Não sei se sou poeta.

Não sei se sou escritor.

Só sei que coloco as palavras.

Com bastante calor

Digo sempre o que sinto.

Para quem quiser ouvir.

Dificilmente eu minto.

Pode vir e conferir

Esses e outros escritos.

Tem aqui no meu cantinho.

Venha, é de graça e não tenha pressa...

Pode ler devagarzinho

A todos que aqui vierem.

Para ver o que propus.

Desde já agradeço.

Com Abraços de Luz


Fragmentos (Contos)















Fragmentos
Contos




























































Fragmentos
Contos
Escrito entre 1987 e 2011
Rio de Janeiro – Brasil
Capa
Óleo na tela de F. A. Pereira

















Dedicado
a

Heleno Soares Pinhão (padrinho)
Dário Gonçalves (Sogro)

Em memória







Agradecimento

Ao meu filho Otávio Emanuel por se dedicar pacientemente em revisar os textos
















Introdução
De agora em diante estaremos só nós dois.
Eu por traz do livro, e você que começa a folheá-lo com a curiosidade de conhecer minhas experiências, meus segredos e minhas imaginações.
Confesso que relutei muito em colocar tudo no papel, mas de que valeria toda uma existência se não a dividisse com você, leitor?
Meu objetivo maior é que, no final da sua leitura, eu tenha conseguido não só distraí-lo, mas também mostrar em algum desses contos como o ser humano usa a dignidade para conseguir seus intentos ou simplesmente a ignora.
Agora sinta-se à vontade e saiba o que esse contador de histórias e estórias tem a lhe dizer.
Boa leitura













O caminho da morte

Fundada em 1883, a estação ferroviária Chave do Faria deu início a Aperibé, distrito de Santo Antônio de Pádua, que acabava de emancipar-se. A pequena cidade, com uma população de pouco mais de 8.000 habitantes, agora teria uma vida independente e mais produtiva.
9 de agosto de 1992.
Até agora a paz reinava na cidade e por consequência também na única delegacia. Bastião, o único preso, mal abria a boca para dizer alguma coisa, na verdade passava o dia dormindo. Já Mathias e Domingos, os dois velhos agentes que estavam prestes a se aposentar, adoravam tal situação. Diziam que quanto menos complicação melhor, pois qualquer caso mais grave poderia vir a alterar seus planos. Já Godofredo, o novo delegado que assumira a delegacia há quatro dias e que sempre esteve às voltas com as agitações da grande metrópole, estava preocupado com aquele marasmo e não gostava nada daquela calmaria. Sabia por experiência que quando isso ocorria, algo de muito grave estava prestes a acontecer.
Sabendo da aposentadoria dos servidores, já havia providenciado reforço da capital, mas até aquele momento não tinha recebido nenhuma informação sobre os novos agentes que viriam para substituí-los. Tentando acalmar os próprios nervos, o delegado perguntou outra vez a seus ajudantes:
- Para quando é mesmo a aposentadoria de vocês?
- De novo doutor? O senhor já nos perguntou isso mais de mil vezes! Está no Diário Oficial, olha aqui. É agora no dia 16 de agosto, segunda-feira. Nesse dia já estaremos na beira do rio pescando - os olhos deles brilhavam de alegria.
- Nossa! É para daqui a uma semana. Como vai ser caso aconteça alguma coisa mais séria?
- Se ainda estivermos por aqui nós o ajudaremos com o caso, mas se for depois dessa data o senhor vai ter de se virar sozinho. Quem sabe o senhor já vai contar com os novos inspetores e não precisará da nossa ajuda - Mathias deixou escapar um sorriso matreiro.
- Mas fica tranquilo, doutor. O máximo que pode acontecer é o Naldino roubar outro porco da fazenda de algum coronel e o senhor ter que prendê-lo. E como sempre o sr. Severo, nosso juiz, condenará ele com três meses na prisão a serem cumpridos aqui mesmo na cadeia - Domingos acalmou o delegado.
- Como é isso? Vocês conhecem esse ladrão?
- Claro doutor! Ele é o primo aqui do Bastião - respondeu Mathias.
- E o que faz vocês terem tanta certeza de que isso pode acontecer?
- É que eles se revezam nesses roubos há mais ou menos dez anos, doutor. Um sai da cadeia e o outro entra. São dois safados mais que conhecidos na cidade e não querem nada com o trabalho. Como o juiz foi amigo de infância dos pais deles, indeniza o coronel pelo porco roubado e mete eles na cadeia por um tempo - explicou Domingos.
- Então o Bastião está para ser solto por esse dias?
- Correto. Dia 14 agora ele está fora e provavelmente seu primo entra. Salvo algo novo aconteça, o que não acredito - confirmou Mathias.
Sendo os investigadores crias da cidade, o delegado ficou mais tranquilo. Com a continuidade do papo, ficou sabendo que precisamente no dia anterior à saída do Bastião, seu primo Naldino roubaria outro porco e tudo se repetiria como nas vezes anteriores.
- Parece então que virou folclore da cidade esse acontecimento.
- Quase isso, doutor. No dia 13 o senhor verá a multidão que vai estar na frente da delegacia fazendo a maior balbúrdia. Atualmente até barraquinhas vendendo iguarias são montadas aqui na frente - Os dois riam sem parar.
Os dias continuaram a transcorrer sem nenhuma novidade, para alegria dos investigadores e desespero do delegado, pois até aquele dia não havia chegado ninguém para substituir seus subordinados.
No dia 12, em que Godofredo completava uma semana no comando, para sua alegria parou um carro com placa da capital na frente da velha delegacia por volta das dezesseis horas. Dele, dois homens altos vestidos com ternos pretos desceram e se dirigiram à porta principal do prédio. Seriam eles os novos ajudantes, pensou rapidamente. Recebeu-os com um largo sorriso, mas após as apresentações e cumprimentos, desamimou-se novamente.
Os forasteiros, que fediam a enxofre e nicotina, queriam saber onde poderiam se hospedar por uma noite pois seguiriam viagem pela manhã do dia seguinte. O delegado informou-lhes sobre a pensão e o hotel, os únicos estabelecimentos existente na cidade, e eles preferiram ir para o hotel. Logo saíram rapidamente, mas a aparência deles ficou registrada na mente do delegado. E muito bem registrada, eram gêmeos. Sendo que o que realmente lhe chamou mais atenção foram os anéis que portavam nas mãos esqueléticas e amareladas pelo fumo. Um deles usava o grande anel de ouro com uma pedra de ônix ladeada por duas caveiras, na mão direita. E o outro, na mão esquerda, tinha um anel de prata com as iniciais AM envoltas numa foice. Provavelmente tratava-se das iniciais de seu nome, já que se apresentara como Altair Meira.
O restante do dia transcorreu calmo, e como sempre às 9:00hs da noite, Godofredo fechou a delegacia e foi jantar na pensão que fica do outro lado da praça depois de mandar servir a refeição de Bastião. Como ainda não tinha conseguido alugar uma casa para morar, sua estadia ali mesmo estava reservada. Isso o deixava mais tranquilo.
Como Mathias e Domingos tinham prevenido, o dia 13 amanheceu com a cidade praticamente em frente da delegacia, mas diferente das outras vezes, não havia balbúrdia e sim um burburinho. Saindo da pensão, Godofredo caminhava por entre as barraquinhas em direção ao seu local de trabalho quando encontrou seus auxiliares.
- Chefe! Já sabe o que aconteceu? - perguntou Mathias.
- Claro que sei! O Naldino roubou o porco de algum coronel e a festa está armada.
- Antes fosse, delegado, antes fosse! Dessa vez o pior aconteceu! - reconheceu Domingos.
- O que foi então? - Godofredo se mostrou preocupado.
- Jurandir encontrou o corpo do Naldino lá no caminho que dá no pequeno cais da beira do rio - responderam os dois quase que ao mesmo tempo.
- Quem é esse tal de Jurandir?
- É o velho pescador aqui do lugar. Ninguém sabe quem chegou primeiro, se foi ele ou a cidade - afirmou Mathias.
- E onde é isso? Vamos até lá que eu quero ver de perto.
- É lá na saída da cidade, chefe, mas se prepara que a cena é forte. Falou o Mathias, bem emocionado.
- Está esquecendo que eu vim transferido da capital? Lá o bicho pega todo santo dia! Vamos logo ver isso.
Quando viram o delegado, a multidão começou a gritar por justiça e pedir que o caso fosse solucionado o mais rápido possível. Todos queriam saber quem tinha roubado o porco. A representação estava armada como de sempre. Em fim, o povo ainda não sabia do assassinato. Como o tumulto estava se espalhando e poderia ficar sem controle caso descobrissem a verdade, Godofredo entrou na delegacia, voltou à rua de posse de um megafone e pediu que as pessoas se retirassem em calma porque ele iria trabalhar no caso e manteria todos informados das suas investigações. As pessoas não entenderam bem o pedido, mas como achavam que o delegado não sabia daquela encenação por ser novo na cidade, acalmaram-se e começaram a curtir a festa.
Rapidamente, Godofredo e seus ajudantes se dirigiram ao local do crime. Lá, o delegado não acreditava no que via. Realmente Mathias tinha razão, a cena era dantesca. No corpo nu de Naldino via-se estampado no centro do peito um tridente marcado a fogo. Estava dependurado na árvore de cabeça para baixo, cheio de cortes que pareciam ter sido feitos com navalha. Suas mãos e pés foram decepados, os olhos arrancados e uma foice estava enfiada na cabeça. Na árvore ao lado estava o porco amarrado, que ele tentara roubar, com as partes que foram arrancadas do corpo.
Godofredo procurou pelo local marcas de luta ou alguma pegada que pudesse levar a esclarecer o caso, mas nada foi encontrado. Nenhuma gota de sangue no chão, dando a entender que o crime fora cometido em outro local.
Mais tarde o delegado ficou sabendo de que o porco pertencia à fazenda do próprio juiz da comarca.
Quem teria cometido tal atrocidade? - perguntavam os homens da lei.
Logo a notícia do crime correu que nem rastilho de pólvora pela cidade. Agora, a frente da delegacia virou palco de quase uma revolta. Estavam todos horrorizados com o acontecido porque mesmo Naldino sendo um ladrãozinho barato, era querido por todos e não deixava de fazer parte da vida do lugar.
O delegado acalmou os moradores prometendo que não tardaria em prender o assassino ou os assassinos, afinal crimes bem mais intrigantes ele já havia resolvido na grande cidade.
Quando todos já tinham dispersado da frente da delegacia e a calma voltou a reinar por toda a praça, Godofredo e seus auxiliares começaram a analisar os últimos acontecimentos. Imediatamente lembrou dos forasteiros que chegaram na tarde do dia anterior procurando hotel. Determinou que o Mathias fosse até ao hotel saber tudo sobre os desconhecidos: nomes, profissão, de onde vinham, para onde estavam indo e a que horas foram embora. E quanto a Domingos, pediu-lhe para colher informações pela região, do tipo: a hora em que Naldino saiu de casa, quem foi a última pessoa que o viu e onde, a que horas e quem sentiu a falta do porco na fazenda, quando Jurandir descobriu o corpo na beira do rio, etc. Enfim, pediu que eles colhessem o máximo de informação possível.
Duas horas mais tarde voltaram com poucas respostas. Mathias obteve todas as informações, mas que não levavam a nada porque os forasteiros entraram no hotel na tarde anterior e só saíram às oito horas da manhã daquele dia. Já Domingos muito pouco conseguiu, pois ninguém viu nada. De concreto mesmo só a informação do Jurandir, o pescador que encontrara o corpo.
Baseado no que tinha, Godofredo pediu a Mathias que fosse buscar Jurandir para que este esclarecesse suas dúvidas. Mathias prosseguiu. O tempo foi passando e nada dele e da testemunha apareciam.
Resolveram ir almoçar, voltaram à delegacia e nada. Preocupado, o delegado perguntou a Domingos se era muito longe o local onde encontrar o pescador.
- Não muito. Já era para eles estarem aqui.
- Sabe onde é?
- Claro!
- Então faça o favor de ir até lá ver o que está acontecendo. Enquanto isso eu vou dar uma chegada lá no necrotério para saber se eles podem me adiantar algum detalhe importante.
Jurandir morava do outro lado do rio, mais ou menos na mesma direção onde tinha sido encontrado o corpo de Naldino. E para lá também se dirigiu Domingos.
Quando Godofredo voltou do necrotério, encontrou Domingos sentado no grande banco da delegacia. Ele estava sem cor, quase desfalecido e ainda tremia dos pés à cabeça.
- O que aconteceu, homem?
- Outra desgraça! Encontrei o corpo do Mathias no mesmo local onde estava o Naldino.
- O quê? E o Jurandir, cadê ele?
- Está desaparecido, chefe - respondeu desolado.
- Alguém viu algum movimento estranho ou escutou alguma coisa? Afinal o crime aconteceu agora durante o dia!
- É verdade, mas ninguém sabe de nada... Parecia que eu estava vendo a mesma cena, tudo idêntico ao crime anterior, só não tinha o porco. É de impressionar, delegado. Nesses meus 35 anos de polícia nunca vi nada igual ou sequer parecido.
- Quero ver de perto. Vamos!
Rapidamente chegaram ao local. Vários moradores já estavam por lá e a consternação era geral. Todos em silêncio olhavam para o delegado como que a perguntar o que estava acontecendo na cidade. Uma cidade em que até pouco tempo nem animal aparecia morto nas proximidades.
A cena era horripilante. À primeira vista, era assegurado constatar que o crime foi milimetricamente executado da mesma forma que o anterior. É como se a mesma pessoa que fez aquele, repetiu o ato nesse. Godofredo passou a encarar os casos como a prática de alguma seita macabra.
Mais uma vez, nenhuma pista foi deixada. A cena do crime foi liberada e o cadáver recolhido para autópsia. Agora só restava aguardar o resultado e seguir as pistas que os corpos pudessem revelar.
No dia seguinte, logo pela manhã, Godofredo recebeu os resultados das autópsias, que não eram nada esclarecedores. Relatava que as vítimas, tanto um quanto o outro, morreram de colapso cardíaco causado por um grande susto. As amputações e os ferimentos pelo corpo tinham sido cauterizados com uma substância desconhecida. Por isso não havia nenhum vestígio de sangue.
Para o delegado era um grande mistério a ser desvendado que provavelmente iria lhe tirar algumas noites de sono.
À tarde, como em todo dia 14, Bastião foi solto e prometeu ao delegado que não roubaria nunca mais um porco, mas que não sossegaria enquanto não descobrisse quem assassinou seu primo.
Godofredo pediu para que ele não tentasse fazer o trabalho da polícia e o alertou que o criminoso era muito perigoso.
O tempo passava e o delegado não parava de pensar nos estranhos assassinatos que, agora um mês depois, ainda não tinha conseguido solucionar. Não desistiria enquanto não colocasse aquele ou aqueles assassinos na cadeia. Dos novos inspetores que foram locados para a cidade, não tinha nenhuma posição até aquele dia. Cansado e estressado, Godofredo foi até a tendinha que ficava do outro lado da praça, bem em frente à delegacia, a fim de espairecer. Precisava conversar com alguém e se inteirar ainda mais sobre os hábitos da cidade.
Mal acabara de chegar ao local e nem teve tempo de cumprimentar o pessoal. Ao olhar para trás viu um carro, com placa da capital, parar em frente à delegacia. Dele desceram dois indivíduos vestidos completamente de preto que se dirigiram ao interior do prédio. Correndo na direção da delegacia, pensava: “eu já vi esse filme, tomara que sejam os novos investigadores”. Lembrou que também era dia 12, data igual ao mês anterior.
Mais uma vez se decepcionou. Não eram quem ele imaginava e também não eram aqueles forasteiros que passaram por lá antes do crime. Entretanto eram gêmeos, fediam igual aos outros e queriam saber onde se hospedar até o dia seguinte. Mais uma vez informou a localização do hotel. Tudo acontecia como há um mês, até os anéis em cada mão daqueles homens eram iguais ao anéis que os outros portavam.
Godofredo não resistiu à curiosidade e meio desconfiado comentou:
- Noto que os senhores usam anéis bem interessantes.
- Ah, realmente - um deles respondeu dando a entender desinteresse.
- Vocês os têm há muito tempo?
- Não, não. Eu os adquiri tem mais ou menos uma semana.
- Que interessante! O senhor conhecia a pessoa que lhe vendeu os anéis?
- Eu os comprei numa loja de antiguidades. Eu sou um colecionador - respondeu ironicamente.
- Ah! Eu entendo - dessa vez foi o delegado que usou de sarcasmo.
- Não entendo sua ironia, delegado. O anel me chamou a atenção por ter as iniciais idênticas ao meu nome. E como o senhor mesmo pode comprovar, ele data do ano 666 - retirou o anel do dedo e o entregou ao delegado para que ele comprovasse sua história.
Godofredo constatou que o anel datava do ano mencionado.
- Qual o seu nome mesmo? Estamos conversamos a tanto tempo e ainda não nos apresentamos.
- Muito prazer, Armando Mendes - o visitante apresentou um cartão de visita que tinha seu nome e logo abaixo, estampado em letras góticas, sua ocupação, que dizia “Colecionador de Antiguidades”.
- Prazer, Godofredo - respondeu pegando o cartão e continuando o interrogatório, agora mais curioso ainda.
- O anel com as caveiras também é uma antiguidade?
- Sim, eles estavam num estojo de joias e a loja só negociava o conjunto. Me custou um bom dinheiro, mas valeu a pena.
- Que bom que o senhor ficou satisfeito com a aquisição. Pôde ainda presentear seu irmão! - outra vez usou de sarcasmo.
- É verdade! Bem, delegado Godofredo, nós vamos indo. Até breve.
- Até!
Algo no ar não lhe agradava, mas nada podia fazer, afinal aqueles homens acabavam de chegar na cidade. Porém, aquele “até breve” o deixou bastante intrigado.
Godofredo resolveu ficar atento pelas próximas horas. Fechou a delegacia e também foi para o hotel. Lá instalou-se no salão principal de uma forma que podia ver todo o ambiente até a saída. Vigiando dali, não entrava e não saía ninguém de que ele não tomasse conhecimento. Assim passou toda a noite acordado. Na manhã seguinte, precisamente às oito horas, aqueles homens deixavam o hotel.
Sem mais nada a fazer ali, Godofredo foi até a pensão onde ficava para tomar banho, trocar de roupa e voltar para delegacia. Entretanto não chegou no meio do caminho. Encontrou com o tal Jurandir que lhe deu a notícia das mortes.
- Você desaparece todos esses dias e quando volta é com essa novidade?
- Venha ver com seus próprios olhos. Estão lá no caminho para o rio, naquele maldito lugar, o juiz e o Bastião, mortinhos da silva, que nem o Naldino e o Mathias.
- Não é possível! Pedi transferência para essa cidade a fim de descansar e por aqui ficou pior que na capital! - Godofredo pensou alto.
Quando estava indo para o local dois estranhos vestidos de preto o abordaram. Logo olhou para as mãos deles, mas não viu nenhum anel. Percebeu que também não eram gêmeos e nem fediam como os anteriores.
- É o delegado Godofredo?
- Sim, sou eu - respondeu secamente.
- Eu sou Mário e esse é o Jorge. Somos os novos agentes transferidos.
- Nossa! Até que enfim. Chegaram em boa hora. Venham comigo receber as boas vindas da cidade.
Godofredo não os alertou sobre o que iam encontrar. Queria ver a reação dos seus novos ajudantes. Caminhando rápido, chegaram ao local onde os corpos se encontravam. Os novos agentes estavam paralisados, mal acreditavam no que viam. Dois corpos dependurados de cabeça para baixo na árvore, como nas vezes anteriores, e nenhum vestígio de luta ou sangue.
- Soubemos que nos mês passado nesta mesma data também ocorreram dois assassinatos aqui na cidade. É sempre assim por aqui? - um deles perguntou.
- Segundo seus antigos colegas, aqui reinavam paz e tranquilidade, mas parece que bastou eu chegar nessa maldita delegacia que a coisa degringolou.
- É, soubemos que o secretário de segurança está uma fera e não para de atormentar o Augusto. Quer porque quer o caso anterior resolvido o mais rápido possível.
- Agora que a coisa vai pegar. Esse aí era o juiz da cidade e pelo que sei é primo do Governador. Imagina? Ainda nem resolvi aqueles crimes e agora mais dois. Estamos fritos se não solucionarmos tudo rapidamente.
- Não creio que seja tão difícil assim - previu Jorge, tentando levantar o moral.
Outra vez começava um novo mistério, sendo que agora envolvia um figurão.
O tempo foi passado e os casos continuavam na gaveta sem solução. Ninguém sabia de nada e nenhuma pista que os levasse aos assassinos ou aos mandantes dos crimes era encontrada.
Impaciente com as cobranças do Governador, o secretário de segurança mandou o chefe de polícia chamar Godofredo para saber como estava a apuração daquele monstruoso caso e do que ele precisava para resolver de uma vez os assassinatos.
Godofredo viajou à capital. No início da manhã, já no prédio onde funcionava a sede da polícia civil, dirigiu-se ao gabinete do Chefe de Polícia e não foi recebido amigavelmente por Augusto. Seu superior encontrava-se muito nervoso por estar sendo pressionado pelo secretário de segurança em razão de o delegado não ter solucionado os crimes.
A conversa estava tensa, quase fugindo ao controle emocional dos dois.
- Não é admissível demorar tanto tempo para resolver um caso, mesmo que seja um tanto complicado.
- Concordo com o senhor. Já disse e repito, eu daria a minha vida para descobrir quem são esses assassinos, mas...
O telefone vermelho tocou e Augusto o interrompeu.
- Com certeza é o secretário de segurança querendo saber como andam as investigações.
Atendeu a ligação e confirmou manualmente com o polegar.
- Aguarda aqui mesmo. Vou lá na sala dele e já volto para continuarmos.
Augusto mal acabara de sair fechando a porta do gabinete e apareceram na frente de Godofredo dois homens vestido de preto. Eram gêmeos, fediam a enxofre e nicotina, usavam aqueles anéis que ele tanto conhecia. Mas não eram os mesmos homens que ele encontrara nas outras vezes. Rápido e instintivamente sacou da sua arma e apontando para eles perguntou:
- Como entraram aqui?
- Você nos chamou!
- Como assim? Vocês só podem estar malucos! Quem são vocês?
- Não acabou de dizer que daria a vida para nos ver? Pois aqui estamos e vamos levá-lo. Na verdade somos um só. Pode me chamar de Anjo da Morte.
Nesse instante os gêmeos se fundiram numa só pessoa e desapareceram como fumaça deixando uma gargalhada ecoando por todo o prédio.
Augusto e outros policiais correram para o gabinete. Ao entrarem, depararam-se com a mesma cena dos assassinatos na cidadezinha.
Godofredo estava ali imolado, pendurado na janela basculante de cabeça para baixo. Sua arma ainda estava segura pela mão decepada no chão, abaixo do corpo.






























O Feriadão

Olha que se aproxima mais um feriado. Na verdade é um feriadão, pois sua comemoração é justamente na quinta-feira e com toda certeza a grande maioria dos brasileiros vai enforcar a sexta-feira. Certo? Mais é claro que sim.
Uma boa parte das famílias se reunirá, ou numa casa de praia ou num pequeno sítio de sua propriedade. Um dia antes começam os preparativos para viagem. Sim, eu disse preparativos para a viagem, pois qualquer um dos dois lugares mencionados, sempre é afastado da cidade que moram.
Tudo pronto. Lá vão eles divididos em duas vans de luxo, dessas que fazem turismo. No início da viagem tudo é festa, mas logo começam os problemas... É verdade, começam os problemas. E é justamente quando entram na estrada e descobrem que todo mundo também resolveu passar o feriadão na mesma praia que eles.
Bem! Para se ter ideia e conhecer o tamanho do problema, uma viagem que normalmente é feita hora e meia, provavelmente vai levar de oito a dez horas. E levou.
Chegaram na casa de praia de madrugada. Logo constataram que o mato estava com metro e meio de altura e quase não dava para ver a casa nos fundos do terreno.
Deixaram os veículos do lado de fora, pois não tinha como colocá-los no interior. Afasta mato daqui, afasta mato da li conseguiram entrar na casa. Não tem luz nem água. Ajeitam-se de qualquer maneira pelo aposento iluminado por velas. Na verdade, um salão enorme onde os colchonetes foram estendidos para receber os vinte e oito afortunados. Depois de muita luta com os pernilongos dormiram, preocupados com a segurança dos veículos é claro.
Será que iriam arrombar algum deles? – Era o pensamento geral.
Pela manhã conferiram se as vans estavam intactas antes de começar a gincana.
Eram oito horas quando Júlio, o dono da casa, saiu à procura de um eletricista para resolver o problema da luz, logo um outro tentava ver se na cisterna tinha água suficiente para ser mandada para a caixa quando a energia fosse restabelecida. Enquanto outros três começavam a capinar o terreno, na tentativa de deixar o local mais habitável.
- Vou comprar leite, café e pão. Ouviram um terceiro se oferecer para realizar a tal façanha.
Chegou o eletricista. Após duas horas estava tudo funcionando. Mas descobriram que a água era pouca. Resolveram encomendar um caminhão pipa. E lá foi aquele que antes achou o eletricista, comprar a água.
- Gente... Já são quase onze horas da manhã e cadê o Henrique que não chega com o nosso desjejum? – Reclamou Geny, a sogra do dono da casa.
Por volta das duas horas da tarde chega Antenor com duas caixas de leite longa vida, meio quilo de café, trinta bisnagas, e dez quilos de carne para o churrasco de Sábado. Tinha conseguido efetuar essas compras depois de enfrentar uma fila durante três horas. Sem contar que para ir ao centro da cidade e voltar gastou duas horas no engarrafamento.
- Nosso café da manhã está garantido para hoje, amanhã e domingo. – Afiançou Henrique, cansado, mas cheio de orgulho por ter completado sua missão.
Nesse momento dona Geny perguntou.
- Quem vai fazer o almoço hoje?
Ninguém se manifestou.
- Vamos tomar esse café para ir a praia, na volta cuidamos do almoço.
Enquanto mulheres e crianças estavam na praia, os homens continuavam limpando o terreno e desalojando ainda mais os mosquitos. A noite seria promissora.
De repente chega à notícia: – Carlinhos, de cinco anos, uma das crianças havia desaparecido.
Para tudo. Angústia no ar. E todos vão para a praia a procura do garoto. Uma hora mais tarde, após um estresse danado encontram o menino distante 2 km de onde estavam, sentado na padaria da praça. Chorava mãe, chorava filho.
Os homens voltam à limpeza enquanto as mulheres preparam o almoço, diga-se jantar. As sete da noite tudo pronto, terreno limpo e comida feita, mas banho nem pensar, o caminhão com a água ainda não tinha chegado. Comeram assim mesmo.
A água chegou as nove da noite. Ligada as mangueiras do caminhão a cisterna, começa o abastecimento. Devido a vários furos na velha mangueira, quase cai mais água fora do que dentro. O terreno fica encharcado e o peso do caminhão abriu uma vala ao sair dele.
- Já podemos guardar os carro aqui dentro. – Sugeriu Jorge.
Assim fizeram, mas quando a segunda van entrou ficou atolada no lamaçal que se formara bem na entrada do terreno, impedindo dessa forma a saída da outra. Teriam que esperar secar tudo para depois retirar aquela van do atoleiro e liberar a outra. Pelo menos iriam dormir tranquilos naquela noite.
A quinta feira passou e ninguém curtiu direito. Dormiram quase meia noite depois de uma seresta desafinada. Outra briga com os mosquitos. Até defumador fizeram para tentar espantá-los, mais nada deu jeito.
A sexta feira amanheceu chuvosa e assim ficou o dia todo. Ninguém saiu naquele dia. Lavam a louça do dia anterior e já sujam tudo novamente, mas ninguém se preocupa em lavá-las.
Os oitos adolescentes, filhos dos casais em questão, tiveram a brilhante ideia de fazer uma festinha com os amigos que conheceram na vizinhança. Eram onze horas da noite quando começou o baile funk e se estendeu até as três da madrugada. Ninguém conseguiu dormir direito. Primeiro com o barulho depois com os mosquitos.
Acordaram quase meio dia e a maioria estava mal humorada e empolada com as mordidas das muriçocas. Tomaram o café da manhã reforçado e foram para a praia. As quatro da tarde voltaram.
- Não tem comida. – Lembrou Ester.
- Hoje é Sábado. Vamos comer no restaurante. – Sugeriu Margarida.
- Quem é que vai lavar a louça de ontem? Está todinha lá em cima da pia. – Perguntou dona Geny com ar sarcástico.
Mas uma vez ninguém se manifestou.
Não foi a toa que o Chico fez a música, “Joga bosta na Geny”. Ô velha nojenta. Pensou todas as mulheres da casa, ao mesmo tempo, menos sua filha. Afinal, mãe é mãe.
Resolveram deixar os carros e ir andando até ao restaurante, pois o terreno ainda estava muito molhado. Retornaram nove horas da noite. O ir e vir para o jantar levou quase cinco horas.
- Hoje não tem baile funk, festinha e nem seresta. O bate papo só até as onze e meia. Amanhã é Domingo...Vamos acordar cedo para ir a praia e aproveitar bem o final do feriadão. – Determinou Júlio, afinal a casa era dele e alguém precisava colocar ordem no recinto.
- Se não chover é claro. – Ponderou dona Geny.
Essa velha é mesmo uma jararaca. Desta vez todos tiveram esse pensamento. Menos já sabem quem, não é?
Logo, logo estavam dormindo. Acordaram cedo com o barulho das trovoadas. Chovia a cântaros. Era relâmpago pra todo lado. Assim deu duas horas da tarde e nada de melhorar. Sol? Era mais certo no Japão do que ali onde eles estavam.
- Gente esse tempo não vai melhorar. Vamos arruma as coisas e ir embora mais cedo, pelo menos não pegaremos a estrada engarrafada. – Falou Antenor.
Assim fizeram. Malas feitas e colocadas nos carros. Chegou à hora da partida. Contataram que o lamaçal havia piorado devido a forte chuva que ainda não tinha parado.
- Vamos desatolar o van do Geraldo, mas com cuidado para não piorar isso aqui mais ainda. – Recomendou Jorge.
Escorrega daqui, escorregada da li conseguiram tirar o pesado veículo, mas para desespero deles a outra também atolou naquele lugar. Esforço redobrado. Quase cinco horas da tarde quando todos se acomodaram nas vans para irem embora. Estavam todos molhados e enlameados. Os carros também, por fora e agora por dentro. Criança chorando, adolescente falando alto e mulher reclamando. O desespero era geral e piorou ainda mais quando entraram na estrada.
Lá estava o maldito engarrafamento novamente.
- Esqueceram a carne! – Lembrou dona Geny. – Vamos voltar! Insistiu ela.
Ninguém disse uma única palavra, mas se olhar queimasse dona Geny estava torrada.















O Fascínio da Rua

A rua sempre foi o grande fascínio para Murilo.
Ainda criança, virava e mexia, lá estava ele pela rua a fazer alguma coisa, como se ali estivesse o seu futuro.
Quase todos os dias fugia de casa e lá, na rua, ia jogar futebol, soltar pipa, jogar bola de gude, rodar pião ou simplesmente bater papo com os amigos da mesma idade, alguns fugitivos como ele e outros que lá estavam com a aquiescência dos pais.
Foi na rua que aprendeu e conheceu muito do que sabe hoje, pois não deu continuidade aos estudos, preferindo a ilusão da liberdade momentânea à segurança da vida regrada. Entretanto, tal escolha sem saber foi o combustível para o sofrimento futuro.
O tempo não para e não perdoa. Logo Murilo sentiu na pele a grande besteira que cometera na infância e juventude. Sem grandes estudos, não conseguia uma boa colocação nas empresas, restando apenas as funções inferiores destinadas a quem não tem muita cultura.
Via de longe os amigos vitoriosos curtindo a vida numa boa e ele, com aquele salário curto e sem uma estrutura familiar sólida, sofria com tal situação.
A cidade grande, com seus atrativos e facilidades, foi para ele a pior das selvas e nela se perdeu. Passou a sair do trabalho e não voltar para casa. No início uma ou duas vezes na semana era certo. Depois quase todos os dias. Com isso passou a andar mau arrumado, pois tal decisão custou-lhe o pouco apoio da família e o trabalho. Ferido na alma, acabou entregando-se àquela que sempre foi sua fiel companheira, a rua.
Nos primeiros dias caminhava solitário pelas ruas do centro, de preferência as mais afastadas para não correr o risco de se encontrar com algum conhecido. Ainda corria em suas veias um pouco de orgulho, mas com o passar do tempo tudo se apagara.
Agora, no limiar da demência, nada mais tinha importância; já não sofria. Dormia debaixo de qualquer marquise e durante o dia procurava algo para se alimentar nas lixeiras do caminho. Arrastando seus pertences, imundamente maltrapilho e fedido, vagava sem noção entre a multidão, que ao perceber seu estado desviava e se afastava rapidamente do pobre fracassado.


























Um drama na oficina

Domingo, o relógio marcava uma hora da madrugada quando as portas se abriram abruptamente. Era mais um automóvel acidentado naquele fim de semana. Com o barulho causado pelo correr da porta de aço, todos os componentes da oficina acordaram ao mesmo tempo.
- Olha lá gente. Parece mentira, mas está entrando um importado, e bem amarrotado na frente. – Gritou alegremente o maçarico.
- Oba! Amanhã será um grande dia. Vou bater muito naquela lata e internacionalizar minhas marteladas. Rejubilou-se o velho martelo.
- Mas o que é isso meu amigo barulhento? Não acha que você está sendo muito pretensioso? – Perguntou um capô novo que estava pendurado lá no alto.
- Não sei porque, o enferrujado? – Riso geral na oficina. – Afinal quem é o martelo aqui? Não sou eu? – Gritou perdendo a calma.
- Que é você o barulhento nós sabemos, mas acha que o dono vai deixar você bater naquela preciosidade? – Debochou a lixa d’água.
- Além do mais, você chamar uma chapa daquela, de lata é muita sacanagem. A única certeza aqui, é que serei eu que vou desparafusar e soltar todas as peças amassadas. – Garantiu a usada chave de boca.
- E vão trocar essas peças por quem? – Perguntou rapidamente o capô cheio de vaidade.
- Você sim está sendo pretensioso seu enferrujado de uma figa. Não vê logo, que você jamais fará parte daquela estrutura de primeiro mundo. – Atacou a tinta importada.
- E por que não? Não vejo nada que me impeça.
- Eu também estou certo de que logo, logo estarei lá, fazendo parte daquela beleza. – Garantiu o cromado para-choque.
- E nós também! – Em coro, gritaram vários parafusos lá no fundo da gaveta que estava aberta.
- Gente? Vocês enlouqueceram? Aquilo é um importado! Não é para o bico de vocês.
Essa discussão se estendeu por toda madrugada e só deram conta da hora quando amanheceu e a oficina foi reaberta. Estavam todos cansados e resolveram parar com aquela conversa, mesmo porque os empregados estavam chegando e os trabalhos começariam sob a orientação firme do novo proprietário.
Nilton o encarregado pela lanternagem assim que chegou foi logo designando dois funcionários para desmontarem a frente da Mercedes que dera entrada na madrugada. Segundo ele era preciso terminar aquele serviço rapidamente. Também determinou que o lanterneiro Cezar acabasse de desamassar primeiro a velha Rural, pois tinha acertado de entregá-la na quinta feira. Chamou Aniceto o responsável por toda a pintura da oficina e pediu para que ele já fosse preparando o capô, o para-lama e o para-choque da Mercedes, pois queria que no dia seguinte tudo estivesse no lugar pronto para ser pintado.
Nos primeiros quinze minutos do dia, Nilton determinou todas as tarefas de cada empregado. Ao terminar, entrou no escritório improvisado que funcionava no meio do grande galpão. O novo dono determinou que fosse instalado ali, pois assim poderia controlar todos os setores sem precisar andar muito. Mal chegou no local, Adalberto o novo dono da oficina perguntou com sua voz de trombone.
- Então Nilton o que está achando da mudança?
- Qual delas seu Adalberto? Deste local ou dos novos carros que passaremos a consertar.
- Das duas, claro!
- Bem, daqui deste local realmente ficou muito melhor para administrar a oficina, mas o senhor está pretendendo mesmo só trabalhar com carros importados?
- É o que pretendo, mas não deixarei de atender os carros velhos que ainda possam aparecer.
Nesse clima de mudanças e novas metas o dia continuou normal como todos os outros, só que com a determinação de acabarem o mais rápido possível com todos os serviços. Adalberto queria que aquela fosse a última semana de trabalho com carros velhos.
Final de expediente. Tudo voltou à tranquilidade na oficina e quando o silêncio parecia ter tomado conta do local ouviu-se uma estrondosa gargalhada seguida de um alerta.
- Aí martelo! Parece que seus dias estão contados aqui na oficina. – Sacaneava o macaco hidráulico.
- Pega leve macaco hidráulico. Afinal, muita gente aqui dentro está correndo o mesmo risco. Inclusive você. Lembre-se que você já está bem usado. Não se esqueça disso. – Alertou o antigo maçarico.
- Eu não corro esse risco. Terá sempre uma massa corrida para eu assentar e alisar. – Vangloriou-se a espátula.
- Parece que nossa amiga espátula não escutou quando o homem disse só vai trabalhar com os carros novos. – Lembrou o macaco hidráulico continuando a rir.
- A mim não importa o que aconteça. Serei sempre de alguma utilidade, pois haverá sempre um amassadinho em alguma chapa a ser reparado. Mesmo que ela seja nova. E ai queira ou não eu entrarei em ação. – Garantiu o martelo.
- Calma gente, na verdade não há tanto perigo assim de ficarmos parado. A meu ver os únicos que estão seriamente ameaçados são o martelo e o maçarico. – A ensebada bancada das ferramentas tentava acalmar os ânimos.
- Engano seu bancada. Eu não existo só para esticar as chapas com meu calor, eu também soldo qualquer peça, esqueceu? – Lembrou o maçarico.
- Nós estamos tranquilas. Eles vão sempre precisar da gente para apertar ou afrouxar alguma porca. – Quem fazia esse comentário alegremente era a mais velha das chaves de boca.
- Se eu fosse você não teria tanta certeza assim. Afinal nosso novo dono é meio estranho. – Lembrou o compressor, que até então não havia dito nada.
- Vocês estão muito pessimistas. Eu aconselho aguardarmos e ver como tudo vai se comportar daqui pra frente. – Recomendou o maçarico.
Dito isso, encerraram a discussão e o silêncio voltou a reinar no local.
Na manhã seguinte Adalberto chamou o encarregado Nilton para dar-lhe algumas instruções.
- Nilton eu vou precisar dar uma saída e só voltarei após o almoço. Fica atento que virão entregar daqui a pouco umas encomendas que fiz.
- Pode adiantar o que o senhor comprou?
- Claro, comprei um ferramental e um quadro novo para a oficina. Assim que chegar, reúna o pessoal, confere e coloque tudo aqui neste local. Em seguida manda colocar todo o ferramental antigo lá na bancada, que os próprios entregadores irão retirar tudo daqui e levar para o ferro velho do Amílcar. Não me vá esquecer de nada. – Recomendou o patrão.
- Pode sair tranquilo, que eu já entendi perfeitamente o que temos de fazer. Só mais uma pergunta?
- Diga logo Nilton, que já estou atrasado.
- Posso adiantar a novidade para os funcionários?
- Claro, de qualquer forma eles vão saber mesmo.
Assim que Adalberto saiu, o encarregado reuniu os empregados e falou sobre a novidade. Tal notícia os deixou mais contentes, pois as ferramentas já estavam muito precárias.
A noite, depois da oficina fechada o ambiente não era mais o mesmo. A tranquilidade reinava no local, mas no ferro velho? O chororó era geral.
- Que ingratidão. Depois de tantos anos trabalhando de sol a sol olha aonde viemos parar. – Resmungava o velho compressor.
- Nunca pensei que eu fosse terminar num ferro velho. – Reclamou o martelo.
- E pelo jeito não vão ter nenhuma consideração conosco. Largaram a gente aqui ao relento. – Frisou o maçarico.
- Agora mesmo é que iremos ficar iguais ao capô. Todos enferrujados. – Alertou a chave de boca.
- Eu estou com a esperança deles me protegerem. Afinal ainda estou forte e posso muito bem levantar essas quinquilharias velhas. – Torcia o macaco hidráulico.
- Estou com você macaco. A esperança é a última que morre. – Dava força o capô.
- Pois nesse momento sou eu que não tenho mais tanta certeza e nem tão pouco, esperança. Olhem bem para mim! Nunca fui usado e estou aqui nesse cemitério. – Lamentava-se o para-choque cromado.
- Já não fazem mais peças como antigamente, é tudo de plástico. Que tristeza. – Lembrou o capô.
- Tenho certeza de que não é aqui que iremos acabar. – Garantiu o macaco hidráulico cheio de esperança.
Amanhecera e todos ouviram o dono de ferro velho gritando para um dos funcionários.
- Pega todo esse material que chegou ontem e coloca no caminhão. Vai tudo para a siderúrgica.







Coisas da vida

Por volta dos anos 50 um funcionário do Banco do Brasil era detentor de muito prestígio e quando então gerente de agência, quase se tornava uma autoridade.
É verdade o que digo. Naquela época as personalidade mais importantes e respeitadas eram a diretora e professoras da escola, o padre responsável pela paróquia do bairro e o delegado de polícia.
Um juiz então, nem se fala, estava acima de qualquer suspeita e era olhado com o máximo respeito. Hoje em dia não tanto, o que é lamentável.
Mas voltemos ao que me propus.
Amoedo, um morador lá de onde eu vivi quando criança, era um alto funcionário do Banco do Brasil, mas sua arrogância e falta de educação era de deixar qualquer um aborrecido. Não cumprimentava e nem falava com ninguém a não ser quando voltava para casa e parava no barzinho do caminho já próximo de sua residência, bêbado como um gambá. Essa expressão popular deve-se ao fato de ser o gambá facilmente caçado, pois atraído pelo cheiro da cachaça, vem, bebe e cai bêbado.
Era nesse momento deprimente da vida daquele senhor, que as pessoas maldosas, despeitadas e inconsequentes se desforravam da conduta dele, pois bêbado não tinha noção do que ocorria a sua volta.
Sacaneavam o homem de toda sorte.
Lembro que no bairro tinham duas piranhas bem safadas que se prestavam para beijá-lo no rosto, sendo que a segunda sempre com aquele batom vermelho marcava-lhe o colarinho ou a ponta do paletó.
Misturavam sal e açucar na sua bebida, a famosa saideira.
Colocavam-lhe rabo de papel com os famosos e inconvenientes “barbantinho cheiroso” no exato momento em que ele se despedia, era o tempo exato para que chegasse em casa levando aquele maldito fedor.
Como a casa era bem próxima do bar todos ficavam aguardando quando ele entrava, ocasião em a gritaria da pancadaria e do esporro que a sua mulher, uma paraibana dobrada, lhe aplicava era ouvido.
Era chamado de alcoolatra, mulherengo, depravado, enfim de toda sorte de elogios que vinha a mente da mulher, sempre acompanhado do chinelo que ela usava para bater.

Era só diversão o resultado da vingança que a turma impingia ao pobre coitado. 



















Na mesma moeda

Um senador que se dizia o grande representante dos pobres, inconformado por ver aprovada uma lei de sua autoria, que protegeria grande parte da população carente da nação, suicidou-se. Ninguém entendeu o porquê daquele ato.
Sua alma viajava dentro de um elevador envidraçado, indo vagarosamente em direção ao céu. Aquela viagem estava demorada e enfadonha. No caminho viu que no inferno estavam alguns de seus amigos que durante a vida lutaram contra os seus supostos ideais. Acenou para eles, mas foi ignorado, estavam à volta de uma mesa, todos muito ocupados, entretanto lhe pareceu estarem bem alegres. Mais adiante passou por um local que pensou ser o purgatório. Ali também estavam alguns amigos da profissão, não eram seus opositores, entretanto esses pareciam não fazer nada e estavam com ar de aborrecimento. O elevador continuou subindo. Quando chegou no céu a porta se abriu, e ele deu de cara com São Pedro.
- Muito obrigado por me receber pessoalmente, senhor. Posso entrar?
- Felizmente não. – Respondeu-lhe.
- Como não? Minha vida inteira eu passei lutando pelos mais necessitados. Na tentativa de melhorar suas vidas, e agora o senhor diz que não posso entrar no paraíso.
- Lamento, mas o senador perdeu esse direito quando tirou a própria vida.
Sem perder tempo, o senador tentou o famoso jeitinho, mas foi logo descartado.
- Esse artifício aqui não cola. Tenta noutro local.
- E para onde é que eu vou?
- Isso não é mais da minha responsabilidade... Todavia, desce e vê o que consegue por aí.
- O senhor tem coragem de me mandar ficar vagando?
- Só estou cumprindo ordens superiores.
O senador vendo que não tinha alternativa e que não ia mesmo conseguir entrar no céu, resolveu descer. Ao lembrar-se do que tinha visto quando subira, resolveu perguntar:
- Senhor posso escolher onde ficar?
São Pedro sabendo o que ele tinha visto pelo caminho riu tranquilamente e não se opôs.
- Faça como lhe aprouver, afinal o local que escolher será sua moradia por um longo tempo.
- Obrigado pelo conselho.
O senador que a essa altura já estava para lá de ansioso, pegou o elevador de volta, disposto a ir rapidamente para o inferno. Desceu... Desceu... E ele achou que estava demorando demais para chegar. Acreditou estar preso naquele local, tempo demais. Pensava com seus botões; “todo esse descaso para comigo, deve ser uma espécie de castigo”. Como não tinha acesso aos controles conformou-se. Quando o elevador parou e a porta se abriu, lá estava a sua espera, nada mais nada menos que o próprio Diabo em pessoa, e sua cara não era a das melhores.
- Interessante, o senhor também veio me receber pessoalmente.
O senador fez a observação e foi entrando sem fazer cerimonia, mas logo foi impedido pelo Diabo.
- Aonde você pensa que vai?
- Vim para encontrar meus amigos. Pretendo ficar por aqui.
- Pois o senhor se enganou de porta. Esta casa não acolhe pessoas que lutam e melhoram a vida dos pobres.
- Mas tudo não passava de uma encenação. Foi a forma que encontrei para manter sempre em alta o meu prestígio e ser eleito a cada eleição.
- Sim eu sei, mas você não cuidou para que a causa que defendias não desse certo, e olha no que deu? Milhares daqueles que eu mantinha em sofrimento, agora terão um alívio. Mesmo que pequeno, mas terão. E o você é o grande responsável por isso. Todo fracasso tem seu preço.
Mais uma vez o senador apelou tentando subornar.
- Tudo bem. Entendo, mas não sou qualquer um, além de ser um senador daquela república, também sou um suicida. Tenho prioridades.
- Sei disso, mas sua conduta durante o período em vida foi comprometedor. Não posso deixar que entre. Suas ideias podem subverter meus aliados.
- Então onde vou ficar?
O Diabo demonstrando grande insensibilidade aconselhou:
- Tenta lá pelo purgatório, mas não garanto muito a sua entrada lá também.
- O senhor está querendo dizer que eu, o renomado senador, vai virar um sem-teto?
- Aqui a lei é para todos. Cada um colhe o que planta. – Dizendo isso o Diabo fechou o grande portal.
Lá estava mais uma vez o senador no elevador indo em direção ao purgatório. O elevador voltou a subir. Desta vez a demora para chegar, lhe pareceu uma eternidade. Tinha agora a certeza de que estava preso ali, cumprindo algum tipo de penitencia pelos erros cometidos. Novamente o elevador parou e a porta se abriu. Deu graças a Deus quando viu que não havia ninguém a sua espera, como das outras vezes.
Já do lado de fora, olhou a volta e avistou mais na frente uma grande porta. Acima dela pode ver escrito “Purgatório”. É para ali que tenho que ir. Distraído encaminhou-se naquela direção, mas logo também foi contido. Desta vez não soube identificar quem o parou, só escutou aquele homem ordenar:
- Queira, por favor, se dirigir ao final desta fila senhor e aguardar a sua vez.
- Mas eu sou um senador, tenho prioridades.
- No final da fila. – Insistiu o homem já sem paciência e que parecia ser o segurança do local.
- Isso é um absurdo. Saiba que vou reclamar com o responsável sobre essa sua forma de tratamento.
- No final da fila. – Gritou grosseiramente.
O senador como de hábito tentou subornar, mas foi em vão. Vendo mais uma vez que não tinha alternativa procurou o final da fila. Começou a caminhar e logo notou que seria longa a caminhada, pois não conseguia ver o final. Depois de muito andar, parou e perguntou a um dos que estavam na fila:
- Esta fila é para se entrar no purgatório?
- Não senhor. Esta é para pegar a senha do atendimento.
- Como assim? – Quis saber o senador.
- Aqui o senhor vai pegar a senha para fazer a triagem. Depois o senhor vai para aquela outra fila. Se der tempo o senhor é atendido hoje, caso contrário terá que voltar amanhã para essa fila e pegar uma nova senha. Quando for atendido se estiver tudo certo, aí sim o senhor será recebido no Purgatório.
- Mas ainda corremos o risco de não podermos entrar.
- Lógico, se o senhor não atender aos quesitos mínimos exigidos, não entra.
- E é muito rígida essa seleção?
- Não muito. O senhor só não pode e ter se suicidado.
- E quem se suicidou, vai para onde.
- Essa informação eu não sei dar não. É melhor o senhor procurar saber quando for atendido.
O senador lembrou-se de quando em vida. Encontrava-se na mesma situação daqueles pobres, que o procuravam para conseguir alguma melhora de vida e ele os encaminhava a qualquer departamento do governo sabendo de antemão que nada conseguiriam, mas como precisava manter a aparência de grande defensor dos necessitados não tinha o menor escrúpulo em enganá-los.
Pensou: – Estaria ele sendo submetido ao mesmo processo?





























Safado não tem idade

Astrogildo Camparato, estava completando sessenta anos. Como de costume, reunido com seus familiares comemorava a data alegremente e gozando de perfeita saúde. Já o mesmo não podia ser dito a respeito de Amadeu, não que ele estivesse doente, mas quanto à alegria pode-se dizer que o mesmo está muito longe dela e o responsável por esse aborrecimento foi, um terrível golpe sofrido dias antes, dado por seu amigo Henrique. Todavia Amadeu não deixou de comparecer a comemoração do aniversário do seu cunhado, irmão da sua mulher, mesmo sabendo que corria o risco de ser gozado por ele.
Estavam todos na espaçosa varanda e durante a pequena, mas aconchegante reunião, Astrogildo tomou conhecimento que seu cunhado havia sido enganado por um corretor de imóveis da região dos lagos.
Amadeu acabara de comprar uma casa inexistente. Para Astrogildo, gozador nato, aquele acontecimento era um prato cheio para enaltecer suas próprias qualidades de esperto. Sempre que podia ou lhe davam trela, costumava dizer cheio de orgulho: “está para nascer alguém que consiga me enrolar”. Sarcástico, não deixou passar a oportunidade e cutucou o cunhado.
- Não consigo entender, Amadeu. Como você pôde comprar uma casa na praia sem pelo menos ter ido ao local confirmar sua existência?
- Não havia razão, Astrogildo. Afinal, conheço o Henrique há anos. Há bem da verdade, fomos criados juntos. Como eu poderia imaginar que ele tornara-se um vigarista depois de tantos anos?
- Acredito que depois desta você aprendeu a lição e não vai cometer o mesmo erro outra vez. Vou lhe dar um conselho: quando for fazer algum outro negócio, me chama. Comigo o negocio é diferente; não se esqueça.
- Pode deixar, Astrogildo. Não vou esquecer sua recomendação. – E nem seu sarcasmo, mas eu ficaria muito feliz se você levasse uma lição parecida. Ah! Se não ficaria. – Pensou Amadeu, fazendo um esforço sobrenatural para não jogar na cara do seu cunhado toda a raiva que estava sentindo naquele momento.
Terminada a reunião familiar, e depois que todos foram embora, Astrogildo ainda ficou na varanda do seu apartamento conversando com dois de seus filhos.
- Não havia razão para o Amadeu ficar aborrecido. – Comentou.
- O tio perdeu mais de cem mil e o senhor ainda o goza? Queria o que? Que ele ficasse satisfeito? – Repreendeu Petrônio, seu filho mais velho.
- Quando propus que me chamasse, eu estava falando sério. Jamais tive tal intenção, apesar de ter tido vontade de rir.
- O senhor vive de sacanagem! Achou mesmo que ele ia acreditar o contrário? – Joel, o outro filho, completou a repreensão.
Astrogildo, homem de temperamento forte, acostumado a concordarem sempre com ele mesmo sem ter razão, vendo que já não tinha tanta ascensão sobre os filhos, resolveu encerrar a conversa alegando estar tarde.
- Bem, vamos dormir e esquecer tudo isso. Tenho certeza de que da próxima vez ele tomará mais cuidado. Se ele tivesse viajado e feito como eu, não estaria passando por isso.
Essa colocação de Astrogildo era referindo-se à compra dos três imóveis que acabara de adquirir em São Lourenço, famosa estação de águas minerais e medicinais, que costumava ir frequentemente. Há duas semanas atrás, quando lá esteve, tomou conhecimento de que seu Honório, um senhor de noventa e dois anos, estava vendendo todos os seus imóveis. Procurou vê-los e quis saber o porque da venda.
A razão para tal procedimento era de que queria distribuir em vida o dinheiro aos seus herdeiros, na tentativa de conservar a união da família, pois segundo ele a experiência lhe mostrava que herança era sinônimo de contenda, e ele não queria isso para sua família.
Astrogildo sabendo que o preço dos imóveis estava bem abaixo do mercado, comprou o galpão, dois apartamentos e três lojas comerciais. Na ocasião da compra não pôde passar os imóveis para seu nome porque estavam todos em escritura única. Orientado por seu advogado, fez um documento particular de compra dos referidos imóveis e o reconheceu no cartório daquela cidade. Ficou marcado para o dia 22 de março, vinte e um dia mais tarde, o desmembramento de uma só vez dos imóveis. Tal alegação foi em razão de ter um único gasto, pois o outro comprador que adquiriu o restante dos imóveis só poderia efetuar o pagamento na referida data.
Os dias passaram e na data marcada Astrogildo viajou de volta a São Lourenço para lavrar a escritura. Entretanto, para sua surpresa, ao voltar à cidade para fazer o desmembramento e acertar a nova escritura, ficou sabendo que os imóveis que adquirira, também haviam sido vendidos para um terceiro comprador. Não havia passado um mês da descoberta da compra do imóvel inexistente que seu cunhado Amadeu fizera e agora era ele, o tão experiente Astrogildo, passado para traz por um velhinho com mais de noventa anos e ainda por cima, do interior.
Estava agora envolvido em uma ação contra o velho vigarista. Era demais”. – Pensava Astrogildo.
Parece que o destino escolhera aquela família para pegar suas peças, e como não podia deixar de ser esse fato também não passou em branco e acabou caindo nos ouvidos do seu cunhado Amadeu, que fingindo não saber do que estava acontecendo; promoveu um churrasco em sua casa e convidou toda a família. Quando todos já estavam reunidos, pediu um momento de silêncio. Queria fazer um pedido. Todos passaram a prestar atenção a ele, que falou:
- Astrogildo, eu quero saber se ainda está de pé a sua proposta.
Astrogildo logo imaginou que iria ser gozado por seu cunhado e procurou se controlar, para não lhe dar o gosto da gozação.
- Que proposta é essa? Não me lembro de ter-lhe proposto algum negócio.
- Da última vez que nos reunimos você me aconselhou a procurá-lo quando eu estivesse para realizar outra compra de imóvel, certo?
- Ah! Estou lembrando agora.
- Então! Estou pretendendo comprar uns imóveis que o seu Honório está pondo a venda lá em São Lourenço, o que você me aconselha?
Os familiares reunidos não se contiveram e tiraram um sarro do experiente Astrogildo; foi uma risada só. Afinal, o grande esperto tinha sido passado para trás por um velho matuto do interior.


















O Bispo e o Fazendeiro – I

Padre Juca adoecera. Religioso liberal muito querido na paróquia próxima ao santuário localizado na cidade de Bom Jesus da Lapa, pequena localidade do interior da Bahia. Devido à escassez de padres naquela diocese, o próprio bispo Romualdo, conhecido por sua austeridade, estava atendendo aos fiéis no confessionário, naquele final de semana. Apesar da grande quantidade de romeiros frequentando a pequena cidade, tanto o padre quanto o bispo conheciam cada fiel da localidade e praticamente seus pecados.
- Em uma das ocasiões em que estive com o padre Juca, ele falou-me a seu respeito. Dado a sua penitencia, achei que não cometeria mais esse tipo de erro, senhor Telmo. – Censurou o bispo.
- Eu procuro me manter fiel ao que prometo ao padre, mas é muito difícil. – Desculpou-se o fazendeiro.
- E o que o senhor pretende fazer desta vez para amenizar sua falta.
- Vou doar cem mil para a Igreja. Com essa quantia o senhor bispo pode também me perdoar?
A oferta de Telmo foi tão alta, nos dois sentidos, que ressoou por toda igreja.
- Jamais. – Esbravejou o bispo no mesmo tom. – A igreja e nem eu aceitamos esse tipo de barganha.
- É pouco? Posso oferecer bem mais! – Telmo continuou no tom alto.
O bispo mostrou-se indignado. Silêncio total na igreja. Telmo não teve resposta.
Diante daquele silêncio inquietante, Telmo insistiu falando, desta vez baixinho, para que só o bispo o escutasse.
- Já entendi. Sendo o senhor um Bispo o preço é mais alto. Diga, quanto?
- De onde tirou essa ideia de que pagando será perdoado? – Perguntou o religioso, no tom de voz alto para que todos o escutassem.
- Ora, não tem um ano que doei ao padre Juca uma quantia igual a essa e ele me concedeu o perdão. – Telmo continuava falando baixinho, só para o religioso escutar.
- Um homem não é perdoado pelo que paga, mas sim pelo seu real arrependimento. – O bispo entendeu e também sussurrou.
- Já que o bispo não perdoa, vou esperar e falar diretamente com padre Juca quando ele retornar. – Insistiu falando baixo.
- Mas ele também não irá perdoá-lo.
- Então o padre Juca, lamentavelmente terá que devolver todo o dinheiro que doei das outras vezes. – Telmo perdeu o controle e voltou a falar alto.
- Fale baixo, pecador. Quantas vezes o senhor já fez essas doações? – Quis saber o bispo visivelmente interessado.
- Vinte ao todo.
- Virgem Maria Santíssima! – Espantou-se o bispo.
- O senhor bispo precisa entender... Tenho muitos interesses e vira e meche acabo pecando.
- Não se trata só de entender, o senhor tem pecado de mais, meu filho. – Repreendeu.
- Mas sempre me arrependo e venho confessar.
- Preciso consultar o Altíssimo para saber qual decisão devo tomar para com o senhor.
- E essa sua consulta vai demorar muito? O padre Juca costuma ter a resposta imediata.
- Não demora nada.
Novamente o silêncio se fez por toda a igreja, dando margem dessa forma aos comentários maliciosos de alguns dos fiéis que estavam presentes.
- O que você acha Quinzinho? O bispo vai aceitar toda essa dinheirada e perdoar o seu Telmo ou não?
- Sei não. O bispo sempre se mostrou uma pessoa íntegra, mas agora está me parecendo meio em dúvida.
- Cem mil é muito dinheiro gente. Para mim ele vai aceitar. – Garantiu Armandino, outro fiel que escutava a conversa dos dois.
O bispo continuava pensando com seus botões: “A igreja já está mesmo endividada na pessoa deste padre esperto. Não vejo razão para não perdoá-lo também e tirar algum proveito disso tudo”. Logo o bispo voltou a sussurrar.
- Acabei de consultar o Altíssimo, senhor Telmo.
- É mesmo? E o que ele disse?
Agora em tom grave puxando para o solene o bispo continuou falando, mas desta vez alto para que todos pudessem ouvi-lo.
- Como o senhor é um grande fazendeiro; emprega varias pessoas; seu gado e sua plantação são fontes de alimento para o lugar, e sendo um fiel assíduo a igreja, não posso deixar de perdoá-lo.
- Ah! Demos graças ao Senhor. – Agradeceu o fazendeiro também alto para que todos o escutassem.
- Porém terá que ser pelo dobro do prometido aceita? – Dessa vez o bispo quase foi inaudível.
- Eu pensei que tínhamos nos entendido quanto ao valor? Não está um pouco exagerado essa quantia? – Indagou também sussurrando.
- De forma alguma! É pegar ou largar, só assim tenho a certeza que o senhor pensará melhor nas próximas vezes em que for pecar. – Agora o bispo planejava. “Se ele aceitar fico com a metade e dou o restante para a igreja”.
- Duzentos mil? Mas isso é pior que ser assaltado. Não dou e desisto de ser perdoado. – Gritou o fazendeiro.





Amarras da ganância

Manuh um alquimista rico e excêntrico, aproveitava-se da fraqueza humana e mantinha seu sobrinho Emir, durante vinte e quatro horas, a seu lado servindo-o como se um escravo fosse. Tratava-o rudemente dia após dia e humilhava-o sempre quando havia alguém por perto. Sem contar que este não podia se ausentar em hipótese alguma do apartamento onde viviam. Para nada, nem mesmo para efetuar alguma compra por mais necessária que fosse. Tudo era pedido por telefone e entregue na residência pelo serviço de delivery.
Tal imposição era enlouquecedora. Emir pensava em abandoná-lo, porém a herança que tinha a receber o impedia de tomar aquela decisão.
Precisava continuar sujeitando-se aos caprichos de seu tio até sua morte. Dedicara-se a vida inteira cuidando dele, para ter o direito de ser seu único herdeiro. Renunciar agora era perder tudo e isso com certeza ele não faria jamais.
Seu tio além de tudo era sádico, pois não perdia a menor oportunidade de infernizar-lhe a vida.
- Já pensou alguma vez em me matar, Emir?
- Já, meu tio. E posso garantir que foram muitas vezes.
- E por que não o fez ainda? Ficaria livre de mim para viver o que lhe resta de vida.
- Existe um contrato de segurança e eu sei muito bem que eu não posso fazer isso, pois perco o direito da herança.
- Matando-me, você estará me fazendo um bem enorme. Faça isso, eu preciso descansar e você também.
- De forma alguma. Eu prefiro me cansar agora e depois com o dinheiro que vou herdar do senhor, descansarei aproveitando as delícias da vida.
- Aos quarenta anos você já está mais do que cansado. São trinta anos que você está nessa luta e eu não morro. Quanto tempo mais você acha que vai aguentar?
- Falta pouco. Mais um ou dois anos no máximo e eu fico definitivamente rico e livre do senhor.
- Não vai ser tão fácil assim, meu sobrinho. Ainda vou viver muito.
Sempre que mencionava essa frase Manuh balançava nas mãos um pequeno frasco para que Emir o visse.
- O senhor vai fazer cento e oito anos no próximo mês. Acredita mesmo que ainda vá viver muito?
- Quem sabe? Minha saúde continua perfeita.
- Mesmo assim vou esperar a ação do tempo.
- Como alquimista tudo posso transformar. Esqueceu?
- É o que o senhor diz, mas eu particularmente nunca lhe vi transformando nada.
- Então aguarde a sua maior surpresa.
Os meses foram se passando e nada mudava. Emir começava a dar mostra do cansaço por tanto esperar a morte do tio, mas sempre botava a frente de tudo a vantagens que passaria a usufruir quando ele se fosse e assim ia vivendo dia após dia.
Algumas semanas mais tarde Emir acordou e reparou que seu tio ainda não tinha se levantado. Uma alegria estranha tomou conta do seu ser e ele correu para a porta do quarto e parou, pois seu tio o proibia de entrar ali, mas sua curiosidade era tanta que abriu a porta e entrou. Na sua cabeça cansada pensava encontrá-lo morto. Ledo engano, o velho estava lá firme e forte se arrumando para fazer o desejum como sempre fazia, só estava um pouco mais atrasado do que o de costume.
- O que houve Emir? Você não sabe que eu não gosto que entre no meu quarto?
- Pensei que estivesse precisando de ajuda. - Respondeu rapidamente.
- Ou pensou que eu havia batido as botas? - Ironizou o velho alquimista.
- Não meu tio! Pensei realmente que precisasse de alguma coisa por isso entrei.
- Que isso não se repita mais. Já lhe falei a respeito e não vou me repetir, se acontecer novamente nosso contrato será desfeito e você perde toda minha herança. Quando eu morrer é claro. - Dizendo isso deu uma estrondosa gargalhada.
Emir saiu do quarto muito aborrecido e desanimado. Quando estava quase chegando a copa onde serviria o café, escutou um barulho.
Voltou correndo.
Viu seu tio caído no corredor e de sua mão um pequeno vidro rolara para o chão deixando como rastro um filete do líquido que ele acondicionava. Lembrou que seu tio não o largava por nada. A alegria tomou conta do seu ser quando viu que ele estava morto, quebrara o pescoço na queda. Imediatamente associou o líquido do vidro derramado no chão ao Elixir da Vida. Rapidamente lambeu toda a área por onde se espalhara. Estava rico e agora teria uma longa vida, pois bebera do líquido que seu tio inventara. - Pensou.
No mesmo instante começou a passar mal. Tentou chegar ao telefone para pedir ajuda, mas não conseguiu se mover um milímetro.
Ali mesmo junto ao corpo do tio, também, morreu envenenado.









O dilema

Arnaldo, um adolescente de dezessete anos, destaca-se dos demais colegas da sua faixa etária por ser compenetrado e sério. Todo dia, tanto indo como voltando da escola, passa em frente àquela padaria, pois é seu caminho obrigatório. Quase sempre está acompanhado por um ou mais colegas, batendo papo - e quando não, está absorto em seus pensamentos. Por essas razões ainda não tinha se dado conta das moças que ali trabalhavam. Num desses dias em que voltava sozinho, foi abordado por um rapaz que lhe entregou um pequeno bilhete. A caligrafia era feminina, dessas bem desenhadas, e dizia o seguinte: - “Vejo-o sempre passando por aqui e gostaria de conhecê-lo melhor. Que tal nos encontrarmos para tomar um sorvete? Lígia, 96969696”.
Arnaldo leu e não deu muita importância ao convite, porém resolveu mostrar o bilhete para Júlia, sua mãe, uma senhora de sessenta anos, que vive assistindo a filmes policiais na TV. Ela logo crivou o filho temporão de perguntas e recomendações, dessas de quem está preocupada. Talvez fosse um início de ciúmes, afinal, até ali não tinha conhecimento de nenhuma namorada, a não ser das meninas do colégio que estavam sempre à volta do garoto querendo alguma informação de estudo:
- Você conhece quem lhe entregou o bilhete?
- Viu a moça?
- É bonita?
- Cuidado! Não diga seu telefone e nem aonde mora!
- Não ligue para o celular dela, que nosso número vai ficar registrado.
- Pode ser algum esquema de sequestro.
Arnaldo riu e retrucou:
- Que sequestro, mãe? Lá somos ricos, por acaso?
À noite, quando o pai chegou em casa, sua mulher o pôs a par da novidade.
Este, já encontrando o cenário pronto, achou muita graça e resolveu esquentar mais ainda, também fazendo recomendações e alertas:
- Hoje em dia está cheio de travesti atrás de garoto novo. Fique atento!
- Cuidado filho, pode ser de algum pedófilo. Já pensou nisso?
Não achando graça na gozação, Júlia sentenciou:
- Vou lá amanhã e tiro isso a limpo!
Nesse momento, vendo que a coisa estava ficando séria, Arnaldo argumentou:
- Gente, o cara da padaria só me entregou o bilhete. Por que tanta preocupação?
No dia seguinte, Arnaldo resolveu conhecer sua admiradora secreta. Quando passou de manhã pela padaria, deu uma corujada e viu o rapaz, um velho e duas mulheres. Uma era velha e feia, a outra bem mais ajeitadinha e interessante. Sem muito tato e experiência, foi direto ao assunto:
- Quem é Lígia?
Esta se apresentou rapidamente. Era a mais velha e feia.
Nossa! Que falta de sorte. Tenho que sair fora. – Pensou.
- Quantos anos você tem?
- Vinte e sete! – Respondeu sorridente e sem nenhum escrúpulo.
Como sempre sem muito tato, Arnaldo deu o desfecho.
- Depois eu falo com você tia!
Dizendo isso, escafedeu-se.






A Vingança da Geni

Carlão e Pezão são dois marginais pé de chinelo que mal dão conta de roubar galinha, quanto mais executar um assalto de média proporção. Mesmo assim resolveram assaltar a casa da dona Geni, uma senhora de mais ou menos oitenta anos que sofria do mal de Alzheimer. Com ela moravam a filha Roberta, de sessenta anos, suas netas Moema, na casa dos trinta, Otília, com vinte anos, e um bisneto ainda criança.
Tal decisão de assaltar aquela casa foi devido à constatação de a porta de entrada estar sempre destravada, ou até mesmo aberta, a qualquer hora que eles por ali passassem.
Depois de muita observação na rotina dos moradores, Carlão sentenciou que fariam o assalto na sexta-feira por volta das nove horas da noite, horário em que dona Geni sempre ficava sozinha em casa. Dessa forma não teriam muito trabalho para executar o serviço.
Pezão, que era por demais supersticioso, reclamou lembrando ao amigo que aquela sexta seria dia treze, mas sua reclamação não encontrou respaldo por parte de Carlão. Afinal, não estavam no mês de agosto, lembrou este.
O tempo passou rapidamente e a sexta-feira chegou.
Pouco antes do final da tarde, Carlão notou que o amigo estava nervoso e quis saber o motivo de tanta tremedeira. Logo foi lembrado por Pezão que era dia treze e que ele não estava muito seguro de realizar o assalto. Diante desse impasse Carlão resolveu que eles iriam tomar uma pinguinha e uma cerveja lá no bar do Chumba antes de começarem o serviço. Assim ficariam mais relaxados.
Pezão novamente reclamou alegando ser muito cedo para começarem a beber. Sentindo que era mais uma das desculpas do amigo, Carlão mostrou-se irredutível, e ainda assim foram para o bar.
Logo que chegaram beberam a dose de pinga e pediram uma cerveja bem gelada. Outra dose de pinga e outra cerveja bem gelada.
Depois daquela rodada dupla, Carlão quis saber se o amigo já estava mais tranquilo. Vendo que Pezão ainda tremia, mandou vir outra remessa igual. Mais quatro pingas e duas cervejas foram servidas, e com esse reforço Pezão pareceu-lhe estar no ponto um pouco bêbado como ele, mas pelo menos tranquilo. Entretanto, só depois de mais uma rodada de birita é que resolveram ir "trabalhar".
E lá foram eles para o local do crime.
Chegaram. Mais uma vez viram que a casa estava às escuras e totalmente franqueada à visitação de quem nela quisesse entrar. Não perderam tempo.
Diante do pesado portão de madeira que ficava na frente da casa, olharam para um lado e para o outro da rua. Estava deserta, a maioria das janelas das casas ao redor estavam fechadas. Foi quando Pezão perguntou se as casas estavam mexendo. "Nada está mexendo, nós é que estamos um pouco bêbados", revidou Carlão.
Pezão então empurrou o portão até o fim e entrou largando-o, que estando sob a pressão de uma potente mola, voltou com tanta violência na cara de Carlão que arrancou-lhe no ato os quatro dentes frontais: dois de cima e dois de baixo.
Sangrando e gemendo baixo, Carlão também entrou, e sua vontade era de matar o amigo pelo acontecido. Subiu o lance de escada do patamar que ficava antes da entrada e não entendeu por que Pezão continuava parado em frente da porta. Tendo pressa em entrar para sair da vista dos vizinhos, Carlão decidiu ele mesmo abri-la e, empurrando o amigo para o lado, meteu a mão na maçaneta. Esse ato o faria se arrepender por um bom tempo.
A porta de ferro era ligada à eletricidade para que dona Geni não fugisse e ficasse perambulando pelo grande condomínio. Essa foi a forma que Roberta, sua filha, encontrou para segurar a mãe em casa enquanto estavam trabalhando fora. Assim, Otília, que era a última a sair, lá do portão ligava o dispositivo na campainha que causava um pequeno choque na senhora e a impedia de fugir. Entretanto, naquela tarde, num instante de lucidez e cansada de levar choquinhos, dona Geni resolveu se vingar e por conta própria prendeu um fio no cantinho da porta, enfiando a outra ponta na tomada da casa. Tudo para que sua filha tomasse um choque bem mais forte quando chegasse do trabalho.
Por alguma razão desconhecida a combinação das correntes elétricas naquele momento estava muito alterada, e Carlão tomou uma descarga tão forte que sua mão ficou grudada na maçaneta. No esforço para soltar-se, deu uma cotovelada em Pezão e o mesmo caiu do alto do platô já com o nariz quebrado.
Os dois bêbados, sangrando copiosamente, entraram na casa à procura de algo para estancar tanto sangue. No curto trajeto da porta até a cozinha já sentiram o mau cheiro no ar. Na escuridão não repararam que o chão estava com bosta para todo lado; deram alguns passos e simultaneamente escorregaram na merda: um tombo só e de costas na sujeira. Agora não era só local que fedia, mas eles também.
Pezão lembrou ao amigo que era sexta-feira 13, e por isso estava dando tudo errado. Foi chutado por Carlão.
Não podiam pôr as mãos na boca nem no nariz para limpar o sangue, pois estavam sujas de bosta. Como não encontraram o interruptor para acender a luz, continuaram no escuro. Com muito custo encontraram a torneira da pia abriram e não havia água.
Suas vistas começavam a se acostumar com o ambiente e na penumbra viram uma bacia com água. Não titubearam e ao mesmo tempo apanharam com as mãos o precioso líquido para se lavarem. Mas ao molharem o rosto descobriram que era mijo. Na raiva varejaram a bacia longe causando um barulho estrondoso dentro da casa.
Já não estavam mais tão bêbados.
Toda aquela barulhada acordou dona Geni, que do alto da escada para o segundo andar acendeu todas as luzes e pôde ver os dois meliantes no meio da sala. Com a súbita claridade, os dois ficaram praticamente cegos e sem saber para onde ir.
Dona Geni não pensou duas vezes. Pegou seus dois penicos e dali mesmo acabou de fazer o serviço. Jogou merda misturada com mijo em cima dos dois, que ao tentarem fugir ainda levaram outro escorregão. Dessa vez deslizaram em direção à porta e, ao encostarem molhados na descarga elétrica, ficaram agarrados nela. Aos gritos pediam socorro.
Com tanto barulho os vizinhos chamaram os policiais do posto dentro do condomínio, os quais rapidamente chegaram e prenderam os safados. Foram algemados e como primeiro castigo tiveram que ir andando até a distante delegacia, pois ninguém aguentava tanta fedentina.














A Capelinha

Quem hoje passa pela antiga e bucólica estradinha de terra, ainda pode ver a pequenina igreja no alto do morro. Há mais de setenta anos encontra-se nesse estado: solitária, abandonada e quase caindo aos pedaços; mas outrora concorrida e com dias de glória.
Quando procurei saber o porquê do abandono tive como resposta se tratar de “a capela do capeta”.
Nos habitantes mais velhos do lugarejo o difícil era encontrar alguém com a coragem de contar ou que ainda se lembrasse do ocorrido.
O senhor Jorge Casillas, um imigrante espanhol de oitenta e seis anos, era um dos poucos que, quando perguntado, contava sua versão histórica. Talvez pela idade avançada, explicava ora de um jeito, ora de outro, mas basicamente não mudava o ocorrido. Isso segundo os demais habitantes acostumados a sempre ouvir sua história - ou melhor, a história da igrejinha.
Como todo viajante curioso, parei para escutá-la, já que teria de passar a noite no lugarejo. E sentado no precário bar da cidade também ouvi seu Casillas, como gostava de ser chamado, contar que, toda quinta-feira, o padre Romão costumava estar na igreja, no seu tradicional confessionário, recebendo os fiéis para que se aliviassem dos pecados. Praticamente todos os moradores do local e das cercanias compareciam para saldar o compromisso cristão. Daí então, na manhã de domingo, durante a missa, recebiam em comunhão o corpo de Cristo, como reza a tradição.
Essa era uma das rotinas que já fazia parte da vida do lugar, mas a partir de uma determinada época, época essa que aí ele, seu Casillas, já não soube mais precisar, a igrejinha passou a estar também iluminada na última sexta-feira do mês. E quase sempre até quase meia-noite, coisa incomum naquele tempo pois, devido ao horário tardio, ficava perigoso alguém andar pelo local. Muitos até passaram a se preocupar com o padre Romão, pois o mesmo morava numa casa de madeira ao lado da igreja.
Sempre que ele vinha à cidade, ou mesmo após a missa do domingo quando lhe era perguntado o porquê das luzes acesas na sexta-feira, o padre dizia estar ouvindo ranger de dentes, barulhos nos bancos e estalos no interior da igreja, mas logo que a luzes eram acesas tudo cessava. Enfim, um grande mistério que tomou proporção maior quando então os moradores que viviam mais próximos da pequena igreja passaram também a escutar os tais barulhos, sendo que agora até com as luzes acesas e só parando por volta da meia-noite, o que levou Romão a mudar da casa paroquial para outra no centro da cidade.
Nesse momento seu Casillas sempre dava uma pausa, o que levava algum dos ouvintes a perguntar o que fora feito para descobrir e solucionar o problema. Ele sorria satisfeito, pois sabia que estava sabendo valorizar o mistério que tanto atormentou a cidade. Continuou lentamente com sua narração, fazendo com que a curiosidade e a agonia de quem o escutava aumentassem.
Os moradores pediram para que as autoridades investigassem o local para saber o que realmente estava acontecendo por lá. A cidade contava com um destacamento policial de três militares. Um sargento, autoridade maior, e dois soldados, que se revezavam nos plantões noturnos.
Naquela sexta-feira 13 de agosto de noite de luar prateado, a barulheira era ensurdecedora. Parecia que o diabo estava presente lá, fora e dentro da capela. O caminho que levava até a igreja estava nítido, mas quem se arriscava a ir lá? Foi quando o soldado Valentim, depois de muito relutar, acompanhado de sua espingarda e de um lampião de gás, resolveu investigar. No meio do caminho o barulho aumentou e ficou de tal maneira ensurdecedor que Valentim quis voltar, mas alguns moradores que o seguiam o impediram. Continuaram a caminhada em direção à capela que agora já estava às escuras e, para espanto de todos, quando lá chegaram não encontraram mais nada. A casa em que o padre Romão vivia tinha sumido, e no local estava um monte de pó. Da igreja, só restavam as paredes em pé. Tudo o que era de madeira havia sumido, telhado, porta, janelas, bancos, mesa eucarística e o altar. Nem mesmo os Santos, também de madeira, escaparam.
Os cupins haviam devorado tudo e uma mensagem foi escrita no chão fora da igreja:
Este local agora me pertence. Eu venci.”
Desde então ninguém mais se atreveu a ir àquele local e uma nova igreja foi construída aqui na praça. Fitando a todos nos olhos, Casillas deu por encerrada a história dizendo: “falam que ainda hoje está lá para quem quiser ver, a mensagem.” Com um sorriso enigmático, seu Casillas se despediu e foi para casa.


















O Azarado

Como diz o ditado popular, Juliano estava feliz que nem pinto no lixo.
Mas qual a razão para tanta alegria?
Para quem o conhecia era fácil de adivinhar. Todos sabiam que nos últimos cinco anos Juliano não conseguia arranjar um trabalho fixo de carteira assinada, e olha que ele era um grande profissional da sua área. Honesto, educado e trabalhador.
Pois bem, parece que a má fase havia terminado. Ele agora era o motorista particular de um grande empresário paulista. De segunda a sexta feira iria dormir na mansão do patrão, condição imposta pelo mesmo para que não se atrasasse. Poderia inclusive levar um dos carros para casa no final de semana.
Era tanta satisfação, que os planos para sua família logo vieram à tona. Tudo já estava praticamente esquematizado: nos três primeiros meses comprariam os tijolos, a areia e o cimento para as obras de melhoria e expansão da casa. Um novo quarto para sua filha era mais do que necessário e a varandinha para passarem as tardes não ficava atrás. Depois trocariam os sofás, pois os buracos e as molas tomaram conta do pedaço; sem contar também que não podiam mais protelar a troca da geladeira, um descuido e o choque era certo quando nela encostavam.
Tudo ia às mil maravilhas. Aquele primeiro mês passara voando e tudo indicava que o patrão estava muito satisfeito com seus serviços.
Entretanto, Juliano não contou com o imponderável.
Naquela manhã, ao acabar de limpar o automóvel, tirou-o da garagem, levou-o até a entrada principal da casa e estacionou. Ali era onde seu patrão gostava de embarcar. Deixou o veículo ligado e foi avisá-lo que estava a sua disposição.
Não deu dez passos e escutou o barulho.
Voltou correndo e não acreditou no que viu: o caminhão de lixo perdeu o freio na ladeira e entrou na traseira da Mercedes. Estrago total no carro e desespero para Juliano.
Seu Sílvio, ao escutar a movimentação, veio ver o que estava acontecendo. Não esboçou nenhuma reação de aborrecimento. Vendo a preocupação do seu motorista, tranquilizou-o mandando que pegasse outro carro e disse: meus advogados se encarregarão do ocorrido.
Juliano ficou feliz, mas redobrou sua atenção no trabalho.
Os dias se passaram e o acidente foi esquecido, mas os advogados entraram com o processo contra a empresa de limpeza urbana.
Tudo voltara ao normal na vidinha do Juliano. Confiança no trabalho e sonhos reavivados. Entretanto, outra vez o imponderável rondava a vida desse lutador. Para seu desespero, quinze dias após aquele acidente com o caminhão de lixo, estava ele parado no sinal quando novamente seu carro foi abalroado com tanta violência que foi empurrado para debaixo do caminhão que estava a sua frente.
Novamente estrago total no carro e desespero dobrado para Juliano, pois desta vez seu patrão, sentado no banco de trás, deslocou o pescoço com a forte pancada.
Após atendimento médico e já com o pescoço imobilizado, seu Sílvio tranquilizou seu empregado com a mesma frase: meus advogados se encarregarão do ocorrido.
Pegaram um táxi e foram para casa.
Um terceiro carro foi posto à disposição de Juliano, que às escondidas o benzeu seguindo religiosamente o que a conhecida “Mãe de Santo” de onde morava havia lhe ensinado.
Depois disso estava ele novamente confiante. Tinha total certeza de que nada mais aconteceria, mas será que o imponderável teria sido realmente afastado?
Os dias, como não podia deixar de ser, se passaram. Uma semana mais tarde lá estavam, ele e seu patrão, tranquilamente abastecendo no posto de gasolina que ficava próximo à residência, quando um carro desgovernado entrou posto adentro e atingiu outra vez seu carro que estava paradinho ao lado da bomba. Com a pancada começou um princípio de incêndio, logo apagado pelos frentista.
Mais uma vez estrago total.
Juliano sentou na mureta do posto e desconsolado chorava copiosamente.
De novo ouviu seu patrão dizer: meus advogados se encarregarão do ocorrido.
A felicidade estampou em seu rosto. Entretanto, continuou a ouvir a voz do patrão: mas você por favor passe amanhã no departamento de pessoal da empresa, que está despedido. Não tenho nada contra sua pessoa, mas não dá para aguentar tanto azar.

















Nobreza espiritual

Naquele centro de recuperação existente em algum ponto da eternidade, Haroldo e Sofia um casal dedicado e com larga experiência no tratamento de espíritos rebeldes, era entrevistado por Evaristo, um dos mentores espirituais mais evoluído e o responsável pela execução dos trabalhos realizados com aqueles espíritos desorientados.
- Meus irmãos... Acabo de tomar conhecimento do pedido para uma nova missão na carne. Estão realmente certo dessa decisão?
- Estamos.
- Sabe o quanto vocês são importantes aqui. Muito mais do que encarnando outra vez na terra.
- Sabemos perfeitamente, mas ficaremos ausentes somente por um curto período. Logo estaremos de volta e continuaremos nosso trabalho junto à comunidade.
- Quanto a isso não tenho dúvidas. – Afirmou Evaristo.
- Então porque a objeção em encarnarmos. Faremos isso para que nossos protegidos a qual amamos tanto, tenham uma nova oportunidade de aprendizado e resgates na carne.
- Também sei disso, mas tenho a obrigação de lembrá-los o quanto é arriscado essa missão. Sempre há o risco de um comprometimento.
- Não estaremos sós e confiamos que teremos toda a proteção merecida.
- Vejo que estão mesmo decididos a viajarem. Então não me resta alternativa que não seja a de apoiá-los e esquematizar sua estada por lá.
- Que bom. Sabíamos que poderíamos contar com você.
- Diga-me quando estão pretendendo ir?
- Assim que ficarmos liberados.
- Bem, acredito que Sofia estará mais tempo comprometida por aqui do que você, Haroldo. – Comentou Evaristo.
- E verdade, mas já acertamos d’eu ajudá-la nesta doutrina.
Continuaram conversando por um longo tempo até que tudo ficou previamente acertado.
- Não resta dúvida. Essa é realmente a melhor maneira para realizar essa missão. – Concluiu Haroldo.
- Bem, só me resta agora desejar que consigam realizar seus desejos e que seus protegidos não desperdicem a nova oportunidade.
Haroldo viria primeiro. Depois Sofia viajaria para fazer-lhe companhia na terra. Encarnariam com uma diferença de oito anos entre eles. Após se conhecerem e casar seriam os responsáveis pela viagem de entrada dos três irmãos que eles queriam ajudar. A convivência entre eles não poderia ultrapassar cinco anos para que não comprometesse a missão.
Haroldo e Sofia pediram a Evaristo para que os deixassem encarnar junto daquelas famílias que eles escolheram, pois assim aproveitariam, já que alguns estavam encarnados, para resgatar algumas dívidas pendentes com eles, e no final das suas estadas na terra também estavam dispostos a sofrerem pequena provação para contrabalançar alguma falha cometida e aprimorar ainda mais seus espíritos. Tudo acertado, a nova missão se deu início.
Haroldo encarnou e foi batizado com o nome de Fernando. Quase sete anos mais tarde Sofia também chegou a terra e foi batizada de Maria. Pronto. A primeira parte da missão estava completada, agora era só esperar o tempo passar.
Vinte anos mais tarde Maria conheceu Fernando e casaram-se. Dessa união nasceram seus três filhos. Kleber, Pedro e Fernando. Conforme o determinado na espiritualidade Fernando e Maria conviveram com seus filhos durante o período permitido em verdadeira alegria. Estava realizada a segunda parte da missão.
No início do quinto ano que estavam juntos, os dois adoeceram de uma moléstia que na época era fatal. Começava a última parte do que eles se comprometeram na espiritualidade.
Durante um ano de resgate esses dois generosos espíritos sofreram na carne, os efeitos devastadores da doença, e na alma, os dissabores do abandono e a ingratidão dos familiares.
Como parte integrante da missão deixaram cada um de seus filhos e protegidos sob a responsabilidade de três famílias amigas, que previamente se comprometeram a encaminhá-los nesta jornada.
Estava completada a missão que Haroldo e Sofia se dispuseram a realizar encarnados. Retornaram a eternidade e foram recebidos pelo próprio Evaristo.
- Parabéns, meus queridos irmãos. Vocês conseguiram.
- Obrigado pelos parabéns Evaristo, mas sem a sua proteção não teríamos conseguido, e tem mais: – Só fizemos nossa parte. Tomara que eles também façam a deles e consigam conviver como irmãos.
- Isso, nem a nós é permitido conhecer. Saberemos com o tempo.















Cúmplices e derrotados

Os Grimaldi, após passarem quinze anos casados, descobriram que não podiam ter filhos. Parecia ironia do destino, os dois eram estéreis. Talvez essa tenha sido a forma que a vida encontrou para aplacar a arrogância deles.
- Sempre tive em mente de que você era o único responsável por não termos filhos. – Dizia Mara, totalmente arrasada.
- Pois eu tinha certeza de que você, é que era a incapacitada. – Contra atacava, Jairo.
Não adiantava mais brigar e nem tentar engravidar, pois não conseguiriam. Os exames indicavam ser irreversível o quadro dos dois. Sabendo disso resolveram então adotar uma criança.
O casal de temperamento forte vivia às turras, até para encontrar o caminho para uma possível adoção tornou-se complicado. Não havia um dia que não brigassem e muitas das vezes essas brigas ultrapassavam os muros da própria casa, indo parar na delegacia. O difícil convívio que mantinham com a vizinhança, lhes impedia as boas amizades.
Mara, todo tempo que dispunha livre, procurava junto às instituições que ofereciam a guarda de crianças, uma que a agradasse. Finalmente, depois de várias tentativas encontrou o tão sonhado filho. Não perdeu tempo e deu entrada no processo de adoção. Entretanto, foram rejeitados pela agente social nesse processo adotivo logo na primeira entrevista. Mesmo assim não desistiram de ter um filho. Os meses passaram e a ideia continuava fixa.
Mara e Jairo não se cansavam da procura e todos que se achegavam deles, sempre expunham suas intenções em conseguir adotar uma criança para ocupar o vazio existente em suas vidas. Tanto procuraram e espalharam, que um dia, no centro espírita que frequentavam, tomaram conhecimento de que a parenta de uma frequentadora daquela instituição iria dar a luz a gêmeos, e que a mesma não tinha recursos para criar as crianças.
Sabedores da deficiência financeira do casal resolveram que nas férias de Jairo eles viajariam a Londrina, em busca de uma dessas crianças. Assim fizeram. O casal viajou dois meses depois, e dias mais tarde retornavam do Paraná com o sonhado filho nos braços. Era Cécil, o mais novo membro da família Grimaldi, que não mediam esforços para mostrá-lo por toda a vizinhança.
- Agora eu quero ver o que essa gentalha vai dizer? – Comentava Mara com seu marido, enquanto passeava com o filho.
- Acho melhor ficarmos na nossa, não vale a pena provocar esse pessoal. Não sabemos do que são capazes. – Aconselhou Jairo.
- Até concordo com você, mas não vou deixar de passear com meu filho.
Seus vizinhos, sabendo quem eram, não entendiam como haviam conseguido aquela adoção e viviam a especular. Em consequência de tantas perguntas e suspeitas, o casal resolveu mudar de bairro para a segurança da criança e não mais compareceram ao centro espírita. Temiam provocar alguma denúncia que pudesse levar a investigações - e isso era tudo o que eles menos queriam.
Para os mais íntimos diziam terem ganhado a criança dos próprios pais. Porém, a verdade tarda, mas não falta. Após vinte e cinco anos o destino levou Cécil a encontrar-se com alguém muito especial. Seu carro havia enguiçado e ele teve que andar de ônibus por uma semana, ocasião que conheceu um autêntico sósia de nome Pedro. Sósia este, que mais tarde veio a descobrir serem irmãos gêmeos verdadeiros. O mesmo havia nascido na cidade de Londrina.
Os pais de Pedro nunca esconderam dele a condição de adotado. Falavam que ele tinha um irmão gêmeo que fora roubado e que seus verdadeiros pais estavam vivos e viviam em Londrina. Foi através de Pedro que Cécil ficou sabendo ser filho de um casal muito humilde e que vivia numa roça próxima à cidade. Pedro foi doado por sua mãe por falta de recursos para criá-lo, enquanto que o irmão, que era ele, fora roubado dela ainda na maternidade.
Após tomar conhecimento da verdadeira história, Cécil viajou até Londrina e lá encontrou seus verdadeiros pais. Ajudou-os financeiramente e sempre que podia voltava para visitá-los.
Abalada por ter sido desmascarada, Mara passou a ter crises nervosas, sendo internada algumas vezes numa clínica psiquiátrica. Sempre conseguia uma melhora e voltava para casa, até que ao ser abandonada definitivamente pelo filho adotivo não resistiu e enlouqueceu.





















O Recorde

Em Uruana, pequena cidade do interior de Goiás, dois amigos conversavam quase bêbados. Eles cuidavam de um churrasco para vinte e sete moradores do bairro em que moravam. Estavam ali há mais de três horas e já tinham consumido uns de quinze quilos de carne e várias garrafas de cachaça.
- Por que todo esse empenho em preparar você mesmo o churrasco, Moacir?
- É porque quero me aposentando em grande estilo e também pretendo bater um recorde que vai entrar para a história.
- Conheço-o há mais de trinta anos e nunca o vi trabalhando! Pelo que sei você vive da herança que seu pai deixou.
- Nada disso, eu também trabalho.
- Vou fingir que acreditei. Ah, que recorde é esse?
- Jorjão, não seja tão curioso, amanhã se você acordar vai ficar sabendo.
- Que conversa é essa, compadre? Parece até que vou morrer. Você está me agourando?
- Com certeza você vai morrer, aliás, devo-lhe adiantar: – todo mundo aqui vai morrer entre hoje e amanhã.
- Do que você está falando?
Moacir pegou a garrafa de cachaça, encheu mais dois copos, o dele e o de Jorjão. Também distribuiu a bebida entre os presentes e os convidou para um brinde.
- Bebam. É para comemorar o recorde que pretendo bater.
Beberam quase que de uma só vez, e Jorjão, com a língua mais enrolada que carretel, pediu.
- Pode explicar melhor essa história de recorde? Eu não estou entendendo nada.
- Vou revelar só para você, mas não conte para mais ninguém esse meu segredo.
- Virgem santa homem, por que tanto mistério?
- Lembra que de vez em quando eu dou uma desaparecida da cidade?
- Lembro, mas o que isso tem a ver com esse tal recorde?
- Fique sabendo que eu sou um matador de aluguel.
- Você bebeu de mais e já não diz coisa com coisa.
Moacir, bêbedo que nem um gambá, não conseguiu manter em segredo sua intenção, deixando escapar seu plano.
- To bêbado não. A carne toda que estamos comendo está envenenada. Eu mesmo cuidei pessoalmente desse envenenamento. Aposento-me sim, mas levando comigo na viagem para o além, vinte e sete pessoas. É ou não é um recorde, para quem só matou doze de uma só vez.
- Olha compadre... Se é um recorde, eu não sei, mas gostei muito de saber disso agora... Finalmente vou descansar! – Jorjão estava tão bêbado que não imaginava o que estava acontecendo.
- Não vai ficar nem um pouco aborrecido comigo? - Perguntou Moacir.
- De maneira alguma. Como posso me aborrecer com alguém que está me tirando mais cedo desta maldita vida? Vamos brindar a isso.
Outro copo de cachaça.
Jorjão não perdeu tempo nem a calma, levantou o copo falando:
- Te vejo debaixo da marquise do inferno.
Moacir não teve tempo de brindar, seus amigos do bairro escutaram o que ele acabara de falar para Jorjão e o espancaram até a morte.





Zorro erótico

Praticamente toda semana lá estavam eles reunidos, sempre no mesmo hotel de Barra Mansa. Eram os vendedores e representantes das empresas que atendiam aos clientes da região.
Com o passar do tempo mais parecia uma grande família. Todas as noites, após o jantar, por volta das nove horas, a porta do hotel era o local ideal para um tradicional bate papo. Descontraía-se a tensão de um dia de trabalho, atualizava-se as novidades sobre os clientes, traçava-se planos e estratégias para no dia seguinte quebrar barreiras impostas por compradores e proprietários. Mas nem tudo era só seriedade.
Luiz, um dos vendedores, tinha o hábito de falar muito alto pelas dependências do hotel, fosse a hora que fosse. Quase todo dia, aos gritos deixava versos no ar ou então cantava algum sucesso do momento. Sem contar que, se precisasse de alguma informação de um colega que estivesse no aposento ao lado do seu, gritava de onde estava para que o outro respondesse. Contrariava dessa forma as normas do hotel que exigiam silêncio total.
Quando isso acontecia, Dona Judith, uma solteirona rabugenta de quarenta anos, irmã do dono do hotel e uma espécie de gerente do local, ligava imediatamente da portaria para o apartamento de Luiz para chamar-lhe a atenção. Quando não era atendida, ia pessoalmente até onde ele se encontrava e aí sim passava-lhe uma descompostura. Lá da porta do hotel eram ouvidas a bronca, bem como a gargalhada matreira do vendedor.
Num dia, Luiz avisou a todos que iria fazer uma molecagem tão grande que deixaria Dona Judith de cabelos em pé. Com essa divulgação antecipada, ninguém quis perder o acontecimento. Por volta das seis horas da tarde todos já estavam na portaria do hotel a postos.
Dona Judith estranhou a presença deles ali naquele horário. Talvez já prevendo o que poderia acontecer, estava agitadíssima e implicava com todo mundo.
Luiz chegou, passou pela portaria e cumprimentou seriamente a todos, inclusive a Dona Judith. Não parou e subiu para seu apartamento.
Não demorou nada e dali da portaria pôde ser ouvido a cantoria de Luiz no banheiro tomando banho.
Dona Judith controlou-se e não ligou.
Fez-se silêncio. De repente lá estava Luiz declamando novamente seus versos em alto tom. Dava para perceber que o som vinha agora do corredor superior do hotel, e não mais de seu apartamento. Sua voz ora estava próxima à escadaria, ora vinha do fundo do corredor.
Dona Judith não se conteve. Ligou, mas não foi atendida.
A declamação continuava cada vez mais alta.
Nova tentativa de Dona Judith, mas não foi atendida. Resolveu ir pessoalmente acabar com aquela gritaria infernal.
A turma de vendedores continuou na portaria, impassiva, aguardando o desfecho de tudo aquilo. Para surpresa geral viram Dona Judith voltando às pressas. Estava sendo perseguida por Luiz, totalmente pelado, com a toalha de banho amarrada ao pescoço, uma máscara negra nos olhos e com a vassoura na mão gritando:
- Eu, o Zorro Erótico, vou acabar com o seu mau humor, e vai ser agora!
Gargalhada geral, mas a brincadeira custou-lhe a expulsão do hotel.





Vidas sofridas

Aquele seria um grande dia para qualquer casal, mas para Etelvina não.
Logo nas primeiras horas da madrugada começou a sentir as dores do parto. Lentamente arrumou o parco e pobre enxoval que havia conseguido fazer para o bebê e sozinha foi para a maternidade que ficava próxima de onde morava.
Sim, sozinha, pois nos últimos tempos, Ariosvaldo, seu companheiro, já o deixou de ser. Libertara-se. Melhor só e em paz, que acompanhada e sofrendo agressões daquele cuja profissão era gigolô.
Os solavancos do ônibus eram um martírio para ela, posto que além da gravidez contava com o peso dos seus quarenta e cinco anos. Aquela viagem, que era curtíssima, parecia não ter fim - mesmo já estando acostumada, pois a fizera algumas vezes nos últimos meses. Entretanto, só o ato de pensar na felicidade de ter seu primeiro filho a recompensava por todo aquele sofrimento e risco.
Um menino!
Foi informada quando fez a ultrassonografia pelo médico que a acompanhava.
Com certeza seria um grande companheiro nas futuras lutas, pensava.
Chegou à maternidade exaurida, e como acontece com a maioria das brasileiras, demorou a ser atendida. Estava em um hospital público e o médico que a atendia esperou até o último momento na tentativa de um parto normal, para só então realizar a cesariana.
Grande surpresa em seguida. O tão esperado menino na verdade era uma menina, e Etelvina não pensou duas vezes. Chamaria a criança de Maria Clara. Maria porque era devota de Nossa Senhora, e Clara porque tinha a esperança de que ela viera para modificar e clarear sua vida dali para sempre.
Etelvina praticamente dobrou o número de faxinas que fazia. Trabalhava qual uma condenada, pois agora tinha a filha e prometera a si mesma que faria dela uma doutora. Em momento algum descuidou da educação da menina e sempre que podia a ajudava nos estudos e a acompanhava na escola. Sua preocupação maior era defender a filha das maldades do pai, que conhecia tão bem e sabia do que era capaz.
O tempo passou, a idade chegou e a doença se fez presente.
Tudo ficou mais difícil.
Etelvina já não tinha mais a energia necessária para manter a educação da filha, e com isso Maria Clara, aos dezesseis anos, viu-se só na luta para vencer.
Foi quando apareceu a figura do pai.
Estranhou!
Seu pai era bem mais velho que sua mãe. No entanto, sendo forte e saudável, tinha a aparência de vinte anos mais jovem.
Sua conversa fácil logo a envolveu e a promessa de uma vida melhor a encantou. Ariosvaldo, usando das artimanhas que lhes eram peculiar, a arrastou como a mãe no passado, para a prostituição.
Qual não foi o desespero de Maria Clara quando, já envolvida até o pescoço naquela profissão, sua mãe, no leito de morte, quis saber como a filha estava conseguindo o dinheiro para manter seu dispendioso tratamento.







Marcados para morrer

De fora a fora naquele condomínio, a vontade era unânime em matá-los, mas como fazer tal serviço sem ser descoberto. Afinal eles tinham alguns defensores e obviamente sempre teria alguém na espreita cuidando para que na primeira oportunidade pudessem delatar ou quem sabe até chantagear o responsável ou responsáveis pela chacina. Sem contar a repercussão que causaria tal ato de violência por todo o bairro. Entretanto os mais afetados pelas delinquências daqueles marginais estavam decididos até mesmo a pagar a algum estranho para executar o serviço, já que as autoridades competentes não tomavam nenhuma providência, mas o servicinho teria que ser muito bem feito e não poderia deixar qualquer tipo de pista. Resolveram que quem fizesse o trabalho não poderia deixar os corpos espalhados pelo local e deveria desová-los numa região erma e de preferência bem longe dali, pois quanto mais afastado, mais demorado seria a descoberta dos crimes.
Tudo combinado e acertado, partiram para os finalmente.
Os mentores tomaram conhecimento da existência de um sujeito com vasta experiência nesse tipo de tarefa (execução sumária) e se encaixava perfeitamente no perfil que procuravam: - Era um desconhecido na região e vivia em outra cidade.
Arthur, por ser aposentado e não ter grandes compromissos diários, fora designado para procurar o tal profissional e saber com o mesmo da possibilidade de executar tal tarefa de extermínio exatamente como eles planejaram e de preferência sem que eles, os mandantes, soubessem quando seria o dia “D”. Caso afirmativo deveria contratá-lo imediatamente com a ressalva de urgência na execução do trabalho.
O assassino profissional contatado, logo foi contratado.
Os moradores responsáveis pela contratação não viam a hora de saberem-se livres daqueles marginais, mesmo tendo consciência de que seria um derramamento de sangue. Já os restantes nem de longe imaginavam que uma chacina estava por acontecer no bairro.
Passados alguns dias... Duas solteironas não muito benquistas pelos moradores e que davam cobertura aos delinquentes, chorando copiosamente deram o alarme:
Estão desaparecidos nossos amados!”
Por alguns dias, aqueles que se sentiam prejudicados pelos marginais descansaram das suas delinquências, mas não demorou muito e o arrependimento bateu.
Estavam livres do mal cheiro e da sujeira, mas um novo transtorno acometeu o local, com o extermínio dos gatos da dona Maria e da dona Inês, os ratos, sem a milicia felina, passaram a fazer a festa no bairro.
Só os passarinhos continuavam felizes e agradecidos.
















Preconceito, sentimento inferior

João, um funcionário simples, trabalhava tranquilamente como arquivista numa grande indústria de metalurgia em São Paulo.
O diretor comercial, um arrogante descendente de italianos, passando por seu departamento, o viu trabalhando e ao mesmo tempo escutando seu mp3. Não gostou. Chegando à sua sala perguntou para a secretária.
- Quem é aquele negrinho que está lá no arquivo?
- É o João, senhor Remo.
João ninguém”. – Pensou o diretor.
- Quem o contratou? Parece um pouco velho para a função.
- Ele é terceirizado, senhor.
Logo vi”. Pensou o diretor e mandou chamá-lo.
João viu na fisionomia do diretor que iria ter problemas com ele.
- Pois não, senhor?
- Não lhe pago para escutar música.
- Não estou escutando música, senhor. Estou estudando francês.
Remo não se conteve e quase perdeu o controle, todavia continuou com a entrevista.
- Entendi bem? Você disse estudando?
Estou diante de um racista safado. Tenho que tomar cuidado para não ser despedido antes do tempo”. – Pensou o João.
- Entendeu sim, senhor. Parece que passei da idade, mas eu ainda estudo.
Um crioulo de nome João e estudando francês. Onde já se viu isso. Deve estar treinando para gay”. – Pensou Remo.
- A quem você quer enganar?
- Há ninguém, senhor. Pretendo me formar este ano. Só faltam seis meses e essa prova é muito importante para completar meu curso e poder lecionar. Serei daqui uns dias um professor de francês também.
Remo estranhou a explicação do funcionário de que seria também professor de francês e sem nenhuma razão praticamente o escorraçou de sua sala, e à sua secretária recomendou:
- Quero que fique de olho nesse crioulo, qualquer deslize ou erro da parte dele já sabe; rua com ele e seu mp3.
Mas nada como o tempo para que as coisas se acomodassem e João conseguiu com sua simplicidade e a ajuda dos colegas, continuar trabalhando normalmente, só saindo da empresa no final do ano, quando se formou.
O tempo passou e tudo caiu no esquecimento após sua saída.
Meses mais tarde, Remo precisou fazer um curso rápido para falar alemão, pois iria ser transferido para trabalhar em uma das filiais da empresa na Alemanha. Qual não foi a sua surpresa. No primeiro dia de aula encontrou-se com João no curso. Fingiu não reconhecê-lo afinal não lhe agradava nem um pouco compartilhar aquele espaço com um ex-subalterno e ainda por cima negro.
João, que estava sentado em uma carteira no corredor aguardando a chegada dos alunos, depois de algum tempo levantou-se e entrou na sala de aula. Observou a todos os presentes como se estivesse a contá-los e dirigindo-se agora à turma falou com voz firme.
- Bem, acredito que todos já tenham chegado.
Como era o primeiro dia de aula ninguém ainda se conhecia, por isso ficaram calados aguardando os acontecimentos.
- Meu nome é João e sou o professor de vocês. Podemos começar? – Falou em alemão.
Se me lembro bem, naquela época ele disse que estudava francês”. – Remo pensou cheio de preconceito.
Remo quase sofreu um infarto, neste dia em que iniciou seu curso, ao constatar que João, o empregadinho negro que ele tanto menosprezara, era agora o seu professor de alemão e que dele dependeria em muito para o seu sucesso no exterior.

Encontro Inadiável

Naquele Domingo à noite, Altamiro, destemido e implacável matador de aluguel, desmaiou após sofrer um grave acidente com seu automóvel. Homem acostumado a lidar com a morte, porém descontrolou-se nesse momento, pois sem saber se sonhava ou não, ao voltar a si, experimentou uma desagradável experiência. A verdade é que de repente via-se diante dele mesmo no meio de todas aquelas pessoas que tentavam ajudá-lo e conferiam se ele ainda estava vivo após ter sofrido tal acidente.
Ainda atordoado pensou: “o que é que eu estou fazendo ali?”
E muito apavorado perguntou:
- Quem é você? O que faz aí?
- Não conhece mais a morte? Estou fazendo o que sempre fiz; agora o esperando, podemos ir? – Respondeu sorrindo.
Altamiro não acreditava no que via e ouvia, mas logo entendeu o que estava acontecendo e numa derradeira tentativa de escapar da morte, com muito custo respondeu:
- Assim que eu terminar uns compromissos que tenho para realizar. Espere um pouco mais que eu já volto.
Morrendo de medo e mesmo com muita dificuldade, pois estava bem machucado Altamiro saiu do local do acidente sem esperar o socorro médico e procurou um velho amigo seu.
Ainda estava descontrolado quando o encontrou.
- Augusto! – Balbuciou assim que viu seu amigo.
- O que está havendo?
- Descobri algo do qual desconhecia.
- Do que você está falando? Está pálido e muito machucado homem, você precisa ir ao hospital.
- Não dá para lhe explicar agora e nem ir para o posto médico. Eu preciso que você me ajude o mais rápido possível, pode fazer isso?
- Eu nunca lhe vi desse jeito tão apavorado! Posso saber pelo menos o que está acontecendo?
- Já disse que não posso explicar. Dá para me ajudar? – Insistiu com o amigo.
- Está bem, diga lá o que você quer.
- Preciso que você me esconda por uns dias num lugar em que nem mesmo eu o conheça. Pode fazer isso?
- Estou pensando neste local, mas porque tudo isso?
- Depois te explico tudo com calma, mas preciso que você faça isso agora, imediatamente.
Pedido estranho e difícil de atender. – Pensou Augusto.
Para onde o levaria? Qual seria o lugar que ele não conhecia? A mente de Augusto fervilhava em busca de tal local. Foi quando lembrou que seu amigo nunca tinha visitado-o no seu trabalho e sem saber o porquê daquele pedido, Augusto vendou-lhe os olhos e resolveu que o levaria para lá, pois esse era o único lugar que ele não conhecia. Porém antes perguntou.
- Altamiro. Você tem certeza de que não quer ir a um hospital? Perdeste muito sangue.
- Tenho. Nada de hospital. Terei tempo depois para isso.
Diante da negativa do amigo, Augusto não teve mais dúvida e o levou para onde trabalhava.
- Aqui com toda certeza você não conhece e vai estar seguro. – Garantiu ao amigo.
- Que lugar é esse? – Quis saber Altamiro.
- Você não disse que tinha que ser um local que não conhecesse?
- Disse. Mas que lugar é esse afinal?
- Se quer realmente saber tire a venda e descubra você mesmo.
- Nossa! É uma Santa? Onde estou?
- Vá até a entrada e olhe lá fora. Descubra você mesmo.
Ainda dentro da pequena gruta Altamiro avistou lá fora os vários túmulos do cemitério e não acreditou no que via. Era demais para os seus nervos. Apavorado por saber onde estava, Altamiro não resistiu e caiu fulminado.
Nesse exato momento Augusto, que também olhava para a porta da gruta, viu quando o corpo do amigo caia pesadamente ao solo. Constatou que ele morrera, mas no mesmo instante também avistava lá na entrada, a imagem do seu amigo Altamiro sorrindo e vestido com o tradicional traje da morte. Fato que o deixou completamente apavorado e sem voz. Não conseguia entender tudo aquilo, mas ainda pode ouvir a voz do amigo soar ironicamente.
- Nós dois passamos a vida lidando com a morte. Então por que o motivo desse espanto?
Augusto tentava a todo custo falar, mas não conseguia nem balbuciar, porém continuava ouvindo a voz de Altamiro.
- Olha só que ironia. O meu melhor amigo não poderá me enterrar.
O pobre Augusto ainda não tinha entendido o que estava acontecendo.
- Perdeu a fala homem?
Com muito esforço Augusto conseguiu perguntar.
- Se morreste, o que você está fazendo ainda aí? E vestido dessa maneira?
Matar, sempre foi a sua maior diversão, e mais uma vez como estivesse se divertindo com aquela situação Altamiro respondeu.
- Estou aqui para levá-lo Augusto, afinal para que servem os amigos?
- Mas eu ainda estou vivo!
- Tem certeza?
Augusto, diante de tal revelação, não resistindo, faleceu.






O Andarilho

Manhã de quinta-feira. Por volta das oito horas do dia entrou na pequena cidade, aquele homem de média estatura, claudicando e trazendo aos ombros, um pequeno saco pendurado numa vara. Parecia um pouco cansado, talvez devido a fraqueza imposta por alguma doença. Suas roupas remendadas, que mais pareciam as de um espantalho, um sapato de cada cor e modelo nos pés, e as várias cicatrizes no rosto e braços, contribuíam para acentuar seu aspecto negativo. Sim, sua imagem não era das melhores e isso fazia com que as pessoas se afastassem e o trouxesse a distância. Melhor dizendo; o evitavam mesmo, mas verdade seja dito, não tinham assim tantos motivos, pois, não estava sujo e tão pouco cheirava mal e além do mais, a maioria dos moradores do lugar não era nenhum modelo de beleza, e como ele, também não tinham lá muita saúde.
Não dando qualquer importância ao tratamento que lhe dispensavam, continuou perambulando pelo lugar e ali foi ficando.
O pobre coitado”. Era assim que as pessoas dali se referiam a ele, sempre às escondidas é claro. Sabia disso e achava graça.
Na única e pequena praça arborizada da cidade, vários bancos espalhados a sua volta, e ao centro, três gangorras, cinco balanços e dois escorregas tudo feito de madeira, compunham o cenário onde praticamente todas as tardes se reuniam velhos, jovens e crianças para conversar e brincar.
O pobre coitado” notou que alguns bancos e dois dos brinquedos estavam quebrados. Não perdeu tempo, depois de muita insistência, conseguiu na precária prefeitura algumas madeiras, pregos, parafusos e porcas. Pacientemente deu início à restauração das peças que estavam danificadas, e em dois dias tudo estava novo e pronto para ser usado. Descobriram o que ele carregava naquele pequeno saco; – suas ferramentas.
O seu Joaquim, dono da mercearia, um eterno sofredor de bronquite asmática, sensibilizado com a dedicação daquele estranho, durante esses dois dias trabalhados, ofereceu-lhe o alimento necessário para sua subsistência e deixou que ele se lavasse no banheiro da loja e permitiu que ele ali dormisse.
Assim, aos poucos, “o pobre coitado” foi adquirindo, a confiança dos moradores e com isso ia fazendo um bico aqui outro bico ali sempre em troca de alimentação, higiene e estadia, nada além disso. Também perceberam o quão sereno ele era e que sua voz suave penetrava, acalmava e calava fundo quem com ele conversava.
Suas obras, não deixaram dúvidas. Nas redondezas não existia melhor carpinteiro que ele. Sabendo disso, o padre Mário, que era cardíaco, logo passou a usufruir a habilidade daquele homem. Bancos e portas foram consertados, até o altar da igreja entalhado na madeira foi por ele restaurado.
Dona Clotilde a diretora da escola, que sofria de artrite crônica, seu Gonzaga o prefeito, que já não enxergava nada, também tiveram várias peças por ele, restauradas, inclusive nas suas residências.
Com o tempo, não havia na cidade e redondezas, uma única peça de madeira, que não tivesse sido restaurada pelo “o pobre coitado” e não existindo nada mais em madeira que precisasse de reparo, foi embora.
Entretanto, por onde o carpinteiro passou restaurando madeira deixou também restaurada a saúde dos que dela precisavam. Só então as pessoas se deram conta, de quem realmente era, aquele que chamavam de “o pobre coitado”. JESUS.




Em plena avenida

O sujeito vestido com uma capa de chuva e com o capuz cobrindo sua cabeça, estava parado no meio fio já havia algum tempo olhando o guarda de trânsito trabalhar.
Detalhe: – Não estava chovendo.
Sinal abre, sinal fecha e ele nada. Continuava ali parado, olhando.
O guarda, que de longe assistia a cena, depois de muito relutar, não se conteve. Foi até ele e perguntou.
- O senhor está precisando de ajuda?
- Não. – Respondeu secamente o sujeito.
Sem jeito, o guarda voltou para o seu posto e continuou a orientar o trânsito. Mas as horas foram passando e o cara continuava ali sem se mover, mas olhando para o guarda.
O guarda não aguentando mais aquela marcação, voltou e quis saber:
- Afinal o que o senhor está fazendo ai parado me olhando todo esse tempo.
- Não é da sua conta. – Novamente respondeu secamente.
- Ah, não!!! O senhor vai ter que me dizer o que está fazendo aí.
- Estou esperando sua mãe. – Respondeu de novo secamente.
O guarda entendeu a resposta como uma ofensa, porém não deu importância a má educação do homem e resolvendo sacaneá-lo respondeu irônico:
- Pode desistir e ir embora. Ela não vai vir, pois já morreu.
Com tal resposta o estranho personagem sem pestanejar e com cara de poucos amigos mais uma vez falou secamente.
- Então vou levar você mesmo. – E avançou em sua direção.
O guarda apavorado, instintivamente deu três passos para trás e foi atropelado pelo ônibus.


O jogador

Por volta dos anos sessenta, uma das distrações masculinas aqui no Rio de Janeiro, além do futebol, era o jogo de Sinuca, e Carequinha, apelido dado a Adalberto por ser pequeno e careca, era um dos melhores na prática desse esporte e fazia dele o seu único meio de vida.
Não havendo mais ninguém nas redondezas que quisesse enfrentá-lo, resolveu frequentar outros locais pela cidade a fim de encontrar algum jogador a sua altura. Entretanto, essa iniciativa de nada adiantou, pois mesmo dando alguma vantagem nas partidas, logo percebiam que ele jogava muito bem e dificilmente o venceriam. Suas habilidades eram realmente imbatíveis.
Foi quando Carequinha teve a ideia de viajar pelas cidades do interior, uma vez que não sendo conhecido poderia facilmente enganar os jogadores do local e consequentemente ganhar algum dinheiro.
Sua tática era infalível, pois malandramente alcançava seu objetivo se valendo das fraquezas alheias, ou seja, o olho grande ou a vaidade dos incautos.
Convidava alguém que estava no salão de bilhar para jogar, sempre aquele mais fraco na arte. Se a pessoa aceitasse, deixava seu oponente vencer as primeiras partidas e ia se mostrando nervoso a cada tacada, o que tornava o outro jogador mais confiante de que sempre o poderia vencer.
Dentro dessa tática, Carequinha sempre começava o jogo apostando pouco. Lá pelas tantas, depois de já ter jogado várias vezes, a quantia perdida já era bastante alta. Daí começava sua representação. Fingindo desespero, combinava que a próxima partida seria a última, pois já havia perdido muito e precisava parar em razão do cansaço. Assim, sabendo da confiança adquirida por seu oponente, lançava o derradeiro desafio. Aquela partida iria valer o dobro do que ele já havia perdido mais a despesa realizada ao longo do jogo, que consistia no tempo jogado, nas bebidas e nos lanches consumidos pelos dois.
Obviamente o jogador prestes a ser iludido permitia-se trair pelo seu olho grande, pois acreditava que poderia vencer facilmente e ganhar ainda mais daquele que pensava ser um otário.
Desafio aceito, Carequinha não dava vez para o azar com sua maestria peculiar. Após o erro da tacada inicial, que era sempre feita por quem estava ganhando, iniciava seu jogo e ia até a última bola existente na mesa, não deixando qualquer chance de recuperação para seu oponente. Detalhe, tudo isso sempre acontecia quando o local estava repleto de espectadores e testemunhas, que logo passavam a comentar o acontecido. Era dessa forma que Carequinha tirava proveito da vaidade de quem o desafiava, já que qualquer bom jogador da cidade se tornava o próximo desafiante no dia seguinte à circulação dos boatos.
E assim fez. Pensou em fazer sua espessa barba, mas desistiu porque a usava há muitos anos. Decidido pela busca de dinheiro fácil, lá foi ele para a aventura.
Na primeira cidade conseguiu duas vítimas. Na segunda, mais duas. Na terceira, por esta ser um pouco maior e ter dois locais de jogo, conseguiu enganar cinco. E assim foi indo de cidade em cidade até não ter mais nenhuma para executar seu plano.
De volta ao Rio de Janeiro, assim que chegou ao bilhar que frequentava, passou a contar as novidades da viagem para os amigos, que riam de cada detalhe mencionado. Entretanto, mesmo tendo sido um sucesso sua ideia de sair jogando pelo mundo, Carequinha chamou a atenção do pessoal quando mostrou-se acabrunhado.
Perguntado, desabafou que não poderia mais voltar às cidades porque aconteceria por lá o mesmo que aqui. Ninguém mais iria enfrentá-lo.
Foi quando alguém deu a ideia de ele voltar às mesmas cidades, só que desta vez com a barba raspada e uma peruca de disfarce. Com certeza ninguém o iria reconhecer.
Carequinha achou que a dica era perfeita e poderia funcionar. Não pensou duas vezes, comprou uma peruca e raspou a barba. De visual novo, teve a aprovação dos amigos. Todos garantiram que ele estava irreconhecível.
Partiu mais uma vez, só que agora com um dos amigos a tiracolo. Como previsto, na primeira cidade ninguém o reconhecera, mas depois de ter aplicado o mesmo golpe escutou de um dos espectadores a seguinte afirmação: “Eu gostaria muito de ver o senhor enfrentando um careca barbudinho que passou por aqui uns meses atrás”.
Carequinha e o amigo sorriram meio sem graça e foram embora. Pensaram se seria conveniente continuar a viagem. Conversa daqui, pondera de lá, resolveram seguir em frente e no outro dia partiram. Na cidade seguinte também tudo correu como na anterior e outra vez ninguém o reconhecera. Estava feliz que nem pinto no lixo e com isso adquiriu mais confiança, achando que poderia enganar novamente aqueles otários.
Assim foi por mais duas cidades, mas a sorte nessa última não foi sua companheira, pois quando Carequinha estava no meio da derradeira partida um dos espectadores que acabava de chegar no bilhar o reconheceu. Era um dos jogadores, daquela redondeza, que tinha sido enrolado por ele e para provar a todos que também estavam sendo enganados, num gesto rápido arrancou-lhe a peruca. Na mesma hora todos os presentes o reconheceram e desta vez Carequinha é que foi traído por sua vaidade e o olho grande. Levou uma surra tão violenta que foi parar no pequeno hospital da cidade em estado gravíssimo, ficando internado dez dias para se recuperar do couro que recebera.

Aconteceu no Coliseu

Rômulo o filho mais velho de uma família de tradição católica, era o único que costumava ler sobre tudo que falasse ou ensinasse sobre espiritismo. Muitas foram às vezes que se aborreceu por estar lendo algum desses livros, mas nunca abriu mão de lê-los. Quando perguntado o porquê dessa obsessão, justificava-se dizendo que era preciso ter conhecimento de onde vinha ao nascer, e para onde iria após a morte. Achava que os padres escondiam muita coisa e na sua opinião era pouco elucidativo o que diziam a respeito desse assunto. Frequentava a igreja mais porquê seus pais o levavam, todavia sempre deixava claro que quando fosse maior passaria a frequentar um centro espírita. A família convivia com essa queda de braço religiosa, mas no restante gozava de perfeito equilíbrio.
Seus pais nunca deixaram de viajar durante as férias e lá estavam eles, José e Maria, traçando planos para as próximas férias da família. Tinham em mente de que nesta viagem pela Europa passariam apenas dois dias em Roma. Lá pretendiam visitar dentre outros locais, o Vaticano e o Coliseu.
Assim que Rômulo ficou sabendo, ponderou que gostaria de não ir a nenhum dos dois locais.
José não entendeu e quis saber por que. Seu filho não titubeou e respondeu com a convicção de quem sabia o que estava falando: “Pressinto que se eu entrar em qualquer um desses lugares vou morrer como nas outras encarnações”.
Seus pais acharam graça e até interessante tal justificativa para não viajar. Certos de se tratar apenas de uma imaginação fértil de um garoto de quinze anos, seus pais continuavam tentando dissuadi-lo de desistir do passeio, entretanto Rômulo teimava em não querer ir, porém a insistência foi tanta que conseguiram convencê-lo ao contrário e ele acabou concordando, todavia deixou claro que só iria viajar com eles se naqueles dois lugares ele não precisasse entrar. Ficando então combinado: – Em princípio Rômulo não precisaria entrar naqueles dois lugares, só se mudasse de ideia e resolvesse visitá-los por iniciativa própria.
As férias chegaram e a família partiu para a Europa. Visitaram Portugal, Espanha e França. Até esse momento tudo ia às mil maravilhas, porém era chegada a hora de resolver o que fazer, pois estavam a caminho de Roma e Rômulo continuava irredutível na sua posição. Estaria com eles em Roma, mas não visitaria aqueles locais.
Assim que chegaram à cidade, como eram muito religiosos, procuraram uma igreja e pediram ajuda ao padre. Este, assim que tomou conhecimento da dificuldade que estavam enfrentando, conversou longamente com o menino. Nessa conversa fez ver a ele que aquele seu pressentimento de que morreria não tinha fundamento, e afiançou de que ele poderia visitar qualquer um dos locais, que nada, absolutamente nada, iria acontecer com ele. Tudo não passava da sua imaginação infantil. Padre Eustáquio se prontificou a acompanhá-los nas visitas se assim ele se sentisse melhor.
Confiante na palavra do padre, Rômulo resolveu junto com ele e seus pais conhecer os locais, e a conselho deste, que começassem pelo Vaticano, pois lá estaria bem próximo de Deus. Conheceriam a igreja de São Pedro, a Capela Sistina e com um pouco de sorte ouviriam a palavra do Papa. No dia seguinte então visitariam o Coliseu e caso ele ainda achasse necessário à presença do padre Eustáquio, não teria nenhum problema, pois o mesmo também havia se prontificado em acompanhá-los. Assim, naquele dia mesmo estiveram no Vaticano visitando e conhecendo tudo a que tinham direito, e para alegria de todos nada aconteceu a Rômulo. À tarde passearam em outros pontos turísticos e a noite combinaram que no dia seguinte todos visitariam o Coliseu, desde que o padre os acompanhasse.
A manhã estava tão radiante que até chamou a atenção de padre Eustáquio, levando-o a comentar com a família.
- Vamos aproveitar bem. – Falou o padre. – Esse tempo limpo possibilita mais clareza em visualizar alguns detalhes nos subterrâneos, principalmente onde ficavam as jaulas dos animais, as celas em que ficavam os cristãos aguardando a hora de enfrentarem os gladiadores ou de serem devorados por leões, bem como as galerias de acesso necessárias aos serviços do anfiteatro.
Rômulo entrou no Coliseu ao lado de sua mãe. Seu pai e irmãos, do padre Eustáquio, que como todo bom italiano ia descrevendo o local e narrando os possíveis acontecimentos do passado. Empolgados com a visão interna do Coliseu, seus pais e os dois irmãos não notaram a ausência de Rômulo que ficara para traz parado no meio da arena. Ao darem falta dele, olharam à volta e o avistaram mais atrás, estava paralisado. Voltaram na sua direção. A transformação sofrida por Rômulo deixou a todos preocupados, que sem saber o que estava acontecendo lhe perguntavam o que ele estava sentindo.
- Eu não estou sentindo... Estou é vendo uma apresentação com bigas e gladiadores bem ali, no meio da arena. – Rômulo falava e apontava para o local onde supunha estar vendo ou realmente via tal apresentação.
- O que você diz ver não pode ser possível, pois não está acontecendo nada, meu filho. Até porquê nem existe mais a arena, só ruínas. – Padre Eustáquio tentou tranquilizá-lo.
- Não só é possível, como inclusive vejo varias pessoas apavoradas... Parecem ser cristãos, os que acabam de entrar na arena. Padre! Estou me vendo... Sou um dos gladiadores na biga...
- Tudo não passa de imaginação sua. Melhor, uma fantasia. Vamos continuar com a visita, que logo isso passa.
- O que vejo não é uma fantasia, padre, mas sim uma carnificina. Acabo de me ver degolando um dos coitados... Nossa é um jovem como eu... O que fiz? – Rômulo estava transtornado.
- Não diga bobagem, meu filho. Nós vamos é sair daqui, isto não está lhe fazendo bem. Vamos, rápido, ele está muito agitado. – Determinou sua mãe.
Nesse exato momento surgiu do nada um rapaz desconhecido com uma adaga na mão, e sem que eles esperassem a enfiou nas costa de Rômulo e fugiu, desaparecendo no meio dos turistas que ali estavam.
- Avisei que eu não podia entrar aqui, agora é tarde demais... Estou morrendo...
Com a antiga arma cravada nas costas, Rômulo, ferido de morte, caiu ao chão já meio desacordado. Sua mãe desesperada o amparou nos braços e antes que ele desse o último suspiro pode ouvi-lo consolá-la.
- Não se culpe, eu já sabia que isso ia acontecer, agradeça ao Padre Eustáquio por ter me ajudado a cumprir minha missão... Não fosse ele eu teria fracassado.














Enfado eterno ou a morte

O topo de uma montanha, por mais elevado que seja, não existe sem uma ligação com o solo terrestre. Esta montanha é o Olimpo, um lugar onde as estações não existem, o tempo não muda e tudo se transforma num estalar de dedos. É neste lugar que os deuses vivem, bem nas alturas, mas num lugar que "ainda é terra". Cercado de muros, sua ligação com o exterior é feito através de enormes portas; esse espaço habitado pelos deuses é formado por um conjunto de residências capaz de despertar a inveja a qualquer mortal.
Na morada de Zeus também é o local onde se realizam assembleias e festins, ao passo que as demais casas pertencentes a cada deus só têm a função de acolher seus proprietários para dormir. Além dos deuses, no Olimpo, havia uma equipe constituída por simples mortais, em constante atividade, a disposição deles, o que tornava suas vidas ainda mais enfadonhas, pois nada precisavam fazer. Já não tinham mais prazer para nada. Com isso suas vidas estavam se tornando insuportáveis, a ponto de numa bela manhã, Zeus convocar todos os deuses para uma reunião, onde pretendia junto a eles encontrar uma solução para atenuar o tédio existente. Doze, era o total de deuses convocados e assim que todos chegaram, Zeus deu início à reunião.
- Convoquei-os a essa assembleia para juntos tentarmos equacionar nossa existência. Não é possível mais continuarmos vivendo nesse marasmo. Nada é impossível para nós, porém estamos cada vez mais sorumbáticos e taciturnos. Caso almejemos alguma iguaria, basta que um dedo seja estalado e pronto. O que queremos está a nossos pés, mas não temos mais prazer no que comemos ou bebemos. O tempo passa e nós continuamos como não tivéssemos vivido se quer uma semana. Tudo aqui parece se arrastar num sem fim. Mesmo quando estamos em festa a falsa alegria e o tédio são nossas companhias. Dessa forma onde iremos chegar?
- Zeus, envie Íris numa missão especial até aos humanos. Com certeza ele nos trará subsídios para resolvermos nossos problemas existenciais. Eu estou à beira da exaustão. – Sugeriu Hebe, a deusa da juventude.
- Quem pode nos garantir isso? Eu também como todos estou precisando, mas não creio que consigamos alguma solução por lá. – Duvidou Afrodite, deusa do amor.
- Tendo ou não garantia temos que tentar. A eternidade não pode continuar um enfado. – Incentivou Ares, deus da guerra.
- Mas o que Íris deverá saber? – Perguntou Ártemis, deusa da caça.
- É simples: basta que ele consiga descobrir o motivo de tanta vida e alegria entre os humanos. Sabendo isso nós teremos a resposta para nossos problemas. – Concluiu Atena, deusa da justiça.
Após diversas ponderações chegaram ao consenso do que Íris deveria descobrir junto aos humanos a tão buscada solução. Só os deuses tinham acesso ao mundo, mas lá não se comunicavam com os mortais. Por isso Zeus ordenou que os portões do Olimpo fossem abertos para que Íris, o serviçal de comunicação entre os deuses e os mortais, partisse em sua missão fora dos muros. Após uma semana Íris retornou ao Olimpo. Todos estavam reunidos e ansiosos para saber o ele havia descoberto.
- Então, qual é o segredo de tanto entusiasmo entre eles? Se tudo que eles têm é através do trabalho árduo. Quando querem aumentar suas propriedades têm que fazer a guerra e com isso são dizimados em grandes quantidades. As doenças os consomem e morrem sem a cura. A maioria é explorada por seus governantes e mesmo assim conseguem ser alegre. – Quis saber Zeus morrendo de ansiedade.
- Descobri que eles são possuidores de uma certeza que nós não temos. - Respondeu Íris, sorrindo.
- Do que você está falando? – Gritou Possêidon.
- Que certeza é essa que nos desconhecemos? – Resmungou Dionísio, tão bêbado que mal podia falar.
- É verdade. Que certeza eles podem possuir que nós deuses não a tenhamos? – Protestou Héfesto, soltando fogo para todo lado.
- A certeza da morte. É isso que os faz viver intensamente seus dias sem se importar com as adversidades, pois sabem que a vida é curta. Curtem o que tem, muito ou pouco. Sofrem, mas logo voltam a se divertir. É por causa dessa certeza que eles são da maneira que são; – Guerreiros, lutadores, sofredores e explorados, mas alegres e felizes.
- Mas nós não podemos morrer. – Lamentou Deméter, a deusa da fertilidade.
- E nem, eu quero. Jamais abrirei mão da imortalidade. Desculpem, mas só de saber já estou me sentindo ótima. Por tanto sugiro que passemos a nos relacionar com os humanos para nos distrair. – Recomendou Hera, uma das mulheres de Zeus, a deusa protetora das mulheres e do casamento.
Desse dia em diante várias foram às vezes em que os deuses receberam em suas festas os mortais, no Olimpo, bem como eles os deuses desceram a terra para tocar e se deixarem tocar pelos mortais.



O Mestre

Algumas lembranças me reportam ao passado com mais ou menos intensidade, mas essa dá a impressão de que tudo ocorreu ontem, mesmo tendo se passado mais de cinquenta anos.
Assim constatava Adriano sempre que lhe vinha a mente aquela cena.
Sempre era formado um alvoroço quando aquele lunático, mas carismático mendigo, aparecia na porta do colégio. E o colégio não era um qualquer. Era nada mais nada menos que o tradicional Colégio Pedro II.
- Qual o seu nome? – Era a pergunta constante que os estudantes não cansavam de lhe fazer.
- O meu nome não é tão importante. O conhecimento sim. – Dizia quando perguntado e ria meio alienado.
Pela educação e sua delicada maneira de tratar a todos, a garotada não se dando por feliz com aquela repetitiva resposta, acabaram batizando-o de Rosa Branca e comunicaram-lhe a decisão.
- Isso mesmo, Rosa Branca. Assim iremos chamá-lo doravante.
- Ótimo, muito bom, gostei do nome. – Respondeu ele. Se isso vai satisfazê-los, que assim seja então.
Naquela época, sempre no início do mês lá estava ele, o negro mal vestido, com cabelos e barba desgrenhados, mas limpo e sem cheirar mal, fazendo seu lanche na padaria da esquina, pago pelos alunos – depois é claro de ter tirado todas as suas dúvidas.
Isso mesmo. Todo mês, ao término de cada prova, a garotada corria ao encontro dele. Fosse a matéria que fosse lá estava ele a ensinar como resolver a questão duvidosa. Suas respostas eram sempre corretas. Nada sabiam a seu respeito, onde vivia ou de onde vinha, a não ser sua condição de mendigo e as crises de total alienação pelas quais às vezes passava. Entretanto era inegável que aquele homem era possuidor de grande conhecimento.
Por diversas vezes Rosa Branca dedicou um tempo para ensinar algumas matérias àqueles alunos que ele parecia gostar, tendo inclusive numa ocasião alertado ao professor que este tinha se enganado ao ensinar uma fórmula erradamente, impedindo assim que os alunos conseguissem desenvolver tal raciocínio.
Já estavam tão acostumados com a presença daquele homem, que praticamente sempre que ele aparecia cuidavam dele. Ao notar que suas roupas estavam muito surradas traziam outra para ele se trocar.
Nesse momento de nostalgia, Adriano recordava os últimos dias daquele convívio.
Naquele mês Rosa Branca não apareceu em nenhum dia, nem para o lanche costumeiro. Sentiram sua ausência.
- O que terá acontecido? Por onde andará o Rosa? – Era a pergunta que não calava.
Até o dia que Arildo, um dos alunos, chegou e os mostrou uma reportagem. Na terceira página do jornal, bem embaixo e no canto, quase invisível, estava a foto de Rosa Branca e a triste notícia.
Reaparece morto, depois de vários anos desaparecido, o físico brasileiro radicado na França. Sua morte e a forma como vivia nos últimos tempos ainda é um mistério para seus familiares e autoridades”.
Dizia a simples nota e nada mais. Sem se quer seu nome ser mencionado, numa clara falta de apresso e respeito para com aquele homem.
Revoltados com a insignificante reportagem, um dos alunos externou alto seu pensamento.
- Tenho certeza de que se ele não fosse negro, tudo seria diferente e a história teria um outro enredo.
Logo em seguida, um outro complementou.
- A medir por essa reportagem sem nenhum valor, para eles morreu mais um simples negro que talvez tenha sido físico por acaso.
Contudo, para Adriano e, tenho certeza, para seus amigos daquela época, Rosa Branca será eternamente o Mestre dos Mestres.



Azarado, mas otimista

Todo ser humano, invariavelmente, no transcorrer da vida sempre desfruta de um ou outro momento de azar. Alguns mais otimistas no intuito de amenizar tal fase, a chamam de falta de sorte. Agora, tê-los todos, praticamente num mesmo ano, é algo a se pensar o porquê?
Arlindo Antônio trabalhava há dois anos vendendo cigarros numa grande empresa desse ramo. Um sujeito calmo e estava sempre pronto para ajudar aos colegas na arrumação e abastecimento dos veículos para o dia seguinte, – coisa rara – pois cada um só queria tratar de si e ir embora para casa descansar. Naquela época, os pacotes de cigarros eram vendidos e entregues no ato da venda, diferente de hoje, que o pedido é tirado e a mercadoria entregue posteriormente como medida de segurança.
Arlindo costumava dizer, que não pretendia trabalhar a vida inteira como empregado, e por isso desde cedo todo dinheiro que ganhava procurava aplicar em ações, entretanto como todo mundo, não pode prever a maré de azar que começava a instalar-se em sua vida.
Logo no início do ano teve as primeiras experiências negativas.
Começava o mês de Janeiro e ele foi transferido para atender os clientes da favela da Rocinha.
No segundo dia trabalhando na nova área foi assaltado tendo o carro da empresa, toda a féria do dia e mais o restante da carga de cigarros, roubados. Ao dar parte na delegacia, por não ter conseguido identificar os assaltantes teve a impressão de ser tratado como cúmplice.
Não acabou ai, aliás, só estava começando, e seu desespero aumentou no fim desse mesmo mês, pois o novo carro que trabalhava, pegou fogo logo na saída da empresa e toda a carga foi perdida novamente.
A maré de azar que se assolara sobre ele, continuou e para fechar o mês com chave de ouro, foi demitido. Entretanto uma coisa tinha que ser reconhecida, Arlindo não era homem de se abater tão facilmente e o seu otimismo o ajudou a encarar essas adversidades.
Recebera uma boa indenização e estava resolvido a aplicar grande parte do dinheiro que ganhou em ações, e o restante deixaria no banco para atender suas despesas até encontrar um novo trabalho.
Dias mais tarde, em conversa com Luciano, um amigo que trabalhava na Bolsa de Valores, foi aconselhado por ele a vender todas as ações que tinha e reaplicar nas ações de uma nova siderúrgica que estava em plena expansão. Segundo esse seu amigo essas ações aumentariam muito nos próximos dias.
Arlindo não pensou duas vezes. Vendeu rapidamente todas as suas ações, deu ordem ao amigo para que comprasse as ações da grande empresa e ficou no aguardo da tal valorização. Durante os três meses seguintes Arlindo passaria apertado, mas tudo valeria a pena se no final os lucros compensassem. Entretanto, não durou tanto tempo, pois depois muito tentar, em Abril, conseguiu o novo emprego e com um salário bem maior do que o anterior. Pensou: – “Agora tudo vai se acertar. Poderei comprar minha casa e mais na frente com o dinheiro das ações vou abrir meu próprio negócio”.
Após seu período de experiência nesta nova empresa, precisamente em Julho, Arlindo sentindo-se seguro, comprou o seu apartamento e passou a sonhar com o dia da mudança. Tinha comprado o imóvel na planta. As obras só começariam em Novembro e estava prevista a entrega para o mesmo mês do ano seguinte.
E deste sonho que passou a viver, foi acordado quando Luciano, seu amigo da Bolsa de Valores, lhe telefonou informando que a empresa que ele havia comprado as ações, tinha acabado de pedir concordata. Em seguida, no mês marcado para o inicio das obras ficou sabendo que a empreiteira responsável pela construção dos apartamentos, também havia falido. Ao procurar saber o que a levou a falir, descobriu que seus proprietários haviam aplicado todo o dinheiro em ações da mesma empresa que ele, a tal, siderúrgica em expansão.
De uma só vez, Arlindo viu ruir seu castelo de esperança. Perdeu o apartamento e todo seu investimento, deixando suas finanças completamente abaladas.
Desastre total.
Estava falido e agora se perguntava. – “Quando é que vai acabar essa maré de azar”?

Foi dormir pensando em tudo que acontecera com ele naquele ano. Ao acordar, como grande otimista que era, planejou; – “Ano que vem vai ser melhor e começo tudo de novo”. 




















A difícil decisão

Ariovaldo, sempre foi um empregado exemplar naquela indústria, e por diversas vezes foi eleito por seus companheiros como o funcionário padrão. Esse destaque, de certa forma, incomodava a alguns menos dedicados e que queriam subir de posto a qualquer preço. Principalmente o Rui representante número um desses incompetentes mencionados.
Preciso encontrar um jeito de neutralizar esse cara”.
Rui passava o tempo com essa ideia na cabeça.
Com esse pensamento, depois de algumas artimanhas conseguira que seu chefe mudasse Ariovaldo para um setor onde trabalharia mais e tão cedo não teria outra oportunidade de ser promovido.
Essa manobra não passou despercebido por Ariovaldo, pois sabendo que de certa forma incomodava a alguns colegas, viu naquela transferência de setor o dedo de Rui.
Dias depois da transferência, Ariovaldo estava no saguão principal e enquanto esperavam o elevador que os levaria ao refeitório, comentou com seu amigo.
- Adão, eu tenho certeza que esta mudança de horário e a transferência de setor foi arrumado pelo Rui.
- Por que diz isso? - Adão se fez de desentendido tentando encontrar um jeito de acalmar seu amigo.
- É só ver a satisfação dele. Mas ele não perde por esperar.
- Você está sabendo de alguma mudança aqui na empresa?
- Não. Só vou dar-lhe o troco mais cedo do que imagina.
- E o que você vai lucrar com isso?
- Só em sabê-lo provando do mesmo veneno que me serviu, ficarei feliz.
Na tentativa de dissuadi-lo da ideia, Adão com uma ponderação o incentivou.
- Se você quer ser feliz por um instante, está no caminho certo. Vá em frente e vingue-se dele!
- Você sabe tanto quanto eu, o que ele fez, e ainda o defende?
- Quem disse que eu o estou defendendo, Ariovaldo?
- A forma como acabou de falar!
- Engano seu, eu só estou é lhe alertando.
- Muito obrigado, mas só descansarei quando vê-lo irritado e passando pela mesma situação que eu. Aí ficarei feliz.
Adão tentou sua última cartada na tentativa de acomodar os ânimos.
- Se quiser realmente ser feliz para sempre como acabaste de dizer, perdoe-o!
- Desculpe, mas não tenho tanta certeza dessa sua afirmativa.
Com essa resposta Ariovaldo entrou rapidamente no elevador, deixando o amigo do lado de fora. – “Querer que eu perdoe um safado? Adão só pode estar ficando louco”. – Pensou.
A porta do elevador estava se fechando, mas Adão ainda conseguiu falar para que ele ouvisse, antes dele desaparecer.
- Acredite no que falei. Experimente, nada deixa mais irritado o nosso inimigo do que se saber perdoado.













Magia no Natal

Nesta data não só as crianças se agitam na esperança de ver os presentes dados pelo velho Noel, mas também a grande maioria dos adultos.
É verdade! Deixamos de acreditar no Papai Noel quando descobrimos quem na verdade nos atende aos pedidos. Entretanto, no fundo no fundo, a centelha dessa esperança jamais se apaga.
Foi justamente num desses Natais em que Adonai estava sentado em sua poltrona próxima a uma lareira, que nem ele mesmo sabia por que mandara construir, uma vez que o inverno não é tão rigoroso. Porém, ela estava ali bem a sua frente e, durante seus devaneios, Adonai adormeceu. De repente escutou o barulho de alguém caindo. Não acreditando, viu Papai Noel sem o tradicional saco vermelho às costas saindo da lareira, limpando-se e indo até a mesa onde estava posta a ceia de natal. Pegou uma garrafa de guaraná e neste momento Adonai ouviu:
- Não se assuste, meu rapaz. Estou aqui para atender a um pedido seu.
- Verdade?
- Sim, mas tem de ser bem rápido, antes mesmo de eu acabar de beber essa coca cola
Adonai, vendo que ele tinha se enganado, corrigiu.
- Não é coca cola, Papai Noel. É guaraná.
Nesse curto espaço de tempo, Papai Noel terminou de tomar o refrigerante e foi desaparecendo. Adonai ainda pôde ouvir:
- Eu disse para ser bem rápido, meu rapaz! Ôh! Ôh! Ôh!





O sermão

- O portal do inferno está aberto.
Assim começou a pregação do jovem padre. Ele havia sido convidado especialmente para realizar a missa daquele domingo no acampamento de retiro espiritual. Leonardo, este era o seu nome. Ao terminar aquela frase fez uma pausa como que a sentir a reação dos presentes sobre o que acabava de dizer. Continuou:
- Por este portal, qualquer um que não esteja atento ou pense ser esperto, pode passar. Bastando para isso se comprometer com o senhor das trevas, também conhecido como “encardido”. Aliar-se a ele é ter a certeza de que o terá esperando pessoalmente na porta principal. Portanto passem a largo desta estrada.
A grande maioria das pessoas presentes estavam ali para reavaliar seus conceitos e sabiam a quem e o que o padre se referia.
- O portal do inferno está aberto. – Mais uma vez frisou o padre e fez pequena pausa.
Lá vem ele com a mesma frase. Onde esse padre quer chegar”. Pensou Júlio, o organizador responsável por aquele encontro.
- É de lá que são enviadas as bestas-feras para que invadam o mundo com suas asas gigantes a espalhar sementes infectadas por todo lado, verdadeiros passaportes de comprometimento. É certeira a intenção de alcançar aos homens e seduzi-los com suas facilidades. “Cuidado”!
Qualquer um, dos que ali estavam, percebia que ele não só explicava como também deixava um pequeno alerta. Nesta, teve o cuidado de perguntar aos ouvintes.
- E que sementes são essas?
Ao fazer a pergunta os observava sempre atento e por alguns instantes aguardava alguma manifestação, embora sabendo ser sua pregação um monólogo. Sabia que na verdade todos queriam a resposta e ele mesmo respondia.
- Meus irmãos toda semente plantada, que nos leva a cobiçar o fácil, que induz a levar vantagem sobre o inocente, que nos permite através de falcatruas viver nababescamente ou nos promete o reino da glória simplesmente por termos doado quantias em dinheiro para essa ou aquela instituição, está infectada pelo “encardido”. “Afastem-se”.
Para muitos essas afirmações complicavam suas cabeças, mas confiavam e procuravam entender o que ele dizia. Entretanto, uma dessas carapuças serviu como uma luva para Júlio. Ele havia superfaturado a montagem do local.
- O portal do inferno está aberto. – Voltou a se repetir o padre.
Intrigante o que esse padre estava falando. Por que razão ele insiste nesse tema? Alguns se perguntavam.
- De lá também saem, tão perigosos quanto àqueles que já mencionei, os anjos decaídos para semearem o horror. Mostram-se amigos usam da gentileza com maestria, mas na verdade, são eles os verdadeiros responsáveis pelas guerras e os cultivadores da desordem. É com macabra autoridade que mantêm a todos sob a dor e vivem responsabilizando o diabo por tudo de ruim que acontece. Quando na verdade são eles os próprios “encardidos”. “Saibam distinguir”.
Aquele domingo parecia especial. Cada vez mais, os fiéis iam se acostumando com o padre Leonardo e prestavam atenção no que ele resolvera falar.
- O portal do inferno está aberto.
Outra vez a mesma frase. Está parecendo um disco aranhado. Era esse o pensamento do organizador que de religião não entendia nada, mas de safadeza era especialista.
- Todo aquele que esquece que o amor é uma das razões de viver tem a noite fria e sombria a alimentar sua alma. Com isso, sem saber, alimenta as chamas do inferno contribuindo cada vez mais para manter sua fortaleza viva e implacável. “Estejam alerta”.
Era horripilante tal afirmativa. Muitos se sentiam culpados, afinal quem já não esqueceu alguma vez o uso do amor.
- O portal do inferno está aberto.
Padre Leonardo não se cansa de alertar em sua pregação.
- Todos nós sabemos que, vira e mexe passamos bem rente a sua entrada e invariavelmente nos chamuscamos. Entretanto feliz é aquele que mesmo tendo sido chamuscado consegue se desvencilhar das “bestas” e dos “anjos” que semearam facilidades e venderam o poder nesta vida. “Deem-lhes as costas e digam-lhes não, a suas tentações”. De novo fez silêncio.
Nesse momento os fiéis pensaram que o padre encerraria sua pregação.
- O portal do inferno está aberto.
Enganaram-se. Mais uma vez ele fez questão de lembrar sobre o portal e continuou falando mais inflamado que antes.
- Portanto é responsabilidade constante de cada um fechar esse portal. Devolvam o que ganharam ilicitamente. Semeie o amor, o perdão e a caridade a todos sem exceção. Mesmo àqueles que acabo de mencionar como sendo os grandes responsáveis em induzir-nos ao desvio do pai, pois quanto menos corações estiverem comprometidos com as falsas facilidades e com a ilusão do poder, mais enfraquecidas e mornas estarão as chamas do “encardido”. Sei o quanto é difícil, mas não se intimidem. “Tentem”.
Padre Leonardo, do alto daquele palco altar improvisado no acampamento religioso, olhou atentamente para a multidão que acabara de escutá-lo pregar. Júlio que estava sentado logo a frente teve a sensação de que o olhar o queimava. Foram apenas alguns segundos, mas que pareceu para muitos uma eternidade, tal a intensidade do seu olhar. Ao término dessa pausa expressou seu desejo e deixou uma pergunta acompanhada de um conselho, tudo bem mais profundo e intrigante do que a sua pregação.
- Espero que todos tenham entendido meu alerta e que saibam a quem realmente devam seguir, se a Jesus, verdadeiro guardião das coisas divinas, ou ao “encardido”, semeador da iniquidade. Mas não procurem o Cristo pelo simples fato de terem medo do encardido. Procurem-no sim, pelo fato de ser o divino melhor para suas vidas, do que a iniquidade.
Terminado o sermão o padre retirou-se do palco e dirigiu-se aos aposentos a ele reservado naquela colonia espiritual de retiro. O jovem padre era atraente, simpático e chamava atenção pelo o corpo atlético que tinha. Estava só de calça quando de repente a porta do quarto se abriu. Era Magda, a secretária de Júlio o organizador do evento, que ao se deparar com aquela visão de um Apolo fraquejou.
- Padre Leonardo! Nossa... Se a mulherada soubesse o que essa batina esconde debaixo dela, o senhor não teria sossego.
- Será mesmo, minha filha?
- Ainda bem que o senhor é padre... Eu mesma quase não estou resistindo, e olha que sou casada.
- Que ótimo!
- Por que ótimo padre?
- Porque assim não precisamos perder tempo.
Dito isso caminhou em sua direção e como sentiu que não haveria nenhuma resistência, agarrou-a. Praticamente nus foram bruscamente interrompidos aos gritos por Júlio:
- E o portal do inferno está aberto, não é padre?







Desigualdades

Constantino trabalhava para um órgão do governo cuja responsabilidade era medir o comportamento e a evolução social. Sociólogo convicto e dedicado, não fazia outra coisa em sua vida que não fosse acompanhar e analisar a espécie humana. Trabalhava tanto que muita das vezes esquecia até da própria família, o que de certa forma não deixava de ser incoerente, pois contrariava a natureza de qualquer funcionário público, que na prática é, trabalhar o menos possível.
Mudara-se há vinte e três anos para um local extremamente acolhedor e agradável e onde costumava garantir para os amigos sem medo de errar, que a vista a sua volta era o que existia de melhor em toda a região. Sua nova residência em um condomínio recentemente construído era de classe média alta e localizava-se entre outros dois condomínios de luxo, mas estava também, próximo há uma pequena comunidade carente. Sendo daí obviamente a origem da mão de obra utilizada para a execução dos serviços de jardinagem, limpeza, manutenção e domésticos.
Para Constantino não podia ter sido melhor a mudança para aquele local. Tinha a seu alcance e dispor um verdadeiro seleiro de informação e referência de várias classes sociais, do mais rico ao mais miserável. Passando a conviver de perto com a prepotência e a falsidade humana muito mais frequente que o de costume, pois agora não precisava mais se deslocar para realizar seus estudos e executar seu trabalho, uma vez que tinha todo o material latente e vivo a sua volta.
Não perdia um dado se quer para suas anotações, pois era sua intenção escrever um livro e tornar públicas suas experiências. Após tantos anos vivendo o cotidiano daquelas famílias de dentro e fora do condomínio, fizera tantas constatações, que agora tinha dados suficiente para o seu livro, entretanto carregava uma dúvida pessoal e se perguntava constantemente como fazê-lo.
Constantino resolveu ignorar suas dúvidas e ao invés de escrever o livro com um parecer definitivo e clássico, colocou suas experiências em pequenos contos para que cada leitor tirasse as próprias conclusões e foi justamente um desses moradores da periferia que usou como exemplo para abrir sua sequencia experimental.
Pingo é o apelido que identifica José, um dos “faz tudo” do lugar e que não dispensa nenhum biscate quando requisitado, aliás, quando não os tem se oferece para fazer qualquer trabalho e por qualquer quantia. Um homem humilde, extremamente pobre e sem instrução, vive com Maria sua mulher e os filhos pequenos em uma casa simples. Por esta razão é praticamente escravizado pelos pretensos ricos que vivem no condomínio.
Ganhando muito pouco devido à exploração por parte dos que lhe contratavam para os trabalhos de jardinagem, pintura ou limpeza e também a falta de uma regularidade nesses serviços, grande parte do mês Pingo ficava sem ganhar até mesmo aquele pouco dinheiro e com isso comprometia o sustento da família fazendo com que muitas vezes ele deixasse de comer em casa para que sua mulher e filhos o fizessem. Assim dessa forma ia vivendo os dias, os meses e os anos sem ver ou ter alguma perspectiva de melhora. Sem perceber aos poucos estava se destruindo.
Por diversas vezes Pingo passou a ser visto tomando uma cachacinha no pé sujo do Pai Zé, era a forma que encontrara para repor as calorias de que necessitava uma vez que não se alimentava, mas sua ignorância o impedia de ver que fazendo uso desse artifício estava entrando num caminho sem volta, o do vício.
Após alguns anos dessa prática e sem se dar conta, tornara-se alcoólatra.
A partir daí a vida passou a bater-lhe com mais severidade, pois a idade veio chegando e devido ao constante estado de embriagues, quase ninguém o chamava para executar algum tipo de serviço. O mais triste e revoltante é que aquela mesma família que por tanto tempo ele se sacrificou, agora o abandonara a própria sorte que nunca foi muita, diga-se de passagem, colocando-o para fora de casa. Desde então Pingo é visto, por aqueles que outrora o explorara, jogado na sarjeta esperando que a morte o ampare.
Devido a isso, Constantino quando se dava conta estava a questionar-se: - “A humanidade estava realmente evoluindo ou simplesmente estagnara presa a falsos conceitos e a suas mesquinharias? Que mundo será este em que vivemos? Quem nos ensinou a olhar e não ver? A ouvir, mas não escutar? Quantos sacrificados como o ‘José’ serão necessários para que a sociedade dominante entenda que tratar com respeito e dar oportunidade de uma vida digna a todos os semelhantes é uma obrigação e não um favor.”

















O Roubo

As joias da loura sumiram!
Quem as terá roubado?
O filho adotivo de sua irmã mais velha, chamado Antônio, foi logo acusado por ser um moreno trigueiro.
Henrique, outro irmão da loura, sentindo no ar o preconceito saiu em defesa do sobrinho postiço. Além disso tinha certeza de que o rapaz não teria realizado tal ato.
O constrangimento era geral pois a loura insistia a todo custo em culpar Antônio. Baseava-se na informação de uma cartomante que afirmara que o ladrão era uma pessoa de pele morena.
Só que ele não era o único moreno na família e isso piorou ainda mais a confusão e a dúvida.
Os nervos andavam à flor da pele.
Até de esquizofrênico, Antônio foi taxado pela loura.
Mais tarde descobriram:
Manoel, o marido da loura, também moreno, havia empenhado as joias para pagar dívidas de jogo.













Meu Amigo Morreu

Hoje perdi a hora e acordei mais tarde. Não é costume isso acontecer, ainda mais que eu nem tinha escrito até tarde. Ultimamente estava usando menos o computador para ver se ele aguentava um pouco mais as minhas investidas.
Levantei rapidamente, mas logo fui avisado da morte do meu velho amigo. Tomei meu café pensando em como aquilo poderia ter acontecido, logo agora que eu estava cheio de ideias e certamente iria compartilhar com ele.
Fui para sala triste e sentei-me pensativo no sofá. Dali podia imaginá-lo melhor. Inerte e sem sinal de vida.
Ainda sentado ao sofá lembrei do dia em que o conheci. Foi amizade a primeira vista e a sua presença aqui em casa logicamente foi inevitável. Todos aqui se davam muito bem com ele. Impressionante era a sua presteza, não havia nada que o perguntássemos que ele de bom grado, não respondia. Mas agora estava morto e tinha que me acostumar com o acontecimento, afinal um dia todos nós temos mesmo que fazer a viagem de volta, e ele não seria diferente de ninguém.
Tomei uma decisão e levantei-me do sofá. Falei para minha mulher que iria sair para espairecer, sabia que saindo, tudo ficaria mais fácil. Lembrei do velho, mas acertado ditado, “Rei morto, Rei posto” e assim fiz.
Lá estava eu passeando pelo shopping, as vitrines eram convidativas, até o mais contido dos mortais não resistia a tentação e deixava-se morder pelo consumismo, e olha, dizem que estamos no meio de uma grande crise.
Até eu fui mordido por esse bichinho. Quando dei por mim estava dentro daquela loja toda iluminada, clara até demais, para que pudéssemos ser atraído por tantas novidades. Confesso que ao ver aquele garotão cheio de vida e energia não resisti. Outra vez me apaixonei. Chamei o vendedor e perguntei se tinha algum para pronta entrega. Nem questionei o preço. Em poucos instantes já estava voltando para casa, alegre como um menino que acaba de ganhar seu primeiro brinquedo.
Entrei em casa e encontrei o mesmo clima triste que deixei, mas quando me viram com aquela enorme caixa, logo estavam a sua volta querendo abri-la. Ao vê-lo então, ficaram loucos. Daí para experimentar o novo, foi só um pulo.
Como pensei: - Rei morto, Rei posto. Pronto, ninguém mais se lembrava do velho e grande amigo que acabara de morrer, o computador da família. Agora já poderíamos voltar a escrever e a nos comunicar com o mundo.




















Alegria

Os serviçais andavam com os nervos a flor da pele. Eram tantas as cobranças e os trabalhos que praticamente trabalhavam as vinte quatro horas do dia, tendo pouquíssimo tempo para descansar e se distraírem.
Tristeza geral.
Mas nem tudo é eterno e um belo dia o rei resolveu viajar levando consigo quase toda a corte. Com a inesperada viagem a felicidade reinava entre eles nos últimos dias.
Naquela noite por volta das três da madrugada ouviram um grito ecoar pelo castelo.
- Frederico... Onde está o meu pinico azulado?
Parecia até mal assombrado. Não o castelo, mas sim o grito. Todos acordaram sobressaltados. Era bem rouca a voz e a maioria dos serviçais, ainda sonolentos, pensaram ser do Damião, o bobo da corte, imitando o monarca que estava viajando, para sacanear seu amigo Frederico, o camareiro de Sua Majestade.
Outro grito também ecoou no castelo.
- Joguei no telhado, seu nanico safado...
Mais alto que o primeiro e tão rouco quanto. Era o próprio Frederico tentando arremedar o Rei. Gargalhada geral ecoando por todo o castelo. Nada mais foi ouvido, o silêncio voltou a reinar e todos voltaram a dormir.
Na manhã seguinte foram surpreendidos com a notícia de que o rei havia voltado da viagem naquela madrugada. Pânico instalado. Teria sido do rei aquele grito. Era o pensamento no ar.
O rei mandou reunir todos os serviçais e levá-los a sua presença no grande salão, e lá novamente ouviram o grito.
- Frederico... Onde está o meu pinico azulado? - Desta vez pareceu mais irritado ainda.
Silêncio total. Podia ser ouvido o barulho de uma pena caindo ao chão. Novamente outro grito foi ouvido.
- Joguei no telhado, seu nanico safado...
Era Damião, o bobo da corte, que saltitando entre os presentes imitava o monarca na tentativa de salvar o seu amigo Frederico. Gargalhada geral.
Nem mesmo o rei resistiu.
Alegria total.

























História de vendedor

Por volta do final dos anos 70, Júlio, vendedor de uma multinacional de renome, era trazido sempre à distância e com ressalvas por todos os compradores dos atacados da cidade de Muriaé. Sua fama de atochador era conhecida por todos. Daí tal precaução.
Devido a isso sempre tinha grande dificuldade em atingir os objetivos que sua empresa lhe impunha. Um belo dia resolveu se vingar de Aniceto, o comprador que havia espalhado como ele havia lhe atochado de mercadorias, causando-lhe assim a fama. Aproveitou que seu amigo Antônio fora cobrir aquela área e combinou com ele os detalhes da vingança.
- Tenha sempre em mente, o Aniceto adora sentir que está levando vantagem na negociação. Esse é seu ponto fraco. – Júlio alertava seu amigo Antônio de como ele poderia também atochar o seu desafeto.
Antônio representava a mesma empresa, só que na divisão das canetas esferográficas Inka Pen, não tão conhecida e famosa quanto a Bic, mas que pretendia tomar uma parte daquele mercado.
Para tanto, naquele mês a empresa fez uma campanha promocional onde daria um carro ao vendedor do atacado que mais vendesse sua caneta e outro ao comprador. Baseado em tudo que o Júlio havia lhe dito e calçado com a promoção, Antônio conseguiu vender para o atacado onde Aniceto era o comprador, 20.000 caixas das suas canetas. Dez vezes o que este comprava da concorrente.
Poucos vendedores conseguiram vender as tais canetas, e as que foram vendidas, logo foram devolvidas, pois não escreviam de tão ressecadas que estavam. Ninguém ganhou o tão sonhado carro.
Dois anos mais tarde as canetas continuavam no estoque, ressecadas e imprestáveis para venda e Aniceto amargando a dor de mais uma atochada e a perda do carro para o dono do atacado, como forma de indenização pela compra mal feita.
Com isso, Júlio aproveitou para saciar sua sede de vingança e num almoço de confraternização entre fornecedores e compradores da região, espetou Aniceto.
- Então? Quem é o mais atochador eu ou Tonico?

























O campo de batalha

Imaginei que aquela provavelmente seria a noite prometida, mas não tinha como evita-la.
Tudo indicava que seria a batalha mais sanguinolenta de todos os tempos. E foi.
Os inimigos ferozes e sorrateiros avançavam palmo a palmo no campo de batalha e parecia que sairiam vencedores daquela luta corpo a corpo.
Não dava para pregar olhos, pois suas investidas eram frequentes e o calor também contribuía para continuar meio acordado, meio sonolento. Entretanto, não imaginaram que mesmo sendo ágeis, praticamente silenciosos e tendo a vantagem da escuridão acabariam sofrendo algumas baixas e teriam que recuar para só voltar a atacar em uma outra ocasião, talvez num momento em que seu opositor estivesse mais cansado e desprevenido já que a luta fora longa e desgastante.
Amanhecera e lá estavam os corpos dos que não conseguiram fugir, desfigurados, espalhados pelo cenário da guerra. Em vários pontos ainda podia ser visto poças de sangue, o que confirmava a ferocidade do combate.
Agradeci a Deus por ainda estar vivo e saudável, mas a vida continua.
Troquei o lençol da cama e parti para o trabalho com as marcas no corpo da luta travada contra os pernilongos.







Um acontecimento festivo (cigarros de todos os tempos)

Logo após Le Grand torneio Universal de Golf cujo TROFÉU era um buque de flor de LOTUS, o príncipe da Inglaterra PHILLIP MORRIS resolveu dar uma recepção em seu palácio MONROE, para comemorar o nascimento dos filhos gêmeos KINSTON e WINSTON, para isso teve que enviar muitos CARLTON de convite. Não queria que nenhum LORD faltasse a sua festa.
O PARLIAMENT e o poder judiciário estavam presentes à festa. Na hora marcada, os convidados foram chegando. Um dos primeiros a chegar, num GALAXY, foi o CHANCELLER do HAWAI e o CONSUL de SARATOGA acompanhado de sua esposa, mulher de muito CHARM, ex atriz de HOLLYWOOD. Saltava aos olhos que os dois ainda eram REVAL, como os lendários RINGO e ROI Roger.
O bispo convidado para o evento deu BENSON HEDGES às crianças e rezou a SAINT MORITZ que as protegesse das bruxas SALEM e YOLANDA, que viviam na longínqua NEGRITOS, cidade do interior da ASPÁSIA.
ASCOTT, proprietário do banquete contratado, mandou LUKE STRIKE servir CAMEL assado e muito wisky escocês. Tudo ia correndo bem, quando NEUZA e ADELPHY no auge do FULGOR, efóricos e descontraídos, começaram a dar grandes alterações.
O 1º MINISTER, que comeu demais, deu um auto ROTHMANS à mesa, do tipo BIG-BEN. Ao constatar o susto dos presentes se encolheu todo envergonhado, o que fez todos RIALTO.
A consulesa, recém chegada da ilha de CAPRI, muito louca de pileque, tirou os sapatos LUÍS XV e se pôs a dançar sozinha no salão entoando acordes LÍRICOS. Sua sorte é que naquela altura ao ser agarrada por ASHFORD, que estava tão bêbado quanto ELLA, sentindo o seu PALL MALL não foi preciso pedir a intervenção do segurança MENPHIS.
Seu esposo, por sua vez contava seus feitos heroicos realizados em uma caçada lá no KENT deserto do ARIZONA, para o embaixador da MACEDONIA, onde teve a oportunidade de atirar com seu rifle CHESTERFILD lá de cima do BELMONT.
Contrariando a consulesa, NIKKI pediu que fosse tocado um CALYPSO para alegrar o PREMIER LENNON. Com esse pedido o YANK DUNHILL baixinho.
O 1º MINISTER, já recuperado e FREE do vexame, entrou na PLAZA onde eles conversavam, e como gosta de aparecer também começou a contar sua ASTÓRIA:
- Ah! Eu costumo escalar. Em dezembro passado escalei o monte... Ué! Tive um EPSON de memória! Não sei se foi no MONT BLANC ou MONTERREY.
Num canto do salão o CHANCELLER teimava com o general L&M em altos brados:
- Eu não sou um PALERMO! Tenho certeza de que abasteci meu MUSTANG no posto COLÚMBIA.
- Não foi. Eu estava com você, não se lembra? Foi no SHELTON, aquele da rede DALAS!
E daí partiram para ofensas. O CHANCELLER irado deu um ADVANCE para cima do general. Esse por sua vez, respondeu com um CRUZADO em sua cabeça. Pronto estava formada a confusão no PALACE. Todos tentavam desapartar, mas eles estavam BRAVOS e a MISTURA FINA acabava de se desfazer. YES, parecia que os aborrecimentos eram DEFINITIVOS.
O general, todo amarrotado, virou-se para o príncipe e disse:
- Vou MALBORO daqui! Em PARIS isso não aconteceria, nem se o FLAMENGO fosse lá jogar. Se resolver ir no FORRÓ do DERBY clube estarei no hotel HILTON, mas cuidado ao passar pelo LARK PULLMAM, ali no PORTO de ESTORIL anda acontecendo coisas que há muito não se vê.
E saiu batendo CONTINENTAL para o oficial RITZ, membro do COMMANDER maior, que estava ao lado totalmente distraído planejando o CRUZEIRO que faria a BELÉM.
Nesse mesmo instante chegava a festa no seu COROLLA o SHEIK MISTRAL e sua esposa DIANA. Todos estranharam pois ele estava armado com um SABRE e trazia debaixo do braço seu ELMO. GARAM, o duque de WINDSOR, para aliviar a tensão aproximou-se e perguntou:
- TUFUMA? Tenho OLÉ ou TIVOLI?
Suspense total.
- Nenhum dos dois. Eu fumo TOP TEN algum problema nisso? Não dou um DOLLAR furado a quem protestar, mesmo que o COW BOY esteja fazendo SUSSEX e no auge da FAMA.
- Calma aí! Vamos fazer uma ALLIANCE de GIANTS e não se fala mais nisso.
Toda essa história daria um belo ROMANCE.
Havia já completa tranquilidade, quando de repente ouviu-se um grito. Era o 1º MINISTER que voltava do Cassino ROYALE deixando lá CALVERT, BLACK de raiva, pois perdia uma fortuna:
- Embaixador! Me WEMBLEY, me WEMBLEY! Não escalei monte algum no dezembro passado, meu AMIGO! Participei de uma expedição exploradora a VILA RICA!
Enquanto isso, na biblioteca de VANGUARD do PALACE, se encontravam conversando a princesa de BEVERLY e a calorenta duquesa YUMA, que agitava seu ALBANY, para aliviar o calor. A princesa mostrava vaidosa seus quadros surrealistas, comprados no CAIRO, que BILL pintara as margens do NILO.
- Que maravilha! São lindos DUMAURRIER. Meu esposo MARK TEN quadros CLÁSSICOS na nossa sala de musica. Menina, eles custaram uma FORTUNA! A sorte é que na época nos tínhamos o cartão VISA.
A culminância da festa deu-se em PAQUETÁ por ordem IMPERIAL. O REI V levou todos os convidados do príncipe no iate AXIS, RIVER abaixo e lá chegando, houve um inesquecível banho de mar ao som de um PAGODE bem BACANA e regado a KAISER. Todos gritavam BIS parecia até que estavam assistindo a um espetáculo na BROADWAY.

Autora – Lenita. (fumante quase assassinada pelo cigarro... Rsss) com alguns pitacos meus.

Escrito em 1972
Atualizado em 1993
Atualizado novamente em 2005
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Terroristas no Rio de Janeiro

Documentos mantidos em sigilo pela Polícia Federal do Brasil revelam que a Al Qaeda, ordenou a execução de um atentado no Brasil. O alvo da ação seria a estátua do Cristo Redentor, um dos símbolos mais conhecidos no Rio de Janeiro e do Mundo. A organização destacou dois mujahedins para o sequestro de um avião que seria lançado contra a "estátua símbolo dos infiéis cristãos".
Os registros da Polícia Federal dão conta de que os dois terroristas vestidos de preto e branco chegaram ao Rio no domingo, 5 de setembro, às 21h47m, num voo da Air France.
A missão começou a sofrer embaraços já no desembarque, quando a bagagem dos muçulmanos foi extraviada, seguindo num voo para o Paraguai.
Após quase seis horas de peregrinação por diversos guichês e dificuldade de comunicação em virtude do inglês ruim, os dois saem do aeroporto, aconselhados por funcionários da Infraero a voltar no dia seguinte, com um intérprete.
Já na madrugada de segunda feira, os dois terroristas apanharam um táxi pirata na saída do aeroporto, sendo que o motorista percebendo que eram estrangeiros rodou com eles mais de duas horas dando voltas pela cidade, até abandoná-los em um lugar ermo da Baixada Fluminense. Sendo que no trajeto, ele parou o carro e três cúmplices os assaltaram, espancaram e os estupraram, pois acharam que eles os estavam xingando naquela língua complicada.
Contudo, eles conseguiram ficar com alguns dólares que tinham escondido em cintos próprios para transportar dinheiro. Ali pegaram carona num caminhão que ia começar a entregar gás, mas também não tiveram sorte, pois o motorista achando que seria assaltado os entregou para o pessoal da milícia da zona oeste, lá em Campo Grande, que sem dó nem piedade deram outra coça neles. Por volta das 8h33m, graças ao treinamento de guerrilha no Afeganistão, os dois terroristas conseguem chegar a um hotel barato na Lapa. Muito sujos, rasgados e com fome são obrigados a deixar um depósito como garantia.
Mais tarde, alugaram então um carro e voltaram ao aeroporto, determinados a sequestrar logo um avião e jogá-lo bem no meio do Cristo Redentor. No caminho, enfrentam um congestionamento monstro por causa de uma manifestação de estudantes e professores em greve - e ficaram três horas parados na Avenida Brasil, altura de Manguinhos, onde seus relógios e os tênis são roubados em um arrastão.
Às 12h30m, resolvem ir para o centro da cidade e procuram uma casa de câmbio para trocar o pouco que sobrou de dólares. Recebem algumas notas de R$ 100 falsas, dessas que são feitas grosseiramente a partir de notas de R$ 1, no meio das verdadeiras. Assim que saíram do estabelecimento estavam indo em direção ao estacionamento onde deixaram o carro alugado quando um bueiro da Light explode e um deles tem o tímpano arrebentado de um dos ouvidos ficando surdo na hora e o outro com a pancada na cabeça perde parte da memória.
Por fim, às 15h45m chegam de volta ao Tom Jobim para sequestrar um avião. Os pilotos da VARIG estão em greve por melhor salário e menos trabalho. Os controladores de voo também pararam (querem equiparação com os pilotos). O único avião na pista é da Transbrasil, mas está sem combustível por falta de pagamento.
Aeroviários e passageiros estão acantonados no saguão do aeroporto, tocando pagode e gritando slogans contra o governo. Uma baderna generalizada que eles não conseguiam entender o motivo. O Batalhão de Choque da PM para impor a ordem chega batendo em todos, inclusive nos terroristas.
Presos, os árabes são conduzidos à delegacia da Polícia Federal no Aeroporto, acusados de tráfico de drogas e lideres do movimento. Tiveram plantados papelotes de cocaína e maconha nos seus bolsos.
Às 18 horas, aproveitando o resgate de presos feito por um esquadrão de bandidos do Comando Vermelho, eles conseguem fugir da delegacia em meio à confusão e ao tiroteio, mas na fuga são pegos pelos mesmos bandidos que achando serem eles membros do Terceiro Comando os torturam durante meia hora e por não entenderem o que diziam acabaram arrancando-lhes todas as unhas das mãos e dos pés.
Às 19h05m, os muçulmanos, ainda ensanguentados com as mãos trêmulas e mau podendo caminhar, se dirigem ao balcão da VASP para comprar as passagens. Mas o funcionário que lhes vende os bilhetes omite a informação de que os voos da companhia estão suspensos por tempo indeterminado.
Eles, então, discutem entre si:
Que lugar é esse e o que nós estamos fazendo aqui? - Perguntou o terrorista que estava meio sem memória.
Repete novamente desse lado que eu não escutei nada. - Pediu o outro que acabara de ficar surdo do ouvido direito.
Depois de muita conversa e se entenderem, começam a ficar em dúvida se destruir a imagem no Rio de Janeiro, no fim das contas, é um ato terrorista ou uma obra de caridade.
Às 23h30m, depois de muito esperar e nada do voo sair, sujos, doloridos e mortos de fome, decidem comer alguma coisa no restaurante do aeroporto. Pedem sanduíches de churrasquinho com queijo de coalho e limonadas. Passando mal eles foram levados para o Hospital Miguel Couto, depois de terem esperado três horas para que o socorro chegasse e percorresse os hospitais da rede pública até encontrar vaga. No HMC foram atendidos por uma enfermeira feia, grossa, gorda e mal-humorada, que sem dar a mínima para para o real problema deles, aplicou-lhe um laxante de alto poder que os deixou com o vaso sanitário preso na bunda. Ainda debilitados, tiveram alta hospitalar no domingo às 18h20h:
Os homens da Al Qaeda saem do hospital e perdido na cidade chegam perto do estádio do Maracanã. O Flamengo acabara de perder para o Coríntians, por 6x0. A torcida rubro-negra totalmente enfurecida, devido a vestimenta deles, confunde os terroristas com integrantes da galera adversária (que haviam ido de Kombi ao Rio) e lhes dá uma surra sem precedentes.
Às 19h45m, finalmente, são deixados em paz, com dores terríveis pelo corpo devido aos hematomas, e as diversas fraturas, inclusive um deles ainda estava com um canivete que havia se partido e continuava enfiado na bunda. Foi quando viram uma barraca de venda de bebida nas proximidades e decidem se embriagar uma vez na vida (mesmo que seja pecado, Alá que se dane!). Tomam cachaça adulterada com etanol e são presos por estarem ingerindo bebida alcoólica nas imediações do estádio de futebol. Na delegacia lhes tomam o restante do dinheiro que tinham e são torturados com choques para que entreguem o chefe da torcida organizada, pois tinham quebrado o carro do delegado de plantão que tinha ido assistir ao jogo. Depois de libertados precisam voltar outra vez ao Miguel Couto para serem engessados e fazer novo tratamento, pois a cachaça adulterada agravou a intoxicação alimentar, decorrente da ingestão de carne estragada usada nos sanduíches.
Na segunda-feira, 23h42m: os dois terroristas não aguentando mais o tratamento fogem do hospital e do Rio de Janeiro escondidos na traseira de um caminhão de eletrodomésticos, que foi assaltado horas depois na Serra das Araras e ali mesmo eles são jogados, pelos criminosos, ribanceira abaixo. Desnorteados e famintos, eles são levados pela van de uma ONG ligada a direitos humanos para São Paulo.
Na capital paulista, já sem nenhum dinheiro, perambulam em vão o dia todo à cata de comida. Cansados, acabam adormecendo debaixo da marquise de uma loja no Centro.
A Polícia Federal ainda não revelou o hospital onde os dois foram internados em estado grave, depois de espancados quase até a morte e queimados por um grupo de mata mendigos.
O porta-voz da PF declarou que, depois que os dois saírem da UTI, serão recolhidos no setor de imigrantes ilegais, em Brasília, onde permanecerão até o Ministério da Justiça autorizar a deportação dos dois infelizes, se tiver verba, é claro.
Já refeitos, os dois consideraram desnecessário terrorismo no Brasil e irão sugerir um convênio para realização, no Rio e São Paulo, de treinamento especializado em caos social para o pessoal da Al Qaeda.

( EU NÃO INVENTEI, SÓ AUMENTEI - baseado nas mentiras da internet )

Escrito em 06/05/10

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