite no
lugarejo. E sentado no precário bar da cidade também ouvi seu
Casillas, como gostava de ser chamado, contar que, toda quinta-feira,
o padre Romão costumava estar na igreja, no seu tradicional
confessionário, recebendo os fiéis para que se aliviassem dos
pecados. Praticamente todos os moradores do local e das cercanias
compareciam para saldar o compromisso cristão. Daí então, na manhã
de domingo, durante a missa, recebiam em comunhão o corpo de Cristo,
como reza a tradição.
Essa era uma das
rotinas que já fazia parte da vida do lugar, mas a partir de uma
determinada época, época essa que aí ele, seu Casillas, já não
soube mais precisar, a igrejinha passou a estar também iluminada na
última sexta-feira do mês. E quase sempre até quase meia-noite,
coisa incomum naquele tempo pois, devido ao horário tardio, ficava
perigoso alguém andar pelo local. Muitos até passaram a se
preocupar com o padre Romão, pois o mesmo morava numa casa de
madeira ao lado da igreja.
Sempre que ele vinha
à cidade, ou mesmo após a missa do domingo quando lhe era
perguntado o porquê das luzes acesas na sexta-feira, o padre dizia
estar ouvindo ranger de dentes, barulhos nos bancos e estalos no
interior da igreja, mas logo que a luzes eram acesas tudo cessava.
Enfim, um grande mistério que tomou proporção maior quando então
os moradores que viviam mais próximos da pequena igreja passaram
também a escutar os tais barulhos, sendo que agora até com as luzes
acesas e só parando por volta da meia-noite, o que levou Romão a
mudar da casa paroquial para outra no centro da cidade.
Nesse momento seu
Casillas sempre dava uma pausa, o que levava algum dos ouvintes a
perguntar o que fora feito para descobrir e solucionar o problema.
Ele sorria satisfeito, pois sabia que estava sabendo valorizar o
mistério que tanto atormentou a cidade. Continuou lentamente com sua
narração, fazendo com que a curiosidade e a agonia de quem o
escutava aumentassem.
Os moradores pediram
para que as autoridades investigassem o local para saber o que
realmente estava acontecendo por lá. A cidade contava com um
destacamento policial de três militares. Um sargento, autoridade
maior, e dois soldados, que se revezavam nos plantões noturnos.
Naquela sexta-feira
13 de agosto de noite de luar prateado, a barulheira era
ensurdecedora. Parecia que o diabo estava presente lá, fora e dentro
da capela. O caminho que levava até a igreja estava nítido, mas
quem se arriscava a ir lá? Foi quando o soldado Valentim, depois de
muito relutar, acompanhado de sua espingarda e de um lampião de gás,
resolveu investigar. No meio do caminho o barulho aumentou e ficou de
tal maneira ensurdecedor que Valentim quis voltar, mas alguns
moradores que o seguiam o impediram. Continuaram a caminhada em
direção à capela que agora já estava às escuras e, para espanto
de todos, quando lá chegaram não encontraram mais nada. A casa em
que o padre Romão vivia tinha sumido, e no local estava um monte de
pó. Da igreja, só restavam as paredes em pé. Tudo o que era de
madeira havia sumido, telhado, porta, janelas, bancos, mesa
eucarística e o altar. Nem mesmo os Santos, também de madeira,
escaparam.
Os cupins haviam
devorado tudo e uma mensagem foi escrita no chão fora da igreja:
“Este local agora
me pertence. Eu venci.”
Desde então ninguém
mais se atreveu a ir àquele local e uma nova igreja foi construída
aqui na praça. Fitando a todos nos olhos, Casillas deu por encerrada
a história dizendo: “falam que ainda hoje está lá para quem
quiser ver, a mensagem.” Com um sorriso enigmático, seu Casillas
se despediu e foi para casa.
O
Azarado
Como diz o ditado
popular, Juliano estava feliz que nem pinto no lixo.
Mas qual a razão
para tanta alegria?
Para quem o conhecia
era fácil de adivinhar. Todos sabiam que nos últimos cinco anos
Juliano não conseguia arranjar um trabalho fixo de carteira
assinada, e olha que ele era um grande profissional da sua área.
Honesto, educado e trabalhador.
Pois bem, parece que
a má fase havia terminado. Ele agora era o motorista particular de
um grande empresário paulista. De segunda a sexta feira iria dormir
na mansão do patrão, condição imposta pelo mesmo para que não se
atrasasse. Poderia inclusive levar um dos carros para casa no final
de semana.
Era tanta
satisfação, que os planos para sua família logo vieram à tona.
Tudo já estava praticamente esquematizado: nos três primeiros meses
comprariam os tijolos, a areia e o cimento para as obras de melhoria
e expansão da casa. Um novo quarto para sua filha era mais do que
necessário e a varandinha para passarem as tardes não ficava atrás.
Depois trocariam os sofás, pois os buracos e as molas tomaram conta
do pedaço; sem contar também que não podiam mais protelar a troca
da geladeira, um descuido e o choque era certo quando nela
encostavam.
Tudo ia às mil
maravilhas. Aquele primeiro mês passara voando e tudo indicava que o
patrão estava muito satisfeito com seus serviços.
Entretanto, Juliano
não contou com o imponderável.
Naquela manhã, ao
acabar de limpar o automóvel, tirou-o da garagem, levou-o até a
entrada principal da casa e estacionou. Ali era onde seu patrão
gostava de embarcar. Deixou o veículo ligado e foi avisá-lo que
estava a sua disposição.
Não deu dez passos
e escutou o barulho.
Voltou correndo e
não acreditou no que viu: o caminhão de lixo perdeu o freio na
ladeira e entrou na traseira da Mercedes. Estrago total no carro e
desespero para Juliano.
Seu Sílvio, ao
escutar a movimentação, veio ver o que estava acontecendo. Não
esboçou nenhuma reação de aborrecimento. Vendo a preocupação do
seu motorista, tranquilizou-o mandando que pegasse outro carro e
disse: meus advogados se encarregarão do ocorrido.
Juliano ficou feliz,
mas redobrou sua atenção no trabalho.
Os dias se passaram
e o acidente foi esquecido, mas os advogados entraram com o processo
contra a empresa de limpeza urbana.
Tudo voltara ao
normal na vidinha do Juliano. Confiança no trabalho e sonhos
reavivados. Entretanto, outra vez o imponderável rondava a vida
desse lutador. Para seu desespero, quinze dias após aquele acidente
com o caminhão de lixo, estava ele parado no sinal quando novamente
seu carro foi abalroado com tanta violência que foi empurrado para
debaixo do caminhão que estava a sua frente.
Novamente estrago
total no carro e desespero dobrado para Juliano, pois desta vez seu
patrão, sentado no banco de trás, deslocou o pescoço com a forte
pancada.
Após atendimento
médico e já com o pescoço imobilizado, seu Sílvio tranquilizou
seu empregado com a mesma frase: meus advogados se encarregarão do
ocorrido.
Pegaram um táxi e
foram para casa.
Um terceiro carro
foi posto à disposição de Juliano, que às escondidas o benzeu
seguindo religiosamente o que a conhecida “Mãe de Santo” de onde
morava havia lhe ensinado.
Depois disso estava
ele novamente confiante. Tinha total certeza de que nada mais
aconteceria, mas será que o imponderável teria sido realmente
afastado?
Os dias, como não
podia deixar de ser, se passaram. Uma semana mais tarde lá estavam,
ele e seu patrão, tranquilamente abastecendo no posto de gasolina
que ficava próximo à residência, quando um carro desgovernado
entrou posto adentro e atingiu outra vez seu carro que estava
paradinho ao lado da bomba. Com a pancada começou um princípio de
incêndio, logo apagado pelos frentista.
Mais uma vez estrago
total.
Juliano sentou na
mureta do posto e desconsolado chorava copiosamente.
De novo ouviu seu
patrão dizer: meus advogados se encarregarão do ocorrido.
A felicidade
estampou em seu rosto. Entretanto, continuou a ouvir a voz do patrão:
mas você por favor passe amanhã no departamento de pessoal da
empresa, que está despedido. Não tenho nada contra sua pessoa, mas
não dá para aguentar tanto azar.
Nobreza
espiritual
Naquele
centro de recuperação existente em algum ponto da eternidade,
Haroldo e Sofia um casal dedicado e com larga experiência no
tratamento de espíritos rebeldes, era entrevistado por Evaristo, um
dos mentores espirituais mais evoluído e o responsável pela
execução dos trabalhos realizados com aqueles espíritos
desorientados.
-
Meus irmãos... Acabo de tomar conhecimento do pedido para uma nova
missão na carne. Estão realmente certo dessa decisão?
-
Estamos.
-
Sabe o quanto vocês são importantes aqui. Muito mais do que
encarnando outra vez na terra.
-
Sabemos perfeitamente, mas ficaremos ausentes somente por um curto
período. Logo estaremos de volta e continuaremos nosso trabalho
junto à comunidade.
-
Quanto a isso não tenho dúvidas. – Afirmou Evaristo.
-
Então porque a objeção em encarnarmos. Faremos isso para que
nossos protegidos a qual amamos tanto, tenham uma nova oportunidade
de aprendizado e resgates na carne.
-
Também sei disso, mas tenho a obrigação de lembrá-los o quanto é
arriscado essa missão. Sempre há o risco de um comprometimento.
-
Não estaremos sós e confiamos que teremos toda a proteção
merecida.
-
Vejo que estão mesmo decididos a viajarem. Então não me resta
alternativa que não seja a de apoiá-los e esquematizar sua estada
por lá.
-
Que bom. Sabíamos que poderíamos contar com você.
-
Diga-me quando estão pretendendo ir?
-
Assim que ficarmos liberados.
-
Bem, acredito que Sofia estará mais tempo comprometida por aqui do
que você, Haroldo. – Comentou Evaristo.
-
E verdade, mas já acertamos d’eu ajudá-la nesta doutrina.
Continuaram
conversando por um longo tempo até que tudo ficou previamente
acertado.
-
Não resta dúvida. Essa é realmente a melhor maneira para realizar
essa missão. – Concluiu Haroldo.
-
Bem, só me resta agora desejar que consigam realizar seus desejos e
que seus protegidos não desperdicem a nova oportunidade.
Haroldo
viria primeiro. Depois Sofia viajaria para fazer-lhe companhia na
terra. Encarnariam com uma diferença de oito anos entre eles. Após
se conhecerem e casar seriam os responsáveis pela viagem de entrada
dos três irmãos que eles queriam ajudar. A convivência entre eles
não poderia ultrapassar cinco anos para que não comprometesse a
missão.
Haroldo
e Sofia pediram a Evaristo para que os deixassem encarnar junto
daquelas famílias que eles escolheram, pois assim aproveitariam, já
que alguns estavam encarnados, para resgatar algumas dívidas
pendentes com eles, e no final das suas estadas na terra também
estavam dispostos a sofrerem pequena provação para contrabalançar
alguma falha cometida e aprimorar ainda mais seus espíritos. Tudo
acertado, a nova missão se deu início.
Haroldo
encarnou e foi batizado com o nome de Fernando. Quase sete anos mais
tarde Sofia também chegou a terra e foi batizada de Maria. Pronto. A
primeira parte da missão estava completada, agora era só esperar o
tempo passar.
Vinte anos mais
tarde Maria conheceu Fernando e casaram-se. Dessa união nasceram
seus três filhos. Kleber, Pedro e Fernando. Conforme o determinado
na espiritualidade Fernando e Maria conviveram com seus filhos
durante o período permitido em verdadeira alegria. Estava realizada
a segunda parte da missão.
No
início do quinto ano que estavam juntos, os dois adoeceram de uma
moléstia que na época era fatal. Começava a última parte do que
eles se comprometeram na espiritualidade.
Durante
um ano de resgate esses dois generosos espíritos sofreram na carne,
os efeitos devastadores da doença, e na alma, os dissabores do
abandono e a ingratidão dos familiares.
Como
parte integrante da missão deixaram cada um de seus filhos e
protegidos sob a responsabilidade de três famílias amigas, que
previamente se comprometeram a encaminhá-los nesta jornada.
Estava
completada a missão que Haroldo e Sofia se dispuseram a realizar
encarnados. Retornaram a eternidade e foram recebidos pelo próprio
Evaristo.
-
Parabéns, meus queridos irmãos. Vocês conseguiram.
-
Obrigado pelos parabéns Evaristo, mas sem a sua proteção não
teríamos conseguido, e tem mais: – Só fizemos nossa parte. Tomara
que eles também façam a deles e consigam conviver como irmãos.
- Isso, nem a nós é
permitido conhecer. Saberemos com o tempo.
Cúmplices
e derrotados
Os
Grimaldi, após passarem quinze anos casados, descobriram que não
podiam ter filhos. Parecia ironia do destino, os dois eram estéreis.
Talvez essa tenha sido a forma que a vida encontrou para aplacar a
arrogância deles.
-
Sempre tive em mente de que você era o único responsável por não
termos filhos. – Dizia Mara, totalmente arrasada.
-
Pois eu tinha certeza de que você, é que era a incapacitada. –
Contra atacava, Jairo.
Não
adiantava mais brigar e nem tentar engravidar, pois não
conseguiriam. Os exames indicavam ser irreversível o quadro dos
dois. Sabendo disso resolveram então adotar uma criança.
O
casal de temperamento forte vivia às turras, até para encontrar o
caminho para uma possível adoção tornou-se complicado. Não havia
um dia que não brigassem e muitas das vezes essas brigas
ultrapassavam os muros da própria casa, indo parar na delegacia. O
difícil convívio que mantinham com a vizinhança, lhes impedia as
boas amizades.
Mara,
todo tempo que dispunha livre, procurava junto às instituições que
ofereciam a guarda de crianças, uma que a agradasse. Finalmente,
depois de várias tentativas encontrou o tão sonhado filho. Não
perdeu tempo e deu entrada no processo de adoção. Entretanto, foram
rejeitados pela agente social nesse processo adotivo logo na primeira
entrevista. Mesmo assim não desistiram de ter um filho. Os meses
passaram e a ideia continuava fixa.
Mara
e Jairo não se cansavam da procura e todos que se achegavam deles,
sempre expunham suas intenções em conseguir adotar uma criança
para ocupar o vazio existente em suas vidas. Tanto procuraram e
espalharam, que um dia, no centro espírita que frequentavam, tomaram
conhecimento de que a parenta de uma frequentadora daquela
instituição iria dar a luz a gêmeos, e que a mesma não tinha
recursos para criar as crianças.
Sabedores
da deficiência financeira do casal resolveram que nas férias de
Jairo eles viajariam a Londrina, em busca de uma dessas crianças.
Assim fizeram. O casal viajou dois meses depois, e dias mais tarde
retornavam do Paraná com o sonhado filho nos braços. Era Cécil, o
mais novo membro da família Grimaldi, que não mediam esforços para
mostrá-lo por toda a vizinhança.
-
Agora eu quero ver o que essa gentalha vai dizer? – Comentava Mara
com seu marido, enquanto passeava com o filho.
-
Acho melhor ficarmos na nossa, não vale a pena provocar esse
pessoal. Não sabemos do que são capazes. – Aconselhou Jairo.
-
Até concordo com você, mas não vou deixar de passear com meu
filho.
Seus
vizinhos, sabendo quem eram, não entendiam como haviam conseguido
aquela adoção e viviam a especular. Em consequência de tantas
perguntas e suspeitas, o casal resolveu mudar de bairro para a
segurança da criança e não mais compareceram ao centro espírita.
Temiam provocar alguma denúncia que pudesse levar a investigações
- e isso era tudo o que eles menos queriam.
Para
os mais íntimos diziam terem ganhado a criança dos próprios pais.
Porém, a verdade tarda, mas não falta. Após vinte e cinco anos o
destino levou Cécil a encontrar-se com alguém muito especial. Seu
carro havia enguiçado e ele teve que andar de ônibus por uma
semana, ocasião que conheceu um autêntico sósia de nome Pedro.
Sósia este, que mais tarde veio a descobrir serem irmãos gêmeos
verdadeiros. O mesmo havia nascido na cidade de Londrina.
Os
pais de Pedro nunca esconderam dele a condição de adotado. Falavam
que ele tinha um irmão gêmeo que fora roubado e que seus
verdadeiros pais estavam vivos e viviam em Londrina. Foi através de
Pedro que Cécil ficou sabendo ser filho de um casal muito humilde e
que vivia numa roça próxima à cidade. Pedro foi doado por sua mãe
por falta de recursos para criá-lo, enquanto que o irmão, que era
ele, fora roubado dela ainda na maternidade.
Após
tomar conhecimento da verdadeira história, Cécil viajou até
Londrina e lá encontrou seus verdadeiros pais. Ajudou-os
financeiramente e sempre que podia voltava para visitá-los.
Abalada
por ter sido desmascarada, Mara passou a ter crises nervosas, sendo
internada algumas vezes numa clínica psiquiátrica. Sempre conseguia
uma melhora e voltava para casa, até que ao ser abandonada
definitivamente pelo filho adotivo não resistiu e enlouqueceu.
O
Recorde
Em
Uruana, pequena cidade do interior de Goiás, dois amigos conversavam
quase bêbados. Eles cuidavam de um churrasco para vinte e sete
moradores do bairro em que moravam. Estavam ali há mais de três
horas e já tinham consumido uns de quinze quilos de carne e várias
garrafas de cachaça.
-
Por que todo esse empenho em preparar você mesmo o churrasco,
Moacir?
-
É porque quero me aposentando em grande estilo e também pretendo
bater um recorde que vai entrar para a história.
-
Conheço-o há mais de trinta anos e nunca o vi trabalhando! Pelo que
sei você vive da herança que seu pai deixou.
-
Nada disso, eu também trabalho.
-
Vou fingir que acreditei. Ah, que recorde é esse?
-
Jorjão, não seja tão curioso, amanhã se você acordar vai ficar
sabendo.
-
Que conversa é essa, compadre? Parece até que vou morrer. Você
está me agourando?
-
Com certeza você vai morrer, aliás, devo-lhe adiantar: – todo
mundo aqui vai morrer entre hoje e amanhã.
-
Do que você está falando?
Moacir
pegou a garrafa de cachaça, encheu mais dois copos, o dele e o de
Jorjão. Também distribuiu a bebida entre os presentes e os convidou
para um brinde.
-
Bebam. É para comemorar o recorde que pretendo bater.
Beberam
quase que de uma só vez, e Jorjão, com a língua mais enrolada que
carretel, pediu.
-
Pode explicar melhor essa história de recorde? Eu não estou
entendendo nada.
-
Vou revelar só para você, mas não conte para mais ninguém esse
meu segredo.
-
Virgem santa homem, por que tanto mistério?
-
Lembra que de vez em quando eu dou uma desaparecida da cidade?
-
Lembro, mas o que isso tem a ver com esse tal recorde?
-
Fique sabendo que eu sou um matador de aluguel.
-
Você bebeu de mais e já não diz coisa com coisa.
Moacir,
bêbedo que nem um gambá, não conseguiu manter em segredo sua
intenção, deixando escapar seu plano.
-
To bêbado não. A carne toda que estamos comendo está envenenada.
Eu mesmo cuidei pessoalmente desse envenenamento. Aposento-me sim,
mas levando comigo na viagem para o além, vinte e sete pessoas. É
ou não é um recorde, para quem só matou doze de uma só vez.
-
Olha compadre... Se é um recorde, eu não sei, mas gostei muito de
saber disso agora... Finalmente vou descansar! – Jorjão estava tão
bêbado que não imaginava o que estava acontecendo.
-
Não vai ficar nem um pouco aborrecido comigo? - Perguntou Moacir.
-
De maneira alguma. Como posso me aborrecer com alguém que está me
tirando mais cedo desta maldita vida? Vamos brindar a isso.
Outro
copo de cachaça.
Jorjão
não perdeu tempo nem a calma, levantou o copo falando:
-
Te vejo debaixo da marquise do inferno.
Moacir
não teve tempo de brindar, seus amigos do bairro escutaram o que ele
acabara de falar para Jorjão e o espancaram até a morte.
Zorro
erótico
Praticamente
toda semana lá estavam eles reunidos, sempre no mesmo hotel de Barra
Mansa. Eram os vendedores e representantes das empresas que atendiam
aos clientes da região.
Com
o passar do tempo mais parecia uma grande família. Todas as noites,
após o jantar, por volta das nove horas, a porta do hotel era o
local ideal para um tradicional bate papo. Descontraía-se a tensão
de um dia de trabalho, atualizava-se as novidades sobre os clientes,
traçava-se planos e estratégias para no dia seguinte quebrar
barreiras impostas por compradores e proprietários. Mas nem tudo era
só seriedade.
Luiz,
um dos vendedores, tinha o hábito de falar muito alto pelas
dependências do hotel, fosse a hora que fosse. Quase todo dia, aos
gritos deixava versos no ar ou então cantava algum sucesso do
momento. Sem contar que, se precisasse de alguma informação de um
colega que estivesse no aposento ao lado do seu, gritava de onde
estava para que o outro respondesse. Contrariava dessa forma as
normas do hotel que exigiam silêncio total.
Quando
isso acontecia, Dona Judith, uma solteirona rabugenta de quarenta
anos, irmã do dono do hotel e uma espécie de gerente do local,
ligava imediatamente da portaria para o apartamento de Luiz para
chamar-lhe a atenção. Quando não era atendida, ia pessoalmente até
onde ele se encontrava e aí sim passava-lhe uma descompostura. Lá
da porta do hotel eram ouvidas a bronca, bem como a gargalhada
matreira do vendedor.
Num
dia, Luiz avisou a todos que iria fazer uma molecagem tão grande que
deixaria Dona Judith de cabelos em pé. Com essa divulgação
antecipada, ninguém quis perder o acontecimento. Por volta das seis
horas da tarde todos já estavam na portaria do hotel a postos.
Dona
Judith estranhou a presença deles ali naquele horário. Talvez já
prevendo o que poderia acontecer, estava agitadíssima e implicava
com todo mundo.
Luiz
chegou, passou pela portaria e cumprimentou seriamente a todos,
inclusive a Dona Judith. Não parou e subiu para seu apartamento.
Não
demorou nada e dali da portaria pôde ser ouvido a cantoria de Luiz
no banheiro tomando banho.
Dona
Judith controlou-se e não ligou.
Fez-se
silêncio. De repente lá estava Luiz declamando novamente seus
versos em alto tom. Dava para perceber que o som vinha agora do
corredor superior do hotel, e não mais de seu apartamento. Sua voz
ora estava próxima à escadaria, ora vinha do fundo do corredor.
Dona
Judith não se conteve. Ligou, mas não foi atendida.
A
declamação continuava cada vez mais alta.
Nova
tentativa de Dona Judith, mas não foi atendida. Resolveu ir
pessoalmente acabar com aquela gritaria infernal.
A
turma de vendedores continuou na portaria, impassiva, aguardando o
desfecho de tudo aquilo. Para surpresa geral viram Dona Judith
voltando às pressas. Estava sendo perseguida por Luiz, totalmente
pelado, com a toalha de banho amarrada ao pescoço, uma máscara
negra nos olhos e com a vassoura na mão gritando:
-
Eu,
o Zorro Erótico, vou acabar com o seu mau humor, e vai ser agora!
Gargalhada
geral, mas a brincadeira custou-lhe a expulsão do hotel.
Vidas
sofridas
Aquele seria um
grande dia para qualquer casal, mas para Etelvina não.
Logo nas primeiras
horas da madrugada começou a sentir as dores do parto. Lentamente
arrumou o parco e pobre enxoval que havia conseguido fazer para o
bebê e sozinha foi para a maternidade que ficava próxima de onde
morava.
Sim, sozinha, pois
nos últimos tempos, Ariosvaldo, seu companheiro, já o deixou de
ser. Libertara-se. Melhor só e em paz, que acompanhada e sofrendo
agressões daquele cuja profissão era gigolô.
Os
solavancos do ônibus eram um martírio para ela, posto que além da
gravidez contava com o peso dos seus quarenta e cinco anos. Aquela
viagem, que era curtíssima, parecia não ter fim - mesmo
já estando acostumada, pois a fizera algumas vezes nos últimos
meses. Entretanto, só o ato de pensar na felicidade de ter seu
primeiro filho a recompensava por todo aquele sofrimento e risco.
Um menino!
Foi informada quando
fez a ultrassonografia pelo médico que a acompanhava.
Com certeza seria um
grande companheiro nas futuras lutas, pensava.
Chegou à
maternidade exaurida, e como acontece com a maioria das brasileiras,
demorou a ser atendida. Estava em um hospital público e o médico
que a atendia esperou até o último momento na tentativa de um parto
normal, para só então realizar a cesariana.
Grande surpresa em
seguida. O tão esperado menino na verdade era uma menina, e Etelvina
não pensou duas vezes. Chamaria a criança de Maria Clara. Maria
porque era devota de Nossa Senhora, e Clara porque tinha a esperança
de que ela viera para modificar e clarear sua vida dali para sempre.
Etelvina
praticamente dobrou o número de faxinas que fazia. Trabalhava qual
uma condenada, pois agora tinha a filha e prometera a si mesma que
faria dela uma doutora. Em momento algum descuidou da educação da
menina e sempre que podia a ajudava nos estudos e a acompanhava na
escola. Sua preocupação maior era defender a filha das maldades do
pai, que conhecia tão bem e sabia do que era capaz.
O tempo passou, a
idade chegou e a doença se fez presente.
Tudo ficou mais
difícil.
Etelvina já não
tinha mais a energia necessária para manter a educação da filha, e
com isso Maria Clara, aos dezesseis anos, viu-se só na luta para
vencer.
Foi quando apareceu
a figura do pai.
Estranhou!
Seu pai era bem mais
velho que sua mãe. No entanto, sendo forte e saudável, tinha a
aparência de vinte anos mais jovem.
Sua conversa fácil
logo a envolveu e a promessa de uma vida melhor a encantou.
Ariosvaldo, usando das artimanhas que lhes eram peculiar, a arrastou
como a mãe no passado, para a prostituição.
Qual
não foi o desespero de Maria Clara quando, já envolvida até o
pescoço naquela profissão, sua mãe, no leito de morte, quis saber
como a filha estava conseguindo o dinheiro para manter seu
dispendioso tratamento.
Marcados
para morrer
De
fora a fora naquele condomínio, a vontade era unânime em matá-los,
mas como fazer tal serviço sem ser descoberto. Afinal eles tinham
alguns defensores e obviamente sempre teria alguém na espreita
cuidando para que na primeira oportunidade pudessem delatar ou quem
sabe até chantagear o responsável ou responsáveis pela chacina.
Sem contar a repercussão que causaria tal ato de violência por todo
o bairro. Entretanto os mais afetados pelas delinquências daqueles
marginais estavam decididos até mesmo a pagar a algum estranho para
executar o serviço, já que as autoridades competentes não tomavam
nenhuma providência, mas o servicinho teria que ser muito bem feito
e não poderia deixar qualquer tipo de pista. Resolveram que quem
fizesse o trabalho não poderia deixar os corpos espalhados pelo
local e deveria desová-los numa região erma e de preferência bem
longe dali, pois quanto mais afastado, mais demorado seria a
descoberta dos crimes.
Tudo
combinado e acertado, partiram para os finalmente.
Os
mentores tomaram conhecimento da existência de um sujeito com vasta
experiência nesse tipo de tarefa (execução sumária) e se
encaixava perfeitamente no perfil que procuravam: - Era um
desconhecido na região e vivia em outra cidade.
Arthur,
por ser aposentado e não ter grandes compromissos diários, fora
designado para procurar o tal profissional e saber com o mesmo da
possibilidade de executar tal tarefa de extermínio exatamente como
eles planejaram e de preferência sem que eles, os mandantes,
soubessem quando seria o dia “D”. Caso afirmativo deveria
contratá-lo imediatamente com a ressalva de urgência na execução
do trabalho.
O
assassino profissional contatado, logo foi contratado.
Os
moradores responsáveis pela contratação não viam a hora de
saberem-se livres daqueles marginais, mesmo tendo consciência de que
seria um derramamento de sangue. Já os restantes nem de longe
imaginavam que uma chacina estava por acontecer no bairro.
Passados
alguns dias... Duas solteironas não muito benquistas pelos moradores
e que davam cobertura aos delinquentes, chorando copiosamente deram o
alarme:
“Estão
desaparecidos nossos amados!”
Por
alguns dias, aqueles que se sentiam prejudicados pelos marginais
descansaram das suas delinquências, mas não demorou muito e o
arrependimento bateu.
Estavam
livres do mal cheiro e da sujeira, mas um novo transtorno acometeu o
local, com o extermínio dos gatos da dona Maria e da dona Inês, os
ratos, sem a milicia felina, passaram a fazer a festa no bairro.
Só
os passarinhos continuavam felizes e agradecidos.
Preconceito,
sentimento inferior
João,
um funcionário simples, trabalhava tranquilamente como arquivista
numa grande indústria de metalurgia em São Paulo.
O
diretor comercial, um arrogante descendente de italianos, passando
por seu departamento, o viu trabalhando e ao mesmo tempo escutando
seu mp3. Não gostou. Chegando à sua sala perguntou para a
secretária.
-
Quem é aquele negrinho que está lá no arquivo?
-
É o João, senhor Remo.
“João
ninguém”. – Pensou o diretor.
-
Quem o contratou? Parece um pouco velho para a função.
-
Ele é terceirizado, senhor.
“Logo
vi”. Pensou o diretor e mandou chamá-lo.
João
viu na fisionomia do diretor que iria ter problemas com ele.
-
Pois não, senhor?
-
Não lhe pago para escutar música.
-
Não estou escutando música, senhor. Estou estudando francês.
Remo
não se conteve e quase perdeu o controle, todavia continuou com a
entrevista.
-
Entendi bem? Você disse estudando?
“Estou
diante de um racista safado. Tenho que tomar cuidado para não ser
despedido antes do tempo”. – Pensou o João.
-
Entendeu sim, senhor. Parece que passei da idade, mas eu ainda
estudo.
“Um
crioulo de nome João e estudando francês. Onde já se viu isso.
Deve estar treinando para gay”. – Pensou Remo.
-
A quem você quer enganar?
-
Há ninguém, senhor. Pretendo me formar este ano. Só faltam seis
meses e essa prova é muito importante para completar meu curso e
poder lecionar. Serei daqui uns dias um professor de francês também.
Remo
estranhou a explicação do funcionário de que seria também
professor de francês e sem nenhuma razão praticamente o escorraçou
de sua sala, e à sua secretária recomendou:
-
Quero que fique de olho nesse crioulo, qualquer deslize ou erro da
parte dele já sabe; rua com ele e seu mp3.
Mas
nada como o tempo para que as coisas se acomodassem e João conseguiu
com sua simplicidade e a ajuda dos colegas, continuar trabalhando
normalmente, só saindo da empresa no final do ano, quando se formou.
O
tempo passou e tudo caiu no esquecimento após sua saída.
Meses
mais tarde, Remo precisou fazer um curso rápido para falar alemão,
pois iria ser transferido para trabalhar em uma das filiais da
empresa na Alemanha. Qual não foi a sua surpresa. No primeiro dia de
aula encontrou-se com João no curso. Fingiu não reconhecê-lo
afinal não lhe agradava nem um pouco compartilhar aquele espaço com
um ex-subalterno e ainda por cima negro.
João,
que estava sentado em uma carteira no corredor aguardando a chegada
dos alunos, depois de algum tempo levantou-se e entrou na sala de
aula. Observou a todos os presentes como se estivesse a contá-los e
dirigindo-se agora à turma falou com voz firme.
-
Bem, acredito que todos já tenham chegado.
Como
era o primeiro dia de aula ninguém ainda se conhecia, por isso
ficaram calados aguardando os acontecimentos.
-
Meu nome é João e sou o professor de vocês. Podemos começar? –
Falou em alemão.
“Se
me lembro bem, naquela época ele disse que estudava francês”. –
Remo pensou cheio de preconceito.
Remo
quase sofreu um infarto, neste dia em que iniciou seu curso, ao
constatar que João, o empregadinho negro que ele tanto menosprezara,
era agora o seu professor de alemão e que dele dependeria em muito
para o seu sucesso no exterior.
Encontro
Inadiável
Naquele
Domingo à noite, Altamiro, destemido e implacável matador de
aluguel, desmaiou após sofrer um grave acidente com seu automóvel.
Homem acostumado a lidar com a morte, porém descontrolou-se nesse
momento, pois sem saber se sonhava ou não, ao voltar a si,
experimentou uma desagradável experiência. A verdade é que de
repente via-se diante dele mesmo no meio de todas aquelas pessoas que
tentavam ajudá-lo e conferiam se ele ainda estava vivo após ter
sofrido tal acidente.
Ainda
atordoado pensou: “o que é que eu estou fazendo ali?”
E
muito apavorado perguntou:
-
Quem é você? O que faz aí?
-
Não conhece mais a morte? Estou fazendo o que sempre fiz; agora o
esperando, podemos ir? – Respondeu sorrindo.
Altamiro
não acreditava no que via e ouvia, mas logo entendeu o que estava
acontecendo e numa derradeira tentativa de escapar da morte, com
muito custo respondeu:
-
Assim que eu terminar uns compromissos que tenho para realizar.
Espere um pouco mais que eu já volto.
Morrendo
de medo e mesmo com muita dificuldade, pois estava bem machucado
Altamiro saiu do local do acidente sem esperar o socorro médico e
procurou um velho amigo seu.
Ainda
estava descontrolado quando o encontrou.
-
Augusto! – Balbuciou assim que viu seu amigo.
-
O que está havendo?
-
Descobri algo do qual desconhecia.
-
Do que você está falando? Está pálido e muito machucado homem,
você precisa ir ao hospital.
-
Não dá para lhe explicar agora e nem ir para o posto médico. Eu
preciso que você me ajude o mais rápido possível, pode fazer isso?
-
Eu nunca lhe vi desse jeito tão apavorado! Posso saber pelo menos o
que está acontecendo?
-
Já disse que não posso explicar. Dá para me ajudar? – Insistiu
com o amigo.
-
Está bem, diga lá o que você quer.
-
Preciso que você me esconda por uns dias num lugar em que nem mesmo
eu o conheça. Pode fazer isso?
-
Estou pensando neste local, mas porque tudo isso?
-
Depois te explico tudo com calma, mas preciso que você faça isso
agora, imediatamente.
Pedido
estranho e difícil de atender. – Pensou Augusto.
Para
onde o levaria? Qual seria o lugar que ele não conhecia? A mente de
Augusto fervilhava em busca de tal local. Foi quando lembrou que seu
amigo nunca tinha visitado-o no seu trabalho e sem saber o porquê
daquele pedido, Augusto vendou-lhe os olhos e resolveu que o levaria
para lá, pois esse era o único lugar que ele não conhecia. Porém
antes perguntou.
-
Altamiro. Você tem certeza de que não quer ir a um hospital?
Perdeste muito sangue.
-
Tenho. Nada de hospital. Terei tempo depois para isso.
Diante
da negativa do amigo, Augusto não teve mais dúvida e o levou para
onde trabalhava.
-
Aqui com toda certeza você não conhece e vai estar seguro. –
Garantiu ao amigo.
-
Que lugar é esse? – Quis saber Altamiro.
-
Você não disse que tinha que ser um local que não conhecesse?
-
Disse. Mas que lugar é esse afinal?
-
Se quer realmente saber tire a venda e descubra você mesmo.
-
Nossa! É uma Santa? Onde estou?
-
Vá até a entrada e olhe lá fora. Descubra você mesmo.
Ainda
dentro da pequena gruta Altamiro avistou lá fora os vários túmulos
do cemitério e não acreditou no que via. Era demais para os seus
nervos. Apavorado por saber onde estava, Altamiro não resistiu e
caiu fulminado.
Nesse
exato momento Augusto, que também olhava para a porta da gruta, viu
quando o corpo do amigo caia pesadamente ao solo. Constatou que ele
morrera, mas no mesmo instante também avistava lá na entrada, a
imagem do seu amigo Altamiro sorrindo e vestido com o tradicional
traje da morte. Fato que o deixou completamente apavorado e sem voz.
Não conseguia entender tudo aquilo, mas ainda pode ouvir a voz do
amigo soar ironicamente.
-
Nós dois passamos a vida lidando com a morte. Então por que o
motivo desse espanto?
Augusto
tentava a todo custo falar, mas não conseguia nem balbuciar, porém
continuava ouvindo a voz de Altamiro.
-
Olha só que ironia. O meu melhor amigo não poderá me enterrar.
O
pobre Augusto ainda não tinha entendido o que estava acontecendo.
-
Perdeu a fala homem?
Com
muito esforço Augusto conseguiu perguntar.
-
Se morreste, o que você está fazendo ainda aí? E vestido dessa
maneira?
Matar,
sempre foi a sua maior diversão, e mais uma vez como estivesse
se divertindo com aquela situação Altamiro respondeu.
- Estou aqui para
levá-lo Augusto, afinal para que servem os amigos?
- Mas eu ainda estou
vivo!
- Tem certeza?
Augusto,
diante de tal revelação, não resistindo, faleceu.
O
Andarilho
Manhã
de quinta-feira. Por volta das oito horas do dia entrou na pequena
cidade, aquele homem de média estatura, claudicando e trazendo aos
ombros, um pequeno saco pendurado numa vara. Parecia um pouco
cansado, talvez devido a fraqueza imposta por alguma doença. Suas
roupas remendadas, que mais pareciam as de um espantalho, um sapato
de cada cor e modelo nos pés, e as várias cicatrizes no rosto e
braços, contribuíam para acentuar seu aspecto negativo. Sim, sua
imagem não era das melhores e isso fazia com que as pessoas se
afastassem e o trouxesse a distância. Melhor dizendo; o evitavam
mesmo, mas verdade seja dito, não tinham assim tantos motivos, pois,
não estava sujo e tão pouco cheirava mal e além do mais, a maioria
dos moradores do lugar não era nenhum modelo de beleza, e como ele,
também não tinham lá muita saúde.
Não
dando qualquer importância ao tratamento que lhe dispensavam,
continuou perambulando pelo lugar e ali foi ficando.
“O
pobre coitado”. Era assim que as pessoas dali se referiam a ele,
sempre às escondidas é claro. Sabia disso e achava graça.
Na
única e pequena praça arborizada da cidade, vários bancos
espalhados a sua volta, e ao centro, três gangorras, cinco balanços
e dois escorregas tudo feito de madeira, compunham o cenário onde
praticamente todas as tardes se reuniam velhos, jovens e crianças
para conversar e brincar.
“O
pobre coitado” notou que alguns bancos e dois dos brinquedos
estavam quebrados. Não perdeu tempo, depois de muita insistência,
conseguiu na precária prefeitura algumas madeiras, pregos, parafusos
e porcas. Pacientemente deu início à restauração das peças que
estavam danificadas, e em dois dias tudo estava novo e pronto para
ser usado. Descobriram o que ele carregava naquele pequeno saco; –
suas ferramentas.
O
seu Joaquim, dono da mercearia, um eterno sofredor de bronquite
asmática, sensibilizado com a dedicação daquele estranho, durante
esses dois dias trabalhados, ofereceu-lhe o alimento necessário para
sua subsistência e deixou que ele se lavasse no banheiro da loja e
permitiu que ele ali dormisse.
Assim,
aos poucos, “o pobre coitado” foi adquirindo, a confiança dos
moradores e com isso ia fazendo um bico aqui outro bico ali sempre em
troca de alimentação, higiene e estadia, nada além disso. Também
perceberam o quão sereno ele era e que sua voz suave penetrava,
acalmava e calava fundo quem com ele conversava.
Suas
obras, não deixaram dúvidas. Nas redondezas não existia melhor
carpinteiro que ele. Sabendo disso, o padre Mário, que era cardíaco,
logo passou a usufruir a habilidade daquele homem. Bancos e portas
foram consertados, até o altar da igreja entalhado na madeira foi
por ele restaurado.
Dona
Clotilde a diretora da escola, que sofria de artrite crônica, seu
Gonzaga o prefeito, que já não enxergava nada, também tiveram
várias peças por ele, restauradas, inclusive nas suas residências.
Com
o tempo, não havia na cidade e redondezas, uma única peça de
madeira, que não tivesse sido restaurada pelo “o pobre coitado”
e não existindo nada mais em madeira que precisasse de reparo, foi
embora.
Entretanto,
por onde o carpinteiro passou restaurando madeira deixou também
restaurada a saúde dos que dela precisavam. Só então as pessoas se
deram conta, de quem realmente era, aquele que chamavam de “o pobre
coitado”. JESUS.
Em
plena avenida
O
sujeito vestido com uma capa de chuva e com o capuz cobrindo sua
cabeça, estava parado no meio fio já havia algum tempo olhando o
guarda de trânsito trabalhar.
Detalhe:
– Não estava chovendo.
Sinal
abre, sinal fecha e ele nada. Continuava ali parado, olhando.
O
guarda, que de longe assistia a cena, depois de muito relutar, não
se conteve. Foi até ele e perguntou.
-
O senhor está precisando de ajuda?
-
Não. – Respondeu secamente o sujeito.
Sem
jeito, o guarda voltou para o seu posto e continuou a orientar o
trânsito. Mas as horas foram passando e o cara continuava ali sem se
mover, mas olhando para o guarda.
O
guarda não aguentando mais aquela marcação, voltou e quis saber:
-
Afinal o que o senhor está fazendo ai parado me olhando todo esse
tempo.
-
Não é da sua conta. – Novamente respondeu secamente.
-
Ah, não!!! O senhor vai ter que me dizer o que está fazendo aí.
-
Estou esperando sua mãe. – Respondeu de novo secamente.
O
guarda entendeu a resposta como uma ofensa, porém não deu
importância a má educação do homem e resolvendo sacaneá-lo
respondeu irônico:
-
Pode desistir e ir embora. Ela não vai vir, pois já morreu.
Com
tal resposta o estranho personagem sem pestanejar e com cara de
poucos amigos mais uma vez falou secamente.
-
Então vou levar você mesmo. – E avançou em sua direção.
O
guarda apavorado, instintivamente deu três passos para trás e foi
atropelado pelo ônibus.
O
jogador
Por volta dos anos
sessenta, uma das distrações masculinas aqui no Rio de Janeiro,
além do futebol, era o jogo de Sinuca, e Carequinha, apelido dado a
Adalberto por ser pequeno e careca, era um dos melhores na prática
desse esporte e fazia dele o seu único meio de vida.
Não havendo mais
ninguém nas redondezas que quisesse enfrentá-lo, resolveu
frequentar outros locais pela cidade a fim de encontrar algum jogador
a sua altura. Entretanto, essa iniciativa de nada adiantou, pois
mesmo dando alguma vantagem nas partidas, logo percebiam que ele
jogava muito bem e dificilmente o venceriam. Suas habilidades eram
realmente imbatíveis.
Foi quando
Carequinha teve a ideia de viajar pelas cidades do interior, uma vez
que não sendo conhecido poderia facilmente enganar os jogadores do
local e consequentemente ganhar algum dinheiro.
Sua tática era
infalível, pois malandramente alcançava seu objetivo se valendo das
fraquezas alheias, ou seja, o olho grande ou a vaidade dos incautos.
Convidava alguém
que estava no salão de bilhar para jogar, sempre aquele mais fraco
na arte. Se a pessoa aceitasse, deixava seu oponente vencer as
primeiras partidas e ia se mostrando nervoso a cada tacada, o que
tornava o outro jogador mais confiante de que sempre o poderia
vencer.
Dentro dessa tática,
Carequinha sempre começava o jogo apostando pouco. Lá pelas tantas,
depois de já ter jogado várias vezes, a quantia perdida já era
bastante alta. Daí começava sua representação. Fingindo
desespero, combinava que a próxima partida seria a última, pois já
havia perdido muito e precisava parar em razão do cansaço. Assim,
sabendo da confiança adquirida por seu oponente, lançava o
derradeiro desafio. Aquela partida iria valer o dobro do que ele já
havia perdido mais a despesa realizada ao longo do jogo, que
consistia no tempo jogado, nas bebidas e nos lanches consumidos
pelos dois.
Obviamente o jogador
prestes a ser iludido permitia-se trair pelo seu olho grande, pois
acreditava que poderia vencer facilmente e ganhar ainda mais daquele
que pensava ser um otário.
Desafio aceito,
Carequinha não dava vez para o azar com sua maestria peculiar. Após
o erro da tacada inicial, que era sempre feita por quem estava
ganhando, iniciava seu jogo e ia até a última bola existente na
mesa, não deixando qualquer chance de recuperação para seu
oponente. Detalhe, tudo isso sempre acontecia quando o local estava
repleto de espectadores e testemunhas, que logo passavam a comentar o
acontecido. Era dessa forma que Carequinha tirava proveito da vaidade
de quem o desafiava, já que qualquer bom jogador da cidade se
tornava o próximo desafiante no dia seguinte à circulação dos
boatos.
E assim fez. Pensou
em fazer sua espessa barba, mas desistiu porque a usava há muitos
anos. Decidido pela busca de dinheiro fácil, lá foi ele para a
aventura.
Na primeira cidade
conseguiu duas vítimas. Na segunda, mais duas. Na terceira, por esta
ser um pouco maior e ter dois locais de jogo, conseguiu enganar
cinco. E assim foi indo de cidade em cidade até não ter mais
nenhuma para executar seu plano.
De volta ao Rio de
Janeiro, assim que chegou ao bilhar que frequentava, passou a contar
as novidades da viagem para os amigos, que riam de cada detalhe
mencionado. Entretanto, mesmo tendo sido um sucesso sua ideia de sair
jogando pelo mundo, Carequinha chamou a atenção do pessoal quando
mostrou-se acabrunhado.
Perguntado,
desabafou que não poderia mais voltar às cidades porque aconteceria
por lá o mesmo que aqui. Ninguém mais iria enfrentá-lo.
Foi quando alguém
deu a ideia de ele voltar às mesmas cidades, só que desta vez com a
barba raspada e uma peruca de disfarce. Com certeza ninguém o iria
reconhecer.
Carequinha achou que
a dica era perfeita e poderia funcionar. Não pensou duas vezes,
comprou uma peruca e raspou a barba. De visual novo, teve a aprovação
dos amigos. Todos garantiram que ele estava irreconhecível.
Partiu mais uma vez,
só que agora com um dos amigos a tiracolo. Como previsto, na
primeira cidade ninguém o reconhecera, mas depois de ter aplicado o
mesmo golpe escutou de um dos espectadores a seguinte afirmação:
“Eu gostaria muito de ver o senhor enfrentando um careca barbudinho
que passou por aqui uns meses atrás”.
Carequinha e o amigo
sorriram meio sem graça e foram embora. Pensaram se seria
conveniente continuar a viagem. Conversa daqui, pondera de lá,
resolveram seguir em frente e no outro dia partiram. Na cidade
seguinte também tudo correu como na anterior e outra vez ninguém o
reconhecera. Estava feliz que nem pinto no lixo e com isso adquiriu
mais confiança, achando que poderia enganar novamente aqueles
otários.
Assim foi por mais
duas cidades, mas a sorte nessa última não foi sua companheira,
pois quando Carequinha estava no meio da derradeira partida um dos
espectadores que acabava de chegar no bilhar o reconheceu. Era um dos
jogadores, daquela redondeza, que tinha sido enrolado por ele e para
provar a todos que também estavam sendo enganados, num gesto rápido
arrancou-lhe a peruca. Na mesma hora todos os presentes o
reconheceram e desta vez Carequinha é que foi traído por sua
vaidade e o olho grande. Levou uma surra tão violenta que foi parar
no pequeno hospital da cidade em estado gravíssimo, ficando
internado dez dias para se recuperar do couro que recebera.
Aconteceu
no Coliseu
Rômulo
o filho mais velho de uma família de tradição católica, era o
único que costumava ler sobre tudo que falasse ou ensinasse sobre
espiritismo. Muitas foram às vezes que se aborreceu por estar lendo
algum desses livros, mas nunca abriu mão de lê-los. Quando
perguntado o porquê dessa obsessão, justificava-se dizendo que era
preciso ter conhecimento de onde vinha ao nascer, e para onde iria
após a morte. Achava que os padres escondiam muita coisa e na sua
opinião era pouco elucidativo o que diziam a respeito desse assunto.
Frequentava a igreja mais porquê seus pais o levavam, todavia sempre
deixava claro que quando fosse maior passaria a frequentar um centro
espírita. A família convivia com essa queda de braço religiosa,
mas no restante gozava de perfeito equilíbrio.
Seus
pais nunca deixaram de viajar durante as férias e lá estavam eles,
José e Maria, traçando planos para as próximas férias da família.
Tinham em mente de que nesta viagem pela Europa passariam apenas dois
dias em Roma. Lá pretendiam visitar dentre outros locais, o Vaticano
e o Coliseu.
Assim
que Rômulo ficou sabendo, ponderou que gostaria de não ir a nenhum
dos dois locais.
José
não entendeu e quis saber por que. Seu filho não titubeou e
respondeu com a convicção de quem sabia o que estava falando:
“Pressinto que se eu entrar em qualquer um desses lugares vou
morrer como nas outras encarnações”.
Seus
pais acharam graça e até interessante tal justificativa para não
viajar. Certos de se tratar apenas de uma imaginação fértil de um
garoto de quinze anos, seus pais continuavam tentando dissuadi-lo de
desistir do passeio, entretanto Rômulo teimava em não querer ir,
porém a insistência foi tanta que conseguiram convencê-lo ao
contrário e ele acabou concordando, todavia deixou claro que só
iria viajar com eles se naqueles dois lugares ele não precisasse
entrar. Ficando então combinado: – Em princípio Rômulo não
precisaria entrar naqueles dois lugares, só se mudasse de ideia e
resolvesse visitá-los por iniciativa própria.
As
férias chegaram e a família partiu para a Europa. Visitaram
Portugal, Espanha e França. Até esse momento tudo ia às mil
maravilhas, porém era chegada a hora de resolver o que fazer, pois
estavam a caminho de Roma e Rômulo continuava irredutível na sua
posição. Estaria com eles em Roma, mas não visitaria aqueles
locais.
Assim
que chegaram à cidade, como eram muito religiosos, procuraram uma
igreja e pediram ajuda ao padre. Este, assim que tomou conhecimento
da dificuldade que estavam enfrentando, conversou longamente com o
menino. Nessa conversa fez ver a ele que aquele seu pressentimento de
que morreria não tinha fundamento, e afiançou de que ele poderia
visitar qualquer um dos locais, que nada, absolutamente nada, iria
acontecer com ele. Tudo não passava da sua imaginação infantil.
Padre Eustáquio se prontificou a acompanhá-los nas visitas se assim
ele se sentisse melhor.
Confiante
na palavra do padre, Rômulo resolveu junto com ele e seus pais
conhecer os locais, e a conselho deste, que começassem pelo
Vaticano, pois lá estaria bem próximo de Deus. Conheceriam a igreja
de São Pedro, a Capela Sistina e com um pouco de sorte ouviriam a
palavra do Papa. No dia seguinte então visitariam o Coliseu e caso
ele ainda achasse necessário à presença do padre Eustáquio, não
teria nenhum problema, pois o mesmo também havia se prontificado em
acompanhá-los. Assim, naquele dia mesmo estiveram no Vaticano
visitando e conhecendo tudo a que tinham direito, e para alegria de
todos nada aconteceu a Rômulo. À tarde passearam em outros pontos
turísticos e a noite combinaram que no dia seguinte todos visitariam
o Coliseu, desde que o padre os acompanhasse.
A
manhã estava tão radiante que até chamou a atenção de padre
Eustáquio, levando-o a comentar com a família.
-
Vamos aproveitar bem. – Falou o padre. – Esse tempo limpo
possibilita mais clareza em visualizar alguns detalhes nos
subterrâneos, principalmente onde ficavam as jaulas dos animais, as
celas em que ficavam os cristãos aguardando a hora de enfrentarem os
gladiadores ou de serem devorados por leões, bem como as galerias de
acesso necessárias aos serviços do anfiteatro.
Rômulo
entrou no Coliseu ao lado de sua mãe. Seu pai e irmãos, do padre
Eustáquio, que como todo bom italiano ia descrevendo o local e
narrando os possíveis acontecimentos do passado. Empolgados com a
visão interna do Coliseu, seus pais e os dois irmãos não notaram a
ausência de Rômulo que ficara para traz parado no meio da arena. Ao
darem falta dele, olharam à volta e o avistaram mais atrás, estava
paralisado. Voltaram na sua direção. A transformação sofrida por
Rômulo deixou a todos preocupados, que sem saber o que estava
acontecendo lhe perguntavam o que ele estava sentindo.
-
Eu não estou sentindo... Estou é vendo uma apresentação com bigas
e gladiadores bem ali, no meio da arena. – Rômulo falava e
apontava para o local onde supunha estar vendo ou realmente via tal
apresentação.
-
O que você diz ver não pode ser possível, pois não está
acontecendo nada, meu filho. Até porquê nem existe mais a arena, só
ruínas. – Padre Eustáquio tentou tranquilizá-lo.
-
Não só é possível, como inclusive vejo varias pessoas
apavoradas... Parecem ser cristãos, os que acabam de entrar na
arena. Padre! Estou me vendo... Sou um dos gladiadores na biga...
-
Tudo não passa de imaginação sua. Melhor, uma fantasia. Vamos
continuar com a visita, que logo isso passa.
-
O que vejo não é uma fantasia, padre, mas sim uma carnificina.
Acabo de me ver degolando um dos coitados... Nossa é um jovem como
eu... O que fiz? – Rômulo estava transtornado.
-
Não diga bobagem, meu filho. Nós vamos é sair daqui, isto não
está lhe fazendo bem. Vamos, rápido, ele está muito agitado. –
Determinou sua mãe.
Nesse
exato momento surgiu do nada um rapaz desconhecido com uma adaga na
mão, e sem que eles esperassem a enfiou nas costa de Rômulo e
fugiu, desaparecendo no meio dos turistas que ali estavam.
-
Avisei que eu não podia entrar aqui, agora é tarde demais... Estou
morrendo...
Com
a antiga arma cravada nas costas, Rômulo, ferido de morte, caiu ao
chão já meio desacordado. Sua mãe desesperada o amparou nos braços
e antes que ele desse o último suspiro pode ouvi-lo consolá-la.
- Não se culpe, eu
já sabia que isso ia acontecer, agradeça ao Padre Eustáquio por
ter me ajudado a cumprir minha missão... Não fosse ele eu teria
fracassado.
Enfado
eterno ou a morte
O
topo de uma montanha, por mais elevado que seja, não existe sem uma
ligação com o solo terrestre. Esta montanha é o Olimpo, um lugar
onde as estações não existem, o tempo não muda e tudo se
transforma num estalar de dedos. É neste lugar que os deuses vivem,
bem nas alturas, mas num lugar que "ainda é terra".
Cercado de muros, sua ligação com o exterior é feito através de
enormes portas; esse espaço habitado pelos deuses é formado por um
conjunto de residências capaz de despertar a inveja a qualquer
mortal.
Na
morada de Zeus também é o local onde se realizam assembleias e
festins, ao passo que as demais casas pertencentes a cada deus só
têm a função de acolher seus proprietários para dormir. Além dos
deuses, no Olimpo, havia uma equipe constituída por simples mortais,
em constante atividade, a disposição deles, o que tornava suas
vidas ainda mais enfadonhas, pois nada precisavam fazer. Já não
tinham mais prazer para nada. Com isso suas vidas estavam se tornando
insuportáveis, a ponto de numa bela manhã, Zeus convocar todos os
deuses para uma reunião, onde pretendia junto a eles encontrar uma
solução para atenuar o tédio existente. Doze, era o total de
deuses convocados e assim que todos chegaram, Zeus deu início à
reunião.
-
Convoquei-os a essa assembleia para juntos tentarmos equacionar nossa
existência. Não é possível mais continuarmos vivendo nesse
marasmo. Nada é impossível para nós, porém estamos cada vez mais
sorumbáticos e taciturnos. Caso almejemos alguma iguaria, basta que
um dedo seja estalado e pronto. O que queremos está a nossos pés,
mas não temos mais prazer no que comemos ou bebemos. O tempo passa e
nós continuamos como não tivéssemos vivido se quer uma semana.
Tudo aqui parece se arrastar num sem fim. Mesmo quando estamos em
festa a falsa alegria e o tédio são nossas companhias. Dessa forma
onde iremos chegar?
-
Zeus, envie Íris numa missão especial até aos humanos. Com certeza
ele nos trará subsídios para resolvermos nossos problemas
existenciais. Eu estou à beira da exaustão. – Sugeriu Hebe, a
deusa da juventude.
-
Quem pode nos garantir isso? Eu também como todos estou precisando,
mas não creio que consigamos alguma solução por lá. – Duvidou
Afrodite, deusa do amor.
-
Tendo ou não garantia temos que tentar. A eternidade não pode
continuar um enfado. – Incentivou Ares, deus da guerra.
-
Mas o que Íris deverá saber? – Perguntou Ártemis, deusa da caça.
-
É simples: basta que ele consiga descobrir o motivo de tanta vida e
alegria entre os humanos. Sabendo isso nós teremos a resposta para
nossos problemas. – Concluiu Atena, deusa da justiça.
Após
diversas ponderações chegaram ao consenso do que Íris deveria
descobrir junto aos humanos a tão buscada solução. Só os deuses
tinham acesso ao mundo, mas lá não se comunicavam com os mortais.
Por isso Zeus ordenou que os portões do Olimpo fossem abertos para
que Íris, o serviçal de comunicação entre os deuses e os mortais,
partisse em sua missão fora dos muros. Após uma semana Íris
retornou ao Olimpo. Todos estavam reunidos e ansiosos para saber o
ele havia descoberto.
-
Então, qual é o segredo de tanto entusiasmo entre eles? Se tudo que
eles têm é através do trabalho árduo. Quando querem aumentar suas
propriedades têm que fazer a guerra e com isso são dizimados em
grandes quantidades. As doenças os consomem e morrem sem a cura. A
maioria é explorada por seus governantes e mesmo assim conseguem ser
alegre. – Quis saber Zeus morrendo de ansiedade.
-
Descobri que eles são possuidores de uma certeza que nós não
temos. - Respondeu Íris, sorrindo.
-
Do que você está falando? – Gritou Possêidon.
-
Que certeza é essa que nos desconhecemos? – Resmungou Dionísio,
tão bêbado que mal podia falar.
-
É verdade. Que certeza eles podem possuir que nós deuses não a
tenhamos? – Protestou Héfesto, soltando fogo para todo lado.
-
A certeza da morte. É isso que os faz viver intensamente seus dias
sem se importar com as adversidades, pois sabem que a vida é curta.
Curtem o que tem, muito ou pouco. Sofrem, mas logo voltam a se
divertir. É por causa dessa certeza que eles são da maneira que
são; – Guerreiros, lutadores, sofredores e explorados, mas alegres
e felizes.
-
Mas nós não podemos morrer. – Lamentou Deméter, a deusa da
fertilidade.
-
E nem, eu quero. Jamais abrirei mão da imortalidade. Desculpem, mas
só de saber já estou me sentindo ótima. Por tanto sugiro que
passemos a nos relacionar com os humanos para nos distrair. –
Recomendou Hera, uma das mulheres de Zeus, a deusa protetora das
mulheres e do casamento.
Desse dia em diante
várias foram às vezes em que os deuses receberam em suas festas os
mortais, no Olimpo, bem como eles os deuses desceram a terra para
tocar e se deixarem tocar pelos mortais.
O
Mestre
Algumas
lembranças me reportam ao passado com mais ou menos intensidade, mas
essa dá a impressão de que tudo ocorreu ontem, mesmo tendo se
passado mais de cinquenta anos.
Assim
constatava Adriano sempre que lhe vinha a mente aquela cena.
Sempre
era formado um alvoroço quando aquele lunático, mas carismático
mendigo, aparecia na porta do colégio. E o colégio não era um
qualquer. Era nada mais nada menos que o tradicional Colégio Pedro
II.
-
Qual o seu nome? – Era a pergunta constante que os estudantes não
cansavam de lhe fazer.
-
O meu nome não é tão importante. O conhecimento sim. – Dizia
quando perguntado e ria meio alienado.
Pela
educação e sua delicada maneira de tratar a todos, a garotada não
se dando por feliz com aquela repetitiva resposta, acabaram
batizando-o de Rosa Branca e comunicaram-lhe a decisão.
-
Isso mesmo, Rosa Branca. Assim iremos chamá-lo doravante.
-
Ótimo, muito bom, gostei do nome. – Respondeu ele. Se isso vai
satisfazê-los, que assim seja então.
Naquela
época, sempre no início do mês lá estava ele, o negro mal
vestido, com cabelos e barba desgrenhados, mas limpo e sem cheirar
mal, fazendo seu lanche na padaria da esquina, pago pelos alunos –
depois é claro de ter tirado todas as suas dúvidas.
Isso
mesmo. Todo mês, ao término de cada prova, a garotada corria ao
encontro dele. Fosse a matéria que fosse lá estava ele a ensinar
como resolver a questão duvidosa. Suas respostas eram sempre
corretas. Nada sabiam a seu respeito, onde vivia ou de onde vinha, a
não ser sua condição de mendigo e as crises de total alienação
pelas quais às vezes passava. Entretanto era inegável que aquele
homem era possuidor de grande conhecimento.
Por
diversas vezes Rosa Branca dedicou um tempo para ensinar algumas
matérias àqueles alunos que ele parecia gostar, tendo inclusive
numa ocasião alertado ao professor que este tinha se enganado ao
ensinar uma fórmula erradamente, impedindo assim que os alunos
conseguissem desenvolver tal raciocínio.
Já
estavam tão acostumados com a presença daquele homem, que
praticamente sempre que ele aparecia cuidavam dele. Ao notar que suas
roupas estavam muito surradas traziam outra para ele se trocar.
Nesse
momento de nostalgia, Adriano recordava os últimos dias daquele
convívio.
Naquele
mês Rosa Branca não apareceu em nenhum dia, nem para o lanche
costumeiro. Sentiram sua ausência.
-
O que terá acontecido? Por onde andará o Rosa? – Era a pergunta
que não calava.
Até
o dia que Arildo, um dos alunos, chegou e os mostrou uma reportagem.
Na terceira página do jornal, bem embaixo e no canto, quase
invisível, estava a foto de Rosa Branca e a triste notícia.
“Reaparece
morto, depois de vários anos desaparecido, o físico brasileiro
radicado na França. Sua morte e a forma como vivia nos últimos
tempos ainda é um mistério para seus familiares e autoridades”.
Dizia
a simples nota e nada mais. Sem se quer seu nome ser mencionado, numa
clara falta de apresso e respeito para com aquele homem.
Revoltados
com a insignificante reportagem, um dos alunos externou alto seu
pensamento.
-
Tenho certeza de que se ele não fosse negro, tudo seria diferente e
a história teria um outro enredo.
Logo
em seguida, um outro complementou.
-
A medir por essa reportagem sem nenhum valor, para eles morreu mais
um simples negro que talvez tenha sido físico por acaso.
Contudo, para
Adriano e, tenho certeza, para seus amigos daquela época, Rosa
Branca será eternamente o Mestre dos Mestres.
Azarado,
mas otimista
Todo
ser humano, invariavelmente, no transcorrer da vida sempre desfruta
de um ou outro momento de azar. Alguns mais otimistas no intuito de
amenizar tal fase, a chamam de falta de sorte. Agora, tê-los todos,
praticamente num mesmo ano, é algo a se pensar o porquê?
Arlindo
Antônio trabalhava há dois anos vendendo cigarros numa grande
empresa desse ramo. Um sujeito calmo e estava sempre pronto para
ajudar aos colegas na arrumação e abastecimento dos veículos para
o dia seguinte, – coisa rara – pois cada um só queria tratar de
si e ir embora para casa descansar. Naquela época, os pacotes de
cigarros eram vendidos e entregues no ato da venda, diferente de
hoje, que o pedido é tirado e a mercadoria entregue posteriormente
como medida de segurança.
Arlindo
costumava dizer, que não pretendia trabalhar a vida inteira como
empregado, e por isso desde cedo todo dinheiro que ganhava procurava
aplicar em ações, entretanto como todo mundo, não pode prever a
maré de azar que começava a instalar-se em sua vida.
Logo
no início do ano teve as primeiras experiências negativas.
Começava
o mês de Janeiro e ele foi transferido para atender os clientes da
favela da Rocinha.
No
segundo dia trabalhando na nova área foi assaltado tendo o carro da
empresa, toda a féria do dia e mais o restante da carga de cigarros,
roubados. Ao dar parte na delegacia, por não ter conseguido
identificar os assaltantes teve a impressão de ser tratado como
cúmplice.
Não
acabou ai, aliás, só estava começando, e seu desespero aumentou no
fim desse mesmo mês, pois o novo carro que trabalhava, pegou fogo
logo na saída da empresa e toda a carga foi perdida novamente.
A
maré de azar que se assolara sobre ele, continuou e para fechar o
mês com chave de ouro, foi demitido. Entretanto uma coisa tinha que
ser reconhecida, Arlindo não era homem de se abater tão facilmente
e o seu otimismo o ajudou a encarar essas adversidades.
Recebera
uma boa indenização e estava resolvido a aplicar grande parte do
dinheiro que ganhou em ações, e o restante deixaria no banco para
atender suas despesas até encontrar um novo trabalho.
Dias
mais tarde, em conversa com Luciano, um amigo que trabalhava na Bolsa
de Valores, foi aconselhado por ele a vender todas as ações que
tinha e reaplicar nas ações de uma nova siderúrgica que estava em
plena expansão. Segundo esse seu amigo essas ações aumentariam
muito nos próximos dias.
Arlindo
não pensou duas vezes. Vendeu rapidamente todas as suas ações, deu
ordem ao amigo para que comprasse as ações da grande empresa e
ficou no aguardo da tal valorização. Durante os três meses
seguintes Arlindo passaria apertado, mas tudo valeria a pena se no
final os lucros compensassem. Entretanto, não durou tanto tempo,
pois depois muito tentar, em Abril, conseguiu o novo emprego e com um
salário bem maior do que o anterior. Pensou: – “Agora tudo vai
se acertar. Poderei comprar minha casa e mais na frente com o
dinheiro das ações vou abrir meu próprio negócio”.
Após
seu período de experiência nesta nova empresa, precisamente em
Julho, Arlindo sentindo-se seguro, comprou o seu apartamento e passou
a sonhar com o dia da mudança. Tinha comprado o imóvel na planta.
As obras só começariam em Novembro e estava prevista a entrega para
o mesmo mês do ano seguinte.
E
deste sonho que passou a viver, foi acordado quando Luciano, seu
amigo da Bolsa de Valores, lhe telefonou informando que a empresa que
ele havia comprado as ações, tinha acabado de pedir concordata. Em
seguida, no mês marcado para o inicio das obras ficou sabendo que a
empreiteira responsável pela construção dos apartamentos, também
havia falido. Ao procurar saber o que a levou a falir, descobriu que
seus proprietários haviam aplicado todo o dinheiro em ações da
mesma empresa que ele, a tal, siderúrgica em expansão.
De
uma só vez, Arlindo viu ruir seu castelo de esperança. Perdeu o
apartamento e todo seu investimento, deixando suas finanças
completamente abaladas.
Desastre
total.
Estava
falido e agora se perguntava. – “Quando é que vai acabar essa
maré de azar”?
Foi
dormir pensando em tudo que acontecera com ele naquele ano. Ao
acordar, como grande otimista que era, planejou; – “Ano que vem
vai ser melhor e começo tudo de novo”.
A
difícil decisão
Ariovaldo,
sempre foi um empregado exemplar naquela indústria, e por diversas
vezes foi eleito por seus companheiros como o funcionário padrão.
Esse destaque, de certa forma, incomodava a alguns menos dedicados e
que queriam subir de posto a qualquer preço. Principalmente o Rui
representante número um desses incompetentes mencionados.
“Preciso
encontrar um jeito de neutralizar esse cara”.
Rui
passava o tempo com essa ideia na cabeça.
Com
esse pensamento, depois de algumas artimanhas conseguira que seu
chefe mudasse Ariovaldo para um setor onde trabalharia mais e tão
cedo não teria outra oportunidade de ser promovido.
Essa
manobra não passou despercebido por Ariovaldo, pois sabendo que de
certa forma incomodava a alguns colegas, viu naquela transferência
de setor o dedo de Rui.
Dias
depois da transferência, Ariovaldo estava no saguão principal e
enquanto esperavam o elevador que os levaria ao refeitório, comentou
com seu amigo.
-
Adão, eu tenho certeza que esta mudança de horário e a
transferência de setor foi arrumado pelo Rui.
-
Por que diz isso? - Adão se fez de desentendido tentando encontrar
um jeito de acalmar seu amigo.
-
É só ver a satisfação dele. Mas ele não perde por esperar.
-
Você está sabendo de alguma mudança aqui na empresa?
-
Não. Só vou dar-lhe o troco mais cedo do que imagina.
-
E o que você vai lucrar com isso?
-
Só em sabê-lo provando do mesmo veneno que me serviu, ficarei
feliz.
Na
tentativa de dissuadi-lo da ideia, Adão com uma ponderação o
incentivou.
-
Se você quer ser feliz por um instante, está no caminho certo. Vá
em frente e vingue-se dele!
-
Você sabe tanto quanto eu, o que ele fez, e ainda o defende?
-
Quem disse que eu o estou defendendo, Ariovaldo?
-
A forma como acabou de falar!
-
Engano seu, eu só estou é lhe alertando.
-
Muito obrigado, mas só descansarei quando vê-lo irritado e passando
pela mesma situação que eu. Aí ficarei feliz.
Adão
tentou sua última cartada na tentativa de acomodar os ânimos.
-
Se quiser realmente ser feliz para sempre como acabaste de dizer,
perdoe-o!
-
Desculpe, mas não tenho tanta certeza dessa sua afirmativa.
Com
essa resposta Ariovaldo entrou rapidamente no elevador, deixando o
amigo do lado de fora. – “Querer que eu perdoe um safado? Adão
só pode estar ficando louco”. – Pensou.
A
porta do elevador estava se fechando, mas Adão ainda conseguiu falar
para que ele ouvisse, antes dele desaparecer.
- Acredite no que
falei. Experimente, nada deixa mais irritado o nosso inimigo do que
se saber perdoado.
Magia
no Natal
Nesta
data não só as crianças se agitam na esperança de ver os
presentes dados pelo velho Noel, mas também a grande maioria dos
adultos.
É
verdade! Deixamos de acreditar no Papai Noel quando descobrimos quem
na verdade nos atende aos pedidos. Entretanto, no fundo no fundo, a
centelha dessa esperança jamais se apaga.
Foi
justamente num desses Natais em que Adonai estava sentado em sua
poltrona próxima a uma lareira, que nem ele mesmo sabia por que
mandara construir, uma vez que o inverno não é tão rigoroso.
Porém, ela estava ali bem a sua frente e, durante seus devaneios,
Adonai adormeceu. De repente escutou o barulho de alguém caindo. Não
acreditando, viu Papai Noel sem o tradicional saco vermelho às
costas saindo da lareira, limpando-se e indo até a mesa onde estava
posta a ceia de natal. Pegou uma garrafa de guaraná e neste momento
Adonai ouviu:
-
Não se assuste, meu rapaz. Estou aqui para atender a um pedido seu.
-
Verdade?
-
Sim, mas tem de ser bem rápido, antes mesmo de eu acabar de beber
essa coca cola
Adonai,
vendo que ele tinha se enganado, corrigiu.
-
Não é coca cola, Papai Noel. É guaraná.
Nesse
curto espaço de tempo, Papai Noel terminou de tomar o refrigerante e
foi desaparecendo. Adonai ainda pôde ouvir:
- Eu disse para ser
bem rápido, meu rapaz! Ôh! Ôh! Ôh!
O
sermão
-
O portal do inferno está aberto.
Assim
começou a pregação do jovem padre. Ele havia sido convidado
especialmente para realizar a missa daquele domingo no acampamento de
retiro espiritual. Leonardo, este era o seu nome. Ao terminar aquela
frase fez uma pausa como que a sentir a reação dos presentes sobre
o que acabava de dizer. Continuou:
-
Por este portal, qualquer um que não esteja atento ou pense ser
esperto, pode passar. Bastando para isso se comprometer com o senhor
das trevas, também conhecido como “encardido”. Aliar-se a ele é
ter a certeza de que o terá esperando pessoalmente na porta
principal. Portanto passem a largo desta estrada.
A
grande maioria das pessoas presentes estavam ali para reavaliar seus
conceitos e sabiam a quem e o que o padre se referia.
-
O portal do inferno está aberto. – Mais uma vez frisou o padre e
fez pequena pausa.
“Lá
vem ele com a mesma frase. Onde esse padre quer chegar”. Pensou
Júlio, o organizador responsável por aquele encontro.
-
É de lá que são enviadas as bestas-feras para que invadam o mundo
com suas asas gigantes a espalhar sementes infectadas por todo lado,
verdadeiros passaportes de comprometimento. É certeira a intenção
de alcançar aos homens e seduzi-los com suas facilidades. “Cuidado”!
Qualquer
um, dos que ali estavam, percebia que ele não só explicava como
também deixava um pequeno alerta. Nesta, teve o cuidado de perguntar
aos ouvintes.
-
E que sementes são essas?
Ao
fazer a pergunta os observava sempre atento e por alguns instantes
aguardava alguma manifestação, embora sabendo ser sua pregação um
monólogo. Sabia que na verdade todos queriam a resposta e ele mesmo
respondia.
-
Meus irmãos toda semente plantada, que nos leva a cobiçar o fácil,
que induz a levar vantagem sobre o inocente, que nos permite através
de falcatruas viver nababescamente ou nos promete o reino da glória
simplesmente por termos doado quantias em dinheiro para essa ou
aquela instituição, está infectada pelo “encardido”.
“Afastem-se”.
Para
muitos essas afirmações complicavam suas cabeças, mas confiavam e
procuravam entender o que ele dizia. Entretanto, uma dessas carapuças
serviu como uma luva para Júlio. Ele havia superfaturado a montagem
do local.
-
O portal do inferno está aberto. – Voltou a se repetir o padre.
Intrigante
o que esse padre estava falando. Por que razão ele insiste nesse
tema? Alguns se perguntavam.
-
De lá também saem, tão perigosos quanto àqueles que já
mencionei, os anjos decaídos para semearem o horror. Mostram-se
amigos usam da gentileza com maestria, mas na verdade, são eles os
verdadeiros responsáveis pelas guerras e os cultivadores da
desordem. É com macabra autoridade que mantêm a todos sob a dor e
vivem responsabilizando o diabo por tudo de ruim que acontece. Quando
na verdade são eles os próprios “encardidos”. “Saibam
distinguir”.
Aquele
domingo parecia especial. Cada vez mais, os fiéis iam se acostumando
com o padre Leonardo e prestavam atenção no que ele resolvera
falar.
-
O portal do inferno está aberto.
Outra
vez a mesma frase. Está parecendo um disco aranhado. Era esse o
pensamento do organizador que de religião não entendia nada, mas de
safadeza era especialista.
-
Todo aquele que esquece que o amor é uma das razões de viver tem a
noite fria e sombria a alimentar sua alma. Com isso, sem saber,
alimenta as chamas do inferno contribuindo cada vez mais para manter
sua fortaleza viva e implacável. “Estejam alerta”.
Era
horripilante tal afirmativa. Muitos se sentiam culpados, afinal quem
já não esqueceu alguma vez o uso do amor.
-
O portal do inferno está aberto.
Padre
Leonardo não se cansa de alertar em sua pregação.
-
Todos nós sabemos que, vira e mexe passamos bem rente a sua entrada
e invariavelmente nos chamuscamos. Entretanto feliz é aquele que
mesmo tendo sido chamuscado consegue se desvencilhar das “bestas”
e dos “anjos” que semearam facilidades e venderam o poder nesta
vida. “Deem-lhes as costas e digam-lhes não, a suas tentações”.
De novo fez silêncio.
Nesse
momento os fiéis pensaram que o padre encerraria sua pregação.
-
O portal do inferno está aberto.
Enganaram-se.
Mais uma vez ele fez questão de lembrar sobre o portal e continuou
falando mais inflamado que antes.
-
Portanto é responsabilidade constante de cada um fechar esse portal.
Devolvam o que ganharam ilicitamente. Semeie o amor, o perdão e a
caridade a todos sem exceção. Mesmo àqueles que acabo de mencionar
como sendo os grandes responsáveis em induzir-nos ao desvio do pai,
pois quanto menos corações estiverem comprometidos com as falsas
facilidades e com a ilusão do poder, mais enfraquecidas e mornas
estarão as chamas do “encardido”. Sei o quanto é difícil, mas
não se intimidem. “Tentem”.
Padre
Leonardo, do alto daquele palco altar improvisado no acampamento
religioso, olhou atentamente para a multidão que acabara de
escutá-lo pregar. Júlio que estava sentado logo a frente teve a
sensação de que o olhar o queimava. Foram apenas alguns segundos,
mas que pareceu para muitos uma eternidade, tal a intensidade do seu
olhar. Ao término dessa pausa expressou seu desejo e deixou uma
pergunta acompanhada de um conselho, tudo bem mais profundo e
intrigante do que a sua pregação.
-
Espero que todos tenham entendido meu alerta e que saibam a quem
realmente devam seguir, se a Jesus, verdadeiro guardião das coisas
divinas, ou ao “encardido”, semeador da iniquidade. Mas não
procurem o Cristo pelo simples fato de terem medo do encardido.
Procurem-no sim, pelo fato de ser o divino melhor para suas vidas, do
que a iniquidade.
Terminado
o sermão o padre retirou-se do palco e dirigiu-se aos aposentos a
ele reservado naquela colonia espiritual de retiro. O jovem padre era
atraente, simpático e chamava atenção pelo o corpo atlético que
tinha. Estava só de calça quando de repente a porta do quarto se
abriu. Era Magda, a secretária de Júlio o organizador do evento,
que ao se deparar com aquela visão de um Apolo fraquejou.
-
Padre Leonardo! Nossa... Se a mulherada soubesse o que essa batina
esconde debaixo dela, o senhor não teria sossego.
-
Será mesmo, minha filha?
-
Ainda bem que o senhor é padre... Eu mesma quase não estou
resistindo, e olha que sou casada.
-
Que ótimo!
-
Por que ótimo padre?
-
Porque assim não precisamos perder tempo.
Dito
isso caminhou em sua direção e como sentiu que não haveria nenhuma
resistência, agarrou-a. Praticamente nus foram bruscamente
interrompidos aos gritos por Júlio:
-
E o portal do inferno está aberto, não é padre?
Desigualdades
Constantino
trabalhava para um órgão do governo cuja responsabilidade era medir
o comportamento e a evolução social. Sociólogo convicto e
dedicado, não fazia outra coisa em sua vida que não fosse
acompanhar e analisar a espécie humana. Trabalhava tanto que muita
das vezes esquecia até da própria família, o que de certa forma
não deixava de ser incoerente, pois contrariava a natureza de
qualquer funcionário público, que na prática é, trabalhar o menos
possível.
Mudara-se
há vinte e três anos para um local extremamente acolhedor e
agradável e onde costumava garantir para os amigos sem medo de
errar, que a vista a sua volta era o que existia de melhor em toda a
região. Sua nova residência em um condomínio recentemente
construído era de classe média alta e localizava-se entre outros
dois condomínios de luxo, mas estava também, próximo há uma
pequena comunidade carente. Sendo daí obviamente a origem da mão de
obra utilizada para a execução dos serviços de jardinagem,
limpeza, manutenção e domésticos.
Para
Constantino não podia ter sido melhor a mudança para aquele local.
Tinha a seu alcance e dispor um verdadeiro seleiro de informação e
referência de várias classes sociais, do mais rico ao mais
miserável. Passando a conviver de perto com a prepotência e a
falsidade humana muito mais frequente que o de costume, pois agora
não precisava mais se deslocar para realizar seus estudos e executar
seu trabalho, uma vez que tinha todo o material latente e vivo a sua
volta.
Não
perdia um dado se quer para suas anotações, pois era sua intenção
escrever um livro e tornar públicas suas experiências. Após tantos
anos vivendo o cotidiano daquelas famílias de dentro e fora do
condomínio, fizera tantas constatações, que agora tinha dados
suficiente para o seu livro, entretanto carregava uma dúvida pessoal
e se perguntava constantemente como fazê-lo.
Constantino
resolveu ignorar suas dúvidas e ao invés de escrever o livro com um
parecer definitivo e clássico, colocou suas experiências em
pequenos contos para que cada leitor tirasse as próprias conclusões
e foi justamente um desses moradores da periferia que usou como
exemplo para abrir sua sequencia experimental.
Pingo
é o apelido que identifica José, um dos “faz tudo” do lugar e
que não dispensa nenhum biscate quando requisitado, aliás, quando
não os tem se oferece para fazer qualquer trabalho e por qualquer
quantia. Um homem humilde, extremamente pobre e sem instrução, vive
com Maria sua mulher e os filhos pequenos em uma casa simples. Por
esta razão é praticamente escravizado pelos pretensos ricos que
vivem no condomínio.
Ganhando
muito pouco devido à exploração por parte dos que lhe contratavam
para os trabalhos de jardinagem, pintura ou limpeza e também a falta
de uma regularidade nesses serviços, grande parte do mês Pingo
ficava sem ganhar até mesmo aquele pouco dinheiro e com isso
comprometia o sustento da família fazendo com que muitas vezes ele
deixasse de comer em casa para que sua mulher e filhos o fizessem.
Assim dessa forma ia vivendo os dias, os meses e os anos sem ver ou
ter alguma perspectiva de melhora. Sem perceber aos poucos estava se
destruindo.
Por
diversas vezes Pingo passou a ser visto tomando uma cachacinha no pé
sujo do Pai Zé, era a forma que encontrara para repor as calorias de
que necessitava uma vez que não se alimentava, mas sua ignorância o
impedia de ver que fazendo uso desse artifício estava entrando num
caminho sem volta, o do vício.
Após
alguns anos dessa prática e sem se dar conta, tornara-se alcoólatra.
A
partir daí a vida passou a bater-lhe com mais severidade, pois a
idade veio chegando e devido ao constante estado de embriagues, quase
ninguém o chamava para executar algum tipo de serviço. O mais
triste e revoltante é que aquela mesma família que por tanto tempo
ele se sacrificou, agora o abandonara a própria sorte que nunca foi
muita, diga-se de passagem, colocando-o para fora de casa. Desde
então Pingo é visto, por aqueles que outrora o explorara, jogado na
sarjeta esperando que a morte o ampare.
Devido
a isso, Constantino quando se dava conta estava a questionar-se: - “A
humanidade estava realmente evoluindo ou simplesmente estagnara presa
a falsos conceitos e a suas mesquinharias? Que mundo será este em
que vivemos? Quem nos ensinou a olhar e não ver? A ouvir, mas não
escutar? Quantos sacrificados como o ‘José’ serão necessários
para que a sociedade dominante entenda que tratar com respeito e dar
oportunidade de uma vida digna a todos os semelhantes é uma
obrigação e não um favor.”
O
Roubo
As
joias da loura sumiram!
Quem
as terá roubado?
O
filho adotivo de sua irmã mais velha, chamado Antônio, foi logo
acusado por ser um moreno trigueiro.
Henrique,
outro irmão da loura, sentindo no ar o preconceito saiu em defesa do
sobrinho postiço. Além disso tinha certeza de que o rapaz não
teria realizado tal ato.
O
constrangimento era geral pois a loura insistia a todo custo em
culpar Antônio. Baseava-se na informação de uma cartomante que
afirmara que o ladrão era uma pessoa de pele morena.
Só
que ele não era o único moreno na família e isso piorou ainda mais
a confusão e a dúvida.
Os
nervos andavam à flor da pele.
Até
de esquizofrênico, Antônio foi taxado pela loura.
Mais
tarde descobriram:
Manoel,
o marido da loura, também moreno, havia empenhado as joias para
pagar dívidas de jogo.
Meu
Amigo Morreu
Hoje
perdi a hora e acordei mais tarde. Não é costume isso acontecer,
ainda mais que eu nem tinha escrito até tarde. Ultimamente estava
usando menos o computador para ver se ele aguentava um pouco mais as
minhas investidas.
Levantei
rapidamente, mas logo fui avisado da morte do meu velho amigo. Tomei
meu café pensando em como aquilo poderia ter acontecido, logo agora
que eu estava cheio de ideias e certamente iria compartilhar com ele.
Fui
para sala triste e sentei-me pensativo no sofá. Dali podia
imaginá-lo melhor. Inerte e sem sinal de vida.
Ainda
sentado ao sofá lembrei do dia em que o conheci. Foi amizade a
primeira vista e a sua presença aqui em casa logicamente foi
inevitável. Todos aqui se davam muito bem com ele. Impressionante
era a sua presteza, não havia nada que o perguntássemos que ele de
bom grado, não respondia. Mas agora estava morto e tinha que me
acostumar com o acontecimento, afinal um dia todos nós temos mesmo
que fazer a viagem de volta, e ele não seria diferente de ninguém.
Tomei
uma decisão e levantei-me do sofá. Falei para minha mulher que iria
sair para espairecer, sabia que saindo, tudo ficaria mais fácil.
Lembrei do velho, mas acertado ditado, “Rei morto, Rei posto” e
assim fiz.
Lá
estava eu passeando pelo shopping, as vitrines eram convidativas, até
o mais contido dos mortais não resistia a tentação e deixava-se
morder pelo consumismo, e olha, dizem que estamos no meio de uma
grande crise.
Até
eu fui mordido por esse bichinho. Quando dei por mim estava dentro
daquela loja toda iluminada, clara até demais, para que pudéssemos
ser atraído por tantas novidades. Confesso que ao ver aquele garotão
cheio de vida e energia não resisti. Outra vez me apaixonei. Chamei
o vendedor e perguntei se tinha algum para pronta entrega. Nem
questionei o preço. Em poucos instantes já estava voltando para
casa, alegre como um menino que acaba de ganhar seu primeiro
brinquedo.
Entrei
em casa e encontrei o mesmo clima triste que deixei, mas quando me
viram com aquela enorme caixa, logo estavam a sua volta querendo
abri-la. Ao vê-lo então, ficaram loucos. Daí para experimentar o
novo, foi só um pulo.
Como pensei: - Rei
morto, Rei posto. Pronto, ninguém mais se lembrava do velho e grande
amigo que acabara de morrer, o computador da família. Agora já
poderíamos voltar a escrever e a nos comunicar com o mundo.
Alegria
Os
serviçais andavam com os nervos a flor da pele. Eram tantas as
cobranças e os trabalhos que praticamente trabalhavam as vinte
quatro horas do dia, tendo pouquíssimo tempo para descansar e se
distraírem.
Tristeza
geral.
Mas
nem tudo é eterno e um belo dia o rei resolveu viajar levando
consigo quase toda a corte. Com a inesperada viagem a felicidade
reinava entre eles nos últimos dias.
Naquela
noite por volta das três da madrugada ouviram um grito ecoar pelo
castelo.
-
Frederico... Onde está o meu pinico azulado?
Parecia
até mal assombrado. Não o castelo, mas sim o grito. Todos acordaram
sobressaltados. Era bem rouca a voz e a maioria dos serviçais, ainda
sonolentos, pensaram ser do Damião, o bobo da corte, imitando o
monarca que estava viajando, para sacanear seu amigo Frederico, o
camareiro de Sua Majestade.
Outro
grito também ecoou no castelo.
-
Joguei no telhado, seu nanico safado...
Mais
alto que o primeiro e tão rouco quanto. Era o próprio Frederico
tentando arremedar o Rei. Gargalhada geral ecoando por todo o
castelo. Nada mais foi ouvido, o silêncio voltou a reinar e todos
voltaram a dormir.
Na
manhã seguinte foram surpreendidos com a notícia de que o rei havia
voltado da viagem naquela madrugada. Pânico instalado. Teria sido do
rei aquele grito. Era o pensamento no ar.
O
rei mandou reunir todos os serviçais e levá-los a sua presença no
grande salão, e lá novamente ouviram o grito.
-
Frederico... Onde está o meu pinico azulado? - Desta vez pareceu
mais irritado ainda.
Silêncio
total. Podia ser ouvido o barulho de uma pena caindo ao chão.
Novamente outro grito foi ouvido.
-
Joguei no telhado, seu nanico safado...
Era
Damião, o bobo da corte, que saltitando entre os presentes imitava o
monarca na tentativa de salvar o seu amigo Frederico. Gargalhada
geral.
Nem mesmo o rei
resistiu.
Alegria total.
História
de vendedor
Por
volta do final dos anos 70, Júlio, vendedor de uma multinacional de
renome, era trazido sempre à distância e com ressalvas por todos os
compradores dos atacados da cidade de Muriaé. Sua fama de atochador
era conhecida por todos. Daí tal precaução.
Devido
a isso sempre tinha grande dificuldade em atingir os objetivos que
sua empresa lhe impunha. Um belo dia resolveu se vingar de Aniceto, o
comprador que havia espalhado como ele havia lhe atochado de
mercadorias, causando-lhe assim a fama. Aproveitou que seu amigo
Antônio fora cobrir aquela área e combinou com ele os detalhes da
vingança.
-
Tenha sempre em mente, o Aniceto adora sentir que está levando
vantagem na negociação. Esse é seu ponto fraco. – Júlio
alertava seu amigo Antônio de como ele poderia também atochar o seu
desafeto.
Antônio
representava a mesma empresa, só que na divisão das canetas
esferográficas Inka Pen, não tão conhecida e famosa quanto a Bic,
mas que pretendia tomar uma parte daquele mercado.
Para
tanto, naquele mês a empresa fez uma campanha promocional onde daria
um carro ao vendedor do atacado que mais vendesse sua caneta e outro
ao comprador. Baseado em tudo que o Júlio havia lhe dito e calçado
com a promoção, Antônio conseguiu vender para o atacado onde
Aniceto era o comprador, 20.000 caixas das suas canetas. Dez vezes o
que este comprava da concorrente.
Poucos
vendedores conseguiram vender as tais canetas, e as que foram
vendidas, logo foram devolvidas, pois não escreviam de tão
ressecadas que estavam. Ninguém ganhou o tão sonhado carro.
Dois
anos mais tarde as canetas continuavam no estoque, ressecadas e
imprestáveis para venda e Aniceto amargando a dor de mais uma
atochada e a perda do carro para o dono do atacado, como forma de
indenização pela compra mal feita.
Com
isso, Júlio aproveitou para saciar sua sede de vingança e num
almoço de confraternização entre fornecedores e compradores da
região, espetou Aniceto.
- Então? Quem é o
mais atochador eu ou Tonico?
O
campo de batalha
Imaginei que aquela
provavelmente seria a noite prometida, mas não tinha como evita-la.
Tudo indicava que
seria a batalha mais sanguinolenta de todos os tempos. E foi.
Os inimigos ferozes
e sorrateiros avançavam palmo a palmo no campo de batalha e parecia
que sairiam vencedores daquela luta corpo a corpo.
Não dava para
pregar olhos, pois suas investidas eram frequentes e o calor também
contribuía para continuar meio acordado, meio sonolento. Entretanto,
não imaginaram que mesmo sendo ágeis, praticamente silenciosos e
tendo a vantagem da escuridão acabariam sofrendo algumas baixas e
teriam que recuar para só voltar a atacar em uma outra ocasião,
talvez num momento em que seu opositor estivesse mais cansado e
desprevenido já que a luta fora longa e desgastante.
Amanhecera e lá
estavam os corpos dos que não conseguiram fugir, desfigurados,
espalhados pelo cenário da guerra. Em vários pontos ainda podia ser
visto poças de sangue, o que confirmava a ferocidade do combate.
Agradeci a Deus por
ainda estar vivo e saudável, mas a vida continua.
Troquei o lençol da
cama e parti para o trabalho com as marcas no corpo da luta travada
contra os pernilongos.
Um
acontecimento festivo (cigarros de todos os tempos)
Logo
após Le Grand torneio Universal de Golf cujo
TROFÉU era um buque de flor de LOTUS, o príncipe da
Inglaterra PHILLIP MORRIS resolveu dar uma recepção em seu palácio
MONROE, para comemorar o nascimento dos filhos gêmeos KINSTON e
WINSTON, para isso teve que enviar muitos CARLTON de convite. Não
queria que nenhum LORD faltasse a sua festa.
O
PARLIAMENT e o poder judiciário estavam presentes à festa. Na hora
marcada, os convidados foram chegando. Um dos primeiros a chegar, num
GALAXY, foi o CHANCELLER do HAWAI e o CONSUL de SARATOGA acompanhado
de sua esposa, mulher de muito CHARM, ex atriz de HOLLYWOOD. Saltava
aos olhos que os dois ainda eram REVAL, como os lendários RINGO e
ROI Roger.
O
bispo convidado para o evento deu BENSON HEDGES às crianças e rezou
a SAINT MORITZ que as protegesse das bruxas SALEM e YOLANDA, que
viviam na longínqua NEGRITOS, cidade do interior da ASPÁSIA.
ASCOTT,
proprietário do banquete contratado, mandou LUKE STRIKE servir CAMEL
assado e muito wisky escocês. Tudo ia correndo bem, quando NEUZA e
ADELPHY no auge do FULGOR, efóricos e descontraídos, começaram a
dar grandes alterações.
O
1º MINISTER, que comeu demais, deu um auto ROTHMANS à mesa, do tipo
BIG-BEN. Ao constatar o susto dos presentes se encolheu todo
envergonhado, o que fez todos RIALTO.
A
consulesa, recém chegada da ilha de CAPRI, muito louca de pileque,
tirou os sapatos LUÍS XV e se pôs a dançar sozinha no salão
entoando acordes LÍRICOS. Sua sorte é que naquela altura ao ser
agarrada por ASHFORD, que estava tão bêbado quanto ELLA, sentindo o
seu PALL MALL não foi preciso pedir a intervenção do segurança
MENPHIS.
Seu
esposo, por sua vez contava seus feitos heroicos realizados em uma
caçada lá no KENT deserto do ARIZONA, para o embaixador da
MACEDONIA, onde teve a oportunidade de atirar com seu rifle
CHESTERFILD lá de cima do BELMONT.
Contrariando
a consulesa, NIKKI pediu que fosse tocado um CALYPSO para alegrar o
PREMIER LENNON. Com esse pedido o YANK DUNHILL baixinho.
O
1º MINISTER, já recuperado e FREE do vexame, entrou na PLAZA onde
eles conversavam, e como gosta de aparecer também começou a contar
sua ASTÓRIA:
-
Ah! Eu costumo escalar. Em dezembro passado escalei o monte... Ué!
Tive um EPSON de memória! Não sei se foi no MONT BLANC ou
MONTERREY.
Num
canto do salão o CHANCELLER teimava com o general L&M em altos
brados:
-
Eu não sou um PALERMO! Tenho certeza de que abasteci meu MUSTANG no
posto COLÚMBIA.
-
Não foi. Eu estava com você, não se lembra? Foi no SHELTON,
aquele da rede DALAS!
E
daí partiram para ofensas. O CHANCELLER irado deu um ADVANCE para
cima do general. Esse por sua vez, respondeu com um CRUZADO em sua
cabeça. Pronto estava formada a confusão no PALACE. Todos tentavam
desapartar, mas eles estavam BRAVOS e a MISTURA FINA acabava de se
desfazer. YES, parecia que os aborrecimentos eram DEFINITIVOS.
O
general, todo amarrotado, virou-se para o príncipe e disse:
-
Vou MALBORO daqui! Em PARIS isso não aconteceria, nem se o FLAMENGO
fosse lá jogar. Se resolver ir no FORRÓ do DERBY clube estarei no
hotel HILTON, mas cuidado ao passar pelo LARK PULLMAM, ali no PORTO
de ESTORIL anda acontecendo coisas que há muito não se vê.
E
saiu batendo CONTINENTAL para o oficial RITZ, membro do COMMANDER
maior, que estava ao lado totalmente distraído planejando o CRUZEIRO
que faria a BELÉM.
Nesse
mesmo instante chegava a festa no seu COROLLA o SHEIK MISTRAL e sua
esposa DIANA. Todos estranharam pois ele estava armado com um SABRE e
trazia debaixo do braço seu ELMO. GARAM, o duque de WINDSOR, para
aliviar a tensão aproximou-se e perguntou:
-
TUFUMA? Tenho OLÉ ou TIVOLI?
Suspense
total.
-
Nenhum dos dois. Eu fumo TOP TEN algum problema nisso? Não dou um
DOLLAR furado a quem protestar, mesmo que o COW BOY esteja fazendo
SUSSEX e no auge da FAMA.
-
Calma aí! Vamos fazer uma ALLIANCE de GIANTS e não se fala mais
nisso.
Toda
essa história daria um belo ROMANCE.
Havia
já completa tranquilidade, quando de repente ouviu-se um grito. Era
o 1º MINISTER que voltava do Cassino ROYALE deixando lá CALVERT,
BLACK de raiva, pois perdia uma fortuna:
-
Embaixador! Me WEMBLEY, me WEMBLEY! Não escalei monte algum no
dezembro passado, meu AMIGO! Participei de uma expedição
exploradora a VILA RICA!
Enquanto
isso, na biblioteca de VANGUARD do PALACE, se encontravam conversando
a princesa de BEVERLY e a calorenta duquesa YUMA, que agitava seu
ALBANY, para aliviar o calor. A princesa mostrava vaidosa seus
quadros surrealistas, comprados no CAIRO, que BILL pintara as margens
do NILO.
-
Que maravilha! São lindos DUMAURRIER. Meu esposo MARK TEN quadros
CLÁSSICOS na nossa sala de musica. Menina, eles custaram uma
FORTUNA! A sorte é que na época nos tínhamos o cartão VISA.
A
culminância da festa deu-se em PAQUETÁ por ordem IMPERIAL. O REI V
levou todos os convidados do príncipe no iate AXIS, RIVER abaixo e
lá chegando, houve um inesquecível banho de mar ao som de um PAGODE
bem BACANA e regado a KAISER. Todos gritavam BIS parecia até que
estavam assistindo a um espetáculo na BROADWAY.
Autora – Lenita.
(fumante quase assassinada pelo cigarro... Rsss) com alguns pitacos
meus.
Escrito em 1972
Atualizado em 1993
Atualizado novamente
em 2005
****
Terroristas
no Rio de Janeiro
Documentos
mantidos em sigilo pela Polícia Federal do Brasil revelam que a Al
Qaeda, ordenou a execução de um atentado no Brasil. O alvo da ação
seria a estátua do Cristo Redentor, um dos símbolos mais conhecidos
no Rio de Janeiro e do Mundo. A organização destacou dois
mujahedins para o sequestro de um avião que seria lançado contra a
"estátua símbolo dos infiéis cristãos".
Os registros da Polícia Federal dão conta de que os dois terroristas vestidos de preto e branco chegaram ao Rio no domingo, 5 de setembro, às 21h47m, num voo da Air France.
Os registros da Polícia Federal dão conta de que os dois terroristas vestidos de preto e branco chegaram ao Rio no domingo, 5 de setembro, às 21h47m, num voo da Air France.
A
missão começou a sofrer embaraços já no desembarque, quando a
bagagem dos muçulmanos foi extraviada, seguindo num voo para o
Paraguai.
Após quase seis horas de peregrinação por diversos guichês e dificuldade de comunicação em virtude do inglês ruim, os dois saem do aeroporto, aconselhados por funcionários da Infraero a voltar no dia seguinte, com um intérprete.
Já na madrugada de segunda feira, os dois terroristas apanharam um táxi pirata na saída do aeroporto, sendo que o motorista percebendo que eram estrangeiros rodou com eles mais de duas horas dando voltas pela cidade, até abandoná-los em um lugar ermo da Baixada Fluminense. Sendo que no trajeto, ele parou o carro e três cúmplices os assaltaram, espancaram e os estupraram, pois acharam que eles os estavam xingando naquela língua complicada.
Contudo, eles conseguiram ficar com alguns dólares que tinham escondido em cintos próprios para transportar dinheiro. Ali pegaram carona num caminhão que ia começar a entregar gás, mas também não tiveram sorte, pois o motorista achando que seria assaltado os entregou para o pessoal da milícia da zona oeste, lá em Campo Grande, que sem dó nem piedade deram outra coça neles. Por volta das 8h33m, graças ao treinamento de guerrilha no Afeganistão, os dois terroristas conseguem chegar a um hotel barato na Lapa. Muito sujos, rasgados e com fome são obrigados a deixar um depósito como garantia.
Após quase seis horas de peregrinação por diversos guichês e dificuldade de comunicação em virtude do inglês ruim, os dois saem do aeroporto, aconselhados por funcionários da Infraero a voltar no dia seguinte, com um intérprete.
Já na madrugada de segunda feira, os dois terroristas apanharam um táxi pirata na saída do aeroporto, sendo que o motorista percebendo que eram estrangeiros rodou com eles mais de duas horas dando voltas pela cidade, até abandoná-los em um lugar ermo da Baixada Fluminense. Sendo que no trajeto, ele parou o carro e três cúmplices os assaltaram, espancaram e os estupraram, pois acharam que eles os estavam xingando naquela língua complicada.
Contudo, eles conseguiram ficar com alguns dólares que tinham escondido em cintos próprios para transportar dinheiro. Ali pegaram carona num caminhão que ia começar a entregar gás, mas também não tiveram sorte, pois o motorista achando que seria assaltado os entregou para o pessoal da milícia da zona oeste, lá em Campo Grande, que sem dó nem piedade deram outra coça neles. Por volta das 8h33m, graças ao treinamento de guerrilha no Afeganistão, os dois terroristas conseguem chegar a um hotel barato na Lapa. Muito sujos, rasgados e com fome são obrigados a deixar um depósito como garantia.
Mais
tarde, alugaram então um carro e voltaram ao aeroporto, determinados
a sequestrar logo um avião e jogá-lo bem no meio do Cristo
Redentor. No caminho, enfrentam um congestionamento monstro por causa
de uma manifestação de estudantes e professores em greve - e
ficaram três horas parados na Avenida Brasil, altura de Manguinhos,
onde seus relógios e os tênis são roubados em um arrastão.
Às 12h30m, resolvem ir para o centro da cidade e procuram uma casa de câmbio para trocar o pouco que sobrou de dólares. Recebem algumas notas de R$ 100 falsas, dessas que são feitas grosseiramente a partir de notas de R$ 1, no meio das verdadeiras. Assim que saíram do estabelecimento estavam indo em direção ao estacionamento onde deixaram o carro alugado quando um bueiro da Light explode e um deles tem o tímpano arrebentado de um dos ouvidos ficando surdo na hora e o outro com a pancada na cabeça perde parte da memória.
Por fim, às 15h45m chegam de volta ao Tom Jobim para sequestrar um avião. Os pilotos da VARIG estão em greve por melhor salário e menos trabalho. Os controladores de voo também pararam (querem equiparação com os pilotos). O único avião na pista é da Transbrasil, mas está sem combustível por falta de pagamento.
Aeroviários e passageiros estão acantonados no saguão do aeroporto, tocando pagode e gritando slogans contra o governo. Uma baderna generalizada que eles não conseguiam entender o motivo. O Batalhão de Choque da PM para impor a ordem chega batendo em todos, inclusive nos terroristas.
Presos, os árabes são conduzidos à delegacia da Polícia Federal no Aeroporto, acusados de tráfico de drogas e lideres do movimento. Tiveram plantados papelotes de cocaína e maconha nos seus bolsos.
Às 18 horas, aproveitando o resgate de presos feito por um esquadrão de bandidos do Comando Vermelho, eles conseguem fugir da delegacia em meio à confusão e ao tiroteio, mas na fuga são pegos pelos mesmos bandidos que achando serem eles membros do Terceiro Comando os torturam durante meia hora e por não entenderem o que diziam acabaram arrancando-lhes todas as unhas das mãos e dos pés.
Às 19h05m, os muçulmanos, ainda ensanguentados com as mãos trêmulas e mau podendo caminhar, se dirigem ao balcão da VASP para comprar as passagens. Mas o funcionário que lhes vende os bilhetes omite a informação de que os voos da companhia estão suspensos por tempo indeterminado.
Eles, então, discutem entre si:
Às 12h30m, resolvem ir para o centro da cidade e procuram uma casa de câmbio para trocar o pouco que sobrou de dólares. Recebem algumas notas de R$ 100 falsas, dessas que são feitas grosseiramente a partir de notas de R$ 1, no meio das verdadeiras. Assim que saíram do estabelecimento estavam indo em direção ao estacionamento onde deixaram o carro alugado quando um bueiro da Light explode e um deles tem o tímpano arrebentado de um dos ouvidos ficando surdo na hora e o outro com a pancada na cabeça perde parte da memória.
Por fim, às 15h45m chegam de volta ao Tom Jobim para sequestrar um avião. Os pilotos da VARIG estão em greve por melhor salário e menos trabalho. Os controladores de voo também pararam (querem equiparação com os pilotos). O único avião na pista é da Transbrasil, mas está sem combustível por falta de pagamento.
Aeroviários e passageiros estão acantonados no saguão do aeroporto, tocando pagode e gritando slogans contra o governo. Uma baderna generalizada que eles não conseguiam entender o motivo. O Batalhão de Choque da PM para impor a ordem chega batendo em todos, inclusive nos terroristas.
Presos, os árabes são conduzidos à delegacia da Polícia Federal no Aeroporto, acusados de tráfico de drogas e lideres do movimento. Tiveram plantados papelotes de cocaína e maconha nos seus bolsos.
Às 18 horas, aproveitando o resgate de presos feito por um esquadrão de bandidos do Comando Vermelho, eles conseguem fugir da delegacia em meio à confusão e ao tiroteio, mas na fuga são pegos pelos mesmos bandidos que achando serem eles membros do Terceiro Comando os torturam durante meia hora e por não entenderem o que diziam acabaram arrancando-lhes todas as unhas das mãos e dos pés.
Às 19h05m, os muçulmanos, ainda ensanguentados com as mãos trêmulas e mau podendo caminhar, se dirigem ao balcão da VASP para comprar as passagens. Mas o funcionário que lhes vende os bilhetes omite a informação de que os voos da companhia estão suspensos por tempo indeterminado.
Eles, então, discutem entre si:
Que
lugar é esse e o que nós estamos fazendo aqui? - Perguntou o
terrorista que estava meio sem memória.
Repete
novamente desse lado que eu não escutei nada. - Pediu o outro que
acabara de ficar surdo do ouvido direito.
Depois
de muita conversa e se entenderem, começam a ficar em dúvida se
destruir a imagem no Rio de Janeiro, no fim das contas, é um ato
terrorista ou uma obra de caridade.
Às 23h30m, depois de muito esperar e nada do voo sair, sujos, doloridos e mortos de fome, decidem comer alguma coisa no restaurante do aeroporto. Pedem sanduíches de churrasquinho com queijo de coalho e limonadas. Passando mal eles foram levados para o Hospital Miguel Couto, depois de terem esperado três horas para que o socorro chegasse e percorresse os hospitais da rede pública até encontrar vaga. No HMC foram atendidos por uma enfermeira feia, grossa, gorda e mal-humorada, que sem dar a mínima para para o real problema deles, aplicou-lhe um laxante de alto poder que os deixou com o vaso sanitário preso na bunda. Ainda debilitados, tiveram alta hospitalar no domingo às 18h20h:
Às 23h30m, depois de muito esperar e nada do voo sair, sujos, doloridos e mortos de fome, decidem comer alguma coisa no restaurante do aeroporto. Pedem sanduíches de churrasquinho com queijo de coalho e limonadas. Passando mal eles foram levados para o Hospital Miguel Couto, depois de terem esperado três horas para que o socorro chegasse e percorresse os hospitais da rede pública até encontrar vaga. No HMC foram atendidos por uma enfermeira feia, grossa, gorda e mal-humorada, que sem dar a mínima para para o real problema deles, aplicou-lhe um laxante de alto poder que os deixou com o vaso sanitário preso na bunda. Ainda debilitados, tiveram alta hospitalar no domingo às 18h20h:
Os
homens da Al Qaeda saem do hospital e perdido na cidade chegam perto
do estádio do Maracanã. O Flamengo acabara de perder para o
Coríntians, por 6x0. A torcida rubro-negra totalmente enfurecida,
devido a vestimenta deles, confunde os terroristas com integrantes da
galera adversária (que haviam ido de Kombi ao Rio) e lhes dá uma
surra sem precedentes.
Às 19h45m, finalmente, são deixados em paz, com dores terríveis pelo corpo devido aos hematomas, e as diversas fraturas, inclusive um deles ainda estava com um canivete que havia se partido e continuava enfiado na bunda. Foi quando viram uma barraca de venda de bebida nas proximidades e decidem se embriagar uma vez na vida (mesmo que seja pecado, Alá que se dane!). Tomam cachaça adulterada com etanol e são presos por estarem ingerindo bebida alcoólica nas imediações do estádio de futebol. Na delegacia lhes tomam o restante do dinheiro que tinham e são torturados com choques para que entreguem o chefe da torcida organizada, pois tinham quebrado o carro do delegado de plantão que tinha ido assistir ao jogo. Depois de libertados precisam voltar outra vez ao Miguel Couto para serem engessados e fazer novo tratamento, pois a cachaça adulterada agravou a intoxicação alimentar, decorrente da ingestão de carne estragada usada nos sanduíches.
Na segunda-feira, 23h42m: os dois terroristas não aguentando mais o tratamento fogem do hospital e do Rio de Janeiro escondidos na traseira de um caminhão de eletrodomésticos, que foi assaltado horas depois na Serra das Araras e ali mesmo eles são jogados, pelos criminosos, ribanceira abaixo. Desnorteados e famintos, eles são levados pela van de uma ONG ligada a direitos humanos para São Paulo.
Na capital paulista, já sem nenhum dinheiro, perambulam em vão o dia todo à cata de comida. Cansados, acabam adormecendo debaixo da marquise de uma loja no Centro.
Às 19h45m, finalmente, são deixados em paz, com dores terríveis pelo corpo devido aos hematomas, e as diversas fraturas, inclusive um deles ainda estava com um canivete que havia se partido e continuava enfiado na bunda. Foi quando viram uma barraca de venda de bebida nas proximidades e decidem se embriagar uma vez na vida (mesmo que seja pecado, Alá que se dane!). Tomam cachaça adulterada com etanol e são presos por estarem ingerindo bebida alcoólica nas imediações do estádio de futebol. Na delegacia lhes tomam o restante do dinheiro que tinham e são torturados com choques para que entreguem o chefe da torcida organizada, pois tinham quebrado o carro do delegado de plantão que tinha ido assistir ao jogo. Depois de libertados precisam voltar outra vez ao Miguel Couto para serem engessados e fazer novo tratamento, pois a cachaça adulterada agravou a intoxicação alimentar, decorrente da ingestão de carne estragada usada nos sanduíches.
Na segunda-feira, 23h42m: os dois terroristas não aguentando mais o tratamento fogem do hospital e do Rio de Janeiro escondidos na traseira de um caminhão de eletrodomésticos, que foi assaltado horas depois na Serra das Araras e ali mesmo eles são jogados, pelos criminosos, ribanceira abaixo. Desnorteados e famintos, eles são levados pela van de uma ONG ligada a direitos humanos para São Paulo.
Na capital paulista, já sem nenhum dinheiro, perambulam em vão o dia todo à cata de comida. Cansados, acabam adormecendo debaixo da marquise de uma loja no Centro.
A
Polícia Federal ainda não revelou o hospital onde os dois foram
internados em estado grave, depois de espancados quase até a morte e
queimados por um grupo de mata mendigos.
O
porta-voz da PF declarou que, depois que os dois saírem da UTI,
serão recolhidos no setor de imigrantes ilegais, em Brasília, onde
permanecerão até o Ministério da Justiça autorizar a deportação
dos dois infelizes, se tiver verba, é claro.
Já refeitos, os dois consideraram desnecessário terrorismo no Brasil e irão sugerir um convênio para realização, no Rio e São Paulo, de treinamento especializado em caos social para o pessoal da Al Qaeda.
Já refeitos, os dois consideraram desnecessário terrorismo no Brasil e irão sugerir um convênio para realização, no Rio e São Paulo, de treinamento especializado em caos social para o pessoal da Al Qaeda.
(
EU NÃO INVENTEI, SÓ AUMENTEI - baseado nas mentiras da internet )
Escrito em 06/05/10
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