Casos e Segredos
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Casos e Segredos
Memórias - Escrito em 2002
Rio de Janeiro - Brasil
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Dedico
A meu padrinho
Heleno Soares Pinhão
Em memória
Prólogo
Estaremos juntos daqui para frente dentro de um automóvel, pois esses são relatos vivenciados por mim durante nove anos, e que ocorreram em duas épocas distintas da minha vida quando trabalhei como taxista na cidade do Rio de Janeiro. A primeira vez foi do final de 1969 ao final de 1971 e a segunda vez, vinte e dois anos mais tarde, entre os anos de 1993 a 2000.
As experiências vividas serão contadas uma única vez, mas posso assegurar que algumas delas se repetiram ao longo desses anos, mudando apenas o personagem. Outras nem serão mencionadas por terem sido insignificantes, por serem sem graça e a grande maioria em nada terem acrescentado.
Os nomes que aqui aparecerão são fictícios, inclusive o meu, até porque a maioria eu não anotei, alguns sequer se apresentaram e outros não lembro o nome. Mas caso alguns desses verdadeiros personagens tiverem a oportunidade de ler estas passagens, com certeza lembrar-se-ão daquele momento pelo qual estavam passando na vida e verão que o seu grande problema de outrora, na verdade, não era tão grande. Entretanto hoje, ele serve de motivo para o objetivo maior desta obra, que é distrair aquele que estiver lendo este livro.
Outro grande e importante motivo que me leva a manter todos os personagens protegidos é que de maneira alguma posso expor aqueles que durante um longo tempo me sustentaram usando o meu táxi. E que agora, neste momento em que escrevo minhas memórias, voltam outra vez, mesmo que indiretamente, a me sustentar. Por isso o cuidado de salvaguardar todos aqueles passageiros que deixaram comigo sua história alegre ou triste, suas angústias, suas fraquezas, suas esperanças, suas revoltas, suas ideias e ideais ou tentaram se desvencilhar de seus problemas do momento. Alguns até conselhos e opiniões sobre seus problemas queriam, como se o banco que usavam do automóvel em que eu trabalhava fosse o divã de um analista.
Bem, de agora em diante passarei a narrar todos os meus momentos passados atrás de um volante. Posso garantir que foram vários os momentos, já que das vinte e quatro horas que existem no dia, em quinze eu estava lá, sempre atento ao trânsito, no pretenso passageiro e nas suas histórias. Digo pretenso porque alguns se fazem de distraídos para testar a atenção do motorista. Outros porque querem se fazer notar ou testar a sua própria importância. Há também aqueles que querem outro tipo de carro, mais novo ou de outra marca do seu agrado. Existem os que estão escolhendo o motorista, na esperança de encontrar o bem educado, o gentil ou o atencioso -e que de preferência não o roube no final ou durante a corrida. Em fim, usam o seu feeling para obter o melhor do atendimento naquele curto espaço de tempo que terão de dividir com um estranho. Não muito diferente de nós, os motoristas, que também fazemos o mesmo do lado de cá, tentando identificar o melhor passageiro. Em muitos casos até usando o sexto sentido, só que na intenção de nos proteger de um provável assaltante, embora em algumas vezes não dê certo.
Primeiro momento
Eu estava com vinte e dois anos. Tinha tirado a carteira de motorista há mais ou menos um ano, e como havia sido demitido da empresa em que trabalhava, meu pai me emprestou seu carro de praça marca Chevrolet, ano 1946 -um velho, mas conservado “garipão” muito usado ainda naquele tempo —, para eu trabalhar. Nessa época eu morava no Meyer.
Dizem que tudo na vida, quando é a primeira vez, não se esquece e o meu primeiro passageiro não pode fugir a regra, também não esqueci.
***
Saí de casa cedo, ainda não eram 06h00min da manhã, não tinha rodado muito (expressão usada pelos motoristas para quantificar seu trabalho) e logo apareceu meu primeiro passageiro, na verdade primeira, pois era uma mulher.
Parei, ela acomodou-se no banco traseiro e disse:
-Me leva ao centro da cidade.
Feliz da vida com a corrida, que de certa forma para a época era boa, saí em direção ao destino pedido. Aquela senhora não disse uma única palavra durante todo o trajeto e eu respeitei seu silêncio, até que no fim da corrida ela lançou a pergunta:
-Quanto lhe devo?
Olhei no taxímetro, um relógio mecânico da marca Capelinha, e para minha surpresa não marcava nada, ou melhor, não havia saído do zero. Era lógico, eu esquecera o principal, pôr o relógio para funcionar. Por essa razão, eu não sabia quanto era a corrida. Desculpei-me explicando-lhe rapidamente não estar ainda acostumado a acionar o relógio no início da corrida, pois era o meu primeiro dia trabalhando como taxista e ela era a minha primeira passageira. Deixei por conta dela para fazer o pagamento.
-Senhora, pague o que está acostumada, pois realmente não faço a menor ideia de quanto seja.
Para quem fez o trajeto inteiro sem dar uma palavra, ela me surpreendeu, pois sorriu, pagou, brincou e aconselhou:
-Que risco eu corri sendo sua cobaia, hein? Não se esqueça de pôr o relógio para funcionar. Alguns passageiros não serão tão benevolentes. Fique atento.
Desceu e foi embora.
***
Passei os instantes seguintes como criança fazendo castigo. Memorizando.
“Não posso esquecer-me de pôr o relógio para funcionar”.
Com certeza ao longo de todos esses anos trabalhados, outras vezes esqueci-me desse procedimento simples e em algumas delas, até me trouxeram problemas, mesmo não cobrando o trajeto utilizado.
Voltei do centro da cidade e continuei trabalhando pelo subúrbio, pois queria estar perto de casa para poder almoçar. Aliás, com aquele carro não dava para ficar rodando como nos dias atuais, era costume ficar estacionado no ponto de táxi esperando que o passageiro viesse até nós solicitar o serviço.
Ao meio dia almocei em casa e saí novamente. Estava entusiasmado porque tinha ganhado até àquela hora um bom dinheiro. Resolvi ir para o ponto onde meu pai sempre costumava ficar e de lá quando aparecesse algum passageiro engrenaria de novo no trabalho.
Estava quase chegando o ponto de táxi quando outra senhora fez sinal me requisitando. Parei e ela muito agitada pediu que a levasse bem rápido até a Rodoviária, pois estava em cima da hora para pegar o ônibus.
Coloquei o carro em marcha e ela novamente repetiu o pedido. Avisei que já havia entendido e que tentaria fazer o possível para que ela não perdesse o ônibus.
Aquela senhora era completamente diferente da que peguei na parte da manhã, não parava um só instante de falar. Como eu era novo de praça e ainda por cima não conhecia bem os caminhos, e muito menos os melhores, precisava estar atento no trajeto que fazia para não errar. Quando chegamos à Praça da Bandeira, ela agradeceu a Deus porque já estávamos quase chegando, mas continuava com aquele falatório infernal, falando de tudo e de todos.
Conclusão: quando eu estava descendo o viaduto que dá acesso tanto para a Rodoviária como para o centro da cidade, ao invés de virar a esquerda na direção da Rodoviária, fui em frente errando o caminho.
Pronto, a velha senhora quase me matou.
Pedi que se acalmasse, pois faria o retorno logo na frente e pegaria de novo o caminho certo. Tentei fazer ver a ela que daria tempo de chegar na hora, mas ela continuava falando, agora então com motivo, reclamava sem parar.
Passei para a pista central da Presidente Vargas para fazer o retorno, mais nervoso, errei de novo e entrei num retorno antes do que deveria.
Quando ela descobriu que eu tinha errado novamente, começou outra seção de reclamação. Agora com a ressalva de que eu estava tentando roubá-la, pois a corrida ia ficar uma fortuna já que teríamos que voltar até a Praça da Bandeira, subir o viaduto de novo e virar para a Rodoviária.
Neste exato momento olhei para o taxímetro para ver se não havia cometido o mesmo erro de deixá-lo parado. Imagina o que aconteceria se eu estivesse esquecido de ligá-lo.
Realmente fui obrigado a fazer aquele pequeno trajeto de novo, mas desta vez não errei. Seguimos para a Rodoviária. A velha senhora continuava a reclamar de tal forma, que eu já estava ficando tonto com tanta lamúria.
Chegamos à entrada principal da Rodoviária. Logo que parei o carro, ela pegou sua mala, abriu a porta e sem pagar a corrida saiu correndo para pegar o ônibus, eu nem me dei conta desse fato e ainda a escutei reclamando de que eu quase a tinha feito perder o ônibus.
Nesse meio tempo, o guarda que estava ali e também ouviu toda aquela reclamação, me olhou, vendo um garoto novo sentado num garipão daqueles achou logo que fosse arrumar algum trocado para o lanche.
Aproximou-se e pediu meus documentos.
-Vejo que tirou a carteira há pouco tempo.
-É verdade, mas dirijo desde o tempo em que era militar.
-Muito bonito o automóvel meu rapaz, é seu mesmo?
-Não, é do meu pai, mas está tudo certo, pode conferir.
Olhou toda a documentação, rodou por todo o veículo, conferiu as placas e coçando a cabeça disse:
-Não é que está tudo certo mesmo.
Ainda coçando a cabeça me liberou meio desiludido, ao ver que seu lanche imaginário batia asas.
Arranquei em busca de um novo cliente. E nesse exato momento achei que alguma coisa estava errada.
Lembrei!
Aquela velha rabugenta não tinha me pagado a corrida. Tarde demais. Fiquei uma fera comigo mesmo. Mas, tirando o prejuízo, foi bom como experiência para as corridas futuras.
***
Certo dia um homem solicitou o meu táxi. Batizei-lhe de Hamlet, pois era um famoso ator de teatro e televisão da época, aliás, era não, é, pois ainda continua vivo até hoje. Pediu-me para levá-lo a sua residência. Uma corrida curta, se é que posso chamar de corrida, pois me pareceu mais “uma caçada curta”. Não menciono aqui o local da zona sul onde o deixei, porque se o fizer estarei identificando esse passageiro, e não é esse o meu objetivo.
Sentou-se no banco de traz e logo comentou:
-Me surpreendeu e muito, deparar com você aqui, atrás desse volante.
-Por qual razão senhor? -perguntei, mas já sabendo o rumo que aquela conversa ia tomar.
-É que num carro desses, normalmente nós sempre encontramos um velho português barrigudo, mas estou comprovando que para tudo na vida tem as exceções... Quando é que eu poderia imaginar que num automóvel antigo como esse ia encontra um garotão bonito, saudável e livre como você?
-Bonito? Não diria tanto. Saudável sim, mas livre, lamento desapontá-lo estou praticamente casado.
-Não tem problema, eu não sou ciumento.
Que sem vergonha, pensei comigo.
-Mas Juliana a minha noiva é, e muito.
-Ela não precisa saber. Eu lhe garanto que sou discretíssimo.
Hamlet continuou insistindo com a sua cantada barata.
-Não... Nem pensar, pode tirar o seu cavalinho da chuva que comigo você não vai arrumar nada.
-Será que estou tão velho assim, para ser rejeitado? Ou não faço o seu tipo?
-Nada disso senhor, sua idade e o seu tipo não têm nada a ver. Na verdade o meu negócio e mulher mesmo, só isso.
-Pode parar aqui, por favor. Tem certeza que não quer subir?
Voltou a insistir numa última tentativa.
-Sem chance.
-Nós podemos tomar uns drinques e continuar batendo nosso papo, Que tal?
-Nada feito, meu negócio é mulher. Bom dia, senhor.
-Bom dia nada... Péssimo dia... Que horror!!!
Ele desceu resmungando e eu fiquei livre daquela boneca enrustida. O interessante é que passado quase quarenta anos eu não deixo de esquecer essa passagem, até porque vira e mexe ainda vejo esse senhor na televisão apresentando seu programa.
***
Era uma terça feira e como aquele dia estava um pouco fraco eu resolvi ir mais cedo para casa, porém quando se toma essa decisão aprendi que sempre aparece mais um passageiro, e logo um casal fez sinal para eu parar, era o Romeu e Julieta. Pediram-me para levá-los ao Alto da Boa Vista. Já dentro do carro escutei ele falar para sua acompanhante.
-Olha bem Julieta... Não é o ideal? Vai dar perfeitamente... Oferecemos uns trocados a mais ao motorista e está resolvido.
Enquanto eu me dirigia para o local que haviam pedido eles voltaram a falar sobre outras coisas, mas eu fiquei com aquela observação martelando na ideia, o que estaria ele querendo dizer com aquele “vai dar perfeitamente”. Será que estavam pensando em fazer alguma mudança com o meu carro?
Quando chegamos ao Alto, o Romeu pediu para entrar em direção a cachoeira e um pouco antes numa área bem espaçosa, onde vários outros carros estavam estacionados, pediu para eu parar. Reparei que dois táxis também estavam parados e foi nesse exato instante que descobri o que ele quis dizer com o “vai dar perfeitamente”.
-Motorista? Você pode dar uma volta por aí enquanto nos amamos? Não vamos demorar muito.
-Acho que o amigo confundiu meu carro com Motel, eu não o alugo para transação, você devia ter me consultado antes.
-Fica tranquilo que não vamos sujar nada e ainda por cima, vais ganhar uma gratificação extra. Agora por favor, cai fora e deixa a gente em paz.
Dizendo isso me deu uma carteirada mostrando ser da policia. Não tendo alternativa sai do carro e deixei os pombinhos se amando. Ao longe pude ver aquela bunda de fora que aparecia pelo vidro. Estavam pelados, não só eles, mas a maioria dos que estavam nos carros ali estacionados. Dirigi-me em direção ao sujeito, que me pareceu ser o outro taxista e que também estava esperando encostado numa mureta, para conversar e passar o tempo, já que não tinha outra coisa para fazer. Assim que cheguei junto a ele, me falou:
-Essa safadeza vai acabar daqui a pouco.
-Como assim? -perguntei, não entendo muito bem.
-Esses sem vergonhas me trouxeram até aqui em cima para ter relações sexuais dentro do meu carro sem me consultar. Isso não é um absurdo?
-Com certeza. Os meus clientes também fizeram o mesmo comigo.
-É, mas eles não perdem por esperar. Dei uma caminhada até ali no telefone da praça e liguei para um amigo que é Delegado, ele daqui a pouco está aqui. Vai levar todo mundo em cana.
Realmente não demorou muito, logo chegaram vários carros de polícia e mais ou menos vinte casais foram presos. O único casal que se deu bem foi o que eu levei, pois sendo policial conseguiu contornar a situação, entretanto foi obrigado a ir até a delegacia para não levantar protestos.
***
Durante três meses continuei trabalhando com o velho garipão com a intenção de adquirir experiência, prática e até mesmo a consciência se me adaptaria aquele trabalho.
Cheguei à conclusão de que não seria tão ruim trabalhar efetivamente na praça, mas como os tempos estavam mudando e os profissionais da área se modernizando, resolvemos eu e meu pai também acompanhar o progresso e partimos para a compra de um carro novo.
Era um investimento alto e que exigiria uma responsabilidade da minha parte bem maior, pois seria eu quem trabalharia para pagar as Duplicatas. Juntamos nossas economias e demos de entrada num Volkswagen de quatro portas, o lançamento da Fábrica daquele ano, que logo foi apelidado pelos motoristas da praça, de “Zé do caixão”. Esse apelido foi porque devido a sua chegada no mercado, os velhos carros foram sendo (enterrados) substituídos e aposentados. Rapidamente fizemos a permuta da licença entre os carros e quatro dias depois, lá estava eu de novo encarando o duro batente.
Com a aquisição do carro novo passei a ganhar muito dinheiro, pois os passageiros procurando cada vez mais a comodidade, já não estavam mais pegando os táxis nos pontos, mas sim esperando os que passassem por onde eles estivessem obrigando com isso a estarmos sempre em movimento por toda cidade, estava começando a nascer um novo hábito nos usuários de táxi e também uma maneira nova de trabalhar.
Voltemos ao que me propus a contar.
***
Um belo dia, falo no sentido de bonito mesmo, que não sei precisar qual, vinha eu passando em frente ao Aeroporto Santos Dumont por volta das 09h35min da manhã, quando um senhor, bem vestido, fez sinal.
Parei. Ele acomodou sua bagagem na mala, sentou-se no banco traseiro todo refestelado e disse:
-Meu rapaz eu pretendo lhe pagar o dobro da corrida, mas preciso estar em Madureira as 10h00min, você consegue?
Ato contínuo eu não pensei duas vezes; afundei o pé no acelerador como sendo a resposta para o que ele acabava de perguntar.
Rapidamente estava passando pela Igreja da Candelária.
Continuei com o pé em baixo mantendo a velocidade.
Passei enfiado pelo sinal que já estava amarelo no cruzamento da Avenida Presidente Vargas com a Avenida Rio Branco e antes mesmo de alcançar o cruzamento com a Rua Uruguaiana o velocímetro do automóvel já marcava a velocidade de 90 km.
Continuei varado pela Avenida, mas não consegui passar pelo sinal da Central. Parei.
Nesse momento tive a impressão de tê-lo ouvido falar: -“Pensando bem, acho melhor me atrasar”.
Voltando-me no banco, perguntei para me certificar:
-O senhor disse alguma coisa?
-Não é nada de mais não. Só estava aqui, pensando alto com meus botões. Pode continuar.
Tendo novamente carta branca para chegar rápido, voltei a afundar o pé no acelerador e sai batido. Quando estava chegando à Praça da Bandeira, o relógio marcava 09h42min. Constatei que iria ganhar o valor da corrida em dobro. Pensando nisso, apertei ainda mais o acelerador aumentando a velocidade, uma vez que aquela avenida era larga e segura para tal. Entretanto não pude continuar por muito tempo, pois o cavalheiro agora debruçado no banco da frente, apavorado gritou:
-Pode parar... Pode parar... Prefiro que vá devagar, mesmo sabendo que não chegarei a tempo, mas vou com a certeza de chegar.
Aí deu uma resmungada pensando alto;
“Preciso tomar cuidado com os pedidos, a praça esta jovem e afoita demais para os meus nervos”.
Desse ponto em diante passei a andar dentro de uma velocidade normal, já sabendo de antemão que ia chegar depois da hora combinada e perderia a gratificação. Entretanto para minha surpresa, mesmo chegando depois da hora ele pagou dobrado, como prometera.
***
Eu continuava fazendo meu trabalho com segurança, mais andando quase sempre um pouco acima do limite permitido, pois logo aprendi que quanto mais rápido largasse aquele passageiro, outro pegaria e com isso mais dinheiro estaria ganhando.
Foi quando veio a ducha de água fria.
Estava eu parado no sinal da Lagoa, na saída do Túnel Rebouças, na pista em direção a curva do Calombo. Do meu lado num Sinca Chambord estavam dois rapazes e três moças em trajes de banho. O sinal abriu e o motorista saiu numa velocidade de dar inveja aos melhores pilotos de corrida da época. Eu fui um pouco mais atrás, tipo 500 metros. Quando entrei na curva deparei com a cena que nunca mais me esqueceria:
-O carro dos jovens estava enfiado de frente numa dessa arvores centenárias existente até hoje na beira da calçada. As portas abertas. O rapaz que estava no lado do motorista saiu pelo vidro e foi parar a uns seis metros mais à frente. Desacordado. O motorista que ficou preso ao volante só se via em seu rosto os dois olhos azuis, o resto era só sangue e aquelas jovens caídas na calçada começavam a tentar se levantar do chão e não conseguiam, pois todas três tinham fratura nas pernas e nos braços, algumas dessas fraturas eram expostas.
Desse dia em diante passei a respeitar e a andar dentro dos limites permitidos, só quebrando a regra em casos extremamente excepcionais.
***
Chegou com o jeito e vestido que nem um malandro dos velhos tempos. Era Cornualdo, esse é o nome que arranjei para essa figura que se serviu do meu táxi. Eu estava em Cascadura voltando para o centro da cidade quando ele apareceu. Muito falante. De cara me convenceu a levá-lo em Cavalcante obrigando-me a mudar meu itinerário e que com certeza eu voltaria de lá vazio.
Assim que se acomodou no carro começou a falar com aquele linguajar peculiar da classe, do problema que estava lhe preocupando naquele momento.
-Meu camarada, dá uma olhada na minha pessoa e vê se eu tenho cara de corno?
-Por acaso o corno tem a cara diferente de quem não o é? -Perguntei.
-Com certeza compadre, corno é que nem babaca. Batemos o olho nele e pronto, ta escrito na testa. Por isso dá uma olhada com bastante calma e vê se você nota alguma coisa semelhante em mim.
-Veja bem, para falar a verdade não tem como saber, por exemplo, eu não consigo distinguir. Acredito que essa sua colocação serve para quando já se sabe que o cara é corno, aí fazemos a analogia da aparência com a situação em que se encontra aquela pessoa.
-Meu camarada... Você acaba de me tirar um peso da consciência.
-Por que você está falando isso?
-Eu descobri há uns dias atrás que sou corno e não estava sabendo como resolver esse pequeno problema, agora já sei o que fazer.
-Pequeno? Como assim?
-Como eu não tenho a cara de corno vou continuar com minha mulher.
-E vai assumir o papel de corno, assim numa boa?
-Claro, não faço nada para ninguém, meu camarada. Como, bebo, durmo e visto por conta dela, você acha que eu vou jogar tudo isso fora de uma hora para outra?
-Bem, acho que você vai voltar a ter um problema.
-Por que você está falando dessa forma, meu camarada?
-É que após sua confissão, olhando com mais atenção noto que a tua cara mudou.
-Cara... Para o carro agora... Você não devia ter dito isso...
-Por que isso agora? - Perguntei preocupado, afinal ele tinha dado abertura para aquele tipo de conversa.
-Você acaba de estragar o meu dia... Vou tomar umas para esquecer, antes de ir para casa... Agente se vê qualquer hora por aí.
Desceu do carro e entrou no bar da esquina, cumprimentando a todos e desde então, nunca mais o encontrei para saber que decisão tomou.
***
Cada dia mais raro era o passageiro que pegava o táxi no ponto, com isso nos obrigava a ficar passeando pela cidade a procura do cliente. Numa dessas procuras avistei ao longe, um grupo de pessoas que me chamavam, com o tradicional dedo levantado.
Parei, eram seis pessoas idosas, todas na faixa de setenta anos ou mais. Informaram que só viajariam quatro e pediram para que eu afastasse um pouco do meio fio para que eles pudessem entrar melhor no carro. Logo que afastei, começou um balé atarantado dos velhos. E foi mais ou menos assim.
-Sandra você não devia ter entrado, por que eu solto primeiro -falou o Sr. Júlio.
-Então Júlio eu vou ao meio?
-Vai Sandra, pois a Marli não viaja no centro e eu tendo que descer primeiro preciso ir nesta ponta.
-Esta bem, então eu vou sair para trocarmos de lugar.
-Vem, entra você agora Marli.
-Mas que confusão vocês estão fazendo?
-O Artur vai à frente com o motorista? -perguntou uma das senhoras.
-Vai, assim aproveita e paga logo à corrida -complementou o Sr. Júlio.
Riram.
-Espera! Pensando bem, vamos trocar de lugar outra vez... Sai todo mundo, a Sandra entra e deixa o Artur ir ao meio... Eu é que vou à frente, assim fica melhor.
-Por que isso agora? - perguntou Artur.
-Lembrei que a Marli solta logo depois de mim. Ela precisa estar nesta ponta.
Aqueles velhos se esbarrando num chega pra cá e pra lá, entrando e saindo do carro, até que seria cômico se não tivesse sido trágico, pois de repente uma das velhas tropeçou e caiu. Pronto, ali mesmo acabou minha corrida, ou melhor, nem começou. A velha senhora não conseguia se levantar, pois tinha quebrado o Colo do Fêmur. Com a minha ajuda a colocamos sentada no banco da frente do carro e ficamos esperando que a ambulância chegasse para levar a velha senhora para o Hospital.
Perdi um tempo enorme e não recebi uma prata sequer, só um “muito obrigado”. Na ocasião não gostei nem um pouco, mas hoje lembrando o fato acredito que valeu a pena ajudar e o fato em si está contribuindo para enriquecer minhas memórias.
***
Quando se é jovem pensamos que sabemos de tudo, que somos os mais espertos e que conosco nada vai acontecer.
Ledo engano.
Uns dias antes meu pai comentando comigo, me alertou a respeito de um passageiro que o enganara ali mesmo no Meyer.
Disse-me ele naquela ocasião:
-O camarada me fez parar na entrada de uma vila, ali no Cachambi, que aparentemente não tem saída. Alegando que estava sem dinheiro, foi pegar o dinheiro em casa para me pagar. Nem me dei conta de que ele ia fugir. Como demorou em voltar, resolvi entrar e ir até a casa que ele havia entrado e para minha surpresa não era uma casa, mas sim um beco de ligação com outra vila que ia dar saída numa outra rua.
Na mesma hora demonstrei o quanto ainda teria que aprender, pois não dei muita atenção ao alerta e ainda por cima fiz uma colocação que, mais cedo do que eu podia imaginar me arrependeria amargamente.
-Comigo isso não vai acontecer, pois estou sempre atento e se um passageiro disser que vai pegar o dinheiro em algum lugar, eu vou junto.
Aquele assunto terminou e passamos a conversar sobre outras coisas e praticamente esqueci o seu alerta.
Pois bem, naquela manhã na Usina um casal de senhores me parou:
-Meu rapaz, eu vou deixar minha esposa aqui na Praça Sans Pena e depois iremos até Petrópolis, lá você vai esperar eu apanhar umas encomendas na loja do meu irmão e voltamos. Você pode fazer essa corrida?
-Posso.
-Ah! As encomendas que eu vou pegar não são pesadas mais são volumosas e talvez lhe atrapalhe a visão pelo retrovisor interno, você não se importa de voltarmos com o carro cheio de embrulhos, se importa?
-Não tem problema, colocamos um pouco na mala e o resto nós arrumamos no banco traseiro.
Bem, tudo acertado entraram no carro e nós fomos embora.
Deixei aquela senhora na Praça e partimos para Petrópolis. O velho continuou sentado atrás. Pegou uma agenda e ficou escrevendo e consultando sei lá o que. Foi calado até ao local onde pegaria as encomendas. Quando nós chegamos, ele indicou o local para eu estacionar. Era bem em frente a uma ampla galeria que dali de fora eu podia ver todo o seu interior. Virou-se para mim e falou:
-Vou lá dentro avisar que estou com o carro parado aqui e mandar trazer os embrulhos, me aguarda que eu já volto.
-O senhor precisa de ajuda?
-Não se preocupe que os empregados trarão os pacotes. Ah! Motorista, eu deixei aí no banco traseiro minha agenda e minha capanga, da uma olhada para mim, por favor. -disse isso já subindo as escadas de acesso à galeria.
Olhei no banco traseiro e realmente lá estavam todos os seus pertences, voltei a olhar dentro da galeria e pude vê-lo entrando em uma das ultimas lojas. Sem nenhuma maldade, já do lado de fora do carro me encostei ao poste e fiquei esperando os empregados trazerem os embrulhos, mas o tempo foi passando e não aparecia ninguém, nem mesmo o passageiro.
Resolvi verificar o porquê daquela demora, pois já se tinham passado quase quinze minutos e ninguém dava o sinal da graça.
Fechei o carro e entrei na galeria. Caminhei até a loja onde o avistara entrar. Qual não foi a minha surpresa e indignação?
A loja dava saída para uma rua lateral ao prédio.
Ainda não acreditando no que tinha constatado, perguntei sobre o tal senhor. Disseram não o conhecer, mas se lembraram de tê-lo visto entrar na loja e sair no mesmo instante. Não ligaram, porque era costume das pessoas sempre utilizarem a loja da galeria para cortar caminho.
Voltei ao carro rapidamente, pois me lembrei da agenda e da capanga, talvez tivesse alguma coisa que pudesse identificá-lo. A capanga estava totalmente vazia, nem um alfinete tinha, mas na agenda, logo na primeira página o meu ilustre e distinto vigarista deixou escrito:
“Gostei muito de ter viajado com você, seu carro está muito bem cuidado e eu não podia ter encontrado nada melhor para dar uma volta. Valeu otário”.
Confesso: Fiquei chateado por ter sido enganado, não tanto pelo golpe que foi grande, mas pior seria ter que aguentar a gozação em casa e dos amigos, quanto contasse o ocorrido e mostrasse o bilhete que o safado me deixou.
***
Durante todo o tempo que eu trabalhava o radio estava sempre ligado. Era meu companheiro inseparável e costumava ouvir, ora a FM JB, ora a Radio MEC. Como prevenção, o som estava sempre à meia altura e nos alto-falantes instalados na frente, pois assim não incomodava a alguns passageiros e nem lhes dava motivo para reclamarem, principalmente aos que já chegavam irritados com o mundo. Quando o cliente gostava de música e também queria escutar aí é que eu passava o som para os alto-falantes traseiros.
Um belo dia, quando digo “belo dia” é só força de expressão, porque realmente o dia não estava nada bonito. Em Botafogo, Bush o prepotente, entrou no meu táxi fumando um daqueles enormes e fedorentos charutos.
-Vamos ao centro da cidade.
-Precisamente em que lugar do centro, senhor?
-Pode deixar que eu o aviso com antecedência.
Mesmo estando há pouco tempo trabalhando nesta área, a experiência e o meu sexto sentido me diziam que alguma coisa não daria certo naquela corrida e que eu deveria estar prevenido para não me aborrecer.
E não deu outra, o pavio da bomba que viria a explodir instante mais tarde, foi aceso naquele momento.
-Garoto desliga seu radio porque está me incomodando - determinou o senhor Bush, como se fosse o dono do mundo.
Eu era ainda jovem e não tinha aprendido a engolir sapo.
Aquela forma como aquele cidadão se dirigiu a mim me deixou irritado e acabei esquecendo que ele ia sair do carro alguns instante depois, bastava desligar o radio que dali a pouco ele teria ido embora e eu voltaria a escutar novamente minha musica numa boa. Mas não, resolvi peitar o sujeito e mostrar a ele que não era daquela forma que se faz à vida.
-Assim que o senhor apagar ou jogar fora esse seu charuto fedorento eu desligo o meu rádio, pois esse fedor também esta me incomodando e provavelmente incomodará ao próximo passageiro também.
-Eu não estou nem um pouco preocupado com o próximo passageiro... Quero que desligue o rádio e não vou apagar meu charuto.
Eu ia retrucar, mas nesse exato momento estávamos passando no cruzamento do final da Avenida Rio Branco com a Avenida Beira Mar e ainda por cima, na pista de fora. Quando acabei de passar pelo amplo e perigoso cruzamento, ele voltou a falar agora mais irritado ainda.
-Para o carro aqui e dá uma ré... Você tinha que ter passado para a pista de dentro.
-Eu perguntei, mas o senhor não avisou antes, agora não dá.
-Como vou para a Rua do México? Pare e volte.
-Não posso fazer isso... Vou em frente dou a volta pela Avenida Antônio Carlos, desço a Avenida Franklin Roosevelt e entro no final da Rua México.
-Nada disso. Volte -insistiu ele.
-Não tem como parar e dar ré nessa pista. É por demais, perigoso e sem contar que posso ser multado.
-Então não vou pagar a corrida... Não estou aqui para passear de carro pela cidade com você.
-Quando você entrou no carro lhe perguntei aonde ia, você disse que avisaria com antecedência e não o fez, portanto a responsabilidade pelo trajeto passou a ser sua, eu não sou adivinho para saber aonde você vai.
O rádio continuava ligado, o charuto enfumaçando o ambiente e a discussão já estava quase que chegando aos finalmente. Resolvi então, dar um basta. Parei bem ao lado de um Policial Militar e passei o problema para ele.
Para encurtar este relato.
A discussão continuou por mais uns quinze minutos entre o guarda e o passageiro. O carro parado no meio da rua transformou o trânsito naquele local em um inferno, não tinha um que ao passar não reclamasse.
Quando o senhor Bush resolveu pagar, quase começa outra discussão, pois eu havia deixado o relógio ligado e ele teve que pagar o total que marcava.
***
No Leblon o sujeito ergueu a mão para dar até logo para a mulher, eu pensando que ele queria um táxi parei e fiquei esperando-o entrar.
-Não queria o táxi não, amigo -disse ele abrindo a porta e mostrando um sorriso daqueles de quem vive de bem com a vida.
-Desculpe, pensei tê-lo visto fazer sinal.
-Já que você parou vamos nessa... Vamos ao centro em frente ao fórum.
Aquele homem deveria estar com seus quase cinquenta anos, mas acredito que devido sua forma alegre e expansiva de viver, aparentava ser bem mais jovem.
-Por onde o senhor quer ir?
-Pode me tratar de você. Vamos pela praia que é mais rápido e o visual é muito melhor, apesar de não podermos estar lá na areia junto de todo aquele mulheril.
-Nem lembra meu amigo... Se não posso mudar de ideia.
-Veja você como são as coisas, essas mulheres estão sempre tirando a gente do sério durante quase toda a nossa vida... Quando jovens, são essas loucuras que estamos vendo, cada uma melhor que a outra e nós querendo chegar junto a qualquer custo. Na meia idade tornam-se excelentes companheiras. Quando velhas, transformam-se totalmente e viram sogras, e aí é aquele horror não queremos estar junto de maneira nenhuma.
-Por enquanto só posso concordar com você na primeira parte, pode ser que daqui a uns vinte anos também venha a concordar com a segunda e quem sabe até a terceira.
-Não tenha dúvida meu caro, infelizmente esse é o caminho e não tem como andar por outro, a não ser que sua futura mulher não tenha mãe, mas aí a sogra será da sua mulher e com certeza vai sobrar para você, pois para sua mãe sua mulher é um posso de defeitos. Pode se preparando amigo... Pode se preparando.
-Certa vez estive conversando sobre esse assunto com meu avo e naquela ocasião ele disse mesmo assim: -quando chegar à hora finja que é cego, surdo e mudo. E assim vai levando a vida, pois o que elas querem e vê-lo irritado, não conseguindo, o feitiço vira contra o feiticeiro.
-Eu também pensava igual até conviver com a “jarcú”.
-Jarcú? O que isso?
-É o resultado do cruzamento da jararaca, com a surucucu, deu aquilo que tenho lá em casa.
-Agora eu não entendi. Você esta reclamando, mas eu te vi dando adeus para ela na janela. É para que ela não te morda quando você voltar?
Ele deu uma gargalhada e se justificou:
-Estou falando da minha maldita sogra, aquela era minha mulher, gente fina em todos os sentidos, grande mulher e posso te garantir que não tem outra igual.
-É... Mas como todas as outras, ela vai virar sogra também e o que você me diz?
-Não pensei nisso, mas quando acontecer o problema não será meu e sim do infeliz que tiver que aturá-la como sogra.
-Mas vai pensando, que com certeza vai sobrar para você. Para sua mulher o cara não vai passar de um vagabundo de olho nos teus bens.
-Olha só, quando o papo é bom à viagem passa rápido... Já estamos chegando.
-O transito estava livre e os sinais quase todos estavam verde.
-Bem, quando nos encontrarmos novamente acabamos esse papo cabeça.
-Eu estou sempre por aí rodando. É só levantar o braço como fizeste que eu paro -rimos lembrando o início da corrida.
-Até a próxima.
Aquele homem saiu como entrou no meu carro, alegre e sorridente.
***
Sempre na hora do lanche eu parava próximo da Igreja dos Capuchinhos, aliás, não só eu, mas uma centena de outros taxistas. O motivo? Ali tem uma padaria cujo pão francês feito na hora, é imbatível, se comparado a qualquer outro das padarias que tem por aí. Além d’eu fazer meu lanche costumava dar uma volta andando pelo quarteirão para exercitar as pernas.
Num dia desses quando retornei da minha caminhada encontrei sentado no banco de traz um sujeito, que quando me viu foi logo dizendo com aquela voz arrastada:
-Meu camarada... Eu to um pouco alcoolizado e como recebi meu pagamento hoje preciso que você me leve para casa... Não quero correr o risco de ser assaltado.
Para se acreditar naquela afirmativa dele, de estar “pouco alcoolizado” ele teria que ter bebido a metade do que bebeu. O cara estava completamente bêbado, mas como quem está na chuva tem mais é que se molhar, eu concordei em levá-lo para casa.
-Onde é que você mora? -perguntei meio sem paciência.
O cara estava tão bêbado que falou sem qualquer noção de direção.
-Vai por aí que eu te ensino -disse apontando na direção contrária ao fluxo do trânsito.
-É melhor dizer o bairro que eu sei como chegar.
-Marechal Hermes... Olha, têm ai vinte pratas pra pagar a corrida... Eu sei que dá isso até lá em casa -e jogou duas notas de dez no banco da frente.
-Fica com o dinheiro, quando nós chegarmos você paga o que estiver marcando no relógio.
-Sei que dá isso, mas já que não está acreditando toma mais dez -jogou outra nota no banco.
Tentei devolver o dinheiro, mas o cara bêbado do jeito que estava ficava impossível um entendimento então resolvi deixar para lá e acertaria tudo no final. Olhei no retrovisor e vi que o cara deu uma cochilada. Achei melhor assim e acelerei um pouco mais na intenção de me livrar mais rápido do bebum. De repente ele acordou.
-Motorista! Olha aí, vou botar vinte pratas no banco pra pagar a corrida. - E jogou mais duas notas de dez no banco antes que eu pudesse falar alguma coisa.
-Você já me deu dinheiro para pagar a corrida e quando nós chegarmos a sua casa, eu ainda terei que lhe dar troco, pode guardar esses dez - tentei de novo devolver o dinheiro.
-Eu ainda não paguei a corrida... Quero que o dinheiro fique aí... Pra depois não dizer que eu não paguei.
Por mais duas vezes ele voltou a colocar dinheiro no banco e para não esquentar minha cabeça resolvi não falar mais nada, quando chegasse à casa dele eu chamaria alguém da família e devolveria o que tivesse ultrapassado ao valor marcado no relógio.
-Chegamos a Marechal, qual é a rua que você mora? -perguntei.
-É na rua atrás do hospital... Vai lá que eu sei qual é a casa.
O cara continuava bêbado que nem um gambá. Entrei na tal rua que ele falou e alguma coisa dizia no meu consciente que eu ia me aborrecer.
-É aqui, pode parar -gritou o safado.
-Calma meu amigo.
-Como calma? Você passou da casa... Volta um pouco que é a de trás... Parece até que você ta bêbado.
Na calçada da casa estavam três pessoas sentadas conversando, que vieram em nossa direção quando parei em frente a elas. O passageiro continuava sentado, de tão bêbado não tinha forças nem para sair do carro.
Abriram à porta e o ajudaram a sair, logo identifiquei quem era a sua mulher e a chamei para devolver o dinheiro que ele tinha dado a mais. Quando devolvi explicando o que tinha acontecido ela imediatamente perguntou ao safado sobre o dinheiro dele e com a resposta dada começou o meu aborrecimento, pois o sem vergonha quando perguntado respondeu:
-O dinheiro está todo com o motorista... Paguei o táxi.
-Mas aqui só tem sessenta reais, onde está o resto do seu pagamento, Valfrido?
-Ta com ele... Botei tudo no banco do carro... Olha bem que ta tudo lá... E eu já paguei... Não vai pagar a corrida de novo.
Resumindo essa passagem, fomos todos parar na Delegacia de Marechal, pois o cunhado do sem vergonha, outro safado que gostava de tomar uma birita que nem o Valfrido chamou a polícia. No final após tudo esclarecido o Delegado resolveu deixar os dois detidos para curarem o porre.
***
Certa sexta-feira sai de casa como sempre bem cedo, estava com a intenção de faturar um bom dinheiro, pois não queria trabalhar de jeito nenhum naquele final de semana. Como sempre fui sem destino em busca do principal, mas para minha surpresa a sorte naquela sexta não estava ao meu lado e posso garantir que não estava no mês de Agosto e nem o dia era 13.
Eram quase 10hs 00min e não tinha feito uma única corrida. Vinha eu voltando em direção ao centro pela Avenida Suburbana quando de repente um homem saindo meio apressado de uma loja gesticulava nervosamente na minha direção. Parei, ele colocou a cabeça para dentro do carro e me perguntou:
-O amigo está trabalhando?
Achei a pergunta idiota, mas o que podia fazer, respondi afirmativamente. Ele entrou e se justificou:
-Lhe fiz a pergunta por que já parei três colegas seus e ninguém quis me levar.
Brinquei, mas não devia tê-lo feito.
-Quem sabe não foi obra do destino nos encontrar.
-Então vamos a Petrópolis, você me espera, almoçamos por lá e eu volto com você mesmo.
Lá fomos nós. Meu passageiro parecia que já me conhecia a longo tempo tal a empatia que se criou. Praticamente fiquei sabendo da sua vida quase toda, mas constatei também o quanto era prepotente quando lá chegamos, pois sua transformação foi imediata.
Sua ida a Petrópolis foi para receber uma fatura de algumas peças que havia vendido e a pessoa estava enrolando para pagar, por isso resolveu ir pessoalmente receber. Pareceu-me que estava determinado a sair de lá só quando recebesse, e em dinheiro. Estacionei o carro num trecho sem saída que não atrapalhava o transito e ao mesmo tempo dava para observar da entrada da tal loja, todo o movimento a volta de onde estacionei.
Três horas mais tarde já tínhamos almoçado e estávamos voltando.
Quando chegamos à Piedade em frente à mesma loja em que ele pegou o táxi, começou o meu problema. O Jaime, era assim que ele chamava, achou de me pagar com mercadoria.
Sua loja era dessa de artigos religiosos, mas vendia de tudo que se possa imaginar e o cara cismou de me fazer escolher mercadorias para efetivar o pagamento da corrida.
Recusei. Começou a discussão e a grande “amizade” que havia se formado, terminou como por encanto. O cordeiro que ele aparentava ser se transformou rapidamente em lobo feroz. Fomos parar na Delegacia do Meyer. Para minha sorte e azar dele, o Delegado que estava de plantão naquele dia e era o meu amigo Jaguaré, companheiro das farras de Sábado e do futebol de Domingo. Eu e meu amigo somente nos cumprimentamos e não dissemos uma única palavra que pudesse demonstrar que nos conhecíamos.
O delegado ao terminar de ouvir a reclamação do Jaime perguntou:
-Quando o senhor pegou o táxi avisou ao motorista que pagaria em mercadoria?
-Realmente não o consultei - respondeu o Sr. Jaime.
Com a resposta negativa de Jaime veio à sentença:
-Senhor Jaime, vou lhe dar duas opções para escolher: -a primeira pagar o aluguel do automóvel em moeda corrente. A segunda ficar preso até fazê-lo. O senhor é quem vai decidir.
Nesse momento o meu amigo Jaguaré perguntou se o relógio ainda estava ligado, como que a obrigar meu passageiro a refletir e decidir mais rápido.
Com a minha resposta positiva, o senhor Jaime resolveu pagar na mesma hora.
***
Na Tijuca, mais precisamente na Praça Sans Pena, Magda, uma linda mulher, dessas de parar o trânsito. Corpo violão. Pele branca. Levemente bronzeada por ter ido à praia no fim de semana. Cabelos castanhos claro, longos e cacheados. Com um vestido vermelho colado ao corpo, tudo aquilo parecia uma miragem. Não tinha quem não a olhasse. Fez sinal e entrou todinha no meu carrinho. Com uma voz sedutora perguntou:
-Pode me levar ao Grajaú?
Olha só que ironia, um material daqueles, me pedindo para levá-la ao Grajaú, como se eu fosse louco de recusar.
Respondi de imediato:
-Só se for agora senhora.
Ela deu um sorriso e com um ar maroto a danada sentou atrás, cruzando as pernas de tal forma que eu não sabia se olhava pra frente ou para traz. Logo começou a se lastimar da convivência com o marido, dizendo:
-Não sei como pode. Meu velho marido tem um ciúme doentio de mim, mas não é nem um pouco carinhoso e não me procura para fazer amor como eu gostaria.
Fiquei logo aceso e pensei com os meus botões, é hoje que o “pobre pedinte” comedor de carne moída, vai passar a “empresário caridoso” e comer caviar.
-Vai ver a senhora também não contribui?
Ponderei com educação e tentando ao máximo parecer despretensioso continuei, sem que ela tivesse tempo de responder:
-Por exemplo; quando vai para cama dormir, você coloca um baby-doll preto, ou algo mais excitante?
-Não. Eu só sei dormir nua.
Que maravilha! -Pensei. Apesar de ser muita areia para o meu caminhãozinho, eu estava decidido a fazer duas viagens.
O sinal estava fechado no entroncamento das Ruas, Barão do Bom Retiro e Teodoro da Silva. Como esse sinal era demorado, resolvi dar o bote ali mesmo, pois caso houvesse um entendimento afirmativo, mais na frente subia a Estrada Grajaú -Jacarepaguá e praticamente estávamos no Motel.
Aquele sinal sempre foi demorado e torci para que demorasse ainda mais. Quando me viro para iniciar o approach, ela sentindo o que eu ia fazer meio que nervosa falou:
-Que pena, vem vindo o meu velho marido.
Quase não acreditei. O cara tinha nos avistado no meio de todos aqueles carros. Veio e entrou, sentando no banco da frente falou se dirigindo a mim:
-Estou pegando uma carona até em casa com a minha mulher, posso?
-Mais é claro senhor fique a vontade. Apesar de já estar próxima, uma carona sempre cai bem, ainda mais com o esse sol que está fazendo - concordei desiludido.
Vi meu caviar voando preso nas garras daquela águia velha e esperta. Durante vários dias sempre que passava pelo Grajaú eu dava uma carujada na casa em que deixei aquela Deusa, mas infelizmente não tive o prazer de revê-la.
***
Num certo Sábado, precisando de dinheiro resolvi trabalhar. Coisa rara, mas mesmo assim fui à luta. Estava na direção de Marechal Hermes pela Avenida João Vicente, mais ou menos 09hs 00min, dois camaradas me requisitaram.
Parei. Entraram. Um sentou na frente a meu lado e o outro se acomodou no banco traseiro. Um deles falou:
-Pode continuar seguindo em frente.
Pensei com os meus botões, vou ser assaltado. Pouco mais na frente um deles tirou um revolver da cintura e colocou em cima do banco. Tive a quase certeza de que ia ser assaltado. De repente me mandaram entrar numa rua à esquerda entre Bento Ribeiro e Marechal, e logo que entrei deram a ordem:
-Pare aí compadre.
Como tinha muita gente naquele local, fiquei mais calmo. Não era possível que eles fossem me assaltar diante de tantas pessoas.
Foi aí que percebi, ali funcionava um ponto de bicho.
Eles desceram foram até o encarregado do movimento e pegaram uma grana. Voltaram entraram e me mandaram seguir em frente dizendo que eles iriam me orientando qual o caminho que deveria ser feito. Mais adiante paramos novamente, era outro ponto de bicho. Mesmo ritual, desceram foram até onde estava o pessoal da contravenção e apanharam outra grana. Voltaram e um deles falou:
-Piloto, nós resolvemos ficar com você o dia inteiro, tem algum problema?
-Nenhum, respondi.
-Então, fica tranquilo que quando terminarmos você vai estar numa boa. Qual é o seu nome?
-Herbert.
-O meu é Marcelo e o dele é Peixoto. Então vamos que tem muito trabalho pela frente, sentenciou o Marcelo.
Ao longo do dia fiquei sabendo que um era policial detetive da Delegacia de Roubos e Furtos e o outro era da Delegacia de Entorpecentes. Já era de tarde quando o detetive Peixoto falou para o amigo, já podemos começar a pegar para os três, que você acha?
-Sim, mas precisamos consultá-lo, pode ser que não queira.
-Acho difícil, mas faremos isso na volta.
Não entendi bem o que eles estavam tramando naquela hora, mais logo fiquei sabendo. No primeiro ponto de bicho que paramos, eles desceram e demoraram um pouco mais do que o de costume. Quando voltaram os dois sentaram atrás, pegaram todo o dinheiro colocaram no banco da frente e por cima do dinheiro descansaram uma pistola automática. Falando para mim:
-De agora em diante você toma conta da nossa grana, que no final o que tiver no banco vai ser dividido por três. Sua parte será o pagamento da corrida. Está combinado assim ou você quer receber o que estiver marcando no relógio?
Sem pensar um segundo respondi que estava fechado. Desliguei o relógio, mas alertei para que se a fiscalização da Prefeitura me parasse eles teriam que intervir junto aos fiscais. Não puseram nenhum obstáculo ao meu pedido. Tudo acertado nós continuamos a trabalhar até as 06h00min da tarde. Segundo eles, a extorsão passou a ser pedida para três, como se eu fosse também um policial. Encerrado o expediente, a féria foi dividida religiosamente em partes iguais. Naquele Sábado ganhei o equivalente a vinte vezes o que normalmente fazia.
A partir desse dia sempre que saia aos Sábados para trabalhar, procurava encontrar uma mina como aquela. Mas sempre em vão.
***
Com um ano trabalhando na praça descobri que o carro quando estava alugado se transformava automaticamente em um confessionário ambulante, algumas pessoas não faziam nenhuma cerimônia e ali mesmo sem nenhum constrangimento desfiavam suas vidas, pois tinham a convicção de que não mais iríamos nos encontrar.
Após quinze meses, terminara de pagar o carro. Tinha sido muito duro, mas mesmo assim eu e meu pai resolvemos comprar outro táxi. E compramos.
Agora eu trabalhava com um carro e meu pai no outro. Nossa intenção era de tentar fazer uma frota, pois naquela época a Prefeitura estava começando dar concessões para serem abertas Empresas a quem quisesse investir nessa área e prestar esse tipo de serviço a população.
Bem, vou deixar de lado nossas ideias e voltar para as memórias, pois ainda tenho muito para contar.
***
Em um desses dias de sorte peguei um casal de judeus. Conversa vai, conversa vem passei a servi-los sempre que precisavam. Ficamos amigos e acabei adquirindo a confiança deles, tanto que me confidenciaram que negociavam com ouro, pedras preciosas e joias.
Eu e meu pai passamos a levar Sara e Aron a todos os lugares. Sempre que tinham alguma remessa valiosa para pegar, fosse de ouro ou de pedras preciosas um de nós é que os atendia.
Com este casal meu pai comprou varias joias para minha mãe e para ele também. Até eu adquiri com eles, um relógio Omega de ouro e com a pulseira também de ouro. Compra essa, que logo me arrependi, pois o preço dele foi igual à de um carro e meio 0 km. Conclusão eu tive que voltar a trabalhar duro e para sustentar aquela vaidade, aumentei a carga horária em duas horas a mais diariamente.
Época boa aquela. Podia-se andar com joias em qualquer lugar e a qualquer hora que nada acontecia. Hoje está tão arriscado, que é bem capaz do ladrão estar esperando na saída da sua casa, se você, pensar em sair com um relógio de ouro ou algo um pouco mais valioso.
***
Toda as sexta feira 03h30min eu tinha um cliente certo, na verdade não era mais um cliente, mais sim um amigo. Seu Antônio era o dono de uma casa de flores localizada no Engenho Novo, hoje não existe mais. Eu o levava ao local onde ficavam estacionados os caminhões que transportavam flores vindas do Estado de São Paulo da cidade de Holambra, lá ele comprava a quantidade mais ou menos certa que iriam ser vendidas naquele fim de semana e durante o resto da semana seguinte. Seu Antônio era um português de estatura média, mas grande de tão gordo que era. Toda madrugada de sexta eu emprestava meus ouvidos para aquela conversa que era a mesma de sempre e com aquele sotaque carregado dos patrícios, ele fingia que desabafava:
-Oh garoto, tenha muito cuidado quando tu casares. Veja eu, tenho quase certeza de que minha mulher, a Maria tu a conheces muito bem, quando saio para o mercado ela aproveita e bota o safado do Dias em cima da minha cama.
-Que isso seu Antônio, não fala besteira.
-É verdade. Agora tu me digas que eu faço com esses dois?
Eu de molecagem, respondia também sempre à mesma coisa:
-O seu Antônio, eu já lhe falei e vou repetir. Tira a cama de lá.
Ele ria e me respondia:
-Tu deves pensar que sou burro, não?
Aí eu completava:
-Burro não, mas corno sim.
E ele ria mais ainda. E assim íamos jogando conversa fora o tempo todo. Quando voltávamos Dona Maria já estava com a loja aberta e resmungava:
-Só você mesmo para aturar as besteiras que esse velho maluco diz. Eu sei muito bem o que ele fala de mim, mas qualquer hora dessa eu volto para Portugal com o Dias.
Detalhe, eu nunca soube e nem vi esse tal de Dias.
***
O sujeito de terno preto me parou e pediu que o levasse ao cemitério do Caju. Abri a porta ele entrou e eu logo desliguei o radio em sinal de respeito a sua dor. Para minha surpresa ele mandou deixar o radio ligado e foi logo dizendo:
-Rapaz minha sogra morreu, e eu estou muito feliz. Apesar do luto.
-Que bom para o senhor.
-Agora só falta uma coisa para minha felicidade ficar completa.
-Posso saber o que é?
-Claro, está faltando morrer aquele parasita do meu cunhado que mora comigo e não faz nada pra ninguém.
Liguei novamente o radio e continuamos a viagem em silencio. Não demorou muito e ele pergunta a queima roupa e sem rodeios:
-Motorista... Você não sabe onde eu poderia encontrar alguém que faça esse favor pra mim?
-Que favor o senhor quer que seja feito?
-Você entendeu muito bem, não se faça de inocente. Estou falando de alguém que mande aquele escroto do meu cunhado para o inferno.
-Tenho certeza de que o amigo está me confundindo.
-Tudo bem. Não se ofenda tanto, mas mesmo assim estou disposto a pagar bem e você leva uma nota só pela informação, não vai precisar fazer mais nada.
Olhei para ele meio espantado, pois vi que o cara estava falando sério. Ele num tom suave pediu que não respondesse naquele momento, mas deixou comigo um cartão de visitas com o nome de Temístocles. Quando chegamos ao Cemitério ele nem perguntou quanto era, deixou uma nota de $50 em cima do banco. Mandou-me guardar o troco e reforçou:
-Pensa com carinho na minha proposta e me liga. Pago o que for para me livrar do safado, não se esqueça.
***
Em uma ocasião fui obrigado por um policial a atender um passageiro que estava completamente embriagado. Ainda bem que a corrida era curta e eu impus a condição de que ele também fosse junto, alegando a possibilidade de que ao chegar a casa dele o responsável não querer pagar a corrida, pois o cara estava sem um tostão no bolso. Ele concordou e lá fomos os três. Até que foi divertido. Dentre algumas coisas que aquele alcoólatra falou, uma eu nunca mais esqueci. O cara estava bêbado que nem um gambá, mas não tinha bebido o juízo, de repente sem mais nem menos ele se vira para o policial e diz assim:
-O seu guarda... Eu vou te falar uma coisa, eu só não te peço pro senhor mandar a minha sogra Geny pro inferno, é porque tenho pena do diabo. Afinal ele não tem nada a ver com as minhas desavenças com ela aqui na terra. Num to certo?
O cabo já meio invocado por ter que estar nos acompanhado retrucou:
-Cala essa boca, senão quando nos chegarmos à sua casa te entrego de bandeja para o pessoal.
-Calma seu guarda, tava só brincando.
-Presta atenção, eu não sou guarda, sou um policial militar e não estou aqui para aturar seu porre e nem de brincadeira, entendeu?
-Certo companheiro, não ta mais aqui quem falou.
-Já mandei calar essa boca. Se continuar mando o motorista mudar o itinerário e te levo para a Delegacia preso.
-Xi! O homem ta brabo, motorista anda rápido que eu não quero me indispor com lei.
Quando chegamos e o policial disse quanto tinha que pagar no bar e mais o preço da corrida de ida e volta, o bebum começou levar um coro da mulher e da sogra ali mesmo no meio da rua.
***
Sexta feira sempre foi um bom dia para a praça. Todo mundo sai do trabalho e ficam pela rua até mais tarde, outros saem de casa para jantar e ir a um teatro ou cinema, em fim, é o momento do relaxamento total e de extravasar o estresse de uma semana de trabalho e nós taxistas, sabendo disso aproveitamos para trabalhar até mais tarde.
Foi justamente em uma dessas sexta que me aconteceu um caso muito interessante, era quase meia noite quando parei para tomar um suco em um bar da Rua Prado Junior. Um casal se aproximou e o homem perguntou:
-E aí camarada, pode levar minha amiga em Del Castilho?
-Claro, assim que eu acabar de lanchar eu a levo.
A Fernanda deveria ter no máximo uns vinte anos. Não era um “Concorde” como a passageira que pegou meu táxi na Praça Sans Pena, mas também não era um bi motor qualquer para se jogar fora. Sentou no banco de traz e fomos conversando. Logo notei que ela estava preocupada e pensei: -“deve ser devido à vida que leva”.
Como sempre, a pauta principal das conversas eram os problemas, e com ela não foi diferente. Sua história era dramática como a de todas as mulheres da vida. Ainda lembro-me de todas as suas dificuldades.
Um filho com problemas de saúde.
Teve que abandonar o homem que vivia a espancá-la e caiu na vida.
Como não era casada estava na justiça tentando arrumar a pensão para o filho.
Os pais como foram contra aquela união não lhe davam nenhum apoio.
O dinheiro era curto para o aluguel.
Para culminar aquele que a tinha posto no táxi era o cafetão da área e havia lhe tomado todo o dinheiro que ganhara naquele dia.
Neste exato momento descobri o motivo da sua preocupação e senti que as garras do seu problema também iriam me arranhar. Com toda certeza ela não tinha dinheiro para pagar a corrida e estava levemente preparando o terreno para me dar à notícia que eu já desconfiava. Resolvi não esquentar a cabeça, já ia mesmo para casa e de Del Castilho para o Meyer o prejuízo não seria tão grande. Sua estratégia me pareceu muito bem calculada, pois quando estávamos quase chegando ao destino foi que resolveu falar.
-Olha não leve a mal, mas eu não tenho dinheiro para pagar a corrida.
Foi bastante esperta, pois se eu resolvesse deixá-la ali, dali mesmo dava para ela ir a pé para casa. Não reclamei, já tinha resolvido mesmo absorver o prejuízo, continuei até o final.
-Você não vai dizer nada?
Continuei calado.
Quando chegamos frente a sua casa ela falou:
-Vamos entrar e tomar um café depois fumar um baseado, tomar um banho e então veremos o que a vida nos reserva. O que você me diz, está afim?
Diante daquele convite irresistível e sem ter nada de importante para fazer naquela hora da noite, aceitei, mas impus uma condição.
-Tudo bem, mas sem a maldita droga. Dá pra ser sem ela?
-Como você quiser Cherry.
Conclusão dessa história, cheguei em casa as 17hs 00min do dia seguinte alegando que tinha trabalhado demais, pois aguardavam-me mais duas mulheres também preocupadas, só que comigo, minha mãe e minha namorada.
Naquele Sábado à tarde, eu estava extenuado...
***
Já que estávamos determinados a montar uma pequena frota de táxi resolvi colocar outro motorista para dirigir e para isso passamos a fazer dois turnos de doze horas cada, meu pai trabalhava de dia e esse motorista à noite. Começamos primeiro com um táxi para sentir como seria essa nova experiência, caso desse certo nós colocaríamos outro motorista.
Após um mês, em conversa com meu amigo Jaguaré, eu fiquei sabendo que o seu cunhado marido de sua irmã, tinha ficado desempregado e estava precisando trabalhar. Eu não estava querendo por outro motorista de imediato, mas devido à situação e a insistência desse meu amigo, cedi e me dei mal. Com quinze dias trabalhando ele provocou um acidente na Avenida Maxwell. Acidente não, um desastre, tal a dimensão do estrago não só material como também físico. Cheguei ao local e me deparei com cenário caótico. Meu táxi descansava no fundo do canal que separa as duas pistas da avenida, totalmente destruído. O passageiro e o motorista foram levados em estado grave para o hospital do Andaraí e com isso não tinha ninguém para contar à perícia que estava no local como tinha acontecido o acidente. Conclusão: - o verdadeiro causador do acidente estava absoluto no local e de culpado passou a ser a grande vítima.
Com o laudo pericial a favor dele, meu prejuízo aumentava ainda mais. Tentei desfazer a situação junto aos policiais, mostrando as marcas de freio no chão, a posição dos automóveis em fim, perdi meu tempo, pois o português, verdadeiro culpado tinha dado uma grana a eles.
No meio dessa confusão toda apareceu uma pessoa que eu nunca tinha visto e me perguntou:
-Você é o dono do carro?
-Sou. -respondi desanimado.
-O pessoal da perícia ta te fritando no laudo, você não vai fazer nada?
-Como, se já estão todos comprados.
Ele coçou a cabeça e continuamos a conversar. Foi quando, não sei por que razão, eu resolvi desabafar:
-Você veja como são as coisas, eu não queria dar o carro para ninguém agora, pois eu e meu pai estamos fazendo uma experiência com outro motorista no outro carro que temos, mas o meu amigo Jaguaré insistiu tanto que resolvi deixar o cunhado dele trabalhar e olha no que deu?
-Você disse Jaguaré? O que é Delegado no Méier?
-Ele mesmo, nós somos amigos desde moleque.
-Liga para ele e mande-o vir aqui, que enquanto isso eu já vou acertando as coisas com os colegas... Quando o nosso amigo chegar, ele dá o arremate final.
Assim fiz e após sua chegada graças à intervenção dos dois a situação foi totalmente revertida. Outro laudo foi feito desta vez dentro da realidade dos acontecimentos, sendo mostrado o verdadeiro causador do desastre, mas que na prática de nada adiantou. Livrei-me de pagar o prejuízo do português, mas não consegui que ele pagasse o meu. Como naquele ano as companhias não fizeram seguro de táxi e o português também não pagou nada do meu prejuízo, fui obrigado a vender o carro para o ferro velho, pois a avaria fora muito grande e não compensava consertar.
Tive que transferir o motorista e o passageiro do hospital do Andaraí que é público para um particular, isso e as despesas com remédios para os dois, acabaram de me falir. Fomos obrigados a vender também a autonomia do meu táxi para cobrir todos esses gastos. Com isso, resolvemos não mais montar a empresa de táxi e eu voltei a trabalhar como Vendedor nas multinacionais.
Segundo momento
Vinte e dois anos se passaram e novamente fiquei desempregado. Não tendo outra opção voltei a dirigir um táxi, desta vez, não mais como proprietário, mas sim como empregado de uma empresa de táxi que havia sido constituída na mesma época em que eu tentara montar uma junto com o meu pai.
Neste novo período por diversas vezes estive a ponto de parar devido à crescente violência na cidade. Pude testemunhar vários crimes, ao vivo e a cores, em épocas diferentes: Sendo dois assassinatos e quatro assaltos a motoqueiros, tudo isso bem na frente do meu carro e em um deles cheguei a ser ameaçado por ter testemunhado o episódio. Sem contar os cincos atropelamentos de pedestres, alguns punguistas roubando velhos e os ladrões de celulares atuando livremente pela cidade sem serem incomodados pela polícia. Sendo a pior experiência a de quando tive que levar um cadáver para a delegacia a mando do chefe do tráfico.
Bem, além de tudo isso, este período foi muito difícil e desgastante, pois a praça estava completamente diferente de quando a conheci anos atrás. Vários fatores contribuíam para dificultar minha sobrevivência.
Primeiro que, sendo obrigado a alugar um táxi para trabalhar, tinha que pagar uma diária que estava e ainda está nos dias de hoje, longe de ser justa e accessível para o motorista.
Segundo que, o numero de táxi cresceu de tal forma, que para cada passageiro havia e há em média dez carros ou mais, dependendo do lugar e da hora.
O terceiro fator era o transito, pois tendo aumentado o numero de veículos, diariamente eu era obrigado a enfrentar vários engarrafamentos pela cidade e isso era altamente estressante.
O quarto e ultimo, foi com certeza e sem medo de errar, a nova adaptação a praça, pois agora não era mais um garoto, a idade começava a pesar. Sem contar que tinha perdido o emprego em uma grande multinacional, onde ocupara o cargo de Diretor Comercial e esta mudança radical em minha vida foi um desafio que confesso não saber explicar como consegui superar.
Mas deixemos de lado as dificuldades, pois elas não são importantes aqui e voltemos mais uma vez ao que me propus, narrar minhas experiências.
***
O senhor Mozart sempre que tem algum concerto em São Paulo, Minas Gerais ou no Paraná, ele me avisa no dia anterior a sua viagem e eu o levo para a Rodoviária, pois podendo ele descarta o avião. Neste dia como ele ia a Curitiba, sua passagem estava marcada para as 06hs 30min. Peguei-o bem cedo para não ter surpresas. Logo que cheguei a sua casa ele já estava me esperando no portão.
-Boa noite -cumprimentei-o.
-Boa noite? Não, bom dia, já são 05hs 00min da manhã.
-Para mim é boa noite, ainda está escuro.
-Não reclama Herbert que dá azar e como você bem sabe, sou pé quente. Hoje você vai ter o dobro dos clientes que costuma ter nos seus melhores dias, e quem sabe lá na Rodoviária não estará te esperando um passageiro para Teresópolis? Você vai ver. Quer apostar?
Essa colocação ele sempre fazia para me animar e como sempre não acontecia, mas acabávamos rindo.
-Nada de aposta seu Mozart, eu não estou a fim de ganhar seu dinheiro, toda vez é a mesma coisa, o senhor fala que terá uma boa corrida e nada, nem um passageiro se quer aparece.
Ele riu, pegou sua bagagem colocou na mala do carro e seu instrumento deixou no banco traseiro. Parecia que sua viagem seria de meses, tal o tamanho da sua mala. Acomodamo-nos e fomos embora, durante o trajeto por duas ou três vezes ele voltou a falar na tal corrida. Fingi que não ouvi.
Na frente da Rodoviária desci do carro para ajudá-lo a tirar aquela mala que mais parecia um baú e brinquei com ele:
-E então seu Mozart onde está o tal passageiro que vai fazer uma longa viagem comigo? -ao mesmo tempo em que falava eu ia girando a minha volta, como a mostrar a ele que não tinha ninguém.
Pela primeira vez errei. Surgindo do nada, um cara falou:
-Sou eu o passageiro que vai viajar com o senhor agora. Estou precisando chegar antes das 10hs 00min na Usina Nuclear em Angra dos Reis. Podes me levar?
Concordei no ato.
O senhor Mozart me pagou, deu um sorriso e saiu falando para o carregador das malas.
-Hoje o senhor vai ter o dobro dos clientes que costuma ter nos seus melhores dias -e virando-se para mim perguntou, é verdade ou não?
Só pude fazer o tradicional gesto de positivo, pois eles já iam se afastando e meu novo passageiro estava com pressa.
Fui a Angra, esperei e voltei com ele à tarde para o Rio.
Desta vez até que valeu a pena ter acordado tão cedo.
***
Estava deixando um casal no motel que fica no início da Rodovia Presidente Dutra, quando saia outro, só que de carro. O homem parou o veículo veio até meu táxi e perguntou:
-O senhor vai ficar livre?
-Vou.
Respondi a ele afirmativamente, mas sempre achei muito interessante essa pergunta. Livre eu sempre fui, acredito que o certo seria perguntar, se o táxi ficaria livre, mas em fim, como o nosso idioma é realmente difícil, por que me preocupar? Um dia quem sabe não nos comuniquemos da forma correta?
Com a resposta afirmativa ele chamou sua acompanhante despediram-se e ela entrou no táxi.
-Para onde a senhora deseja ir?
-Desculpe senhor, pensei que ele tivesse lhe dito. Vamos para Copacabana.
Como sempre, eu esperava que o passageiro iniciasse o diálogo, pois muitas das vezes a pessoa queria estar só com os seus pensamentos, mas essa não fugiu a regra, mal começamos a viagem à conversa se fez presente.
-Interessante como a vida nos reserva surpresas. -começou ela. Esse rapaz que se dirigiu ao senhor solicitando o táxi foi meu namorado na juventude e viemos nos encontrar novamente agora depois de tanto tempo.
-Parece que valeu a pena o reencontro de vocês?
-Sim e não.
-Como assim? -eu quis saber.
-Estou casada e ele também. Sou professora no mesmo colégio em que o filho dele estuda e com certeza isso não vai dar certo.
-Querendo é fácil de resolver essa situação.
-Eu não tinha conhecimento dessa proximidade, até o dia de hoje. Pela primeira vez ele foi levar o menino na escola, quem faz isso sempre é a empregada ou a mulher dele, nos encontramos, conversamos... Lembramos de quando namorávamos e acabamos no Motel -ela de repente ficou calada como se a pensar em tudo.
Percebi que só agora ao voltar para casa é que se dava conta do acontecido e não sabia o que fazer como iria olhar o marido. Estava com a dúvida, será que ele desconfiaria? Tinha lhe batido o arrependimento. O mais engraçado foi quando disse:
-Como não conheço o senhor e não vou mais vê-lo, vou aproveitar para desabafar, eu estou precisando.
-Fique a vontade, faça de conta que não estou aqui.
-Ah! Obrigado, mas acho que fiz isso porque meu marido é mais velho e já não esta dando no couro ou quem sabe eu estava mesmo era querendo algo novo e com vigor, o que o senhor acha?
-Pode ser, mas só mesmo a senhora tem essa resposta.
-Querendo ou não, eu estava é necessitando mesmo. O senhor está me entendendo não é? -falava de uma forma, como que estivesse querendo justificar sua falha de conduta e ao mesmo tempo desculpar-se.
-Mais ou menos.
-Ah! Não sei mais o que fazer, mas tenha certeza de uma coisa, que foi bom, foi. Só não sei o que vou fazer agora. O senhor acha que devo me encontrar outra vez com esse amor do passado? Ih! Não responda. Que bom, ainda bem que chegamos.
-Por que não quer saber a resposta? -perguntei meio irônico.
-Pode ser que eu não goste do que vou ouvir, prefiro assim. Tome pode ficar com o troco e até uma outra vez, quem sabe se até lá não terei a resposta.
***
Não sei por que aquele senhor insistiu em pegar meu táxi, pois eu já havia passado do local que ele estava, mas mesmo assim ele assobiou, e tão alto que olhei para traz e o vi acenando para eu esperá-lo. Esse tipo de acontecimento não tem explicação, tanto táxi passando e ele fazer questão de ir ao meu, é realmente estanho, mas deixo aqui, que cada um tire sua própria conclusão. Parei, ele veio correndo, e sorrindo ao entrar no carro disse:
-Fiz questão de viajar no seu carro por que gostei da forma elegante de você dirigir.
Não dava para perceber, mas achei que o cara era gay e iria me cantar. Alias vira e mexe aparece alguém nos propondo algo que gira em torno do sexo.
-Como assim? -perguntei tentando adivinhar onde ele queria chegar.
-Não sei te explicar... Aconteceu, segui os meus instintos e lhe parei... Acho que nem Freud explica.
Numa rápida análise mudei meu pensamento com relação a ele. Do viado passei para o maluco.
-Bem, aonde o senhor quer ir?
-Há qualquer lugar que não seja a minha casa, pois hoje estão lá os parentes da minha mulher e como eu os amos de paixão, prefiro não estar presente.
-São tão indesejáveis assim?
-Antes de te responder a essa segunda pergunta me leva ao Jóquei Clube. Bem, quanto a essas pessoas, o que eu poderia dizer... -parou por uns instantes como que a pensar o que falar e de repente detonou. Veja, se eu tivesse o poder, colocaria pelo menos dois deles no paredão e mandaria fuzilar, são políticos. Um rouba no âmbito Federal, o outro no Estadual e toda a família acha tudo uma boa e os apoia. Sabe por quê?
-Confesso que não sei.
-Porque levam vantagem em todas as falcatruas, ficando cada vez mais ricos as custa do dinheiro público, e a culpa não é só deles não, vocês os taxistas é que são os verdadeiros culpados.
-Nós? Mas porque essa afirmativa.
-Vocês sim... Não só a sua classe, mas a maioria do povo que infelizmente não tem instrução nem cultura e com isso não sabendo o que quer, vota nesse bando de safados e aproveitadores que vão se locupletando a todo instante.
A essa altura o homem já se mostrava tão exaltado que tentei acalmá-lo, pois tive a impressão que o cara ia ter um ataque do coração ou de loucura. Seus olhos estavam vermelhos e as veias saltavam em seu pescoço de tal forma que sua aparência modificara-se completamente.
-Calma meu amigo, não adianta você se exaltar dessa forma, você não vai resolver o problema assim e mesmo botando eles no paredão logo apareceram outros para substituí-los.
-Uma vez eu os recriminei pelo desvio das verbas, sabe o que me responderam? -e sem me deixar falar já foi dando a resposta a sua própria pergunta. -um dos safados, que é o meu cunhado, me disse bem assim: -O Fausto... Aquele dinheiro não é de ninguém, é público... Se ele é público, qualquer um pode fazer uso dele... E se qualquer um pode fazer uso dele, por que não eu e a minha família? Não posso deixar de maneira alguma que outro o faça no meu lugar. -Como numa orquestra bem afinada o meu sogro que é o assessor direto do meu cunhado endossou toda aquela colocação e acrescentou: -Idiota é você que com esse seu pensamento só vai ter a prosperidade e a opulência no nome. “Fausto”. Pobre da minha filha que não soube escolher o homem certo.
Até chegarmos ao Jóquei Clube, o homem foi e voltou às raias da loucura por mais duas vezes. Ainda bem que a corrida terminou, pois eu é que já estava a ponto de ter um treco. Mesmo quando saiu do carro ainda teve forças para falar:
-Meu amigo, para esse tipo de gente só mesmo o paredão resolve. Muito cuidado quando for votar nas próximas eleições. Procure saber quem são eles, para não fazer merda.
***
Outro dia de sorte, era sexta feira 08hs 00min da noite. Estava com um passageiro no engarrafamento bem em frente à Estação da Leopoldina no sentido da Rodoviária, como tudo estava parado o sujeito resolveu descer e ir a pé para não perder o ônibus. Fiquei ali parado e com o táxi livre. Um pouco mais a frente uma senhora foi rejeitada por um colega. O táxi que estava na minha frente também vazio recusou. Pensei cá comigo o que será que esta senhora está querendo? Ela veio na minha direção. Desci o vidro e ela me perguntou:
-O senhor poderia me levar até a Rodoviária estou muito cansada para ir a pé até lá.
-Pois não, senhora pode entrar que a levo até lá. -na mesma hora concordei.
A senhora entrou acomodando-se no banco da frente e continuamos ali naquele para e anda infernal.
Depois de alguns minutos conseguimos chegar à entrada principal da Rodoviária. A senhora me pagou e ao invés de descer, começou a me agradecer por tê-la levado até ali. Eu por outro lado queria ir à busca de um novo passageiro, mas a velha senhora insistia em ficar me agradecendo a ponto de começar a me irritar. Quando ela resolveu descer, saiu andando e deixou a porta do carro escancarada. Meu carro era um Santana e para fechar a porta tive que me esticar para conseguir puxá-la, ao fazer isso, automaticamente, eu olhei para dentro do salão da Rodoviária e vi um homem e duas mulheres com umas bagagens de mão e ele me acenava mandando esperar.
Entraram os três no banco de traz colocaram as mochilas e bolsas no banco da frente e veio à bela pergunta em portunhol:
-Por quanto você nos leva em Parati?
Cheguei à minha casa quase 04hs 00min da manha com cento e oitenta reais a mais do que costumava fazer.
Vou deixar as conclusões desse episódio por sua conta, amigo leitor.
***
Nem só de sorte vive o taxista, também há as provações.
De longe avistei aquela figura estranha e medonha. Estava de terno preto, que ao chegar perto constatei ser surrado e engomado pela sujeira. Cabelos pretos de cachinhos enrolados e caídos ao lado das orelhas. Barba rala sem nenhum trato e aparentava estar ensebada.
Não acreditei. Fez sinal.
Como no táxi só se ganha dinheiro com o passageiro fui obrigado a parar.
-Olá motorista, bom dia. Prazer, meu nome é Isaac.
-Herbert.
Ele entrou sentando justamente no banco da frente. Não suportei ao impacto e no mesmo instante desliguei o ar refrigerado e abri os quatro vidros. Não abri os seis porque o da frente e o de traz são fixos, porque se não fossem, os abriria também.
Para que você leitor tenha ideia do quanto fedia aquele judeu, desejei que meu carro fosse de controle remoto, para poder controlá-lo do lado de fora. Acredito que um gambá no cio, não deve feder tanto e para meu azar aquela corrida foi longa.
-Podemos ir a Niterói?
-Com certeza.
Como não tinha o que fazer para me livrar daquele fedor, aproveitei para cutucá-lo e saí perguntando:
-Tenho uma curiosidade. O que vocês judeus pensam realmente sobre Jesus de Nazaré?
-Esse personagem idolatrado pelos Cristãos, como sendo o filho de Deus, para nós, não passa de um agitador revolucionário que maldizia o governo da época e se opunha aos sacerdotes abertamente, confrontando-os, desrespeitando as leis da Torá e tentando jogar o povo contra eles.
-Também gostaria de saber o porquê de vocês se vestirem de preto?
-O preto significa a humildade, forma que abraçamos para viver.
-Qual o motivo de usarem sempre o chapeuzinho ou um chapéu?
-Usamos essa cobertura como proteção espiritual, para que nada de mal nos atrapalhe ou prejudique.
Ele me respondeu a tudo meio contra a vontade, mas foi respondendo. Em contra partida, no fim da corrida tive outra surpresa, me pagou menos do que marcava o relógio.
-Isaac, que eu saiba eu não lhe dei nenhum desconto no valor da corrida.
-Não deu, mas Isaac calculou o desconto por você não ter usado o ar refrigerado.
Com essa atitude confirmou que realmente se tratava de um autentico judeu, “pão duro”.
***
Na porta de uma Igreja Evangélica consegui pegar um passageiro. Coisa rara, pois parece que a maioria das pessoas saem lá de dentro duras. Normalmente o Pastor lhes toma tudo. Gilberto entrou no táxi. Calado e pensativo não disse para onde queria ir. Continuei parado esperando ele dizer o destino. Como que se tivesse acordado de um transe falou para onde íamos e continuou pensativo, entretanto como a maioria dos passageiros, não fugiu a regra, não se conteve e começou a falar, mas de tal forma que pensei até que iria me doutrinar:
-Meu amigo, a Bíblia diz: -“Olho por olho, dente por dente”, embora também fale em “amar o próximo”, você sabe dessas passagens não sabe?
-Já ouvi algo a respeito, mas não sou um profundo conhecedor.
-Pois é isso meu amigo que esta me deixando na dúvida quanto ao que fazer. Imagina o senhor que eu descobri que o safado do Pastor da minha igreja esta tendo um caso fora do seu casamento, e sabe com quem?
-Claro que não amigo, nem sei quem é o seu Pastor.
-Com a minha noiva... Com a minha noiva... Meu amigo, o que você me diz? Já viu um negócio desse? Pode um negócio desse? Que negócio é esse?
Respondi meio com vontade de rir, devido à forma como ele falava. Seu gestual era de fazer inveja ao mais perfeito comediante.
-Não sei o que dizer. Nunca vi nem soube de nada igual. Acredito que isso não possa acontecer de forma alguma. Afinal ele tem que dar o exemplo.
-Agora não sei se como a mulher dele também... Seguindo a máxima, “do olho por olho, dente por dente”... Aliás na verdade eu estou com vontade é de matá-lo mesmo... Mas para sorte desse canalha esse tal de “amar ao próximo” me impõe barreiras...
Voltou a ficar calado e pensativo até o fim da viagem. Pediu-me desculpas pelo desabafo e saiu dizendo algo que não consegui entender muito bem.
***
Certa vez, um passageiro entrou no carro sorrindo. Estava em Botafogo.
-Me leva no Leme.
Tinha a voz alta e grossa.
Tão logo se sentou a meu lado, fez questão de dizer ser o filho de um cantor famoso.
Olhei melhor para ele com a intenção de ver se existia alguma semelhança.
-Interessante, você não se parece em nada com ele.
Acho que fui mal interpretado, pois o cara começou a cantar musicas que o pai cantava.
Entre uma canção e outra, perguntou:
-Então? Diga lá, quem você acha que canta melhor?
Respondi que era o pai pensando que assim fosse dar um fim a aquele concerto ruim e fora de hora.
Ledo engano.
O cara para meu desespero quase que total, continuou cantando até o final da corrida na tentativa, em vão, de me convencer, que sua voz era melhor do que a do pai.
Graças a Deus chegamos ao Leme.
Foi a curta corrida mais demorada que fiz. Tive vontade de cobrar dobrado.
***
Em frente a um supermercado em Ipanema, um casal de idosos tentava apanhar um táxi e não conseguia. Cheguei até eles e perguntei:
-Serve o meu carro, senhor?
Deram um sorriso e perguntaram:
-Mas o senhor não deseja saber nem aonde iremos?
-Senhora, eu irei a qualquer lugar, desde que paguem.
-Então nos leva no Vidigal.
Quando comecei a subir o morro perguntei aos velhos onde eles iam ficar. E pasmem com a resposta, não foi no inicio e nem tampouco no meio, mas sim, lá no pico do morro de onde dava para ver a Favela da Rocinha. Outra pergunta os fiz:
-Senhor, não é necessário dar algum aviso para os traficantes de que estamos subindo.
Responderam-me que não e acrescentaram:
-Meu filho, nós somos muito conhecidos neste local e não há necessidade disso.
Sem saber e confiando nos velhos, fui subindo o morro sem dar nenhum sinal. Tirando as Kombis que me imprensaram por duas vezes, realmente subimos até ao pico e não fomos molestados por ninguém e tampouco vi algo suspeito pelo caminho.
Lá em cima fiz a manobra deixei o casal com suas compras e comecei a descer, de repente, como fumaça apareceu na frente do carro vários rapazes, era um bando de marginais seguranças do chefe do trafico que saíram dos becos existentes e me mandaram parar. Parecia uma patrulha militar, tal a quantidade de homens e adolescentes armados.
Um deles veio em minha direção fazendo o gesto para abaixar o vidro. Pareceu-me ser o chefe.
Abaixei. Para minha surpresa e indignação levei uma descompostura, em castelhano, como se eu tivesse feito algo muito grave, sendo inclusive ameaçado de morte, caso eu subisse o morro novamente sem avisá-los.
Fui testemunha e vítima da lei paralela que os traficantes impõem as comunidades carentes. Podem ter certeza de que o susto foi grande.
Devido a esse incidente nunca mais entrei numa dessas comunidades. Mais tarde fiquei sabendo que aquele traficante, que era boliviano, fora assassinado.
***
Ela entrou rapidamente no carro e pediu para ir a Tijuca. Logo se apresentou como Margareth. Era uma mulata gostosa, dessas parecidas com as que dançavam nos shows do Sargentelli.
-Meu amigo, o senhor não imagina como essa vida nos reserva surpresa. Sabe o que me aconteceu?
-Nem imagino senhora.
-Meu marido me ligou um pouco antes do fim do expediente, dizendo que quando eu saísse do trabalho fosse lá para o Ébony que estaria me esperando para fazermos um amor gostoso.
-E a senhora não gostou do convite?
-Nada disso. Eu fui, mesmo achando um pouco estranho, mas quando cheguei lá não o vi. Fiquei esperando-o e também esperando por alguém estava um cara que eu não conhecia. Meia hora se passou e nada. Olhamos um para o outro. Sorrimos, começamos a conversar e nos entendemos.
-Como é isso de nos entendemos, senhora?
-É o seguinte, em conversa fiquei sabendo ele havia ligado para a mulher dele que também é telefonista onde trabalho e não é que confundimos as vozes. Senhor, com todo o devido respeito e que meu marido me perdoe à fraqueza, o cara era uma excitação para qualquer mulher.
-Não se preocupe senhora isso pode acontecer com qualquer um.
-Não estou preocupada não, tanto é que, para não perder a viagem e não contrariar o destino que nos havia juntado, concluímos o combinado ao telefone. Foi demais.
***
Para informação do leitor, nós, os motoristas das Empresas de Táxi, tínhamos que pagar a diária de cem reais até a meia noite, caso contrário, era acrescido quinze por cento pelo atraso. Neste dia, já eram 23hs 00min, e até aquele momento eu só tinha feito noventa reais.
Saí de Copacabana e fui tentar pegar algum passageiro no Shopping Rio Sul. Lá chegando, como que num passe de mágica, um casal muito bem vestido fez sinal na minha direção, talvez por eu estar por fora do engarrafamento que se forma naquela hora com a saída do pessoal que trabalha nas lojas. Sentaram no banco traseiro e o homem sentenciou:
-Me leva no Largo dos Leões, que lá eu fico e depois deixa minha noiva no Andaraí.
Era o que eu mais queria, com aquela corrida eu completava a diária ia a garage pagar e de lá voltava para casa, pois o dia estava fraco. No largo ele mandou que eu entrasse na via de dentro alegando que seria melhor para ele descer e se despedir da noiva. Assim fiz. Quando parei, ele desceu do carro deu a volta por traz e ficou em pé entre a minha porta e a porta onde estava à mulher. Bateu no meu vidro e eu o abri sem nada desconfiar. Foi quando ele disse alto e em bom tom:
-Perdeu meu camarada!
Eu ainda meio que sem entender, perguntei:
-Perdeu o que, cara?
-A grana, otário.
Sentindo o cano do revolver que estava com a mulher, no meu pescoço, não tive alternativa. Entreguei todo o dinheiro que tinha ganhado durante o dia inteiro de trabalho. Eram ao todo noventa reais.
Eles atravessaram o calçadão do largo tranquilamente. Andaram na direção de um Monza que estava parado no escuro na outra pista a espera deles, entraram e saíram em alta velocidade.
Se houvesse um bom policiamento, talvez desse para pegá-los, mas cadê a polícia nessa hora.
***
Estava bem no coração da Lapa, por volta das 21hs 00min. De repente do nada apareceram àqueles camaradas e abriram as três portas de uma vez e pularam dentro do carro e um deles falou:
-Piloto, tira a gente desse lugar rapidinho.
-Para onde vocês querem ir?
-Pega o Aterro e não da bandeira. A polícia esta no final da Cinelândia se tudo der certo no final da corrida o piloto vai ter uma recompensa.
-Mas o que é isso? Perguntei.
-Piloto nós acabamos de fazer aquele ônibus, agora ta entendendo. Vai logo e nos tira da área rapidinho.
Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Fazer o que? Saí fora como pediram. Já no Aterro um deles pediu para ver meu relógio mostrei e um deles disse mesmo assim:
-Mas é muito caidinho esse “bobo” que você usa hein, piloto.
Passei a pensar que eles iam mudar de ideia e me assaltar também, mas enganei-me, lá no final do Aterro, me mandaram parar no retorno para Botafogo e acabaram de dividir o roubo. Por incrível que pareça pagaram o que estava marcando no taxímetro e um deles já fora do carro me mandou abrir o vidro e falou:
-Olha aí o piloto, conforme o prometido, segura e vai à luta.
O ladrãozinho jogou no meu colo um dos relógios que tinham roubado e antes que eu pudesse dizer alguma coisa pegaram outro táxi e se mandaram.
***
Em uma determinada noite eu fui parado por umas pessoas que estavam dentro de uma Mercedes azul celeste metálica, bem em frente ao Motel Ébony. Dirigiu-se até ao meu táxi um homem que logo reconheci, pois era um famoso e atuante Deputado Estadual da situação. Após sua acompanhante ter se acomodado no carro, ele tentando ser educado, mas cheio de pompa e arrogância cumprimentou-me e falou:
-Leve a minha amiga até a Tijuca e mantenha a discrição quanto a mim e ao lugar de onde saímos, para o seu bem e segurança.
Com uma ponta de ironia, respondi dando certa entonação grave à voz, na intenção de me fazer tão importante quanto ele, naquele momento simples e corriqueiro do dia a dia.
-Certamente excelência!
-Ótimo, e quanto deve dar essa corrida até lá senhor?
-Como já estamos no horário da bandeira dois, cem reais.
-Mais o que é isso, por acaso o senhor está louco? Essa corrida não chega nem a vinte reais.
-Eu sei... Mas e a discrição excelência, não vale nada? Para seu bem e segurança está até barato. Tenho certeza de que posso conseguir muito mais com qualquer jornalista de porta de cadeia.
Ele ficou parado por um instante, mas logo se recompôs. Acredito que deva ter pesado o que poderia acarretar nas próximas eleições, a divulgação do seu envolvimento com aquela mulher e concordou.
-Vá lá, mas veja bem, o que o senhor está fazendo não é certo.
-Acredito que o senhor faria muito pior com um adversário político. Estou enganado? -questionei-o com educação, mas mantendo a mesma ironia.
Não disse mais uma só palavra, pagou o que eu cobrei e gesticulou como que dando por encerrado a contenda.
***
Eram 21hs 00min e naquele dia resolvi voltar mais cedo para casa, pois já tinha feito à diária e estava com sessenta e cinco reais, não valia à pena continuar trabalhando após aquele horário. Bem em frente à estação do Meyer uma mulher me parou.
-Pode me levar aqui na Piedade?
-Posso senhora.
Ela entrou e sentou no banco dianteiro. Estava bem vestida e usava um perfume nem muito forte nem muito fraco, poderia dizer sem errar, de boa qualidade.
-Estou me sentindo mal!
-A senhora quer que a leve a algum Hospital ou Clínica?
-Não... Não é esse tipo de mal...
-O que é então senhora?
-É que sou secretária e meu patrão inventou de fazer hora extra hoje.
Então a senhora não está passando mal, está é cansada, afirmei.
-Também, mas o fato é que ele resolveu dar umas investidas, me agarrou e foi me apertando e tocando e me acariciando de tal forma que não resisti e me entreguei. Agora veja, estou com a roupa amarrotada, tenho a sensação de estar com o cheiro dele. O pior é que esqueci minha calcinha no escritório e não sei se meu marido vai perceber que estou sem calça.
Quando chegamos à Piedade, ela pediu para parar numa das esquinas da Rua Gomes Serpa dizendo:
-Eu fico aqui mesmo senhor, minha casa é logo ali na frente.
Como se uma opinião masculina fosse mudar o destino dos seus acontecimentos e com isso obter a segurança de que necessitava, ela chegou-se mais próximo e pediu:
-Por favor, gostaria que o senhor me cheirasse para sentir se eu não estou com cheiro de homem.
Fiquei completamente sem ação, pois sua atitude havia me pego de surpresa, sem contar que estávamos parados bem em frente à janela do apartamento em que morava a tia da minha mulher.
-Senhora, eu lamento mais não entendo nem um pouco de cheiro de homem.
Que situação delicada aquela, em que ela sem saber, me colocava.
Rapidamente me desvencilhei dela, deixando-a com as mesmas dúvidas que a acompanhavam, quando entrou no meu carro.
Confesso que dei graças a Deus por aquela janela do apartamento ter continuado fechada. Seria difícil explicar, o que aquela mulher queria quase trepando em cima de mim, naquela hora da noite.
Ah! Ia me esquecendo. A safada antes de ir embora, parada na porta do carro arrebitou a bunda e me fez uma pergunta bem provocativa.
-Senhor, está dando para perceber que eu estou sem calcinha?
***
A Claudineia aproveitou que o sinal estava fechado e entrou no meu táxi, sentando justamente no banco da frente, bem ao meu lado.
Tomei um susto... Não pela entrada brusca realizada por ela em virtude do sinal ter aberto, mas sim por sua feiura. E olha que estou sendo complacente em chamar aquilo de feia... Na realidade para ela ser chamada de feia, o Dr. Pitanguy deveria realizar no mínimo, três plásticas de correção. Gente, vocês não fazem ideia, a coisa era horrorosa. Mal comparando, pior que necessidade na roça em tempos de chuva.
-Meu amor, me leva ao Teatro Municipal e não precisa correr que está cedo... Saio sempre com antecedência para poder apreciar a chegada do povo... Vai dar tempo perfeitamente de chegarmos, sem correr, não vai?
-Com certeza senhora, fica tranquila que chegaremos a tempo.
Tive vontade de atrasar ao máximo a chegada ao teatro, só assim livraria o pessoal do dissabor daquela visão. O espetáculo daquela noite corria o sério risco de não ser apresentado devido ao seu comparecimento, pois a plateia poderia se retirar, mas em fim o que é que eu poderia fazer? Ela estava decidida a assistir Tristão e Isolda. Com certeza todos os que resolveram assistir a peça naquele dia, saíram do teatro, Tristão. -Desculpem o trocadilho, mas não pude resistir.
-Meu amor -ela insistia em me chamar de seu amor, eu não sei mais o que fazer com meus filhos.
-Por que razão, senhora?
-Olha... Tenho um casal de filhos ambos com dezenove anos e eles não querem de maneira alguma concordar que eu me case novamente. Pode uma coisa dessas?
-A senhora se separou recentemente?
-Não, Bonifácio nos deixou, eu fiquei viúva há três anos.
Na minha cabeça veio a pergunta. Como que ela conseguiu um marido e como pôde ele aguentar tanto tempo ao lado daquilo? Foi a partir desse encontro com essa passageira que passei a acreditar que o amor é cego.
-Mas porque eles não concordam que a senhora se case outra vez?
-Eles alegam que como sou muito feia, quem se aproximar de mim será pelo dinheiro que tenho e nunca por amor como o meu finado marido.
-O que dá a você e a seus filhos a certeza de que o falecido Bonifácio a amava?
-O fato de ele ser multimilionário, se casar comigo sendo eu pobre e nunca ter tido uma amante sequer. Quer mais evidência do que isso, meu amor? A propósito, você acha que eu sou tão feia assim como eles dizem e que não sou capaz despertar algum interesse em alguém?
-Não, eles estão enganados... Falta muito para lhe considerar feia. Talvez, quem sabe não aparece um novo Bonifácio em sua vida? -disse isso apesar de ter a certeza de que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar e outro Bonifácio nem em um milhão de anos.
-É o que estou sempre dizendo a eles, mas não consigo convencê-los... Meu amor, você acaba de me deixar muito feliz, pois a forma com que você acabou de falar me estimula a partir para a luta outra vez... Afinal eu só tenho trinta e nove anos e acredito poder viver ainda um grande amor.
Com certeza será uma verdadeira luta, pois quem resolver encarar, todo dia ao acordar, vai pensar que continua no pesadelo da noite anterior. Só pensei. Não tive coragem de falar a verdade, mas no fundo acredito que ela saiba.
***
Nefertiti... Esse nome cai perfeitamente para esta senhora de oitenta e oito anos que atendi. O senhor Walter parou o táxi entrou e perguntou se eu podia levar sua mãe até a clínica médica na Tijuca, esperá-la e trazê-la de volta para casa de uma outra filha. Concordei e fomos buscá-la na casa dele. Assim que chegamos à senhora já estava na porta nos esperando.
-Bom dia, chofer - cumprimentou aquela velhinha que me pareceu ser agradável. -Meu nome e Nefertiti, qual é o seu?
-Bom dia senhora, meu nome é Herbert.
-Podemos ir. Meu filho já lhe disse aonde vou e o que fazer?
-Sim já disse.
A senhora Nefertiti não parou de falar um instante, acredito que em casa os familiares não lhe davam muita atenção e por essa razão alem do carro ela alugou também o meu ouvido. Como sempre tive paciência com as pessoas idosas dediquei a ela o máximo de atenção. Lembro que reclamou dos netos. Segundo ela os pais não davam a devida educação às crianças, criando-os muito diferentes do seu tempo.
Tanto na ida para a clínica quanto na volta para a casa da filha, a velhinha desceu o pau na família toda. Devo confessar que estava até engraçado a forma como ela colocava certas passagens e me fez inclusive mudar alguns dos meus comportamentos junto a minha família, foi muito proveitosa àquela experiência. Quando chegamos de volta, a casa de sua filha ficava no sentido contrário ao que estávamos. Ela quis descer e atravessar a rua, mas insisti e fiz a manobra parando em frente da casa proporcionando assim mais segurança e conforto a ela, que para minha surpresa disse-me:
-Senhor Herbert, muitíssimo obrigado pela sua paciência em me ouvir e por todas as gentilezas dedicadas a mim neste tempo em que estivemos juntos. Devo confessar que o senhor com esse seu jeito é capaz de conquistar qualquer mulher. Parabéns.
Nefertiti disse tudo isso com um ar maroto e desceu sorrindo. Aquela velha senhora sabia que tinha conseguido me desconsertar.
***
Outro fato interessante aconteceu comigo, e esse, eu acredito ser obra dos resgates espirituais a que nos propomos passar ou reviver, quando aqui, Encarnamos.
Nesta época eu estava com mais ou menos quarenta e sete anos, aqui preciso explicar uma situação que sempre me incomodou ao longo da minha existência:
“Sempre que alguém estava com uma faca ou algo pontiagudo e cortante próximo a mim, me dava uma agonia nos olhos que me obrigava a afastar-me daquela pessoa e às vezes até do local”. Agora, por favor, leiam e tirem as conclusões.
Vinha eu beirando a calçada da direita da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, a procura de um passageiro, quando um homem que acredito ter a minha idade, estendeu levemente o braço me parando. Ele estava meio de lado com as costas voltada para a minha direção e olhava pelo canto do olho por cima do ombro, como se não enxergasse ou coisa parecida, em fim, não entendi muito bem o porquê daquela posição. Parei e ele entrou com dificuldade sentando no banco da frente a meu lado.
Disse para aonde queria ir e calou-se.
De repente sem mais nem menos começou a contar sua história. Não disse seu nome, mas identificou-se como sendo um dos sócios dos quatros restaurantes que ficam na esquina da Avenida Prudente de Morais com a Rua Paul Redfem.
-Quase fiquei completamente cego, enxergo vinte por cento com o olho esquerdo e dez por cento com o da direita... Assim mesmo tenho que olhar pelo canto dos olhos, pois frontalmente nada vejo.
Agora eu entendia o porquê da posição dele ao fazer o sinal para meu táxi.
-É eu reparei na forma como o senhor estava posicionado e até estranhei, como cada um tem seu jeito de ser não dei importância, mas o que foi que aconteceu?
-Há três anos quando saia de um dos meus restaurantes e estava entrando no meu carro, dois sujeitos me renderam e entraram junto comigo. Um na frente e o outro atrás. Logo anunciaram que era um sequestro. Que eu ficasse calmo e continuasse dirigindo até me afastar do local, que mais na frente outra pessoa ia assumir a direção. Não pensei duas vezes acelerei a uma velocidade forte e enfiei o carro no poste, bem do lado do carona que morreu esmagado nas ferragens. O outro ficou desacordado devido à pancada com a cabeça e veio a falecer também no local. Eu bati com o rosto no vidro e os estilhaços danificaram meus olhos.
-É meu amigo ninguém passa por essa vida que não tenha uma provação. Essa sua é bem braba.
-Devido a esse acontecimento eu quis justamente saber por que tudo isso foi acontecer logo comigo.
-E o senhor conseguiu descobrir alguma coisa a respeito?
-Sim, me indicaram um espírita vidente que atende numa daquelas galerias que fica ali no final do Leblon, sabe qual?
-Conheço o local, estou sempre levando alguém ali.
-Pois bem, eu fui lá e fiquei sabendo que em uma das minhas vidas passadas, mais precisamente no tempo do Império Romano, eu era um Gladiador...
-Só isso, o que mais ele disse?
-Ele me apresentou como explicação... Até que aceitável, do ponto de vista espiritual. O acidente sofrido e este meu encontro com os dois marginais, nada mais era do que o resgate deles e o meu pagamento de dividas espirituais contraídas, pois eles no passado, por mim foram cegados.
Nessa hora ele parou de contar o que havia descoberto. Aí perguntei:
-Por que parou com o relato, por acaso está lhe fazendo mal as descobertas e lembrança do passado.
-Não... Não... De forma alguma, é que estamos chegando e não vou tomar seu tempo contando essas bobagens, e também não estou entendendo o porquê de estar lhe contando uma coisa que pouquíssimas pessoas tomaram conhecimento até hoje.
-Meu irmão, eu gostaria imensamente de continuar escutando sua história, se você não se importar de contá-la, é claro.
-Absolutamente. -Bem... Continuando... Segundo aquele vidente, devido a minha natureza bárbara e violenta contra meus opositores eu era um dos gladiadores mais requisitado, tanto pelo Imperador como pelo povo que comparecia a arena, pois com certeza o espetáculo seria sangrento e era isso o que eles sempre queriam: -Ver a violência imposta e posteriormente o sacrifício dos vencidos.
Contou também que meu maior prazer antes de matar os que me enfrentavam era de cegá-los e isso eu fazia cortando-lhes com a minha espada os seus dois olhos e deixando-os por instantes na agonia de nada ver. Só depois é que eu os executava, para delírio meu e de toda aquela plateia.
- Muito interessante o que acabas de me relatar, muito obrigado por ter me contado tudo isso.
- Ah! Ele ainda concluiu: -vais encontrar ao longo desta sua nova vida, outros oponentes que foram barbarizados e humilhados, para que eles possam constatar que o mesmo sofrimento imposto a eles, você agora está provando.
Não tendo mais o que contar, ele me pagou e não mais nos encontramos.
Quero aqui deixar o meu depoimento verdadeiro e sincero: -O fato é, que a partir desse dia nunca mais tive qualquer problema com objetos cortantes ou pontiagudos que estejam próximos ou que sejam aproximados dos meus olhos.
***
Quase no final da tarde de uma sexta-feira próxima do fim do mês e no meio de um transito muito louco na Avenida Presidente Vargas, entre a Avenida Rio Branco e a Rua Uruguaiana, onde o passageiro é disputado quase que a tapa, por ônibus, vans, kombis e táxis.
Imagine o caos que é.
E eu lá estava também tentando pegar o meu.
De repente avistei um pouco mais a frente um rapaz que me pareceu estar querendo um táxi. Com jeito, passei pela a direita de outro táxi e parei. Com essa manobra impedi que alguém pudesse entrar naquele carro. Estando junto ao rapaz, este imediatamente entrou no meu táxi, sentando no banco da frente. Esse meu ato foi o suficiente para desencadear o mau humor do preterido taxista que começou a gesticular brigando comigo por eu ter-lhe roubado o passageiro.
O rapaz que não estava prestando atenção e nem tinha notado que estávamos brigando. Deu-me todo o percurso a ser realizado, mais ou menos assim:
-Senhor, direto pela Presidente Vargas, Praça da Bandeira, Radial Oeste, sobe o viaduto de São Cristóvão no sentido do Estádio, pega Avenida Maracanã direto, vira na Rua Uruguai, depois vira na Rua Conde de Bonfim à esquerda e me deixa em frente a agencia do Banco do Brasil.
Enquanto o passageiro falava o percurso, fui saindo por trás do referido táxi e já na sua esquerda paramos no sinal da Uruguaiana. Estávamos janela a janela. Olhando para o motorista do outro táxi que continuava a gesticular e a esbravejar pelo ocorrido, eu de sacanagem, olhando para ele e batendo com meu dedo indicador no ouvido falei: - “eu sou surdo”. Bem devagar e explicado para que ele, o motorista, entendesse e ficasse mais bravo ainda.
O passageiro que estava sentado ao meu lado e tinha acabado de me dar todo o itinerário, pensando ser com ele que eu estava falando fez à indagação aos berros:
-Ah! O senhor é surdo?
E antes que eu pudesse explicar a ele o que estava acontecendo entre eu e o outro motorista, repetiu todo aquele itinerário numa altura que do lado de fora do carro escutaram. Quando ele terminou com aquela cena engraçadíssima eu expliquei a ele o que tinha acontecido. Disse-lhe que não era surdo e que eu estava somente gozando e tentando irritar ainda mais, o colega do táxi ao lado.
Quase morremos de tanto rir.
***
Eram quase 16hs 00min quando deixei a senhora Filomena na esquina da Rua Xavier da Silveira com a Rua Barata Ribeiro, como sempre fazia toda quarta-feira. Acabara de colocar o dinheiro preso no quebra sol, quando alguém bateu no vidro me chamando a atenção. Olhei e vi uma moto com dois ocupantes, não tinham mais que dezoito anos. Mandou-me abaixar o vidro.
Pensei: - Informação ou assalto?
Era assalto. Da mesma forma que apareceram, sumiram, levando todo o dinheiro que eu tinha ganhado até àquela hora.
Mais uma vez não havia um policial por perto. Nem mesmo o policial de transito, que geralmente está por ali fingindo que multa alguém que tenha cometido alguma infração, para poder levar aquela tradicional propina que nunca é entregue diretamente a ele, mas sim deixada no bar ou na banca de revistas.
***
Este episódio deu-se na realização de uma longa corrida de Copacabana a Jacarepaguá e sua volta a Copacabana, realizada no meu táxi por um casal ainda jovem. Ele deveria ter uns trinta anos mais ou menos e ela não passava dos vinte e dois. Devo dizer que os dois estavam relativamente até que bem vestidos, tirando é claro meio quilo de piercing que usavam mais alguns metros de tatuagens pelo corpo. Pois bem, durante todo o trajeto de “ire e bire”, como dizem os nossos patrícios, pouco se conversou devido às insistentes ligações em seu celular, computei dez e parei, mas posso assegurar sem risco de errar que foram mais de trinta.
O que mais marcou nesse nosso encontro foi o contraste, da moderna versus a antiga forma de comercialização de uma das mais antigas profissões existente no mundo, a prostituição. Todas as ligações recebidas por aquele “agenciador”, sem exceção foram de alguém contratando alguma garota de programa para aquele momento e as ligações por ele realizadas foram determinando e direcionando as garotas para os respectivos encontros.
O que mais me chamou a atenção foi à negativa desse “agenciador” a sua acompanhante, quando em uma determinada ligação o nome do requisitante foi mencionado e a sua jovem acompanhante se ofereceu para fazer o serviço, alegando ser aquele um excelente cliente. Sua justificativa para ela foi mais ou menos assim: -Nada disso, não quero mais saber de você trabalhando na vida, agora és a minha mulher e está sob minha proteção.
Quando os dois desceram e estavam caminhando em direção ao apartamento em que viviam fiquei pensando: -Do que o amor não é capaz, talvez até pouco tempo atrás ele explorasse aquela menina com a mesma mão de ferro que usa com as outras, agora tenta contê-la em seus impulsos e protegê-la com ternura da vida difícil.
***
Não sei por que, mas meu carro sempre foi muito frequentado por pessoas idosas e alguns desses encontros foram bastante prazerosos os momentos convividos com elas, mesmo os mais curtos.
Duas velhinhas muito graciosas entraram no carro e me pediram para levá-las ao bingo Arpoador. Quando digo velhinhas, é porque já beiravam os oitenta anos, uma delas me fez lembrar a vovó Nana, a personagem do Jô. E foi ela mesmo que começou nossa conversa.
-Meu filho esse Rio de Janeiro está muito violento, aliás, o Brasil. Aqui ninguém respeita mais ninguém. Aos velhos então, nem se fala, se pudessem botavam todos no paredão e fuzilavam, e com certeza quem encabeçaria a fila de exterminadores seria o INSS.
Eu ri e tentei expressar minha opinião, mas a outra não deixou.
-A coisa e tão gritante que até ao atravessar uma rua temos que ter cuidado, pois quando vocês motoristas avistam um velho aceleram ainda mais o carro tentando nos alcançar para nos eliminar, está aqui minha amiga Aurora que não me deixa mentir. Não é verdade?
Eu ia novamente me defender e a Dona Aurora também não deixou.
-Quando eu estou com a Salomé ou com outras amigas e isso ocorre, eu logo grito avisando, corre que eles já nos viram.
Tentei falar outra vez, mas foi em vão, Salomé entrou de novo na conversa.
-O senhor sabe como é que eu atravesso a rua quando estou sozinha?
Mais uma vez quando ia responder não deixaram.
-Eu olho para um lado, olho para o outro e calmamente saio correndo em direção à outra calçada.
Chegamos à porta do bingo elas me deram dez reais e uma delas disse rapidamente:
-Como o senhor foi muito gentil, pode guardar o troco.
-Nos deseje sorte meu rapaz.
Acabei rindo, pois não tinha conseguido dizer uma única palavra em todo o trajeto que fizemos.
***
Na Rua do Riachuelo um senhor que aparentava ter setenta anos, sinalizou para que eu parasse. Parei como sempre deixando a pessoa na direção da porta traseira, mas ele preferiu vir sentar a meu lado.
Essa operação por ele realizada levou algum tempo, tal a dificuldade apresentada para se locomover, abrir à porta dianteira e sentar-se.
Com aquele cigarro a boca, eu de imediato pude perceber que eles eram amigos inseparáveis a longo tempo, pois o cheiro que exalava de seu corpo, se é que se pode chamar aquilo de cheiro, parecia ser o de um cinzeiro, daqueles que não são lavados há mais de anos, desses que só jogam as pontas de cigarros no lixo e continuam apagando ou deixando o cigarro ali queimando.
Também posso, sem medo de errar, compará-lo a aqueles cachimbos onde só são usados fumos baratos e que também não são limpos como devem. Em fim, o homem fedia a sarro puro de nicotina, era insuportável aquela catinga.
Fui obrigado a abrir todos os vidros, caso contrario acredito que iria passar mal.
Em conversa fiquei sabendo que era portador de um câncer pulmonar, e que tinha 55 anos. Constatei que sua respiração era insuficiente e sua voz era inaudível de tão rouca.
Aos meus olhos aquele homem tinha se tornado um flagelo do vicio e por mais que eu procure, não há nada com que se possa comparar ao estado que se apresentava aquele homem.
Passei a ser inteiramente favorável a campanha antifumo desde o dia em que mantive contato com esse passageiro completamente dependente dessa maldita droga, que é o tabaco.
***
No inicio da Rua Barata Ribeiro em Copacabana no lado esquerdo, o cara acenou para que eu parasse. Ele entrou e sentou no banco de traz bem atrás de mim e de uma forma que parecia querer se esconder, pois eu não conseguia velo pelo retrovisor. Não disse nada, só gesticulou com a mão me mandando seguir em frente.
-Aonde o senhor quer ficar? -perguntei.
Ele continuou calado.
Eu conduzia o carro no centro da rua, pois se a qualquer momento ele mandasse parar, à direita ou à esquerda, eu não teria dificuldade em fazê-lo.
Uma das coisas que deixa qualquer motorista de praça irritado é quando o passageiro entra e não diz para onde vai ou não dá o itinerário, nos obrigando a dirigir as cega, sem saber aonde ir.
-Aonde o senhor deseja ficar? -insisti em saber.
Calado ele estava calado ficou.
Consegui visualizar a cara dele e tive a impressão de que era louco. Continuei dirigindo e mais na frente o sinal do cruzamento com a Rua Miguel Lemos fechou. Assim que parei, ele rapidamente saiu de onde estava e sentou-se no outro canto do banco e em seguida sem que eu pudesse fazer nada, abriu a porta e saiu andando rápido na direção de quem vai para a Lagoa.
Dei um jeito e parei o carro em cima da calçada o mais próximo a esquina da rua onde ele desceu. Logo apareceu um senhor e falou:
-Não se preocupe, esse rapaz é doente mental, ele sempre faz isso, manda parar aqui. Não paga. Sai e vai embora correndo. O senhor pode ir até a portaria daquele prédio onde ele entrou que o senhor receberá, pois os pais dele já sabem quanto dá a corrida e deixa o dinheiro com o porteiro, para sanear essas artimanhas do filho.
Assim fiz e recebi.
***
A grande maioria dos motoristas de táxi tem bloco de recibo para atender a algum cliente que precise da comprovação dos serviços a ele prestado, para fazer prova junto a Empresa em que trabalha.
Depois do tradicional gesto para solicitar um táxi, um mauricinho prepotente da Barra da Tijuca, desses que pensão que são os donos do mundo, largou sua bagagem na calçada para eu colocar no porta-malas, acomodou-se no banco traseiro e me mandou ir para o Aeroporto Internacional. Cheio de pose e tentando manter uma superioridade, logo deu início a uma conversa com o ar de deboche:
-Meu nome é Augusto. Tudo bem com o senhor?
-Prazer Herbert. Tudo bem.
-O senhor que é feliz. Fica com seu carrinho para cima e para baixo e no fim do dia está em casa sem nenhuma preocupação.
-Você acha isso?
-Sem dúvida. Veja eu, Diretor Comercial de uma multinacional, obrigado a viajar e passar a semana toda fora de casa, com a enorme responsabilidade nas costa de sempre acertar no gerenciamento dos negócios dos gringos. Nada pode dar errado, senão danço.
-Em parte concordo, mas no fim do mês na minha conta bancária ficam quatrocentos reais e na sua quanto fica?
-Com certeza umas trinta vezes mais que na sua.
Chegamos ao Aeroporto do Galeão e o relógio marcava vinte seis reais. O senhor Augusto pagou o que estava marcando e teve a coragem de pedir um recibo com o valor de cinquenta e cinco reais, valor igual ao que é cobrado pelos táxis especiais. Não me contive e falei:
-Se fica na sua conta toda aquela quantia que disseste, por que o amigo detesta tanto seu emprego, a ponto de colocá-lo em risco por uns míseros vinte e poucos reais?
-Culpa da genética que herdamos. Está no sangue meu amigo. Não posso ser diferente -deu essa justificativa com a maior cara de pau e, foi embora.
***
Quase no Jardim Botânico, avistei ao longe um cara com aquela inconfundível cobertura redondinha na cabeça. Não era preta. À medida que fui chegando mais perto fui tendo a confirmação de se tratar de outro judeu. Aquele da outra vez tinha-me deixado traumatizado.
Pensei comigo: - Será que vou ter de aturar aquele mau cheiro outra vez? Não tinha jeito, ia encarar, eu não podia me dar ao luxo de recusar um passageiro, fosse ele qual fosse, mesmo que fedido.
Pude reparar que estava vestido com uma camisa social bege e uma calça marrom claro e a sua cobertura era da mesma tonalidade. Parei, e ele abrindo a porta da frente, entrou. Eu estava com a respiração presa. Quando ele bateu a porta, comecei a respirar bem devagar, pois não queria receber o impacto do odor de uma só vez. Qual não foi a minha surpresa. O rapaz, diferentemente do outro usava o perfume Azzaro, barba bem feita e cabelos decentemente cuidados. Devia ter uns vinte e cinco anos. Sorridente e extrovertido me cumprimentou e foi logo falando.
-Meu nome é Isaías e sou judeu, mas, por favor, não me pergunte por que eu não cheiro mal e nem me compare com algum judeu que o senhor possa ter servido?
Como eu também não presto, perguntei ironicamente:
-Qual a razão para essa agressividade comigo e a revolta contra os judeus?
-Desculpa, e que todas as vezes que pego um táxi o motorista sempre fala que pegou um judeu fedido, pão duro e mal educado.
-Também não é assim, você deve estar exagerando um pouco.
-É verdade! Pode até ser e o senhor por educação ou por não ter tido esse tipo de experiência não me falaria, mas sempre acontece. Bem deixa pra lá, podemos ir até a Barra?
-Perfeitamente, e pode ficar tranquilo que não contarei história de judeu, até porque nunca tive um, como passageiro.
-Sorte a sua.
Quando chegamos à Barra da Tijuca o rapaz pagou com trinta reais e mandou-me guardar o troco, quase não acreditei no que presenciava.
Detalhe, a corrida marcou vinte e dois reais.
Quero aqui fazer uma ressalva: - para você que me julgou preconceituoso a pouco, espero que agora mude de ideia a meu respeito, pois eu poderia ter omitido perfeitamente essa passagem se o fosse.
***
Em Botafogo, ele me parou e perguntou se eu podia levá-lo na Rua República do Líbano. Assim que entrou se apresentou.
-Bom dia, meu nome é Tufik.
-Bom dia. Herbert -respondi também me apresentando.
Não me pareceu muito feliz e difícil foi entender seu português, com aquele sotaque árabe, quando ele começou a conversar.
-Menino você precisa saber. Não sei o que faço. Há um mês eu encontrei uma mulher, mas que mulher. Mulher muito bonita. Parece uma deusa, mas ela não quer nada com Tufik... Nunca vi mulher tão difícil... Lá na Síria, minha terra, não é assim.
-É mesmo, como pode ter tanta certeza com tão pouco tempo de convivência?
-Ora Tufik não é bobo e percebe. Tufik não cansa de dar presente e ela não diz nada. Passa a semana Tufik dá outro presente e ela nem liga, não é capaz de fazer um carinho em Tufik.
-Muda a estratégia - recomendei.
-Está difícil de conquistar essa mulher, mas Tufik não vai desistir. Eu tenho certeza que essa é à mulher da vida de Tufik.
-Então o jeito é você também se fazer de durão.
-Não pode não, mulher muito maravilhosa e coração de Tufik não aguentaria ser durão.
-Então meu amigo, continua tentando, quem sabe uma hora ela não resiste e se entrega.
-Que Alá te ouça.
E com esse choro no meu ouvido eu levei o Tufik até lá na região do Saara.
***
Eram 18hs 30min de uma sexta-feira e eu estava parado no sinal da Rua Bambina com a Rua Marquês de Olinda. Na minha frente, para variar, tinham quatro táxis também parados esperando o sinal abrir e como eu, torcendo para aparecer um passageiro. Para mim esse dia não estava bom, pois até aquele momento não havia completado a diária. Sempre atento ao que acontecia, observei que um rapaz tinha falado alguma coisa nos dois primeiros carros, veio até ao terceiro e em seguida no que estava a minha frente.
O sinal abriu e logo começou a turma de traz a buzinar insistentemente. Não sei se pelo buzinaço ou porque não lhe interessou o que queria o rapaz este táxi também foi embora. Resolvi encostar o carro próximo da calçada e deixar livre o transito e assim poder ouvir com calma, o que aquele passageiro queria. Ele começou a expor o que queria.
-Senhor, eu quero ir para casa em Macaé, por quanto o senhor me leva até lá?
O movimento estava fraco, pensei rápido e disse:
-Vou ligar o relógio e o que marcar quando chegar a Macaé você paga a volta.
-Não. Assim fica muito cara a corrida, aceita duzentos e cinquenta reais?
-Trezentos.
-Duzentos e oitenta.
-Fechado.
-Mas não tenho dinheiro só estou com cheque.
-Você não tem cartão para retirar dinheiro no caixa eletrônico?
-Não, perdi o meu e estou esperando o banco enviar outro.
-Então nada feito.
-Preste atenção, eu sou um dos donos de uma distribuidora lá em Macaé, você fica com meu cheque como garantia, me leva e quando chegarmos lá meu sócio abre a loja, pego dinheiro no caixa e lhe pago, pode ser assim?
-Qual o nome da sua distribuidora e o nome do seu sócio ou comprador? -fiz essa pergunta por que conhecia todos os compradores e donos das empresas de atacado ou das distribuidoras que existem por lá.
Ele falou os nomes, da Empresa e do comprador, bateu com o que eu conhecia. Aceitei fazer a corrida na condição de trocar o cheque quando lá chegasse.
-Ótimo, então vamos pegar aqui no hospital minha bagagem e entrou no carro.
-Que hospital? -perguntei.
-Aqui no Doutor Eiras.
-Hum! No Doutor Eiras? -mais um obstáculo se apresentava e pensei comigo mesmo, será que devo levar esse cara?
-Fique tranquilo, eu não sou maluco e nem estou fugindo do hospital, vim aqui por minha própria vontade fazer o tratamento e posso sair à hora que eu quiser, só sou dependente químico, mais nada. O senhor vai constatar isso na portaria.
-Está bem, você venceu. Vamos lá.
-Meu nome é Joaquim.
Disse também o meu e entramos no hospital. Fui com o carro até a porta principal lá ele colocou suas mochilas em cima do banco traseiro, despediu-se do médico prometendo voltar na segunda-feira e fomos embora.
A viagem transcorreu normalmente. Fiquei sabendo praticamente de todos seus problemas relacionados com a droga e as consequências causadas na sua família.
Um pouco antes de entrarmos na cidade, ainda na estrada, ele pediu para parar em um posto.
-Vamos tomar um café, vou aproveitar e ver se meu amigo pode trocar esse cheque logo, assim ficamos livres desse problema e o senhor se tranquiliza de vez.
De fato todos o conheciam e me pareceu até demais para o meu gosto, mas como em cidade pequena todo mundo se conhece e praticamente sabe um da vida do outro, não dei importância, até porque não era a minha vida. Joaquim explicou a situação ao gerente do posto, mas ele informou que tinha acabado de mandar o dinheiro no carro forte para o banco e virando-se para mim disse:
-O senhor pode ficar tranquilo, Joaquim é o dono de um dos atacados daqui de Macaé, é gente boa, quando vocês chegarem o Manoel te paga.
Chegamos à frente de uma mansão, quando um dos garotos o viu gritou e a família toda veio recebê-lo, pai, mãe, irmão, cunhada, mulher, filhos e sobrinhos eles já sabiam que ele ia chegar.
Parecia festa, tal a alegria.
Joaquim conversou rapidamente com o irmão e fomos com o Manoel até a loja, onde ele abriu a porta, pegou o dinheiro e destrocou o cheque. Dali mesmo eu voltei para o Rio de Janeiro.
Quando cheguei à minha casa o relógio marcava 02hs 30min da madrugada.
É duro ou não é ganhar dinheiro, trabalhando na praça. Lembre-se que eu saí de casa para trabalhar as 06hs 00min da manhã.
***
Na Rua do Riachuelo em frente ao hotel Nice, dois Angolanos me pararam. Não imaginei que eles tivessem tanta bagagem, pensei até que não fosse caber tudo no carro, mas coube. Acomodaram-se do jeito que deu, o grandalhão sentou na frente e o menor se apertou no banco traseiro. Eles estavam se dirigindo para o Galeão. Não falaram quase nada, nem mesmo entre eles e quando conversaram não entendi nada do que disseram. Chegamos ao Aeroporto pagaram logo a corrida e me deram uma gorjeta muito boa. Começaram a tirar as coisas de dentro do carro e a arrumar nos dois carrinhos de bagagem de repente um deles falou:
-Motorista se por acaso a policia chegar e perguntar de onde nós estamos vindo, diga que é de Copacabana.
-Não disse que sim nem que não, continuei ajudando a tirar aquele monte de bagulho.
Tinham retirado quase tudo quando chegou a Policia Federal e os interceptaram. Um dos policiais me chamou a parte e perguntou:
-Está tudo certo?
-Acredito que sim.
-Eles comentaram ou o senhor viu alguma muamba?
-Não vi nada e eles vieram durante todo o trajeto calado, sem dar uma única palavra.
-Já acertaram com o senhor a corrida?
Respondi afirmativamente aí vi que ainda tinham duas sacolas no chão, peguei e as entreguei. Perguntei se podia ir embora e eles me liberaram. Saí fora e bem rápido, antes que o bicho pegasse e eu acabasse tendo que ficar para dar informações e virar testemunha.
Assim peguei outro passageiro já em Bonsucesso, ele me avisou:
-Motorista, sua embalagem de uísque está saindo de baixo do seu banco, alguém pode pegar sem que o senhor veja.
-Ah... Obrigado.
Peguei a embalagem e coloquei no chão entre o banco e meus pés. Logo que o passageiro desceu fui conferir qual era o uísque. Para minha surpresa dentro da embalagem não tinha nenhuma garrafa, mas sim quatro aparelhos de telefone celular com carregador.
Mais tarde quando quis habilitá-los, fiquei sabendo que eram aparelhos roubados da fábrica em Manaus e não poderiam ser usados aqui no Brasil por que sua numeração estava bloqueada.
Cheguei à conclusão de que além de contrabandistas eles eram receptadores e que provavelmente em Angola os aparelhos roubados funcionariam, pois não teriam nenhuma restrição por lá.
***
Em Copacabana uma dessas falsas madames que existe por aí, pegou o táxi e me pediu para levá-la na Rua Macedo Sobrinho no Humaitá. Era uma corrida pequena, já que bastava atravessar o túnel velho, contornar na rua em frente ao cemitério, seguir até o final da Rua Mena Barreto e pronto, estaria concluída a corrida, pois ali elas desciam. Se ela morasse na parte de cima da rua bastava atravessar a rua e andar um pequeno pedaço se morasse na parte de baixo, estariam na porta de casa. Quando já estávamos na rua do acesso a sua ela falou:
-Motorista, quando chegar lá no final da rua o senhor entra à esquerda que eu moro na parte de cima.
-Não sei se a senhora sabe, mas lá, é proibido virar a esquerda, nós teremos que descer e fazer o contorno lá na entrada da lagoa.
-Eu sei que é proibido, mas todo mundo que mora na parte de cima vira ali e eu não vou dar essa volta toda que o senhor está querendo fazer.
-Bem, então só tem um jeito, logo que dobrarmos a direita na sua rua eu paro o carro logo na esquerda, a senhora desce ali e anda, pois não vou fazer essa manobra que está me pedindo. A multa é muito alta.
-O senhor acha que eu peguei seu táxi para no final ainda ter que andar, se soubesse que isso ia acontecer, pegava o ônibus.
Pronto, estava formada a discussão, aquela mulher cismou que eu tinha que fazer a bandalha. Continuei sem falar nada e ela continuou reclamando. Quando cheguei ao local parei como tinha dito e perguntei:
-A senhora desce aqui ou quer que eu dê a volta para deixá-la na parte de cima.
Ela nada respondeu. Desceu, mandou a filha também descer, bateu a porta com toda força e saiu andando no sentido contrario ao que eu estava sem me pagar. Eu ainda pude escutar a filha, que era uma criança, surpreendida com a atitude da mãe, repreendê-la:
-Mamãe! A senhora não vai pagar o moço?
Mesmo assim a senhora saiu praticamente arrastando a filha que se recusava a acompanhá-la.
***
Alguns dias depois, outra senhora me parou.
Não consegui saber se era nervosa por ser autoritária ou se era autoritária por estar nervosa. Só sei que, antes de entrar no carro, terminou de dar uma bronca em dois homens que estavam parados na frente de um bar. Eram tantos os palavrões que até me assustei. Pela aparência pensei se tratar de uma cafetina. Enganei-me.
Entrou no carro bufando e me mandou ir para a Rodoviária.
A mulher cuspia marimbondo pra todo lado, sobrou até para mim e, diga-se de passagem, eu não tinha culpa de nada. Aconteceu que quando estava descendo o viaduto da Praça da Bandeira e deveria virar no final dele em direção a Leopoldina, um maluco desses que tem no trânsito me cortou pela esquerda me obrigando a seguir em frente. Passei da entrada uns trinta metros.
A mulher que já estava brava ficou uma arara e foi dizendo:
-Vocês homens não servem mesmo pra nada, olha só o que você fez passou, agora vai ter que dar uma volta enorme. Pode parar aqui mesmo.
Eu estava mesmo parado, pois ia tentar com cuidado dar uma ré até a entrada e continuaria no trajeto certo, mas a mulher abriu a porta, desceu do carro me ofendendo com todos os palavrões conhecidos e saiu andando, talvez para pegar outro táxi, pois ali naquela virada não para ônibus e dependendo, nem táxi.
Bateu com tanta força a porta que eu nem quis ir atrás e fazê-la pagar a corrida, fui embora. Olhando pelo retrovisor vi que ainda estava gesticulando e pensei:
Isso não é uma mulher, é uma jararaca.
Bem mais à frente, como se um ímã estivesse me atraindo, olhei para o banco de trás e vi uma carteira. Apanhei para conferir e tentar devolver ao dono. Para minha surpresa a carteira tinha trezentos reais, um talão de cheques e dois cartões de crédito com o nome de mulher, mas não tinha nenhum documento que pudesse identificar onde àquela senhora morasse. Voltei na intenção de encontrá-la ainda por ali, mas já tinha ido embora.
Guardei o dinheiro e entreguei o talão e os cartões numa agencia do mesmo banco que eles pertenciam.
***
Naquele domingo estava precisando muito trabalhar, pois algumas contas estavam atrasadas e era necessário pagá-las na segunda-feira. E logo na primeira corrida à tentação bateu a minha porta da moral.
-Táxi!
Parei o carro e ouvi a pergunta.
-O senhor pode ficar a minha disposição o dia inteiro?
-Depende, o que o senhor deseja que eu faça?
-Sou agenciador. Meus clientes têm o desejo de se relacionar intimamente com um taxista.
-Mas como funciona isso?
-Você vai passar o dia na residência deste casal, ora transando com os dois ao mesmo tempo, ora só com ele, ora só com ela. Aceita?
Ficando curioso em conhecer a nova modalidade de prostituição. Pelo menos para mim. Fingi estar interessado e continuei com os entendimentos.
-Mas como é que funciona isso?
-Primeiro tenho que avaliar se você se enquadra no perfil recomendado.
-Como assim?
-Por enquanto não interessa. Só falo quando você aceitar.
-Quanto eles estão pretendendo pagar pelo serviço extra?
-Vai depender da sua atuação. A tabela varia: Boa, $2.000. Razoável, $1000. Ruim, $100.
-E quem é que faz essa avaliação?
-Essa pessoa que você está vendo.
-Quer dizer que você também participa de tudo?
-Não, eu só observo seu desempenho como um jurado. Portanto, você tem que se esforçar para receber a melhor nota.
-Desculpe, mas meus princípios morais me impedem de aceitar tal proposta.
Não tem problema, o próximo taxista pode ser que aceite. Quanto lhe devo pela corrida?
-O que está marcando no relógio, $5,80.
***
Acabei de atender a um cliente que ficou na entrada da favela do Dendê, na Ilha do Governador. Estava fazendo a manobra para voltar quando outro passageiro apareceu.
-Por favor, me leva lá no Parque União.
-Onde fica esse lugar, pois aqui na Ilha eu não conheço muito bem.
-É a favela que fica atrás da Portuguesa, meu camarada.
-Posso até te levar, mas não entro na favela, pode ser assim?
-Tudo bem, eu fico logo na entrada.
Como ele concordou, levei-o ao local mencionado que fica na estrada das Canárias.
-Para na ultima entrada da favela que eu preciso ver uma situação por lá.
Parei onde pediu, ele desceu do carro e conversou com alguém que ali estava parado. Voltou e falou para deixá-lo na primeira entrada. Fui obrigado a ir até ao retorno que fica mais à frente na estrada das Canárias, retornar até ao outro retorno para então voltar na estrada que ele queria ficar. Chegamos, já fora do carro e me disse:
-O piloto, espera aqui que eu vou apanhar o dinheiro lá dentro no ponto.
-Nada disso, você vai pagar a corrida agora. Não posso ficar esperando, até porque qual a garantia que tenho de que você vai voltar?
-O compadre, você esta falando com o gerente do ponto, fique tranquilo que daqui a pouco meu pessoal vem acertar a corrida contigo.
Não gostei muito, mas não tendo alternativa fiquei esperando, até porque dizendo isso ele foi entrando no beco que dava acesso ao interior da favela e sumiu. Fiquei parado na estrada mais ou menos uns quinze minutos, até quando um homem apareceu e disse sem rodeios:
-Piloto, o senhor não pode ficar ai parado.
-Não! Por quê?
-Está atrapalhando a nossa vigilância e espantando os fregueses.
-Estou aqui porque o seu gerente me mandou esperar, ele disse que ia enviar um dos seus soldados para me pagar a corrida.
Ele andou até um camarada que estava ali parado desde que chegamos e falou alguma coisa com ele, voltou e perguntou:
-Diz aí o piloto, o gerente era aquele passageiro que você deixou aqui?
Confirmei.
-Diz aí então quanto é essa corrida?
Falei o preço.
-Aguarde ai que o senhor já vai receber o seu dinheiro.
Não demorou quatro minutos, ele voltou e me pagou.
Até hoje não sei se o passageiro era ou não o gerente do ponto de drogas.
***
Estava no Méier a procura de um passageiro.
A minha frente ia quatro táxis, mas mesmo assim pude ver lá adiante um sujeito na beira da calçada, muito impaciente, que fazia sinal insistentemente.
Talvez por esse procedimento ninguém parasse. Como não podia me dar esse luxo, eu parei e ele perguntou se eu podia levá-lo na Sulacap. Disse que sim. Ele entrou apressadamente, ficando ajoelhado no banco traseiro bem atrás de mim. Por isso não reparei que tinha se acomodado daquela maneira.
Como vocês já sabem, eu trabalho sempre com carro todo fechado, pois o ar condicionado fica ligado direto. Já tinha andado um bom pedaço quando o ambiente começou a ficar insuportável, tal era o cheiro de bosta seca.
Foi quando me virei para perguntar se ele não estava com os sapatos sujos de merda, que constatei sua posição. Então falei:
-Senhor, os bancos estão limpos, pode sentar normalmente.
-Eu estou vendo que eles estão limpos, motorista.
-Então porque não senta?
-É por que estou todo cagado.
Não foi mais preciso fazer a tal pergunta. Ele já tinha me respondido. O jeito foi abrir todos os vidros, senão morreríamos sufocados.
Dentre outros, esse é um dos “cavacos do ofício” que temos de enfrentar. Detalhe, esse passageiro estava vestido de terno branco.
***
Neste sábado sai às 15hs 00min, um pouco mais tarde que o de costume. Ah... Esqueci de mencionar que nesta segunda fase como motorista de táxi eu trabalhava Sábado, Domingo e feriados, todos sem exceção.
Bem, como eu estava dizendo, saí de casa para trabalhar e próximo de casa, para ser mais exato na Praça Jauru, fui logo parado.
Muito me estranhei com aquele passageiro ali por Jacarepaguá, porque normalmente o pessoal da área sempre pede o serviço dos táxis, por telefone, mas já que apareceu um perdido vamos atendê-lo.
O passageiro era magro, de estatura mediana, seu cabelo era preto e liso, vestia uma calça branca com uma camisa social estampada nas cores azul, amarelo dourado e com fundo branco.
Ele abriu a porta dianteira e com um lenço na mão fez menção de limpar o banco, mas não deu continuidade ao ato, pois viu que o carro estava bem cuidado e os bancos limpos. Sentou-se elogiando a conservação do táxi, em seguida pediu que o levasse até Nilópolis na Baixada Fluminense.
Alguma coisa me dizia que eu deveria tomar o máximo de cuidado com ele, uma espécie de sexto sentido. Na tentativa de começar uma conversa e tornar nossa viagem melhor, mas sem saber o que dizer, a clássica pergunta foi minha salvação:
-Por onde gostaria de ir senhor?
-Podemos ir por dentro mesmo, assim aproveito e dou uma passada por uns lugares no caminho.
Quando estávamos passando pelo cemitério de Anchieta, ele pediu para fazer o contorno na praça alegando que queria comprar umas flores. Assim fiz e parei na floricultura existente na rua ao lado do cemitério. Desceu do carro e me chamou para ir junto. Dentro da loja pegou duas dúzias de rosas nas cores brancas, vermelhas, rosas e amarelas misturando-as, juntou a elas ramos verdes e um pouco de chuva de prata. Pediu para a senhora que estava atrás do balcão par fazer um arranjo razoável. A forma como tratava a dona da floricultura parecia serem velhos amigos. Bateu nas minhas costas e falou:
-Enquanto ela prepara meu arranjo, vamos até aqui no bar ao lado tomar uma cerveja.
-Posso até te acompanhar mais eu não bebo, ainda mais quando estou trabalhando.
-Então vai tomar uma coca cola.
-Tudo bem.
O bar era amplo com umas oito mesas espalhadas e tinha duas portas para entrar, quando chegamos ao bar reparei que ele examinou todo o ambiente. Ficamos em pé e encostados no balcão, eu de costa para a rua olhando o salão e ele ao contrário, de costa para o salão e olhando a rua.
Tomou uma cerveja e eu minha coca. Não me deixou pagar e voltamos para a floricultura. Apanhou o arranjo de fores que já estava pronto. Pagou e falou para a mulher:
-Amanhã vou mandar três bonecos para vocês enfeitarem, mas não precisa caprichar.
Sua voz tinha mudado completamente de tonalidade quando proferiu aquela frase.
A mulher instintivamente se benzeu, ele riu e saiu me puxando pelo braço. Entramos no carro e ele me mandou atravessar em Ricardo para o outro lado da linha férrea. Assim que passamos para o outro lado, um pouco mais à frente na direção a Nilópolis, ele novamente parou na porta de um bar e mercadinho. Outra vez me fez ir com ele. Pediu uma cachaça, uma cerveja e uma coca cola. Estávamos bebendo ele me pediu um cigarro, disse que não fumava. Aí ele virou-se para mim e afirmou perguntando:
-Você não bebe, não fuma, será que também não transa?
Não respondi.
Fiz um ar de sorriso, mas não estava me sentindo a vontade com aquele sujeito. Ele pediu outra cerveja e um maço de cigarros e comprou outras coisas no mercadinho que não lembro agora, pagou a conta e fomos embora. Não sei se já era efeito da bebida ou o que, o fato é que resolveu falar:
-Preciso encontrar minha irmã, essas flores são para ela. Também quero saber dela, por que aquele safado lhe bateu. Isso não vai ficar barato.
Em Nilópolis ele começou a me orientar no caminho. Vira pra cá, vai em frente, vira pra lá. De repente falou:
-Pode estacionar ali na frente daquele bar.
Descemos mais uma vez, eram 07h30min da noite. Tinha uma rapaziada sentada na mureta da varanda do bar bebendo. Ele lançou a pergunta no ar, para todo mundo ouvir.
-Minha irmã, alguém sabe onde ela está?
Responderam que não sabiam. Ele continuou.
-Vocês estão é me escondendo, mas não tem problema eu vou encontrar ela... E os safados que bateram nela onde estão?
-Dizem que estão lá para o lado de São João.
-Hoje eu pego todos eles.
Dizendo isso foi ao banheiro do bar. Foi quando um senhor que estava no meio deles chegou perto de mim e falou tão baixo que parecia até que não queria que eu escutasse:
-Pelo jeito o senhor não sabe quem é esse homem, sabe?
-Não, nunca o vi mais gordo.
-Fala baixo amigo ele é conhecido como Django, o pior dos matadores que existe aqui na Baixada. Sua família toda mora aqui na comunidade. Ele esta procurando o marido da irmã, que junto com mais dois, quase a mataram de tanta pancada. Com certeza vai matá-los. O senhor precisa arrumar um jeito de sair fora.
Começava a fazer sentido o aviso lá na floricultura, mas agora não dava mais para me desvencilhar dele, o relógio estava marcando uma quantia elevada e eu não ia perder o valor daquela corrida por nada.
Ele saiu do banheiro, pegou as flores e as compras no carro e de novo me chamou:
-Vem comigo.
-Espera um pouco que eu vou fechar o carro.
-Pode deixar o carro aberto ai, todo mundo já sabe que você está comigo, ninguém vai mexer nele.
Lá fui eu obrigado novamente a segui-lo, desta vez entramos ainda mais na favela. Na casa do irmão bebeu uma dose de cachaça e perguntou pela irmã, mas ele também disse que não sabia onde ela estava. Ai eu escutei ele falando para o irmão, alto e em bom som:
-Zeca, não adianta ela se esconder para proteger o safado do marido eu vou matar ele e os outros dois safados ainda hoje. E você também é outro que não devia estar acobertando eles. Vamos embora piloto. Ah! Essas flores são para a Gilda, entrega a ela para mim.
Voltamos tudo a pé novamente até o carro. Pude ver por onde nos passávamos que as pessoas do lugar olhavam as escondidas, pelas frestas das janelas e pelas portas entre abertas. Parecia que ninguém tinha coragem de cruzar o caminho do tal de Django. Quando chegamos ao carro, não tinha uma viva alma na rua e nem no bar. Confesso que fiquei impressionado. Estava começando a acreditar que o cara era mesmo matador profissional.
Entramos no carro e escutei o que não queria.
-Me leva em São João de Meriti.
-Daqui eu não sei como ir para lá.
-Não tem problema eu te ensino.
Não conhecia nada por ali e ele continuava a me orientar o caminho. Sem mais nem menos, convidou-me para pegar umas mulheres e ir para um Motel fazer uma noitada. Recusei e ele agora rindo afirmou:
-É parece que também não transa.
Como eu queria me livrar dele nem dei muita atenção ao que acabava de falar, mas como é que eu iria fazer. De repente o local me pareceu familiar, pois tinha trabalhado por ali como vendedor. Aí falei:
-Aqui eu já conheço logo ali na frente é a estação de São João se atravessar à linha em frente para o outro lado, saio na Pavuna e se atravesso ali para a direita, volto para Ricardo.
-Ótimo, já que você não quer curtir a noite e não vai mais se perder, para o carro que aqui eu fico.
Parei bem na encruzilhada da rua com a linha férrea.
O sujeito me deu uma nota de cem reais para pagar sessenta e quatro reais e desceu. Quando me virei para lhe dar o troco, a porta continuava entre aberta, eu não o vi mais. Olhei para todos os lados e nada. Ele tinha desaparecido como fumaça.
***
Acho que tinha se passado uns seis meses mais ou menos quando vi aquele turco outra vez. Parei e ele entrou só que agora ele estava indo para casa. Botafogo ele falou e não disse mais nada. Não resisti e perguntei para me certificar:
-Seu nome é Tufik?
Ele me olhou desconfiado e perguntou:
-Como é que o senhor sabe o meu nome, se eu nem o conheço?
-Eu já o trouxe para o Saara há uns meses atrás e durante a corrida conversamos bastante e nos apresentamos. -aproveitei e brinquei com ele dizendo que eu tinha memória de elefante. Foi aí que perguntei a queima roupa:
-E o senhor continua com aquela mulher que da outra vez disse ser a mulher da sua vida?
-Sim... Mulher muito difícil, mas Tufik continua com ela.
-E aí, vocês já chegaram aos finalmente?
-Não, mas foi bom o senhor falar. Tufik não sabe mais o que fazer, compra presente, compra joia, compra carro e nada. Tufik acha que ainda não conseguiu conquistar coração dela. O que senhor faria? Tufik tem chance?
-Acho que o senhor está dando muitos presentes e não está tendo nenhum retorno.
-Mas ela merece, mulher é muito linda. Tufik está até comprando apartamento para ela. Nós vamos morar nele. Meu amigo essa mulher é difícil, mas Tufik não vai desistir. Tufik vai continuar investindo.
***
Para quem não sabe a maioria dos carros de praça estão sempre com as portas e porta-malas destravadas para facilitar o acesso e o meu não era diferente. Assim, parei num desses estacionamentos de rua onde o carro fica a 45° e fui fazer minha aposta na loteria.
Terminei de fazer meu jogo, voltei, entrei no carro e fui trabalhar.
No dia seguinte quando fui colocar a bagagem de um passageiro que ia viajar, deparei-me com duas caixas dentro do porta-malas, que não conhecia e também não me lembrava de alguém tê-las posto ali. Em casa quando cheguei fui matar minha curiosidade. Qual não foi minha surpresa, cada caixa tinha uma jarra, uma de porcelana chinesa muito antiga e a outra de cristal. Duas obras raras e caras.
Acreditei na hora que alguém tinha confundido o meu táxi com o que estava usando e colocou no meu carro o que deveria por no outro, mas quem? E como conseguiu abrir o porta-malas? Ficaria sem resposta, pois não fazia a menor ideia onde ocorrera tal engano.
Quatro meses depois estava eu parado praticamente no mesmo lugar e um táxi da mesma marca que o meu, parou ao lado. O motorista saiu do seu carro e me pediu para experimentar se sua chave abria o porta-malas do meu carro. Concordei e ela abriu. Então perguntou se eu havia encontrado as tais caixas que ele mesmo havia colocado enganado no meu porta-malas. Coincidência ou não fui com ele até minha casa e de lá fomos entregar as jarras aos verdadeiros donos.
Fui muito bem gratificado e o casal não sabia o que fazer para se desculpar com aquele taxista, pois acharam que ele os havia roubado na ocasião.
***
Sinal fechado. Uma multidão passava de um lado para o outro, quase que se esbarrando devido ao pouco espaço existente para eles os pedestres, atravessarem na Avenida Antônio Carlos bem em frente ao Fórum.
A porta traseira foi aberta de repente e uma mulher entrou rapidamente e me perguntou:
-Você conhece Belford Roxo?
-Se a senhora estiver se referindo a cidade que fica na baixada Fluminense, conheço.
-Essa mesmo, e é para lá que nós estamos indo. Quanto o senhor vai cobrar?
Uma corrida como essa não se pode perder, então agi dentro do que a lei permite, nem mais e nem menos.
-O que marcar o relógio mais os 30% do retorno.
-Esta bem. Será que chegamos antes das 16hs 00min.
-Acredito que sim.
Não era bonita, mas todo o conjunto mostrava ser uma mulher bem atraente. Sua descontração me chamou atenção, pois a grande maioria das mulheres com aquele perfil sempre se mostravam resguardadas, mas ela não, pelo contrário, foi conversando o tempo todo. Como a viagem foi longa, praticamente fiquei sabendo da vida quase que toda daquela mulher, pelo menos do que tratava a parte espiritual, sem dúvida.
Quando chegamos a Belford Roxo, Anita, esse era o seu nome, passou a me orientar quanto ao caminho a seguir. O local era bem retirado do centro daquela cidade e eu não conhecia nada por ali. Depois de muito rodar, paramos em frente a um centro de Candomblé.
-É aqui senhor. Este é o barracão de que lhe falei. Aqui fiz meu Santo com o Babalorixá Afonso de Iansã. Quando o senhor precisar já sabe onde é.
-Senhora, com todo respeito aos Santos e ao seu pai de santo, mas dez mil reais é dinheiro de mais para se gastar com qualquer tipo de devoção que seja.
-Bem, cada um com a sua fé e eu estou muito satisfeita em ser Filha de Santo do pai Afonso.
Com um gesto automático, pegou a carteira tirou cento e cinquenta reais e me deu como pagamento não querendo troco. Saindo em seguida alegre e sorridente na direção de um homem vestido todo de branco, que me pareceu ser o tal Babalaô.
***
Num outro Sábado à tarde, sai de casa como sempre procurando um passageiro, rodei por Jacarepaguá, subi e desci a serra e só fui encontrá-lo no Grajaú.
Na verdade eram duas moças.
Parei e antes delas entrarem no carro uma delas perguntou se eu podia levá-las até a esquina da Rua Gonzaga Bastos com a Rua Teodoro da Silva.
Detalhe: -ela só tinha dois reais para pagar a corrida. Conseguiu vender-me a história de que estava atrasada para tirar umas fotos de graça com o amigo fotógrafo e não podia perder a oportunidade de compor seu book.
Aceitei e deixei-as na esquina.
Não tinha ainda atravessado à rua, na outra esquina um rapaz negro com uma sacola as mãos, já estava fazendo sinal para eu parar.
Sentou na frente. Deu para perceber que suas mãos eram esbranquiçadas pelos calos que continham. Usava óculos de pouco grau, desses sem armação à volta e sua aparência era frágil, tive a impressão naquele exato momento se tratar de um professor, tal a sua tranquilidade. Essa certeza me deu confiança e acabei ficando despreocupado com relação a ele, não me pergunte o porquê, pois até hoje escrevendo essa passagem não sei explicar. Pediu que o levasse ao Othon Palace Hotel na Avenida Atlântica em Copacabana. Em conversa nos apresentamos chamava-se Rui. Estava já entrando no túnel Rebouças quando ele fez a colocação que ia mudar os acontecimentos e o rumo da viagem:
-Senhor eu preciso retirar dinheiro para pagar a corrida, quando passar por uma agência do Bradesco de uma parada.
-Se você tivesse dito isso antes já teríamos passado na que tem na Praça da Bandeira.
-Não se preocupe, em Copacabana tem várias, lá eu vejo isso.
Logo que entrei na Avenida Nossa Senhora de Copacabana ele perguntou:
-O senhor sabe mexer nas máquinas com esse cartão?
-Não sei não, Rui. Eu nem tenho conta em banco.
Parei um pouco mais adiante e ele foi até a agência. Saiu e deixou sua sacola no chão. Como eu estava despreocupado, olhei e até a ajeitei, pois estava tombando, mas não tive a curiosidade de ver o que tinha dentro apesar de senti-la pesada.
Nesse meio tempo um corre-corre na rua. Na frente da multidão vinha correndo um rapaz todo ensanguentado e nu. Para sorte dele, no meio do transito que estava parado, tinha um carro da policia civil e ele rapidamente entrou para se proteger. Olhei na calçada e vi que meu passageiro já vinha vindo com a mesma tranquilidade com que saiu, mas desta vez me pareceu mais uma prevenção. Talvez por que o tumulto estava concentrado ao lado do meu carro. Entrou rapidamente e falou:
-Parece que esse ai tentou armar alguma e se deu mal. Vamos mais à frente, porque essa agência esta fora do ar.
Fomos a mais três agências, todas estavam fora do ar e recomendavam ao cliente para se dirigir à agência de origem.
-Teremos que ir até minha agência.
Perguntei onde era a agência e ele informou ser no Grajaú. Achei que ele tinha armado essa história e resolvi acabar ali mesmo com a corrida dele antes que o prejuízo aumentasse:
-Presta atenção, o hotel é aqui perto vou te levar lá e está tudo certo, outra hora você me paga.
-Nada disso, eu não posso ficar devendo ao senhor... Nós iremos voltar e pegar o dinheiro na minha agência para lhe pagar.
-É muito longe Rui, vai triplicar o valor da corrida. Não há necessidade, vamos fazer como eu disse.
O Rui ficou irredutível e eu acabei voltando com ele ao Grajaú. Desta vez eu fui com ele até ao interior da agência. Quando entramos, o segurança que estava na parte interna da agência retirou a arma do coldre e ficou com ela na mão. Achei aquela precaução exagerada e um pouco agressiva, mas mesmo assim não me liguei e nem desconfiei do Rui. Ao lado do rapaz testemunhei toda a operação realizada por ele e mais uma vez a mensagem foi à mesma. “FORA DO AR”. Através do vidro perguntamos ao segurança se ele tinha alguma informação de quando iria voltar a funcionar as máquinas, mas ele não soube informar.
-Vou fazer o seguinte, vou até a casa da minha mãe, pego dinheiro com ela e lhe pago.
-O Rui. Vamos fazer do meu jeito. Esquece a conta, aproveita que você esta perto eu te levo em casa e na segunda-feira de tarde passo lá e você paga a corrida.
-De forma alguma, o senhor tem que receber hoje.
-Então vamos até onde moras e lá você pega emprestado com algum comerciante e me paga.
-O problema é que eu não tenho esse tipo de intimidade com o pessoal da localidade, estou morando há pouco tempo no morro do Andaraí.
-Ah! Então está resolvido esse nosso impasse, nós vamos até lá, que com certeza o pessoal da situação te conhece, pois eles sabem quem entra e quem sai, mesmo que seja a primeira vez. Eu vou junto e você explica para o gerente do tráfico o que está acontecendo, apanha emprestado o dinheiro, me paga e na segunda-feira você acerta com ele. O que achas?
-Que você é louco. Então o senhor pensa que eu vou me misturar com esse pessoal. Amanhã eles vão se achar no direito de me pedir para quebrar um galho para eles e como é que eu vou fazer?
-Realmente não pensei por esse lado, mas o certo é que não podemos ficar aqui a vida toda e então estou lhe deixando aqui e agora. Prefiro ficar no prejuízo a continuar com essa ladainha.
-Senhor, o meu primo trabalha naquele posto que tem lá na Praça Sete, sabe qual é?
-Sei, mas o que você esta pensando?
-Nós vamos até lá pego o dinheiro e pronto, pago a corrida.
-Por mim essa corrida está paga e termina aqui.
-Não senhor, nós vamos até lá e fazer o que tem que ser feito.
Confesso que naquele momento não entendi muito bem quando ele disse: “Fazer o que tem que ser feito”.
-Tudo bem, mas desde já fica você sabendo que se o seu primo não estiver lá, eu não vou a nenhum lugar mais e a corrida termina.
Ele assentiu com a cabeça e voltou a ficar calado. Comecei a sentir um odor estranho que exalava daquele homem. Um pressentimento ou minha intuição me colocou em alerta. Era como se alguma coisa fosse acontecer de repente, mas eu não sabia o que.
Entrei no tal posto.
Nesse exato instante ele enfiou a mão na sacola que trazia no chão a seu lado e começou a tirar uma pistola automática toda prateada de dentro dela. Ele fazia isso tão lentamente que me pareceu estar vendo um filme em câmera lenta. Meio aparvalhado e sem entender aquela atitude, reagi:
-O que está fazendo? Ficou louco? Não precisa assaltar o posto para me pagar, por acaso está querendo nos matar?
Entendi naquele momento que ele não era nada tranquilo, mas sim um sujeito frio e calculista, pois logo me olhando falou:
-Você não quer receber? Então... Vou assaltar o posto. -Riu friamente.
-Você deve estar maluco.
-Não estou não, você é que está sendo assaltado. Sai fora daqui e não deixa transparecer nada, porque senão morre.
-Fica calmo rapaz e cuidado com essa arma, ela é automática qualquer movimento dispara, eu tenho dois filhos para criar e não estou a fim de morrer agora.
-Eu também tenho dois filhos e seu morrer tem quem cuide deles.
A situação se agravara de fato. Eu não tinha nenhum dinheiro, só os dois reais daquelas meninas, mais nada. Comecei a trabalhar tarde e nem o dinheiro para troco que eu sempre costumava trazer eu tinha.
-Calma... Fica calmo que não ando armado e nem pretendo reagir.
-Vamos logo... Deixa de papo... Atravessa o túnel vamos para o Jacaré.
Quando ele falou isso começou meu verdadeiro desespero. Torci para que não tivesse nenhuma blitz na saída do túnel, nem no largo do Jacarezinho, o que era muito comum e o avisei.
-Guarda sua arma, porque a polícia costuma estar nessa região fazendo blitz.
Mas ele não guardou e continuou fazendo a pressão psicológica.
-Deixa de conversa e passa todo o dinheiro.
-Hoje você deu azar... Esta assaltando o motorista errado, pois eu não tenho dinheiro nenhum.
-Ta pensando que sou otário e que me enganar?
-Toma minha carteira e pode procurar que você vai ver que não tenho um tostão.
-Eu vi aquelas duas moças descendo do seu carro antes de você me apanhar, como é que você não tem dinheiro?
Atravessamos o túnel Noel Rosa e na saída não havia nenhum policial. Continuei na direção que ele me mandara, mas avisei-o outra vez da possibilidade dos policiais estarem no local. De nada adiantou. Como o sujeito passou a demonstrar alienação total, resolvi sacudir o cara para ver se ele acordava para a realidade.
-Você é maluco, está drogado ou está querendo me deixar mais nervoso... Já te falei que a policia está na área... Olha lá, não disse? E agora? Se nos pararem você vai dançar. Guarde sua arma que será bem melhor para nós dois. Põe ela debaixo do banco.
Reduzi a velocidade o máximo que eu pude, para evitar qualquer desconfiança por parte dos policiais com relação a nos dois. Meu medo é que eles nos parassem.
-Você ta me tirando mesmo como um Mané... Eu estou aqui para o que der e vier. Meu negócio, não era te assaltar, mas como você tentou me colocar nas mãos dos traficantes agora aguenta, porque se eles mandarem parar o carro, você vai ser o primeiro a dançar.
Tínhamos que passar pela frente da Favela do Rato Molhado e nesse pedaço de rua, com mais ou menos trezentos metros tinha quatro viaturas policiais e um caminhão de transportar tropa. Nada mais tendo a perder e também testando o sangue frio dele, segurei firme a pistola e falei.
-Deixa de ser teimoso, bota essa arma debaixo do banco, já disse que não vou reagir e nem estou armado, mas se não esconder essa merda eu vou acelerar o carro e jogar ele de encontro à primeira viatura. -dizendo isso comecei a acelerar e continuei segurando firme a pistola.
-Ta bom, eu vou guardar, mas passa bem devagar.
A fera não era tão brava quanto parecia, mas o perigo ainda não tinha acabado. Teríamos que passar pelo meio daquele corredor com mais de quarenta policiais sem despertar desconfiança e depois ainda tinha de me livrar dele, pois eu estava sendo assaltado.
Passamos por todo aquele tumulto numa boa, os policiais estavam envolvidos com o cerco na favela que não deram à mínima importância quando nós passamos.
Pude respirar aliviado.
Ele fez menção de pegar a arma outra vez aí joguei a última cartada.
-Se eu fosse você não faria isso... Deixa a arma guardada na bolsa... Já te disse que não tenho um tostão... Vou te tirar daqui do pedaço em segurança... Fico com o prejuízo da corrida e no próximo sinal cada um vai pro seu lado.
-Vou fazer um negócio com você, me dá o seu relógio... Tem cordão?
-Não tenho nada.
-Tem sim, me dá a aliança.
Parei no sinal. Nesse instante apareceu outra viatura policial e ele escondeu a arma rapidamente. Quando o sinal abriu a patrulha arrancou e foi embora, ele desceu do carro calmamente e me devolveu o relógio dizendo:
-Toma o relógio, isso não vale nada, você está pior que eu.
Arranquei na intenção de alcançar a polícia, mas logo desisti. O melhor era voltar para casa, descansar e esquecer tudo aquilo, pois o estresse havia sido grande. Você leitor deve estar se perguntando por que não o larguei logo quando ele disse que a máquina não funcionava na primeira vez. O problema é; só quem trabalha na praça pagando diária pode entender essa teimosia burra.
***
Sempre gostei de trabalhar na segunda-feira feira, porém esta em especial não estava nada favorável nem agradável. Logo na parte da manhã ocorreu um problema elétrico e fui obrigado a ir para oficina. Torci para que na parte da tarde tivesse mais sorte. Após o meio dia lá estava eu novamente na pista a procura do tão cobiçado passageiro. As horas foram se passando e nada do trabalho engrenar. Resolvi parar para fazer um lanche talvez quando voltasse a rodar o panorama fosse diferente. Ainda não tinha acabado de lanchar quando um senhor perguntou se era eu o motorista do táxi ali parado. Resposta afirmativa, disse que iria me aguardar e acomodou-se no carro. Estranhei, pois nos dias de hoje o que mais tem são táxis rodando, mas tratei de terminar rapidamente o lanche para não perder aquele cliente. Já dentro do carro perguntei.
-Senhor, aonde pretende ir?
-Petrópolis.
Valeu à pena dar uma parada. Pensei com meus botões.
-Estou vendo que o seu nome é Herbert. Você é descendente de ingleses? -perguntou mostrando que iríamos conversando.
-Não. Descendo de português, angolana, francesa e árabe.
-Uma mistura bem interessante. Provavelmente o senhor é uma pessoa de muita sorte.
-Não seria capaz de afirmar isso, ainda mais agora, nos últimos anos parece que a sorte mudou de endereço.
-Como assim? Nos dias de hoje conseguir uma corrida para Petrópolis sem ser através de uma cooperativa só alguém com muita sorte. E o senhor está fazendo uma neste momento. O que me diz?
-Analise o que vou lhe responder e diga-me se posso ser considerado como sendo um homem de sorte.
-Não reclame que com certeza existe coisa pior.
-Quanto a isso não tenho dúvida, mas veja os últimos dias. No Sábado passado fui assaltado passando por um estresse altamente desgastante. Hoje a parte da manhã o carro passou na oficina e só agora às cinco horas da tarde consigo o primeiro passageiro do dia. Isso pode ser chamado de sorte?
-Claro que pode. A senhor está vivo e continua com seu trabalho para sustentá-lo e a sua família.
-Olhando por esse ângulo sou obrigado a concordar, mas que ando sem sorte isso ando.
-Sem sorte é um conhecido meu. Depois que você escutar este fato tenho certeza de que nunca mais dirá que não tem sorte.
-Pode ser -concordei para não parecer deselegante.
-Com certeza. Escuta com atenção. Antenor é como o senhor, um motorista profissional. Foi contratado para trabalhar como motorista particular de um grande empresário de São Paulo. No primeiro dia da primeira semana que estava levando o patrão para o escritório parou no sinal que estava fechado, um carro desgovernado bateu neles destruindo totalmente a traseira da Mercedes. O patrão não disse nada. Com a pancada ele deu um jeito no pescoço ficando quinze dias em casa sem poder trabalhar. Retornou a ativa e seu patrão mandou que ele fosse efetuar um pagamento. No trajeto foi assaltado e os assaltantes levaram todo o dinheiro, o carro que era um Volvo do ano e mataram o segurança que estava com ele. Tudo registrado, mais uma vez o patrão não disse nada. Outra Mercedes comprada para atender ao famoso empresário foi entregue pela agencia de automóveis naquela tarde no escritório. Quando voltava para casa trazendo o patrão, notou que tinha pouco combustível. Foi autorizado por ele a parar no posto para abastecer. Parado dentro do posto ao lado da bomba de gasolina foi abalroado por um caminhão na sua lateral. Mais uma vez, uma Mercedes foi destruída e para piorar ainda mais com a pancada ele fraturou a coluna ficando paralítico. Esse meu conhecido hoje não tem saúde nem pode trabalhar. Entende por que digo que o senhor é um homem de sorte? Tenho ou não razão?
-Assim também não tem como não concordar -respondi.
***
De longe avistei na porta da Biblioteca Nacional um rapaz fazendo o tradicional sinal para meu táxi. Parei e ele educadamente perguntou:
-O senhor pode me levar ao Meyer?
-Só se for agora - respondi brincando.
-Então, por favor, espera um pouco que vou pegar aqueles livros.
Quando olhei na direção indicada avistei tantos livros que não me contive e perguntei.
-Por acaso você assaltou a Biblioteca?
Ele riu e respondeu.
-Quase isso, eu tive que subornar emocionalmente o porteiro dos fundos para conseguir sair com eles.
Com todos aqueles livros acomodados no banco traseiro fomos embora.
-Pelo que me consta os livros da Biblioteca não podem sair daí.
-É verdade, mas é para uma causa justa e não se preocupe eu vou devolvê-los tão logo termine meu trabalho.
-E que trabalho é esse, que requer tantos livros para pesquisa?
-Eu estou estudando Direito... Como não tenho condições para adquiri-los, aproveitei que o pai de um amigo meu é um dos porteiros, peguei os livros para tirar xerox das partes mais importantes e assim, poder fazer o trabalho.
-Então me diga seu nome, é sempre bom conhecer um Advogado.
-Me chamo Leopoldo, senhor?
-Herbert é o meu nome... Acredito que você vá se tornar um grande Advogado.
-Estou lutando para isso.
-Está começando bem. Quem convence um porteiro a correr o risco de perder seu emprego, provavelmente convencerá com facilidade os Jurados de que seu cliente é inocente.
-Quanto a isso não tenha dúvidas. Se depender de mim, enquanto for advogado, o inocente que eu defender ficará livre, em contra partida quando me tornar Promotor vou colocar atrás das grades todos os corruptos desse país.
-Tomara que seu pensamento não mude nunca.
-Não vai mudar senhor, pode ter certeza disso.
Chegando ao Meyer repetimos o mesmo ritual, agora para retirar aquela montoeira de livros de dentro do carro e por na varanda da sua casa. Terminada a pequena mudança ele me pagou e entregou um cartão de visita com seu nome onde dizia Justiça para os justos.
-Me formo no final do ano, quando precisar estarei às ordens.
-Obrigado doutor e boa sorte... Lembre sempre do que acabaste de dizer... A grande maioria dos seus colegas depois de algum tempo esquece tudo que se propuseram a defender.
-Não me esquecerei Herbert. Você ainda vai ouvir falarem muito de mim.
***
Numa grossa comparação, podemos dizer que os táxis realizam um balé por vários bairros da cidade, de acordo com a preferência ou intuição de cada motorista. Vou tentar explicar em poucas palavras: -Estamos em Copacabana e vamos à procura de um passageiro até o final do Leblon e voltamos a Copacabana para fazer o percurso de novo, caso não se tenha conseguido um cliente. Esse “balé” torna-se quase que uma rotina no dia a dia de um motorista de táxi pela cidade.
Aquele dia eu não estava com muita sorte, já tinha rodado mais do que o normal e passageiro que é bom nada, pensei inclusive em pagar a diária e voltar para casa, pois neste dia eu já tinha perdido a conta de quantas vezes havia feito este circuito completo.
Mentalmente esquematizei, vou dar mais uma volta e caso não encontre ninguém vou embora. Já estava mais uma vez quase completando o circuito quando apareceram os meus clientes, eram três pessoas. Não costumava parar para dois homens e uma mulher, mas “como estavam todos bem vestidos arrisquei pegá-los”.
Não tem nada a ver essa colocação (bem vestidos) que acabo fazer, mas a verdade é, que como estava precisando, me baseei nela. Devo também acrescentar que logo descobriria que esta corrida seria muito interessante e porque não dizer; -excitante e tentadora, mesmo sendo curta a viagem.
Eles pararam o táxi em frente ao restaurante Grotamare que fica em Ipanema e os três se acomodaram no banco traseiro, primeiro a mulher no meio o rapaz e depois o homem, este assim que fechou a porta foi logo falando.
-Parabéns meu amigo é difícil pegarmos um táxi de empresa e ele ser como este, conservado, limpo, cheiroso e além de tudo isso com um motorista educado e charmoso.
-Os elogios são sempre bem-vindos, mas existem outros táxis como o meu. Quanto à parte que me toca agradeço a gentileza.
-Não há de que... Até porque, neste carro tudo salta aos olhos, mas o resto deles, só Deus sabe, são uns horrores. - Afiançou a mulher.
-Com tempo o senhor vai me dar razão, existe outras exceções, mas de qualquer forma obrigado.
Já estava em movimento há algum tempo seguindo o fluxo do transito quando resolvi perguntar para onde iríamos:
-O nosso amante vai ficar na esquina da Rua Figueiredo de Magalhães com a Avenida Copacabana e nós continuamos para a Lagoa.
Pude ver pelo retrovisor panorâmico que ele disse isso abraçando e beijando o rapaz no rosto, enquanto que a mulher me pareceu estar apalpando o garotão. O tempo chegou a esquentar. Era mão aqui mão ali, beijo nela beijo nele, mas a farra logo acabou, pois o Ricardão teve que descer.
Como se eu nada tivesse visto ou tivesse acontecido, continuei com meu trabalho levando-os para casa.
Cornuto e Cornuta começaram a conversar em voz baixa e assim foram até ao prédio de apartamentos na Lagoa, lá me pediram para entrar no recuo existente na frente do prédio e antes de pagar a corrida Cornuto tentou um entendimento comigo, bem assim:
-Senhor, nós somos casados a vinte e dois anos e estamos num estágio da vida que achamos tudo muito natural. Vejo que também é casado, portanto eu e minha mulher gostaríamos que o senhor e sua esposa nos fizessem uma visita.
-Acredito firmemente que não daria certo, pois sou ciumento e minha mulher conservadora.
-O amigo, parece que não entendeu. Nada irá acontecer sem o consentimento dela e seu, nós fazemos o espetáculo e vocês assistem, caso queiram participar da peça já sabe de antemão que não terá nenhuma objeção da nossa parte.
-Lamento desapontá-los, mas realmente nós ainda não alcançamos esse grau de liberdade e desprendimento. Quem sabe conseguiremos daqui a uns quarenta anos.
-Você devia reconsiderar, pois não sabe o que esta perdendo, sem contar que essa experiência enriquecedora reaviva qualquer relacionamento.
-É melhor deixar as coisas como estão, pois em time que está ganhando não se mexe.
***
Na Praça da Bandeira, o passageiro entrou no carro lentamente, como se tivesse medindo o local para não bater. Estava bêbado.
Depois de muito custo, sentou e me mandou ir para Ipanema. Perguntei em que rua iria e ele respondeu que diria quando chegasse ao local.
Logo reparei que de vez em quando ele dava pequenas cochiladas. Quando estávamos quase chegando falei:
-Senhor já estamos entrando em Ipanema. Qual é a rua que o senhor vai?
-Ipanema? Não. Não é em Ipanema, eu disse no Leblon.
Senti pelo hálito, que não estava bêbado. Pensei. Deve estar drogado.
Mas adiante voltei a chamá-lo, pois já estava cochilando outra vez:
-Senhor! Aqui já é o Leblon. Qual é a rua que vai ficar?
Leblon? Mas quem falou em Leblon. Vamos para o Leme.
Ao chegarmos ao local mais uma vez ele mudou o bairro dizendo que queria ir a Copacabana. Realmente tudo indicava que o cara estava drogado e agora eu já estava pensando, é que não ia receber a corrida. Então no meio do caminho resolvi parar e falar com um policial. Assim fiz e o mesmo se dirigiu ao passageiro:
-Doutor! -Chamou para acordá-lo.
O passageiro acordou e se espantou.
-O que está acontecendo?
-Doutor, aqui é o início de Copacabana.
-Mas eu não quero ir a Copacabana? -Falou meio enrolado.
O guarda logo viu que o homem não estava bem.
-O senhor está bem? Aonde o doutor quer ir realmente.
-Seu guarda, eu só tomei uns remédios. Não estou bêbado e nem drogado. Quero ir a agencia do Banco do Brasil lá em Ipanema. Entendeu?
-Entendi e vou junto. Está bem assim?
-Tá pensando que sou maluco, né? Pode ir motorista, e não se preocupe. Estou meio zonzo, mas eu vou lhe pagar.
Chegamos a porta do banco, e ele realmente não só pagou a corrida, como me deu um dinheiro há mais dizendo:
- Beleza! Isso aí é para levar o “seu guarda” de volta e nunca mais estragar o meu passeio pela cidade, entendeu; - seu estraga prazeres!
E saiu resmungando alto, a ponto de ouvirmos.
“Que safado chamou a polícia para me complicar a vida”.
Pelo retrovisor pude vê-lo pegando outro taxi.
***
Estava eu parado tranquilamente bem em frente à Embaixada Americana aguardando que o sinal abrisse, quando um casal entrou no carro. Pareceu-me que estavam discutindo. Deram uma pequena pausa e a senhora, que tinha um forte sotaque nordestino, pediu para levá-los até Botafogo. O sinal abriu e eu segui para o local pedido. Voltaram à discussão sem se importar com a minha presença. O mais interessante nisso tudo era ouvir aquele homem com sotaque americano a todo instante reclamar a mesma coisa.
-Oh! Mulher, fala devagar que eu não estou conseguindo entender nada.
Mas a senhora que estava brava não dava nenhuma atenção a ele e continuava falando pelos cotovelos. Às vezes ela falava tão enrolada que até eu não entendia o que ela queria dizer.
Logo chegamos. Ela desceu e ele pediu para esperá-lo um pouco. O americano acompanhou à senhora até a entrada do prédio, deu-lhe um beijo e ao voltar entrou na porta da frente e foi logo se desculpando com aquele sotaque tradicional de gringo.
-Por favor, o senhor não repare a minha mulher.
-Não se preocupe, nós motoristas, já estamos acostumados.
-Entendo.
-Mas aonde o senhor quer ir agora?
-Oh! Até esqueci-me de falar. Copacabana, bem lá, no final.
Ele foi conversando por todo o trajeto. Quando chegamos, ele pagou e disse.
-Olha só que interessante. Conversamos bastante e eu consegui entender tudo o que o senhor falou. Mas não entendo, como é que não consigo o mesmo com minha mulher? Parece que ela fala outra língua.
-Com o tempo o senhor vai entender.
-Acho difícil. E o senhor? Entendeu o que ela falava?
-Mais ou menos.
Sorri e ele também.
***
A passagem que vou relatar agora é uma homenagem que dedico a um velho senhor, que infelizmente não vai poder ler, pois certamente já terá feito sua passagem, mas tenho certeza que esteja ele onde estiver, ficará feliz.
Quinta-feira. Já passava das 21hs 00min, na Avenida Graça Aranha um senhor com a idade bem avançada me parou. Vestido num terno azul marinho escuro, camisa social branca, gravata borboleta também azul, sapatos conservados e finos, chapéu de feltro cinza na cabeça e um guarda chuva pendurado no antebraço compunham aquela figura que mais parecia ser do século anterior ao que estávamos vivendo. Sentou-se, me deu boa noite, disse seu nome e falou o itinerário:
-Muito prazer, Heráclito. Vamos até a Rua Marquesa de Santos, onde pegarei uma encomenda e de lá seguimos para a Rua Pereira da Silva.
Achei que ele sorria interiormente pensando que eu não soubesse onde ficavam aquelas ruas, pelo menos a primeira, mas não disse nada, pois eu poderia estar enganado. Como só assenti com a cabeça ele voltou a falar, confirmando as minhas suspeitas.
-Toda semana eu faço esse percurso e o senhor é o primeiro taxista que sabe onde fica a Rua Marquesa de Santos. Parabéns!
-Quem sabe já não lhe levei lá.
-De maneira alguma, tenho certeza que esta é a primeira vez que viajo com o senhor.
-Não terá o senhor se esquecido?
-Realmente estou velho, mas a mente continua boa. Para ter uma ideia, lá onde o senhor me apanhou, ainda hoje continuo clinicando três vezes na semana, depois de sessenta e cinco anos de formado.
-Sessenta e cinco anos de formado? Quantos anos o senhor tem?
-Se o senhor acertar minha idade, pago dobrado o valor da corrida.
Com essa possibilidade de ganho extra, botei logo a cabeça para funcionar e calculei que tivesse se formado aos vinte e cinco anos mais os sessenta e cinco de formado, rapidamente achei noventa anos. Como margem de segurança, já que ele tinha lançado um desafio, acrescentei mais dois anos e mandei:
-O senhor tem noventa e dois anos.
Como bom gaúcho, sua resposta foi curta e grossa:
-Errou.
Tirou a carteira de identidade do bolso e me mostrando disse:
-Tenho noventa e oito anos, pode conferir.
Era difícil de acreditar, mas como estava escrito, aceitei. Realmente para a idade era muito lúcido, esperto, conservado e tinha um humor de dar inveja a muita gente nova que conheço.
Aprendi uma bela lição de vida, pois antes de terminar a corrida fiquei sabendo que dos três dias que ele trabalhava, dois eram dedicados às pessoas carentes que não podiam pagar.
***
Esse momento merece ser lido, entretanto não aconselho que seja posto em prática o feito, caso se apresente a você que está lendo.
Lá estava ele parado à beira da calçada à espera de um táxi, e por sorte era o meu que ia passando. Atendi ao seu chamado e parei.
-Bom dia, piloto. Me leva na Lapa.
Logo notei ser um malandro, uma dessas pessoas que pensam ser mais espertas que as outras.
-Bom dia, senhor.
Como sempre arranquei bruscamente na intenção de atendê-lo o mais rápido possível, para poder ir ao encontro de um novo passageiro. Lembre-se, esse é sempre o nosso objetivo. Nessa arrancada, sem querer avancei o sinal que estava bem em cima de nós. Foi quando ele me alertou contando sua experiência.
-Cuidado, piloto. Se um guarda ver isso da próxima vez, você pode se dar mal ou bem.
Não entendi a colocação dele e perguntei.
-Como assim?
-Vou lhe explicar. Outro dia isso aconteceu comigo; avancei o sinal sem querer, assim mesmo como você fez agora, e o guarda me parou -ia me multar. Papo daqui, papo dali, consegui dobrá-lo e ele mandou que eu deixasse com o Júlio, na banca de jornal logo adiante, a mixaria da minha corrupção.
-Então você se deu bem. -Afirmei.
-Engano seu. A caminho do local indicado resolvi dar uma lição no guarda. Quando cheguei à frente do jornaleiro, apresentei-me e, falando o nome dele, disse que o guarda o tinha mandado entregar-me todas as paradas dele daquele dia.
Comecei a rir imaginando a situação.
-Você está rindo porque não sabe o que aconteceu depois.
-O que aconteceu?
-Saí da banca de jornal com uma grana em que há muito tempo não botava a mão, mas no mês seguinte passei a receber tanta multa que tive que voltar ao local, devolver tudo para aquele guarda e dar a mixaria que havia combinado antes.
Continuei rindo.
-Pelo visto agora você está rindo é de mim.
Não aguentei e ri ainda mais.
***
Nesta sexta-feira às quatro horas da tarde, acabei de deixar uma passageira, na Rua Senador Vergueiros e sai pensando em parar para fazer um lanche. Mal arranquei o carro fui parado por um homem de arma em punho, que ao entrar rapidamente procurou me tranquilizar:
-Vamos em frente e fica tranquilo, que eu sou um policial.
Um pouco à frente, e já mais tranquilo, perguntei:
-O que está acontecendo?
-Eu sou segurança daquele estacionamento onde você acaba de me pegar e ele estava sendo assaltado.
-E você está fugindo? ... Grande segurança que você é...
-Não é nada do que está pensando. Um dos assaltantes me reconheceu e atirou contra mim. Fui obrigado a atirar também e deixei os três safados lá, feridos é claro. O que me reconheceu já deve estar morto agora.
O homem falava de uma maneira tão natural, que era como se nada tivesse acontecido.
-E ninguém viu o ocorrido?
-O próprio dono do estacionamento estava presente e foi o único que viu.
-Estou vendo que você também está ferido. O que vai fazer agora?
-Estou indo para o hospital da corporação.
-Não é grave?
-Não. É só um arranhão nesse braço -mostrava o local.
-Mas pode infeccionar este ferimento meu amigo -lembrei a ele o perigo que corria.
-Que infeccionar que nada, daqui a pouco to tomando umas cervejas e fica tudo esterilizado.
-E depois?
-Vou dar um tempo e depois volto para trabalhar.
-A polícia já deve estar lá no estacionamento. Os bandidos vão falar que foi você que os atingiu.
-E qual é o problema? Só acertei marginal.
-De qualquer maneira você vai ser preso.
Nesse momento ele deu uma gargalhada e falou:
-Não é bem assim. Depois que eu fizer esse curativo vou me apresentar agora na delegacia e fica tudo resolvido. Provavelmente estarei tomando a cerveja que lhe falei, com o próprio pessoal da 9ª.
-Fácil e simples assim?
-Se liga piloto. Nós estamos no Brasil.
Chegamos ao hospital da Policia Militar que fica no bairro do Estácio. Ele pagou a corrida, e me olhando bem nos olhos, riu e repetiu; -se liga piloto
***
Ele fez sinal e já entrou no carro sorrindo, atitude que é difícil de acontecer logo no início de uma corrida. Sorri também em retribuição ao gesto. Reconheci-o. Era um ator de teatro e novela, mas guardei para mim a descoberta e respeitei sua privacidade.
-Pode me levar na Rua Pompeu Loureiro?
-Posso sim senhor, estou aqui para isso.
-Eu sei, mas sempre pergunto por que tem alguns colegas seus que não gostam desse tipo de corrida curtinha.
Eu ia responder, mas o celular dele tocou e a conversa foi mais ou menos assim.
-Pode falar, é o Paulo... O paciente piorou?... Já estou chegando... O centro cirúrgico já esta pronto?... Não?... Então manda liberar, que em cinco minutos estarei aí.
Ouvindo o tipo de conversa qualquer um veria que ele era médico e em razão disso olhei para ele com a indagação no rosto e ele me perguntou:
-O senhor está com alguma dúvida? -com o mesmo sorriso me fez essa pergunta.
-Devo tê-lo confundido com um ator da Rede Globo que por sinal também faz papel de médico, aliás, vocês são muito parecidos.
-O senhor não se confundiu não, sou eu mesmo. Sou médico por profissão e como quase todo mundo, eu também tenho um hobby, que é fazer teatro e televisão. Vai dizer que o senhor também não tem um?
-É verdade também tenho um hobby, costumo tocar teclado nas horas vagas, para desespero dos meus vizinhos.
Mais uma vez ele deu um largo sorriso. Logo chegamos ao seu destino e ele fez uma colocação:
-Se o senhor toca como dirige com certeza seus vizinhos não se desesperam.
De todos os atores e atrizes que usaram o meu serviço esse é um dos que merece ser mencionado nessas minhas lembranças, e podem ter certeza que não foram poucos, contudo não deixarei de mencionar mais alguns.
***
A necessidade não só me fazia trabalhar até tarde como também me obrigava a aceitar qualquer passageiro.
Estava acabando de deixar um cliente na entrada do morro da Mangueira e ali mesmo outro entrou. A primeira vista pareceu suspeito, mas fazer o que, é pegar ou largar. Como não posso voltar para casa sem dinheiro peguei.
Nesse caso, logo procuro conversar para tornar o ambiente sustentável e mostrar ao passageiro que não tenho nenhuma ressalva para com ele.
-Tudo bem? Para onde vamos?
-Aqui perto, precisamente na estação de São Cristóvão.
Lá fui eu confiante, pois por ali com todos os quartéis na área, tinha certeza de que não seria assaltado. Chegamos a São Cristóvão e ele ordenou.
-Me deixa aqui na ponte que eu vou atravessar para o outro lado.
Tentando mostrar preocupação com a segurança dele alertei.
-Cuidado quando atravessar. Esse lugar é muito perigoso.
Ele calmamente pagou a corrida e, puxando uma pistola automática, falou friamente.
-Perigoso sou eu, meu amigo -me mostrou a pistola agitando-a no ar, mas obrigado pelo alerta. Vai com o seu Deus, que eu vou com o meu.
***
Clarimundo abriu calmamente a porta da frente do táxi. Sentou-se, cumprimentou-me e como se já me conhecesse a uma eternidade, pediu que o levasse para São Conrado.
Sempre procurei me manter reservado com pessoas dessa natureza, pois invariavelmente são abusadas e não respeitam os espaços.
E não ficou por aí não, demonstrando grande desenvoltura e espontaneidade logo procurou o dialogo.
-Meu nome é Clarimundo. Como é mesmo o seu?
Respondi e continuei calado. Entretanto meu passageiro com uma descontração de fazer inveja a qualquer comunicador insistiu.
-Vejo que o amigo é de pouca conversa, mas como sou adepto da comunicação tenho a obrigação de alertá-lo que esse tipo de comportamento que o senhor parece ter, é prejudicial à saúde.
Achei interessante a forma empregada por ele para conseguir o que me pareceu ser uma necessidade íntima e resolvi abrir a guarda, mesmo ainda achando que pudesse vir a me aborrecer.
-Interessante. Não havia pensado e nem sentia isso.
-Mas é a pura verdade. Não há nada melhor do que um bom papo. Eu por exemplo, sempre que tenho uma oportunidade dessas, não deixo escapar e procuro adquirir mais um amigo. A vida sem uma boa conversa e sem, pelo menos, um amigo não tem sentido.
-Desculpe interrompê-lo, mas por onde o senhor prefere ir.
-Qualquer caminho está bom, o importante é chegar. Até porque não temos muitas alternativas. Ou vamos pelo túnel ou pela Avenida Niemeyer. Pensando bem, vamos por cima, a vista é bem mais bonita.
-O senhor é quem manda.
-Quisera fosse verdade essa sua afirmativa. Nem no meu trabalho. E olha que sou o delegado titular daqui do Leblon, e mesmo assim não mando nada. Quando muito entro em acordo e vou resolvendo as pendências. Mandar mesmo é difícil. Pensando bem -em minha opinião é claro, ninguém manda, tudo e todos se ajeitam de acordo com a necessidade. Certo?
-Quem sou eu para contradizê-lo, ainda mais agora, sabendo que o senhor é uma autoridade.
-Está vendo só? Como acabei de falar, tudo se ajeita. Até o senhor está encontrando o jeito de se relacionar comigo que sou um estranho.
Por menor que fosse a minha participação no diálogo, o homem para tudo tinha uma resposta e me pareceu estar feliz por ter encontrado uma orelha para alugar. Nesse momento estávamos passando pelo motel Vip’s e ele emendou outro assunto. Entendi na época como que quisesse justificar o que havia afirmado.
-Como lhe disse tudo se ajeita. Aqui mesmo nesse motel, posso citar um exemplo; Há uns anos atrás uma atriz famosa foi jogada em cima dessas pedras. Como seu acompanhante era uma pessoa influente e também muito conhecida no meio de comunicação, o laudo pericial foi trocado. De “jogada” passou para, “se atirou”.
O senhor Clarimundo deu o nome dos personagens envolvidos neste episódio.
-É mesmo? Então alguém foi subornado?
-Nada disso, pelo menos no meio policial não. A tal atriz estava pressionando essa pessoa para se separar e casar-se com ela. Sabemos que ela foi jogada por ele, mas não podemos fazer nada. Se ela tivesse morrido, o pessoal do hotel já estava comprado para omitir a presença dele no local. Entretanto tendo ela sobrevivido, mais tarde na delegacia, mediante uma boa indenização ela mesma mudou a versão. Está vendo? Ele deu o jeito dele e tudo terminou bem.
Chegamos ao prédio onde ele morava -creio eu. Ele não disse -pagou a corrida e ainda dentro do carro mostrando ser um autêntico prolixo falou.
-Meu amigo, eu gostei muito de conversar com o senhor, mas que essa nossa conversa fique só entre nós. Não quero me comprometer com alguém que pode me transferir para uma cidadezinha do interior, onde a lei quem faz são os coronéis. Se isso acontecer, com certeza virarei manchete de jornal. E a notícia, até já antevejo; Delegado recém transferido morre acidentalmente na cachoeira.
Confesso que mais uma vez me enganei ao analisar prematuramente um passageiro e me sinto na obrigação de me retratar, pelo menos com esse, caso ele esteja lendo essas memórias. Por essa razão declaro que durante todo esse tempo que trabalhei na praça, este foi o passageiro mais descontraído e agradável que conduzi. Mesmo falando pelos cotovelos e contando tamanha mentira.
***
Edcarlos, Ednalva e Edvirgens, esses são os nomes que arranjei para os irmãos que insistiram para serem mencionados nas minhas memórias.
Domingo por volta das 10hs 00min, um senhor e duas senhoras aproveitaram que eu estava parado no sinal e se acomodaram no carro. Edcarlos sentou-se na frente esperou que elas também se sentassem atrás e perguntou:
-O senhor conhece a Taquara em Jacarepaguá?
-Sim e por coincidência eu moro lá.
-Que ótimo nós vamos para lá.
Logo em seguida Edvirgens deu uma indireta:
-Sorte a nossa, pela hora que é provavelmente nosso motorista vai almoçar em casa e quem sabe não se consegue um desconto na corrida.
Com a mesma velocidade que ela usou para obter um desconto, respondi.
-Ainda não será desta vez, pois o motorista está de dieta alimentar e só toma suco de frutas à noite quando chega em casa.
Nada de importante aconteceu durante nosso trajeto, mas quiseram saber sobre o comportamento dos passageiros. Narrei alguns casos, rapidamente sobre os episódios, passados com os passageiros, ai Ednalva comentou com os irmãos:
-Nossa, com toda essa riqueza de detalhes dá até para escrever um livro, vocês não concordam.
Antes que se entusiasmassem em escrever, tirei-os de jogada no ato.
-É o que pretendo fazer senhora, por isso está tudo anotado com detalhes para que eu não esqueça.
-Verdade, ou o senhor esta brincando conosco?
-Vejam isso então!
Peguei minha agenda e mostrei a eles que eu fazia anotações ao longo do dia de tudo que achava interessante. Os três deram uma olhada rápida nas anotações e não se fizeram de rogados. Pediram para que eu também não deixasse de mencioná-los no livro. Foram tão insistentes que já estavam fora do carro e quase que simultaneamente falaram:
-Não se esqueça de nos mencionar no livro, hein?
Nesse momento cada um repetiu o seu nome e me obrigaram a escrevê-los em minha agenda.
***
Essa foi uma corrida bem curta, da Avenida Almirante Barroso até a Avenida General Justo. Assim que entrou, este senhor começou a conversar:
-Não sei se o amigo sabe, mas a sua profissão é uma das que usamos para saber como anda a nossa Economia.
Quem acabava de fazer esta declaração era nada mais nada menos que um ex-ministro da Economia e até hoje fico na dúvida, se é verdade ou se foi à maneira que ele arranjou para iniciar um bate papo.
-Poderia explicar essa sua colocação da forma que um motorista de táxi possa entender?
-Apesar de ter a certeza que o senhor me entendeu vou satisfazê-lo melhor, o que quero dizer é que quando vocês estão faturando é sinal de que a economia vai bem, caso contrário é preciso ser revisto as medidas que foram tomadas, no sentido de corrigir o curso.
-Interessante, então posso lhe garantir que a Economia vai muito mal, pois está cada dia mais difícil ganhar dinheiro. Para que o senhor tenha uma ideia outro dia mesmo um passageiro dizendo ser Economista, me disse que estava a ponto de rasgar seu diploma, pois não estava entendo mais nada. Segundo ele as novas medidas eram ridículas e insuficientes.
-Sou obrigado a concordar com ele, mas o que podemos fazer? Só nos resta torcer para que tudo de certo, não é assim que fazemos no futebol, principalmente na Copa do Mundo? No Brasil o que não falta é, Advogado, Economista e Técnico de Futebol.
-É verdade, então vamos torcer.
Ao final da corrida, ele pagou e como bom Economista, não foi capaz de dar gorjeta.
***
Na porta da tradicional boate Le Boys em Copacabana, um senhor pegou meu táxi. Sentou-se no banco traseiro e sem muita certeza do que queria falou.
-Por favor, faça a volta onde puder que estou pensando o que fazer.
Estava muito agitado, num curto espaço de tempo o homem já havia mudado de lugar no banco quatro vezes, cruzava e descruzava as pernas sem parar. Comecei a pensar que o cara era maluco ou tinha algum distúrbio emocional, tal o estado em que se apresentava.
Não resistindo à curiosidade e também querendo me certificar de que de repente ele pudesse ter um ataque ou não eu ser pego por alguma surpresa, perguntei:
-Posso ajudá-lo em alguma coisa? O senhor está com algum problema?
-Acredito que o senhor não possa fazer nada, aliás, ninguém pode.
-Quem sabe? Se estiver ao meu alcance poderei tentar.
-Acabei de descobrir que o meu filho é viado. Tem remédio para isso? Alguém pode me ajudar?
-Calma meu amigo, poderia ser muito pior. Imagina se ele estivesse com uma doença em estado terminal?
-Pois para mim seria bem melhor.
-Dizendo isso, o senhor acaba de cometer o segundo engano, pois com toda certeza estaria sofrendo muito mais.
-Você fala isso, porque não tem um filho que é viado.
-Comece a se policiar e aceitar a realidade. Não diga que seu filho é viado, mas sim homossexual. Fica menos pesado e agressivo.
-Meu amigo ele não é rico para ser chamado de homossexual, pobre é viado mesmo.
-Não posso imaginar o que o senhor está sentindo, mas posso lhe assegurar que sem amor o senhor só irá piorar seu relacionamento, não só com ele, mas com todos que estiverem a sua volta. Pense bem nisso. O grande segredo da convivência é o amor.
-Por enquanto não da para pensar em nada, a vergonha tomou conta de mim, pode ser até que o senhor tenha razão, mas quanto a isso, só saberei mais na frente.
-Bem, o senhor já decidiu aonde vai ficar?
-Ah! Sim, me deixa na estação do Metrô.
***
Certa vez em Ipanema, eu atendi ao chamado de uma atriz. Ela é pequena no tamanho, mas grande na interpretação. Levei-a em casa, que fica localizada num condomínio no início da subida do alto da Tijuca.
Ela estava com as mãos ocupadas, três enormes sanduíches e três copos de suco. Fui obrigado a descer para abrir a porta para ela. Logo pensei; -“espero que não seja desastrada e me suje todo o banco”.
Quando nos acomodamos e ela me disse para onde ia. Saí em direção ao destino dado e ela continuou falando como se estivesse lido meus pensamentos.
-O senhor pode ficar tranquilo que eu não vou sujar seu banco. Eu sou muito cuidadosa.
Deu um sorriso daqueles de criança levada.
Continuou comendo um dos sanduíches e bebendo o suco tranquilamente. Pouco falou. Alias nem podia, pois o sanduíche era realmente grande e a maior parte do tempo esteve com a boca ocupada. Dava para notar que ela não se importava com regime. Também, diga-se de passagem, não precisava fazê-lo, pois era bem magra.
Quando chegamos à frente de sua casa, ela pagou e disse:
-Olha, eu costumo não dar gorjetas aos motoristas que me atendem, mas sempre compro um sanduíche e um suco a mais para aqueles que me ajudam a entrar no carro. Este é seu.
Para você que me lê não ficar tão curioso em saber quem era, digo-lhe que ela fez uma novela de época na TV Globo.
***
Tinha acabado de deixar um passageiro no Jardim Botânico, quando um senhor requisitou meus serviços. Deviam ser quase 20hs00min e meu novo companheiro de trajeto estava indo para uma recepção na sede do Clube Naval na Avenida Rio branco. Calado ele estava, calado eu fiquei, mas logo o silencio foi quebrado. Não sei bem o porquê, mas aquele senhor pensando alto ou dirigindo-se a mim, declamou um trecho do poema de Vinícius de Morais:
Filhos... Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos.
-O senhor conhece esse poema do Vinícius?
-Eu conheço, alias quase todo mundo conhece.
-È uma realidade, tanto o poema, quanto sua colocação. E o senhor, também tem filhos?
-Tenho dois, um com dezenove e o outro com nove.
-O mais velho já está trabalhando?
-Sim e não. Ele estuda na Escola Naval.
-O senhor está de parabéns com o encaminhamento dado ao seu filho, não deve ter sido fácil colocá-lo onde está.
-O mérito é todo dele, eu só paguei um bom colégio para que pudesse estudar e ter a base necessária para essa conquista.
Acabávamos de chegar à porta do clube, os militares que ali estavam de serviço quando o viram, vieram em nossa direção e um corredor foi formado até a entrada do prédio. Ele pagou me deu gorjeta e entregando-me um cartão disse:
-Qualquer coisa que o seu filho venha a precisar pode me procurar.
Mais uma vez eu tinha prestado serviço a um ex-ministro, desta vez, o da Marinha, mas antes que descesse do carro devolvi a ele o final do poema:
Porém, que coisa...
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!
-Boa noite, Ministro.
-Boa noite e obrigado. Gostei muito dessa sua colocação final.
***
Vejo-me na obrigação de deixar registrado um dos muitos absurdos que nos são impostos em alguns momentos ao longo da vida.
Uma senhora acompanhada por um policial saindo de uma agencia bancária solicitou o táxi. Entrou e pediu para levá-la até Ipanema.
Aquela senhora estava de tal maneira revoltada que mal podia falar, mas me pareceu que à medida que íamos chegando também se acalmava. Então perguntei o motivo de todo aquele nervoso e ela resolveu desabafar:
-Eu pago uma pequena fortuna para ficar tranquila, a um desses planos de saúde que dizem cobrir qualquer hospital, tipo de doença e que realiza operação em qualquer lugar que possamos estar, mas na primeira vez em que preciso, depois de estar pagando há quase dez anos esse tal plano, o hospital para onde o senhor esta me levando não autorizou a operação de urgência que minha filha precisa fazer.
-Mas a senhora não apresentou o seu contrato ou carteira desse tal plano que dá direito de sua filha ser atendida?
-Apresentei tudo, mas como o sistema da minha seguradora está fora do ar, estão se negando a atender sem ter uma garantia de recebimento e por isso estou sendo obrigada a levar cinquenta mil reais em dinheiro vivo, porque nem meu cheque ele aceitaram como garantia alegando ser de outra praça.
-Bem, pelo menos a senhora conseguiu sacar o dinheiro para poder fazer o depósito no hospital.
-Consegui, mas também foi outra briga que o senhor não pode imaginar, fui obrigada a recorrer ao tribunal de pequenas causas para poder sacar na hora o meu dinheiro, diga-se de passagem, sem ter que avisar com antecedência. Para o senhor ter uma ideia eu estou desde as 10hs 00min tentando e só consegui agora às 12hs 00min. Espero que o estado de saúde da minha filha não tenha se agravado e que tudo corra bem daqui para frente.
Chegamos, dona Guilhermina pagou a corrida e saiu rapidamente em direção à entrada do hospital. Ela continuava ainda tão nervosa que esqueceu em cima do banco traseiro o envelope com cinquenta mil reais, para sorte dela e minha, logo no sinal à frente descobri o seu esquecimento, pois se apanho outro passageiro corria o risco dele achar e ficar calado.
Dei a volta no quarteirão para entregar o dinheiro e quando cheguei de volta ela estava em prantos na porta do hospital. Quando me viu correu em minha direção agradeceu-me tanto que chegou me fazer mal ver tal desespero.
Tentou me gratificar, mas recusei.
***
Todo mundo sabe que existem vários poderes paralelo, só as autoridades é que os desconhece ou finge não conhecê-los para sua própria comodidade. Um dia desses conheci os responsáveis por fazerem valer essa justiça.
Django e Ringo entraram no carro e um deles me perguntou:
-Você pode dar um passeio conosco?
-Claro desde que não seja de graça.
Ele riu e disse:
-Não fique preocupado, o Sr. Alves vai pagar.
Não entendi muito bem o que disse, mas liguei o relógio e fui seguindo o itinerário que ele dizia. Nós percorremos todos os terrenos existentes que estavam vazios, da Barra da Tijuca a Sepetiba. Em alguns desses terrenos onde havia alguma tentativa de invasão eles desciam, com uma pistola na mão, iam até onde estavam os invasores e dava o ultimato. Por três vezes pude ouvir; “amanhã quem ainda estiver no terreno vai ficar nele de vez, só que morto”.
No final da corrida me pagaram e marcaram de apanhá-los no dia seguinte na mesma hora e no mesmo lugar para fazer o mesmo trajeto.
Aceitei.
No dia seguinte quando cheguei ao local marcado, eles não vieram sozinhos, estavam acompanhados do Sr. Alves, o encarregado de manter os terrenos vazios e responsável pela segurança.
Repetimos todo o trajeto do dia anterior e a única diferença que pude constatar é que desta vez não vi vestígio dos casebres e ninguém perambulava pelos terrenos. Algo deve ter acontecido durante aquela noite, uma vez que todo aquele pessoal que ali estava desapareceu como fumaça.
Essa constatação para mim foi o suficiente para ter a certeza da existência desse tal poder.
***
Bem em frente à Igreja Universal, que fica na estrada Velha da Pavuna entre Inhaúma e Engenho da Rainha, onde próximo funciona a gráfica desse poderoso grupo religioso, um cidadão me parou. Usava uma calça preta, camisa social branca e gravata da mesma cor da calça. Entrou e pediu que o levasse na agência do Bradesco que fica no largo da Abolição. Trazia em uma das mãos uma sacola de supermercado, daquelas antigas de papel reforçado e estava cheia de pacotes de dinheiro arrumado, como os amarrados que se vê nos caixas de bancos. Não me contive e perguntei:
-Você não fica preocupado e nem tem medo de andar com todo esse dinheiro assim amostra?
-Não, esse dinheiro é de Jesus, não tenho com o que me preocupar.
-Sei, mas do jeito que a coisa anda você pode ser assaltado.
-Um dos gerentes do movimento aqui do complexo, frequenta nossa igreja. Qualquer ato falho é só falar com ele. Temos sua garantia de proteção e todo mundo sabe disso. Só mesmo um louco desavisado tentaria nos roubar.
Desta vez quem ficou duplamente surpreendido fui eu, primeiro pela quantidade enorme de dinheiro que ele garantiu ter sido arrecadado com os fiéis naquele dia e segundo com aquela declaração de que a igreja tinha a proteção do pessoal do tráfico.
Verdade ou não, é para se pensar seriamente a respeito.
***
Quarta-feira. Quase 18hs 00min caía à noite. Eu estava passando pela praia do Flamengo na pista interna. De longe avistei aquela mulher fazendo sinal para o táxi. Quando cheguei mais perto a reconheci e acredito que ela ao entrar no carro também, afinal eu e o meu irmão mais velho somos quase cópias fiéis. Era Diana, cunhada da mulher do meu irmão. Entrou com seu acompanhante e pediu-me para levá-la ao Grajaú. Apesar de sermos um pouco próximos não tínhamos muita intimidade, pois em todas as reuniões festivas em que estive presente ela nunca foi muito de se relacionar, preferindo sempre ficar destacada dos demais convidados.
Assim que eles se acomodaram, ela começou a falar mal da cunhada e do meu irmão, fazendo questão de identificá-los para seu acompanhante pelo nome, maneira que arranjou de não deixar duvidas para mim sobre quem ela estava falando.
Como o transito nesse horário fica mais lento e o percurso não era tão pequeno ela conseguiu nesse espaço de tempo falar sobre vários momentos da vida das duas famílias, sempre reclamando é claro e com a preocupação de ressaltar os dois em questão, meu irmão e sua mulher.
Quase chegando a sua casa ela tentou mandar um recado através de mim dizendo que não aguentava mais a presença deles em sua casa de praia tirando sua privacidade e que não sabia como evitar essas visitas de fins de semanas e feriados prolongados. Terminou até dizendo que quando sua mãe morresse, ela não mais faria as reuniões de Natal e de final de ano.
Diz o ditado popular que; “quando o Diabo não vem, ele manda o secretário”, então aproveitando esse dito, assim que ela pagou a corrida e estava para descer do automóvel, eu a chamei pelo nome e disse alto, claro e em bom tom:
-Sua explanação familiar foi magnífica, entretanto eu creio que seria melhor se você falasse diretamente com eles, pois eu jamais irei mencionar uma palavra sequer do que acabas de dizer.
-É uma pena, mas eu tentei.
-Eu sei, mas infelizmente tentou com a pessoa errada.
***
Praticamente toda sexta-feira quando eu voltava para casa, em Cascadura ou Madureira sempre pegava um casal de gays ou de lésbicas, ou os dois quando eram amigos e muitas vezes pessoas sem preconceito que gostavam de curtir a noite, para ir até uma boate GLS que tem próximo a Praça Seca.
Era também muito interessante o convívio com essas pessoas durante esse pequeno trecho. Ali mesmo no carro, alguns mais extrovertidos começavam a esquentar as turbinas, não se importando com a minha presença, outros mais recatados ou comedidos deixavam os carinhos para serem feitos dentro da boate.
Confesso que eu sempre estranhava suas colocações, falando do seu parceiro (gay) ou da sua parceira (lésbica) ou até mesmo de uma conquista em vista, não que eu seja preconceituoso, mas é realmente complicado pelo menos para mim, entender essa afinidade.
Na verdade tudo isso não tem importância só expus para justificar o erro que cometi nesse dia e que poderia ter sido evitado, se não fosse a minha ganância.
Estava vindo para casa e quando cheguei a Cascadura dois rapazes fizeram sinal. Pensando ser um daqueles casais gays, parei. Entraram e deram outro local, que não era o da boate, para levá-los. Como eu não tinha o hábito de recusar o passageiro após ter se acomodado, levei-os para a Penha.
Lá chegando quiseram atravessar para o outro lado da linha, mas o viaduto era fechado a partir das 09hs 00min para manutenção, então me mandaram atravessar no viaduto de Ramos. Por incrível que pareça nesse exato momento o mesmo cheiro exalado do ultimo assaltante, também passou a exalar deles e de tão forte tomou conta de todo o ambiente. Tive a certeza de que iria ser assaltado. Ponderei que era longe e que deveriam descer ali e atravessar na passagem de pedestres logo adiante.
Recusaram.
Conclusão:
Em Ramos eles apresentaram as armas e anunciaram o assalto. Sabiam o que faziam, pois mandaram desligar o segredo do carro e me fizeram andar com a luz acesa para se certificarem de que realmente estava desligado o segredo. Ali mesmo dentro do carro fui obrigado a entregar todo o dinheiro que tinha e foi conferido pelo marginal que estava sentado atrás, que não satisfeito com a quantia ainda me revistou enquanto eu ia dirigindo.
Neste momento passei a acreditar que aqueles dois assaltantes eram policiais, devido à forma de como me revistaram, bem característica da maneira policial.
Quase chegando a Avenida Brasil, eles me mandaram parar o carro. Deixaram-me a pé, levaram todo o dinheiro que eu tinha ganhado naquela sexta-feira. Essa era a quarta vez que eu arrumava um “sócio indesejável”.
E a polícia? Nem sombra.
Fui obrigado a ir a Delegacia da Penha para registrar o roubo do carro. Lá depois de esperar, mais de uma hora, vendo o responsável pelo atendimento andar para lá e para cá sem fazer nada, ainda fui mal atendido e ridicularizado, pois aquele deveria me ajudar e proteger fez a seguinte afirmação:
-“O senhor deu mole, perdeu”.
Infelizmente esses são os policiais que temos.
***
A maioria das vezes em que passei na frente ou pelos fundos do hotel Ébony, que fica ali entre a Lapa e a Gloria, consegui pegar um passageiro. Para longe ou para perto, não importa, sempre tinha um, e dessa vez não foi diferente. Cá vinha eu. Lá estava ele. O tão caçado e cobiçado passageiro. Era um radialista do momento.
Parou-me, entrou e na mesma hora brincou amigavelmente. Cheirava a sabonete de motel, mas mesmo assim aparentava estar feliz da vida.
-Por favor, me leva aqui perto na Rua do Russel, em frente a Radio?
-Levo sim, mas estou curioso e não sei se devo perguntar?
-Se você esta querendo saber, não só pode como deve perguntar.
-Essa sua felicidade estampada é pelos momentos vividos ou é por ter conseguido sair vivo do hotel?
Ele deu uma gargalhada com a minha pergunta. Acho que ele se lembrou do acidente de vazamento de gás que inclusive deixou duas vítimas e respondeu:
-As duas coisas meu amigo... As duas coisas... Você sabe quem eu sou não é? Por isso fizeste essa pergunta?
-Não. Quem é o senhor? -fingi não conhecê-lo.
-Todos os taxistas do Rio me conhecem. Eu sou radialista. Aquele que todo dia informa a vocês como anda o trânsito pela cidade evitando que fiquem presos nos engarrafamentos. Pelo jeito só o senhor não me conhece.
Realmente eu não só o conhecia como também sabia da fama dele: -Com essa história de nos ajudar nunca pagava as corridas quando utilizava o táxi.
-Verdade? Você é mesmo locutor de radio?
-Claro trabalho inclusive aqui na radio que você vai me deixar na porta agora, nós já chegamos.
-Ah! Então é por isso que eu não o conheço, eu só ouço a JB.
-Quem está curioso agora sou eu, posso lhe fazer uma pergunta?
-Como você mesmo disse a pouco, não só pode como deve perguntar.
Outra vez ele deu aquela gargalhada gostosa e perguntou:
-O senhor me conhece e sabe que costumo não pagar os táxis ou está fingindo que não me conhece para poder me cobrar à corrida?
-As quatro coisas meu amigo... As quatro coisas.
Desta vez nós dois demos a gargalhada...
***
Certa vez, na saída de um colégio na Barra um casal com três filhos entraram no carro. Ele perguntou:
-Vamos para casa ou para o shopping?
-Não sei o senhor ainda não disse.
-Desculpe, estou perguntando a minha mulher.
-Vamos ao shopping.
-O senhor ouviu, é para lá que vamos.
Daí em diante aquela mulher não teve mais um minuto de sossego. O marido perguntava, os dois filhos maiores queriam saber se tinham que jantar ou se podiam comer no Mcdonald. O pequeno que estava no colo devia ter quatro anos, não parava de alisar os cabelos de dar beijos. Mal acabavam de perguntar uma coisa, lá vinha outra pergunta. Meu CD que estava no computador à senhora botou aonde? Oh mãe o Junior... Você pagou a dona Maria... Oh mãe... Que horas nós vamos viajar amanhã... Já arrumou todas as malas...
Eu já estava tonto com tantas perguntas e assédio, mas a mulher respondia a todos e dava atenção ao pequeno que não desgrudava um só minuto.
Quando chegamos, ao pagar, ele percebeu meu espanto com aquele tumulto generalizado virou-se para mim e foi dizendo:
-Lembra da música do Erasmo? Ele a fez para duas mulheres, a dele e a minha.
Sem esperar pela minha resposta saiu cantando.
Dizem que a mulher é o sexo frágil
Mas que mentira absurda
Eu que faço parte da rotina de uma delas
Sei que a força está com elas
Veja como é forte a que eu conheço
Sua sapiência não tem preço
Satisfaz meu ego se fingindo submissa
Mas no fundo me enfeitiça
***
“Um dia da caça, outro do caçador”. O episódio que contarei agora tem tudo a ver com este velho ditado popular. O dia era uma sexta-feira, mais ou menos 19h00min. Na Avenida Graça Aranha, um sujeito meio estranho fez sinal. Estava com a camisa de malha enrolada no corpo, como estava calor não liguei. Parei e ele sem entrar no carro me perguntou:
-Escuta, hoje é aniversário da minha sogra e eu estou um pouco atrasado para a reunião que a família esta fazendo. O senhor pode me levar em Campo Grande?
-Meu amigo ali na esquina é o ponto das Vans para Campo Grande, é quase tão rápido quanto o táxi e bem mais barato. Você sabe quanto custa um táxi daqui até lá?
-Eu sei, mas é que estou com muita pressa e de Van não vou chegar a tempo, pois ela me deixa no centro e ainda vou ter que pegar outra condução. Outro dia eu fui de táxi e marcou R$ 35,00.
-Você esta enganado, marca muito mais que isso.
-Não pode ir que é mais ou menos isso tenho certeza.
Resolvi levá-lo, mas antes olhei bem para ele, pois eu sabia que era muito mais a corrida e tentei ver naquele momento qual era a dele. Ele sentindo que eu ia concordar abriu a porta e entrou.
-Por onde vamos, pela zona sul ou pela avenida Brasil?
-Claro que é pela Brasil.
Fiz o retorno no Aeroporto Santos Dumont e peguei a Perimetral em direção a Brasil. Reparei que quando estávamos em cima do viaduto ele começou a regular os carros que vinham atrás pelo retrovisor. Também passei a observar e notei que um Passat velho nos seguia. Sem falar nada aumentei a velocidade e dei umas costuradas no transito e continuei a observar o carro lá trás, que tentava de todas as formas não nos perder de vista. Com essa arrancada que dei, o passageiro ficou preocupado, pois saiu do raio de alcance do seu retrovisor o tal carro. Com a certeza de que estava ansioso, cutuquei a fera.
-Algum problema? Está preocupado com o trânsito?
-Não, está tudo certo. É que também sou motorista e quem dirige nunca tem confiança no outro.
-Estou dirigindo tão mal assim, a ponto de lhe deixar preocupado?
-Não vai em frente, é que também não quero me atrasar, minha sogra é gente muito boa.
Com o bate papo já estávamos chegando a Parada de Lucas eu me distraí e perdi o tal carro de vista. De repente para minha surpresa ele esta do meu lado direito e da uma buzinada de leve para chamar atenção do meu passageiro. Na mesma hora mudei o combustível, passei do gás para a gasolina e acelerei de tal maneira que em pouco tempo estava a cento e trinta.
-O que aconteceu para você estar a essa velocidade?
-Estou andando mais rápido para não se atrasar, afinal como você mesmo disse sua sogra não merece.
Logo ele se manifestou dizendo:
-Da uma parada em qualquer lugar que eu vou com o meu vizinho.
-Parar aqui? Nessa escuridão da avenida? Nem pensar. Vou parar mais na frente.
-Quebra o galho e para aqui mesmo que assim fica mais barato, olha só quanto já está marcando o relógio?
Sabendo que ele não estava armado acelerei mais ainda, pois a velocidade era a minha segurança. Ele não iria me render e naquela velocidade iria chamar atenção de alguma patrulha que estivesse escondida por ali.
Mas nada de policia.
Ele voltou a insistir para eu parar.
-O senhor não vai diminuir a velocidade?
Não respondi e continuei firme na mesma velocidade.
Eu já estava ficando nervoso quando me lembrei que num posto mais na frente sempre ficava uma patrulha de prontidão naquele local. Criei ânimo novo e me concentrei em avistar o posto, pois naquela velocidade poderia passar dele.
De longe avistei as luzes da polícia piscando. Senti um alívio. Diminui o máximo que pude e do jeito que vinha entrei no posto pela saída, pois passei da entrada, tal à velocidade que estava.
O passageiro exalava aquele cheiro familiar que eu já tinha sentido tantas vezes. Não tive mais dúvidas eles iam me assaltar.
Parei na bomba e pedi para a menina abastecer. Olhei a volta e vi os policiais dentro do escritório do posto. Dirigi-me a eles e expliquei a situação.
Os policiais foram até o carro e mandaram-no sair. Não tinha nenhum documento de identificação.
O revistaram.
Estava desarmado.
O sargento olhou quanto estava marcando o taxímetro e perguntou:
-Está com dinheiro para pagar o motorista?
Ele abriu a carteira e mostrou o dinheiro. Só tinha os quarenta reais que o relógio marcava e nós ainda estávamos em Bangu.
O sargento pegou o dinheiro dele, pagou-me a corrida e me dispensou comentando:
-O senhor é um homem de sorte, esses dois assaltaram um colega seu na semana passada e se deram bem, mas hoje a casa caiu para eles.
-É mais o outro fugiu.
-Daqui a pouco nós o prendemos. O malandro aqui vai dar todo o serviço. È só uma questão de tempo.
-Bem, então bom serviço e boa sorte. Ah! Obrigado pela ajuda.
-Não fizemos nada mais que o nosso dever.
Desta vez saí aliviado tinha conseguido encontrar a policia na hora exata.
***
Márcio é o nome desse passageiro que agora estou transportando. Ele solicitou o táxi em frente a um prédio da Vieira Souto em Ipanema e pediu para levá-lo até a Barra da Tijuca. Eram 16hs 25min.
-O senhor acredita que durante vários anos deixei de apreciar essa paisagem e cheguei a esquecer o quanto tudo isso é importante.
-Claro que acredito, eu mesmo sou exemplo disso. Trabalho quase que o tempo todo por aqui e na maioria das vezes nem reparo à beleza presente.
-É, mais no meu caso não foi o trabalho que me atrapalhou, mas sim a dependência das drogas. -confessou com uma ponta de tristeza e amargura.
-Bem, pelo menos parece que você agora esta livre delas.
-Não tenho tanta certeza, já parei e voltei três vezes. Por causa dessa maldita fraqueza fui descendo tanto e alijando meus princípios que perdi tudo. O emprego, por não mais transmitir confiança no que fazia, sou engenheiro. A vergonha, a dignidade e finalmente o apoio da família, pois sem dinheiro passei a roubar meus próprios familiares, trazendo para eles grandes dissabores.
-Aproveita o momento de consciência e norteie novamente sua vida no caminho certo.
-Não é tão fácil como aparenta ser, o senhor não faz ideia aonde às drogas podem levar um homem. Eu durante dois anos vivi como mendigo comendo e bebendo restos que encontrava nas lixeiras de rua.
-Claro que é fácil meu amigo, quando se quer se consegue. Você não nasceu dependente, tornou-se dependente, portanto lute que conseguirás. Se for como você diz, alguém lhe deu a mão outra vez, pois na rua vê-se que não estas mais.
-Devo essa nova oportunidade a um amigo que se formou comigo. Apesar de eu estar bem diferente, ele me reconheceu na rua e me tirou dela, internou-me em uma boa clínica para um novo tratamento, confiou em mim e agora me deu emprego no Departamento de Engenharia do Governo. Por enquanto nada que requeira muita responsabilidade, mas pelo menos é um novo recomeço. Até minha família já esta deixando que os visite.
-Que bom, não os decepcione novamente, lembre-se que o tempo é o melhor remédio para esse tipo de ferida.
-É verdade. Depois de tudo isso eu hoje acredito que o governo deveria intervir mais firme nesse problema social e deveria acabar com a facilidade existente nas vendas de drogas. A conversa esta boa, mas chegamos, é aqui que estou morando. Obrigado pelo seu incentivo e até uma outra ocasião.
Aquele homem estava morando num pequeno hotel, simples e sozinho. Sua aparência, devido à dependência química mais todas as dificuldades que passou, não dá para descrever, contudo acredito que tenha envelhecido uns trinta anos, nos dez que andou envolvido com as drogas.
Realmente também concordo com ele, quando diz, que o Governo precisa atuar com mais rigor nessa área. Estava ali um bom exemplo para uma campanha antidroga, a imagem de um homem aniquilado por elas, tentando a todo custo a sua libertação.
***
Estava de noite. Aquela rua além de ser deserta, naquele pedaço não tinha boa iluminação, talvez por isso aquele homem não conseguisse ajuda. Como os faróis do meu carro eram fortes e eu vinha devagar, pude ver que ele estava preso debaixo do carro. Parei meu carro um pouco antes do dele para que o local pudesse ficar iluminado. Não desliguei o motor e deixei tudo aceso e o alerta ligado para evitar algum acidente.
Fui até ele e constatei que realmente estava preso.
-O que foi que o senhor arrumou ai?
-O pneu do carro furou, levantei o carro e tirei a roda, para colocar a outra. Esqueci de calçar o carro, com o esforço e a falta de prática acho que esbarrei no macaco, com isso o carro andou um pouco e arriou no chão.
Ele inocentemente tinha se sentado no chão deixando as pernas em embaixo do automóvel, não deu outra o carro correu e ele ficou preso. Para sorte dele o carro arriou devagar, senão teria quebrado as pernas.
-Aguenta mais um pouco, que lhe tiro já, daí.
Fui ao meu carro e peguei o meu macaco que era de sanfona, voltei e calcei o carro para não cometer o mesmo erro. Levantei novamente o carro tirei-o de baixo e acabei de trocar o pneu para ele.
Tudo terminado ele me agradeceu e me deu seu cartão dizendo:
-Se tiver algum problema de saúde e precisar, pode me procurar. O senhor só pagará à custa dos medicamentos e o hospital.
Ele era médico cirurgião geral e não pude deixar de mexer com ele.
-Tudo bem, mas vou ter que pensar muito se precisar de ajuda. Não se aborreça com a pergunta; -na sala de cirurgia o senhor é tão desastrado quanto trocando um pneu?
Rimos. Ele foi embora e graças a Deus até hoje não precisei dos seus serviços.
***
No bairro da Freguesia de Jacarepaguá em frente à oficina mecânica atendi ao pedido do Senhor “Robonildo” para levá-lo até a Barra. Quando ia pegar o caminho pela Avenida Aírton Senna ele me alertou que era no lado da Barra velha, mais precisamente no Itanhangá. Mudei o caminho pegando a direção certa. Esse passageiro não era de muito falar, sua postura arrogante e seu ar de superioridade, parecia ser o dono do mundo, o que levou o clima a ficar pesado. A antipatia tornou-se clara entre nós. Para nosso alívio, rapidamente chegamos ao local por ele pedido e perguntei:
-Qual é o condomínio que o senhor mora?
-Pode deixar que aviso quando chegar.
Para minha surpresa ele não morava em nenhum daqueles condomínios de luxo que por ali existe, mas sim num loteamento, por traz de uma favela que existe no local, fruto de uma invasão numa região de Reserva Florestal.
Com a mesma arrogância com que entrou no carro saiu e sem consulta prévia pagou com uma nota de cinquenta reais. Na certa achou que eu não fosse ter troco e com isso ficaria de graça a corrida. Perguntei:
-Tem nota menor senhor?
-Só tenho essa, aliás, não tenho mais dinheiro algum, pois paguei as peças na oficina.
Para azar dele e meu, eu tinha troco. Efetuado o pagamento e o troco feito, voltei para Freguesia.
Quando mencionei, “azar meu”, é porque nesse dia sai de casa com uma quantia para depositar em minha conta que iria cobrir alguns cheques que havia passado no fim de semana e ao chegar a agencia, me dei conta que havia feito o troco errado. A pressa ou talvez a ânsia de me desvencilhar daquele passageiro fez com que eu devolvesse a nota de cinquenta reais, junto com o troco. Na mesma hora voltei até a casa em que o tinha deixado. Toquei a campainha e ele mesmo atendeu.
-Desculpe incomodá-lo, mas o que me traz de volta é que fiz seu troco errado.
-Não senhor, o troco estava certo. -se apressou em dizer Robonildo.
-Pegue sua carteira que o senhor vai constatar que no meio do troco esta à nota de cinquenta reais.
Ele ainda estava com a carteira no bolso, ao abri-la e conferir o dinheiro, ficou constatado a presença da única nota daquele valor no meio do troco.
-Repare, a nota de cinquenta reais está junta, eu fiz o troco e a devolvi novamente.
-Não senhor essa nota é minha ela já estava na carteira, eu lhe paguei com outra, devo tê-la juntado ao troco sem perceber.
Nesse momento perdi a paciência e a educação.
-Você sabe perfeitamente que fiz o troco errado, pois quando me pagaste eu lhe perguntei se não tinha uma nota menor e você respondeu que não tinha mais dinheiro algum, pois tinha pagado as peças lá na oficina. Estou vendo que a sua desonestidade o está impedindo de me devolver à nota de cinquenta reais.
-Se o senhor quiser posso até lhe pagar outra corrida por ter voltado aqui, mas não vou lhe devolver os cinquentavos reais.
-Eu tinha quase que certeza de que você não ia devolver o dinheiro. Quem invade uma área de preservação ambiental não tem caráter e é inescrupuloso, logo fica realmente difícil agir como uma pessoa de bem. Faça bom proveito desse dinheiro.
-Você é bem abusado, sabia que posso mandar prendê-lo?
-Posso até ser abusado, mas não sou invasor nem safado como você. Quanto a mandar me prender, experimenta para ver o que acontece.
-Está me ameaçando?
-Quem sabe, o taxista também tem amigos influentes. Se tiveres dúvida, e só pagar para ver. Pode chamar a policia que eu espero ou então anota a placa e tome suas providencias. Você decide.
Fui embora sem o dinheiro, estressado e nada aconteceu. Acredito que esta foi a pior corrida que eu tenha feito. Tirando as dos assaltos é claro.
***
A Irmã Dinorá pegou meu táxi no Grajaú e pediu para levá-la na Lapa, tão logo ela entrou me perguntou se eu era católico.
Assenti com a cabeça.
Com essa afirmativa, ela mais que de pressa, meu deu um santinho que continha uma oração e daí começou a contar a história do tal santo. Confesso que não estava nem um pouco interessado, mas por educação deixei que alugasse meus ouvidos.
Quando chegamos ao Estácio, bem em frente à estação do Metrô, o trânsito estava parado de tal maneira que não se podia nem manobrar para pegar outro caminho.
De repente um corre-corre na rua e só se ouvia os estampidos da armas. Era tiro para todo lado.
-Meu Deus! Que é isso? Senhor.
Devido aquela situação de perigo eu não soube identificar se aquele “senhor” era comigo ou com Deus que ela estava falando, mas mesmo assim respondi:
-São tiros Irmã... Se abaixe aí no banco. -e me abaixei também.
Agora além do barulho dos tiros, aquela freira gritava pela proteção de tudo que era santo. A mulher estava a ponto de ter um ataque de nervos, mas continuava rezando e gritando aos santos. Até que sem sentir deixou escapar seu maior segredo.
-Senhor me ajude não me deixe morrer, eu não posso perder ainda o padre Murilo, eu amo demais esse homem. Prometo ficar em abstinência por dois meses.
Como os tiros tinham começado, também terminaram, de repente. Recompomo-nos em nossos lugares e logo o transito começou a fluir. Já com o carro em movimento não me contive e falei:
-Irmã, a senhora acabou de fazer uma promessa para ser cumprida a dois, mas a senhora não consultou o padre Murilo se ele concorda em ficar tanto tempo sem dar umazinha. E se ele não concordar?
-O senhor entendeu tudo errado, não é o que está pensando.
-A quem a senhora está querendo enganar? Eu escutei claro, alto e em bom tom.
-Quer saber, ele vai ter que concordar, pois vou pagar a promessa. Vale mais a minha vida do que esse amor proibido e escondido.
-A freira desceu na Lapa e foi em direção ao convento com uma naturalidade e singeleza, que se eu abro a boca e conto a alguém o que acabara de ouvir, seria acusado de caluniador.
***
Mais uma vez lá estava eu envolvido com o perigo. Noventa e nove por cento dos táxis estão sempre com as portas destravadas, para facilitar ao usuário o seu acesso. Com isso às vezes, não podemos impedir a entrada dos indesejáveis, principalmente quando estamos parados nos engarrafamentos ou nos sinais.
Isso aconteceu justamente num sinal que estava fechado em frente a um supermercado no Cachambi.
As portas se abriram de repente e três caras entraram já gritando.
-Sai fora piloto... Passa o sinal... Anda, anda... Tu ta demorando por quê? Ta querendo tomar um pipoco. Daqui a pouco os home tão atrás de nós.
Mais uma vez tive de usar a inteligência e a diplomacia para acalmá-los e ficar livre deles o mais rápido possível.
-Calma gente... Diga-me o que está acontecendo?
-Tu ta se fazendo de bobo ou é bobo mesmo. Nós ganhamos aquele mercado... Num tá vendo as bolsa cum dinheiro, o mané... Anda ai... Tu continua andando muito devagar.
-Se eu correr muito vai chamar atenção, deixa comigo que eu sei como fazer... Presta atenção... Mais ali na frente vou parar e vocês pegam outro táxi com calma... Ninguém vai saber o que aconteceu, nem o motorista... Aí vocês pedem para ele levá-los aonde quiser, nem eu se for parado pela polícia saberei dizer para onde vocês foram. Combinado assim?
-Mais se tu der a placa pros home, tu fica numa boa e nóis se ferra.
-Nada disso eu não vou nem saber qual foi o táxi que vocês pegaram, aproveita agora que não tem ninguém.
Parei na mesma hora em que falava e eles meio que sem saber ainda o que fazer desceram.
-Valeu piloto... Tu é pedra noventa mermo... Valeu!
Com eles fora do carro, não penei duas vezes, arranquei de tal forma que mais pareceu largada de grande premio de fórmula um.
***
No tradicional balé que nós motorista de táxis sempre estamos realizando, fiz a volta lá no final da praia do Leme, a procura do tão sonhado e querido passageiro.
Em frente à churrascaria Máriu’s, o guardador de carros daquela casa acenou para que eu parasse.
Os dois clientes entraram.
Esses homens estavam elegantemente vestidos, posso afirmar que eram completamente diferentes e opostos a aqueles que entraram no sinal em frente ao supermercado, mas com a mesma pressa por eles exigida.
-Anda... Que nós estamos com muita pressa... Acabamos nos atrasando nesse almoço, e olha que nem foi peixe o que comemos. -riram.
-Mas até que foi bastante proveitoso -complementou o outro.
-Nos deixa na Câmara dos Deputados. Você sabe onde é não sabe?
-Sei -respondi.
-Então voa meu amigo... Voa.
Eu já tinha reconhecido aqueles dois Deputados, sei seus verdadeiros nomes, mas os usados aqui obviamente serão falsos, para minha segurança.
Agora vou aqui registrar o diálogo deles na íntegra, pois tive o cuidado de parar de trabalhar e escrevê-lo, para que vocês pudessem tomar conhecimento de que não há nenhuma diferença, entre esses homens que usavam gravatas para aqueles que nem camisas estavam usando.
Como se eu não estivesse ali, eles começaram a conversar sobre a reunião que acabaram de ter no almoço com o Presidente de uma grande empresa do cenário nacional.
-Ali Babá, você tem certeza de que o nosso amigo vai pagar os vinte milhões?
-Metralha, eu não tenho a menor dúvida quanto a isso... Ele sabe que se não chegar ao que combinamos, a fiscalização vai ficar em cima... Com as irregularidades existentes, mais as que mandaremos implantar ficará muito mais caro... Sem contar que estaremos aliviando totalmente a carga de impostos a serem pagos.
-Não sei não Ali Babá, ainda tenho as minhas dúvidas... Caso ele roa a corda, nós é que iremos ficar mal junto ao partido e com o pessoal do acerto.
-O que é isso Metralha, não pensa besteira... Vou te lembrar algumas coisas... Esse dinheiro que ele vai nos passar, vai ser tirado do empréstimo que nós estamos acertando para a Empresa dele, junto ao BNDES. O pagamento desse empréstimo está sendo acautelado pelas notas de superfaturamento da Empresa e que serão pagas pelo Ministério das Comunicações, que não podia deixar de ser, também está sendo arranjado por nós. Por tudo isso ele não é louco de furar todo um esquema montado. Se acontecer, ele corre o risco de amanhecer morto.
Com os pensamentos negativos do Metralha, Ali Babá chegou a se exaltar enquanto lembrava a ele todo o esquema, a tal ponto, que o Metralha chamou a atenção dele.
-Ali Babá você está se excedendo o motorista está escutando toda nossa conversa, fala mais baixo. -Essa recomendação Metralha falou bem baixinho, mostrando que eu estava ali.
-Metralha, aprende uma coisa de uma vez por todas. Isso aí é povo. -Ali Babá falou alto para ele, se referindo a mim. -Não tem instrução... Não tem cultura... Não sabe de nada... Não sabe do estamos falando e muito menos sabe quem somos... Não é mesmo motorista? -agora já falando comigo.
Dei uma de idiota.
-Hein! Não estava prestando atenção. O senhor está falando comigo?
-Nada não amigo, esquece só estava confirmando uma realidade ao meu amigo.
Voltando-se para o amigo Metralha falou:
-O que eu te disse acaba de ser comprovado... É o povo... Não sabe de nada e nem procura saber.
Chegamos onde eles queriam. Desceram do carro tão apressados quanto aqueles marginais que se protegendo da polícia entraram em outro táxi, só que esses para se proteger, da sociedade, fugiram na direção da Câmara dos Deputados e nela se esconderam.
***
Dona Miquelina uma senhora de 92 anos. Lúcida, esperta e trazia estampada na face, a alegria de viver. Eu a conheci porque um colega não tendo troco a passou para o meu táxi.
Tão logo entrou ela voltou a perguntar:
-O senhor tem realmente troco para cinquenta reais?
-Tenho sim, mas no dias de hoje eu aconselho a andar com o dinheiro trocado, e mais seguro e dessa forma ninguém fica sabendo que a senhora está andando com muito dinheiro na bolsa.
-Eu sei disso, mas é que nessas máquinas que tem no banco só tem dinheiro inteiro.
Prestando atenção no sotaque daquela senhora, notei que ela tinha um jeito mineiro de falar então arrisquei a pergunta.
-A senhora é mineira?
-Sou, todo mundo sempre diz que eu não perdi o jeito e o senhor também descobriu. O senhor também é mineiro?
-Não, mas meu pai era.
-É mesmo? De que lugar de Minas?
-Porto Novo do Cunha. Fica na cidade de Além Paraíba.
-Que coincidência eu também sou de lá, como é o nome do seu pai?
-O mesmo que o meu. -nesta hora disse-lhe o meu nome.
-O filho do seu Lindolfo Pereira?
-Isso mesmo... A senhora conheceu o meu avô?
-Claro. O seu avô foi o meu padrinho de batismo, eu cresci junto com seu pai e as suas tias. Depois se mudaram para o Rio de Janeiro e eu continuei vivendo por lá, nunca mais tive notícias deles. Hoje após tantos anos encontro você aqui no Rio. Seu pai e suas tias ainda estão vivos?
Nossa conversa foi interrompida ao final da corrida, contudo voltamos a nos encontrar mais algumas vezes, só não podendo levá-la para ver meus parentes porque o meu pai já havia falecido e minhas tias estavam outra vez morando em Minas, uma em Belo Horizonte e a outra em Cristina, cidade próxima a São Lourenço.
***
Numa comunidade carente, um dia conheci a Irmã Madalena.
Três foram às vezes que a levei do convento para a comunidade e vice-versa.
Nas três vezes eu tive que aguardar por alguns instantes ela acabar o trabalho que estava fazendo, com as crianças ou com os idosos. E nesses pequenos espaços de tempo fui configurando a personalidade daquela jovem mulher, ora observando suas atitudes carinhosas para com todos, ora escutando os elogios das pessoas do local. Sua firmeza de caráter e seu desprendimento eram sempre citados por todos.
A admiração e o respeito que tinham por aquela freira, me fizeram lembrar de quando eu era criança, época em que uma Diretora Escolar, um Juiz, um Delegado, um Médico e uma Professora possuíam todos esses quesitos e por essa razão, eram vistos daquela forma.
Era tão gritante a sua bondade e o carinho que irradiava a sua volta, que consegui apagar a imagem negativa que a outra Irmã deixou. Aquela do tiroteio no Estácio.
Tornamo-nos bons amigos, pena que veio a falecer alguns meses depois. Pessoas assim não deviam morrer tão cedo.
***
Próximo ao Largo do Tanque, em Jacarepaguá, atendi ao chamado de um casal que acabava de sair do cartório. Entraram e me cumprimentaram educadamente. Queriam ir para Laranjeiras.
Para mim não podia ter aparecido corrida melhor, sempre que vou almoçar em casa tenho que voltar para a zona sul, vazio, pois é nessa região onde se consegue mais passageiros e desta vez eu não iria voltar sozinho.
O casal foi conversando a meia voz praticamente todo o trajeto. A princípio, pelo que pude ouvir me pareceu que divergiam, mas estavam fazendo o possível para que eu não me inteirasse do assunto, que óbvio era pessoal.
Assim que chegamos ao apartamento em que moravam, na Rua Soares Cabral, o senhor Murilo -esse era o seu nome -deixou ali a sua esposa e me pediu para levá-lo até ao banco no Largo do Machado.
Nesse curto trajeto, como a se desabafar, ele praticamente colocou-me a par da sua vida.
-Meu amigo veja a situação em que me encontro. Minha esposa vive a proteger os dois filhos que temos. Eles não querem nada com o trabalho. São casados. Aproveitam-se da bondade da mãe e vivem à custa dela. Não fazem outra coisa que não explorá-la. Por essa razão resolvi vender tudo que temos por qualquer dinheiro. Pensei que dessa forma os obrigaria a trabalhar, mas ela já se prontificou a doar sua parte para eles. Tenho uma amante. Mas com essa decisão que minha mulher acaba de tomar não posso deixá-la. Com isso sou obrigado a continuar vivendo uma vida dupla.
Deu uma pequena pausa e continuou.
-Isso é uma situação muito constrangedora. O senhor não acha?
Eu ia responder, mas ele não me deu tempo e continuou falando sem parar.
-O senhor acredita que já acertei duas vezes na loteria e ninguém sabe? Não posso falar. Se eles descobrem vão querer mais dinheiro. E pode ter certeza de que é muito, mas não vou dar mole para eles.
Chegamos à porta do banco. O taxímetro marcava quase quarenta reais. Ele me deu duas notas de cem reais e mandou que eu ficasse com o troco. Dizendo:
-Cem é pela corrida. Como o senhor se portou como o meu analista. Sempre discreto. Não dizendo nada, e só me escutando, os outros cem reais a mais fica como pagamento da análise. Até a próxima consulta e boa tarde.
***
Como em quase todas as vezes que passava pela frente do hotel Ébony, lá estava mais um passageiro para a minha coleção de casos. Acenou para eu parar e já entrou me tratando como se fossemos velhos conhecidos.
-Meu jovem... Posso lhe tratar assim não é? Afinal você não está tão velho.
-Fique a vontade, use o tratamento que lhe fizer bem. Por mim não há nenhum problema.
-Ah! Ótimo assim fica bem mais fácil no entendermos.
Eu continuava parado ali em frente ao hotel esperando que ele me dissesse para onde queria ir.
-Mas será que é tão complicado assim, dizer o local aonde você quer ir, a ponto de ter que formalizar antes, a forma de tratamento?
-Não é isso... Dizer onde eu quero ir é facílimo... Difícil é dizer aonde quero lhe levar.
-Que mistério é esse? Aonde você quer me levar?
-Bem, vou começar me apresentando.
-Nós vamos continuar aqui parados.
-É rápido. Meu nome é Álvaro e sou agenciador de parceiro para casais. Entendeu agora porque precisamos ter um bom entendimento?
-Não. Continuo não entendendo nada.
-É simples, vou direto ao assunto. Tenho um casal de clientes que ligaram há poucos instantes e me encomendaram um motorista de táxi, para satisfazer suas fantasias.
-Como isso funciona?
-Eu o levo até a residência deles e os apresento daí em diante é por conta de vocês. Só posso garantir que ele paga muito bem.
-Sim, mas o que eu vou ter que fazer?
-Meu amigo parece até que você está se fazendo de bobo para me gozar. Você vai transar com a mulher dele enquanto ele fica olhando, é a grana mais mole que nós vamos ganhar.
-Estou fora, vais a algum lugar no táxi ou vai continuar caçando homem por aí, para o teu casal de clientes.
-Me leva em Copacabana, lá encontro alguém, mas devo confessar que com você eu ganharia quinhentos reais a mais.
-Por que razão?
-Porque eles gostam dos que não são profissionais e você nesse quesito cai como uma luva.
-Você está querendo me dizer que já tem motorista de táxi se prostituindo?
-Claro meu amigo e lhe garanto que são vários.
Eu fiquei impressionado com a declaração daquele agenciador, aliás, eu nem sabia que existia essa profissão. Nós continuamos conversando até chegarmos à porta da boate. Pagou-me e ali mesmo entrou em outro táxi e foi embora. Confesso que tive curiosidade e a vontade de segui-los foi grande, para ver aonde iriam e descobrir o tal casal, mas desisti assim que avistei outro passageiro.
***
Na zona sul, precisamente na esquina da Rua Constante Ramos com a Avenida Nossa Senhora de Copacabana, um rapaz parou-me e começou uma negociação.
-Quanto o senhor cobra para ir a Mangueira, esperar eu acertar as paradas lá e me trazer de volta aqui?
-Depende do que vai fazer lá.
-Vou apanhar umas encomendas para meus camaradas.
-Se essas encomendas são o pó você pode apanhar outro táxi.
-Não, as encomendas são duas fantasias, é que eles têm medo e não gostam de entrar lá favela.
Achei estranho naquela hora da noite ele ir apanhar fantasias, mas caso ele volta-se sem elas, eu deixava ele a pé lá mesmo.
-Se realmente for isso podemos ir.
-Então, quanto vai cobrar?
-O que marcar no relógio.
-Não. Eu preciso saber agora, senão tenho prejuízo, pois se o pessoal não acertar a corrida com o senhor eu é que terei que pagar.
Fiz o cálculo mais ou menos de ida e volta no taxímetro e acrescentei vinte reais como garantia caso ele demorasse no local. Sabendo o preço ele pediu para eu esperar e foi pegar o dinheiro. Quando voltou entrou no carro e disse:
-Segura logo sua parte, que assim você não corre o risco deu comprar de droga e cheirar lá mesmo.
Chegando à Mangueira, estacionei em frente a uma das entradas da favela e meu cliente desapareceu no meio de tanta gente que subia e descia o morro naquela hora.
Estava acontecendo o ensaio da Escola de Samba na quadra, que fica um pouco mais à frente. Meia hora mais tarde ele voltava acompanhado de duas mulheres que traziam as tais fantasia. Elas colocaram tudo em cima do banco de traz e no chão entre os bancos os dois enfeites de cabeça. Uma delas depois que ele estava sentado entregou um envelope verde e rosa e recomendou: - não deixa de entregar para a Júlia ainda hoje.
Como de bobo só se tem à cara, logo percebi que no envelope tinha droga, então sem deixar transparecer minhas intenções, procurei ter a certeza das minhas suspeitas:
-Eu lhe trouxe aqui e o esperei foi por que você me garantiu que vinha pegar as fantasias. Quanto ao que tem dentro desse envelope não sei de nada e a responsabilidade é toda sua.
-Quanto a isso não se preocupe é comigo mesmo, não tem erro, assumo tudo. O pessoal está me pagando uma nota preta para eu atravessar a branquinha e deixar lá na zona sul, sabe como é, dinheiro é dinheiro e não faz mal a ninguém. Se eu não fizer, outro faz.
Com essa resposta minhas suspeitas se concretizaram, na mesma hora olhei quanto marcava o taxímetro e fiz o troco. Ele ainda sem entender perguntou:
-Mas o que o senhor está fazendo?
-Sua corrida terminou aqui, pode pegar outro táxi. -dito isso chamei um daqueles táxis que ficam por ali e o transferi com as fantasias e as drogas para outro carro.
-Camarada eu não posso dar essa bobeira se os homens me ganham aqui estou morto. O pessoal do tráfico não perdoa o senhor não pode fazer isso comigo.
-Já fiz.
Eu não podia compactuar com aquele homem, que na minha concepção era um traficante. Ajudá-lo a abastecer aquelas pessoas era estar contribuindo para afundá-los ainda mais no vicio.
Tenho certeza que com isso eu fiz a minha parte.
***
O fato de ser famoso não confere a ninguém o direito de achar que qualquer profissional prestador de serviço deva servi-lo gratuitamente e muito menos tentar comprar sua dignidade ou impor o seu prestígio para conseguir esse intento, que é o de não pagar.
Em 1997, antes de um dos jogos de preparação da Seleção Brasileira realizado aqui no Rio de Janeiro, para a Copa da França, um cidadão ligado ao mundo do futebol precisou dos meus serviços, levei-o até ao Hotel Intercontinental que fica localizado no bairro de São Conrado, lá, quando chegamos o indivíduo que se achava o dono do mundo desceu do meu carro, como se estivesse saindo do seu e entrou no hotel. Desliguei o motor, tranquei o carro e fui atrás dele para cobrar pelo serviço que prestei.
-Senhor, eu só faço caridade a quem precisa. Sua corrida deu R$ 23,00.
Qual não foi a minha surpresa com a sua resposta.
-Você tem coragem de me cobrar? Por acaso não sabe quem eu sou?
-Sei perfeitamente quem você é.
-Então? Mesmo assim vai me cobrar?
-Com certeza, principalmente por ser você quem é, vou.
-Dois ingressos para o jogo de logo mais. Paga a corrida?
-Não.
-São dois ingressos para a tribuna de honra onde só tem convidados especiais.
Confesso que quase cedi à tentação, mas resisti.
-Já disse que não.
-Pensa bem, sua condição social jamais lhe proporcionará participar de um evento dessa magnitude num lugar como a tribuna de honra.
-Não adianta insistir.
Meu carro continuava parado na porta do hotel atrapalhando o movimento de entrada e saída dos hospedes. O pessoal da recepção veio reclamar comigo, mas deixei claro que só tirava o carro de lá depois que recebesse o valor da corrida em dinheiro. Como continuei irredutível o hotel resolveu pagar a corrida, que aquele safado fez, mas não foi preciso, pois outro integrante desse mundo futebolístico veio em meu socorro, pagou a conta e ainda se desculpou.
Ainda hoje esse senhor faz parte daquele mundo e pelo que sinto em suas declarações continua o mesmo, presunçoso, prepotente, safado e ladrão.
***
Sábado de manhã, um daqueles dias ensolarado com o calor a 40° e como não podia deixar de ser, o trânsito para a Barra da Tijuca era quase que impraticável.
No meio daquele tumulto tive o desprazer de conseguir um passageiro com as seguintes características: -Prepotente mal educado e gringo.
Para completar estava com pressa.
Quando ele entrou no carro, eu já havia passado do retorno uns vinte metros e com aquele sotaque igual ao do Rabino Sobel, falou:
-Motorista, dá uma ré e pega aquele retorno ali atrás, nós vamos para a Barra por outro caminho.
-Não é possível fazer isso, além de estar muito engarrafado posso ser multado.
-Mas não tem nenhum policial por aqui, dá um jeitinho e nós ficamos livres desse engarrafamento.
-Senhor não insista... Não posso da ré, olha ali na frente... Aquele Guarda Municipal também tem poder para multar.
Aí não se contendo e como se fosse o dono do carro e eu seu motorista particular, determinou:
-Então sobe pelo canteiro central e vamos embora se o guarda multar eu pago a multa.
-O valor da multa são 586 UFIR’S o equivalente a mais ou menos R$ 960,00. Põe o dinheiro agora na minha mão que eu faço a bandalha. Do contrário você tem duas opções.
-Qual? -perguntou ele, já não tão arrogante e para lá de mal humorado, pois deixou claro que desistira de pagar a multa.
-Descer e pegar um táxi voltando ou encarar o engarrafamento até o próximo retorno.
Como eu estava certo, e não podendo me obrigar fazer o que ele queria, começou reclamar tal qual a uma criança mimada que não teve o seu desejo atendido.
-Esse lugar é mesmo uma merda, não dá para entender certas coisas que aqui acontecem. Uma hora encontramos alguém como você que quer cumprir a lei a risca... Mais há frente nos deparamos com um quadro onde a anarquia é generalizada... Ninguém respeita uma faixa de pedestre, o motorista avança na faixa e ainda reclama... O sinal está fechado, mas para muitos é como se não existisse... Olha ali um exemplo, é proibido dirigir sem camisa, mas aquele cara não esta nem aí para a lei, vai passar pelo guarda e não será multado. Fica realmente difícil viver nesse país. Na minha terra isso não acontece tudo funciona corretamente e cada um sabe perfeitamente o que pode e o que não pode fazer.
-Se você sabe o que é certo, por que então tentou me obrigar cometer um erro? Aliás, não precisa responder a essa pergunta, me faça entender: - se na sua terra é tudo tão bom e certo, por que é que você ainda vive aqui? Volta para lá.
-Está bem, faça como você achar melhor.
Não me respondeu, mas ficou visível a sua indignação por eu tê-lo mandado voltar para seu país. Daí por diante continuou não só apontando as irregularidades, mas também os desmandos existentes em todos os setores, com a nítida tentativa de me provocar.
No final da corrida, após ter efetuado o pagamento, dei-lhe a última estocada.
-Volte para o seu Shangrila e pare de se aviltar, pois da forma como você está, vai acabar tendo um infarto e provavelmente vais morrer, porque o atendimento hospitalar aqui não deve ser igual ao da sua terra.
O gringo desceu tão enfurecido que até hoje ainda escuto o barulho da porta fechada por ele, tal a força com que a bateu.
***
Sempre achei estar vacinado contra o preconceito, mas trabalhando na praça descobri que eu também tinha um pé, mesmo que pequeno, nessa área. Entretanto não existe nada melhor que a escola da vida para nos fazer refletir e aparar as arestas mais pontiagudas.
Na esquina da Rua Min. Raul Machado com a Rua Adalberto Ferreira enquanto eu aguardava o sinal abrir, uma senhora me abordou um tanto quanto nervosa, mas com uma simplicidade espontânea de chamar atenção.
-Por favor, o senhor pode me ajudar?
-Diga o que está precisando?
Fiz a pergunta por que reparei que a senhora não se apresentava vestida humildemente, destoando da maioria das madames do local.
-Estou com o meu carro aqui no estacionamento da Cobal e ele não quer dar a partida. Será que o senhor saberia ligá-lo?
Prontifiquei-me a ajudá-la e ela saiu andando em direção ao estacionamento. Chamei-a e a fiz entrar no carro. Ela entrou, o sinal abriu e lá fui eu ver o tal carro.
Quando entrei no estacionamento o porteiro me deu o comprovante para ser pago ao sair e já pensei: -“Vou ter que pagar esse estacionamento, pois esta senhora não deve ter dinheiro”.
-Onde ele está senhora?
-Lá atrás. Respondeu ainda nervosa.
Continuei lentamente por dentro do estacionamento procurando localizar o carro, que até aquele momento ainda não sabia qual era a marca, até que ela disse:
-Pode parar que é esse aqui.
Parei na traseira de dois carros que estavam estacionados. Um fusquinha caindo aos pedaços e ao lado um Corola 0 km.
Descemos do meu carro e eu me dirigi na direção do fusquinha já lhe pedindo a chave. Qual não foi a minha surpresa quando ela falou:
-Meu carro é este aqui, senhor. O “Corola”. -Entregou-me a chave com mesma simplicidade que mantinha até o momento.
Meio sem graça pela gafe cometida, peguei a chave abri o carro e pensei: Por que será que o carro não quer ligar. Constatei que o automóvel era automático. Só liga na posição -ponto morto -e o motorista tem que estar acionando o freio.
Nem entrei no carro.
Pedi para que ela entrasse e a orientei de como deveria proceder para pô-lo em funcionamento.
Ela mesma ligou o carro, ficou alegre e justificou o ocorrido.
-De repente me deu um branco. Fiquei nervosa e eu esqueci completamente como ligar o carro. Pensei até que tinha escangalhado esse negócio onde se liga.
Ela prontamente me agradeceu e tentou me dar cinquenta reais, mas não aceitei. Afinal, eu não tinha feito nada.
-Então pelo menos me deixa pagar o estacionamento. O senhor não pode sair com prejuízo.
Mas uma vez me vi sem graça e envergonhado pelo meu comportamento preconceituoso.
***
Antes de terminar, guardei este pequeno espaço para deixar um alerta. É muito comum para nós que trabalhamos o dia inteiro dirigindo, presenciarmos alguns desatinos que colocam em risco o cotidiano das pessoas.
Acredito que mesmo não sendo o responsável direto, todo ser humano que detém certo poder ou é tido como uma celebridade importante deve cuidar para que a prepotência não ocupe lugar, e que tanto as regras como as leis, têm que ser respeitadas por aqueles que estão no exercício de protegê-los.
A passagem que vou narrar é um exemplo típico desses desatinos e envolve a pessoa de uma conhecida apresentadora de programa infantil na televisão. A meu ver, um péssimo exemplo para as crianças que por ventura tiveram também presenciado a cena.
Tudo aconteceu num curto espaço de tempo e de trajeto. Sinal fechado. Lá estava eu com meu táxi na Lagoa, quase em frente ao clube Naval aguardando a vez para entrar na agulha que dá acesso para retornar ao Jardim Botânico ou qualquer outro caminho que se queira fazer naquelas imediações.
Aberto o sinal os veículos começaram a andar. Um pouco antes d’eu ter acesso a tal agulha fui bruscamente fechado por uma caminhonete do tipo Blazer, a ponto de ter que jogar meu carro em cima da calçada que divide as pistas, para não ser abalroado. Neste veículo que impediu a minha passagem constatei a presença de quatro homens armados, logo atrás passou outro carro onde estava a referida apresentadora seguida por mais um carro com outros seguranças. Todos aqueles carros mantinham alta velocidade para o local e pareciam não dar a mínima importância para a segurança das pessoas à volta. Ao passarem por mim, voltei para a pista conseguindo atravessar o sinal e pude ver que lá na esquina da Rua Jardim Botânico cometeram outra irregularidade, entraram pela contra mão para acessar a entrada dos estúdios da rede Globo de televisão que funcionava naquele local ao invés de fazerem o retorno mais adiante.
Pelo que pude constatar, nem o policial que estava no local tomou alguma providencia. É realmente lamentável.
***
Cabem ainda mais duas passagens vividas durante minha experiência trabalhando como motorista de praça para serem analisadas. Em duas oportunidades pude constatar um lado da vida que custamos a -ou não queremos -acreditar. Temos até conhecimento da sua existência, mas relutamos em aceitá-lo. Entretanto, a própria vida se encarrega de mostrar que ele realmente existe e que devemos tentar mudá-lo. Trata-se da hipocrisia moral, ou como alguns preferem dizer, dois pesos e duas medidas para o exercício e cumprimento da lei.
Em dois momentos distintos atendi a representantes da lei; eram, na verdade, juízes.
Na primeira vez, vínhamos conversando justamente a respeito da maneira de aplicação da lei, onde eu dizia que, no país, era empregada na íntegra sempre contra o mais fraco. O meritíssimo teimava em querer me convencer sobre o contrário, dizendo ser igual para todos, independente da classe social. Para esse impasse coloquial, o acaso nos revelou a resposta, mostrando quem estava com a razão. No cruzamento das avenidas Almirante Barroso e Graça Aranha, o policial militar encarregado de controlar o trânsito de repente interrompe o fluxo de uma das pistas para que alguém dentro de um Jaguar, seguido por seguranças em outro veículo, faça uma conversão proibida. Diante de tal fato o magistrado não teve mais argumentos, limitando-se a dizer ser uma exceção, comprovando nitidamente a indiferença para uma realidade reinante e a falta de caráter quase que geral.
Na segunda oportunidade quis saber a opinião daquele senhor sobre a recente condenação à prisão perpétua de um menino de treze anos, na Inglaterra. Tratava-se de um crime ocorrido naquele país quando esse referido garoto matou uma criança de três anos esmagando sua cabeça com uma pedra. Para meu espanto o juiz mostrou-se contra, alegando ter sido a pena imputada muito rígida. Não contendo a minha indignação, perguntei-lhe se a sua sentença seria diferente se a criança que morrera fosse seu neto. Não obtive resposta. Como diz o ditado, o nobre magistrado fechou-se em copas.
***
Imaginem vocês que eu quase me esqueço de contar à passagem que mais me marcou. Ainda bem que me lembrei a tempo, se não teria que fazer uma nova edição só para ela. Mas vejamos...
O casal fez sinal como todo passageiro. Entraram sorridentes. Disseram para onde iam, e como dois garotos marotos que estão prestes a fazer uma arte, começaram conversando bem baixinho, e assim foram durante algum tempo. Eu não conseguia escutar nada do que diziam. O que sempre nos deixa curiosos. De repente, sem mais nem menos, a moça falou alto, tão alto, que eu me assustei.
-Muito pior aconteceu com o Carlos e Magda.
E ele acompanhou no mesmo tom de voz.
-Não diga. É mesmo?
-Vai me dizer que você não sabia? A Magda está arrasada. Dá uma pena tão grande vê-la assim.
-Mas é claro que não, se eu soubesse não estaria surpreso. O que aconteceu de grave assim?
-Bem, você sabe que o Carlos fez uma viagem?
-Isso eu sei. Já faz algum tempo. Parece que ele foi fazer uma reportagem na África, mas pelo que sei, ele já voltou.
-Pois é, voltou às pressas e sem terminar a reportagem.
-É mesmo? O que foi que aconteceu?
-Lá no Congo quando eles estavam numa expedição de reconhecimento na floresta, eles foram atacados por um bando de macacos e o Carlos... Ih! Chegamos... Motorista pare, por favor, que nós vamos ficar aqui.
O rapaz pagou a corrida e desceram do carro como entraram. Sorridentes. Eram realmente dois garotos marotos.
Já se passaram mais de trinta anos. Foi em 1970, mas ainda hoje quando me lembro fico na dúvida. Tenho a impressão que aquele casal estava tirando um sarro de mim e por isso, já fiz até análise.
Desculpem-me vocês, que acabaram de ler essa passagem também ficarem sem saber o final da história, mas essa foi à maneira que encontrei junto com meu analista, de passar adiante a peça que me pregaram. Lembrem-se do tempo enorme que guardei comigo esse sofrimento e procurem me perdoar.
***
À vida é realmente muito interessante, hoje ao chegar ao fim dessas minhas memórias me bate uma saudade daquele tempo muito difícil que eu vivi e podem ter certeza de que realmente foram tempos dificílimos, só quem encara essa profissão trabalhando como motorista auxiliar de empresa é que sabe o que passei e mesmo assim não sei por que ainda consigo sentir saudades.
Para decepção pessoal, constatei também que muitos dos usuários desse serviço acreditam serem os donos do mundo. Outros acham que os motoristas de praça são marginais, todos desclassificados, sem educação, sem cultura e que estão ali porque não tem capacidade para fazer outra coisa. Há também os que pensam até que esses profissionais sejam seus tapetes e tentam neles, limpar os pés.
Outra grande decepção é a constatação da degradação moral em que se encontram alguns dos nossos policiais militares, que por toda a cidade são vistos nas entradas principais de comunidades carentes e nas decidas de morro onde existam favelas achacando os dependentes químicos que vão ali à busca das drogas para consumo próprio, quando na realidade o objetivo maior e principal dessa corporação é proteger, orientar a população e prender aqueles que porventura infrinjam a lei.
Finalizando, tentarei neste pequeno espaço dar uma contribuição para a classe que na sua grande maioria é trabalhadora, honesta, sofrida e merece todo respeito.
Como em todas as profissões, nesta também há os sem cultura, os sem educação, os maus elementos e os sem caráter, mas isso não é regra geral. Aqui também há pessoas educadas, com cultura, inteligentes, formadas nas mais diferentes áreas, oficiais reformados ou da reserva e os autodidatas, que acumularam grande parte disso tudo que falei somente trocando informações, ouvindo as ideias e os pensamentos dos usuários desse serviço, que é a praça.
Portanto, a você que desfruta dos nossos serviços pense em tudo que falei e tente modificar sua conduta, que com certeza será melhor atendido no futuro e a você policial, dirija-se a nós como se estivéssemos de terno, dentro de uma Mercedes e principalmente, com educação. Mostre-nos o erro quando houver e puna-nos com o rigor da lei, mas não com o seu rigor, na tentativa de tirar proveito e se beneficiar com alguns trocados que possa obter sobre nossa falha. Tenho a certeza de que o benefício momentâneo é pequeno para a enorme mancha que fica para a corporação.
***
Antes de terminar gostaria também de deixar um alerta.
“Todos nós que vivemos aqui, de uma maneira geral estamos cada vez mais apavorados com a violência existente na cidade, entretanto de nada adianta tantas passeatas pedindo paz se na verdade essa mesma sociedade que realiza as passeatas é a principal mantenedora dessa violência. Digo isso por ter sido testemunha dessa afirmativa, pois várias foram as vezes que levei pessoas influentes da nossa fina e alta sociedade, bem como filhos de políticos famosos para comprar maconha e cocaína, contribuindo dessa forma para a existência desses traficantes e perigosos marginais que tanto nos apavoram”.
Por tanto cabe a nós os não envolvidos nessa prática, conscientizar nossos filhos e amigos da gravidade que estão cometendo ao consumirem essas drogas e de que são eles que alimentam e mantém viva violência.
***
Caro amigo leitor, você que acabou de ler minhas memórias, não acredite em tudo, porque todo taxista que se presa sempre conta uma ou outra vantagem, e eu, como um dos melhores taxistas dos últimos tempos não poderia jamais desonrar a classe.
Ah! A propósito quase ia me esquecendo de uma passagem importantíssima, só não vou relatar os detalhes da nossa conversa, entretanto todas as informações obtidas pelo famoso Compositor para que pudesse compor a música em homenagem aos taxistas, foram dadas por este que acabou de contar suas memórias.
Acredite... Se quiser...