A Herança
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A Herança
Romance Escrito em 1992
Rio de Janeiro - Brasil
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Homenagem
Ao Padre Léo
Quero aqui deixar registrado meu tributo a este homem que não conheci pessoalmente. Entretanto, qualquer um com um pouco de sensibilidade, ao vê-lo, tinha a certeza de que era especial. Confesso que poucas foram as vezes que o vi e ouvi pregando na Canção Nova, mas indubitavelmente tinha o dom divino da oratória. Suas palestras realmente faziam com que o mais arredio dos seres fizesse uma reflexão sobre sua existência.
Espero que, de onde ele esteja, possa lhe ser permitido continuar iluminando o caminho de todos nós.
Fernando A. Pereira
Agradecimentos
Ao meu filho Otávio Emanuel por se dedicar pacientemente em revisar este texto.
Ao Dr. Pedro Henrique Alves, pelo carinho, paciência e suas informações elucidativas.
Que Deus ilumine sempre os seus caminhos.
PRIMEIRO CAPÍTULO
O encontro de nobres.
Cidade do Rio de Janeiro.
Estação ferroviária D. Pedro II.
Trem de aço; destino: cidade de São Paulo.
Quarta-feira, treze de Agosto de 1975.
Manhã de céu inteiramente azul e ensolarada. Entretanto os efeitos do calor eram amenizados pelo vento frio que soprava do sudoeste e invadia a estação ferroviária naquele momento. Há muito não era visto um dia tão agradável. Do lado de fora da plataforma alguns passageiros compravam revistas, na velha banca ali existente, para se distraírem durante a viagem. Outros já começavam a consultar seus relógios, – dez horas e cinquenta minutos – ansiosos com o início da viagem. A partida estava prevista para as onze horas.
Acomodado na 1ª classe estava Pedro Henrique Tavares Alves Bernardes Pereira de Oliveira. Este homem de pele clara aguardava calmamente a saída do trem. Sempre que podia usava esse meio de transporte; detestava viajar de avião.
Embora não fosse visto pela maioria das pessoas como o descendente do Conde de Meringuava, era muito conhecido e respeitado como autor literário. Homem de fino trato, bom gosto e sempre primando pela elegância, vestia um terno cinza chumbo não muito escuro com riscas prateadas bem finas com um lenço de seda azul, no bolso superior. Uma camisa social também na cor azul, só que um pouco mais claro. Prendia nesta, uma abotoadura de ouro 24 quilates. onde podia ser visto estampado o antigo brasão da família. Uma das suas tradicionais gravatas borboleta, meias na mesma tonalidade do lenço, um cinto e sapatos marrons-escuros – estes últimos de cromo alemão – completavam-lhe o traje. Todo o conjunto realçava o ar de nobreza.
De repente uma voz ecoou por todo o vagão.
“Dez minutos para a partida... Dez minutos para a partida... Dez minutos para a partida...”
Um negro de quase dois metros de altura pesando por volta de cento e quarenta quilos fazia o anúncio com aquela voz de tenor. Era o fiscal da rede ferroviária passando pelo elegante vagão onde o Conde de Meringuava estava confortavelmente alojado. Pareceu uma ducha de água fria em seus pensamentos, pois como sempre, ao viajar, ele deixava sua imaginação falar mais forte. Muitos dos seus livros continham personagens retirados das conversas daqueles passageiros, da sua fértil imaginação e, logicamente, da capacidade de criação que possuía.
Aquele homem continuou fazendo seu anúncio até alcançar o final do vagão. Com a chegada do silêncio, Henrique deixou-se novamente levar por pensamentos que desta vez não eram imaginários, mas sim de experiências vividas por ele ao longo de suas viagens. Resolveu que os colocaria num livro, mas sem dar a entender de que tratavam de fatos verídicos, até porque poderiam comprometer alguns amigos e meia dúzia de pessoas que hoje se tornaram influentes na vida pública.
Conforme o anunciado, e dentro da conhecida pontualidade britânica que a empresa procurava manter, partia com destino a São Paulo o tão famoso trem de aço.
Meia hora de viagem passara e o silêncio voltou a ser interrompido.
“Senhores, dentro de mais trinta minutos estará liberado o acesso ao vagão restaurante. Estejam à vontade; será um prazer atendê-los... Senhores, dentro de mais trinta minutos estará liberado o acesso ao vagão restaurante. Estejam à vontade; será um prazer atendê-los...”
Desta vez não era o fiscal tenor gritando aloucado, e sim um garçom de voz bem mais suave, porém também de alta tonalidade. Há cada duas poltronas, parava e repetia automaticamente aquela mesma frase, convidando educadamente os passageiros para se servirem.
Mais uma vez as ideias de Henrique eram interrompidas. Pensou consigo mesmo se conseguiria terminar o seu novo livro naquela viagem. Enquanto a voz continuava a ecoar pelo vagão, Henrique passou a observar, pela ampla janela, que a cidade ficava para traz. Dali em diante a paisagem de casas, edifícios, ruas e veículos mudariam para a de nostálgicos pastos, fazendas de gado, cavalos, carroças e plantações – sem contar alguns trechos de matas fechadas. Alternadamente, o trem cortaria uma pequena cidade e, em seguida, tornaria a cruzar grandes áreas rurais. Assim progrediria sucessivamente até chegar ao destino: a Estação da Luz.
Na verdade, sua viagem não terminaria no centro da metrópole. Desta vez seu destino era o interior do estado, rumo às festas dos peões de boiadeiros; precisamente na cidade de Barretos. Henrique estaria autografando, durante as festividades, seu último livro, cujo título “Peão... Trabalho que virou Esporte” já fazia parte da lista dos mais vendidos.
“Será um prazer atendê-los...”
Escutou ao longe a última frase vinda do fundo do vagão e a dúvida lhe veio à mente: “Será que na volta o garçom continuará com esse convite? Espero que consiga logo alguns clientes, pois assim provavelmente terá de atendê-los”. Henrique teria aproximadamente quatorze horas de viagem, tempo suficiente para elaborar todo o roteiro do livro caso não aparecessem novos contratempos que pudessem vir a desconcentrá-lo. Voltou novamente para a sua velha e conhecida técnica, tentando buscar na fisionomia das pessoas a inspiração e as recordações que elas pudessem lhe trazer. Sempre que viajava, fazia questão de comprar uma passagem para aquele tipo de poltrona: próxima ao corredor, voltada para o interior do vagão e sempre junta de um grupo de quatro. Assim, tinha uma visão ampla de tudo e podia fazer suas análises sobre aqueles que passassem. Essa proximidade sempre funcionou como estratégia para iniciar uma conversa e daí obter recursos, mas em algumas vezes ela fornecia um resultado não muito favorável, como o da penúltima viagem em que sentou à sua frente um casal em lua de mel. Henrique quase não conversou e sua concentração ficou seriamente comprometida, já que faltou pouco para os amantes consumirem o ato sexual ali mesmo. Com certeza, se fosse um escritor pornográfico, teria tido material para pelo menos dois capítulos.
Nesse momento lhe intrigava o fato do trem já ter percorrido um bom trajeto do percurso a ser realizado e ele não ter ainda sequer esboçado qualquer pensamento que pudesse desenvolver sua história. Quando começou sua viagem, não achou que seria tão difícil colocar no papel suas experiências, mas agora, pela primeira vez tinha dúvidas. “Como começar?” Era a grande interrogação. Acostumado a criar com relativa facilidade, neste momento Henrique via-se totalmente impossibilitado. Sua mente sempre fértil para novas ideias parecia estar bloqueada, esbarrando em escrúpulos, preconceitos e até mesmo em medos. Na verdade, ele estava mergulhado até o pescoço no novo livro, e o fato de não ter encontrado a pessoa ideal para o narrador o incomodava. Todas as ideias colocavam-no como personagem central, e de forma alguma ele queria isso.
Novamente voltou a olhar pela janela; o trem estava passando exatamente pela Baixada Fluminense, localidade famosa pela violência e por ser a terra onde vivia o alagoano Natalício Tenório Cavalcante de Albuquerque, conhecido popularmente como; o rei da baixada; o homem da capa preta; o deputado pistoleiro e várias outras alcunhas. Tenório Cavalcante possuía um estilo político agressivo, muitas vezes violento. Isso rendeu a ele uma aura de mito e vários inimigos.
Como deputado estadual, o homem da capa preta providenciou diversas melhorias para a população local. Já como deputado federal, devido a uma desavença com Antônio Carlos Magalhães no Congresso, ocasião em que o ameaçou de morte, mais tarde, em 1964 teve seus direitos políticos caçados pelo governo militar com a interveniência direta do Antônio Carlos. Mesmo assim ainda era respeitado e reconhecido naquela região como o dono do pedaço.
Henrique logo se lembrou de quando ainda era vendedor naquela área. Quantas foram às vezes que esteve por ali visitando distribuidores, grandes atacados, supermercados e farmácias. Em outras ocasiões almoçou com algum cliente importante e, frequentemente, junto com seu colega de vendas da mesma empresa na qual trabalhavam.
Também lhe veio à mente, o Doutor Manoel: “Por onde será que anda aquele médico?”, “Estará ainda vivo?”. Graças a ele conseguiu reverter um quadro clínico que mudara sua vida. Quando tudo parecia perdido, a simples indicação de um colega de profissão resolvera seu problema.
“Mas o que está acontecendo comigo?” – Recriminava-se, e ao mesmo tempo tentava reorganizar as ideias.
Outra vez seus pensamentos teimavam em fugir do seu propósito, como em uma fuga estratégica para não entrar no contexto da nova história. A janela do trem demonstrava agora o primeiro indício de que a paisagem mudaria – já podia avistar ao longe uma casinha branca pequena; o gado pastava tranquilamente, as árvores demarcavam o início de uma mata. Também já apareciam espalhadas pela pradaria grandes casas de cupins contrastando com o verde. O trem já corria margeando as grandes fazendas existentes ao longo do trajeto e a vista do lugar tornava-se bucólica. Era sinal de que chegava a hora de montar em sua mente o que seria realmente o livro.
Percorrendo lentamente o olhar por dentro do vagão, pôde constatar que não havia um só lugar vago. “Será bom para mim e para o garçom”, imaginou. Nas poltronas ao lado chamou-lhe a atenção o grupo ali distribuído – esses seus vizinhos eram bem interessantes. Notou que pouco se falavam, dando a entender de que não estavam viajando juntos, mas seus olhares tinham algo que despertou sua curiosidade, deixando-o meio preocupado. Poderiam estar escondendo algum segredo ou armando algo. Sua mente fervilhava e começava a dar sinal de vida. Precisava a partir daquele instante ficar atento aos mínimos detalhes; qualquer olhar mais significativo poderia ser um indício para suas suspeitas. Uma vez que não conseguia conciliar o pensamento no seu objetivo, escreveria o que a ocasião apresentasse para sua imaginação.
De repente, teve a certeza de que pelo menos dois dos viajantes a seu redor se conheciam e estavam ali com alguma intenção, já que os olhares que trocavam não deixaram dúvidas. Mas quem seriam eles? Estariam seguindo algum dos passageiros? E esse passageiro? Poderia ser ele? Resolveu descobrir que mistério era aquele, e para tal, levantou e caminhou em direção ao restaurante móvel – era assim como chamavam aquela parte do trem. Já quase chegando ao local, pôde sentir que um passageiro fazia o mesmo trajeto que ele. Seria um deles? Procurou sentar-se à mesa no fundo do restaurante para que pudesse ver todos que ali estavam. Não havia ninguém do seu vagão além dele.
Pediu um aperitivo ao garçom falante e ficou fazendo hora; a pessoa que o seguira era de outro vagão e sentou-se logo na entrada. Seu olhar voltou a perder-se pelos campos, estava tão distraído que nem notou quando sentou à sua mesa justamente o passageiro da poltrona do corredor ao lado. Era uma mulher jovem, aparentava ter uns vinte e oito anos e possuía uma beleza natural. Não estava usando muita maquiagem. Chamava a atenção pelo seu porte majestoso e estava elegantemente vestida, mesmo que esportivamente. Sorriu amigavelmente. Achou que ela ter se sentado junto a ele devia-se ao fato de também já estarem próximos no vagão. Ela retribuiu-lhe o sorriso, transparecendo ainda mais a sua beleza, e disparou a pergunta:
- Desculpe, você é o Conde de Meringuava?
- Sim e não, por isso prefiro deixar o título de lado.
- Mas seu nome é Pedro Henrique.
- Exato. Meu nome é Pedro Henrique Tavares Alves Bernardes Pereira de Oliveira, ou melhor, Henrique para os amigos, mas por que deseja saber se sou um Conde?
- Por que para tratar do assunto que me traz até aqui é preciso que me confirme ser quem lhe perguntei.
- Sim, sou eu mesmo.
- Muito prazer, Isabel Maria Carvalho de Alcântara e Bragança, mais conhecida por “A Princesa Alegre”.
- O prazer é todo meu, mas a que devo a honra desta agradável companhia d’uma dama da nobreza? E sendo você uma princesa, a qual Casa pertence?
- Eu é que me sinto honrada em poder estar compartilhando o mesmo espaço com o senhor. Eu não pertenço a nenhuma casa o título é só um tratamento carinhoso em família.
Henrique estando realmente surpreso com o encontro, e não conseguindo esconder sua curiosidade, comentou:
- Isabel, somente duas pessoas sabem quem eu realmente sou.
- Não é possível. É mesmo verdade o que está me dizendo?
- Pode acreditar. Somente o bispo de Bauru e o meu querido padre Inácio, que me criou e protegeu. Se não for muita curiosidade da minha parte, como soube que eu era o descendente do Conde de Meringuava?
- Para mim não foi difícil descobri-lo. Quanto, a saber, sobre seu título é mais complicado e vai levar um pouco mais de tempo para explicar.
- Verdade? Acho tão fácil! Basta dizer “foi fulano que me disse antes de entrar no trem” ou “descobri nos registros”. Pronto, matará a minha curiosidade.
- Eu sei. Só que não é bem assim. E por falar em matar, não é bem a sua curiosidade que estão querendo matar. Há muito mais coisas em jogo do que o senhor possa imaginar.
- Isabel, espera um momento. Eu é que sou o escritor. Deixa os mistérios e intrigas por minha conta, vá direto ao assunto; vamos deixar as formalidades de lado e, por favor, trate-me de você.
- Fique calmo, Henrique. Por ora o que mais temos é tempo, afinal nossa viagem só termina em São Paulo e com certeza conseguirei colocá-lo a par de tudo que o envolve. Prepare-se, pois só estamos começando. Acredito que no final dará para você escrever um livro de época; se tudo correr bem, é claro.
- Mas afinal de contas, do que você está falando? Uma hora insinua que querem me matar e logo a seguir diz que poderei escrever um livro de época como se eu fosse viajar no tempo. Cada instante ao seu lado, mais curioso fico. Quem poderia acabar comigo? Não faz o menor sentido!
- Dê-me licença um instante que vou ao toalete, mas não demoro. Prometo que quando voltar você vai tomar conhecimento de tudo que sei.
Levantou-se sem esperar resposta e caminhou em direção ao fim do corredor, ocasião em que Henrique pôde observar que se tratava de uma mulher interessante e bem feita de corpo. Inesperadamente, um desejo de conquistá-la tomou conta de seus pensamentos e o levaram a uma fantasia sexual que logo se interrompeu quando notou que ela, antes de entrar no toalete, discretamente fizera sinal para alguém no outro vagão. Quem seria?
Voltou aos seus pensamentos, sendo que agora permanecia atento ao que se passava à sua volta. Não demorou muito e Isabel vinha em sua direção, agora mais provocativa do que nunca. Notou que um pouco atrás vinha outra mulher que, em matéria de beleza, elegância e charme, não deixava nada a desejar frente à primeira. Aliás, observando atentamente depois, viu que aquela era ainda mais bonita.
- Conforme prometi, não demorei muito. Henrique, esta é minha prima, a Duquesa do Mato Alto.
- Muito prazer, Pedro Henrique Tavares... melhor, Henrique.
- O prazer é meu, Elizabeth Constança Sophia Valença de Aragon. Então é você o tão procurado Conde?
- Conde até posso ser com um pouco de boa vontade, mas procurado creio que não, pois não cometi nenhum crime.
- Sabemos que não é nenhum criminoso, mas muitos o procuram. Mencionei o título porque a maioria dos nobres, mesmo não podendo, fazem questão de serem tratados pelo mesmo e estranhei quando você não se apresentou com ele.
- Prefiro manter-me incógnito.
- Está explicado, por isso que ninguém o acha.
- Você também com essa conversa? Mas quem poderia estar me procurando?
- Bem, isso já é uma longa história que minha prima vai te contar.
- Não me diga que você esta viajando pelo o mesmo motivo da sua prima Isabel?
- Quanto à viagem, poderia dizer que sim e que não. Sim, porque precisamos lhe proteger, e não, porque na festa do peão de boiadeiro, em Barretos, vou concorrer à rainha da festa, e ela vai competir na prova dos três tambores.
“Jamais poderia imaginar duas lindas mulheres indo para o mesmo lugar que eu, participando dos festejos como eu e com a finalidade de me proteger”. – Pensou.
- Interessante, mas me digam: proteger-me do quê e de quem?
- Isabel, quem vai falar? Eu ou você? Resolve logo, pois com a ansiedade que o Henrique está vai acabar morrendo antes mesmo de saber alguma coisa. E aí de nada terá adiantado nossa presença ao lado dele.
- Bem, se você acha que chegou a hora então pode deixar que eu mesma conto, mas fica aqui, assim dará veracidade aos fatos que vou apresentá-lo.
- Não acredito que eu precise ficar, até porque posso atrapalhar algo que sinto estar começando a rolar entre vocês.
- Mas que conversa é essa de vocês duas? Nem eu, que sou escritor, consigo fazer tanto mistério num espaço tão curto de tempo. Vocês vão ou não dizer o que está acontecendo?
- Já que está insistindo tanto vamos lhe contar. Acredito que ele já esteja preparado. Você também não acha Elizabeth?
- Sem dúvida nenhuma, Isabel. Coloque-o logo a par, assim ele também nos ajudará ficando alerta contra seus prováveis inimigos.
- Tudo bem. Vamos voltar ao vagão de passageiros. Lá tentamos trocar de lugar com um dos nossos vizinhos, assim não atrapalhamos o serviço do restaurante.
- É preciso?
- Sim. O que tenho para lhe contar é demorado.
- Está bom, então vamos.
Isabel conseguiu trocar de lugar com o senhor que ocupava a poltrona ao lado da de Henrique.
- Vou tentar ser bem clara, embora essa história seja um pouco complicada. Como é de seu conhecimento, o título que lhe pertence por fato, foi adquirido por seu ancestral, o senhor Antenor Bernardes de Oliveira, de um outro ancestral seu, o senhor Macedo Tavares, no ano de 1809, numa tentativa quase que desesperada de não ver mais a sua família discriminada pela sociedade daquela época.
- Espera um momento, não estou entendendo muito bem. Você disse compra e venda entre os meus ancestrais?
- Vou lhe explicar. Alguns anos após a aquisição do título, o filho primogênito do senhor Antenor passou a ser o conde e casou-se com a primeira filha do senhor Macedo Tavares. Da união deste casal nasceu um menino, o primeiro Tavares Bernardes de Oliveira. Com isso o título voltou a pertencer novamente à família Macedo Tavares. E você, por conseguinte, é um descendente direto das duas famílias.
- Isabel, como você sabe disso? Nem eu que sou descendente deles tenho todo esse conhecimento.
- Isso é outra história que depois eu te explico, mas deixa-me continuar se não acabo me perdendo.
- Nada disso, você agora me deixou curioso. Conte essa história e a outra também.
- Está bem. O Antenor não era filho do casal, o senhor Mariano e a senhora Nilda. Ele era filho de Mariano com sua amante, uma escrava alforriada de nome Isaltina. Deu para entender até aqui?
- Mais ou menos, mas continue.
- Pois bem, Antenor achava que por ser filho de uma escrava de nada adiantaria os seus filhos e netos terem um título e dinheiro, pois continuariam a serem discriminados. Por causa disso fez uma espécie de testamento beneficiando seu descendente da sexta geração, e esse descendente é você.
- Você deve estar brincando. Pelo que sei este senhor morreu em 1823. Como poderia ele me beneficiar com alguma coisa além de um título de Conde, que na verdade é só simbólico.
- Não estou brincando. Foi a partir daquela data que começou, meu amigo, a sua sorte e a ferrenha busca para roubá-lo ou então eliminá-lo agora, quando tiver tomado posse da sua herança.
Depois de fazerem muito mistério, aquelas mulheres lhe revelaram ser ele herdeiro de uma incalculável fortuna e que por isso tinha atraído desejos e ódios. Esta era a razão dele estar correndo risco até de morte.
- Como assim? Pode explicar melhor toda essa história?
- Posso, mas prepare-se que ela é longa.
- Não tem problema, temos a viagem toda pela frente.
Henrique, não negando ser escritor, ligou seu gravador para não perder nenhum registro.
- Presta atenção, mas é só um tira gosto da história, tudo começou por causa do senhor Mariano.
*
Mariano Bernardes de Oliveira era português. Nasceu em Lisboa no ano de 1711. Foi, na época, um dos contratadores de diamantes designados pelo Rei Dom João V. Viveu na região de Diamantina entre 1745 e 1789, vindo a falecer aos 80 anos, em 1791 na cidade onde nascera. O nome “contratador” se deve ao fato de que, a partir de 1740, a mineração de diamantes passou a ser restrita a quem tivesse esse contrato com a coroa portuguesa. Os contratos sempre eram feitos com pessoas ricas e influentes daquela época, e quem os conseguia eram chamados de contratadores.
Mariano era casado com a senhora Nilda Arruda de Albuquerque e Neves, filha de uma tradicional e também poderosa família diamantinense. O contratador e sua esposa tiveram quatro filhas, e por mais que tentassem, não conseguiram ter um filho varão. Tornou-se famoso nem tanto pela riqueza que acumulou ao longo da vida, mas pela paixão por uma escrava, que comprou e alforriou, chamada Isaltina Lamego. Filha de uma negra e o seu pai era o monsenhor Jerônimo, um religioso português da cidade Lamego, localizada no distrito de Viseu em Portugal. Isaltina passou a ser conhecida em toda a região, mesmo sendo branca, como a escrava do contratador. Entretanto, naquela época, mesmo com toda sociedade exercendo extrema e constante discriminação contra os escravos, o senhor Mariano separou-se de sua esposa sem, no entanto abandoná-la à própria sorte, e assumiu o romance com a sua tão querida amada.
Com Isaltina, Mariano só teve um filho, ao qual deu o nome de Antenor Bernardes de Oliveira.
Antenor, mesmo sendo o filho da amante e ex-escrava, era o preferido de Mariano por ser o único dos filhos nascido à semelhança do pai. Por essa razão, quando Antenor completou 21 anos, e como um gesto de reconhecimento público, o contratador destinou-lhe uma quantidade de diamantes equivalente a 50.000$ contos como herança, cerca de 30% dos seus bens totais. Na época, em 1774, além de representar uma fortuna exorbitante, seu gesto mexeu profundamente com os brios da família Arruda de Albuquerque e de toda população, fazendo com que a sua vida ficasse marcada para sempre. Em todos os lugares da cidade onde estivessem mais de duas pessoas reunidas, não havia dúvidas. O assunto era a doação que Antenor recebera do contratador. Até mesmo quando ia à igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, Antenor mal podia assistir à missa, pois virava o alvo dos comentários, a ponto de várias vezes ser abordado por alguma de suas meias irmãs em pleno exercício da mesma e ali ser desacatado e ameaçado.
Essa atitude de querer beneficiar o filho bastardo acabou gerando discórdias entre as quatro herdeiras legais e seu filho com a escrava Isaltina. Mariano, sem querer, mas sabendo do que poderia ocorrer, deu subsídios para uma luta jurídica sem precedentes entre seus familiares, além de fomentar o ódio e acirrar o preconceito racial que suas filhas nutriam contra Antenor.
Passaram-se seis anos, e logo após a morte do contratador, suas filhas Carminda, Eugenia, Sofia e Natália entraram com uma petição na justiça para que fosse apreciada a legitimidade daquela herança e que consequentemente anulasse tal decisão. Essas disputas jurídicas se arrastaram no tribunal da corte do Rio de Janeiro por quase trinta anos.
As ofensas a Antenor não tinham hora e nem lugar para serem feitas. Qualquer coisa ou assunto era motivo para fustigá-lo ou tentar diminuí-lo perante a sociedade. As agressões não eram menos discretas, só mais elaboradas, mas mesmo assim quando feitas eram de maneira acintosa. Certa vez, quando estava retornando de uma das minas de diamante, sua carruagem foi interceptada por dois homens que deixaram um recado ameaçador que visava um de seus filhos. Embora tenha passado a andar acompanhado de seu capataz fortemente armado e mais três ou quatro escravos para protegê-lo, as investidas contra ele não pararam. Essa última então, ameaçando claramente seu filho Valdecir, levou Antenor a mudar-se com sua família de Diamantina, em 1798.
Era do conhecimento de todas as pessoas que lá viviam o ódio que Natália, a filha mais nova de Mariano, nutria contra seu meio irmão. Como também sabiam, ser ela a mandante dos quatro atentados contra a vida de Antenor, realizados ao longo desses vinte anos, sendo que um desses atentados o deixou impossibilitado dos movimentos da perna esquerda, obrigando-o a usar muletas para se locomover.
Instalaram-se no Rio de Janeiro.
*
Isabel terminou sua narração acrescentando por alto à vontade de Antenor, mas sem muitos detalhes. Achava suficiente a informação dada.
- Esse é o início da sua história familiar que deu origem à herança do mesmo valor.
- Certo, mas quem garante que essa fortuna me pertence?
- Toda uma documentação guardada à sua espera para fazer valer a vontade do seu ancestral.
- Isabel, eu sou obrigado a confessar que você conseguiu me deixar curioso sobre essa história.
- Agora, se quiser saber detalhado tudo o que a cercou ao longo de todos esses anos, meu pai tem todos os registros.
- Com certeza falarei com ele.
- Acredita agora que você corre perigo?
- É, pode ser. Sendo tudo o que acaba de me contar verdadeiro, faz sentido toda essa sua preocupação.
Enfim, Henrique acabara de conhecer uma história na qual ainda não acreditava muito e que só poderia confirmar a sua veracidade quando voltasse ao Rio de Janeiro e tomasse conhecimento legal e posse da tal herança que elas afirmavam ser dele. Entretanto, mesmo não acreditando muito naquela história, Henrique achou melhor tomar todas as precauções possíveis como as duas mulheres tanto recomendavam afinal ele mesmo sem saber da existência da herança notara alguma coisa no ar.
Terminado o relato, voltaram a sentar em seus lugares de origem. Desde que saiu do vagão restaurante, Henrique percebeu que Elizabeth de vez em quando lhe dava uma olhada, sempre com a preocupação de não deixar Isabel perceber. Já a sua prima não. Por várias vezes esta foi ao toalete no fim do vagão, mesmo sem ter nada para fazer, apenas para sentir o sedutor olhar dele sobre todo o seu corpo jovem. Além de tudo, ela era muito instigante e isso foi criando um clima de desejo cada vez maior entre os dois, que culminou numa parada que o trem foi obrigado a fazer na cidade de Cruzeiro devido a uma suspeita de sabotagem em uma das composições.
Após alguns momentos tumultuados com a saída dos passageiros, Henrique passou para uma poltrona vaga ao lado dela, que não estranhou e nem reclamou. Pareceu-lhe estar decidida, mas ele é que tomou a iniciativa de convidá-la para tomarem algo naquele lugar; teriam meia hora para caminhar. Isabel não demorou em aceitar, logo levantou e foi em direção a saída que havia no final do vagão. Mal desceu as escadas, parou no meio da plataforma extremamente limpa e, depois de trocar um olhar profundo com ele, caminhou em sua direção e o abraçou. Ele ficou meio confuso, mas ainda assim se sentia mais envaidecido do que nunca. Começaram a andar na direção do bar que podia ser visto mais à frente, mas não entraram nele. Conversando, seguiram lentamente pela estação até que chegaram ao final da plataforma. Lá, frente a uma sala abandonada, não resistiram e entraram. Estava um pouco escuro, mas logo suas vistas se acostumaram. Lentamente, sem dizer uma única palavra, entreolharam-se por algum tempo. O magnetismo dela o fez sentir-se nu. Estava totalmente a sua mercê. Abraçaram-se. Essa aproximação aconchegante daquele corpo escultural aumentava não só seus desejos como também os dela. Parecia que já se conheciam há uma eternidade, tal a intimidade mantida entre os dois durante os momentos que ali estiveram. Fizeram amor sem nada ser dito ou prometido, porém estavam certos de que tinham se apaixonado para sempre.
De todas as meias horas que os dois já tinham vivido aquela com certeza seria lembrado pelo restante de suas vidas. Vestiram-se às pressas e voltaram à realidade, pois o fiscal do trem, outra vez aos berros, anunciava a partida para dali a poucos instantes.
Depois de se acomodarem novamente em seus lugares e passados alguns minutos com o trem já em movimento, Henrique como sempre observador notara que Isabel trocara olhares com Elizabeth por várias vezes, e concluiu que sendo elas parentas deviam conhecer seus significados. Não demorou muito e Elizabeth os convidou para conversar, tomar um drinque e saborear algum tira-gosto no restaurante, argumentando que ajudaria a viagem a passar mais rapidamente.
O restante da viagem transcorreu sem muita novidade, conversaram a respeito tudo, até mesmo sobre uma possível volta à monarquia no Brasil, mas o assunto tomou logo outro rumo quando Henrique, demonstrando sua tendência, perguntou se o imperador sairia do Ramo de Petrópolis. Algo impossível, pois uma vez que renunciando em 1908 aos seus direitos ao trono imperial brasileiro, D. Pedro de Alcântara de Orléans e Bragança permitiu que o Ramo de Vassouras passasse a deter o título de Chefe da Casa Imperial Brasileira.
Estavam tão entretidos na conversa que nem acreditaram quando chegaram à tão famosa e falada Estação da Luz em São Paulo. A estação compunha um conjunto arquitetônico que não só era um referencial urbano como efetivamente fazia parte da vida cotidiana do município, constituindo aquilo que pode ser chamado de a “imagem da cidade”.
Devido ao atraso de trinta minutos que tiveram com aquela parada em Cruzeiro, foram obrigados a permanecer na cidade de São Paulo até o dia seguinte. Combinaram de se hospedar no Hilton Hotel, que ficava localizado na Avenida Ipiranga, por ser um bom lugar e ao mesmo tempo próximo ao terminal rodoviário, pois logo cedo estariam embarcando para a cidade de Barretos. Eram dezenove horas quando chegaram ao hotel e antes de se acomodarem para tomar uma ducha marcaram para se encontrar no saguão por volta das vinte horas. Henrique as convidara para irem ali perto, na pizzaria D’Ella Roma, saborear a melhor pizza da cidade. Em sua opinião é claro, pois nem a casa divulgava como sendo a melhor.
Na manhã seguinte levantaram cedo e em pouco tempo lá estavam dentro de um ônibus indo para Barretos, a cidade dos rodeios. Henrique aproveitara para recordar o porquê de estar fazendo, mais uma vez, aquela viagem:
“Até 1955 Barretos foi uma pacata cidade, que tinha na pecuária a sua principal atividade econômica. Passagem obrigatória, conhecida como ‘corredores boiadeiros’, por onde os peões das comitivas reunidos para descansarem, acabavam criando varias maneiras de se divertirem. E como não podia deixar de ser, nestes encontros tentavam mostrar suas habilidades na lida com o gado. Em um sábado de 1947, na quermesse realizada pela prefeitura municipal de Barretos, na praça central da cidade, ocorreu o primeiro rodeio do país, realizado dentro de um cercado com arquibancadas, e nos anos seguintes vários outros foram realizados. Somente em 1955, nasceu numa mesa de bar o lendário clube ‘Os Independentes’. Um grupo de rapazes solteiros e independentes, como era a regra, ligados à agropecuária local, teve a ideia de promover festas inspiradas na lida das fazendas, com o objetivo de arrecadar fundos para as entidades assistenciais da região. Um ano depois, em 1956, foi lançada a 1ª Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos. Sob a lona de um velho circo, surgiu o modelo do evento rural de grande sucesso do país. Já nas primeiras festas, a principal atração foi o rodeio e os mesmos peões que trabalhavam nas fazendas agora eram as estrelas do evento. Ao completar neste ano, 1975, seus 20 anos de história, a Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos destaca-se no cenário nacional como um dos mais alegres eventos de entretenimento, contando com uma história de crescimento, sucesso e projeção”.
Foi devido a esse rico folclore que Henrique resolveu escrever sobre aquele mundo, que para o resto do Brasil era praticamente desconhecido. Agora estava ali pela repercussão causada com o seu trabalho literário e também para ser homenageado. Acabara de lançar o livro e já havia vendido cinquenta mil exemplares, o que era bem merecido.
Para retratar tudo aquilo da forma como realmente era, e tentando ser o mais coerente possível, Henrique praticamente viveu no meio dos peões e das festas seis meses consecutivos, acompanhando o grande circo por todo o interior para não deixar escapar nenhum detalhe daquilo que se tornou um mega evento. Para se ter ideia, a festa de Barretos dura mais ou menos dez dias, com apresentações da Catira, danças do folclore brasileiro, conjuntos de violeiros, queima do alho, desfile típico com carros de boi, pau de sebo, eleição para a rainha da Festa do Peão de Boiadeiro e logicamente o rodeio, principal atração da festa.
Henrique escolhera viajar por trem, pois a viagem era mais tranquila e poderia fazer o esboço de mais um livro. O que infelizmente não foi possível devido às duas protetoras que arranjou. Agora então o restante da viagem seria feita de ônibus e com as novas companheiras; o novo livro teria de esperar.
O compromisso com seu editor era de escrever dois livros por ano. Já estava atrasado. Até aquele dia ainda não tinha começado o segundo e agora provavelmente ficaria alguns dias preso com as festas na cidade, onde participaria de todo o evento como jurado nas provas de rodeio, no concurso das rainhas e também na prova de culinária, além do compromisso com o lançamento do seu livro, que lhe tomaria muito tempo com as noites de autógrafos.
Após quase oito horas sacolejando dentro daquele ônibus, estavam em Barretos. Eles chegaram um dia antes do começo das festas e foram direto para o Hotel Scala que fica na Rua Dezesseis nº 782, quase esquina com a Rua Dezessete. Antes de entrar, Henrique deu uma contemplada no prédio como que a investigar se este ainda estava da mesma forma de quando esteve ali. Confirmou, permanecia igual. Entrou na grande varanda que se estendia por toda frente do hotel. Aquele piso esverdeado e brilhante era reconfortante. Lembrou-se das vezes que esteve sentado naqueles sofás, ora olhando o movimento na rua, ora observando a ornamentação interna. Foi ali que escreveu a maior parte do livro que agora iria autografar e divulgar durante as festas. Deu mais alguns passos e estava diante do balcão da recepção falando com o atendente.
- Boa tarde. Como vai, Amaury? Se não estou enganado, é esse o seu nome?
- Estou bem. É esse mesmo.
- Vejo que ainda continuo bom de memória.
- Também estou lembrando, o senhor já esteve aqui nas festas passadas.
- Isso mesmo. Por favor, veja se há uma reserva em meu nome: Pedro Henrique.
Amaury abriu o livro de reservas e confirmou.
- Vou precisar de mais um apartamento para as minhas amigas. Ainda tem algum disponível? Se não houver, não há problema. Nós fizemos reserva no Palace.
- Olhem, vocês estão com sorte. Acabei de desmarcar uma reserva.
- Se for possível coloque-as no apartamento ao lado do meu.
Os três ainda levaram algum tempo ali na recepção preenchendo as fichas de registro.
- Aqui estão as chaves. O apartamento 06 é o do senhor e consegui o nº 08, que fica logo em frente.
- Obrigado, Moacyr.
- Tenham uma boa estada.
Henrique resolveu descansar daquela exaustiva viagem. Sabia que o dia seguinte seria de muito trabalho e cheio de compromissos. Isabel e Elizabeth, ao contrário, foram dar uma volta pela cidade, que nessa época fervilhava de tanta gente que para ali se dirigiam a fim de curtir a festa.
Henrique, já acomodado em seu apartamento no hotel, tomara um bom e demorado banho. Estava agora deitado descansando e não conseguia entender a origem daquela monstruosa herança e muito menos por que ela lhe pertencia. Na verdade passava pela sua mente, como um filme, a história difícil de acreditar que as duas lhe contaram. Sempre soube que sua família fora muito rica num passado longínquo, mas não sabendo o porquê de terem perdido tudo na época da Guerra do Paraguai. No entanto, ele agora estava preste a receber uma descomunal herança deixada por um ancestral que morrera a cento e cinquenta anos. Era bom demais para ser verdade, tirando, é lógico, o risco de morte que elas teimavam em insistir que ele estava correndo.
Nesse meio tempo o telefone toca. Da recepção do hotel avisam-no que há uma ligação para ele. Henrique atende; era o seu editor. Como sempre os dois amigos quando se falavam, discutiam, e para não ser diferente das outras vezes, Valdir já começou lhe cobrando.
- Então, Henrique? Já tem algo para nos adiantar sobre o novo livro?
- Valdir, para falar a verdade eu...
- Não me venha com desculpa, merda. – seu interlocutor interrompeu furioso.
- Calma, não fique tão nervoso.
- Você me garantiu que bem antes do fim do ano eu estaria com o texto na mão.
- Eu sei disso, mas estão acontecendo coisas pelas quais eu não esperava e...
- Assim você vai atrapalhar toda a estratégia montada para um novo lançamento da editora.
À medida que Valdir esbravejava, a mente de Henrique desligava-se de suas reclamações e justo nesse meio tempo surgiu-lhe a ideia:
“Meu Deus, por que é que não pensei nisso antes? Eu, a pouco reclamando por não ter conseguido elaborar o esboço de um livro, quando na verdade tenho todo o texto. Vou escrever a história dos meus antepassados até a minha geração. Está resolvido o problema. É claro que terei de usar um pouco da minha imaginação, mas o livro está praticamente pronto”.
- Acabou com o chilique? Então fica tranquilo, que o texto vai estar pronto como prometi. Escuta essa, o mais difícil já está pronto.
- Não me diga que você já encontrou o tema para o livro?
- Já encontrei e tem título. Vai ser “A maldição dos diamantes” aproveita e pesquisa se não tem nada igual e me avisa.
- Farei isso. Mas me diga, está animado com o lançamento ai na festa?
- Vai me dar mais trabalho que das outras vezes, mas acredito que valerá a pena. Agora me deixa descansar.
- Ta bom. Depois voltamos a nos falar. Tchau.
Como sempre fez, ele não perdeu tempo. Pegou seu gravador com o registro que escutara de Isabel e repassou para confirmar que não estava enganado com o que ouvira, mas a história estava ainda um pouco vaga. Depois quando chegasse ao Rio talvez conseguisse mais algumas informações. Aí sim passaria para o papel, acrescentando seu toque de escritor.
Voltou a relaxar na enorme cama de casal. Aliás, essa era uma das suas exigências quando se hospedava; a cama tinha que ser de casal. Logo seu pensamento voltou às duas novas amigas. Na verdade Isabel não era uma simples amiga. Henrique continuava com a impressão de que já a conhecia há muito tempo e aquela sensação fazia dele cada vez mais uma presa inofensiva daquele romance. Também desfilava em seus pensamentos; – Não deveria ter na festa, uma mulher tão bonita quanto a Elizabeth. Provavelmente sua estonteante beleza a faria rainha do rodeio.
Assim que chegaram elas passaram pelo apartamento do Henrique.
- Já descansou? – Perguntou Isabel.
- Estou pronto para qualquer coisa. O que vamos fazer?
- Descansa um pouco mais. Nós vamos tomar um banho e depois vamos jantar.
- Aqui mesmo no hotel?
- Nada disso. Descobrimos um restaurante próximo daqui que é uma graça. Vale a pena irmos até lá.
- Então vou me arrumar e as espero lá na varanda.
- Meia hora. Garanto que você não vai esperar mais do que isso. Um beijo.
- Outro.
Dizendo isso ele a segurou impedindo que saísse e beijou-a. Riram. Estavam realmente apaixonados. Ela saiu e ele começou a se arrumar. Mais tarde se encontravam na varanda e saiam para jantar.
Ao chegar ao restaurante pode constatar a veracidade dos elogios que escutara sobre o mesmo. Seu interior era simples, com mesas e cadeiras rústicas e muito bem iluminado. Os garçons eram atenciosos e gentis. A comida então? Nem se fala, estava uma delícia. A muito não comia tão bem. Ainda ficaram no restaurante conversando um bom tempo, antes de retornar ao hotel.
O dia amanheceu. Os três encontraram-se no corredor e dirigiram-se ao restaurante do hotel. Tomaram café e despediram-se.
Tirando os dois compromissos elas estavam praticamente a passeio, mas Henrique não. Tinha que se apresentar aos organizadores do evento, avisando da sua presença e tomar seu lugar no corpo de jurados. Combinaram de se verem a noite depois que terminassem com os autógrafos. E assim fizeram praticamente todos os dias que estiveram nas festas. Entretanto, Henrique notara que elas sempre estavam próximas a ele como que a protegê-lo. Pode observar também a presença discreta de quatro homens sempre por perto. Sendo ela pertencente à nobreza mais a história dele estar correndo perigo calculou serem seus seguranças.
No concurso da rainha da festa, a vencedora foi Elizabeth, confirmando dessa forma os pensamentos de Henrique.
A Prova dos Três Tambores exige velocidade, sincronismo e precisão. Consiste em contornar três tambores dispostos de forma triangular, na arena, no menor tempo possível. Quando o juiz dá a largada, a amazona parte em direção ao primeiro tambor, dando uma volta completa nele. Depois repete a manobra no segundo e no terceiro tambores. Daí volta em disparada até a linha de chegada. Ganha quem fizer o menor tempo. Cada tambor derrubado é penalizado com 5 segundos a mais na marca final da competidora. Atualmente, centenas de meninas participam dessa modalidade pelos rodeios do Brasil e se empenham ao máximo, despendendo horas e horas com treinamentos.
Isabel seria a quarta competidora a se apresentar de um total de trinta. A beleza de nada adiantava no julgamento, se bem que sempre era interessante quando uma linda mulher se apresentava. O número de torcedores entusiastas aumentava consideravelmente. Ainda mais quando a plateia estava lotada para ver aquela disputa.
Momento antes de começar a prova Henrique se mostrava preocupado e comentou com Isabel:
- Não é perigosa essa correria em cima de um cavalo?
- Égua, não é um cavalo. É uma égua que eu monto, meu querido.
- Como você pode saber. Ainda não viu o animal que vai montar? – Dizendo isso Henrique demonstrava desconhecer os bastidores da prova.
- A égua é minha. Treino diariamente com ela. Estamos mais do que acostumadas. Não se preocupe.
- Não estava, mas agora sabendo você lá, fiquei.
- Então não assista minha apresentação.
- Como posso não assistir? Eu sou um dos jurados.
- Verdade?
- Sou, mas não adianta nem tentar me corromper. Vai vencer a melhor.
- Que pena. Por um instante pensei contar com um aliado. – Brincou, dirigindo-lhe um olhar maroto.
Logo estava sendo anunciado o inicio da prova e pelos alto-falantes eram convocadas às amazonas que iam concorrer para perfilarem e serem apresentadas ao público.
Quarenta minutos mais tarde tinha terminado as apresentações. Todas as moças encontravam-se perfiladas mais uma vez, agora esperando o resultado final.
Quem seria a vencedora?
Isabel ficou com a segunda colocação. Estava feliz com o resultado. Há oito anos participava da prova e essa foi a melhor colocação que conseguira até então.
Tiraram o resto do dia para passear entre as barracas instaladas e fazer compras. Quando retornaram a tarde ao hotel, Henrique recebeu um pequeno bilhete deixado na recepção, mas não deu muita importância.
- Não vai ler? – Elizabeth perguntou instintivamente.
Com a pergunta, e a cara de preocupação que as duas estavam fazendo, Henrique abriu o envelope e leu. Não disse nada, mas uma ponta de preocupação também tomou conta dele. Teve a primeira surpresa ligada a tal herança.
- O que temos escrito aí? – Quis saber Isabel, já bastante aflita.
Sem falar nada Henrique passou o bilhete para que elas mesmas lessem. Lá estava a bomba.
“Henrique, sua herança deverá ser entregue a nós quando recebê-la ou morre a sua amiga Isabel. Voltaremos a nos comunicar dizendo os detalhes, de como, quando e aonde deverá nos encontrar”.
- Quem escreveu isso me conhece e está me seguindo.
- Começou de novo. – Elizabeth olhando para a prima deixou escapar o comentário.
- O que começou de novo, Isabel?
- As ameaças, Henrique. Meu pai estava com a razão.
- Começo agora a entender a sensação que senti quando ainda estava no trem para São Paulo. – Henrique comentou.
- Você acha mesmo que estão lhe seguindo desde lá?
- Lembra-se de quando nos conhecemos?
- Claro que me lembro. Você se dirigiu para o carro restaurante, eu fui atrás e me sentei a sua mesa.
- Pois o que me levou ao restaurante foi justamente à sensação que tive de estar sendo seguido.
- Como é isso?
- Vou lhe explica: – Sempre que viajo, eu tenho o habito de observar as pessoas que estão a minha volta para tirar inspiração para os meus escritos. Foi quando pude notar umas pessoas suspeitas. Na hora cheguei a ter essa impressão.
- Você seria capaz de identificar essas pessoas?
- Se as visse novamente, com certeza as reconheceria.
- O jeito então é ficar atento.
- Vou ficar, pode ter certeza. E você também. Quem quer que seja, também lhe conhece Isabel.
- Fica tranquilo Henrique, que nós não estamos aqui sozinhas.
- Eu ainda não vi ninguém por perto?
- Nós estamos acompanhadas por quatro seguranças. E você já viu sim. Um deles é aquele que estava sentado ao seu lado e trocou de lugar comigo quando pedi, Lembra?
- Lembro, mas não foi ele que me causou aquela sensação de que falei. Agora fico um pouco mais tranquilo por você, mas vou continuar atento.
Aquela seria a última noite de autógrafos que Henrique teria que aguentar e para não atrasar o evento organizado por sua editora, foi mais cedo para a tenda cultural improvisada. Mal acabara de chegar e foi surpreendido com a visita do Valdir, seu editor.
- Henrique, o que está acontecendo?
- Seu mal educado. Não vai me cumprimentar primeiro?
- Boa noite. Agora responda a minha pergunta.
- Do que você está falando?
- Estou falando disso. – E entregou uma nota para ele ler.
- O que é isso?
- Leia que eu também quero saber, pois não estou entendendo nada.
“Senhor Valdir. Contamos com a sua influência sobre nosso amigo Henrique. Lembre-lhe de que nós não estamos brincando e que não mediremos esforços para conseguir nosso objetivo”.
Henrique leu a pequena nota e mostrou-se preocupado. Deixando seu amigo também da mesma forma.
- É uma história longa e que nem mesmo eu ainda acredito.
- Mas o que é que está acontecendo. Fale. Quem sabe não podemos ajudá-lo?
- Parece que sou herdeiro de uma grande fortuna e estão me ameaçando.
- Já deu parte a polícia?
- Só posso fazer isso depois que eu confirmar essa tal herança. No momento só fui comunicado da sua existência por duas amigas que acabei de conhecer e, isso é muito pouco. Preciso ver a documentação e confirmar sua veracidade. Só então poderei procurar a polícia, antes disso você bem sabe que não posso fazer nada. Encontro-me com os pés e as mãos atadas.
- Mas nada impede que você contrate alguém para fazer sua segurança.
- Não vejo necessidade. Se tudo for verdade, enquanto eu não tomar posse da herança eles não podem fazer nada.
- Isso é verdade, mas é bom não facilitar. Não posso me dar ao luxo de perder meu melhor escritor.
- Obrigado pela preocupação. Não pensei que eu fosse assim tão importante para vocês.
- Mas é. Por isso cuide-se. Agora vou deixá-lo com seus autógrafos. Não se esqueça do novo texto. Ah! Arruma outro título para o livro, assim teremos o que escolher.
- Esta bem. Farei isso. Agora por favor, me deixa trabalhar.
- Até parece que é verdade. – Disse isso rindo e saiu sem dar chance de Henrique respondê-lo.
O restante da noite transcorreu tranquila. Quando terminou seu compromisso encontrou-se com Isabel, mas resolveu não lhe mostrar o recado deixado com seu editor para não preocupá-la mais ainda. Jantaram e foram descansar.
Naquela manhã, Henrique se preparava para o último compromisso daquele mega evento, a “Queima do Alho”.
Comer e comer, essa era a responsabilidade dos jurados. Para os amantes da gastronomia a melhor parte da festa, pois agora se tratava de julgar a comida feita pelos homens do campo.
O nome Queima do Alho deve-se à tradição da culinária típica das comitivas e passou a ser uma das principais atrações da Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos. O cardápio é composto de arroz carreteiro, feijão gordo, paçoca de carne e churrasco. A comida é feita no fogão improvisado próximo ao chão. O concurso culinário é realizado no espaço especialmente feito para isso, chamado Ponto de Pouso, e o vencedor da prova é o cozinheiro que prepara a melhor refeição à moda dos tropeiros, no menor espaço de tempo. Este evento é realizado sempre no segundo sábado da festa, apenas para convidados especiais e a imprensa.
Henrique estava presente por imposição do seu trabalho – era um dos jurados – se pudesse já teria ido embora. Não via a hora de ver tudo acabado. Estava preocupado e ansioso para retornar ao Rio de Janeiro. Precisava tirar a limpo aquela historia. Não era ambicioso, mas sentia-se mexido a saber mais sobre a herança. Ainda mais agora, que estava vivendo sob ameaça. E por causa justamente de algo, que não sabe nem se realmente existe.
Participavam deste concurso oito cozinheiros, todos obrigatoriamente representante de uma fazenda. O cheiro de tempero no ar aumentava cada vez mais à vontade de comer dos convidados, que já começavam a reclamar com a demora dos jurados em encerrar o concurso. Após as devidas prova dos temperos saiu o resultado do concurso e todos puderam se deliciar.
A melhor comida coube a Juarez, da fazenda “Joia de Valença”. No final, quando os participantes daquele evento se retiravam do local, um bujão de gás explodiu. O pânico tomou conta do lugar. A correria foi geral. Varias pessoas que deixavam o local e passavam próximo, tiveram queimaduras leves e uma delas era o Juarez. Quando o fogo foi dominado e extinto, conheceram o saldo do acidente: – duas vítimas fatais, uma com ferimentos graves e algumas levemente feridas.
Isabel imediatamente providenciou para que o Juarez fosse transferido dali, apesar de não ser muito grave o seu estado, sabia que em São Paulo ele seria atendido melhor.
À noite, tudo já serenado retornaram ao hotel, na recepção outro bilhete foi entregue a Henrique. Desta vez ele abriu rapidamente para ver o que dizia.
“Senhor Henrique. Gostou da nossa queima? O que aconteceu hoje é uma pequena amostra do que sabemos fazer. Não esqueça, terá de escolher: a herança ou a senhorita Isabel”.
- Estou começando a acreditar que a coisa é séria. – Reconheceu Henrique.
- Já avisei a papai sobre a ameaça que acabamos de sofrer e do acidente envolvendo o Juarez. Ele quis saber sobre o estado de saúde do nosso cozinheiro, mas logo ficou tranquilo quando soube que eu já tinha providenciado o atendimento dele.
- Ainda bem que tudo isso termina amanhã. – Desabafou Elizabeth.
Nessa mesma noite após todos se recolherem, Henrique recebeu a visita de dois homens armados que sob ameaça o convidaram a segui-los discretamente. Quando entraram no carro teve seus olhos vendados, não sabendo a onde estava sendo levado e muito menos com quem falou quando chegaram ao destino.
- Henrique, eu mandei trazê-lo até aqui para que não tivesse dúvidas de que nós não estamos brincando.
- Eu não tenho dúvidas quando a isso, mas quero que saiba que não tenho nenhuma certeza da existência de alguma herança que possa me beneficiar.
- Todos sabem que o Antenor deixou esses diamantes guardados no Banco do Brasil desde 1821 para lhe ser entregue. Portanto, quando tomar posse dela, receberá outra visita nossa com as instruções a serem seguidas. Não tente de forma alguma avisar a polícia. Nem agora e nem depois, pois podemos perder a paciência e antecipamos a execução de Isabel. Não temos muita certeza, mas achamos que você não quer isso. Certo?
- Isso não será necessário, eu garanto.
Novamente levaram Henrique para o carro. Deram algumas voltas com ele e o largaram numa praça próxima ao hotel onde estava hospedado. Andou calmamente até ele. Passou pelos dois homens que estavam a postos na porta do quarto onde Isabel dormia. Quis falar-lhe, mas como já era um pouco tarde resolveu dormir também. De manhã contaria a ela a experiência que teve naquela noite.
Amanheceu e antes de irem assistir a solenidade de encerramento dos festejos Henrique conversou com a Isabel e a Elizabeth.
- Como vocês passaram a noite? Dormiram bem?
- Dormimos com os anjos, e você? – Isabel respondeu sorridente.
- Também dormi com um anjo, só que era um dos decaído.
- Por quê? Teve algum pesadelo?
- Antes fosse um pesadelo, mas o que tive foi bem real.
- O que foi? Conta-nos logo? – Quis saber Elizabeth.
- Ontem à noite fui sequestrado por dois indivíduos que nunca tinha visto.
- Henrique, você está brincando ou está falando sério?
- Gosto realmente de brincar, mas desta vez o que estou falando é sério.
- O que eles queriam?
- Só confirmar a ameaça contra você, Isabel. Fizeram questão de mostrar de que não estão brincando e me aconselharam inclusive a não colocar a polícia no meio, sob pena de a executarem imediatamente.
- Quanto a isso você pode ficar tranquilo que eles não conseguem nem chegar perto de mim.
- Depois de ontem já não tenho tanta certeza assim.
- Mas pode ter. Nós duas estamos acompanhadas por seis seguranças. Altamente treinados.
- Tomara que você esteja certa. Agora mais do que nunca quero ver tudo isso acabado. Não só essa festa, como a história dessa maldita herança sem propósito.
- Fica calmo. Tenho certeza de que vai acabar tudo bem.
SEGUNDO CAPÍTULO
As surpresas
Terminado os festejos em Barreto, Henrique retorna ao Rio de Janeiro, ainda, como nos últimos dias, acompanhado pelas duas lindas e cobiçadas protetoras, sendo que agora com uma delas sob ameaça. Sua ansiedade o está matando. Quer resolver o quanto antes à questão da herança, na verdade confirmar, pois ainda não acredita que seja o herdeiro de tal fortuna.
A conselho de Isabel, Henrique antes de tomar qualquer providencia, primeiro deveria encontrar-se com o senhor Osvaldo Brandão IV, Marquês de Saquarema, pois segundo ela, a família do Marquês além de ser de confiança, foi à única que se manteve fiel ao longo desses 150 anos, à vontade do senhor Antenor seu antepassado e protegeu os diamantes que agora passariam para as mãos dele.
Convencido, Henrique foi ter com o tal Marquês, apesar de não gostar de se envolver com a aristocracia. Como não existia mais a corte, o Marquês também não morava mais no Rio, e sim na cidade de Valença, próximo à fazenda Joia de Valença, que a família é proprietária desde 1741. E era para lá que eles agora estavam se dirigindo.
- Isabel me confirma uma curiosidade. Esse senhor Osvaldo Brandão IV ainda é o Grão Mestre da Loja Maçônica Comercio e Artes?
- Exatamente. É ele mesmo, embora ultimamente tenha estado um pouco afastado, mas costuma frequentar a loja quando vai ao Rio de janeiro. Por quê? Você o conhece?
- Não. Mas já ouvi alguns comentários a respeito dele quando estive pesquisando sobre a Maçonaria.
- Bons ou maus? – Perguntou sorrindo e fingindo preocupação.
- Bons é claro. Enaltecem sua integridade. Ele também é professor, não é?
- Sim. Foi professor de Matemática e Física do IME. Agora está aposentado.
- O distanciamento do Marquês, da Maçonaria, tem a ver com o fato de Sua Alteza Real estar pleiteando o posto de Grão Mestre?
- Não estou muito a par dessa questão, mas acredito que não.
- Falta muito para chegarmos?
- Mais uns vinte minutos e conhecerá o senhor Osvaldo. Você está me parecendo muito ansioso.
- É verdade, mas só um pouco.
- Acalme-se, você vai gostar dele. – Isabel sorria meio enigmática.
- Pelo tanto que você o elogia deve lhe ser uma pessoa muito especial.
Elizabeth parou o carro em frente a um portão duplo de bronze alto e largo localizado bem no centro daquele enorme terreno. Neste portão estava o brasão de família em cada uma das laterais. Dali da entrada dava para ver ao fundo um antigo palacete no tom rosado em estilo neoclássico, com suas majestosas pilastras revestidas em mármore branco trabalhado em alto-relevo dando conta ainda hoje do poder de uma época que parece se perpetuar.
Ao serem identificados, os seguranças logo abriram o portão e eles puderam entrar. Henrique como todo escritor observava tudo atentamente. À distância até a entrada do palacete calculou em duzentos e cinquenta metros. O caminho ladeado por coqueiros anão, intercalados por pequenas roseiras também servia como divisor do jardim existente em toda a extensão do terreno, uma ponte sobre o lago dava o toque final de embelezamento. Estacionaram o carro no pátio entre as palmeiras centenárias e caminharam para a entrada principal.
Enquanto andavam, Henrique dava tratos a seus pensamentos. Estava admirado com aquela residência monumental, não tinha nenhuma dúvida de que seu proprietário era uma pessoa extremamente rica. Outro fato que lhe chamou atenção foi à quantidade de seguranças no local, deveria existir alguma razão para tamanho aparato. Continuava apreensivo com o encontro, afinal dentro de alguns instantes conheceria alguém que, ao que tudo indicava era poderoso. Como seria recebido? Também estaria de posse da documentação oficial que o coloca como herdeiro de uma imensa fortuna. Isso era o que mais lhe incomodava. Pararam na entrada e a porta foi aberta por Isabel.
- Não sabia que você tinha acesso liberado a casa?
- Eu moro aqui, meu amor.
- Mas você disse...
Não completou seu argumento, pois foi logo interrompido com a aparição de um senhor elegantemente vestido. Era o Petrônio, mordomo da família.
- Senhorita Isabel, Eu já estava com saudades. Fez boa viagem.
- A viagem foi ótima, basta me olhar? Não estou mais bonita?
- A senhorita para mim, sempre foi e será a mais linda.
- Não estou gostando nem um pouco disso. Você está se esquecendo de mim? – Brincou Elizabeth fingindo estar aborrecida.
- De maneira alguma, Elizabeth. Você sabe muito bem que é tão bonita quanto a Isabel.
- Não me engane. Você disse ser ela, a mais linda.
- Não quero brigas! – Também brincando, Isabel defendeu Petrônio e dirigindo-se a ele comentou: – Você continua um amor. Não sei o que seria de mim se você não existisse. Henrique esse é o Petrônio. Quando eu nasci ele já estava aqui, por isso que ele me paparica tanto.
Henrique logo sentiu que aquele velho mordomo era muito especial para sua namorada e a prima.
- Prazer em conhecê-lo, Petrônio.
- O prazer também é meu. Acredito que seja o Conde de Meringuava, estou certo?
- Perfeitamente, mas deixemos o título de lado. Prefiro só o nome, Henrique para os amigos.
- Está bem, senhor Henrique.
Voltando-se para Isabel a avisou.
- Seu pai como sempre ansioso, a aguarda.
- Onde ele está?
- No salão principal.
- A megera já foi embora ou ainda está por aí?
- Ela está na biblioteca. – Falou rindo, mas com o cuidado de não ser ouvido.
Esse final de conversa Henrique não entendeu muito bem, mas também não entrou em detalhes. Ainda estavam parados e o Marquês ouvindo aquele falatório dirigiu-se até a porta do salão para receber a filha, a sobrinha e ao Conde de Meringuava.
- Há quanto tempo não a vejo Elizabeth, brigou comigo? – Brincou com a sobrinha acariciando seus cabelos.
- Nem de brincadeira tio. – Os dois riam demonstrando grande afeto.
O Marquês não escondendo a enorme satisfação em participar daquele encontro dirigiu-se a Henrique, sem esperar ser apresentado.
- Eu sou o Osvaldo. É um grande prazer revê-lo, Henrique. – Abraçava e beijava a filha ao tempo que se apresentava.
Qualquer um, por mais distraído ou alienado que fosse, num simples olhar para aquele homem logo notava se tratar de um nobre. Apesar da idade tinha um porte altaneiro, mas nem de longe aparentava arrogância e mesmo estando no aconchego do lar trajava-se como se estivesse pronto para uma reunião empresarial.
- Também sinto um grande prazer, mesmo não sabendo explicar o porquê, mas por qual razão o senhor afirma rever-me.
- Permite que antes eu lhe dê um abraço?
- Por que eu não o permitiria? Dê-me cá este abraço.
O Senhor Osvaldo o abraçou forte e afetuosamente, demonstrando uma alegria até então incompreendida por Henrique.
- Fico muito feliz em tê-lo próximo novamente. Digo revê-lo, porque sua mãe era minha irmã de criação e eu sou seu padrinho de batismo. Sempre quis tirá-lo da guarda do Exército, mas a Igreja não permitia. Entende agora o porquê da minha alegria?
- Essa revelação é para mim uma surpresa muito grande, nunca me falaram nada a respeito.
- O importante é que agora você está de volta.
- Estou feliz. Eu, que pensava estar sozinho nesta vida, de repente descubro que tenho um padrinho “Marquês”.
Aquele velho homem estava realmente feliz com a presença de seu afilhado e demonstrava isso ao manter-se abraçado a ele enquanto continuava conversando.
- Quero que me desculpe, mas não pude deixar de ouvi-lo quando chegou. Então, que seja feita a sua vontade e deixemos os títulos e a nobreza de lado.
- Não é que me incomode, mas não vejo razão para tal tratamento.
- Vamos entrando, Henrique, pois quero que se sinta como se estivesse em sua própria casa.
- Obrigado, senhor.
- Aqui na sala de estar ficaremos bem mais à vontade. – Comentou Isabel.
Encontravam-se em um amplo salão decorado com grandes cortinas e quadros por toda a parede. Sobre o piso de Carrara um enorme tapete persa. Em cima da mesinha de centro podia ser visto uma jarra de cristal com um arranjo de flores. Estrategicamente colocados no local, as duas poltronas em couro e os três sofás em tecido estampado completavam o ambiente. Entre eles, pequenos pedestais com estatuetas, e no alto, ao centro, um enorme lustre em cristal, ornamentavam o salão.
- Também acho. Sua casa, apesar de grande, é bem aconchegante, Marquês. Perdão, eu quis dizer, Osvaldo. – Henrique se corrigiu rapidamente.
- Henrique, eu quero que desculpe minha filha e a minha sobrinha por lhe enganarem dizendo ser princesa e duquesa.
- Realmente estranhei tais títulos, mas agora estou começando a entender as razões.
- Durante o tempo que esteve com você era preciso manter sua identidade protegida, não só a dela como a de Elizabeth.
- Ela me explicou rapidamente do perigo que eu corro, embora não tenha acreditado muito, mas depois de alguns acontecimentos, confesso que passei a concordar com a necessidade da segurança.
- Com certeza. A história nos faz acreditar nessa precaução.
- Se o senhor está falando é porque tem conhecimento dos fatos.
- Você deve ter reparado na quantidade de seguranças que mantenho, certo?
- Sim, reparei, e a princípio achei um pouco exagerado, mas quando lembro dos bilhetes de aviso que recebi mais o acidente ocorrido com seu cozinheiro compreendo sua preocupação.
- Não tem nada de exagerado. – Interrompeu o Marquês com educação – Nos últimos cento e cinquenta anos meu bisavô, meu avo, meu pai e eu fomos vítimas de vários atentados e algumas tentativas de sequestro e de roubo. Por isso nunca facilitamos com a nossa segurança.
- Então pelo visto os responsáveis por tudo isso somos nós, eu e o meu antepassado.
- Indiretamente sim.
- Como assim indiretamente?
- Posso lhe explicar? Ah! Já sei, aliás, vou fazer melhor, me acompanhe. – Convidou o Marquês.
- Não antes de eu saber o seu verdadeiro nome mocinha? – Henrique falou dirigindo-se a Isabel com ar de seriedade.
- Meu nome é mesmo Isabel. Só muda o nome de família. Isabel Maria da Costa Cabral Machado Brandão e como já sabe não sou nenhuma Princesa e nem Marquesa, pois o título se válido pertenceria a meu irmão.
- Que pena. - Fingiu Henrique lamentando-se, tentando dessa forma enganá-la.
- Meu amor, não fique assim, era preciso para nos proteger. – Isabel se justificou.
Henrique continuou fingindo, falando com o mesmo ar triste, mas ao mesmo tempo já passando para o maroto.
- E eu que acreditei que seria um príncipe consorte, acabo de voltar a ser, um falso conde sem sorte. – Dizendo isso, riu e todos acabaram rindo.
- Sem sorte não, meu caro. Muita sorte. Afinal, você acaba de ganhar um padrinho, conquistou o coração da minha princesa, e está preste a tomar posse de uma fortuna em diamantes. Mas me acompanhe até meu escritório.
Dizendo isso caminhou em direção ao aposento mencionado. Na verdade era também uma enorme sala ao lado da que estavam e que acomodava uma biblioteca. Henrique calculou ter por baixo, uns 15.000 livros expostos nas prateleiras instaladas em torno daquele salão. Ao centro haviam três grandes sofás dispostos em forma de triangulo tendo ao centro uma pequena mesa oval – de Pau Brasil – toda entalhada a mão.
- Bem, cá estamos.
- Belo acervo, senhor Osvaldo.
- Valquíria, esse é o senhor Henrique. Ele vai estar conosco nos próximos dias. – O Marques apresentava sua bibliotecária, uma senhora de meia idade.
- Muito prazer, senhor. – Mal conseguiu disfarçar sua insatisfação.
- O prazer é meu também. – Henrique logo descobriu quem era a megera que Isabel se referira e fez um ar de riso para sua namorada dando sua aprovação.
- Vejo que você acaba de me entender, amor. – E Isabel retribuía o sorriso.
O Marquês deu continuidade à conversa como se não tivesse entendido ou percebido aquela troca de sorrisos.
- Henrique, no futuro o que você precisar referente a livros e documentos é só pedir a Valquíria. Ela está conosco há trinta anos. Posso lhe garantir que ela sabe mais sobre isso aqui – e apontava para as estantes espalhadas pelo enorme salão – do que eu.
- Que maravilha. Foi bom saber, assim não ficarei perdido por muito tempo.
O Marquês de Saquarema abriu o cofre que apareceu por traz de uma das estantes.
- Primeiro quero que você veja isso. Este documento irá comprovar o que lhe disse.
Henrique pegou o envelope e abriu. Dentro estava um documento da igreja que ele bem conhecia, era o seu batistério. Ali estava o nome dos seus padrinhos, senhor Osvaldo e a senhora Deolinda.
- Não era preciso mostrar-me este documento, senhor Osvaldo.
- Você vai precisar dele para casar. Esqueceu? – Riu com a cara de espanto que Henrique acabava de fazer.
- É mesmo, bem lembrado. – E riu também.
- E aqui temos os registros de tudo que aconteceu nos últimos 150 anos referente a sua herança. Essas anotações foram feitas durante os acontecimentos por meus ancestrais e os mais recentes, por mim. Acredito que sendo você um escritor não perderá a oportunidade de fazer um livro.
- Com toda certeza. Pode emprestar-me para eu dar uma olhada neles?
- É tudo seu. Trata-se de cópias que tirei. Os originais fazem parte do acervo da família e continuaram guardados no cofre.
- Nesses registros estão também os documentos referentes à herança que meu tataravô mandou fazer?
- Não. Como lhe disse, esses registros são a verdadeira historia que aconteceu. Suas origens, nossos antepassados e as lutas que ocorreram para se apoderarem da sua fortuna.
- Sua família ao que parece foi a idealizadora deles?
- Sim, mas com certeza também podemos dizer que foi muito ajudada por alguns dos envolvidos. O único mérito da nossa família foi à guarda e a proteção desses documentos. Você poderá constatar o que digo.
- Talvez eu leve algum tempo para lê-los.
- Entendo que esteja ansioso para se inteirar de tudo. Fique a vontade, você é nosso convidado. Vou deixá-lo a sós aqui na biblioteca.
- Obrigado. Procurarei ser rápido na leitura.
- Insisto que fique a vontade. Sinta-se como estivesse em casa.
- Muito obrigado.
- Enquanto isso eu vou matando as saudades das minhas meninas. – Dizendo isso, o Marquês deixou Henrique na biblioteca sumindo pelo casarão abraçado pela filha e a sobrinha.
Imediatamente, Henrique debruçou-se nos manuscritos dando continuidade ao que Isabel já havia contado e não parou mais.
TERCEIRO CAPÍTULO
Conhecendo sua história
... Instalaram-se no Rio de Janeiro num palacete que mandara construir em estilo neoclássico a uns duzentos metros da entrada de sua chácara localizada na Rua das Laranjeiras. Antenor não mediu esforços nem poupou na obra. Mandou vir da Europa, grades ornamentais de bronze para compor toda frente do terreno, mármores para o piso e revestimentos de algumas paredes, azulejos para cozinha e banheiros, peças de banho, móveis ao estilo Luiz XV, lustres e os vitrais para as janelas e porta frontal. A nova residência da família Bernardes de Oliveira não deixava nada a desejar aos outros palacetes pertencentes aos nobres que ali viviam com suas famílias tradicionais.
Dias mais tarde inaugurava na Rua do Cano nº 15, no centro da cidade, uma loja de onde passou a realizar suas atividades de compra e venda de diamantes e ouro. Logo que chegou a cidade, grande foi a surpresa e também a preocupação de Antenor. Ele descobre que pouco antes de sua partida para o Rio de Janeiro seu filho George, que contava apenas com dez anos de idade conseguira convencer dois de seus escravos a dar uma surra em Sofia, uma de suas tias, como forma de vingança por tudo o que elas tinham feito contra eles. Há fora isso, Antenor não podia negar, era realmente um homem de sorte, pois com a vinda da Família Real Portuguesa, em 1808, para o Brasil instalando-se e transferindo a capital para o Rio de Janeiro, a cidade passou a ser a mais importante da Colônia e forçosamente o centro de todas as atividades econômicas, comerciais e culturais, com isso seus negócios passaram a prosperar ainda mais e em pouco tempo passou a ser um comerciante influente e rico da época.
Para angustia e desespero de Antenor, suas quatro meio irmãs, apesar de suas condutas duvidosas conseguiram casar-se, e de suas uniões matrimoniais com os filhos de nobres portugueses, tornaram-se mais tarde a Condessa Carminda, a Baronesa Eugenia, a Viscondessa Sofia e a Marquesa Natália. Nobres, ricas e poderosas, mas continuavam imorais como sempre foram e mais perigosas do que nunca. Seus maridos também possuíam chácaras na Capital, com essa facilidade, assim que a Família Imperial chegou por aqui, passaram a vir com muito mais frequência ao Rio de Janeiro, acabando por se transferirem definitivamente para a capital. Eram presenças constantes em todas as festas na Corte e as realizadas pelos nobres em comemorações a aniversários, casamentos, batizados ou qualquer outra festividade, sem contar com as que elas próprias promoviam.
Lenda ou não, sobre a existência da tal quantia deixada por Mariano, à verdade é que no ano de 1809 a justiça deu por encerrado o processo sobre a herança, dando a Antenor Bernardes de Oliveira ganho da causa. Entendeu o juiz responsável Senhor Cardoso Gouveia de Sá, se tratar de uma doação, como atestava a documentação anexada ao processo. Entretanto aos cinquenta e cinco anos Antenor ainda mantinha um outro tipo de luta e bem mais velada, a da discriminação racial e social. Por ser filho de uma escrava, casara-se com Constância uma mulher cuja família não tinha nenhum título além de serem muito pobres, não conseguindo dessa forma uma elevação social. Em razão dessa situação que parecia não ter fim, Antenor resolveu neste mesmo ano comprar o título de nobreza da família Macedo Tavares. Desde então passando a ostentar o título de Conde de Meringuava, muito embora continuasse a ser uma pessoa simples e de atos humanitários fortes e marcantes, o que não se podia dizer de seus filhos. Na verdade esse foi mais um dos investimentos que Antenor fez, nem tanto pela vaidade de ser um Nobre, mas sim uma tentativa de amenizar a quase total segregação imposta a seus filhos.
Naquele primeiro final de semana após a aquisição do título, Antenor mandou organizar uma festa para comemorar o novo status alcançado dentro da sociedade, entretanto os que compareceram ao palacete para a recepção não representavam 30% dos que haviam sido convidados, entristecendo ainda mais a família do anfitrião. Nos anos que se seguiram, outras festividades foram realizadas na Corte e sua família foi deixada à parte, não sendo convidada para as solenidades da Família Imperial e nem aos eventos comemorativos, apesar de D. João ter conferido legitimidade ao título de Conde que Antenor adquirira. Era realmente uma situação constrangedora e às vezes até cruel, mas Antenor mostrava-se incansável na luta para inserir sua família nos meios sociais. Aproveitando que neste ano foram fundadas várias lojas maçônicas no Rio de Janeiro, filiou-se a uma delas, e passou a fazer parte de suas atividades, forma que viu para adquirir mais respeito e reconhecimento, não só para ele como para seus filhos.
Dez anos tinham se passado. Com a presença de suas meias irmãs por perto, virava mexia, Antenor e sua família eram molestadas e espezinhadas contribuindo para que nada modificasse no comportamento da sociedade. Mesmo tendo seu título de nobre legalizado e reconhecido, sendo um dos fundadores de uma loja maçônica e também o maior de todos os comerciantes de ouro e diamantes do Império, ele e seus familiares continuavam sendo rejeitados pela alta sociedade da época, pois apesar de serem brancos, todos o sabiam filho de uma escrava alforriada. Condição que a Marquesa Natália e suas irmãs sempre faziam questão de lembrar quer em suas conversas com as amigas, quer em pequenas notas no jornal Correio Brasiliense. Não satisfeitas com as notas no periódico quinzenal circulante da época, traziam sua origem à tona nas festas em que compareciam. Ela e suas irmãs não mediam esforços para manter aquela situação, sempre desfavoráveis a Antenor, mesmo que para isso, tivessem que seduzir alguém com poder para tal. Várias foram às vezes que conseguiram seus intentos simplesmente por terem se deitado com algum nobre poderoso.
Era o mês de Outubro de 1819. Naquele Sábado dia nove havia sido antecipada a festa de aniversario em comemoração aos 21 anos do Príncipe Dom Pedro. Como sempre, Antenor e sua família, não foram convidados e no final daquele Domingo, um dia após a festa, estava reunido ele, Constância sua mulher, e os três filhos na grande varanda do solar das palmeiras em torno do assunto que mais os incomodavam: – discriminação – A impressão que tinham era simplesmente a de que eles não existiam para a Corte.
- Meu pai, eu estou a cada dia que passa mais convencido que de nada adiantou a compra desse título. Só serviu para o senhor gastar uma fortuna e nós continuamos a não existir para eles. – Lamentou-se George o filho mais velho de Antenor.
- Meu filho eu sei que estamos pagando um preço muito alto devido a nossa origem, mas o que podemos fazer? Suas tias não perdoam o fato de seu avo ter doado a seu pai aquela fortuna. A sociedade não aceita uma mulher como eu simples e pobre, de repente desfrutar dos benefícios da riqueza, e finalmente, descendentes da raça negra desfrutar da mesma condição dos brancos. Infelizmente são elas, justamente as minhas cunhadas, as grandes incentivadoras desse preconceito e não medem esforços para que tudo continue como no tempo da sua avó Isaltina. – Constância saiu em defesa de seu marido Antenor, pois sabia que ele se sentia culpado por aquela situação existir.
- A vontade que tenho é de dar uma lição nelas para que nunca mais se esqueçam e nos deixem em paz. – Já se exaltava George, como sempre, perdendo o controle quando o assunto girava em torno do que suas tias aprontavam.
- Logo, tudo isso passa meu filho, há de chegar à hora que darão valor à honra e a decência. Sentirão que é melhor ter-nos em suas presenças, honestos, simples e amigos do que a elas, traidoras, sedutoras e levianas. Vocês vão ver. - Constância falou com suavidade tentando acalmar seu filho George.
- Acho muito difícil, para não dizer impossível, que tudo isso um dia acabe, mãe... Creio até, que mesmo daqui a cem anos eles não terão mudado a maneira de pensar e nem o que sentem por nossa família. – Desta vez foi Cirino, outro dos filhos de Antenor, quem vaticinou.
- Não penso assim, nosso poder financeiro é muito grande. Basta que saibamos usá-lo corretamente. Não podemos nos precipitar e fazer como o pai. Quando chegar o momento de nos casarmos, que o façamos com moças de famílias tradicionais. Assim eles acabarão cedendo e nos aceitando. – Disse Valdecir cheio de orgulho por ter tanto dinheiro.
- Valdecir! Falando dessa forma você não percebe que está ofendendo a sua mãe?
- Não foi minha intenção ofendê-la ou tampouco magoá-la, mãe. O que estou querendo dizer é que devemos fazer com que eles é que sintam a necessidade de nos procurar para uma união.
- Detenho esse poder há mais de quarenta anos meu filho e nem por isso mudou alguma coisa, pelo contrário, parece que aumentou ainda mais o ódio e a vontade deles de nos manter afastado... Mas também não concordo com você Cirino, acredito que passados cem anos não se lembrarão mais da origem dos nossos descendentes. – Falou Antenor.
- Bem. Cem anos não são cem dias. Isso só o tempo dirá e nós não estaremos vivos para desfrutar ou comprovar. – Reclamou outra vez Cirino.
- A verdade Cirino, é que quem saiu lucrando foi à família Macedo Tavares, pois com a venda desse título eles saíram da ruína e continuam sendo considerados na sociedade como nobres. – Ressalvou George.
- Muito bem lembrado meu irmão. Ouvi falar que na ultima festa que a família compareceu, o senhor Augusto Macedo Tavares foi anunciado como ainda sendo o Conde de Meringuava. – Comentou Valdecir.
- Eu sei. Não comentei sobre o fato, para não aborrecê-los. Avelina tinha me falado sobre essa falha cometida, mas ontem não se repetiu. Segundo o próprio senhor Macedo está apresentação errônea foi provocada por interferência direta da nossa querida tia, a Condessa Carminda. – Disse George.
- Como ele ficou sabendo disso para fazer tal afirmação? – Perguntou Antenor.
- Seu mordomo contou-lhe. Dessa vez ela foi baixa demais. Para corromper o mordomo encarregado do cerimonial da entrada, teve que ir para cama com ele. Conseguindo dessa forma que ele anunciasse o senhor Augusto como sendo ainda o Conde de Meringuava. – Respondeu George.
- Por falar nessa família George, você já está com trinta anos, esse seu namoro com a filha do Macedo Tavares vai dar em casamento? – Perguntou Antenor mostrando satisfação se tal fato acontecer.
- Estou inclinado a acreditar que sim. Tenho estado com Avelina todos os sábados à tarde. Já conversei com a senhora Jandira para marcar o dia do noivado, que o senhor vai até lá pedir ao senhor Macedo a mão de Avelina em casamento como manda o protocolo. Fiz bem?
- Fez muito bem meu filho eu irei com o maior prazer. A propósito. Já que voltamos a falar de casamento, vou deixar um alerta para você Valdecir: - na união de um casal é muito mais importante o amor, o carinho, o respeito e a construção da família do que as portas que possam vir a serem abertas na sociedade. Jamais use o poder do dinheiro pensando obter ou encontrar a felicidade.
- Tenho consciência disso pai, mas nada impede que possamos aproveitar e realizar uma festa onde todos comparecerão, afinal é a única filha dos Tavares que estará ficando noiva. – Lembrou Cirino.
- Na ocasião veremos isso, afinal quem normalmente determina se haverá ou não uma recepção é a família da noiva. Estou bem mais inclinado é em financiar alguma obra que o governo queira fazer. Assim vocês poderão se projetar e serão reconhecidos, não só como ricos, mas como engenheiros, afinal para que serve tantos anos de estudo em Coimbra.
- Mais que obra? Esqueceu que o senhor, quando ainda estudávamos, contribuiu com uma fortuna na aquisição de mudas e na criação do Jardim Botânico e seu nome não é mencionado como um dos bem feitores em nenhuma placa comemorativa. Sem contar que o objetivo desse projeto era transformar aquele local accessível ao público e até hoje mais de dez anos da sua fundação somente a Família Imperial e aqueles nobres que a rodeiam podem desfrutar do lugar. – Reclamou Valdecir.
- Que tal deixarmos isso um pouco mais para frente. Agora, o melhor que nós temos a fazer, é irmos dormir, pois já está muito tarde e amanhã teremos de analisar o novo lote de Diamantes. – Antenor lembrou seus filhos da responsabilidade.
Todos se recolheram a seus aposentos. Antenor antes de deitar-se ainda foi desfrutar do seu velho vício, dando umas baforadas em seu cachimbo. Não conseguia parar de pensar sobre aquela situação. Acreditava que seus filhos devido ao preconceito racial que sofriam revidassem de forma violenta contra seus algozes. Também passava em sua mente que não conseguiriam administrar os bens que ele deixaria, pois tinha plena consciência das disputas que eles travavam entre si pelo poder, mesmo que dissimuladas. Acreditava que ao morrer eles se descontrolariam a ponto de perderem tudo, muito embora não descartasse a ideia de que pelo bem maior, que era o poder, se entendessem. Por outro lado, voltava-lhe aos pensamentos a impressão de que provavelmente não resistiriam por muito tempo à discriminação e acabariam por se desagregarem. Correndo inclusive o risco de perderem o título de nobreza, por cometerem algum desatino. Sentia que não podia deixar isso acontecer e precisava fazer alguma coisa para evitar o pior. Diante de todos esses pensamentos mais as situações constrangedoras que vinha sofrendo, passou a acreditar que lá na sexta geração seu descendente não tendo a pele negra e estando vivendo em uma época bem mais adiantada, não mais teria o peso do preconceito sobre ele, até porque nem saberiam a sua verdadeira origem. Com esse pensamento resolveu agir e garantir um legado ao seu descendente do futuro, além do título de Conde deixaria uma quantia que o faria independente e poderoso, mas também criaria algo novo em seus negócios para que seus filhos se envolvessem mais, ficando dessa forma protegidos e unidos.
Antenor dormiu com sua cabeça fervilhando. Amanhecera e Antenor ao levantar mostrava sinais da noite mal dormida. Em vista de todos esses contratempos que o incomodava adicionado à conclusão da noite anterior, Antenor durante o resto do dia dedicou seus pensamentos a encontrar a maneira certa de como poderia tornar realidade àquela ideia que passou a ser seu grande desejo. Depois de tanto maquinar, decidiu no final da tarde daquela segunda feira reunir seus filhos para deixar suas instruções para os próximos meses. Era o início de tudo que realizaria para salvar sua família e seu patrimônio.
- Meus filhos, já estou ficando velho e não gostaria de morrer sem antes conhecer a terra onde nasceu meu pai. Por isso resolvi com sua mãe passar o Natal viajando. Primeiro conheceremos Lisboa, depois aproveitamos que já estamos por lá e viajamos toda Europa para conhecê-la. Vou aproveitar a viagem para se possível realizar pessoalmente algum negócio na Inglaterra, estou pensando em não mais depender desses intermediários para colocar nossas pedras naquele mercado.
- O senhor acha que essa sua viagem demora quanto tempo? – Quis saber George.
- Penso que não deve passar de um ano.
- E quando pretende viajar? – Perguntou Cirino.
- No início da próxima semana parte um navio inglês para Lisboa, estou pretendendo embarcar com a mãe de vocês, só estou aguardando a confirmação das reservas que fiz.
- Acho a ideia excelente. Essa viagem o fará conhecer novos hábitos e costumes. Além de fazê-lo descansar, vai afastá-lo por um tempo desses atentados e das perseguições das suas irmãs. – Incentivou Valdecir.
- Não é perigoso o senhor viajar levando uma remessa de diamantes? – Perguntou Cirino.
- Ninguém está sabendo que a nossa viagem é também de negócio, por tanto não há risco, alem do mais tomei conhecimento de que nosso navio será acompanhado de perto por um cruzador inglês.
- Pode ir tranquilo, que nós cuidamos de tudo por aqui. – Garantiu George.
- George, diga a Avelina que quando nós voltarmos queremos vê-los na igreja casando.
Antenor passou o restante da tarde chegando a entrar um pouco na noite acertando os detalhes da viagem e determinando a cada um de seus filhos o que deveriam fazer. Sua maior preocupação era com a segurança deles, por isso ficou acertado de que deveriam estar sempre acompanhados pelos capatazes e sempre por dois ou três escravos de confiança.
A semana praticamente voou. Na manhã de Domingo, Antenor e sua mulher Constância partiam para a Europa. A travessia oceânica transcorreu tranquila e segura, pois praticamente o navio em que viajavam, como tinham lhe avisado, foi acompanhado pelo cruzador que ia protegendo-o de algum ataque pirata, muito comum na época.
Em Lisboa abriu sua primeira loja de joias na Europa, que seria administrada por um de seus filhos, e conheceram a residência onde seu pai viveu durante algum tempo. Procurou não se identificar para não encontrar com algum provável parente, evitando com isso sofrer algum dissabor, pois sua intenção era somente conhecer o lugar onde seu pai nascera.
Após duas semanas passeando por Portugal viajaram a Madri onde ficaram por um mês e em seguida seguiram para Paris, aí permanecendo dois meses. Foi nesta cidade que Antenor conheceu David Brant, um inglês que fabricava, de forma artesanal, compartimentos para guardar valores. Com sua criatividade e a ajuda de Brant construiu um cofre extremamente seguro e sofisticado para a época, onde pretendia guardar o seu grande sonho.
Sua intenção sempre foi a de abrir na cidade um escritório para comercializar seus diamantes diretamente com a Maison Chaumet, tentou a todo custo um encontro com o ourives Marie-Etienne Nitot, o joalheiro preferido de Napoleão Bonaparte e sua duas mulheres, Joséphine e Marie-Louise. Porém às dificuldades encontradas devido à falta de tempo daquele renomado senhor, desistiu.
Ele e sua esposa ainda ficaram algum tempo pela Europa, por lá permaneceram mais dois meses onde puderam apreciar algumas apresentações musicais, como a do notável compositor e violinista, Niccolò Paganini em Roma, também um dos primeiros concertos públicos da carreira artística de Frédéric François Chopin em Varsóvia com a idade de 11 anos, e também assistir a outro grande concerto, o de Ludwig van Beethoven, bem mais concorrido que o de Chopin, este realizado em Viena. Antes de regressarem ao Brasil passaram por Londres, cidade onde Antenor aproveitou e dando continuidade a seus planos, inaugurou o escritório para comercializar seus diamantes. Tinha em mente mandar outro de seus filhos para administrá-lo, pois estando mais próximo aos grandes consumidores, ele acabava com a intermediação de terceiros em seus negócios e bem como neutralizava a perseguição de suas irmãs sobre mais um de seus filhos.
Antenor logo que chegou de viagem tomou duas providências: – A primeira, notificou e designou seus filhos mais novos, Valtencir e Cirino, para gerenciarem os negócios da família em Portugal e na Inglaterra, deixando para eles a escolha de onde fixariam suas residências. Ficando acertado que viajariam logo após o noivado do irmão. A segunda reuniu-se com Macedo Tavares e acertou o noivado de George com Avelina. Pela primeira vez estava acontecendo alguma coisa que o deixava feliz, e essa felicidade não era só propriedade dele, podia também ser sentido no semblante do outro velho, o ex-Conde de Meringuava.
Após o noivado de seu filho, Antenor fez algumas consultas a seu amigo, o advogado e também juiz, Dr. Cláudio Araújo Cavalcante de Assis Barbosa sobre a possibilidade de realizar tudo o que havia planejado. Com a sinalização positiva dada por seu advogado, Antenor sentiu que tudo estava pronto para ser posto em prática.
Quase três anos havia se passado desde que Antenor tomara a decisão de proteger sua família e o seu descendente da sexta geração. O primeiro passo foi passar o título de Conde para seu filho George, com isso acelerou o casamento dele com Avelina, assegurando dessa forma que o título não se perdesse ou caísse em mãos erradas.
A união das duas famílias se deu em grande pompa no dia 18 de outubro de 1822 no imenso solar dos Tavares. A bem da verdade a festa que Antenor e Macedo realizaram para a comemoração desse casamento foi memorável. Foi possível constatar algo nunca antes visto pelos Bernardes de Oliveira e também pelos badalados Tavares. Todos os nobres da Corte sem exceção, até os que não costumavam comparecer aos eventos festivos marcaram presença comparecendo ao casamento, inclusive o recém proclamado Imperador do Brasil, Dom Pedro e sua esposa a Imperatriz Leopoldina.
Valtencir e Cirino vieram da Europa para o casamento do irmão. Não cabiam de satisfação e mal acreditavam no que viam, era a primeira vez que seus pais conseguiam realizar uma reunião com sucesso. Eles estavam realmente felizes.
Antenor após o casamento não descansou e tratou de dar continuidade a seus planos. Entendeu que o passo que queria dar teria que ser com o envolvimento e ajuda do seu único e fiel amigo, Osvaldo Brandão da Costa Cabral, o Marquês de Saquarema. Por esta razão resolveu marcar uma reunião sigilosa e expor a ele sua ideia, garantindo de vez, a possibilidade desse seu projeto poder ser realizado.
- Osvaldo, eu pretendo realizar um desejo e vou precisar demais da sua ajuda.
- Fale meu amigo, que se eu puder lhe ajudar não faltarei.
- Escuta com atenção o que vou fazer: o Imperador mudou a regra da Nobiliarquia, por isso...
Essa conversa entre Antenor e Osvaldo durou mais do que imaginaram, entretanto no final Antenor conseguiu que o Marquês concordasse em convidar para uma próxima reunião as pessoas que ele queria.
No dia 05 novembro de 1822, presentes à reunião secreta realizada na loja maçônica Comércio e Artes na Idade do Ouro, que funcionava num sobrado na Rua Bethencourt da Silva, além do Grão Mestre, estavam Osvaldo Brandão, o Marquês de Saquarema proprietário de terras em Valença e também negociante de joia na cidade de São Paulo; Paulino Correia de Mello, o Conde do Pau D’alho fazendeiro de gado da região de Resende e Sinval Garcia Queiroz, o Barão da Serra Verde, também fazendeiro e plantador de cana de açúcar em Campos. Apesar de todos terem suas atividades profissionais em outros locais, suas famílias moravam e mantinham vida social na cidade do Rio de Janeiro. Também compareceu a reunião o Juiz Cláudio Barbosa como testemunha, e o Tabelião Justino Fraga responsável por redigir o documento.
Antenor resolveu por razões óbvias, não envolver o sogro de seu filho neste caso, pois o que estava para fazer provavelmente ele seria contra. Também não tinha intenção de participar a família sobre essa decisão. A experiência que teve no passado envolvendo sua herança, não queria ver se repetindo agora com seus filhos.
Antenor abriu a reunião indo direto na questão.
- Meus amigos, primeiramente quero agradecer por terem atendido ao meu pedido. O que nos faz reunir neste momento é minha preocupação com o destino dos meus filhos e o futuro dos meus descendentes, por essa razão resolvi garantir que na sexta geração meu descendente seja também um herdeiro direto meu.
- Como assim? – Quis saber o Tabelião Justino para poder fazer o documento.
- Eu explico: ela ou ele não importa quem, saberá ser descendente de um Conde, porém com a nova ordem do Imperador Dom Pedro esse título só pertence a meu filho enquanto vivo, não podendo ser ostentado por ninguém no futuro. Pó isso quero que meu descendente seja agraciado com uma quantidade de diamantes equivalente a 50.000$ contos, a mesma quantia deixada por meu pai, para que possa ter uma existência tranquila e sem as perseguições que hoje sofremos. Dessa forma, caso minha família venha a descobrir o que estou fazendo não terá o direito de reclamar, pois o que estou transferindo a outra pessoa é uma doação que me foi feita e consequentemente não os pertence e nem trabalharam para consegui-la. O que acham deste meu projeto?
- Antenor, nós ainda não sabemos como você pretende concretizar essa sua vontade, mas acredito ser quase impossível que isso aconteça. Sei de antemão, que através de testamento a lei não permite e se tentar fazer de alguma outra forma, tenha em mente que vários fatores alheios a nossa vontade podem interferir para que o seu objetivo não seja alcançado. - Ponderou o Barão da Serra Verde.
- Estou a dois anos preparando minha estratégia e creio que se for respeitado o que eu vou determinar a ser feito, por todos os envolvidos e no futuro por todos os seus descendentes, eu conseguirei realizar este meu desejo.
- Quanto a minha família e nossos descendentes posso garantir que sua vontade será sempre defendida e lutaremos para que seja concretizada. – Afiançou o Marquês de Saquarema.
- Não vejo nenhum grande empecilho para essa missão futurística ser realizada. Desde já tem minha honra e a de toda minha família empenhada nessa realização. – Apressou-se em garantir o Conde do Pau D’alho.
- Pode contar também com a família Garcia Queiroz, mas diga-nos como pretende beneficiar este herdeiro tão longe no tempo, pois se minhas contas não estiverem erradas ele estará vivendo no próximo século lá por 1970.
- Certo... Eu sabia que poderia contar com vocês... Bem é tudo muito simples: – Todas essas pedras estão guardadas no Banco do Brasil em um cofre de chumbo revestido em aço, próprio para acondicionar pedras preciosas. Um modelo de alta segurança para nossa época... Esse cofre tem três combinações de segredo que eu mesmo inventei, desenhei e mandei um artesão inglês fabricar no ano passado quando estive na Europa. Ele ainda possui duas chaves para reforçar sua segurança.
- De que forma seu herdeiro naquele ano tomará conhecimento desse cofre. Como pode isso se realizar? – Fingiu dúvida e preocupação – para os demais presentes – o Marquês de Saquarema, como se não soubesse de nada.
- Faremos um documento que constará a data da abertura desse cofre, com todas as instruções que acertarmos agora. Este original ficará guardado aqui em nossa loja sob a guarda do nosso ilustre Grão-Mestre que ira passando pelas mãos de todos os Grão-Mestres até a data combinada. Cada um de vocês terá uma cópia deste documento que passará aos seus descendentes. Constará também no original e em todas as cópias o nome dos agora presentes e dos demais envolvidos, com suas assinaturas e respectivos sinetes devidamente autenticados por nosso honrado Tabelião, o senhor Justino Fraga. Também haverá uma copia com o juiz Cláudio Barbosa que ficará guardada no Fórum para que o juiz responsável da época possa valer meu desejo, garantindo assim que tudo seja realizado e respeitado.
- Antenor, da forma como você está colocando é tudo muito fácil, mas está se esquecendo que alguém em uma época qualquer pode se apossar das combinações e das chaves do cofre e roubá-lo. – Mais uma vez ponderou o Barão da Serra Verde.
- É verdade, de posse das combinações e das chaves não é difícil subornar alguém no banco e abrir esse cofre e não precisa nem ter dinheiro, pois o pagamento pode ser feito com parte do que tem dentro do próprio cofre. – Lembrou o Conde do Pau D’alho.
- Foi devido a essa possibilidade é que cerquei de pequenos meios de defesa que tornarão possível realizar esse projeto.
- Nós teremos conhecimento desses meios além de guardarmos a cópia do documento? – Quis saber o Barão da Serra Verde.
- Evidente que sim... Constará neste documento, que passados quarenta anos o Cardeal e o Grão-Mestre da época em curso terão de identificar meu descendente, sendo os demais envolvidos devidamente informados, para que não se perca no tempo esta minha vontade. Este cofre particular só poderá ser aberto daqui a 150 anos pelo Conde ou Condessa de Meringuava da época, apesar de não poderem mais usar esses títulos, na presença do Juiz encarregado desse ato e do diretor do Banco do Brasil, guardiões desse documento. Além das pessoas responsáveis pelas combinações e dos detentores das duas chaves de segurança.
- Ao que tudo indica, o juiz e nós seremos os primeiros guardiões de cada copia deste documento. Existirão outras cópias? Quem guardará as combinações desse cofre? – Perguntou o Conde do Pau D’alho de forma bem dissimulada, tentando claramente disfarçar seu interesse.
- Sim terão outras cópias. Aqui estão três placas em ouro 24 k com trinta e três brilhantes encravados em cada uma, emoldurando e formando o segredo do cofre. Elas ficarão sob a guarda de vocês e logicamente passaram aos seus descendentes. Essas placas estão identificadas por um número e com as letras L, I e Y em ordem alternada. Esses números estão gravados no cofre logo acima de cada cilindro de segredo para a identificação de cada uma das ordens. Estas joias, se assim podemos chamá-las, passarão a pertencer aos guardiões da época como recompensa, depois que o cofre for aberto por meu herdeiro.
- E quanto às chaves quem ficará encarregado de guardá-las? – Desta vez quem perguntou foi o Marquês de Saquarema.
- Antes, cabe aqui uma pergunta: – Como é essa chave? Serão 150 anos, e não é qualquer metal que resiste tanto tempo. - Ressaltou o Barão da Serra Verde.
Neste momento chegou à loja o Cardeal responsável pela arquidiocese do Rio de Janeiro, sua eminência Alfonso Celso Dias Machado.
- Estou muito atrasado? Quis saber o Cardeal.
- Muito não. O senhor só está um pouco atrasado. Fui obrigado a começar a reunião sem a sua presença. – Antenor desculpou-se com o Cardeal e voltando-se para grupo continuou.
- Acredito que todos conheçam nosso estimado Cardeal.
- Claro que sim, quem não conhece Dom Afonso? – Todos responderam afirmativamente.
- Muito bem, creio que podemos continuar. Respondendo a sua pergunta Barão, as chaves também são de ouro maciço com dezesseis brilhantes incrustados em cada uma delas. Resistirão com certeza ao tempo... Ah! Essas joias também serão doadas aos seus detentores na época. Já ia me esquecendo, acompanha a chave uma cópia idêntica do documento que cada um terá em sua guarda.
- Quem guardará as chaves? – Mais uma vez o interessado foi o Conde do Pau D’alho.
- Senhores, a chave ficará sob a proteção da nossa Santa Igreja e o Cardeal Afonso é o responsável atual por ela e o encarregado de passá-la a seus sucessores.
- Ficará a Santa Igreja responsável na guarda das duas chaves? – Perguntou o Barão da Serra Verde?
- Não senhor Barão, eu aconselhei ao senhor Antenor que a outra chave por motivo de segurança fosse colocada em outro local. - Antecipou-se em responder Dom Afonso.
- Esse outro local já está determinado? – Quis saber o Conde do Pau D’alho.
- Sim, senhor Conde... Resolvi deixá-la aqui mesmo na loja, sob a guarda do nosso ilustre Grão Mestre. Acredito não haver outro lugar tão seguro quanto a nossa Loja Maçônica, entretanto se algum dos senhores conhecerem local melhor estudarei a sugestão.
Todos os presentes por votação foram unânimes em aprovar o local escolhido pelo senhor Antenor para a guarda da segunda chave, entretanto foi feita uma consideração pelo Marquês de Saquarema, quanto ao local onde ficariam os diamantes.
- Antenor, não lhe preocupa guardar essa fortuna no Banco do Brasil? Não se esqueça que D. João ao partir para Lisboa deixou nossos cofres a banca rota.
- Nem um pouco. Os diamantes estarão seguros lá, até porque não se trata de um depósito comum como reza no seu estatuto. “Ser depositário de prata, ouro, diamantes, ou dinheiro”, mas sim do aluguel de um espaço no cofre do Banco que estarei utilizando por um determinado tempo para guardar o meu cofre.
- Mas então como será pago esse aluguel, uma vez que sua família não terá conhecimento da existência desse cofre?
- Já acertei o valor total para os próximos cento e cinquenta anos com o Banco e paguei antecipado. Logicamente com um bom desconto.
- Como conseguiste isso? – Quis saber, sempre muito interessado, o Conde do Pau D’alho.
- Bem fácil, com a partida de D. João o Banco do Brasil praticamente entrou em falência, com isso não foi difícil realizar esse negócio, e que certamente foi bom para os dois lados.
- Espero que não tenha ficado aborrecido com nossa preocupação quanto à segurança dessa fortuna? Afinal será responsabilidade das nossas famílias que ela viaje através do tempo e que seja devidamente entregue na sua totalidade ao seu descendente.
- Não se preocupem, tive todo o cuidado de reuni-los justamente para isso, ou seja, estudar e aprovar a real possibilidade de tudo se realizar.
Após esse consenso eles continuaram com a confecção do documento onde fizeram constar detalhadamente tudo o que foi tratado na reunião. Inclusive registrando a existência das placas e das chaves em ouro com as quantidades de brilhantes nelas encravados com a recomendação de que todas as peças deveriam permanecer intacta até o cumprimento daquela que era considerada como sendo a ultima vontade de Antenor.
Ao término da reunião, cada um deles apos sua chancela e assinaram o original e às cópias que cada um teria sob sua guarda, tudo devidamente autenticado pelo tabelião Justino Fraga.
Anexaram o documento original à ata da reunião secreta que ficaria sob a guarda do Grão Mestre José Bonifácio, junto com uma das chaves do cofre. A outra chave, junto com uma cópia do documento ficou na posse do Cardeal Afonso. Uma das cópias deste documento também foi entregue ao Juiz Cláudio Barbosa. E por fim, a cada um dos demais participantes da reunião foi entregue uma cópia do documento, além das três placas com o segredo de abertura do cofre.
Atendendo ao convite de Antenor todos foram em sua luxuosa carruagem até ao Banco do Brasil cujo endereço era o prédio da Rua Direita esquina com a Rua de São Pedro, lá puderam constatar a existência dos diamantes guardados no cofre particular e depositados naquele estabelecimento. Nesta ocasião os diamantes foram avaliados por Manoel Inácio, o mais famoso ourives do Império e também foi arquivada uma cópia do documento na conta de registro do cofre, com instruções a serem seguidas na época de sua abertura.
Dias depois, em meados de novembro de 1822, o então Imperador D. Pedro na qualidade de Grão Mestre suspendeu as reuniões maçônicas e mandou fechar suas lojas por tempo indeterminado, com isso Antenor reuniu-se mais uma vez com seus amigos e nesta, que seria sua última reunião ficou determinado que a guarda da chave do cofre e do original do documento deveriam passar para a Igreja. Sendo que tão logo voltassem às atividades da Loja, Dom Afonso, se encarregaria de devolvê-los ao Grão Mestre para sua guarda e providências. Ato esse que só se concretizou em meados de 1831, quando a chave e o documento foram entregues ao novo Grão Mestre, pois Cônego Januário reinaugurava a loja maçônica em 1830.
*
Três anos se passaram desde a inauguração do escritório de Londres em 1819, que comandado por Cirino, passou a intermediar e a negociar ouro e pedras preciosas vindas de outros locais do mundo. Valdecir, por sua vez vendo que podia expandir os negócios da família além de Lisboa, abriu mais duas lojas de joias, uma em Roma e outra em Paris.
Cirino e Valdecir também casaram e fizeram questão de realizar festas tão grandiosas quanto à de seu irmão George. Após seus casamentos passaram a viver definitivamente na Europa, longe das perseguições de suas tias.
Antenor estava cada vez mais feliz por saber que conseguira mudar o destino dos filhos, embora esta alegria não fosse o suficiente para mantê-lo saudável. Em Janeiro de 1823, amargurado e cansado de lutar contra os abusos que suas irmãs insistiam em manter contra ele, adoece gravemente. Sabendo por seu médico particular que não viveria por muito tempo resolveu deixar pronto seu testamento.
O testamento oficial e definitivo de Antenor foi redigido no dia 13 de Março na presença de seis testemunhas, o Juiz Cláudio Barbosa, o Tabelião Bernardo do Amaral, o Coronel Médico Alfredo de Morais, o Marques de Saquarema, Senhor Osvaldo Brandão, o Cardeal Alfonso e do senhor Augusto Macedo Tavares. Este documento devidamente autenticado e com as firmas reconhecidas é composto de um original que consta registrado no Livro de Escrituras e Registro de Títulos e Documentos do Cartório Real, uma cópia guardada em seu cofre particular, outra cópia na Igreja da Candelária aos cuidados do Cardeal Afonso, a terceira cópia sob a guarda de Osvaldo Brandão, o Marquês de Saquarema seu amigo de confiança e a quarta cópia com o sogro do seu filho, senhor Macedo Tavares.
Antenor veio a falecer aos sessenta e nove anos no final deste mesmo ano na quarta-feira, dia 10 de Dezembro. Nove dias antes de completar setenta anos, seu aniversário se realizaria na sexta-feira, dia 19 de Dezembro data que seus filhos pensavam comemorar com uma grande festa.
Logo após o falecimento de Antenor, precisamente no dia 20 de Janeiro de 1824, o Marquês de Saquarema reuniu a família para que tomasse conhecimento do testamento que espelhava sua última vontade.
Os três filhos, a esposa e dois sobrinhos de Antenor por parte de sua esposa foram reunidos no salão nobre onde funcionava o Cartório Real para ouvirem a leitura do testamento feita pelo Marquês. Também compareceram as testemunhas que presenciaram a sua confecção com o intuito único de atestar a veracidade do documento como sendo à vontade de Antenor e que o mesmo fazia uso pleno de suas faculdades mentais.
- Bom dia... Posso começar a leitura do testamento do senhor Antenor Bernardes de Oliveira ou devemos aguardar a presença de mais alguém? – Perguntou o Marquês de Saquarema.
Todos concordaram e a leitura foi feita no próprio livro de Registros, que levou aproximadamente quarenta minutos para expor aos presentes todo o seu conteúdo, sendo logo em seguida no próprio Cartório, oficializado e registrada a divisão dos bens bem como toda a documentação dando posse aos novos herdeiros os seus respectivos bens herdados.
Cada um dos herdeiros recebeu tantos bens entre; chácaras; fazendas; gado; lojas de ouro e pedras preciosas, que eles não sabendo realmente enquanto montava a fortuna de Antenor, nem suspeitaram do desvio a pouco mais de dois anos, da tal quantidade em diamantes.
QUARTO CAPÍTULO
Tramas fatais
Sábado, 27 de Março de 1824. Aniversário da Condessa Carminda, a pedido dela, suas irmãs resolveram acatar sua vontade de fazer uma pequena festa somente para a família, sem as costumeiras badalações.
Como sempre quando elas se reuniam o assunto era invariavelmente o mesmo, encontrar uma maneira de ridicularizar ou impedir o bastardo de ser convidado para alguma recepção. Essa era a forma como se referiam ao meio irmão Antenor, entretanto com a sua morte não havia mais sentido continuar insistindo no mesmo tema. Nesse dia em que todas estavam reunidas, assim que a Marquesa Natália tentou começar, talvez a mesma cantilena de sempre, foi imediatamente interrompida por sua irmã mais velha, Carminda.
- Natália, eu amo de verdade todas vocês. Sempre estive presente e apoiei suas investidas criminosas contra Antenor, mas agora depois de sua morte devemos deixá-lo descansar em paz.
- Mas o que você está dizendo? Esqueceu a fortuna que ele nos roubou quando nosso pai o fez seu herdeiro? – A Viscondessa Sofia saiu em defesa da Natália, deixando claro que continuaria apoiando-a, qualquer que fosse a sua ideia.
- Estou de acordo com a Carminda, também não vou mais participar dessa sua perseguição implacável a Antenor, até porque com sua morte não faz mais sentido. Quando é que você vai esquecer de vez essa vingança doentia? – Quem perguntava era a Baronesa Eugenia.
Com a frieza que sempre foi sua companheira, Natália tomou a conversa para si.
- Carminda minha irmã, você se precipitou em não me deixar acabar de expor o que eu tinha a dizer.
- Como me precipitei? Seu assunto é sempre o mesmo! - Defendeu-se a irmã mais velha.
- Não, agora é diferente e não tem nada de doentio. Até concordo quando você diz em deixar o bastardo em paz, entretanto não posso esquecer a herança que ele deixou.
- O que está pensando fazer? Matar nossos sobrinhos ou roubá-los?
- Não me diga que aqueles três são nossos sobrinhos.
- Sobrinho ou não, a herança é deles. Como poderemos ter acesso a ela? – A Baronesa Eugenia quis saber.
- Pretendo sim reaver, mas só o que é nosso.
- Do que você está falando? – Quis agora saber a Condessa Carminda.
- Dos 50.000$ contos em diamantes guardados e que também nos pertence. Lembre-se de que não estamos tão bem de situação e essa quantia vai deixar nossas famílias novamente tranquilas. E não será preciso matá-los e nem roubá-los.
- Se não vai matar ou roubar nossos sobrinhos, podemos saber como pretende realizar essa façanha? E que diamantes são esses? – Perguntou Sofia, já interessada nos diamantes que sua irmã mencionara.
- Vejo que vocês não têm conhecimento do que o bastardo fez.
- Mas do que você está falando? – Insistiu em saber Eugenia.
A Marquesa Natália concluindo que suas irmãs realmente não tinham conhecimento de que Antenor havia deixado a mesma quantidade de diamantes que recebera de seu pai, para um pretenso herdeiro no futuro, começou a contar com detalhes tudo que descobrira a respeito. Ao terminar de expor tudo o que havia descoberto e sem dar tempo delas raciocinarem já emendou propondo um plano para reaverem o que na cabeça dela lhes pertencia.
Mais uma vez a Condessa Carminda tomou posição.
- Natália, nós não temos mais idade para essas aventuras. Não somos capazes nem de seduzir nossos maridos, quanto mais há todas essas pessoas que Antenor envolveu na loucura desse seu legado.
- Mas quem falou em sedução. Não seremos nós a fazer o serviço. Armaremos sim, as tramas para que no final as placas contendo as tais senhas e as chaves desse cofre venham parar em nossas mãos. O que é de direito nosso.
- Como faremos isso? - Sofia quis saber.
- Simples, pretendo usar nossos escravos. Meu plano é...
Natália continuou durante toda a reunião expondo suas ideias para reaver a fortuna que segundo ela, Antenor as roubara, entretanto nem desconfiava que não fosse ela e as irmãs as únicas que estavam de olho nos diamantes, havia outras pessoas também interessadas em se apoderar daquelas preciosidades.
*
Antenor mal acabara de ser enterrado e as tramas para se apoderarem dos diamantes, por ele deixado clandestinamente, começaram a ser estudas. O único ponto em que todos os interessados concordavam era de que as duas famílias, os Bernardes de Oliveira e os Macedo Tavares deveriam continuar não sabendo da existência dessa fortuna, pois poderiam conseguir legalmente na justiça, a posse de tudo, inclusive das placas e das chaves, que foram avaliadas em 3$500 contos as placas e 1$500 contos as chaves.
O tabelião Justino Fraga conversava com seu colega, e também tabelião, Bernardo do Amaral.
- Bernardo, o que vou lhe contar deverá continuar em segredo, pois pretendo com a sua ajuda me apoderar de alguns diamantes, voltar para Portugal e viver o resto dos meus dias na minha quinta em Coimbra.
- Como assim? Que diamantes são esses?
- Os da herança do Antenor.
- Se você tinha intenção em desviar alguma parte deles chegou atrasado, meu amigo. Todos os bens já foram entregues aos herdeiros.
- Estou falando dos 50.000$ contos em diamantes que ele deixou depositado no banco, para seu descendente daqui a 150 anos.
- Não me lembro disso constar no testamento.
- Essa parte não constou em seu testamento. O senhor Antenor realizou uma reunião secreta sob a proteção da Maçonaria. Ele lavrou um documento particular, beneficiando um futuro descendente, comigo. Em seguida entregou os segredos e as chaves de um cofre, a algumas pessoas de sua inteira confiança.
- Nesse tal cofre é que estão os diamantes?
- Isso mesmo...
Justino aproveitou e colocou seu amigo a par do que Antenor havia feito.
- Pelo o que me passaste, tem muita gente envolvida nessa empreitada. Será demorado tomar posse de tudo. O que vejo ser mais difícil é depois de tudo, ter que dobrar o pessoal do banco para ter acesso ao cofre. Porém não podemos deixar de tentar. Você já tem alguma ideia de como faremos.
- Tenho. Vamos investir gradativamente em um por um, sem pressa e sem despertar suspeitas. Estou pretendendo começar pelo Conde do Pau D’alho. O que acha?
- Para mim é indiferente por quem começar se temos que começar, qualquer um está bom. Mas como você vai fazer isso.
- Tudo tem que ser muito bem planejado, e outros é que farão o serviço para nós.
- Tem certos trabalhos que não dá para ser feito por terceiros.
- Dá para ser feito e bem. Por exemplo, Aristeu, o filho do Governador perdeu alguns contos no jogo e eu paguei a sua dívida, com isso ele me deve um favor. Como ele é amigo do Almir, filho do Conde, não será difícil para ele uma vez dentro da mansão descobrir onde está guardado o documento e a placa com o segredo.
- Certo, mas ele não é ladrão e não vai cometer essa loucura só por que lhe deve alguns contos.
- Eu sei disso, mas quando eu tiver de posse dessa informação, aí passa a ser com você.
- Como assim, passa a ser comigo! Eu também não sou ladrão.
- Calma, eu sei disso. Só está esquecendo que você é o responsável pela liberdade do Miro “fumaça”. Ele te deve essa. Manda-o entrar na mansão e executar o serviço, afinal, não dizem que ele é o maior assaltante da atualidade?
- Para você tudo parece fácil. Quando é que poderemos fazer o serviço.
- E é, meu caro. Sei que a família está para a fazenda e o Conde toda tarde vai para casa da madame Olga, ter com sua amante. Amanhã mesmo lhe passo a informação a tempo do Miro fazer o trabalho antes do Conde voltar à noite.
- E se ele não quiser fazer parte desse negócio?
- Diga a ele que nós o mandaremos de volta para a cadeia. É fazer ou ser preso de novo.
Tudo combinado. Entretanto a execução do plano não foi tão rápido como a trama. Justino só conseguiu ter as informações dez dias mais tarde. Bernardo por sua vez só localizou o ex-prisioneiro no final do mês. Devido a esses contratempos, Miro “fumaça”, teria de aguardar que a família viajasse novamente para descansar na fazenda só assim poderia entrar na mansão.
Enquanto isso Tião, o escravo fujão da Marquesa Natália, sob a promessa de ganhar a liberdade muito breve, seguia o plano da sua senhora. Conseguira convencer Jovelina, escrava de confiança da casa do senhor Paulino, a namorá-lo, com isso toda tarde lá estava ele pelos arredores do casarão na tentativa de poder entrar na casa e roubar.
Os dias se repetiam e nenhum dos dois conseguia entrar na casa. Não passava uma só tarde que eles não estivessem por perto; Tião, dentro dos domínios da mansão ia namorando escondido, só quem sabia disso era a protetora deles, a senhora Durvalina; Enquanto que o Miro “fumaça” ficava bebendo numa tendinha mais ou menos próxima da residência, mas que dava para espreitar todo e qualquer movimento da família e era a única passagem das carruagens dos moradores do local.
Naquela segunda-feira, 5 de abril de 1824, a família do Conde viajou para a fazenda. Tião depois de ajudar com as bagagens se escondeu no alojamento dos escravos quando todos viajaram. Ali ficaria esperando que o senhor Paulino saísse à tarde para ver a amante e então poder entrar no casarão e roubar o que a sua dona mandara.
Miro fumaça também viu a família saindo para viajar e se preparou para entrar logo que o Conde saísse para sua aventura amorosa. Seria o assalto mais fácil que já realizara, pois sabendo onde estavam localizados a peça e o documento, não levaria muito tempo para pegá-los.
Por volta das quinze horas, o Conde saiu.
Tião rapidamente entrou na residência e começou a procurar pelos aposentos onde estaria o cofre. Reinava um silêncio absoluto dentro da casa e graças a isso pode escutar quando alguém também entrou. Era o Miro “fumaça”. Tião resolveu esconder-se e observá-lo de longe para ver o que faria. Seguindo-o, descobriu que ele também procurava o cofre da casa. Aguardou que ele o abrisse e constatou ser, a sua procura a mesma dele, a placa de ouro e o documento.
Rápido como um felino, Tião se atracou com o outro invasor na tentativa de se apoderar daquilo que era o salvo conduto da sua liberdade. Bem mais fraco, Miro sentindo que iria ser dominado sacou da pequena garrucha para se defender, mesmo que para isso tivesse que matar aquele escravo.
O senhor Paulino esquecera em casa o pequeno mimo que daria para madame Olga. Como já havia falado com a cafetina sobre o presente, resolveu voltar para pegá-lo, e ao entrar em casa deparou com os invasores agarrados numa luta de morte. Não entendendo o que acontecia também sacou da sua arma e ficou esperando para ver o desfecho, pois seria mais fácil dominar um do que os dois.
A luta continuava tão ferrenha, que eles nem se deram conta de que o Conde havia retornado e os observava. Num gesto mais brusco, Tião ao torcer o braço do Miro fez com que sua arma disparasse acidentalmente ferindo de morte o senhor Paulino. Agora a luta tornara-se uma disputa não só para obter a placa com o documento, mas também pela liberdade, pois aquele que morresse seria responsabilizado pelo assassinato do Conde e o vencedor continuaria livre.
Tião sendo mais forte conseguiu dominar seu opositor desacordando-o. Com a arma do próprio Conde matou o Miro. Em seguida colocou de volta a arma na mão do Conde para dar a entender que o mesmo surpreendeu o ladrão, mas que infelizmente os dois atiraram ao mesmo tempo matando-se.
Com o barulho dos tiros vindo de dentro da casa, os escravos e o cocheiro correram para socorrer o Conde, não dando tempo para o Tião pegar no cofre o que tinha ido buscar. Obrigando-o a fugir para não ser pego e preso.
Mais tarde surgiram boatos, que chegou aos ouvidos da viúva do Conde de Pau D’alho, senhora Durvalina, de que o Governador havia encomendado o crime por ter perdido uma grande soma no jogo e não tinha como pagar a dívida, estando seu próprio filho ilegítimo entre os assassinos. Outras notícias davam conta que o assassinato foi obra de maridos ciumentos não satisfeitos com a corte que o Senhor Paulino fazia às senhoras casadas, por meio de cartas de amor. Por ultimo tomou vulto à ideia de que estavam tentando obrigar o Conde a entregar a placa contendo o segredo do cofre que o senhor Antenor lhe confiara anos antes. Essa última notícia lhe agradou mais e fez com que optasse por ela, como sendo a verdadeira causa. Não queria se envolver com o Governador por ser influente, perigoso e sem escrúpulos, haja vista ter feito uso do próprio filho para seus intentos e muito menos poderia aceitar que o marido a traía. Por tudo isso, mais a amizade estreita com as irmãs de Antenor e não sabendo que a valiosa placa passaria a pertencer ao membro de sua família no futuro, resolveu desfazer-se dela, mesmo contra a vontade de seu filho.
Este sabendo do desconhecimento dela sobre o acordo firmado entre seu pai e o senhor Antenor, resolveu alertá-la sobre o valor da joia e de que no futuro ela passaria a pertencer à família, numa tentativa de dissuadi-la daquela ideia. Mesmo assim ela mandou o escravo Tião entregar a placa e a cópia do documento, a Marquesa Natália, abdicando por sua família do direito de herdá-la no futuro. Mas ao fazer isso impôs ao escravo que não contasse para ninguém o que ela estava fazendo, nem mesmo para a Marquesa, seria um segredo entre eles dois, e que em troca ela daria a liberdade para a Jovelina.
Tião cumpriu o acordo feito com a viúva do Conde e manteve para a Marquesa que tinha roubado tudo conforme ela mandara.
A Marquesa Natália e suas irmãs tinham a intenção de eliminar todos os envolvidos e se apoderar das placas e chaves. Estavam radiantes com a primeira investida, pois conseguiram uma das placas com o segredo mais rápido do que imaginavam. Entretanto desconhecia que esta placa veio parar em suas mãos por outro motivo, e não por fruto das ações de seu escravo.
Almir, que não herdara nada da integridade dos seus pais, ao contrário deles, era inescrupuloso, mau caráter e também vivia sempre metido em jogatina, acompanhado por Aristeu, razão dessa sua amizade estreita, embora ultimamente desconfiasse das sondagens do amigo, ao saber que sua mãe concedera liberdade à escrava Jovelina, não entendeu o porquê e a procurou para saber com ela a razão de tal medida, mas não obtendo uma resposta convincente. – Não desistiu. – Procurou a escrava e ficou sabendo de um acordo que sua mãe havia feito com o namorado dela. Mais tarde resolveu apertar o escravo Tião, que por não ter nenhuma instrução, acabou caindo na armadilha de Almir e contou toda a trama da Marquesa. Dessa forma Almir resolveu reaver a placa e o documento, obrigando o próprio Tião que a roubasse de volta e devolvesse a ele, sob pena de ser denunciado do assassinato de seu pai e do Miro, além de que se não fizesse, ele mandaria matar a sua namorada.
Não tendo alternativa, Tião aceitou fazer o trabalho sujo outra vez e naquela mesma noite entrou na casa da Marquesa para pegar de volta o que pertencia ao herdeiro do Conde. Já dentro da casa, Tião é surpreendido pela Marquesa roubando a placa e ela começa a gritar. Tião não pensou duas vezes, ali mesmo matou-a e fugiu rapidamente sem que ninguém o visse.
Mais tarde, já de madrugada entregava o produto do roubo ao Almir.
As dívidas de jogo faziam de Almir escravo dos credores e como sua mãe não mais permitia que ele administrasse os negócios da família, não teve alternativa. No dia seguinte com a placa e o documento nas mãos procurou o Marques de Saquarema e lhe ofereceu a joia por 1$000 conto, o que foi comprada de imediato.
Dois dias mais tarde o corpo de Tião apareceu jogado no meio de um cafezal próximo das Laranjeiras. Tinha sido assassinado.
Jovelina era uma bela e inocente negra. Pensando que por ter conseguido sua liberdade seria atendida e tratada como todos os brancos, ainda no mesmo dia em que Tião apareceu morto, dirigiu-se a delegacia para registrar o que sabia. Lá contou toda história que soube dias antes por seu namorado, ao comissário de polícia Agripino Ferreira. Infelizmente o morto por ser escravo não houve nenhuma investigação e ela também apareceu morta logo depois.
Agripino de posse de todas essas informações e alegando estar investigando o assassinato da Marquesa Natália, não foi difícil confirmar sua autenticidade quando em visita a Baronesa Eugenia. Com a descoberta, por acaso da tal fortuna que Antenor deixara, o delegado Agripino passa a ser mais um dos interessados em colocar as mãos nos diamantes. Imediatamente resolveu descobrir quem eram as pessoas que estavam envolvidas em proteger o segredo milionário. Esperto como todo comissário de polícia, procurou saber com o tabelião Bernardo do Amaral.
- Meu caro amigo Bernardo, me desculpe estar lhe procurando a essa hora da noite.
- Não tem problema, afinal os amigos são para essas coisas.
- Os últimos dias tem sido bem violentos na cidade. Soube que seu protegido o Miro fumaça, foi assassinado?
- Fiquei sabendo no velório. Ele foi morto pelo Conde do Pau D’alho.
- É o que pareceu, embora as circunstâncias dessas duas mortes estejam muito estranhas.
- Agripino, deixa de rodeio e diga logo o que você está querendo realmente saber?
- Tomei conhecimento da existência de um documento deixado pelo senhor Antenor. Foi você quem o redigiu e autenticou?
- Que documento é esse, comissário?
- Não tenho conhecimento do seu conteúdo, mas sei que foi feito.
- Se esse tal documento realmente existe, posso lhe garantir que não fui eu quem o autenticou e também nunca o vi. Quem lhe falou sobre isso, Agripino?
- Quem falou não vem ao caso agora, porém fiquei sabendo de que cinco pessoas já foram mortas por causa dele. Mas se não foi você que o autenticou, só pode ter sido o Justino Fraga, estou certo?
- Se existe e foi autenticado por um tabelião, com certeza foi ele, mas também pode ter sido avalizado por outras pessoas influentes e de confiança do senhor Antenor.
- É verdade. Mas de qualquer forma vou descobrir.
- Por que esse interesse todo por um simples documento?
- Segredo meu amigo, segredo. Mas eu não tenho pressa, amanhã à noite vou fazer uma visita ao nosso amigo Justino. Obrigado pelas informações, Bernardo.
No dia seguinte pela manhã bem cedo, Bernardo procurou seu amigo Justino antes mesmo dele sair para o cartório.
- Justino, não estou gostando nada do que está acontecendo.
- Por que está tão nervoso homem?
- Ontem à noite o comissário de polícia, senhor Agripino foi até minha casa para fazer uma sondagem sobre a morte do Paulino e do Miro, na verdade ele está mais interessado é na tal documentação que o Antenor deixou.
- O que ele queria saber?
- Está procurando quem autenticou o documento. Na certa para saber do seu conteúdo.
- Não me diga que você falou que fui eu? Falou?
- Claro que não. Inclusive levantei a hipótese de ter sido pessoas de confiança do Antenor que o autenticaram.
- Será que ele está sabendo de alguma coisa?
- Acredito que não, mas me pareceu muito interessado. Não acredito ser só para desvendar os crimes.
- Crimes? Morreu mais alguém além do Miro e do Conde?
- Segundo ele, além desses, já morreram a Marquesa e os dois escravos.
- Então ele ficou sabendo do documento e da placa e está ligando os casos.
- Por isso estou aqui para preveni-lo, pois ele me disse que virá hoje falar com você. Fique bem atento para não nos comprometer.
- Fica tranquilo, ele não vai descobrir nada. Pelo menos comigo, eu lhe garanto.
Como havia prometido, à noite lá estava o comissário Agripino a procura de Justino.
- Justino, ontem a noite estive conversando com o Bernardo. Vou ser bem franco com você, o seu amigo tentou me tirar do caminho, mas infelizmente não soube fazê-lo e acabou se comprometendo e arrastando você junto.
- Comissário, pode ser mais claro. Eu não estou entendo nada do que está falando.
- Já vai entender. Estou falando de um documento e de uma placa de ouro com brilhantes.
- Lamento, mas essa é a primeira vez que ouço alguém falar a respeito disso.
- Eu sei que você sabe e não vou descansar enquanto não descobrir. Cedo ou tarde a verdade aparece.
- Estarei torcendo para que você obtenha sua informação.
- Justino, eu não quero saber por que morreram essas pessoas. Estou interessado sim é em por as mãos nessa placa e nesse documento. Meu instinto policial me diz que tem mais coisa por traz de tudo isso. Se você mudar de ideia eu desde já proponho uma sociedade para descobrir e dividir o que conseguirmos.
- Está bem, caso eu venha, a saber, de alguma coisa entro em contato com você.
Naquela mesma noite Justino foi até ao solar do Barão da Serra Verde. Precisava conversar com o seu sócio, o senhor Sinval. Para sua surpresa quando chegou próximo à residência do Barão viu a carruagem do falecido Conde do Pau D’alho. Àquela hora deduziu que só poderia ser o Almir, mas o que estaria ele fazendo lá. Resolveu voltar para casa e deixar a visita para o dia seguinte à noite, pois não queria ser visto com o Barão.
No dia seguinte, Justino resolveu antes de ir para o cartório falar com seu amigo.
- Bernardo, eu não podia ir trabalhar sem antes falar com você.
- É sobre o Agripino?
- Sim, é sobre ele mesmo. Não sei como, mas de alguma forma ele descobriu sobre os diamantes e o descarado já me propôs até sociedade.
- Se ele já descobriu, por que lhe propôs sociedade.
- Ele sabe que tem uma herança, mas não sabe de quanto, quem guarda as placas, e as chaves e muito menos o que diz no documento. Por isso propôs a sociedade, ele precisa de mim.
- Entendi, mas até quando seremos sócios? Se nós concordarmos é lógico que ele vai se apoderar de tudo e ainda por cima, depois nos prende como mandante da morte do Conde.
- O que você está pensando fazer?
- Vamos tratar de tirá-lo do nosso caminho.
- Ficou maluco? Vai matar um comissário de polícia?
- Esqueceu que o Conde era o vice-governador. Um delegado que diferença faz. Não vou é ser coagido nem chantageado por esse safado e muito menos preso por ele.
- Dessa eu estou fora. – Avisou Bernardo.
- Nada disso meu amigo. Está dentro e muito dentro, pois você está metido nisso tanto quanto eu.
- Bem que eu não queria participar disso, mas... Como pretende fazer?
- Primeiro vou conversar com o Barão hoje à noite. É possível que ele tenha alguma sugestão. Até porque, não falta é capitão do mato na fazenda dele para fazer o serviço.
- Então vai e não me deixa sem notícias.
Justino retornou a sua casa e mandou seu escravo até a residência do Barão levando um recado onde o informava que iria visitá-lo naquela noite. De volta ao cartório começou a trabalhar, porém sua cabeça fervilhava e esquentou mais ainda, quando recebeu outra vez a visita de Agripino querendo saber se ele já tinha alguma posição. Desvencilhou-se do comissário de polícia alegando um encontro de negócios antes do anoitecer e saiu. Foi para a taberna e logo que escureceu não passou nem em casa, foi direto ter com o senhor Sinval.
Sentados a varanda do solar, eles conversaram por mais de duas horas, só sendo interrompidos quando Mirica, o mordomo do Barão, trazia um refresco. Ao final da conversa os dois chegaram à conclusão; para continuarem vivendo tranquilos e com o caminho livre para se apoderarem da fortuna, deveriam executar não só o comissário de polícia, mas também o Almir, pois este não sabendo, o Barão envolvido com Justino, lhe informou ter sido ele, o Justino, mandante do assalto em sua casa, que culminou com a morte de seu pai, o Conde de Pau D’alho e do assaltante Miro. Sabendo eles também do interesse das irmãs de Antenor em reaver a fortuna acertaram de vigiá-las, com isso teriam que atuar em três frentes distintas, mas não podiam correr o risco delas conseguirem se apoderar de tudo na frente deles.
*
O comissário Agripino tendo conhecimento de que a Marquesa Natália acabou morta por seu próprio escravo, quando ele a mando do Almir pegava de volta a placa e o documento, resolveu interrogar o filho do Conde e ver o quanto de vantagem poderia obter da situação. Para que parecesse ser oficial sua investigação, pediu através de um policial o seu comparecimento para esclarecimentos naquele mesmo dia na intendência.
Logo após o almoço, Almir foi até a casa do Barão e o avisou da sua convocação pelo comissário de polícia para depor.
Bem no final da tarde se apresentou na intendência para saber o porquê da sua presença ali. Foi recebido e encaminhado a uma sala contínua onde se encontrava o Agripino. Logo constatou que a conversa seria particular.
- Boa tarde comissário... O que o senhor deseja comigo?
- Boa tarde, senhor Almir. Vou direto ao assunto. Como o senhor bem sabe, eu estou fazendo algumas investigações sobre os últimos crimes acontecidos na cidade.
- É o seu trabalho e espero que o senhor descubra o mandante de todos esses crimes rapidamente.
- Por isso é que o senhor está aqui.
- Não estou entendendo. O que eu tenho a ver com todos esses acontecimentos.
- Fiquei sabendo pela senhora Jovelina ter sido o senhor que mandou o Tião roubar da Marquesa uma placa de ouro e um documento. O que o senhor tem a me dizer sobre isso.
- Essa escrava foi alforriada por minha mãe, quero que ela faça essa acusação na minha presença.
- O senhor bem sabe que ela está morta e não poderá fazê-lo.
- Então me mostre o registro dessa denúncia feito por ela.
- Não tenho como fazer isso, pois na época não foi feito nenhum registro.
- Por quem o senhor me toma, por acaso eu tenho cara de idiota?
- Posso complicar a sua vida, como também não posso. Vai depender de alguns acertos, senhor Almir.
- Não me submeto à chantagem de ninguém, nem mesmo partindo do senhor. Ah! Uma informação, a Jovelina era uma escrava sim, mas minha mãe a ensinou a ler e a escrever. Eu tenho uma pequena carta datada do dia 02 de maio onde ela conta ter comparecido na intendência de polícia dias antes para prestar queixas e também sobre sua visita a casa dela em seguida, ocasião que a obrigou a beber contra sua vontade um cálice de vinho. Devo lembrá-lo que, pela data a carta foi escrita horas antes de sua morte. Portanto pense bem. Com licença, tenho mais o que fazer.
Dizendo isso Almir levantou-se e saiu da intendência, deixando o comissário de polícia irritado. Dali foi direto ter outra vez com o Barão e mais uma vez por não saber das intenções dele e não desconfiando de nada, participou-lhe com detalhes toda a entrevista.
Sinval não podia ter tido uma revelação melhor. Foi à sopa no mel saber que o Almir tinha uma carta incriminando o comissário de polícia. Na manhã seguinte viajou bem cedo até a fazenda para tratar com seus jagunços a morte do Agripino e do Almir. Quatro dias mais tarde estava de volta e reuniu-se com o Justino.
- Estive esses dias na fazenda e já deixei tudo acertado com o Maguito. Ele vem ao Rio com alguns homens de sua confiança. O Almir será executado no fim desta semana.
- Por que essa decisão assim tão de repente?
- Descobri que foi o comissário de polícia quem matou a escrava Jovina.
- E isso muda alguma coisa a nosso favor?
- Lógico, o Almir tem uma carta escrita pela escrava onde diz que o Agripino esteve com ela na noite anterior a sua morte e a obrigou tomar vinho.
- Isso não quer dizer nada.
- Claro que sim. Ela morreu envenenada, sendo assim, ele envenenou a escrava. A responsabilidade de sua morte vai recair em cima do comissário assim que essa carta se tornar público.
- Se entendi bem, após a morte do Almir você vai se encarregar de divulgar a existência da carta é isso?
- Perfeitamente, após isso nós eliminamos o Agripino, ou melhor, ele se enforca por ter sido descoberto.
- O plano é bom, mas esse seu caçador de escravo conhece o Almir?
- Não, mas para o que serve nossos escravos? Será que só servem para comer e fugir das nossas fazendas?
- Gostaria muito que servissem para mais alguma coisa alem disso.
- Mas é claro que sim. Servem também para nos informar o que acontece às escondidas e indicar sem saber quem nós queremos eliminar.
- Como assim, o que você está pensando que eu ainda não alcancei?
- Quando o Maguito chegar mando lhe avisar. Aí o Amâncio, seu escravo, que não sabe quem é o Maguito vai mostrar a ele o nosso alvo.
- Por falar no meu escravo, não sei se você sabe, ele é primo da Margarida, uma das aias da casa do Marquês de Saquarema.
- Sim, mas o que isso tem haver agora?
- Ocorre que ele ficou sabendo por ela, que o Almir vendeu na semana passada, a placa e o documento para o Marquês.
- Justino, o importante agora é cuidarmos do Almir. Temos que eliminar qualquer prova viva que possa nos destruir, depois estudamos uma forma para reaver as placas que estão com o Marquês.
Três meses mais tarde Justino, Bernardo e o Barão estavam livres. Tinham eliminado as duas únicas pessoas que sabiam dos seus envolvimentos no assassinato do Conde de Pau D’alho, porém existia um detalhe que eles nunca se deram conta; a maioria dos escravos quando não eram parentes eram amigos e confidentes. Não havia nada que fizessem ou sabiam que não trocassem informações. Com isso quase tudo que se passava no dia a dia da cidade para os escravos não era segredo, pois tomavam conhecimento, era essa a forma que eles encontraram para se defender. E o Amâncio não era diferente, através de seus irmãos de sofrimento também sabia de tudo sobre todos, além desses novos acontecimentos.
Para a sociedade todos os boatos tinham origem nas senzalas e corriam por toda cidade. Sendo que os últimos, cada vez mais aumentavam as suspeitas sobre essas últimas mortes, como tendo sido a mando do Barão da Serra Verde, do Tabelião Justino Fraga e do também Tabelião, Bernardo do Amaral.
*
A Condessa Carminda chamou as irmãs a sua casa e durante o chá conversava a respeito dos últimos boatos que corriam pela cidade.
- Estive conversando com o senhor Onofre, o novo comissário de polícia, e me pareceu ser um grande idiota, bem diferente do Agripino, aquela ave de rapina. Vocês acreditam que ele ainda não descobriu nada sobre esses últimos assassinatos.
- E nem vai descobrir, aliás, para mim eles tiveram o que mereceram. Você está preocupada em prender os responsáveis? Eu não. Quero sim é por as mãos nos diamantes. Eu não sossego enquanto não fizer isso - Prometeu Eugenia.
- Os boatos incriminam o Barão e o Justino, se são verdadeiros é contra eles que lutaremos. Se bem que não podemos nos esquecer que o Tabelião Bernardo também é citado nessa boataria. – Comentou a Sofia.
-Tenho minhas dúvidas. Vai ver ele não tem nada há ver com todas essas mortes. Disse Carminda.
- Se tiver nos descobrimos. O importante e seguirmos com os planos da Natália. – Lembrou Eugenia.
- Precisamos encontrar um meio de retirar a placa que está com o Barão sem ser preciso matá-lo. Caso seja necessária sua morte temos que fazer de um jeito que as suspeitas caiam em cima do Justino ou do Bernardo, mas como faremos? - Essa era a dúvida de Sofia.
- Acho que já sei.
- Então diga logo esse seu plano, Carminda. – Pediu Eugenia.
- Vou mandar um bilhete chamando o Bernardo e o Justino para um encontro como se fosse o Barão.
- Você deve estar ficando louca! Assim que eles se reunirem com o Barão descobrirão que foram usados. – alertou Sofia.
- Não tem problema que descubram que tenham sido enganados. O importante é que eles compareçam juntos, a casa do Barão para que possam ser incriminados. Depois que ele for visitado aí poderemos executar a segunda parte do plano.
- E como será essa segunda parte? – Quis saber Eugenia.
- Não irá acontecer nada de mais, nós três faremos uma visita a Eurídice. Irá conosco nossas quatro netas e as aias para cuidarem delas. Será um verdadeiro alvoroço na casa – Carminda explicou com detalhes.
- Para quem não queria mais a herança do bastardo, você está saindo melhor do que encomenda. Só espero que não seja tão desastroso como da primeira vez. – Lembrou Sofia.
- E o Barão, está esquecendo-se dele? – Perguntou Eugenia.
- Não se preocupe, iremos quando ele estiver para a fazenda e não sairemos do pomar que eles tem nos fundos, com desculpa do calor infernal. Como aquele local da casa sempre é mais fresco não será difícil convencer a Baronesa Eurídice a ficarmos por ali. Enquanto isso Cardoso pega a placa e o documento que com certeza está no escritório do Barão ou nos aposentos de dormir do casal. – Explicou Carminda.
- É a ideia parece boa, mas quando faremos essa visita? - Quis saber Sofia.
- Após a visita dos nossos queridos Tabeliães ao Barão, e tão logo o Cardoso nos avise que ele tenha viajado para a fazenda.
Todos os detalhes foram combinados e acertados entre as irmãs. Agora era só esperar o momento certo para agir.
O Barão foi avisado por Mirica, seu mordomo, de que Justino e Bernardo estavam na sala de espera o aguardando.
- Mas o que eles estão querendo?
- Não sei Barão. Disseram que o senhor os mandou chamar.
- Eu? Muito estranha essa visita! Mirica, eu não estou gostando nada disso fique atento.
- Estarei por perto senhor.
Sinval dirigiu-se para a sala e foi logo lançando a pergunta para sentir o verdadeiro motivo da visita.
- Mas a que devo a honra da visita de dois homens íntimos da lei.
- Nós é que perguntamos. Por que mandou nos chamar? Pretende também deixar pronto seu testamento?
- Gostaria de saber de onde foi que vocês tiraram essa ideia?
- Não vemos outra razão para nos mandar chamar.
- Mas eu não mandei chamá-los.
- Barão, nós recebemos esses recados onde nos convida a visitá-lo.
- Estão querendo nos incriminar. Precisamos ficar bem atentos, portanto vou aproveitar a ideia de vocês. Quero que divulguem que vieram para fazer meu testamento, assim não teremos nenhuma surpresa e quem os mandou vir a mim não entenderão nada. Fica combinado assim.
- Faremos como o senhor quer e ficaremos atentos.
Aquela visita deixou o Barão preocupado. Por essa razão resolveu ir à fazenda e trazer alguns homens para fazer sua segurança e da família.
Tudo aconteceu como o previsto pelas irmãs. O Barão viajou para a fazenda e as irmãs de Antenor não perderam tempo, naquela mesma tarde chegaram ao solar para visitar a Baronesa. Como elas haviam combinado conseguiram que todos permanecessem nos fundos do terreno conversando, deixando assim o caminho livre para o Cardoso entrar na casa as escondidas e executar seu serviço.
Para o escravo Cardoso estava em jogo não só o simples roubo de uma joia, mas a sua libertação do cativeiro, pois como ao escravo Tião, também lhe fora acenado a bandeira da liberdade e devido a essa possibilidade, nada o faria recuar.
Porém mais uma vez a situação fugiu ao controle. Parecia que aqueles diamantes eram malditos ou estavam amaldiçoados.
Cardoso entrou no solar e avistou o mordomo Mirica. Caminhou sorrateiramente até ele e com uma pancada forte em sua cabeça o deixou desacordado. Em seguida facilmente encontrou o escritório do Barão, o local onde estava guardado o documento e a placa com brilhantes. Rapidamente procurou pelas gavetas e logo encontrou o que procurava. Ao sair do aposento ouviu vozes e teve que retornar ao escritório para se esconder, pois a Baronesa Eurídice seguida por sua dona, a Condessa Carminda, estavam vindo em sua direção.
- Vou pegá-lo agora.
- Eurídice, não precisa se preocupar, outra hora você pega o perfume.
Carminda tentava dissuadir a Baronesa de ir ao seu quarto, pois sabia que naquele momento seu escravo estaria dentro da casa para executar o roubo.
- Não se preocupe Carminda, o perfume está aqui no escritório apanho num minuto. Depois eu posso esquecer e você acaba indo embora outra vez sem ele.
O escritório não era muito grande e não havia onde o Cardoso se esconder. Assim que Eurídice entrou no aposento deu de cara com ele. Espantada por não conhecê-lo, perguntou sem desconfiar de suas intenções.
- Quem é você e o que está fazendo aqui dentro?
Mas logo se deu conta que ele era um ladrão, pois viu em suas mãos o saco de veludo verde onde seu marido, o Barão guardava a joia. Não esperou que ele respondesse.
- Você está nos roubando!
Sem se dar conta de que o escravo era muito mais forte Eurídice tentou se agarrar com ele e aos berros chamava por Mirica seu mordomo para ajudá-la, sem saber que ele estava desacordado. Nessa hora a Condessa Carminda deu a ordem a seu escravo.
- Mate-a, Cardoso. Rápido, se não sermos descobertos.
A Baronesa ainda olhou espantada para Carminda, mas não teve tempo nem para dizer ai. Cardoso quebrou-lhe o pescoço, causando-lhe uma morte instantânea. Friamente Carminda mandou que ele fugisse.
- Vá embora rápido, que eu controlo a situação. Antes de uma pancada em minha cabeça. – Não muito forte. – Leva tudo lá para casa e tome cuidado para que ninguém o veja.
Carminda ao ver pela janela que seu escravo já estava na rua e ouvindo a correria dentro da casa jogou-se ao chão e fingiu estar desacordada devido à leve pancada que recebeu. Mal se jogara ao chão chegou ao escritório os escravos, suas irmãs com as netas e as filhas do Barão. A desgraça estava consumada, nada mais podia ser feito, a não ser chamar o comissário Onofre, para as investigações.
QUINTO CAPÍTULO
Chantagens e vinganças
O Barão foi avisado na fazenda do roubo em sua casa e da morte de sua esposa. Retornou rapidamente para o enterro, mas antes mandou chamar quatro matadores de sua confiança e se fez acompanhar por medida de segurança. Sendo sua esposa enterrada somente dois dias depois com a sua presença.
Sinval assim que retornou, antes mesmo de chegar à capela onde estava o corpo da sua esposa, a Baronesa, ficou sabendo que na hora que ocorreu o assalto em sua casa estavam presentes às irmãs de Antenor. Tal informação o levou a acreditar que elas estavam envolvidas, pois era muita coincidência só terem roubado a placa e o documento.
Após o enterro, Sinval reuniu-se com Juiz Cláudio Barbosa ainda dentro da igreja de São José.
- Juiz, quando fui convidado para participar daquela reunião com o seu amigo Antenor não imaginei que fosse fazer parte num futuro tão próximo de uma macabra situação.
- Não vejo nada de macabro.
- Como não? Tudo indica que por causa desse maldito documento e dessas placas, algumas pessoas não estão medindo esforço para roubar e se apropriar da fortuna maior. As informações que me chegam é de que já morreram contando com a minha mulher, oito pessoas.
- Se forem comprovadas que as mortes tem ligação entre si e com as placas aí sim passarei a pensar no macabro, mas até o momento não. Acredito mais ser uma coincidência o roubo das placas, do que algum plano elaborado para obtê-las, mas se ficar confirmado mandarei prender os envolvidos para serem julgados e condenados se for o caso.
- A verdade é que eu não vou ficar esperando que esse novo comissário de polícia apure os fatos. Ele até hoje ainda não foi falar comigo. Portanto eu mesmo vou tomar providencias e reaver a placa que me foi roubada. É o mínimo que devo fazer em memória da minha mulher.
- Cuidado para não se precipitar e cometer enganos.
Para o Barão essa recomendação do Juiz lhe pareceu ser uma espécie de carta branca para ele agir.
- Juiz, o senhor sabe muito bem que não sou homem de cometer enganos. Quando faço, faço bem feito.
Terminado o breve encontro com o Juiz, Sinval voltou para casa. Queria botar os pensamentos em ordem para poder agir corretamente. No dia seguinte resolveu fazer uma visita sem avisar a Condessa Carminda e tão logo chegou a sua residência nas Laranjeiras não esperou que fosse anunciado e entrou abruptamente.
- Quero que me perdoe por vir sem avisar, mas é muito importante o que quero saber.
Sua chegada inesperada pegou a Condessa desprevenida que não conseguiu disfarçar o nervosismo.
- Diga o que deseja senhor Barão, mas seja breve, ainda estou muito nervosa.
- Soube que a senhora estava presente na hora do assalto e que viu quem o praticou.
- Tudo o que sei já informei ao senhor Onofre.
- Quem é Onofre?
- Ainda não o conheceu? É o novo comissário de polícia.
- Não. Mas eu quero saber da senhora, pois pelo jeito esse comissário de polícia é muito lerdo.
- Foram dois homens negros, um deles me agarrou e me bateu na cabeça. Daí em diante eu não vi mais nada e quando acordei deparei com a Baronesa estendida no chão. Não imaginei naquele momento que ela estava morta, achei até que ela estivesse só desacordada. Foi uma tragédia, não gosto nem de lembrar. Eu também poderia estar morta.
- Seria capaz de reconhecer esses escravos?
- Lamento muito, mas nunca os vi por aqui, Barão.
- Muito obrigado, se caso a senhora lembrar-se de mais algum detalhe, por favor, não deixe de me informar.
Sinval despediu-se da Condessa levando consigo a certeza de que ela e suas irmãs estavam envolvidas no roubo e na morte de sua esposa. Sabia que ela mentira quando disse terem sido dois negros a realizar o assalto.
Voltou em casa para mudar de roupa. Tinha que se vestir de uma maneira mais humilde, pois o que iria fazer não podia ser reconhecido, e foi até a Taberna Central que funcionava na Rua da Vala, próximo da Igreja de São Benedito por dois motivos, um, que talvez escutasse nas conversas dos negros que ali frequentavam algum indício que o levasse ao assassino de sua mulher e o outro, sabia que o Tabelião Justino sempre passava por aquela taberna para tomar um vinho antes de ir para casa, assim poderia falar com ele sem chamar muita atenção.
O Barão procurou manter-se o mais discretamente possível no local para não chamar atenção. Durante o tempo em que ali ficou a espera de Justino, pode ouvir vários comentários a respeito dos últimos assassinatos ocorridos na cidade, afinal não se falava noutra coisa pela cidade. Comentários esses que ao final da sua investigação auditiva o levaram a conclusão que deveria eliminar não só as irmãs de Antenor, que foram as responsáveis pelo roubo e a morte de sua mulher, mas também ao Justino, pois descobrira que o mesmo também estava tentando por as mãos nas placas agindo às escondidas.
Tinha em mente como objetivo primeiro, reaver a placa que foi roubada da sua residência, depois que passasse um bom tempo eliminaria as três irmãs. Só não podia deixar transparecer alguma vingança pessoal. Quanto ao Justino, esse seria executado um pouco mais tarde para que não houvesse nenhuma suspeita e tampouco o ligasse aos assassinatos.
Tirando as informações conseguidas no local, que confirmaram suas suspeitas em relação ao roubo e o assassinato de sua esposa, a espera foi em vão, pois neste dia o Tabelião Justino por algum motivo não apareceu na taberna. Até achou melhor o não comparecimento, talvez não conseguisse disfarçar o que tinha em mente em relação a ele.
Voltando para casa encontrou-se no caminho com Dom Afonso, ocasião que também usou para lamentar os últimos acontecimentos.
- Que incumbência desagradável nos deixou nosso amigo Antenor?
- Nem tanto assim senhor Barão.
- Diz isso porque até agora não sofreu nenhum atentado, mas não se iluda. Estão tentando juntar todas as peças para se apoderar da fortuna que ele deixou.
- Não da para acreditar numa coisa dessas.
- Pois acredite, e digo que não medirão esforços para conseguir.
- Se acalme, que daqui alguns dias o comissário Onofre elucida os fatos e a lei se encarrega de punir os responsáveis. Tudo voltará ao normal, meu filho.
- Que Deus o ouça Eminência. Que Deus o ouça. Deixa-me ir, que preciso descansar.
- Vá em paz e entregue para Deus, breve tudo se esclarecerá.
O encontro com o Cardeal deixou o Barão mais resolvido a acabar de vez com os culpados. Chegando em casa conversou com seu mordomo.
- Sei que você já sabe quem entrou aqui, não adianta querer proteger esse seu irmão de cor.
- Desculpe, mas não sei do que o senhor está falando, Barão.
- Ora Mirica, hoje mesmo escutei lá taberna que quem entrou aqui foi um tal de Cardoso, escravo da Condessa Carminda. Não tenho mais nenhuma dúvida de que tudo foi arquitetado por aquelas malditas irmãs do Antenor.
- Eu não tenho saído à rua, por isso ainda não fiquei sabendo.
- E vocês precisam sair para saber do que está acontecendo? Não fique preocupado, você não é responsável pelos atos cometidos por seus irmãos de raça. Só acho que deveria ter me avisado quando ficou sabendo, mas deixa para lá.
- Barão, eu insisto em dizer eu não sabia, se soubesse teria lhe falado e talvez até feito alguma coisa na época por minha própria conta. O senhor bem sabe o quanto eu gostava da senhora Eurídice.
- Nesse caso vou lhe pedir um favor.
- Se eu souber como fazer, com certeza o atenderei.
- Sei que o Cardoso ganhou a liberdade porque roubou a placa de ouro e a entregou a Condessa Carminda. Agora só preciso ter a confirmação de que ele matou minha mulher porque a Condessa lhe ordenou.
- Para isso vou precisar de uns dias de folga para saber onde ele está e se ele estiver muito longe também vou precisar de dinheiro para ir ter com ele.
- Quanto a isso não há problema a partir de amanhã você está liberado e se precisar de dinheiro é só falar.
Uma semana mais tarde Mirica confirmava ao Barão que a placa estava com a Condessa e que tinha sido a mando dela que sua esposa foi morta. Com o conhecimento dessas informações Sinval procurou seu amigo Osvaldo Brandão, o Marques de Saquarema.
- Preciso da sua influencia junto ao Juiz para conseguir uma ordem de busca na casa da Condessa. Estou sabendo de que ela está com a placa roubada na minha casa.
- Tem certeza de que a placa está com ela?
- Certeza absoluta. O Mirica meu mordomo, falou com o Cardoso, que era o escravo da Condessa. Ele confirmou que ganhou a liberdade em troca do roubo da placa.
- Mas então quem matou a sua esposa foi ele!
- Certo e foi ela, a própria Condessa que ordenou que ele matasse minha mulher.
- Nesse caso não vejo razão para o Juiz Cláudio Barbosa recusar seu pedido.
O Marquês junto com Sinval visitaram o Juiz e conseguiram a autorização para a busca, entretanto quanto a prendê-la, só se realmente fosse encontrada a placa em seu poder, já pelo assassinato é necessária uma investigação mais profunda, pois era apenas a palavra de um escravo.
- Gostaria imensamente de já efetuar a prisão dela por uma ou outra acusação, mas vamos fazer como manda a lei. Ponderou o Marquês junto ao Juiz.
- Faça como determinei, o comissário Onofre assim que prender esse escravo começará com a investigação. É só uma questão de tempo por as mãos na Condessa.
- Está bem, vamos falar com o comissário de polícia agora. Apanharemos a placa e já a traremos presa. Depois é só ele localizar onde está o Cardoso e o prendemos também.
- Não se esqueçam que as prisões devem ser efetuadas pelo comissário. Eu sei o quanto o senhor é interessado em punir os culpados da morte da Baronesa, mas não vão tomar a lei em suas mãos e cometer outro crime.
De posse da ordem judicial, Sinval e o Marquês, acompanhados do comissário de polícia visitaram a Condessa. Recuperaram a placa, o documento que encontraram em sua residência e a prenderam por receptação de roubo. Faltava agora só prender o Cardoso, escravo que ela havia alforriado como recompensa pelo roubo e o executor do crime.
O Barão conseguira através dos caminhos legais recuperar a placa e prender a mandante de tudo, porém não estava saciado seu desejo de vingança. Pusera na cabeça que não descansaria enquanto não eliminasse as irmãs de Antenor, sem contar o traidor do Justino que vinha agindo às escondidas junto com o Tabelião Bernardo.
Fevereiro de 1825. Passado seis meses do indiciamento da Condessa ela continuava em liberdade e até aquela data seu ex-escravo não tinha sido encontrado. Naquela sexta-feira o Barão voltou à taberna da Rua da Vala para tentar descobrir ou escutar algo sobre o paradeiro do tal Cardoso. Já estava lá há algum tempo, quando por volta das quatro horas da tarde avistou entrando na velha taberna o tabelião Bernardo.
- Tabelião Bernardo do Amaral! Mais que surpresa encontrá-lo por aqui. Não sabia que também gostava de um bom vinho?
- Quem é que não gosta desse que é chamado de o néctar dos Deuses.
- É verdade. Desde o século XIII a.C. que o vinho é apreciado.
- Entretanto, hoje eu não vim aqui, só para beber.
- Não? O que mais?
Quis saber o Barão. Talvez com um pouco de vinho, quem sabe? Descobrisse mais alguma coisa com ele.
- Passei mais, para encomendar umas garrafas de vinho.
- Ah! Sempre é bom ter algumas em casa.
- Mas e o senhor? O que o trás aqui além do vinho, Barão?
- Estava à espera do Justino. Sei que ele costuma vir aqui. Mas o senhor? É realmente uma surpresa.
- As garrafas na verdade são para amanhã.
- Para amanhã? O que tem de tão especial assim.
- Amanhã 26 de fevereiro, é o dia do meu aniversário e pretendo comemorar com a presença dos amigos.
- Meu Deus! Ando com a cabeça tão quente que até me esqueci da data.
- Hoje mesmo pela manhã mandei entregar o convite em sua residência, não recebeu?
- Estou fora desde cedo, mas pode estar certo de que comparecerei. Mas afora as festividades, precisamos conversar Bernardo.
- Podemos deixar marcado para depois de amanhã esse encontro, Barão?
- No domingo?
- Tem algum problema por ser domingo?
- Não, de forma alguma!
- Onde prefere o encontro, Barão?
- Diga o local e eu comparecerei.
- Que seja então lá em casa mesmo, está bem assim?
- Estarei lá por volta das quatro horas da tarde.
- Então fica combinado, Barão.
Esse encontro que teria com o Barão deixou Bernardo intrigado. Qual seria o assunto que ele queria tratar? Com certeza não era sobre testamento nem a venda de alguma propriedade. Resolveu não pensar mais e aguardar a visita dele.
No domingo na hora marcada lá estava o Barão para seu encontro com Bernardo.
- Queira sentar-se Barão. Aceita um vinho?
- Aceito, obrigado.
Bernardo mandou Jesuíno, seu mordomo, preparar os cálices e os servisse.
- Confesso que seu pedido para esse encontro me deixou curioso. O que deseja realmente?
O Barão sem nenhum rodeio foi direto ao assunto, deixando Bernardo embaraçado.
- Quero assaltar a casa do Marquês e eliminar as irmãs do Antenor.
- Como? – Bernardo quase se engasgou.
- Isso mesmo que você ouviu. Quero matá-las, é o mínimo que posso fazer para vingar minha mulher.
- E o que o faz pensar que eu posso ajudá-lo.
- Sei que você tem conhecimento e acesso a alguns presos que fariam qualquer serviço em troca da liberdade.
- É verdade que conheço, mas esses homens não são assassinos e por que eu deveria me envolver nesses crimes?
- Por que sei do seu envolvimento no assassinato do Conde de Pau D’alho.
- Mesmo que eu resolva ajudar, não conseguirei fazer com que eles as matem.
- Não quero que esses homens façam esse serviço.
- Não? E o que eles vão fazer então?
- Quero que você contrate algum deles para assaltar a casa do Marquês.
- Só isso?
- Não. Essa operação deverá ser realizada duas vezes.
- Como assim?
- Serão dois assaltos, um nesta semana e o outro na semana seguinte. Você consegue isso?
- O que eles tem que roubar?
- Qualquer coisa, eu não quero nada do assalto. Só quero que assaltem. O produto do roubo será deles como forma de pagamento, além da liberdade é claro.
- E quando elas morrem?
- Isso é por minha conta. Você ainda não me respondeu. Vai conseguir os homens para fazer o assalto?
- Pode contar. O primeiro será feito nesta quarta-feira e o outro na próxima segunda-feira.
- Então está combinado. Agora preciso ir.
- Quando nos veremos?
- No final do mês que vem é o aniversario da Condessa Carminda. Com certeza ela fará uma recepção para comemorar seus oitenta anos e reunirá os amigos. Estaremos lá.
- O senhor foi convidado? Irá a esse aniversário?
- Sem dúvida. Fui convidado e não deixarei de ir.
- Mas vocês não se tornaram inimigos?
- Coisas do passado. Afinal são oitenta anos. Ela merece uma bela recepção.
Sinval dando continuidade aos seus planos viajou para sua fazenda na terça-feira. Antes, porém tomou o cuidado de visitar o Juiz Cláudio, o Marquês, e o Cardeal Afonso, ocasião que aproveitou para convidá-los a passar uns dias com ele na fazenda, alegando estar se sentindo muito só ultimamente. Os três agradeceram e até se mostraram interessados, mas os compromissos que tinham os impediam de viajar naquele momento. O Barão retornou ao Rio de Janeiro três semanas mais tarde e acompanhado do Maguito.
Tão logo chegou a sua chácara recebeu a visita do Marquês e do comissário de polícia Onofre.
- A que devo a honra? Essa visita não deve trazer boas notícias. Estou certo?
- Infelizmente está. – Respondeu o comissário.
- Mas não se preocupe. Não é nada de tão grave. – Amenizou o Marquês.
- O que está acontecendo? Fala logo e deixa de suspense, Osvaldo.
- Enquanto você esteve fora, minha residência foi assaltada duas vezes.
- Meu Deus! Duas vezes? – O Barão fingiu estar pensando e perguntou:
- Quem morreu dessa vez?
- Ninguém, só roubaram algumas peças de valor, não muita coisa. – Disse o comissário.
- Roubaram a placa? – Perguntou para o Marquês.
- Também não, elas estão bem guardadas.
- Quando isso vai parar? – Sinval voltou a fingir. – Você disse, elas?
- Sim. O Almir me vendeu a que estava em poder o Conde, logo assim que seu pai morreu.
- Nesse caso temos o suspeito. Alias as suspeitas.
- Também pensei nelas. – respondeu Osvaldo – Mas isso é trabalho para o nosso comissário.
- Só estamos aqui para alertá-lo a tomar cuidado, por essas placas são capazes de tudo, até matar. – Concluiu o Comissário Onofre.
- Depois que minha mulher morreu por causa dessas malditas placas, passei a me cuidar.
- Eu também, de agora em diante manterei sempre uma segurança em torno de minha família.
- Não nos resta outra coisa. Foi isso que o nosso amigo Antenor nos arrumou. Se arrependimento matasse acho que eu já tinha morrido. – Fingiu outra vez.
Conversaram por mais alguns instantes e foram embora.
- Mirica. – Gritou Sinval chamando seu mordomo.
- Pois não senhor?
- Vá agora até a estalagem e avisa ao Maguito para estar hoje aqui por volta da meia noite. Não se esqueça de recomendá-lo para que tome cuidado. Não quero que seja visto. Vá agora.
A meia noite Maguito chegou. O Barão dispensou seu mordomo mandando que ele fosse dormir. Sinval acertou todos os detalhes do assassinato, com o capitão do mato. Seria no domingo dia 27 após o almoço, na festa do aniversário da Baronesa Eugenia, que as três irmãs do Antenor, seriam executadas.
Mirica não foi dormir – como determinou seu patrão – e ficou escutando toda a conversa. Ficou feliz em saber da decisão do Barão. Ele gostava muito da Baronesa Eurídice e achou justa a vingança, mas achou desnecessária a morte de tanta gente, bastava a da Condessa Carminda. Só não contava que o Barão o tivesse visto espreitando.
Na manhã seguinte bem cedo, Mirica preocupado, foi até a casa do Tabelião Bernardo, falar com seu amigo Jesuíno. Contou dos planos do Barão.
- Jesuíno, eu não posso ir até a casa da Baronesa Carminda.
- O que você quer que eu faça?
- Vá lá avisar ao meu irmão.
- Quem é o seu irmão? Eu não o conheço.
- É o Mirinho. Manda-o ficar bem a vista do Marquês de Saquarema para não ser acusado das mortes. Lembra a ele que terão negros encapuzados a serviço do Barão.
- Fica calmo que eu vou falar com ele hoje mesmo.
Mirica retornou rapidamente para que o Barão não desse por sua falta. Os dias que se seguiram, para ele foram tensos. Sabia que muita gente ia morrer e isso o deixava preocupado por não poder fazer nada.
O domingo amanhecera muito bonito. Logo pela manhã a movimentação no solar da Condessa com os preparativos para a festa era intensa. As irmãs não querendo de forma alguma deixar transparecer que não eram mais tão poderosas, programaram a recepção para 300 pessoas que seria realizada ali mesmo no jardim do solar. Os empregados desde cedo se desdobravam para acomodar as cinquenta mesas com capacidade para seis lugares pelo local. Por volta das onze horas a Condessa ordenou que ornamentassem as mesas.
O banquete começaria às 13h00 e estava previsto terminar às 16h30. O cardápio, obviamente escrito em francês, tinha pastéis de foie gras, consommé Royal, purée de choux-fleurs à la crème, garoupa cozida à la chambord, pato selvagem em aspic, filet à la Richelieu e doces variados, bem como vinhos e licores finos.
Às 12h30 não tinha mais lugar na Rua das Laranjeiras próximo do solar. Os convidados eram obrigados a parar suas carruagens mais afastadas e ir andando até o local.
O almoço estava impecável e transcorria tranquilo até o momento em que os convidados avistaram oito homens – a maioria eram negros – fantasiados de carrasco, caminhando entre as mesas. A impressão que deu é que eles fariam alguma representação em homenagem a aniversariante. As irmãs ocupavam uma das mesas com seus maridos bem ao centro. Para este local se dirigiram cinco deles e os outros três pararam em frente à mesa onde estavam sentados o Barão da Serra Verde, os tabeliães Justino Caldeira Fraga e Bernardo do Amaral. Nesse momento para espanto dos convidados aqueles carrascos executaram as três irmãs, os dois tabeliães e um dos empregados, fugindo em seguida. Deixaram no local, além dos seis mortos, nove convidados feridos, entre eles o Barão da Serra Verde e o comissário de polícia Onofre, este gravemente.
O pânico instalado no local facilitou a fuga dos assassinos não podendo com isso que eles fossem pegos e muito menos identificados.
Estava consumada a vingança do Barão. Nenhuma suspeita pairava sobre a sua pessoa, entretanto tudo caminhava dentro do que planejara e as investigações apontavam para o Marquês de Saquarema como tendo sido o mandante daquela carnificina.
Com a Constituição de 1824, aparece a figura do Procurador da Coroa, encarregado de acusar no juízo dos crimes. A partir daí o Marques de Saquarema, com seu prestígio, pode pedir ao Procurador que intimasse o Intendente Geral de Polícia a realizar novas investigações, para se apurar os verdadeiros culpados de todos aqueles antigos crimes ocorridos quase que em série e arquivados. Sem contar os seis últimos, onde ele inclusive era tido como o principal suspeito de mandar matar as irmãs de Antenor.
As investigações se arrastavam e isso aborrecia ao Marquês, porém graças à coragem do escravo Jesuíno tudo foi esclarecido. Com medo de que o Barão descobrisse que ele também sabia do crime, resolveu procurar o Marquês.
- Senhor Osvaldo. Está aí no portão um escravo querendo ser recebido. Posso mandar entrar?
- Você o conhece?
- Sim. Seu nome é Jesuíno. Era empregado do Tabelião, o senhor Bernardo do Amaral. Parece muito nervoso.
- Deixa-o entrar.
Jesuíno tremia como vara verde de tanto medo que sentia.
- Qual a razão de vir até aqui e porque está assim tão nervoso.
- Preciso muito que senhor me ajude e proteja.
- Fala e eu vejo o que posso fazer.
- Vou lhe contar tudo o que sei: Tempos atrás eu fui procurado pelo escravo Mirica. O senhor sabe quem é ele?
- Claro que sei. É o mordomo do Barão da Serra Verde.
- Isso mesmo. Ele me procurou bem cedo, porque estava apavorado com o que havia escutado na noite anterior.
- E o que ele escutou na noite anterior que pudesse lhe interessar?
- Não interessava a mim. Ele estava preocupado com a segurança do seu irmão Mirinho, um dos escravos da casa da Baronesa Carminda.
- Mas por que essa preocupação?
- Ele escutou quando o Barão acertava a morte das irmãs e do Tabelião Justino com seu capitão do mato o Maguito.
- Por que você não contou para seu patrão ou a polícia?
- Nada tinha acontecido o crime. Quem iria dar crédito a um escravo. Não se esqueça que a escrava da Baronesa procurou o delegado Agripino para fazer várias denúncias de assassinato e foi morta.
- E por que você está me contando isso agora.
- Eu sabia quem ia morrer. Seria somente o Justino e as irmãs, mas naquele dia também morreram meu patrão e o Mirinho. Lembra?
- Isso todo mundo sabe.
- O que o senhor não sabe é que naquele dia eu estava tomando conta da carruagem do meu patrão e vi os assassinos fugindo. Eu os segui de longe e vi quando entraram na casa do Barão e mataram também o Mirica.
- Eu não sabia disso. O Barão falou que seu mordomo estava muito doente e ele o mandou para fazenda descansar.
- Por isso eu desconfiei que o Barão soubesse de tudo e me escondi para não ser morto também. Então, o senhor vai me ajudar?
- Claro. Hoje mesmo vou falar com o Procurador da Coroa. Enquanto não se esclarecer tudo, você vai ficar aqui em casa sob minha proteção. Fica tranquilo.
Dois anos após dessa denúncia, tudo tinha terminado. Foram identificados todos os mandantes e responsáveis pelos primeiros crimes, só não podendo ser condenados por estarem mortos. Quanto ao Barão da Serra Verde e seu capangas foram julgados e condenados.
Com a condenação do senhor Sinval o juiz Cláudio Barbosa determinou que o documento e placa que estavam sob a guarda do Barão fossem entregues ao Marquês de Saquarema. O desvendamento dos crimes mais as medidas punitivas aplicadas ao mandante e executores, fizeram com que as investidas de roubar a fortuna em diamantes deixada por Antenor, parassem por um tempo.
A Loja Maçônica “Comércio e Artes na Idade do Ouro” foi reativada em 1830 pelo Cônego Januário, entretanto devido a alguns desentendimentos não foi possível nesta época fazer a entrega da chave e do documento original deixado por Antenor ao novo Grão Mestre. Só sendo realizado após o dia 24 de junho 1831, quando definitivamente foi instalada a Loja Grande Oriente Brasileiro. Sendo que neste mesmo dia em sessão memorável resolve criar mais duas Lojas pelo desdobramento de seu quadro de Obreiros, através de sorteio, ressurgindo assim as Lojas “Esperança de Niterói” e “União e Tranquilidade” que só passariam a funcionar em outubro de 1831.
O ano de 1831 foi marcado por novas mudanças, e como sempre lá estava o Marquês de Saquarema, velho fiel amigo de Antenor, o grande defensor da sua vontade e principal responsável em manter as placas, chaves e documentos em segurança. Até esta data as duas chaves estavam sob a proteção da igreja, porém a morte repentina de Dom Afonso em junho obrigou a interferência do Marques para regularizar essa situação e não deixar que se perdesse no tempo à vontade do seu amigo.
Um mês mais tarde foi designado para o lugar de Dom Afonso, o Cardeal Hernâni Araújo Morais de Castro Silva, conhecido como Dom Hernâni. Logo após as solenidades de sua posse na Arquidiocese do Rio, o Marques de Saquarema solicitou-lhe uma audiência para que pudessem tratar da segurança e continuidade da herança deixada por Antenor.
- Muito obrigado por me receber, Eminência.
- Não tem porque agradecer. Será sempre um prazer receber proeminente visita.
- Me sentiria bem mais à vontade com um tratamento simples e informal.
- Como queira senhor Osvaldo.
- Assim está bem melhor.
- Mais o que o senhor deseja?
- Creio que Dom Afonso deva ter-lhe posto a par da vontade – quando em vida – do senhor Antenor e da incumbência que o mesmo nos designou.
- Infelizmente não tivemos tempo de conversar, mas sendo algo oficial deve estar registrado. Entretanto para que não percamos tempo procurando nos arquivos e se o senhor tem conhecimento do assunto basta-me dizer que tomarei as devidas providencias.
Nos momentos seguintes o Marquês colocou o Cardeal a par do que foi à vontade do Antenor ficando acertado que no dia seguinte a segunda chave com o respectivo documento original seria entregue ao novo Grão Mestre, senhor Cândido Luiz Vilela Tavares, o Visconde da Torre.
- Senhor Osvaldo, então nos encontramos amanhã na loja?
- Perfeito. Vou providenciar nosso encontro com o Venerável e mando lhe informar a hora.
- Combinado.
A nova loja ficou conhecida pelo nome Grande Oriente do Passeio e ao novo Grão Mestre foi entregue o documento original e uma das chaves em solenidade realizada à noite naquela quinta-feira, dia 30 de junho de 1831.
*
SEXTO CAPÍTULO
Ressurgindo a ambição
Trinta anos mais tarde, 1854. Osvaldo Brandão Junior da Costa Cabral, atual Marques de Saquarema conversava com seu filho mais novo de dez anos, na biblioteca.
- O que você está fazendo agarrado nessa papelada há tanto tempo, meu filho?
- Estou lendo as histórias que o senhor me contou sobre o vovô e seus amigos.
- Cuidado para não estragar e nem tirar da ordem esse escritos.
- Pai... – o menino curioso perguntou – esses 50.000$ contos é muito dinheiro?
- Muito.
- O senhor ainda não escreveu nada sobre essa tal herança do Antenor.
- Graças a Deus não. Escrever sobre isso e sinônimo de desgraça.
- O senhor não está exagerando?
- Você acaba de ler as anotações do seu avo. Acha mesmo que eu estou exagerando.
- É verdade, mas parece que os ânimos acalmaram ou esqueceram-se dos diamantes.
- Queira Deus, meu filho.
- Pai! Essas placas e os documentos ainda estão guardados aqui em casa.
- Não. Achei melhor colocar no cofre do Banco do Brasil. Está bem mais seguro lá.
- O senhor acha que eles vão tentar roubar as placas?
- O melhor é estar sempre prevenido e não nos descuidarmos nunca.
- Nós vamos viver com todos esses seguranças até quando?
- Até o dia que entregarmos a herança ao favorecido.
- Mas isso vai ser só daqui a cem anos ou mais.
- Não tem problema. O senhor Antenor era o grande amigo do seu avo. Consta que certa vez ele protegeu e ajudou financeiramente nossa família a sair da falência e não quis receber nada em troca. Nem mesmo o dinheiro que nos emprestou, e fique sabendo que foi uma verdadeira fortuna. Portanto, tudo que fizermos para proteger sua vontade será pouco e estaremos honrando o compromisso que seu avo assumiu.
Ao mesmo tempo desta conversa, uma outra também era travada entre os quatro netos das irmãs de Antenor. Agora não mais se tratava de uma questão racial contra seus meios parentes, mas sim da própria sobrevivência. Enquanto a família do Antenor ficava mais rica eles ficavam cada vez mais pobres. Precisavam se apoderar a qualquer custo da herança guardada do seu tio-avô.
- Até quando nós ficaremos de braços cruzados vendo a nossa ruína. – Reclamou Romeu o mais novo.
- Eu conversei com o Amadeu, neto do Barão da Vila Verde, e ele me colocou a par de tudo o que aconteceu naquele dia. Eles também acham que tem direitos, não na herança, mas segundo ele, o Antenor acertou que as placas, que valem uma fortuna, ficariam para quem a tivesse guardando. Acontece que uma delas foi tirada da guarda da sua família e a outra foi comprada do Conde do Pau D’Alho, com isso agora todas se encontram com o Marquês de Saquarema.
- Então é mais fácil do que pensei. De uma só vez conseguimos três placas. – Afiançou Altair.
- Vocês devem estar ficando loucos. – Advertiu Juvenal outro dos irmãos não muito interessado na fortuna. – Para nos apoderarmos desses malditos diamantes teremos que enfrentar a igreja, a maçonaria, o Procurador da Coroa e depois roubar as placas com os segredos que estão com o Marquês.
- Esqueceu que sou maçom. Eu me encarrego de pegar a chave e o documento que estão lá no cofre da loja. O Grão Mestre Oduvaldo além de desligado não dá muita importância ao capricho do senhor Antenor. – Garantiu Genésio, o irmão mais velho.
- Lá na Diocese é complicado, mas talvez eu possa pegar. – Romeu se comprometeu – Com esse novo Cardeal sendo um mulherengo, fica fácil. Só teremos que dar um bom agrado para a mademoiselle Gisele. O difícil será pegar o documento que está com o Juiz Afrânio.
- Bem então só nos resta agir. – Incentivou Altair.
A partir daí passaram a viver em função de reaver as placas, chaves e documentos. Todavia, o tempo passava e o que parecia ser fácil, complicou. A mademoiselle jogava seu charme para o Cardeal Ortega, mas não conseguia convencê-lo a recebê-la na Diocese, só se encontrando no bordel. E o que tudo indicava ela não conseguiria a não ser que a amante dele morresse. Crime que os irmãos não queria que acontecesse, a experiência vivida por suas avós os desencorajavam. Estavam decididos a obter as peças somente através de roubo.
Há sete anos tentavam e ainda não tinham conseguido nada. Por essa razão resolveram arriscar um pouco mais.
- Não podemos mais ficar esperando por Gisele. O melhor que temos a fazer é desacreditar a amante do Cardeal com ele ou tirar o Cardeal de circulação por alguns momentos para podermos roubá-lo. – Determinou Altair.
- E como faremos isso podemos saber? – Perguntou Romeu.
- Tenho um amigo farmacêutico que trabalha lá no Instituto. Estou vendo se consigo, com ele, um sonífero para usar em nosso favor.
- Como irá nocautear o Cardeal e a amante dele? – Quis saber o Genésio.
- Sabemos que toda quarta-feira ele se encontra com a Gisele. Encontramos um jeito de colocar os soníferos nas bebidas deles. Enquanto isso o Romeu também dopa a amante dele lá na diocese e faz o serviço.
Na semana seguinte eles conseguiram se apossar da chave e do documento.
Durante 30 anos funcionaram no Rio de Janeiro dois Grandes Orientes, até que em 1861 o Grande Oriente do Passeio deixou de existir, sendo suas Lojas absorvidas pelo Grande Oriente do Brasil. Nessa ocasião devido às mudanças, Genésio conseguiu roubar a chave e o documento.
Ortega e Oduvaldo procuraram o Marquês, logo que deram falta das chaves, para colocá-lo a par do desaparecimento dos documentos e das chaves.
- As duas? – Perguntou o Marquês.
- Sim senhor Osvaldo, as duas. Acreditamos que voltaram a tentar se apoderar da herança, por isso resolvemos alertá-lo. – Comentou o Cardeal Ortega.
- Mas quem estará por traz de tudo isso?
- Ainda não sabemos, mas estamos investigando. A princípio desconfiamos do Romeu e do Genésio.
- Os netos das irmãs do senhor Antenor?
- Eles mesmos. É claro que tiveram ajuda de mais alguém, mas vamos descobrir, é só uma questão de tempo. – Garantiu o senhor Oduvaldo.
Com o cerco das investigações, começa o desentendimento entre os irmãos. O primeiro ocorreu quando Altair foi preso em flagrante, pela a segurança do Marquês, quando tentava assaltar sua residência. O segundo acontece devido à briga sobre a posse e guarda das chaves entre Romeu e Genésio, que resulta na morte de Romeu. Após as desavenças, Juvenal que já não era muito a favor de se apoderar da herança, rouba a chaves de seu irmão Genésio e as entrega ao Marquês. Novamente tudo volta a seguir a vontade e determinação de Antenor, graças ao senhor Osvaldo Brandão Junior que aconselhou ao Grão Mestre Oduvaldo e ao Cardeal Ortega a colocarem as chaves guardadas separadamente em um cofre no Banco do Brasil.
A família do Conde de Meringuava desde 1854 mantinha modestos investimentos em diversas áreas. A partir de 1860 com a descoberta das fabulosas jazidas de diamantes na África do Sul, afastou-se definitivamente deste comércio dedicando-se junto com um grupo que apoiava o Barão de Mauá, a investir maciçamente na fábrica de navios em Niterói e no banco Mauá. Entretanto suas ideias abolicionistas e sendo contrário à Guerra do Paraguai torna-se pessoa não grata no Império. Suas fábricas passam a ser alvo de sabotagens criminosas e seus negócios são abalados pela legislação que sobre taxava as importações. Em 1875, com a crise na Praça do Comércio, o Banco Mauá vai à falência e é obrigado a vender a maioria de suas empresas a capitalistas estrangeiros e tudo o mais que tem, para pagar as dívidas e deixar seu nome limpo.
Logo após esses acontecimentos o Marquês de Saquarema sofreu um atentado. Estava em viagem para sua fazenda em Valença quando tentaram alvejá-lo, escapando por pouco. Já na fazenda recebeu um recado ameaçador.
No bilhete estava escrito:
“Libere as placas que estão no Banco que mandaremos pegar com o gerente. Caso contrário vamos pegar seu filho e só o devolveremos mediante a troca com as placas”.
Com o atentado e a ameaça o Marques reforçou a segurança da família. Seis meses depois faleceu. Osvaldo Brandão II assumiu a responsabilidade da guarda das placas e dos documentos, mantendo tudo depositado como seu pai determinara.
Dias mais tarde foi procurado por Dom Ortega e pelo senhor Oduvaldo, com o propósito de uma consulta.
- Senhor Osvaldo o que nos trás aqui é devido a uma preocupante dúvida, que talvez o senhor possa nos esclarecer.
- Fale Dom Ortega. O que os está preocupando?
- Bem, como o senhor também deve saber, o Conde de Meringuava, neto do senhor Antenor perdeu todos seus bens por conta da atual situação.
- Estou sabendo sim. Ele vendeu tudo para pagar as dívidas.
- Então, nós achamos. Não seria o caso de entregarmos os documentos, placas e chaves a ele, para que possa tomar posse da herança que o avo está deixando.
- Eu sei o que vocês estão sentindo, eu também sinto o mesmo, que é uma vontade enorme de ajudá-lo, porém não posso fazê-lo.
- Não? E por quê? – Indagou o senhor Oduvaldo.
- Por favor, me aguardem um estante...
Foi até uma estante e pegou uns papéis manuscritos.
-... Veja isso meu avo e meu pai ao longo desses anos vem fazendo o registro de tudo que ocorreu desde aquela época. O senhor Antenor já previa que isso poderia acontecer e sendo amigo íntimo do Marquês ele o encarregou de fazer cumprir sua vontade. Como os senhores podem ver, ele deixou claro que essa quantia só poderia ser entregue ao seu descendente da sexta geração, acontecesse o que acontecesse. Sendo assim, mesmo eu sentindo muito, sou obrigado a respeitar sua vontade.
- E é o que faremos também. – Sentenciou o Cardeal.
- Obrigado. Por nos tirar essa preocupação.
- É por razões como esta que meu avo, o velho e sábio Marquês, mandou que registrássemos tudo.
- O senhor também registra tudo?
- Com certeza, não só como nossa garantia, mas como uma espécie de contas a ser apresentado ao futuro herdeiro.
- Então pelo visto passaremos a fazer parte desta história.
- Sem sombra de dúvidas.
No ano de 1880 uma nova investida foi tentada contra a família do Marquês. Tinha nascido mais um Osvaldo Brandão e para ajudar nas tarefas foi contratada a Zulmira. Esta nova babá foi posta na residência sob a influência do velho Amadeu, neto do Conde de Pau D’Alho, que ainda tinha esperança de pelo menos reaver uma das placas, mas desistiu de tentar roubá-la quando teve a confirmação de que a mesma estava guardada em um cofre no Banco do Brasil.
*
SÉTIMO CAPÍTULO
O desaparecimento da família
Henrique continuava ávido em sua leitura, queria acabar o mais rápido e compreender tudo o que estava acontecendo. Essa parte dos escritos já era feita pelo senhor Osvaldo Brandão IV.
Assim como os descendentes do Marquês de Saquarema, as gerações seguintes de todos os envolvidos na saga do senhor Antenor também continuavam a existir e por essa razão o perigo continuava a rondar aqueles que eram responsáveis em fazer valer sua vontade.
A família do Marquês resolveu com a queda do Império se mudar definitivamente para a cidade de Valença. Duas eram as razões para tal decisão; ficar mais próxima à fazenda e dificultar as investidas daqueles que ainda tinham esperança em se apoderar das peças que dão acesso a grande fortuna.
Quarta feira sete de setembro de 1910. Nasce o tataraneto do velho Marquês e por uma coincidência nesse mesmo dia, também nasce Carlos Alberto o tataraneto do senhor Antenor e primeiro filho de Afonso Tavares Bernardes de Oliveira com a senhora Margareth.
O então Marquês, senhor Osvaldo Brandão III acabava de chegar à loja maçônica, vindo do hospital onde nascera seu filho.
- Qual o nome que vai dar a esse garotão, Marquês. – Perguntou-lhe o 1º Vigilante doutor Eudes de Oliveira Bitencourt.
- Não sou Marquês. Além de estarmos vivendo uma república o título se perdeu nos anos.
- Tornou-se hábito esse tratamento, Osvaldo. Passarão duzentos anos e o título de Marquês acompanhará sua família, assim como todos os demais títulos não serão esquecidos, mesmo o Imperador tendo desautorizado seu uso após a segunda geração.
- Bem. Mantendo a tradição ele também vai se chamar Osvaldo Brandão acrescido do IV em homenagem ao Marquês e o nome de família, da Costa Cabral.
- Como estão passando dona Eunice e o menino?
- Maravilhosamente bem. O hospital São Francisco de Paula é muito bem aparelhado e todas as freiras são muito atenciosas com ela e o meu filho, graça a Deus.
- Pretende retornar para sua casa em Valença quando?
- Tão logo o doutor Dionísio Vasconcelos de alta a minha mulher. Mas voltaremos primeiro para a fazenda, pois lá ela se recuperará melhor.
Enquanto isso não muito longe dali os Bernardes de Oliveira conversavam.
- Afonso, então a partir de agora com o nascimento do Carlinhos, a família toma posse da tão cobiçada fortuna do biso. – Comentava Eulália, a tri neta de Antenor.
- Infelizmente ainda não. A herança não é para o meu filho, mas sim para o meu neto. Teremos que esperar mais sessenta anos.
- Como assim?
- Segundo consta na documentação, nosso bisavô só autoriza a entrega em 1971. Ano que completa os cento e cinquenta anos.
- E vamos ficar esperando até lá?
- Por mim iremos esperar. Não pretendo fazer nada para reaver esse dinheiro. Mesmo necessitando muito dele.
- Porque você não conversa com o senhor Osvaldo?
- Não é da vontade dele, se apoderar desses diamantes. Ele só está cumprindo as determinações do documento que expressa à vontade do Antenor.
- Afinal, vocês não são irmãos? Ou essa irmandade é só da boca para fora dentro Maçonaria?
- Eu sei que é difícil para você entender, mas não é assim que funciona. Não podemos fazer nada.
- Claro podemos. Precisamos tentar.
- Todas as vezes que tentaram só houve mortes e prisão. O melhor é nos conformarmos e esperar.
- Enquanto isso, nós continuamos vivendo aqui nessa miséria. Por que os nossos parentes lá da Europa vão continuar nos ignorando.
- Nada pode ser feito. Esquece isso.
Assim Afonso encerrou a questão com a sua irmã Eulália. Dois meses mais tarde partia para Porto Velho, tinha sido contratado para trabalhar como técnico na construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré. Vindo a contrair febre amarela e falecer em junho 1911 deixando sua esposa Margareth e o filho Carlos Alberto numa situação muito difícil, embora não tenha ficado totalmente desamparada.
Margareth criou o seu único filho com alguma dificuldade, mas com a ajuda do velho amigo Osvaldo Brandão III, conseguiu formá-lo oficial na Escola Militar de Realengo.
Carlos Alberto estava com trinta anos quando se casou com Esmeralda, uma linda mulata filha de criação do senhor Osvaldo Brandão III, que logo engravidou e no dia 14 de junho de 1942 dava início à sexta geração dos Bernardes Fernandes, nascia seu filho Pedro Henrique, o quinto neto da geração de Antenor e tão aguardado herdeiro dos diamantes.
Nesse mesmo ano, com a entrada do Brasil na guerra contra os países do eixo, Carlos Alberto é obrigado a viajar para a Europa. Lá passou a fazer parte no front e morre em Montese no dia 14 de Abril de 1945. No final desse mesmo ano a senhora Esmeralda falece, vítima de uma tuberculose mal curada. A partir daí o menino Pedro Henrique, então com três anos, não tendo parentes próximos ficou sob a custódia do Exercito Brasileiro passando a viver e educado no Mosteiro de São Bento. O menino Pedro Henrique chegou a ser nessa época sequestrado e ficou em poder de seus sequestradores quase dois meses. Sua liberdade foi conquistada com a ajuda de oficiais do serviço especial do Exército e agentes secretos ligados a Igreja. A partir de então transferiram o menino para uma diocese e o mantiveram incógnito para o mundo exterior.
Eu e meu pai, Osvaldo Brandão III, depois desse sequestro tentamos ficar com a guarda da criança e acompanhar a educação de Pedro Henrique, mas vimo-nos afastado do menino pela igreja, não entendendo o porquê dessa atitude. Nos anos seguintes por quatro vezes escapamos de atentados que deixaram claro ter a intenção de se apoderarem das placas. Inclusive um assalto a agencia do banco onde elas se encontravam foi praticado e quase conseguiram pegar o cofre. Mais tarde, durante a revolução de 64 fui procurado por homens se dizendo oficiais do exército que queriam saber onde estavam as placas e as chaves que davam acesso aos diamantes e se ainda estavam em lugar seguro. Minha integridade física só foi preservada por ser o renomado Professor do Instituto Militar de Engenharia e ser um membro influente da Maçonaria nessa época.
*
ANTEPENÚLTIMO CAPÍTULO
O documento e as surpresas
Tinha passado seis horas desde que começou a ler as anotações e ele nem notara. Só se deu conta do tempo, quando ouviu a voz do Marquês de Saquarema que retornara a biblioteca.
- Henrique. Gostaria de tomar um banho antes da refeição?
- Sim, eu estou precisando realmente.
- Eu mandei servir o jantar às vinte horas. Está bem assim?
- Está ótimo. Mais quinze minutos termino com a leitura e tomarei esse banho.
E assim fez, Henrique terminou de ler tomou seu banho e o jantar foi servido.
Os cincos estavam reunidos à volta da enorme mesa de jantar e conversavam descontraidamente sob os mais variados assuntos, coisa que há algum tempo não acontecia. Com a presença deles, a casa voltou a ter mais vida para alegria dos mais velhos: - Principalmente Osvaldo e Petrônio, já a senhora Valquíria nem tanto.
Logo após terem encerrado o jantar o senhor Osvaldo dirigindo-se para a biblioteca voltou a tocar no assunto que trouxera Pedro Henrique até ali.
- Bem, então já posso lhe entregar os documentos referentes à herança. – Dizendo isso o senhor Osvaldo apanhou uma pasta em cima da sua mesa de trabalho, que ficava próxima ao cofre. – Aqui dentro, está a documentação que diz o que lhe pertence e onde se encontra guardado. Se você ainda tem alguma dúvida, pode deixar de tê-la, agora. Confira. Verá que realmente é um homem rico.
- Senhor Osvaldo, mesmo que não exista nada a minha espera no final de tudo isso, eu posso lhe garantir sem medo de errar, que o livro que escreverei com essa história me dará tanto dinheiro, que não ficarei aborrecido se não houver nenhuma herança.
- Então meu rapaz você ficará duplamente rico, pois tenho certeza que a herança existe.
Henrique olhou a pasta, pegou-a, mas continuou parado como se tivesse em choque.
- Anda logo, Henrique. Abra a pasta e leia. Este documento histórico está a sua espera há mais de cento e cinquenta anos. - Incentivava o Marquês.
- Não tenho mais pressa, Marquês. Vou continuar relaxando, amanhã junto com a Isabel tomamos posse dessa documentação.
- Espero que depois não tenha pressa em ir embora?
- De forma alguma. Se não for incomodá-lo pretendo escrever aqui mesmo meu novo livro. Além de tranquilo o local me encantou.
- Será uma honra tê-lo junto de nós. Fique o tempo que achar necessário.
Conversaram ainda por algum tempo antes do Marquês se recolher.
- Vou deixá-los a sós. Vocês têm muito que conversar. Tenha uma boa noite. – Osvaldo despediu-se e foi deitar.
- Boa noite, senhor Osvaldo.
- Boa noite, pai.
Ficando a sós, resolveram sair para dar uma volta pelo jardim da casa. A noite estava bem agradável. Henrique aos poucos ia descobrindo que o lugar era realmente encantador.
- Isso tudo que tenho vivido ultimamente está me parecendo um sonho.
- Mas pode ter certeza de que é real.
- Eu sei. Agora, o mais interessante disso tudo, é que quando comecei minha viagem pensava escrever um livro onde eu não fosse protagonista. Vejo que estava enganado.
- Não vejo assim. Nessa história você não é o personagem central.
- Sou coadjuvante. Eu sei, mas ao fundo não deixo de ser o protagonista. E o pior de tudo é o final da história. Poderei mudar como nas que eu estou acostumado a criar?
- Vai dar tudo certo, meu amor.
- Pelo menos no meio disso tudo, tem algo bom. Conheci minha cara metade, a mulher da minha vida.
- O destino não beneficiou só a você, eu também saio lucrando. Apesar de tão pouco tempo ao seu lado, sinto que nos conhecemos há uma eternidade. Amo-te muito.
- Eu também.
Namoravam em cima da pequena ponte sobre o lago. Entre um abraço e outro, Henrique pareceu ver na janela a senhora Valquíria e comentou.
- Isabel, eu reparei que a senhora Valquíria, não lhe é tão dedicada quanto o senhor Petrônio. Estou enganado?
- Não está enganado não. Ela realmente sempre foi assim mesmo, fechada. Principalmente comigo.
- Não será um pouco de ciúmes seu?
- Não. Às vezes penso que ela está aqui em casa por outros motivos.
- Como assim outros motivos?
- Não sei explicar muito bem, mas sinto que ela está sempre nos espreitando e ela sabe disso.
- Comentou isso com seu pai.
- Já, mas ele acha – como você mesmo acaba de falar – que eu tenho ciúmes dela. E por isso a minha implicância.
- Implicância? – Henrique não pode deixar de rir.
- É o que ele acha. O que eu posso fazer?
- Mas pelo que ouvi faz trinta anos que ela está aqui. Não é tempo demais? Ela já teria feito alguma coisa?
- E fez. Só o papai acha que não. Aliás, já fez várias ao longo desse tempo, mas como não tenho prova contra ela tenho que aturá-la aqui em casa.
- O que ela fez, por exemplo? Pode ser mais clara?
- Eu e o Petrônio acreditamos que ela envenenou minha mãe até a morte, mas não vamos deixar essa senhora atrapalhar nosso namoro.
- Desculpe ter lhe chateado com essa conversa.
- Isso tudo são águas passadas e resolvi não me importar mais.
- Se eu soubesse não teria tocado nesse assunto, mas quando a vi nos olhando pela janela, despertou-me a curiosidade de escritor.
- Você mesmo é testemunha. É como eu sempre falo, ela vive a nos espreitar.
- Devo confessar que eu também não simpatizei muito com ela. Não sei o porquê, mas ela me faz lembrar algo que não sei explicar.
- Pode ser só impressão, porem agora que você sabe a minha posição sobre ela, talvez esteja somatizando.
- Não creio, quando eu tive a sensação não conhecia sua opinião. Foi automático, a vi e senti.
- Vai processando seus pensamentos. Pode ser que você encontre a razão ou se lembre de alguma coisa que esteja ligado a ela, quem sabe?
- Está ficando tarde. Deixa isso para lá. Vamos dormir?
- Só depois que me der mais um beijo.
Namoraram mais alguns minutos e se recolheram. Henrique estava impressionado com o requinte do quarto de hospedes em que foi acomodado, parecia estar alojado num apartamento de hotel de alto luxo. No dia seguinte levantou bem cedo tomou seu café e foi para a biblioteca. Isabel o acompanhou. Abriu a pasta e começou a ler o documento oficial deixado por seu tataravô.
*
Cessão de direitos.
Hoje, 05 de novembro de 1821, reunidos na Loja Maçônica Comércio e Artes na Idade do Ouro por iniciativa do senhor Antenor Bernardes de Oliveira estavam presentes os senhores; Osvaldo Brandão da Costa Cabral o Marquês de Saquarema; Paulino Correia de Mello o Conde do Pau D’alho; Sinval Garcia Queiroz o Barão da Serra Verde; Cardeal Alfonso Celso Dias Machado; Grão-Mestre José Bonifácio; e o Juiz Cláudio Araújo Cavalcante de Assis Barbosa para tratar a vontade do primeiro, oficializando este documento, que reconhecerá daqui a 150 anos o descendente (ela ou ele) do senhor Antenor Bernardes de Oliveira como seu herdeiro direto, recebendo este, na referida ocasião (1971) uma quantidade de diamantes equivalente a 50.000$ contos.
Os diamantes estarão guardados em um cofre de segurança máxima, de propriedade do senhor Antenor que estará sob a guarda do Banco do Brasil. Para abertura deste cofre são necessárias duas chaves e três segredos, todos independentes um do outro. Sendo que o mesmo só poderá ser aberto pelo herdeiro, acompanhado das pessoas que estarão responsáveis pela guarda das chaves, das placas com os segredos e deste documento original.
Tanto as chaves como os segredos estão em forma de joias e são aqui registradas na presença de todos como verdadeiras.
Três placas em ouro 24 k com trinta e três brilhantes encravados, emoldurando e formando o segredo do cofre ficará cada uma sob a guarda do Marquês de Saquarema, do Conde do Pau D’alho e do Barão da Serra Verde que logicamente passaram aos seus descendentes. Essas placas estão identificadas por um número e com as letras L, I e Y em ordem alternada. Esses números estão gravados no cofre logo acima de cada cilindro de segredo para a identificação de cada uma das ordens a serem usadas.
As duas chaves também são de ouro maciço com dezesseis brilhantes incrustados em cada uma delas e estarão sob a guarda da igreja na pessoa do Cardeal Afonso e nesta loja maçônica com o Grão-Mestre José Bonifácio, que também estão encarregados de a passarem a seus sucessores.
Após a abertura do cofre, essas joias passarão a pertencer aos seus detentores na época, como forma de agradecimento pela guarda deste segredo.
Este documento oficial é constituído de um original e seis cópias, tudo devidamente chancelado e assinado pelos envolvidos na sua confecção e responsáveis pelo cumprimento do seu conteúdo e que ora tomam posse de sua guarda. Sendo que uma das cópias será anexada ao documento de aluguel existente no Banco do Brasil ainda nesta data.
Antenor Bernardes de Oliveira.
Marquês de Saquarema – Senhor Osvaldo Brandão da Costa Cabral. – Placa com segredo e uma cópia do documento.
Conde do Pau D’alho – Senhor Paulino Correia de Mello. – Placa com segredo e uma cópia do documento.
Barão da Serra Verde – Senhor Sinval Garcia Queiroz. – Placa com segredo e uma cópia do documento.
Cardeal – Sua Eminência Alfonso Celso Dias Machado. – Chave e uma cópia do documento.
Grão-Mestre da loja Comércio e Artes na Idade do Ouro – Senhor Sr. José Bonifácio de Andrada e Silva – Chave e o original do documento.
Juiz – Cláudio Araújo Cavalcante de Assis Barbosa. – Uma cópia do documento.
Estando eu presente por ocasião desta reunião, redijo este documento e reconheço a autenticidade das chancelas e as firmas dos que aqui a puseram.
Rio de janeiro, 05 novembro de 1822.
Justino Caldeira Fraga
Tabelião do Público, Judicial e Notas e Escrivão do Crime e Cível.
*
Henrique leu e releu o documento várias vezes, e mesmo assim custava a acreditar no que acabava de ler. Quando ia lê-lo mais uma vez, o Marquês que já o observava há algum tempo resolveu interrompê-lo.
- Não precisa ler outra vez, Henrique. O documento é autentico e está bem claro o seu conteúdo.
- Então é verídico, sou mesmo o herdeiro?
- Levei algum tempo para reencontrá-lo, mas não tenha dúvidas, você é o mencionado em questão.
- Como e por que foi isso?
- Quando seus pais faleceram você ainda era criança e foi viver no Mosteiro a mando do Exercito. Não sei o porquê dos padres, o esconderem e me impedirem de vê-lo. Acabei perdendo o contato. Para achá-lo novamente tive que colocar um detetive para investigar seu paradeiro e encontrá-lo.
- Não creio que tenham me escondido com algum propósito escuso.
- Pode ser. Hoje eu acredito que eles ficaram com medo de alguém querer lhe sequestrar para se apoderar da herança.
- É possível. Mas e esse cofre, será que realmente existe?
- Eu mesmo, muito antes de mandar Isabel a seu encontro, verifiquei junto ao banco se procedia à informação contida nesse documento.
- Essa quantia equivale a quanto nos dias de hoje?
- Acredito que em torno de 60.000.000 de dólares.
- Nossa! É muito dinheiro.
- Se convenceu agora da necessidade de tamanha segurança?
- Já estou convencido há algum tempo, senhor.
- E quanto a continuar com a segurança?
- Também concordo.
- Muito bom. A partir de agora você também estará protegido.
- Bem, então o que preciso fazer para ter essa herança?
- Basta agora reunir os demais envolvidos nesta operação que ainda estão com a chave do cofre e de um documento e ir até a agência do Banco do Brasil para tomar posse dos diamantes.
- Mas eu não faço a mínima ideia de onde encontrar os descendentes dos que estão mencionados neste documento. O senhor saberia onde encontrá-los.
- Quanto a isso não se preocupe, posso avisá-los a qualquer momento. Um é o nosso Cardeal Dom Anacleto, outro é o venerável mestre senhor Adalberto Cunha e por último, o Juiz do Supremo Tribunal doutor Kleiton de Morais, todos meus irmãos na maçonaria. Nós os responsáveis diretos pelo cumprimento da vontade do velho Antenor, sempre mantivemos contato.
- Faça isso, por favor, senhor Osvaldo.
- Quando está pretendendo ir ao banco?
- Qualquer dia para mim está bom.
- Então me diga o dia e a hora, para que eu possa avisá-los.
- Pode marcar para a próxima segunda-feira às dez horas.
- Então está combinado. Você volta quando para o para o Rio?
- Volto hoje mesmo. Vou passar o fim de semana lá.
- Nos encontraremos no banco então.
- Com certeza.
O senhor Osvaldo ficou encarregado de avisar a todos os que ainda estavam como responsáveis pela guarda das chaves e documentos para que se reunissem na agência central do Banco do Brasil na cidade do Rio de Janeiro.
No dia e hora marcada todos os envolvidos compareceram a agência do banco. Na presença do diretor daquela instituição, senhor George da Costa Queiroz, o cofre foi por ele entregue a Henrique. A expectativa era grande, afinal tratava-se de um fato histórico a ser confirmado, pois constava nos documentos existir uma fortuna ali guardada a mais de cento e cinquenta anos. O cofre foi aberto. Henrique e os demais presentes descobriram que dentro dele só tinha alguns pequenos pedaços de vidro, usados provavelmente para fazer barulho e enganar, caso alguém o sacudisse.
Decepção de todos e o triste comentário do senhor Osvaldo Brandão IV.
- E pensar que ocorreram tantas mortes por nada.
- Por tudo que li, parece que o meu tataravô se vingou das irmãs deixando uma armadilha para elas e todos os gananciosos que o cercavam.
- É o que eu também acho Henrique. – Concordou Isabel.
- Bem. Agora mais do que nunca temos que pensar na nossa segurança. – Comentou Henrique preocupado.
- Segurança? Para que? – Perguntou intrigado, o senhor George.
- Acredito que agora esse pesadelo tenha terminado. Ou não? – Ponderou o senhor Adalberto ao ver a preocupação do Marquês e do Henrique.
- Ainda não. Fomos avisados de que eu deveria entrega minha herança, sob pena de executarem a Isabel. Mas a quem e como iremos avisar de que não existe nenhuma herança? Podem muito bem pensar que estejamos querendo enganá-los.
- Será? Não penso assim e não me preocuparia com segurança. – Disse o senhor George como se fosse íntimo deles.
- O que você pretende fazer? – Perguntou o Juiz Kleiton.
- Minha opinião é que devemos chamar a imprensa e divulgar o que acabamos de descobrir. – Dom Anacleto deu a ideia.
- O senhor acredita que vai dar certo? – Ponderou Henrique.
- Não tem porque não dar. A imprensa divulga o acontecimento acompanhado das nossas declarações. Não tendo o senhor Henrique recebido nenhuma herança, não haverá mais ameaça. – Garantiu o cardeal.
- Será que eles ao tomarem conhecimento, acreditarão? – Isabel levantou a dúvida.
- Não custa tentar. Mas continuarei não descuidando da segurança. – Garantiu o Marquês.
Assim foi feito. A Imprensa foi chamada e participada de todo o engodo que sofreram. Entretanto aproveitaram e comunicaram que as chaves bem como as três placas, que passariam a pertencer a seus guardiões por vontade do senhor Antenor, seriam doadas pelo senhor Adalberto e pelo Marquês para a igreja. Esta se encarregaria de aplicar o dinheiro arrecadado com a venda das peças, nas instituições sob sua responsabilidade.
Sendo o cofre parte integrante de sua herança, Henrique resolveu não abrir mão dele de imediato e o levaria para sua casa depois, tendo antes o cuidado de fazer uma cópia das chaves e anotar os segredos para poder manuseá-lo. Mais tarde, talvez o vendesse para algum museu, colecionador ou antiquário por uma boa quantia, mas antes queria estar próximo a ele e como bom escritor, investigar. Não conseguia até aquele momento acreditar, que seu antepassado o tivesse envolvido numa trama como aquela por nada, além de se dar ao luxo de gastar o que gastou para guardar um punhado de vidro e chumbo, só pelo simples desejo de se vingar de algumas pessoas que infernizaram a sua vida e a de seus familiares. Sua intuição lhe dizia que o cofre tendo sido projetado pelo senhor Antenor, era bem possível existir mais algum segredo nele, mas o que poderia ser?
Naquela mesma tarde Henrique viajou de volta para Valença com Isabel e o senhor Osvaldo. Começaria a escrever lá o seu novo livro.
Na manhã seguinte os jornais estampavam a experiência vivida pelos envolvidos na saga do senhor Antenor e fazia uma sátira pela descoberta da farsa sobre a herança deixada por ele. Durante vinte e cinco dias Henrique passou trabalhando no novo texto e nesse período não foram mais procurados por quem quer que seja e nem sofreram qualquer tipo de ameaça.
Henrique, assim que acabou de transpor para o papel tudo o que passara e descobrira nas últimas semanas pegou o telefone e fez a ligação para sua Editora.
- Alô? Boa tarde, Valdir.
- Terminou o livro ou vai me enrolar mais um pouco?
- Perdeu a educação? Mereço mais consideração, afinal sou um dos que garante a bela vida que leva. Pelo menos diga “boa tarde”, mesmo que falsamente.
- Não enrola Henrique. Esse livro tem que sair antes do Natal.
- O livro está terminado seu velho rabugento. Amanhã estou despachando-o pelo correio. Divirta-se.
Henrique não só escreveu seu livro ali como havia prometido como também mais tarde passaria a morar definitivamente com eles em Valença. Agora, depois de ter terminado seu livro, poderia com mais calma examinar melhor o cofre que Antenor deixara.
De volta ao Rio de Janeiro, Henrique estava há horas sentado em sua cama com ele aberto a sua frente. Não se cansava de olhá-lo. Depois de muito pensar e examinar minuciosamente, um sorriso estampou-lhe o rosto. Acabava de descobrir que o espaço interno do cofre era menor que a área externa. Uma diferença quase que imperceptível, mas era menor. Com uma lanterna pode iluminar melhor o interior e descobrir um minúsculo orifício no canto superior esquerdo na parede da direita. Com a ajuda de um puxador improvisado conseguiu retirar a parede sobre posta e encontrou dois envelopes posto entre elas por Antenor, onde cada envelope estava escrito:
Nota ao meu descendente. – Documento particular.
Henrique mal podia acreditar no que acabava de descobrir. Chamou por Isabel para que ela compartilhasse da sua descoberta. Assim que ela entrou no quarto a fez sentar-se a seu lado. Abriu com o máximo cuidado o primeiro envelope para não rasgar seu conteúdo. Retirou a carta que se encontrava guardada dentro dele e juntos leram a mensagem escrita.
Inestimável descendente,
Senhor ou senhora.
Desculpe-me por todo transtorno que eu possa ter causado a sua vida e os riscos que possas ter corrido, mas essa foi à forma que encontrei de punir e vingar-me de uma sociedade falsa, prepotente, castradora e preconceituosa que durante nossa existência segregou-nos aqui no passado e quem sabe até quando continuarão segregando nossa família, só por que corre em nossas veias o sangue negro, que a meu ver é tão nobre e puro quanto qualquer outro.
Quando você estiver lendo minha mensagem, provavelmente muitos terão morrido, pois acredito que a luta para se apoderarem das pedras preciosas será ferrenha entre os encarregados de guardar essa fortuna inexistente, as minhas meias irmãs e outros aventureiros que com certeza aparecerão, entretanto todo o risco que por ventura você tiver passado será compensado, embora eu não possa indenizá-lo pelo desgaste emocional. Dentre todos os que estarão envolvidos, o único confiável é o Marquês de Saquarema. Tenho certeza de que ele e sua família defenderão meu desejo até o fim. Por favor, ajude-os caso estejam precisando.
Aqui em Paris, na Caixa Geral de Depósitos, existe uma conta de numero 01260, que somente você o “Conde ou Condessa de Meringuava” meu descendente e mais ninguém, poderá movimentar a partir do ano 1970. Nesta conta depositei a quantia de 1.000.000 de libras esterlinas, deixando ordem e autorização por escrito para que fossem feitos os devidos investimentos sob a responsabilidade e administração do banco. De posse deste documento original que acompanha esta pequena declaração, solicite junto ao diretor do mesmo o controle desta conta que passa a ser sua herança.
Faça bom uso da mesma e boa sorte.
Paris, 21 de fevereiro de 1820.
Antenor Bernardes de Oliveira.
Henrique abriu o segundo envelope. Nele continha o documento que comprovava a abertura de uma conta naquele banco, com um depósito de 1.000.000 de libras esterlinas, devidamente assinado por Antenor e o diretor daquela instituição. Bem como por extensão, a autorização da cessão dos direitos sobre ela, ao seu descendente.
A alegria tomou conta do casal. Nos instantes seguintes traçaram planos combinando o que fariam com a herança.
- Não podemos de forma alguma deixar vazar essa descoberta. – Falou Henrique.
- Mas como você fará? Vai viajar até lá ou pretende deixar esse dinheiro em Paris? – Isabel quis saber.
- Vou a Paris.
- E se estiveram lhe seguindo? Podem muito bem desconfiar e aí você vai correr perigo.
- Não vão desconfiar de nada, Isabel. Vou a Paris em lua de mel.
- Você está me pedindo em casamento? Ou tem outra no pedaço?
- Exatamente. – Henrique respondeu com ar enigmático.
- Exatamente o que? Você agora conseguiu me confundir.
- Mas essa foi à intenção. – Falou dando uma gostosa gargalhada.
Os dois estavam muito felizes. Ficaram ali abraçados durante um bom tempo e sem nada dizer. Até que Henrique retomou a conversa.
- Bem, não podemos ficar aqui a vida toda. Precisamos agir.
- O que você vai fazer.
- Primeiro nós iremos falar com Heron Bregensk.
- E quem é esse cara?
- Heron é proprietário de uma loja de antiguidades. É para ele que vou vender esse cofre.
- Você acha mesmo que ficando livre deste cofre, deixarão de nos ameaçar?
- Acredito que sim, pois tenho a impressão de estar sendo seguido. Se eu estiver certo e esse informante nos ver vendendo o cofre é lógico que avisará ao verdadeiro interessado, o que acabamos de fazer. Provavelmente virá comprar a peça para também examiná-la.
- Então você não vai colocar de volta a parede falsa no local, não é?
- Perfeito. Ele ou ela – não sabemos quem – vai constatar que nunca teve nada no cofre, com isso espero que nos deixe definitivamente em paz.
- E depois?
- Estou pensando em entregar meu apartamento e ir morar com você. O que acha?
- A melhor ideia de todas. Vamos fazer isso agora mesmo.
Levaram o cofre ao antiquário e o venderam, em seguida passaram na imobiliária e desfizeram o contrato do imóvel, pagando uma pequena multa. De volta ao apartamento somente para pegar suas roupas, teve a surpresa de ver sua casa toda revirada. Alguém também estava interessado no cofre ou em algum documento que levasse a herança. Não acharam nada, mas levaram a pequena parede do cofre. Como não deixaram nenhum bilhete ameaçando-os concluíram que talvez tenham desistido definitivamente da herança.
Na delegacia deram parte do arrombamento.
- Boa tarde. Meu nome é Pedro Henrique.
- Boa tarde. Eu sei quem é o senhor, mas o que desejam? – O Inspetor de plantão estranhou a presença deles ali.
- Queremos fazer o registro de uma invasão no apartamento que moro.
- Tem algum suspeito? Chegou a ver alguém no local?
- Não. Eu sei que vocês irão investigar, mas na verdade estamos registrando o acontecimento mais para fazer constar junto à imobiliária.
- Como assim? Quis saber o inspetor.
- Eu acabo de entregar o imóvel e preciso que eles saibam que eu não tenho nada a ver com destruição feita.
- O senhor não poderá levar o registro neste momento.
- E quando poderei fazê-lo?
- Fica pronto em dez dias.
- Posso deixar autorizada a entrega do documento ao pessoal da imobiliária?
- Pode sim senhor.
Após terem feito o registro, Henrique encarregou que fosse entregue diretamente aos verdadeiros interessados.
Na imobiliária avisaram sobre a invasão e que poderiam pegar o registro na delegacia dali a dez dias. Voltaram ao entardecer para Valença.
Assim que chegaram não tiveram como esconder os acontecimentos e comunicaram todas as novidades ao senhor Osvaldo Brandão. De todos os relatos, a notícia do casamento foi a que mais agradou e deixou os velhos eufóricos de tanta alegria. Entretanto a senhora Valquíria mostrou-se um pouco incomodada e mais tarde não se furtou de comentar com o velho mordomo.
- Petrônio, Você não acha um pouco precipitado esse casamento?
- Não acho não. Porque você está dizendo isso, Valquíria?
- Se conheceram há tão pouco tempo. Não consigo me acostumar com essas modernidades.
- Você diz isso, porque nunca se casou.
- Não diga bobagem. Tenho certeza de que se a senhora Deolinda fosse viva, diria o mesmo.
- Pois eu digo que não. Ela ficaria muito feliz, assim como o Marquês está.
- Pois eu tenho as minhas dúvidas.
- Essa sua maneira de falar é que aborrece e distancia cada vez mais a menina Isabel de você.
- Não estou nem um pouco preocupada. Por mais que eu faça, ela não dá a mínima mesmo, e quer saber? Azar o dela.
- Você não tem jeito mesmo, em Valquíria? A sua sorte é que o Marquês gosta de você. Do contrário você não estaria mais aqui.
- Ele gostando ou não de mim vou continuar pensando da mesma forma. É um casamento precipitado.
- Não temos nada a ver com isso, nós somos apenas empregados, portanto vamos nos recolher a nossa insignificância. – Petrônio encerrou a discussão falando daquela forma porque sabia que ela não gostava nem um pouco de ser lembrada como um empregado da casa.
Numa conversa reservada o Marquês demonstrou sua preocupação com a nova descoberta.
- Henrique, com o aparecimento dessa conta no exterior nós voltamos a correr perigo como antes. O que pretende fazer?
- Continuaremos a viver tranquilamente como se nada tivesse mudado. Dando a entender que realmente não existe a herança.
- Mas não se esqueça de que chegará a hora de tomar posse dela. Precisamos estar prevenidos.
- Não haverá problema. Nós vamos nos casar daqui alguns meses e na lua de mel acertamos esses detalhes sem chamar atenção.
- Pretende viajar sem segurança?
- Não só viajar, como a partir de agora estamos dispensando nossos guarda-costas.
- Não é arriscado?
- Quem quer que tenha nos ameaçado precisa pensar que; se não estamos acompanhados por seguranças é por que não existe nenhuma herança e pensamos que por essa razão não seremos atacados.
- Faz sentido, mas tome muito cuidado. Procurem observar se estão sendo seguidos. Qualquer movimento estranho avise que voltamos com a segurança. Para reforçar sua tese vou cancelar o contrato com a empresa dando essa justificativa.
- Faça isso, senhor Osvaldo. Se eles tiverem alguma ligação com a empresa já ficam sabendo da nossa posição.
*
PENÚLTIMO CAPÍTULO
O pesadelo continua
De volta à tranquilidade da mansão, Henrique chegou a pensar no esboço de um novo livro, mas desistiu. Logo logo estaria casando. Depois aproveitaria a viagem de lua de mel e iria a Paris tomar posse da conta existente, não despertando dessa forma nenhuma suspeita de ligação entre eles e a herança. Na volta, aí sim, pensaria e escreveria um novo texto, para não perder o costume. Quem sabe até sobre a viagem.
Em 13 de abril de 1976, oito meses após se conhecerem, Henrique casava-se com Isabel, a linda e meiga filha do Marquês de Saquarema, que mandou realizar uma recepção onde teve o cuidado de convidar todas as pessoas que pudessem estar envolvidas e interessadas na herança do senhor Antenor. Após a cerimônia religiosa que foi realizada no grande salão da sua residência por Dom Anacleto, o Marquês de num palco improvisado no grande jardim onde estavam todos os convidados acomodados para a festa, fez uma declaração.
- Meus amigos. Grande é o prazer de tê-los aqui presente. Quero neste momento expressar o quanto da minha alegria por estar realizando este casamento. Na verdade agradecer ao senhor Antenor. Para quem não sabe quem ele seja devo dizer se tratar de um antepassado do Henrique, meu genro. Este senhor, em uma determinada época resolveu deixar uma grande herança a seu descendente. Durante cento e cinquenta anos, essa pretensa fortuna ficou guardada a espera do felizardo que a receberia, ocasionando com isso vários crimes e tentativas dela se apoderarem. O que não conseguiram. Lamentavelmente tantos morreram e outros foram presos por nada, pois como todos hoje sabem, não existia tal fortuna. Mas vocês devem estar se perguntando por que então eu disse ser grato ao senhor Antenor, se não existe a tal herança. É simples: – graças a ele, hoje estão reunidos pelo amor, minha filha e seu tataraneto, o que me deixa extremamente feliz. Espero que todos compartilhem dessa felicidade. Estejam à vontade.
Com esse pronunciamento o Marquês acreditava que a corrida pela herança estaria terminada, podendo agora, viverem todos despreocupados.
A festa transcorreu alegre até de madrugada. Praticamente todos os convidados ficaram sabendo que o casal passaria três meses na Europa em lua de mel, aproveitando as férias que Henrique teria na editora. Durante esse tempo não escreveria nada. Ao final da recepção quando todos se retiraram Henrique não pode deixar de pensar nos acontecimentos e comentou com Isabel e seu sogro.
- Muito vingativo, mas inteligente e generoso esse meu tataravô. Deixou-me além da herança, uma história para ser contada e algo bem maior: – uma bela mulher para eu constituir minha família e dar continuidade aos Bernardes de Oliveira.
- E eu sou hoje a mulher mais feliz do universo. Não se esqueça de dizer isso no seu próximo livro.
- Mas como poderei encaixar isso no futuro. Essa sua alegria faz parte da história que acabei contar.
- E quem garante que ela realmente terminou? – O Marquês lançou a dúvida no ar.
Na manhã seguinte o casal viajou rumo a Europa. Sua primeira parada Lisboa. Henrique combinou com Isabel refazer a viagem que seu antepassado realizara no século passado.
Acatando as recomendações do senhor Osvaldo, tentaram ficar atento quanto a estarem ou não sendo seguidos, entretanto talvez por estar em lua de mel e em outro país, Isabel não deu tanta importância à segurança, mas o mesmo não aconteceu com Henrique. O casal estava encantado com o que viam. Era a primeira vez que viajavam para o exterior e tudo uma novidade só, razão pela qual não paravam de tirar fotos.
Em Lisboa, ficaram sabendo que ainda funcionava a loja de joias que Antenor abrira há cento e cinquenta anos. Aproveitaram para conhecê-la. Do centro da praça podia ser vista a loja, Henrique atravessou a rua em sua direção fotografando toda frente do estabelecimento.
- Meu amor, você está tirando foto a esmo. Assim vamos gastar muitos filmes.
- Não faz mal. E quero que você faça a mesma coisa quando estiver com a máquina. – E virando-se de repente, tirou uma foto da praça que ficava do outro lado da calçada em que estavam – Faça exatamente assim como acabo de fazer.
- Mas para que desperdiçar uma foto? Isso me parece loucura.
- Nada disso, fazendo isso você registra o exato momento do cotidiano e o inesperado.
- Então deixa comigo que não vai ficar nada sem registro. Dizendo isso Isabel também passou a tirar foto de todas as maneiras.
Na entrada da loja pelo lado de fora podia ser visto afixada na grossa parede uma placa de bronze oval com as inscrições: – a cima em forma de ferradura; “Antenor Bernardes de Oliveira”, na parte de baixo também em forma de ferradura ao contrário; ”Fundada em 1820”, ao centro da placa em letras maiúsculas estava o nome da loja; “A BRILHANTE”. Em letras menores a inscrição: – “Placa comemorativa pelos cem anos de fundação”.
- Então essa é a histórica loja.
- Parece que mantém a mesma tradição. Vamos entrar para dar uma olhada nas joias. – Sugeriu Isabel.
- Vamos, mas não pretendo me identificar.
- É melhor que não. Mas podemos perguntar se os atuais donos são descendentes do fundador.
- Não tenha dúvida, isso com certeza eu vou perguntar.
Foram atendidos pelo próprio dono que confirmou ser parente de Antenor. Henrique aproveitou para comprar uma pequena abelha, pingente de ouro com brilhante e rubi para por no cordão que Isabel usava.
No dia seguinte foram para Madri. Durante o tempo que estiveram em Lisboa, sua máquina apontava para todas as direções e registrava tudo e todos à volta.
- Vai deixar para revelar as fotos quando voltarmos?
- Estava pensando nisso agora. Quando chegamos, notei que aqui ao lado do hotel tem uma loja que faz revelação. Podemos mandar revelar essas agora, e as que tirarmos aqui mandamos revelar em Paris. O que você acha?
- Acho ótima a ideia. Assim quando nós chegarmos em casa todas estarão reveladas para que papai possa ver.
- Então quando nós sairmos deixamos lá os negativos.
Enquanto estiveram por Madri o mesmo processo se repetiu. Não ficou nada e nem ninguém sem ser fotografado. Durante o voo - viajavam agora para Paris – aproveitaram para ver as fotos tiradas em Lisboa.
Por indicação da prima, eles se hospedaram no Hotel Jardin de Villiers Paris e constaram que Elizabeth não exagerara, era um hotel realmente muito calmo e charmoso com o seu pequeno jardim florido. Próximo ao metrô e ao Parc Monceau. Depois de acomodados saíram à procura da loja indicada pelo porteiro do hotel para revelar as novas fotos. Em seguida foram almoçar no La Cour aux Crèpe, lugar simples e não muito caro com uma comida maravilhosa. Naquela mesma tarde estiveram na Torre Eiffel, no Arco do Triunfo e já à noite passearam as margens do rio Senna de onde puderam ver por trás dos prédios as torres da Igreja de Notre-Dame iluminada. Os olhos atentos de Henrique e Isabel não perdiam um só momento ou ponto interessante para fotografar. E como duas crianças disparavam para todas as direções.
- Não vai ter um só cantinho que não tenhamos registrado. Observou Isabel.
- Mas para isso é que serve essas coisas, tirar retrato. Não estamos fazendo nada de mais.
- Eu sei que não, só estamos exagerando um pouco.
- Bem agora só nos resta irmos descansar. Amanhã será um longo dia.
No dia seguinte ainda estavam no restaurante do hotel tomando o café da manhã, que eles os franceses, chamam de pequeno almoço, quando o empregado ou gerente da loja – não tinha certeza quanto ao que ele era – foi entregar as fotos reveladas.
- Você pediu para entregarem aqui? Quis saber Henrique.
- Não, provavelmente deve ser uma cortesia da loja.
- Já sei. Ele não resistiu a sua beleza e não conseguindo esperar que fôssemos buscá-las, veio ele próprio entregar. Satisfazendo assim seu deleite. – Rindo, mexia com ela.
- Pois eu não estou nem um pouco preocupada com os sentimentos dele. Como estou ainda um pouco cansada vou aproveitar e vê-las antes de sairmos.
- É melhor deixar para vê-las à noite com mais calma. A gente volta mais cedo para o hotel espalhamos todas em cima da cama e as vemos juntos, o que achas? – Deu a sugestão com uma ponta de malícia o que foi captado por Isabel.
- Se você prefere assim então vamos logo.
Mais uma vez eles se pegaram rindo. Continuavam enamorados como na primeira vez que se encontraram. Esse estado de espírito dos dois contagiava a quem estava à volta. Não se prenderam por mais tempo no restaurante e saíram. Se Henrique pudesse imaginar o que tinha naquelas fotos, as veria agora mesmo, mas só mesmo a noite é que descobririam.
Para não se perderem resolveram pegar um táxi. O destino era o Museu do Louvre. No caminho Henrique resolveu passar na agencia da Caixa Geral de Depósitos. E perguntou ao motorista.
- Monsieur. Nous sommes très loin de l’avenue Marceau? - Senhor. Estamos muito longe da Avenida Marceau?
- Dépend. C’est dans le début? - Depende. É no inicio?
- Oui. - Sim.
- Nous sommes près. Soit que le léger là? - Estamos próximo. Quer que o leve lá?
- Oui, s’il vous plaît. Et se pourra les attendre serons remercié. - Sim, por favor. E se puder nos esperar ficaremos agradecido.
- Ce ne se sera pas retarder beaucoup de. J’attends. - Se não for demorar muito. Eu espero.
- Ótimo, alors nous allons. - Ótimo, então vamos.
- Não sabia que você falava esse idioma? – Comentou Isabel.
- Durante a minha vida toda estudei e falei francês no colégio.
- E por que não falou no hotel?
- Lá eles têm obrigação de nos atender em nosso idioma. O motorista não.
Nesse instante o motorista os interrompeu.
- Monsieur. Nous sommes à l’avenue Marceau. Où j’arrête? - Senhor, nós estamos na avenida Marceau. Onde eu paro?
- Ici même. En face de la banque est bon. - Aqui mesmo. Em frente ao banco está bom.
- Je vais attendre les alí dans la rue Newton, la droite. Ainsi te peut retarder un peu plus. - Eu vou esperá-los alí na rua Newton, à direita. Assim o senhor pode demorar um pouco mais.
- Est bien. Néanmoins j’essayerai d’être rapide. - Está bem. Mesmo assim tentarei ser rápido.
Henrique se identificou junto ao gerente e apresentou sua esposa, Isabel. Gerard não falava muito bem o português, mas conseguia entender e se fazer entender. Depois de verificar a documentação apresentada e confirmar a autenticidade, imediatamente providenciou para que fosse trazido o histórico da conta até sua mesa. De posse dos dados o senhor Gerard, ao tomar conhecimento do valor, não sabia o que fazer para agradá-los. A quantia que estava aplicada e disponível em conta era de 9.272.000 de libras esterlinas. Tanto dinheiro que Henrique por um momento ficou sem saber o que fazer.
- O senhor pretende transferir a conta para o Brasil?
- Ainda estou pensando. Primeiro vamos atualizar a documentação passando a conta para meu nome e da minha esposa. Depois com calma vejo o que fazer.
- O senhor pode deixar o dinheiro aplicado aqui o tempo que achar necessário. Quanto à movimentação ou saque poderá ser feito normalmente em seu país a qualquer momento através do nosso banco correspondente.
- E qual seria o banco lá?
- Neste caso poderá fazê-lo pelo Banco do Brasil ou pelo Itaú. Tem preferência?
- Vamos deixar o dinheiro aplicado aqui e quando eu precisar faço a movimentação pelo Banco Itaú.
- Deixarei desde já tudo acertado com o nosso correspondente. Hoje mesmo estou enviando a documentação atualizada com as assinaturas.
- Quando poderemos ter acesso a esse dinheiro.
- Se estiver precisando de dinheiro posso autorizar um saque agora. A partir de amanhã o senhor poderá pegar seu talão de cheques comigo.
- Então nos vemos amanhã. Até lá. – Henrique despediu-se de Gerard e saiu da agencia em direção ao local onde Albert avisou que estaria esperando.
Acomodaram-se no táxi e foram para o museu. Durante o trajeto combinou com Albert, para que ele ficasse a disposição deles enquanto estivessem em Paris. Visitaram várias alas, mas não conseguiram terminar. Teriam que voltar no dia seguinte e pelo visto mais vezes se quisessem ver tudo que havia no museu. Estavam fascinados com o que tinham visto até ali. Por indicação de Albert, jantaram no Relais de L’Entrecôte um restaurante especializado em steak, que fica na rue Marbeuf, 15 perto da Champs Elysées. Às oito horas da noite retornaram ao hotel. Ficando combinado que Albert os apanharia na manhã seguinte por volta das dez horas.
- Boa noite. Por favor, a chave do quarto 17.
- Aqui está senhor.
Henrique e Isabel estavam quase entrando no elevador quando o mensageiro lhe entregou um envelope.
- Sabe quem deixou esse envelope? – Henrique perguntou ao rapaz.
- Não senhor. Foi deixado na portaria ao entardecer.
- Está bem, muito obrigado.
- O que será isso agora? – Isabel pareceu preocupada com aquele envelope.
- Vamos subir. Lá no quarto a gente vê do que se trata.
Como um verdadeiro moleque cutucou-a e saiu correndo escada acima, descartando o elevador. Ela o seguiu. Com isso conseguiu acalmá-la um pouco. Já dentro do quarto, Henrique como é seu costume, brincou mais uma vez tentando a descontrair ainda mais, pois a via ainda muito tensa.
- Como dizem nossos patrícios portugueses: – cá estamos, bamus a bêiri o que diz a missiva. – E ria não dando importância ao pequeno envelope.
- Anda logo, não vê que eu estou preocupada? Abre isso de uma vez.
- Calma meu amor. Não adianta nos desesperarmos. Primeiro veremos nossas fotos para relaxar.
- Não sei como você pode ficar tão calmo.
- Porque eu haveria de ficar preocupado?
- Se alguém estiver nos seguindo, com certeza nos viram entrar no banco. Podem ter descoberto sobre a herança e já estão nos ameaçando outra vez.
- E daí? Qual o problema que você vê se realmente estiverem nos ameaçando? Eu não vejo nenhum.
- Você terá que entregar todo o dinheiro que acaba de ganhar ou eles me matam.
- Não se preocupe. Prometo que faço um enterro de primeira e mando colocar flores todos os dias no mausoléu que mandarei construir. – Henrique falava sério, mas por dentro estava doido para rir quando viu a cara que sua mulher fazia, mas com muito esforço manteve-se sério.
Isabel estava tão transtornada com a ameaça que não notou a brincadeira e por isso não conseguia acreditar no que seu marido acabava de falar.
- Meu Deus? Você não pode estar falando sério?
- Nunca falei tão sério em minha vida. – Continuava representando a farsa sem reparar que sua mulher por estar nervosa estava acreditando.
Isabel, que até aquele momento estava em pé, sentou-se na beirada da cama e descorçoada, começou a chorar. Henrique vendo que a brincadeira não estava dando certo soltou uma gostosa gargalhada.
- Vamos acabar com essa brincadeira Isabel.
Ela olhou para ele sem entender do que estava falando.
- Que brincadeira?
- Ora? Eu estou brincando, você não notou?
- Não. Como eu poderia imaginar que você ia brincar com algo tão sério?
Nesse momento, Henrique se deu conta que Isabel estava realmente nervosa e preocupada. Abraçou-a apertado e desculpou-se.
- Me perdoe por essa brincadeira de mau gosto. Não pensei que eu representasse tão bem. Você acreditou mesmo que eu estivesse falando sério?
- Gostaria de não ter acreditado, mas da forma como você falou, não deixou dúvidas.
Henrique sempre foi galhofeiro. Os padres sofreram na mão dele com suas brincadeiras. Mas agora se arrependeu de ter brincado daquela maneira e a abraçou mais forte.
- Me perdoe, amor. Pensei que já me conhecesse melhor. Sempre levo a vida assim brincando, dessa forma sofremos menos e vivemos mais. Fique sabendo que este dinheiro para mim não representa nada. Se tiver que dá-lo a alguém pela sua vida, a minha ou a de quem quer que seja, faço na mesma hora sem nenhum remorso ou pesar.
- Não se importa realmente em perder toda essa fortuna?
- Nenhum pouco, e não vejo razão para tal. O que temos dá para viver tranquilamente até o fim de nossos dias.
- Vejo que tenho muito a te conhecer e a aprender.
Continuavam abraçados, Henrique a acariciava procurando acalmá-la. Tão logo viu que Isabel se acalmara a largou.
- Estou perdoado? – Perguntou se jogando de joelhos, com as mãos postas, como se a rezar e com aquele ar de riso que tão bem sabe fazer.
- Vejo que não leva nada a sério, terei que me acostumar, porque pelo jeito você não vai mudar.
- Como eu já disse essa e a melhor maneira de se viver.
- Bem, já que você insiste vamos ver primeiro as fotos.
- Assim é que tem que ser. Nós não estamos em lua de mel? Temos mais é que nos distrair, e não nos preocupar.
Isabel no mesmo instante espalhou as fotos na cama, procurando manter a ordem seguindo o negativo. Eram ao todo setenta e duas fotos. Olhando foto a foto dos locais por onde tinham passado descobriram que na brincadeira de registrar tudo e de qualquer maneira, pegaram de surpresa em varias ocasiões dois homens que ao se verem na mira da câmera fotográfica, tentavam disfarçar.
- Meu amor? – Isabel apontava para algumas fotos – Se eu não estou enganada, esses dois estão nos seguindo.
- Eu já havia percebido. Desde que estávamos na porta da loja que Antenor fundou lá em Lisboa. Por isso tirei e incentivei você a bater fotos de qualquer maneira, pois só assim teríamos certeza de estarmos sendo seguidos.
- Você sabia e não me disse nada?
- Para que? Para vê-la nervosa e estragar nossa lua de mel sem antes mesmo de ter a certeza de estarmos sendo seguidos?
- Fico-lhe grata pelo cuidado, mas agora que já sabemos que estão nos seguindo temos de ver o que tem nesse envelope.
- Está bem. Vou abrir porque você faz questão, por mim eu continuava ignorando-o.
Henrique abriu o pequeno envelope e leu o recado contido num pequeno cartão branco. Em seguida deu-o a Isabel para que ela também o lê-se.
“Sabemos da conta. Aguarde nossas instruções para efetuar a transferência. Continua de pé o nosso primeiro aviso. Não se esqueça que podemos pegá-lo com já o fizemos uma vez”.
- Eu tinha quase certeza de que isso ia acontecer Henrique. O que faremos agora? Estamos sem segurança para nos proteger.
- Está vendo? Melhor seria se não tivéssemos lido nada.
- Sim. E aí a qualquer momento seríamos surpreendidos com um sequestro.
- Acho muito pouco provável fazerem alguma coisa conosco aqui na França.
- Mesmo assim precisamos tomar algumas providências. Já tem alguma ideia do que fazer?
- Venho pensando desde quando desconfiei que estavam nos seguindo. Primeiro vamos avisar seu pai para que ele coloque a segurança de volta lá em casa para protegê-lo. Amanhã cedo iremos até a nossa embaixada e comunicamos o que está acontecendo. Lá mesmo veremos se há a possibilidade de contratarmos alguma segurança para nos proteger aqui em Paris.
- E se não conseguirmos nenhum apoio.
- Se não nos ajudarem nós vamos até a polícia levando as fotos e mostramos que estamos sendo seguidos. Tenho certeza de que eles sabendo da nossa história tomaram alguma providencia.
Henrique pediu a telefonista do hotel linha e avisou que faria uma ligação para Valença, no Rio de Janeiro, Brasil. Com o novo sistema de discagem direta em funcionamento as ligações ficaram rápidas e eficientes, mas ele precisava antes saber os códigos para efetuar a ligação. Dez minutos mais tarde estava de posse das informações necessárias para realizar a ligação.
- Alô? Quem fala.
- Sou eu, o Petrônio, senhor Henrique.
- Como vai, tudo bem? Estamos com saudades.
- Estamos bem e sentimos o mesmo. Vocês já chegaram? Por que não avisaram? O senhor Osvaldo mandaria buscá-los ai no Rio.
- Ainda estamos em Paris, Petrônio.
- Nossa, sua voz está tão clara, parece que o senhor está falando daqui.
- É o progresso meu velho, vai se acostumando. Um momento só que eu vou passar o telefone para Isabel. Ela também quer falar com você.
- Olá Petrônio. Você está fazendo muita falta por aqui.
- Senhorita Isabel... Ah desculpe, não é mais senhorita. Senhora Isabel nós estamos saudosos.
- Você e papai sim, eu acredito e tenho certeza, mas essa mulher aí quer mesmo é me ver pelas costa. Cuidado com ela.
- Pelo visto vocês não vão se entender nunca mesmo.
- E não faço a mínima questão.
- Mas o que é que você quer com esse velho?
- Quero te dar um beijo e um abraço bem apertado. E pedir para que não deixe a Valquíria servir nada para o papai. Promete que vai ficar atento?
- Prometo. Você sabe muito bem que eu nunca a deixei fazer isso, e não vai ser agora.
- Está bem, assim fico mais tranquila. Papai está aí?
- Vou chamá-lo.
- Petrônio. Quando ele atender providencie para que ela não esteja por perto. Não queremos que escute o que falaremos com papai.
- Só um momento que ele já está vindo. Beijos e volte logo.
- Oi, pai. Um beijão. Como o senhor está?
- Estou bem, filha. Por que estão ligando? Aconteceu alguma coisa?
- Descobrimos que estão nos seguindo desde o início da nossa viagem.
- Nesse caso é preciso que vocês providenciem uma segurança e tome muito cuidado.
- Não se preocupe, estamos tratando disso. O mais importante agora é o senhor se proteger. Queremos que contrate novamente os seguranças.
- Farei isso assim que desligar o telefone.
- O Henrique quer que o senhor faça umas investigações.
- Que tipo de investigação?
- Ele vai falar com o senhor. Quero que se cuide e do Petrônio também. Beijos.
- Para você também minha filha.
- Olá, senhor Osvaldo?
- Olá, Henrique. Que herança complicada essa que você arrumou, em?
- Concordo com o senhor, mas não é nada que não se possa resolver. Já disse para Isabel, se for preciso entrego tudo e está liquidado o assunto.
- Que isso seja a ultima coisa a ser feita. Só em último caso, essa é minha opinião. Não que eu seja um avarento, mas como diz o ditado, “a Cezar o que é de Cezar”. Mas isso é mais para frente, o que é que você quer que eu faça agora?
- Senhor Osvaldo, tem alguém nos ouvindo?
- Pode falar, não tem como alguém nos ouvir.
- Ótimo. Observe meu raciocínio: Já há algum tempo, notei que a senhora Valquíria não gosta da Isabel.
- Isabel tem a mesma sensação. E até levantou algumas dúvidas graves. Que eu particularmente não acredito.
- Eu sei, mas eu também tenho motivos para desconfiar dela. Por isso quero que o senhor consiga com a ajuda daquele seu amigo delegado... Como é mesmo o nome dele?
- Ricardo Santos.
- Esse mesmo. Peça para que ele faça uma investigação e descubra quem realmente é a senhora Valquíria. Tenho quase certeza de que ela se infiltrou nas nossas famílias para conseguir detalhes sobre a herança. E por favor, também investigue o senhor George.
- Mas será possível isso? Você disse nossas famílias?
- Não tenha dúvida, senhor Osvaldo. Lembrei de quando eu era criança, uma mulher sempre nos visitava, inclusive um dia antes de minha mãe morrer, ela esteve lá em casa.
- Você não está querendo me dizer que essa mulher e a Valquíria?
- Eu acredito que sim.
- O que você acaba de me dizer é muito grave.
- Digamos que eu esteja enganado com relação a isso, mas não tenho dúvidas que ela tenha ouvido quando falamos do dinheiro depositado aqui. Provavelmente ela passou a informação a seus comparsas que nos seguiram para confirmar a existência. Agora estão nos ameaçando outra vez.
- Está bem, você me convenceu. Agora, quem é esse George?
- O diretor do Banco do Brasil. Na ocasião em que abrimos o cofre vazio, ele se mostrou contrário quando mencionei reforçar nossa segurança, está lembrado? Acredito que ele esteja no meio disso tudo.
- É verdade, Henrique. Estou lembrado, na época ele até fez-se de muito íntimo.
- Eu não disse nada na hora, mas reparei o jeito dele. Investigue-o também, não se esqueça.
- Não se preocupe, vou providenciar hoje mesmo. E quanto à segurança de vocês?
- Ficaremos em Paris aguardando o resultado das suas investigações. Aqui por enquanto eles não podem fazer nada. Também vou até nossa embaixada ver se consigo com eles algum tipo de segurança.
- Vocês estão no hotel que a Elizabeth indicou?
- Nele mesmo.
- Então não saiam dele enquanto não chegar os seguranças que mandarei. Amanhã à tarde eles estarão aí com vocês. Também vou acionar a embaixada daqui através de um irmão que faz parte do corpo de diplomatas, para que o pessoal daí os receba e ajudem vocês de alguma forma junto à polícia.
- Está bem ficaremos aguardando aqui no hotel. Só depois da chegada deles iremos até a embaixada.
Imediatamente após o término desta ligação, o senhor Osvaldo Brandão passou a usar de todo prestígio que a maçonaria lhe proporcionava: – Contratou a empresa especializada em segurança e recolocou de volta os mesmos seguranças que nos últimos anos lhe serviram. Providenciou as passagens aéreas e os passaportes para que dois deles pudessem viajar no dia seguinte para França. Feito isso marcou uma reunião com seu amigo, o delegado Ricardo e os três irmãos maçons mais chegados e conhecedores de todo os detalhes sobre a herança, para aquela mesma noite. Um pedido do Marquês era quase que uma ordem; nem tanto pelo poder que detinha, mas sim pelo carisma e o jeito cativante de tratar os amigos.
Já era tarde da noite quando os convidados chegaram ao enorme solar do Marquês, em Valença. Osvaldo mandara preparar um coquetel de frutas e alguns salgadinhos deixando tudo arrumado sobre a mesa onde o pequeno grupo iria ser reunir, pois sabia que os assuntos ali tratados se estenderiam por uma boa parte da madrugada. Com a presença de todos deu início a reunião.
- Reparei que você voltou com a segurança, Osvaldo. – Comentou Dom Anacleto.
- Gostaria que não fosse mais preciso. Infelizmente estou obrigado a voltar a conviver com esses homens.
- Voltaram às ameaças? – O Juiz Kleiton perguntou.
- Eles estão seguindo o Henrique e a Isabel em Paris. Inclusive entregaram outro bilhete ameaçador.
- Mas quando é que isso vai acabar? Precisamos dar um jeito nisso de uma vez por todas. – Propôs Adalberto.
- Agradeço a preocupação de vocês. Pedi que viessem hoje aqui, justamente porque tomei esta decisão. Vou fazer justiça e acabar de uma vez com esse canalhas que estão nos ameaçando.
- O senhor faz ideia de quem possa estar por traz de tudo isso? – Quis saber o delegado Ricardo.
- Estive conversando hoje à tarde com meu genro e é justamente dele a desconfiança. Por isso eu preciso de todos vocês.
- Diga o que quer e faremos. – Sentenciou o Cardeal – Não podemos permitir e nem ficar com as mãos atadas casos eles consigam sequestrar nossas crianças.
- Não é nada que nos comprometa. Será feito tudo dentro da lei; Adalberto, eu quero que você descubra quem são os parentes e de quem descende a Valquíria minha secretária e o senhor George, diretor do Banco do Brasil; Dom Anacleto informe-se com seus pares quem, além de mim, tentou ter acesso à educação do meu genro enquanto esteve sob a proteção da igreja.
- O que faremos se não houver nenhuma ligação deles com a herança. – Ponderou Adalberto.
- Tudo precisa ser levantado rapidamente. Estou convicto de que eles estão envolvidos. De posse das informações tenho certeza de que o Ricardo consegue montar todo o quebra-cabeça e desvendaremos alguns mistérios.
- Pelo jeito não vou fazer nada? Eu só vou expedir os mandados, autorizando as investigações e depois os de prisão?
- E acha pouco? – Indagou o Marquês.
Dom Anacleto notando que o juiz queria mais atividade o convidou.
- Kleiton, além dos mandados que vá emitir, você pode muito bem agilizar junto aos cartórios as nossas pesquisas. Não se esqueça que voltaremos há cento e cinquenta anos.
- Tomara que tudo se resolva favoravelmente e sem violência. – Desejou Dom Anacleto.
- Amanhã mesmo estaremos trabalhando nesse caso, e mais rápido do que imagina estarão todos os culpados presos. - Garantiu o delegado Ricardo.
*
Naquela manhã de primavera, Henrique e Isabel tomavam o café. Estavam acompanhados por Júlio e Mateus, os dois seguranças que chegaram a Paris na tarde anterior.
- A onde nós iremos hoje, senhor Henrique? – Perguntou Júlio.
- Primeiro a Embaixada. Dependendo do que eles disserem iremos à polícia ou ao Museu do Louvre.
- Não podemos estar no mesmo carro que vocês.
- Ontem falei com o Albert, e providenciei mais outro táxi para atender a vocês. Achei melhor assim. Chama menos a atenção e nos da mais liberdade.
- Está ótimo, muito bem pensado. Com um motorista nos conduzindo ficamos livres para agir se for necessário.
Na Embaixada foram recebidos e apresentados ao chefe de polícia, que de posse das fotografias também concluiu que eles estavam sendo seguidos. Tanto o pessoal da Embaixada quanto os policiais tinham conhecimento da fortuna que estava depositada no banco em nome deles e das ameaças que tinham recebido. Henrique pode sentir nesse momento a influencia do seu sogro e a força que tem a maçonaria pelo mundo.
Os quatros foram aconselhados pelo chefe de polícia, senhor Yves, que continuassem visitando a cidade normalmente. Era necessário que seus seguidores os vissem acompanhados pelos seguranças. Garantiram que aqueles homens seriam detidos se continuassem a segui-los, mas que o mantivesse informado caso fossem novamente ameaçados.
Dois dias mais tarde foi deixado na portaria do hotel outro cartão. Desta vez a nota dizia que eles deveriam estar no banco às treze horas sem os seguranças. Lá ele receberia as instruções para onde deveriam transferir o dinheiro. Henrique, imediatamente comunicou o fato à polícia, que aconselhado foi sozinho ao banco. Mas obteve a garantia de que sua mulher ficaria protegida discretamente pela polícia. Ele não precisava se preocupar.
No dia seguinte na hora marcada desceu do táxi e na entrada da agencia foi abordado pelos dois homens estranhos que apareciam nas fotos.
- Senhor Henrique, fez muito bem em vir só. Quero dizer que estamos desarmados, mas não tente nenhum ato heroico.
- Vamos acabar logo com isso. O que tenho que fazer?
- Iremos até ao gerente, o senhor autorizará a transferência de todo o dinheiro para a agência central do Banco do Brasil no Rio de janeiro. Se não o fizer, executamos sua mulher. Saiba que neste momento ela está em nossas mãos lá no hotel.
Entraram na agencia e Henrique avistou sentado à mesa do gerente o senhor Yves, que sorrindo levantou-se para cumprimentá-lo e perguntou:
- Veio pegar seu talão de cheques?
Não pode responder. Enquanto um dos seus acompanhantes ficou parado no centro do salão. O outro que veio junto até a mesa da gerência interrompeu a conversa antecipando-se a Henrique.
- Nada disso. O meu amigo está aqui para fazer uma transferência para o Brasil.
- Pretende isso mesmo, senhor Henrique?
Henrique dirigiu-se ao chefe de policia Yves, chamando-o pelo nome verdadeiro do gerente para não chamar atenção, pois na placa em cima da mesa indicava aquele nome.
- Não tenho escolha, senhor Gerard.
- Está operação vai demorar alguns minutos. Por favor, sentem-se.
- Faça o favor de providenciar a transferência para essa conta o mais rápido possível. – O acompanhante de Henrique entregou ao policial o cartão com os dados.
- Senhor Henrique, queira me acompanhar.
Yves levantou-se em indicou o caminho a seguir. O que foi feito seguido pelo acompanhante misterioso.
- Desculpe, mas o senhor não pode nos acompanhar. Só os clientes podem entrar na tesouraria.
Dito isso o interceptou, pondo a mão em seu peito. Ato esse que desencadeou na operação onde os dois criminosos foram rapidamente cercados e presos.
- Senhor Yves, esse homem acaba de me informar que minha mulher esta detida com alguém lá no hotel.
- Não se preocupe tudo está terminado. Madame Isabel está bem e continua em segurança. Um dos que tentou sequestrá-la, foi preso e o outro lamentavelmente está morto. Pelo que soube, devo dar-lhe os parabéns pelo trabalho da sua equipe de segurança, eles foram rápidos, eficientes e não cometeram nenhum crime.
- O senhor acaba de tirar um peso das minhas costas, fico-lhe muito grato.
Henrique voltou rapidamente ao hotel. Agradeceu aos dois seguranças pela proteção dispensada a sua mulher. Abraçou-a e beijou-a demoradamente.
- Isabel, meu amor. Me diz como você está? Chegaram a lhe maltratar?
- Eu estou bem Henrique. O Júlio e o Matheus foram perfeitos. Aqueles homens nem chegaram perto de mim.
- Graças a Deus. Acredito que agora poderemos ficar tranquilos.
- Aqui em Paris sim, mas até quando?
- Meu amor, a primeira batalha foi vencida. Tenho certeza que as demais também serão.
- Estou um pouco preocupada, papai ainda não nos ligou. O que será que ele descobriu.
- Não se preocupe com isso, seu pai está cercado de amigos e com certeza já devem estar terminando as investigações. Vai dar tudo certo.
- Eu ficaria mais tranquila se conseguisse ter esse seu otimismo.
- Pois pode ficar tranquila, Isabel. Eu tenho certeza de que nossos amigos no Brasil vão descobrir quem está por traz de tudo isso e prendê-los.
- Tomara que você esteja certo.
- Estou. Temos ainda muita coisa para ser vista, que tal irmos almoçar agora e a tarde terminamos a nossa visita ao Museu.
- Está bem, você me convenceu. Vamos todos almoçar, mas antes temos que avisar ao pai que esses dois já foram presos.
Henrique, como sempre, não contrariou Isabel e ligou colocando o Marquês a par dos últimos acontecimentos, saindo em seguida para almoçar.
Albert devido ao convívio diário tornara-se mais do que um taxista a serviço do casal, praticamente havia nascido uma amizade entre eles, razão pela qual mais uma vez por sua indicação foram ao restaurante Gaudéamus que fica localizado no bairro Quartier Latin, um lugar, que além de charmoso, tem um atendimento especial e servem uma comida deliciosa.
Com a informação da prisão dos dois em Paris, mas uma vez o senhor Osvaldo com seu prestígio conseguiu saber quem eram e a extradição deles para o Rio de Janeiro foi rápida.
O senhor Adalberto e o juiz Kleiton descobriram que o Senhor George procurou apagar dos registros oficiais que era descendente do antigo Barão da Serra Verde e descobriram também que ele era o pai do Ailtom e Marsílio, os dois elementos que seguiam Henrique e Isabel em Paris. Também ficaram sabendo que a senhora Valquíria era a tetra neta da Marquesa Natália, a meia-irmã mais nova de Antenor e contava como aliado na trama para se apoderar da herança de Henrique, o seu irmão Honorato.
O Cardeal Anacleto, também constatou que tanto o senhor George como à senhora Valquíria tentaram descobrir junto às cúrias, do Rio de Janeiro e São Paulo, onde estava Henrique e ter acesso à sua educação. De posse de todos esses dados o delegado Ricardo Santos deu início às investigações e com sua experiência não foi difícil descobrir toda a trama.
Dias depois que todos os levantamentos foram entregue ao delegado Ricardo o juiz Kleiton junto com o Marquês lhe cobrava o relatório sobre as investigações.
- Delegado, como andam as suas investigações?
- Já terminei senhor. Amanhã com certeza estará em suas mãos juiz.
- Pode nos adiantar alguma coisa? Estamos curiosos.
- Tudo começou praticamente por volta de 1940.
- Há tantos anos assim? – Perguntou o Marquês, quase não acreditando no que ouvia.
- A senhora Valquíria sabendo da herança que Antenor deixara, tentava se aproximar de Carlos Alberto. Pretendia com ele se casar, mas viu seus planos irem por água abaixo quando ele casou com a senhora Esmeralda.
- Ela era minha irmã de criação. – Lembrou o Marquês.
- Com isso seu ódio aumentara mais ainda por ter sido preterida por uma mulata.
- O impressionante é que o tempo não foi capaz de apagar o racismo, e durante duzentos anos foi e continua sendo o combustível alimentador de toda discórdia entre as duas famílias originadas pelo contratador Mariano Bernardes de Oliveira. – Lamentou o juiz Kleiton.
O delegado orgulhoso com as suas investigações deu continuidade à conversa.
- Valquíria com sua influência negativa obrigou seu irmão Honorato, que era um fantoche em suas mãos, a matar Carlos Alberto.
- Mas ele morreu lá na Europa. – Afiançou o juiz.
- Eu sei. Ele cometeu o crime durante a guerra.
- Essa acusação é muito grave?
- Não se preocupe, a prova está anexada ao relatório. – Ricardo justificou-se e continuou. – Em seguida a senhora Valquíria aproximou-se de Esmeralda e envenenou-a.
- Mas porque ela fez isso? – Quis saber o Marquês.
- Primeiro pelo racismo. Esqueceu que a senhora Esmeralda era mulata? Com sua morte, tinha em mente criar o menino Henrique para desfrutar da sua herança quando ela realizasse o casamento dele com a sua sobrinha, filha do Honorato.
- Só não contou com a interferência do exército e da igreja na guarda do menino. Acrescentou o juiz.
- Essa determinação foi um golpe até para mim que queria criá-lo, ele era meu afilhado.
- Por isso mesmo é que ela sabendo ser o senhor, o padrinho da criança infiltrou-se em sua família, pois seria mais fácil saber onde o menino se encontrava. Sendo assim bem mais fácil controlar a situação.
- Muito esperta. Comentou o juiz.
- Porém ela não contava que seu plano fosse ser descoberto pela esposa do Marquês, a senhora Deolinda, dessa forma então se viu obrigada a matá-la envenenada, antes que ela a denunciasse ao senhor.
- Meu Deus, então minha filha tinha razão e eu não acreditei nela.
- Não acaba ai não. Assim que a guerra terminou, George procurou Honorato e a Valquíria, nesta ocasião apresentou-se como sendo descendente do Barão da Serra Verde e comprovou ter conhecimento da herança. Pleiteava junto a eles uma das placas que no início de tudo estava sob a guarda de seu ancestral e que fora, segundo ele, tomado pelo Marquês de Saquarema.
- É verdade, mas não foi tomada pelo meu tataravô. A justiça na época achou por bem, que ficasse sob a guarda da nossa família. – O Marquês saiu em defesa do velho Osvaldo.
- Com a negativa dos irmãos em dar-lhe a placa, ele passou a fazer chantagem. Não queria mais somente a placa, mas também metade da herança que Henrique receberia. E o argumento usado para convencê-los foi bem convincente.
- E que argumento pôde ser tão forte assim. Perguntou o juiz.
- Usou o fato dele ter visto Honorato assassinar pelas costa, lá na Itália, seu companheiro Carlos Alberto. Devido a esse segredo foi concretizada a sociedade entre eles.
- Com isso eles não tiveram como deixá-lo de fora. Concluiu o Marquês.
O delegado continuou com seu raciocínio.
- Quando a senhora Valquíria soube que Isabel estava indo ao encontro de Henrique avisou a seu cúmplice George. Este imediatamente colocou seus dois filhos, Ailtom e Marsílio para segui-la. Começando aí as ameaças contra Pedro Henrique, o herdeiro da grande fortuna.
- Mas não havia nenhum diamante naquele cofre. – Lembrou o juiz Kleiton.
- É verdade. Toda essa corrida pela herança teria terminado no dia em que foi descoberto não haver nenhum diamante, mas o antiquário Heron que adquiriu o cofre, também é amigo de George.
- Esse senhor também está envolvido nisso? – Quis saber o Marquês.
- Exato. O senhor Heron não sabendo que o Henrique iria vender-lhe o cofre, um pouco antes de adquiri-lo mandou assaltar o apartamento do Henrique para roubá-lo. Não o encontrou, mas descobriu a parede que encerrava o fundo falso nele. Poucas horas depois, ao comprar o cofre e constatar que a parede era parte integrante dele, avisou ao seu cúmplice George.
- Então com essa descoberta, George manteve seus filhos seguindo o casal na viagem da lua mel e acabou descobrindo o dinheiro depositado na França. – Concluiu o juiz.
- Graças à prisão deles em Paris, é que foi possível desvendar os crimes praticados pela quadrilha. – O delegado terminou sua explanação.
Agora com as peças do grande quebra cabeça juntas, só faltava entregar seu relatório para a lei ser cumprida.
O juiz Kleiton por sua vez, baseado nas provas de assassinato, racismo, formação de quadrilha sequestro e tentativa de sequestro, não teve nenhuma dúvida para expedir os mandados de prisão para todos os envolvidos. A senhora Valquíria, seu irmão Honorato, o senhor George e seu amigo Heron diante das provas apresentadas contra eles acabaram confessando e confirmando os depoimentos dados por Ailtom e Marsílio.
Mais tarde viriam a ser julgados e condenados pelos crimes que cada um havia cometido. Durante praticamente quinze dias todos os envolvidos foram personagens principais das primeiras paginas dos jornais.
*
Sabendo da prisão de todos os envolvidos, Henrique e Isabel ainda ficaram um pouco mais na Europa, queriam conhecer a Inglaterra, Alemanha e a Áustria, locais por onde também esteve o senhor Antenor, mas antes de deixar a França foram convencidos pelo senhor Albert a conhecer, a Debauve&Gallais, tradicional e famosa casa de chocolate em Paris.
- Monsieur, cette Maison a été établi en 1800 par Sulpice Debauve et Antoine Gallais. Depuis ce ils temps servent ce qui a plus de gostoso et requintado dans chocolat amertume. Ils disent ils qu’ont été fournisseur dos.reis Louis XVIII, Charles X et Louis-Philippe. - Senhor esta casa foi fundada em 1800 por Sulpice Debauve e Antoine Gallais. Desde aquela época servem o que há de mais gostoso e requintado em chocolate amargo. Dizem que foram fornecedor dos reis Louis XVIII, Charles X e Louis-Philippe.
- Reste très loin d’ici? - Fica muito longe daqui?
- Non très. A valu la peine connaître et prendre certains des dèlices qui ont là. - Não muito. Vale a pena conhecer e levar algumas das delícias que tem lá.
- Alors, nous allons là voir ces excellences. - Então, vamos lá ver essas preciosidades.
- Je garantis qu’ils vous vont adorer. - Garanto que vocês vão adorar.
Logo na chegada Henrique e Isabel puderam constatar que Albert não exagerara nem um pouco nos elogios a fábrica e também loja que ainda funcionava no mesmo prédio desde a sua fundação no século XIX. Não deixava dúvidas, aquilo tudo tinha mesmo que ser classificado como um monumento histórico e preservado. Seu interior é realmente um local discreto e bastante agradável, onde pode ser degustado um excelente chocolate preto.
O casal voltou ao Brasil quase três meses depois, e foram recebidos pelo senhor Osvaldo e Petrônio que fizeram questão de esperá-los no aeroporto, tamanha era a saudade.
Na hora marcada o avião pousou. O casal estava liberado para passar sem nenhum transtorno pela federal. – graças mais uma vez a influencia do Marquês – Enquanto a família se confraternizava, Petrônio, Arnaldo motorista do Marquês e os seguranças se encarregaram de apanhar as bagagens que eles trouxeram. A impressão que dava é que tinham trazido a Europa inteira.
- Gostaram da viagem?
- Muito. Tirando a saudade e o atentado foi tudo perfeito e maravilhoso. – Isabel ao mesmo tempo em que falava, abraçava e beijava com carinho o seu pai.
- E você Henrique, como está?
- Muito bem e imensamente feliz. Garanto-lhe que pra lá da conta.
- Além da minha filha que motivo o está deixando tão eufórico?
- Papai, o senhor ainda não adivinhou? – Isabel perguntava ostentando um ar brejeiro e irradiando felicidade, envergava o corpo tentando mostrar uma barriga maior.
- Quando vai nascer essa criança, já sabem?
- Início de fevereiro.
O velho Marquês não contendo a alegria, abraçou-se aos dois e voltando-se para o amigo Petrônio, seu empregado desde o tempo de seu pai, gritou de tal forma, que todos à volta ouviram.
- Vamos ser avôs!
Todos riram ao mesmo tempo. Henrique vendo a alegria estampada no rosto do sogro e do outro velho, comentou:
- Graças a Deus tudo terminou bem. Só lamento que depois de tantos anos ainda tivéssemos que conviver com essas pessoas inescrupulosas.
- Também lamento, mas o importante é que estão todos presos e a partir de agora a paz e a felicidade voltaram a reinar na nossa família.
- Oxalá o senhor esteja certo, meu pai. – Desejou Isabel.
- Não tenho nenhuma dúvida quanto a isso, tanto que dispensei a segurança a partir do próximo mês.
- Nada disso. Nós vamos continuar com a segurança. Não podemos correr mais esse tipo de risco. Pelo que li naquelas anotações de família tem muito mais gente envolvida querendo a herança. – Lembrou Henrique.
- Você acredita que depois de tudo o que aconteceu mais alguém tentará nos roubar.
- Acredito e não vou facilitar. Lembre-se meu sogro, que agora vem aí o seu neto. Precisamos estar protegidos. Esse pessoal é capaz de tudo. Esqueceu?
- É verdade, tem horas que me esqueço que o que eles querem é dinheiro... Sendo assim continuamos com a segurança. Bem acredito que as malas já estão todas nos carros. Podemos ir.
ÚLTIMO CAPÍTULO
Libertação definitiva
Nivaldo chegara a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro mais cedo do que o horário combinado e sentou-se no primeiro sofá que viu naquele salão. Enquanto aguardava a chegada do amigo Gabriel, lia o noticiário que nos últimos dias tomou conta de todos os jornais, não só do Rio, como os de outros Estados. Sem que percebesse seu amigo chegou.
- Olá, boa tarde. Já esteve no gabinete do Deputado?
- Não. Estava aguardando você chegar Gabriel, a final o amigo é seu.
- Tudo bem, eu só perguntei por curiosidade. Não sabia que você também estava tão interessado nessas notícias. – Aproveitou para comentar sobre aquele assunto.
- Mas é claro que estou. Essas reportagens sobre as prisões são muito esclarecedoras e as pessoas envolvidas têm tudo a ver comigo. – Afirmou o Nivaldo.
- Que interessante, comigo também. Mas o que é você sabe a respeito da herança desse tal Henrique.
- Durante toda minha infância escutei meu avô contar uma história que o seu avô lhe contava sobre o avô dele. Ou seja uma história que vem lá do tempo do primeiro Império.
- Olha só como são as coisas, meu avô também sempre falou sobre vários acontecimentos que datam dessa época.
- Gabriel, você não muda mesmo. Está me gozando outra vez?
- Nada disso, Nivaldo. Eu agora estou falando sério. Meu avô sempre disse que esse nosso antepassado era um dos tabeliães da época, e foi ele quem redigiu o documento dessa herança.
- Acho que eu sei de quem seu avô falava. Como é mesmo o nome desse tabelião?
- O nome dele era Justino Fraga, que por coincidência também era amigo de um antepassado do Deputado. Pergunte-o só. Tenho certeza de que ele vai confirmar.
- Não precisa, é o mesmo nome que meu avô sempre disse. É melhor irmos falar com o Deputado logo, ele pode ter algum compromisso. Não quero atrapalhá-lo. – Nivaldo desconversou encerrando o assunto.
- Então vamos.
Deixaram o salão de leitura e caminharam em direção ao gabinete. Pelo caminho Nivaldo pode constatar como o seu amigo era conhecido e influente na Assembleia. Praticamente todas as pessoas que cruzaram com eles o cumprimentaram pelo nome.
O deputado Costa Amaral já estava à espera deles e levantou-se assim que os viu entrar.
- Nos atrasamos Deputado? – perguntou Gabriel.
- Não. Eu é que cheguei mais cedo. Mas fique a vontade. Pelo visto, esse é o seu amigo Nivaldo. Certo?
- Isso mesmo. – Confirmou Gabriel e apresentou Nivaldo ao amigo: – Esse é o Deputado Costa Amaral.
- Muito prazer senhor?
- Francisco. Pode me chamar por Francisco. O prazer é meu. Quer dizer então, que é o senhor que está tentando organizar a Vila Olímpica lá em Nova Iguaçu?
- Isso mesmo, Francisco. Apesar do projeto não ser ideia minha, eu tenho que reconhecer; será muito bom para a região. Mas está tudo parado, sem o terreno não podemos nem registrar a instituição.
- Mas do que é que você está falando? – Quis saber o Deputado.
- Da liberação do terreno para que possamos construir nossa vila olímpica.
- De quem é o terreno? Não é do governo?
- Não. Por isso é que não pudemos começar as obras.
- Então, eu entendi certo quando o Gabriel comentou comigo. Vocês querem é desapropriar o terreno?
- Entendeu perfeitamente. Esse terreno faz parte de uma antiga fazenda e os proprietários estão irredutíveis em cedê-lo.
- E quem são eles?
- O dono se diz descendente de um tal Barão da Serra Verde. – Nivaldo falou despretensiosamente tentando esconder saber de quem se tratava.
- O George da Costa Queiroz? Esse que acaba de ser preso pelo envolvimento nessa disputa pela herança?
- Esse mesmo. Você o conhece?
- Não, mas não se preocupe. Dê entrada na documentação e pode considerar o terreno como já sendo da instituição. – Garantiu o Deputado.
- Deputado, eu e a comunidade agradecemos desde já o seu empenho. Agora preciso ir. Nós não vamos mais tomar o seu tempo. Aqui está toda documentação para que o senhor possa providenciar a transferência. Um forte abraço.
- Outro, e fique tranquilo que tudo vai se resolver.
Nivaldo despediu-se e foi embora. Gabriel ainda ficou conversando com o Deputado sobre tudo aquilo.
- Gabriel. Você tem certeza que este seu amigo é de confiança. A intenção dele é só ajudar realmente a comunidade. Ou ele está querendo dar um golpe no George.
- Pelo que eu conheço a respeito dele é de confiança. Mas por que você está perguntando isso.
- Por que quando você me falou sobre esse nosso encontro, eu mandei investigar a fundo, tudo sobre ele e esse projeto. E sabe o que eu descobri a respeito?
- Não faço a mínima ideia.
- Existem outros terrenos por lá que serviriam perfeitamente para fazer a Vila Olímpica, mas ele quer justamente esse terreno que está na fazenda do George. Sabe por quê?
- Já disse que não sei de nada.
- Ele está querendo é nos usar para fazer sua vingancinha particular.
- Por que razão ele quer se vingar.
- Seu amigo se chama Nivaldo dos Santos Ferreira. Ele é descendente do Comissário de Polícia Agripino Ferreira que foi morto pelo Barão da Serra Verde em 1824 ou 25, eu não sei muito bem ao certo.
- Como descobriu isso?
- Eu também conheço toda a história dessa herança deixada para o Henrique pelo senhor Antenor. Esqueceu que meu ancestral, o tabelião Bernardo do Amaral, tramou com o seu ancestral Justino Fraga, também tabelião na época para se apoderar dessa herança?
- É verdade, tinha me esquecido que você também sabe dessa história.
- Pois então, desde aquele tempo essas duas famílias – os Ferreiras e os Garcia Queiroz – se matam, e sempre que podem dão prejuízo uns nos outros.
- Não estou entendendo? Você disse para ele ficar tranquilo e agora está me dizendo tudo isso. Não vai mais ajudá-lo?
- Claro que vou ajudá-lo, mas vai ter um preço e para isso vou usá-lo. Eu também quero me vingar da família do Barão. Esse safado foi quem mandou matar os tabeliães – Justino Fraga e o Bernardo Amaral – naquela época.
- O que você está pensando fazer?
- Isso é segredo. Primeiro vamos adiantar o lado do Nivaldo, eu sei muito bem que a intenção dele em montar a instituição é para tirar vantagens. Pretendo dar a corda para ele próprio se enforcar. Usá-lo-ei para nos vingarmos dessa família. Depois, aí sim, te conto o meu plano.
- Bem, se tiver dinheiro envolvendo os seus planos, pode me considerar dentro. – Confidenciou Gabriel.
- Então aguarde que desta vez não vai ter erro. Ficaremos ricos definitivamente.
O Deputado usando da sua influencia junto ao governo, conseguiu desapropriar a fazenda do George por uma insignificante quantia, e cedeu parte do terreno, conforme prometera, para a instituição que estava sendo criada. Após a desapropriação, com recursos do governo e de particulares deu início à construção e nesse período teve tempo suficiente para grandes negociatas obtendo vantagens em beneficio próprio, a ponto de enriquecer.
Nivaldo inaugurou no início de dezembro a tão sonhada Vila Olímpica que a comunidade queria e precisava. Nesse evento social compareceram o Governador, autoridades civis, e militares. Estando também presente a convite do Deputado Costa Amaral, o senhor Osvaldo Brandão, um dos benfeitores da obra que se mostrava também muito feliz. Felicidade essa, parecer não terminar, pois dois meses mais tarde também nascia Daniel Machado Brandão Bernardes Pereira de Oliveira, seu neto e primeiro filho de Henrique com Isabel.
A vida até aquele momento seguia seu curso normal e tranquilo, entretanto o casal não imaginava que a vida deles iria se transformar num inferno novamente, logo agora que o menino Daniel nasceu.
Após a inauguração da Vila, o Deputado Costa Amaral não demorou muito para mostrar as garras, e mandou chamar Nivaldo para apresentar-lhe a conta do serviço prestado a comunidade. Esse encontro entre os dois deu-se num restaurante pouco conhecido e retirado de beira de estrada, – Rodovia Dutra – local escolhido pelo próprio deputado para não chamar atenção sobre eles.
- Fico muito grato por ter atendido ao meu chamado, senhor Nivaldo.
- Não precisa agradecer, deputado. Eu e a comunidade somos seus eternos devedores. Fique sabendo que um pedido seu para nós é uma ordem.
- Fico lisonjeado em saber, mas por favor não me chame de deputado e deixemos a comunidade de lado. Até por que para atender esse meu pedido, só conto mesmo é com o senhor.
- Então diga o que deseja, Francisco.
- Está bem e vou direto ao assunto. Preciso da sua ajuda para me apoderar da herança deixada pelo senhor Antenor. É lógico que o senhor terá sua parte assegurada.
- Lamento, mas não sei do que o senhor está falando. Poderia ser mais claro?
- Ora não se faça de inocente, Nivaldo. Sei muito bem quem você é o que quer. Posso esclarecer minha proposta de diversas formas, mas vou ser como disse há pouco; – direto. Como eu, o senhor sabe muito bem que nossos antepassados foram mortos tentando se apoderar dessa herança, portanto, nada mais justo agora que sabemos que o Henrique já está de posse dela, ajamos para pegá-la.
- Posso pelo menos saber qual é o seu plano? Mas antes que me diga, quero deixar claro que só tomarei parte dele, se realmente for seguro, pois não quero acabar como todos os outros; – mortos ou atrás das grades.
- Você não tem saída. Toma parte no meu plano ou perde a direção da instituição. Portanto fica tranquilo, não vais morrer nem irá para trás das grades, vai dar tudo certo, Nivaldo.
- Vejo que não tenho alternativa, a não ser concordar com o senhor.
- Ótimo que tenha entendido. Escuta com atenção. Você sabe que acabou de nascer o neto do Marquês?
- Não só eu, como quase todo mundo. Não se fala em outra coisa lá na Vila.
- Pois então, nós vamos sequestrar a criança enquanto eles ainda estão no hospital e pedir toda herança como resgate.
- Você deve estar ficando louco.
- Louco nada, camarada. Para justificar tal quantia, que é muita, darei a entender que o dinheiro é para financiar novos atentados da guerrilha urbana.
- Pensando bem? Você definitivamente enlouqueceu. Esqueceu que eles não vão a lugar algum que não seja com aquela segurança. E sem contar que se conseguirmos sequestrar a criança seremos caçados não só pela polícia, mas também pelos guerrilheiros da ALN e do MR-8.
- Fique sabendo que a segurança não é problema. Um simples gesto meu e ela é relaxada para que possamos agir. Quanto a esses babacas da guerrilha, eles nem vão tomar conhecimento de nossa ação.
- Se é assim, fica bem mais fácil e seguro.
- Por isso eu preciso de você para pegar a criança no berçário e entregá-la ao Gabriel. Você só terá que fazer isso, o resto é por nossa conta.
- E a onde você pretende esconder a criança.
- Essa informação você jamais saberá.
- Se não confia em mim por que pede minha ajuda.
- Isso é também você não vai saber.
- Está bem, e quando é que vou fazer o serviço.
- Amanha mesmo. Já estou sabendo de todos os horários. Nós dois iremos ao hospital visitá-los, no exato momento em que a mãe estiver terminando de amamentar e a criança. – Por volta de vinte para as quatro da tarde. – Você entra primeiro e eu chego logo em seguida, para dar a entender que não estamos juntos. Não haverá nenhuma desconfiança, afinal o Marques é o maior benfeitor da instituição que você comanda e nada mais justo que você prestar-lhe uma homenagem. Quanto a mim, sou um político salvaguardando meus interesses com a visita.
- Até aí, maravilha. Mas como vou apanhar a criança no berçário e aonde vou encontrar Gabriel.
- Quando eu entrar na portaria, os seguranças que já estarão avisados e vão relaxar a vigilância. Assim que a criança for levada pela enfermeira para o berçário, você despede-se e vai embora. Aí no corredor, é só segui-la e quando ela deixar a criança no berço, você entra apanha o bebê e sai tranquilamente pela porta lateral. No estacionamento vai estar um táxi antigo lhe esperando para levá-lo até ao Gabriel. Pronto. Feito isso sua participação está terminada.
- A que horas devo ir para o hospital?
- Às três horas e trinta, em ponto. Não vá atrasar.
*
Henrique passara a noite no hospital com sua mulher e o bebê. Ainda ficou com eles até as duas horas da tarde. Hora em que os deixou para participar de uma reunião com seu editor. Mas fez questão de deixar Isabel tranquila.
- Meu amor eu tenho que ir agora, mas a segurança esta ai fora e seu pai já esta chegando com a Elizabeth. À noite eu estou de volta. Amanhã segundo o doutor Nogueira vocês terão alta e nós iremos para casa. Ah! Quase ia me esquecendo. Tem uma bela surpresa esperando por você.
- O que é?
- Se eu disser agora deixa de ser surpresa.
- Vai me deixar curiosa tentando descobrir o que é?
- Vou. E não fique tentando me prender mais tempo aqui. Deixa-me ir, não posso me atrasar. Você conhece muito bem o Valdir. Tudo é motivo para brigarmos e eu não estou com espírito para aguentá-lo reclamando.
- Você parece tenso meu amor. Vai tranquilo, que eu vou ficar bem.
Henrique ia saindo do quarto e ela o interrompeu.
- Mas antes me dá um beijo.
Voltou e beijou-a. Quando saiu, chamou em particular um dos seguranças e recomendou que ficasse bem atento. Não quis preocupar sua mulher. Seu coração o estava tentando avisar alguma coisa. Se pudesse não sairia dali, mas o compromisso assumido com o rabugento editor o obrigava a ir à reunião.
A tarde parecia tranquila. Tão logo Henrique saiu, seu sogro chegou com Elizabeth. Mais um pouco e tinham se encontrado no estacionamento. Os três conversavam e curtiam a criança, sem ter a menor noção do que estava para acontecer.
Às três horas da tarde, a enfermeira de plantão entrou e avisou que estava na hora do Daniel mamar e que dali a quarenta minutos viria pegá-lo para fazer a higiene do bebê.
O relógio de parede existente no apartamento onde Isabel estava internada, marcava exatamente três horas e trinta quando Nivaldo chegou.
- Com licença.
- Não pensei que viesse, mas esteja à vontade, senhor Nivaldo. – O Marquês mostrou-se surpreso, mas gentil.
- Obrigado, senhor Osvaldo. Eu não podia deixar de vir trazer meus cumprimentos a mais bela mãe do ano e ao neto do maior benfeitor de nossa instituição. Seria uma falta de delicadeza intolerável. Mas prometo que serei breve, aliás, na verdade minha visita será mais curta que a de um médico.
Mais alguns momentos e entra o deputado Costa Amaral desempenhando muito bem seu papel na história armada.
- Mas que surpresa agradável. Jamais imaginei que encontraria aqui o presidente e o bem feitor da instituição que ajudei a formar.
Nesse momento entra a enfermeira.
- Nossa! Cheguei na hora certa. Preciso levar o indefeso Daniel agora, tem gente demais por aqui. Isso não é bom para ele.
- Tudo bem, mas antes me deixa ver esse menino. – Pediu o deputado.
Daniel já nos braços da enfermeira é mostrado a ele.
- Minha nossa que garotão bonito. Vocês estão de parabéns. Quando terão alta a mãe e o bebê?
- Amanhã eles poderão ir para casa. Agora com licença, precisamos ir. – Respondeu a enfermeira e saiu levando a criança.
Imediatamente Nivaldo de posse da pequena lembrança que levara, entregou-a a Isabel e despediu-se.
- Preciso ir Isabel, espero que não repare na simplicidade do presente. Foi escolhido e comprado pela nossa comunidade mais carente, mas é de coração.
- Adorei senhor Nivaldo. Agradeça ao pessoal e apareça quando quiser.
- Aparecerei senhora, com certeza. Senhor Marquês parabéns pelo belo neto. Vemo-nos qualquer hora na instituição. Até mais senhor deputado.
Nivaldo saiu e ainda pode vê-la entrando no berçário. Andou mais rápido. Da janela envidraçada pode ver a criança sendo deixada no berço, que ficava próximo da porta. Vai ser fácil. – Pensou – Esperou ali, um pouco mais. Assim que a enfermeira se ausentou para preparar o banho da criança ele entrou, pegou-a e saiu rapidamente em direção ao estacionamento. Conforme o combinado com o deputado, no local se encontrava um velho Chevrolet de praça. Entrou e o carro arrancou em direção ignorada por ele até aquele momento.
Enquanto tudo acontecia, à conversa continuava alegre e descontraída entre o deputado e os familiares do pequeno Daniel, até que de repente, são interrompidos pelos gritos da enfermeira.
- Segurança! Segurança!
O senhor Osvaldo e o deputado saíram para o corredor e correram em sua direção. Devido à idade o Marquês mal podia falar, depois daquela corrida.
- O que está acontecendo senhora? – Quis saber o deputado.
- O pequeno Daniel sumiu do berço.
- Como pode o meu neto ter sumido com toda essa segurança à volta? – Gritou desesperado o Marquês.
- Não sei senhor. Eu o coloquei no berço, saí para pegar as toalhas e quando voltei, ele já não estava mais onde o deixei. Só encontrei esse envelope. – E o entregou ao Marquês.
- Vamos acionar a polícia imediatamente. – Sugeriu o deputado.
- Não. De maneira alguma. Deixa a polícia fora disso. Está me parecendo ser ato de alguma guerrilha. Avisando a polícia eles podem matá-lo. Vamos aguardar. Com certeza pedirão algum resgate para devolvê-lo.
O senhor Osvaldo estava tão desatinado que pegou o envelope e automaticamente o enfiou no bolso do paletó sem ler o que estava escrito.
Quando voltaram ao apartamento já vieram acompanhados do médico para prestar atendimento a Isabel. Seria um choque muito grande e ela precisava ser medicada. O Marquês conseguiu localizar e avisou Henrique sobre o sequestro. Por ordem médica, Isabel ficaria por tempo indeterminado no hospital. A cesariana a que foi submetida tinha sido um sucesso, mas seu estado de saúde complicou com a notícia do sequestro. Duas horas depois, não tendo mais o que fazer ali, Costa Amaral despediu-se e cinicamente colocou-se a disposição para qualquer coisa que pudessem precisar.
Mais uma vez batia a porta daquela família, o desespero. A primeira noite sem o Daniel foi longa e sofrida por todos. Os dias se passavam e ninguém assumia a responsabilidade do sequestro e nem entrava em contato com a família, o que os deixavam mais preocupados com a saúde do bebê.
Os assaltos a bancos e os atos de sequestros, praticas comuns utilizadas por guerrilheiros após a revolução, punha a população sobressaltada, mas também deixava mais tranquila a família, pois acreditavam que a qualquer momento seriam contatados para acertar o pagamento de alguma quantia, ou até mesmo uma possível troca com prisioneiros, já que o Marquês era uma pessoa influente também no governo.
Praticamente ninguém tinha visto nada de anormal naquele dia no hospital. Mesmo com todo o empenho do Marquês em reverter àquela situação, nada tinha sido descoberto até o momento e nenhuma pista foi encontrada. Tudo continuava na estaca zero. Quase dois dias havia se passado e nada, nenhum contato pedindo resgate pela criança. Cada hora que passava mais aumentava a angustia de todos e a esperança enfraquecia.
- Não consigo entender por que até agora ninguém fez um pedido de resgate. – Comentava Henrique.
Nessa hora, como que estivesse saído de um transe o Marquês lembrou.
- Meu Deus. Aquela enfermeira na hora que nos deu a notícia do desaparecimento do Daniel me entregou um envelope deixado no berço.
- O senhor não leu? Onde está esse envelope, pai? – Isabel perguntava desesperada.
- Lembro que o coloquei no bolso, mas não o li.
Voltando-se para seu mordomo pediu.
- Pega o blazer verde, por favor.
Petrônio trouxe o paletó e lá estava o envelope endereçado ao Henrique. Abriram para ler o seu conteúdo.
“Fique tranquilo. A criança será bem cuidada enquanto estiver sob nossa proteção. Entretanto para revê-la novamente terá um custo. Entraremos em contato oportunamente estabelecendo o valor e onde o mesmo deverá ser entregue”.
- Graças a Deus depois de tanto tempo uma boa notícia, se é que podemos chamar isso de boa notícia. – Desabafou o Marquês.
- Quando será que entrarão em contato. – Perguntava Isabel.
- Provavelmente vão demorar. Eles sabem que o desespero e a angustia contribuem para uma negociação favorável. Para eles é claro. – Afiançou Petrônio mostrando aborrecimento.
- Perda de tempo deles. Pago qualquer quantia para ter meu filho de volta. – Henrique falava com a voz embargada.
A mansão em Valença, transformou-se em quartel general. Praticamente todos os amigo quando não estavam trabalhando em descobrir alguma pista, estavam lá. À noite, em conversa com Dom Anacleto, este convenceu Henrique e o Marquês a pedir ajuda ao serviço secreto do governo. Na opinião do Cardeal esse órgão tem mais condição de conseguir descobrir o paradeiro da criança e prender os culpados.
- O senhor acha mesmo que devemos chamar esse pessoal. – Ponderou Henrique.
- Quanto mais pessoas envolvidas em desvendar o sequestro melhor.
- Minha preocupação é da criança estar nas mãos de guerrilheiros e acabar sendo morta em algum conflito mais duro entre eles e o exército.
- Não haverá nada disso, eles sabem muito bem como lidar com esse tipo de situação.
- Bem, se o Henrique e a minha filha concordar, eu falo com o coronel Rosa.
O tempo para a família parecia que se arrastava. Isabel estava vivendo meio dopada, tamanha era a quantidade de tranquilizantes que vinha tomando nos últimos dias. Mesmo assim bem consciente da realidade.
- Dez dias já passaram e ninguém se comunica. Será que sequestraram meu filho para ser vendido no exterior? – Isabel comentava com sua prima Elizabeth que ultimamente estava ao seu redor o tempo todo lhe fazendo companhia.
- Claro que não. Eles não teriam deixado o bilhete avisando que se comunicariam depois. A forma deles agirem é diferente.
Da outra sala o juiz Kleiton ao ouvir sua indagação também procurou tranquilizá-la.
- Não creio. Todas as barreiras foram postas em alerta total, inclusive os aeroportos. Não passa nada que não seja revistado. Carro, ônibus e até mesmo caminhão.
- E então, senhor Osvaldo? Vai realmente falar com o coronel.
- Vou. Apesar de saber que o delegado Ricardo começou esta semana suas investigações e pelo que conversamos ontem, estarem bem adiantadas, vou. Como o senhor mesmo disse; quanto mais gente envolvida na procura, melhor.– Lembrou o Marquês.
- É verdade, fiquei sabendo que as informações conseguidas pelo nosso amigo Adalberto, ajudaram em muito nesses resultados. – Comentou o Juiz.
- Confesso que depois da conversa que tivemos ontem com o Ricardo, fiquei bem mais esperançoso. – Confidenciou Henrique.
Esses últimos comentários foram feitos quase que em sussurro, para que Isabel não os escutasse e descobrisse que eles também estavam preocupados.
*
Ricardo, depois de ter lido o bilhete deixado no berço e os manuscritos da família do senhor Osvaldo Brandão, descartou ser o sequestro obra de guerrilheiros. Passou a investigar prováveis descendentes das pessoas envolvidas na elaboração da documentação original, que dava ciência da existência da herança deixada por Antenor, e que também pudessem estar interessadas em se apoderar dela.
O delegado avançava a passos largos nas investigações. Se o tivessem colocado no caso desde o primeiro dia, talvez o sequestro já tivesse sido solucionado.
Logo no início das investigações contou com a ajuda do Joel, porteiro e responsável pelo estacionamento da Clínica São José, que revelou ter estranhado naquele dia ver o táxi do Osmar estacionado lá dentro, quando normalmente fica parado no ponto de táxi existente ao lado da clínica.
- O fato dele estar lá no estacionamento não diz nada. Poderia estar esperando alguém que estivesse dentro da clínica. – Retrucou o delegado.
- Normalmente o visitante sai e pega o táxi aqui na porta ou nos solicita para chamarmos o táxi aqui dentro. No caso, ele entrou vazio e saiu daqui de dentro com um homem.
- Você pode me mostrar quem é esse motorista.
- Infelizmente não. Desde esse dia ele não parou mais aqui.
- Sabe se algum desses motoristas o conhece.
Joel, do portão mesmo mostrou o terceiro carro que estava parado no ponto.
- Aquele carro e do “banguela”. Ele é conhecido do Osmar.
- Mas qual é o nome do homem?
- Só o conheço pelo apelido.
- Se é assim, vamos ver o banguela. Você acaba de prestar grande ajuda. Obrigado.
Ricardo dirigiu-se ao táxi indicado pelo Joel e logo descobriu que o homem não tinha um dente se quer.
- Boa tarde. Meu nome é Ricardo. Sou delegado e preciso de algumas informações.
- Boa tarde. Prazer, Mario. Se eu souber, com certeza o informarei.
- Onde posso encontrar o Osmar?
- Ele não tem vindo ao ponto. Acredito que para encontrá-lo terá que ir a casa dele.
- E o senhor sabe o endereço?
- Não. Mas pela placa o senhor consegue facilmente no Departamento de Transito. O número dela é 4.5727.
- Obrigado. Se por acaso ele aparecer, peça para que me procure urgente. – Ricardo deixou seu cartão de visita com ele.
Com uma simples consulta ao Departamento de Trânsito, Henrique localizou o endereço, e naquele dia mesmo, a noite foi à casa do Osmar. Não necessitou de muita pressão para obter as informações que queria.
- Senhor Osmar. Estou sabendo que tirou da clinica, um homem e uma criança. Quem o contratou e para onde levou aquele homem.
- Quem me contratou eu não sei. Um senhor apareceu lá no ponto. Estava armado. Pagou quinhentos cruzeiros adiantados e me deu duas instruções claras. A primeira cordial, mandou que eu esperasse la dentro da clínica uma pessoa que viria com uma criança e a levasse ao Aeroporto de Jacarepaguá. A segunda, ameaçadora; disse que se eu quisesse viver por muito tempo, não voltasse mais ao ponto por um período de trinta dias. Fiquei sabendo por acaso que esse passageiro que levava a criança se chamava Nivaldo e de lá do aeroporto eu o levei, a pedido dele, para a baixada.
- Lembra em qual lugar da baixada o senhor o deixou?
- Ele ficou na Vila Olímpica Marquês de Saquarema, em Nova Iguaçu.
- Obrigado pelas informações.
Ricardo rapidamente procurou identificar quem realmente era esse passageiro. Após dois dias de pesquisas pelos cartórios, descobriu se tratar de Nivaldo dos Santos Ferreira, membro de uma antiga família com raízes portuguesas, na verdade, seu ancestral tinha sido um policial na época do senhor Antenor, o famoso Comissário de polícia Agripino Ferreira, relatado nos manuscritos que acabara de ler. Com isso acreditou que tinha descoberto o fio da meada, agora era só desenrolar o novelo, que viriam todos os envolvidos pendurados nesse fio.
*
Era o décimo segundo dia do sequestro. Por volta das seis horas da manhã todos já se encontravam acordados. Parece até que não tinham dormido. O café estava sendo servido, quando o capataz da fazenda Joia de Valença chegou à mansão. Veio a cavalo da fazenda até cidade, trazendo um envelope endereçado desta vez a Isabel.
- Senhor Osvaldo, eu vim o mais rápido que pude.
- Por que não telefonou que eu mandava um carro ir buscá-lo.
- Parece que cortaram o fio do telefone.
- Quem lhe entregou esse envelope?
- Ninguém senhor. Ele foi encontrado pelo Jamil, na entrada da fazenda. Bem no abrigo onde é deixado o leite da cooperativa.
- Vai descansar que depois mando lhe levar de volta para a fazenda.
- Vamos ver logo o que diz esse bilhete pai. – Isabel não se continha de tanta agitação.
- Deixa que eu leia primeiro. – Pediu o Cardeal.
Dentro do envelope estava o bilhete, escrito num pequeno pedaço de papel ofício.
“Mamãe estou com muitas saudades suas. Peça ao papai para pagar Cr$.25.000.000,00. Não quero morrer aqui, quero voltar para casa.”
A forma encontrada pelos sequestradores para pedir o resgate deixou claro o tipo de pessoas com quem eles estavam lidando. Sem escrúpulos, frios, além de sarcásticos e cruéis, pois pediram o resgate e não disseram onde entregá-lo. Dessa forma, o martírio continuaria até saberem onde fazer o depósito daquela quantia, que era enorme. Praticamente toda a herança que Henrique recebera.
- Precisamos mostrar imediatamente este bilhete ao Ricardo. Poderá ser de grande ajuda para as investigações dele. – Comentou Henrique.
- Você está pensando em não pagar o resgate? – Quis saber Isabel.
- Meu amor, você acha que eu seria capaz de deixar nosso filho morrer por tão pouco? É claro que vou pagar, mas depois que ele estiver conosco quero ver todos esses sequestradores na cadeia.
Telefonaram para o delegado e o colocaram a par dos novos acontecimentos.
- Fizeram muito bem em me ligar. Pelo valor estipulado não tenho mais dúvidas, estou no caminho certo para alcançar os sequestradores. Como não disseram onde será a entrega tenho um pouco mais de tempo.
- Ricardo, nós já resolvemos que iremos pagar o resgate, portanto não se precipite e tenha muito cuidado com esses marginais. – Recomendou Henrique.
- Pode ficar tranquilo que tudo vai acabar bem. Seu menino vai estar em casa muito antes do que você imagina. Garanto inclusive que você não precisará pagar nenhum resgate.
- Todos nós confiamos em você, Ricardo. Faça seu trabalho, mas tenha sempre em mente que temos o dinheiro e estamos dispostos a pagar.
Ricardo desligou o telefone sem comentar que já tinha conhecimento de quem era o sequestrador. Achou ser mais seguro que eles não soubessem. Agora podia acabar seu banho, pois fora interrompido com o telefonema do Henrique, e depois iria até ao gabinete do juiz Kleiton para colocá-lo a par dos seus planos para prender todos os envolvidos de uma só vez.
Ás nove e quarenta e cinco, Ricardo era recebido pelo Juiz em seu gabinete. Em pouco mais de uma hora colocou o Juiz a par do que tinha descoberto e de seus planos. Convencido e de acordo com o que seria realizado, o Juiz Kleiton expediu o mandado de prisão e se prontificou esperá-lo para dar sequencia e concretizar o plano.
Naquela mesma tarde, de posse do mandado de prisão, Ricardo se encontrava na porta da tal vila olímpica aguardando a chegada do seu presidente, o senhor Nivaldo. Este, assim que chegou, sem saber que quem o esperava era um delegado, nem tentou uma fuga e mandou acompanhá-lo até sua sala, onde o recebeu.
- Pois não, o que o senhor deseja.
- Gostaria de lhe fazer algumas perguntas sobre um sequestro.
- Sequestro? Não sei do que o senhor está falando. Aliás, não sei nem quem é o senhor.
- Não seja por isso. Meu nome é Ricardo. Sou o delegado encarregado das investigações desse crime, que acabo de lhe falar. E lá fora estão os inspetores Amadeu e Onofre, meus assistentes nesse caso.
- Mas o que eu tenho a ver com isso?
- Há uns dias atrás o senhor foi visto saindo da Clínica levando uma criança.
- Deve estar havendo algum engano. Não estaria o senhor me confundindo com outra pessoa?
- De forma alguma, estamos certos e convencidos de que era o senhor. Todas as evidencias apontam neste sentido.
- Digamos que tenha sido eu que saí com uma criança de lá. Quem lhe garante que a criança que estava comigo era a sequestrada?
- Quem garante é o seu passado. Sabemos perfeitamente quem é o senhor. Os seus interesses na herança deixada pelo senhor Antenor, lhe acompanham desde o seu ancestral, o senhor Agripino Ferreira, aliás, meu colega de profissão.
- Parece que o senhor andou estudando a minha árvore genealógica. Entretanto, isso não lhe dá o direito de pensar que eu sequestrei o neto do senhor Osvaldo Brandão.
- O seu nervosismo é tanto que o senhor não reparou nas minhas perguntas e nem na nossa conversa. Em momento algum eu disse de qual clínica a criança foi sequestrada, e muito menos quem eram seus familiares.
- Alguém está me acusando injustamente. Posso saber quem lhe disse isso?
- O senhor Joel, porteiro da clinica e o senhor Osmar, motorista do táxi, que o levou ao aeroporto de Jacarepaguá e depois o trouxe até aqui.
- Eles estão enganados. Naquele dia estive na clínica realmente, mas só fui levar os votos de felicidade, da comunidade, a mãe e a criança. Somos gratos àquela família pelo muito que fizeram pela nossa região. Estou completamente inocente nesta história.
- Quanto a isso, o senhor terá que convencer ao júri quando for a julgamento, pois o senhor está sendo preso sob a acusação de sequestro. – Nessa hora Ricardo identificou-se mostrando seu distintivo.
- Posso pelo menos dar um telefonema?
- No momento o senhor não pode nada. Primeiro iremos conversar com o juiz. Ele dirá quando o senhor poderá fazer sua ligação. Vai depender do senhor.
- Mas isso é um abuso de autoridade?
- Entenda como quiser. Vamos indo que o juiz não está a sua disposição o dia inteiro.
Ricardo saiu com ele procurando disfarçar ao máximo para não chamar atenção. E conseguiu. Já que o próprio Nivaldo era o maior interessado que isso acontecesse. Assim que entraram no carro, que não era da polícia, foi algemado.
Tudo aconteceu rapidamente e uma hora depois já estavam diante do Juiz Kleiton.
- Então é esse o senhor Nivaldo? O nosso sequestrador de criança? – O juiz dirigia-se ao delegado Ricardo de forma a não dar a entender de que se conheciam e estavam combinados.
- Já disse a ele que sou inocente, meritíssimo.
- Existem duas testemunhas que juraram ter sido o senhor que levou a criança naquele dia na clínica. Pensei que da baixada até aqui o senhor tivesse pensado e entendido que precisa colaborar com a justiça. – Perguntou o Juiz.
- Eu já disse ao delegado que eles estão enganados, mas parece que os senhores não estão acreditando em mim.
- Senhor Nivaldo, eu o aconselho a não complicar ainda mais a sua vida. O senhor Joel lhe viu saindo com a criança do prédio e entrando no táxi que estava no estacionamento. O senhor Osmar testemunhou o senhor fazer a entrega da criança a uma outra pessoa. Não adianta negar mais.
- Preciso do meu advogado.
- O senhor terá seu advogado assim que nos disser quem é a pessoa que está por trás de tudo. Quem é que recebeu a criança. E para onde ela foi levada. Após essas informações o senhor poderá falar com seu advogado.
- Se eu falar terei algum benefício no meu julgamento?
- Conte-nos tudo o que sabe, que de acordo com o seu envolvimento posso ajudá-lo ao fazer meu relatório policial. – Garantiu-lhe Ricardo.
- Eu vou falar, mas tem um porém.
- Que porém é esse agora? – Quis saber o Juiz.
- Como vocês estão me negando a presença do meu advogado só falo na presença de um outro juiz.
O juiz Kleiton, para não retardar mais as investigações e poder acabar rapidamente com o sequestro, resolveu atender ao pedido do Nivaldo e chamou seu colega que estava de plantão para que este tomasse o depoimento do acusado.
- Não sei desde quando o deputado tinha esse plano em mente. Eu só entrei dois meses depois de inaugurada a Vila Olímpica. Para ser mais preciso no dia cinco de fevereiro nos encontramos em um restaurante na Dutra e ele me pressionou para executar a primeira parte do seu plano de sequestrar o neto do Marquês.
O novo juiz tentando tomar conhecimento do que estava acontecendo quis mais explicação.
- Para que eu entenda melhor. Quem é esse deputado que o senhor acaba de mencionar? Também preciso saber que Marquês é esse, se nós não estamos mais no Império. É apelido de alguém?
- Doutor Jairo, o Marquês que ele se refere é o senhor Osvaldo Brandão, grão mestre da maçonaria, agora quanto ao deputado só ele sabe quem é. – Informou o juiz Kleiton.
- Estou falando do deputado Francisco da Costa Amaral. Foi ele quem determinou que eu pegasse a criança no berçário. No estacionamento um táxi estaria me esperando e me levaria até ao seu assessor, o senhor Gabriel Pinto Fraga, que estava no aeroporto de Jacarepaguá. Quando lá cheguei, ele já estava me esperando acompanhado por uma mulher, que pegou o pequeno Daniel e embarcaram num Cessna 421. Fiquei sabendo no controle aéreo que o avião levantou voo com destino à cidade de Montevidéu. A partir daí não sei de mais nada.
Com as novas informações o juiz Kleiton expediu mais dois mandados se prisão e o delegado Ricardo saiu para tentar localizar e efetuar a prisão do deputado. Qual não foi a sua surpresa quando descobriu que o deputado viajara para cidade de Valença dois dias antes deles receberam o primeiro contato anunciando o valor do resgate. E mais o impressionante de tudo, ele estava hospedado na mansão do senhor Osvaldo. Dessa forma, infiltrado na família como um amigo, não levantava suspeita e podia sentir toda movimentação dos parentes e saber se realmente iriam pagar o que pedira. Era preciso prendê-lo antes que ele fosse avisado da prisão do Nivaldo, para não por em risco a segurança do pequeno Daniel. Era preciso também ter muito cuidado com o pessoal da segurança pois tinha certeza de que todos estavam comprados por ele. Então todo cuidado era pouco.
Ricardo traçou um plano com seus dois assistentes e viajou imediatamente para Valença, desta vez chegaria lá sozinho, pois não queria chamar atenção. Por volta das nove horas da noite ele chegou à mansão. Estava combinado que os inspetores Amadeu e Onofre chegariam quinze minutos mais tarde.
O delegado foi recebido por Henrique ainda no portão. Caminharam por todo o jardim até a entrada principal acompanhados e sob os olhares atentos dos dois seguranças. Ricardo teve a confirmação de suas suspeitas ao perceber o comportamento deles. Procurou despistá-los reclamando de não ter até aquele momento uma única pista que o levasse aos sequestradores. Ao entrar constatou a presença do Cardeal, do deputado e do senhor Adalberto Cunha além dos familiares. Perguntado pelo Marquês de como estavam as investigações respondeu:
- Não vão nada bem senhor Osvaldo, mas não vou desistir. Tenho certeza que breve, mas muito breve mesmo prendo o mentor desse sequestro.
- O senhor acredita que seja uma pessoa só, delegado? Os guerrilheiros não estão metidos nisso? – Quem perguntava era o deputado demonstrando ligeira inquietação.
- Não. Esse sequestro não tem nada a ver com a guerrilha. – Garantiu mais uma vez o delegado.
- Então quem pode estar atrás disso tudo? – Quis saber o Cardeal.
Nesse exato momento um dos seguranças anuncia a presença dos inspetores no portão principal e informa que querem falar com o Marquês. Este imediatamente autoriza a entrada dos mesmos.
- Não sei o porquê da visita desses inspetores. Quem serão eles?
O senhor Osvaldo falava de forma que todos os presentes o escutava e voltando-se para o delegado quis saber.
- Ricardo, você veio com seus assistentes?
- Fui obrigado a vir acompanhado por eles, para maior segurança.
- Não estou entendendo?
- O senhor já vai entender.
Dizendo isso, Ricardo que estava ao lado do deputado não titubeou. Num gesto rápido, o algemou.
- Considere-se preso senhor Amaral pelo sequestro do pequeno Daniel.
O espanto foi geral. Ninguém conseguia entender nada. Há poucos instantes o delegado informava que não tinha nenhuma pista, agora de repente prendia o deputado. Este por sua vez, vendo-se algemado gritou pelos seguranças, mas não foi atendido, pois os mesmo também já se encontravam algemados.
Uma inquietante preocupação tomou conta dos presentes, mas Ricardo procurou tranquilizar a todos, explicando tudo que descobrira. Determinou que os três ficassem presos ali na mansão até o dia seguinte. Ao amanhecer prenderiam os dois seguranças que fariam a rendição e depois viajariam para o Rio de Janeiro. O deputado seria levado até a presença do juiz Kleiton e os seguranças seriam deixados na delegacia incomunicáveis, até ser feito o resgate do Daniel.
- Ricardo, não é perigoso? Pelo que entendi ainda não estão todos presos eles podem mandar matar meu neto.
- Fique tranquilo, senhor Osvaldo. Já prendemos o Nivaldo e agora o deputado Amaral, que é o mandante e chefe do grupo. Estão todos sem poder se comunicar, ou seja um não sabe que o outro está preso. Agora só falta prender o assistente do deputado, senhor Gabriel que está de posse da criança.
Quando amanheceu, por volta das seis horas, os dois seguranças que chegaram para a rendição, também foram presos, que por coincidência, eram os mesmo que estavam na clínica no dia do sequestro. Praticamente quase toda quadrilha já estava presa, se bem que, os seguranças a princípio seriam averiguados para saber a extensão de seu envolvimento no sequestro.
Para surpresa de todos, nesse mesmo dia, durante o café da manhã, ainda receberam outro bilhete que fora deixado na fazenda. Sendo que desta vez quem o escreveu, cometeu um pequeno erro, mas comprometedor. As novas informações estavam escritas num pequeno pedaço de papel como o anterior, porém esse pedaço de papel ofício era a parte que continha o timbre da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
“Sabemos que a saudade é grande, mas ainda não encontramos o local adequado para ser entregue o resgate de Cr$.25.000.000,00. Aguarde, que breve diremos onde o mesmo deverá ser depositado.”
Depois que todos leram, os bilhetes, – esse e o anterior – foram entregues ao delegado, que os guardou e levou para fazerem prova junto aos autos.
Enquanto os assistentes do Ricardo levavam para a delegacia os quatro seguranças, ele, com seu ilustre prisioneiro, se encontravam com o juiz Kleiton.
- Vejo que conseguiu localizar nosso sequestrador. Onde ele estava?
- Hospedado na mansão do senhor Osvaldo.
- Não posso negar, deputado. O senhor nesse detalhe foi inteligente. Aquartelou-se dentro da própria casa do inimigo, assim podia estar a par de todos os movimentos.
- Concordo com tudo o que o senhor disse, entretanto cometeu um erro crucial. Veja onde ele escreveu seus bilhetes pedindo resgate. – Entregou os papeis ao juiz.
- Muito interessante. Sabe o que minha avó costumava dizer quando um dos seus netos fazia algo errado, mas deixava uma pista, delegado? – O juiz perguntou com ar de riso.
- Não faço a mínima ideia, meritíssimo.
- Ela dizia: – Gato escondido com o rabo de fora. – E é justamente o que acabo de constatar.
- O ditado se encaixa perfeitamente no caso. – Concordou o delegado.
- Então deputado? Vai falar ou precisarei perguntar? – Quis saber o juiz.
- Não tenho nada para falar e como deputado exijo a presença do meu advogado aqui imediatamente.
Costa Amaral continuava arrogante, pensando que ia se sair bem se mantivesse a calma e pressionasse usando do atributo que o cargo lhe conferia.
- Deputado... – o juiz fez uma breve pausa como se tivesse pensando o que dizer e continuou. – Em outros tempos talvez o senhor até conseguisse impressionar usando seu cargo, mas hoje, em plena ditadura militar. Acho difícil. Portanto saiba que com um simples telefonema lhe coloco num avião e mando lhe jogar na selva amazônica. Entretanto não quero que tome o que acabo de falar como uma ameaça. Então por favor encurte nosso trabalho. Só vou perguntar essa vez. Onde está o senhor Gabriel com o menino? – Pressionou o juiz?
O deputado sabendo quem era o juiz e do que ele era capaz , resolveu falar.
- São vários os motivos que nos levaram a querer tomar a herança do Henrique, o primeiro... – Começou a falar, mas foi interrompido pelo juiz.
- Pula essa parte. Nós sabemos que são vocês três. São descendentes dos senhores Agripino Ferreira, Justino Fraga e Bernardo Amaral. Conhecemos toda história, por isso diga logo e sem rodeios. Onde está o Gabriel?
- Está em Portugal. Na quinta que pertenceu ao Justino Fraga e continua com a família de Gabriel.
- Mas uma pergunta. A família em Portugal sabe que se trata de um sequestro a presença da criança lá?
- Não. Para eles, Gabriel viajou com sua mulher e o filho recém nascido, por recomendação médica.
De posse do endereço da quinta em Coimbra, Ricardo viajou a Portugal e junto com a polícia portuguesa efetuou a prisão de Gabriel e libertou o pequeno Daniel. Estava elucidado o sequestro. Com a prisão efetuada dos envolvidos, todos foram levados ao tribunal, sendo julgados e condenados.
Um ano tinha se passado desde o nascimento do neto do Marquês.
A família agora reunida com vários amigos, na fazenda de sua propriedade, festejava o primeiro aniversário e o batizado do Daniel.
- Pronto, estamos diante de mais um Cristão. Que os caminhos desse menino sejam sempre iluminados pelo Senhor Jesus.
Com essas palavras o Cardeal Dom Anacleto terminara o batismo e dava inicio a pequena recepção. Todos ainda estavam traumatizados com o sequestro, e quase que automático faziam o balanço dos últimos acontecimentos.
- Que Deus ouça e atenda ao seu pedido, Dom Anacleto. – Era o desejo sincero do Marquês.
- Graças ao bom Deus tudo terminou bem. Agora acredito que estando todos na cadeia, terão bastante tempo para refletir e se arrependerem dos crimes cometidos. – Dom Anacleto expôs sua opinião.
- E pode ter certeza de que eles ficaram atrás das grades um bom tempo. Sentenciava o Juiz Kleiton.
- Infelizmente eu não estou tão certa quanto vocês. Parece que essa corrida para se apoderarem dessa maldita herança não vai terminar nunca. – Desabafou Isabel.
- Vai terminar sim, e eu sei como fazer isso acontecer. – Garantiu Henrique.
- Realmente não vejo como. Já fizemos de tudo e eles continuam se matando, indo presos e colocando em risco nossas vidas. – Lamentou o Marquês.
- Isabel, tenta esquecer tudo o que já passou. Com certeza não haverá mais perseguições a seus familiares. Com a nova segurança que vocês contrataram, ficará bem mais difícil qualquer investida desse sentido. – Afiançou o senhor Adalberto.
- Até por que não haverá mais herança para eles roubarem ou se apoderarem, qualifiquem esses atos cometidos como quiserem. – Afirmava Henrique.
- Com assim? Não haverá mais herança. – Quis saber o Cardeal.
- Como o meu antepassado, – senhor Antenor – eu também tenho um desejo e vou realizá-lo agora. Conforme prometi a Isabel, eu vou dividir essa enorme fortuna que tem o poder da destruição, em várias partes pequenas. Pequenas o suficiente para não atrair a cobiça de ninguém, mas grande o suficiente para ajudar em muito as instituições de caridades que irão recebê-las. E desde já, o senhor Adalberto através da maçonaria e Dom Anacleto com sua igreja, estão encarregados de selecionar as entidades que serão agraciadas.
- Eu contribuirei com a minha parte. Vou chamar alguns amigos jornalistas e pedir a eles que divulguem sua decisão na imprensa. – Avisou o Marquês.
- E eu, quando da entrega dos cheques as instituições, acertarei com a televisão para que esteja presente e documente o evento. – Falou o Cardeal.
- Dessa forma todos ficarão sabendo e com certeza vocês ficarão livres dos eventuais futuros abutres. – Afirmou o delegado Ricardo.
- Está bem assim, para você, Henrique? – Perguntou o senhor Adalberto.
- Gostaria de não ser necessário à divulgação da caridade, mas infelizmente sou obrigado a concordar com tudo, pois só assim todos saberão que não somos mais os donos dessa – como bem disse minha mulher – “maldita herança”. Além do mais tenho certeza de que o arrependimento não fará com que nossos perseguidores se redimam do presente e muito menos do que seus antepassados fizeram no passado, porém agora existe a possibilidade de uma nova vida para nós e quem sabe dessa forma eles desistam definitivamente. Presos, terão bastante tempo para essa reflexão.
- Bem, pelo visto, já está tudo resolvido, deixemos de lado todos os aborrecimentos e a partir de agora vamos dar início ao que viemos fazer aqui. Que é comemorar o batizado do meu querido neto. Um brinde a todos. – Propôs o Marquês.
Como sempre, todas as festas realizadas na fazenda, mesmo que pequenas, duravam uma semana e essa também não foi diferente, o que para Henrique, foi uma satisfação enorme, pois essa era mais uma nova experiência em sua vida.
Três meses mais tarde, sob forte esquema de segurança e documentado pela televisão, quarenta instituições de caridade recebiam cada uma, um cheque no valor de Cr$ 750.000,00.
Estava consumada a vontade de Henrique.
Agora sim, toda a família poderia viver em Paz.
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