Aventuras
do Imaginário
Contos
Aventuras do
Imaginário
Contos e
Minicontos
Escrito entre
1987 e 2011
Rio de Janeiro –
Brasil
Dedicado
a
Esposa, Lenita
Gonçalves Pereira
Filhos, Wagner e
Otávio Emanuel
Nora, Ana Quirino
Introdução
De
agora em diante estaremos só nós dois.
Eu
por trás do livro, e você que começa a folheá-lo com a curiosidade
de conhecer minhas experiências, meus segredos e minhas imaginações.
Confesso
que relutei muito em colocar tudo no papel, mas de que valeria toda
uma existência se não a dividisse com você, leitor?
Meu
objetivo maior é que, no final da sua leitura, eu tenha conseguido
não só distraí-lo, mas também mostrar em algum desses contos como
o ser humano usa a dignidade para conseguir seus intentos ou
simplesmente a ignora.
Agora
sinta-se à vontade e saiba o que esse contador de histórias e
estórias tem a lhe dizer.
Boa leitura
Agradecimento
Ao meu filho
Otávio Emanuel por se dedicar pacientemente em revisar os textos
Pedido
“Senhor,
por favor, cuida bem da pessoa que está lendo esta mensagem. Derrame
seu amor, sua luz e sua ternura sobre ela... Lembra-lhe o benefício
do perdão. Ajude-a a deixar fluir o amor que há dentro dela para
que a alegria de viver e a fé sempre morem em seu coração, pois
ela é minha irmã e amiga nesta jornada na Terra.”
Os
ladrões
Em
pleno século 22, a humanidade vive uma época extremamente
conturbada e, em que tudo está cada vez mais escasso. Falta trabalho
e a saúde, cada vez mais, deixa a desejar. Sem contar a comida que
está, a cada hora, mais cara e difícil de ser encontrada, razão
pela qual todo e qualquer alimento é guardado a sete chaves e
protegido a qualquer custo. Complementado tudo, e mais grave é sem
dúvida a falta de moradia digna, que atinge as populações
carentes. Com isso grandes aglomerações aparecem pela cidade e se
existe uma comunidade que cresce assustadoramente, dia após dia,
essa é com certeza a do Sovaco Fedorento. Por ser um local seguro,
de todos os lugares migram os novos habitantes em busca de melhores
condições de sobrevivência. Sua densidade demográfica começava a
incomodar até mesmo aos moradores do local e era justamente nessa
turbulenta comunidade que vivia o casal Roy e Dora. Dois marginais
irrecuperáveis da mais alta periculosidade, os piores ladrões da
atualidade. Não havia uma só casa pelas adjacências que não
tivesse sido visitada por eles. Até mesmo a delegacia de polícia,
com todo aparato tecnológico de vigilância, não escapou as suas
investidas e por isso é claro que suas cabeças estavam a prêmio
por toda a redondeza. Em quase todos os locais podiam ser visto seus
retratos falados afixados nas paredes bem como faixas oferecendo
premio pela captura desses dois meliantes, algumas até, contrariando
a ética e a justiça, mencionavam como válido até mesmo se eles
aparecessem mortos.
Muito
espertos, e quando resolviam atuar sempre conseguiam escapar,
aumentando a cada dia que passava ainda mais a fama dos dois. Durante
o dia, invadiam e se escondiam em qualquer barraco no Sovaco
Fedorento levando quase sempre o terror ao seu morador. A maioria das
pessoas não os via nesses momentos. Era durante a noite que saíam
para suas certeiras investidas criminosas, mas verdade seja dita –
jamais assaltaram alguma residência cujos ocupantes não tivessem o
que comer.
A
fama que alcançaram era tanta que passaram a ser referência para os
mais jovens, não só daquela comunidade como de outras. Qualquer
menor que perguntado o que seria ao crescer, logo dizia: “quero ser
igual a Roy e Dora”.
E
não ficava só nisso, várias eram as histórias que contavam
envolvendo os dois. Sem contar os boatos de atuações múltiplas em
uma só noite. Para o pessoal da redondeza era sabido que não tinha
porta ou janela que eles não conseguissem vencer, e para seus
perseguidores cada dia mais difícil ficava capturá-los.
Suas
vidas ganharam tanta evidência que até é cogitado no meio
artístico fazer um filme baseado na história dos dois.
Na
madrugada deste sábado, quando passavam por aquela rua onde faziam
seu tradicional caminho de volta para casa, Roy comentou com sua
amiga:
-
Olha que interessante Dora!
-
Olhar o que meu querido?
-
Tenho passado sempre por aqui e até hoje não havia reparado nessa
linda mansão.
-
É mesmo? Não acredito!
-
É verdade, acho que é porque quando voltamos estamos sempre fugindo
e cansados.
-
Não creio que seja por isso, pois eu sempre a vi, só não entrei
ainda por achar muito arriscado.
-
Não tem nada de arriscado. Pelo menos não vejo assim.
-
Mas pode acreditar, essa é a sensação que sinto e eu costumo
acatar minhas intuições. Por isso estou livre e viva até hoje.
-
Pode até ser que você tenha razão, mas hoje vou entrar. Não
deixarei passar essa oportunidade.
-
Você deve estar ficando louco... Olha só para o tamanho dela!
Acredita mesmo que podemos entrar e sair ilesos daí de dentro?
-
Mas é claro, repare bem agora, por exemplo: está me parecendo que
não há ninguém em casa, o que você acha?
-
Não tenho tanta certeza como você. Olha bem, daqui não dá para
ver direito lá dentro, e a claridade indica que tem uma lâmpada
acesa. É sinal que pode muito bem ter alguém aí, sem contar essas
câmeras espalhadas por todo o local.
-
Dora, toda vez que proponho um ganho extra você dá para trás.
Precisa ser mais confiante e ambiciosa.
-
Não é que eu não seja confiante ou ambiciosa, eu sou apenas
precavida... e essa casa me parece muito perigosa
-
Acontece que assim estaremos sempre da mesma forma. Um dia agasalhado
e bem alimentado outro, sem roupa, com fome e com frio. – Lembrou
Roy.
-
Concordo, embora prefira algumas vezes sentir frio e fome a ter a
cabeça a prêmio. É preciso que tenhamos certeza absoluta de que a
casa está vazia e segura para que possamos agir com tranquilidade e
sem risco. – Defendeu-se Dora.
-
Presta atenção amiga! O silêncio é total e já tem alguns minutos
que não vejo nenhum movimento no interior. É agora ou nunca, vamos
pular o muro e entrar na casa.
-
Não tem jeito, você é mesmo insistente e pelo jeito não vai
desistir.
-
Pode estar certo disso. Não vou desistir.
-
Está bem, mas lembre-se que vou sob protestos.
Roy
sabia muito bem como fazer valer sua vontade, por isso não perdeu
tempo em justificar sua ação.
-
Hoje é o dia que nós vamos tirar a barriga da miséria. Faremos uma
boa refeição aqui mesmo no local.
-
Vamos correr todo esse risco para fazer somente uma refeição? –
Reclamou Dora.
-
É claro que não. Depois de comermos, levaremos o que pudermos
carregar, combinado?
-
Agora sim melhorou. Mas veja, teremos que tomar distância para
pular, pois esse muro aqui é bem alto.
Mostrando
ser possuidor de grande elasticidade, em instantes, Roy estava em
cima do muro e desafiava sua comparsa.
-
Deixa de conversa. Ação minha garota! Venha! Daqui de cima dá para
ver que realmente a casa está vazia.
De
cima do muro Dora fez a sua constatação.
-
Roy, a coisa complicou, as portas são todas protegidas.
-
E desde quando porta protegida ou não, foi problema para nós. Deixa
de conversa e vamos.
Realmente
a porta não foi problema para eles. Logo os dois ladrões, pensando
que o caminho estava livre, entraram na casa.
-
Roy, não se esqueça, que todo cuidado é pouco.
-
Vamos rápido Dora e deixa de tanta conversa.
Já
estavam dentro da mansão quando descobriram.
-
Olha ali no quarto, Roy. Eles estão em casa.
-
O que tem de mais? Vamos fazer o que sabemos.
-
Estou ficando preocupada. Não gosto dessa adrenalina. – Dora não
parava de reclamar.
Roy
que sempre foi o mais arrojado, agora procurava acalmar a amiga e
incentivava-a a continuar.
-
Estão dormindo um sono pesado. Vai ser mais fácil do que pensei.
-
Olha pra frente e tome muito cuidado. – Recomendava Dora.
-
Não tem perigo. Vamos agir rápido.
-
Mesmo assim muito cuidado. Não devemos acordar o gato, ele pode
fazer barulho e nos comprometer.
Os
dois chegaram à parte da casa que a princípio seria a primeira
parada. Estavam no centro da cozinha e o cheiro da comida ainda
pairava no ar, aumentando ainda mais o apetite deles.
-
Veja Roy, como você disse vamos tirar a barriga da miséria.
-
Estou vendo Dora, tem comida para um batalhão.
-
Vamos comer que estou louca de fome. Depois fazemos o resto do
serviço.
Os
dois não pensaram duas vezes e começaram a comer. O tempo passou e
com a visão acostumada ao ambiente puderam ver melhor todo o local.
-
O local tem ratoeira armada pra todo lado, Dora. Parece que não
somos os únicos a vir comer por aqui. Temos que redobrar a atenção.
-
Eu avisei que não seria tão fácil como parecia. Agora você está
concordando comigo. Da próxima vez vê se você da mais crédito as
minhas intuições.
-
Agora não tem mais jeito. Vamos rápido porque temos muito que
fazer.
Terminaram
de comer e partiram para o assalto. Neste momento devido à escuridão
Roy esbarrou num copo na beira da pia, derrubando-o. Com o susto Dora
sem querer tropeçou em uma das ratoeiras que ao desarmar prendeu em
seu pé. O barulho do copo quebrado e da ratoeira desarmada ecoou
pela casa fazendo com que gato e os donos da casa acordassem.
-
Roberto, acorda! Anda! – Madalena sacudia seu marido.
-
Hum? O que você quer, mulher?
-
Escutei um barulho e parece ter vindo da cozinha. Tem alguém por lá.
Será que alguém está tentando roubar a nossa comida.
Os
espertos ladrões escutaram os donos da casa conversando e resolveram
fugir para livrar a pele como sempre faziam.
-
Vamos sair fora, Dora. O pessoal acordou.
-
Já ouvi. Vai indo que eu vou em seguida.
-
Anda rápido, menina. Está esperando o que?
-
Estou tentando, mas não consigo, Roy. Fiquei presa por causa dessa
ratoeira e também acho que estou com a perna quebrada. Fuja você,
enquanto há tempo.
Devido
à rápida intervenção dos moradores, nada mais foi feito pelos
dois ladrõezinhos. Tiveram um trágico fim.
De
uma só bocada Roy foi abatido pelo Rajado, gato de estimação da
casa, e Dora que estava presa à ratoeira foi espancada com a
tradicional vassoura pelos moradores, até a morte. Desta vez à
teimosia do amigo custou-lhes as vidas. De nada adiantando sua
intuição.
Demonstrando
total falta de arrependimento aqueles moradores penduraram os corpos
dos marginais na rua como a servir de aviso para algum outro roedor
aventureiro que tivesse a infeliz ideia de invadir aquela mansão.
A
notícia correu como rastro de pólvora acesa, proporcionando alívio
e alegria por toda a vizinhança, entretanto, lá na comunidade do
Sovaco Fedorento fez-se luto de três dias e uma faixa pendurada na
entrada com a inscrição “Perdemos os Grandes Roy e Dora”,
homenageava aos dois.
A
Grande Surpresa
Como tudo na vida
vira uma rotina, a de Antenor Albuquerque não é diferente. Todos os
dias acorda as cinco horas da manhã toma seu banho e ainda debaixo
do chuveiro faz a barba. Depois de se enxugar, escova os dentes e
espalha desodorante por quase todo corpo. Sempre nessa ordem, diz
para si, que assim não esquece de nada. Ainda de cueca e camiseta,
sim gosta de usar camiseta por baixo da sua camisa social, senta-se a
mesa para tomar seu café da manhã sempre reforçado, pois só irá
almoçar lá pelas duas da tarde.
Logo após seu
desejum acaba de se arrumar.
Hoje veste uma calça
cinza e camisa social amarela. É sexta-feira. Costuma usar uma cor
de camisa para cada dia da semana e na mesma ordem: - azul nas
segundas, verde nas terças, amarelo as quartas, rosa nas quintas e
branco as sextas. Como bom supersticioso garante que é para afastar
o que estiver para acontecer de ruim. Entretanto, hoje não se dá
conta de que pela primeira vez troca a ordem das camisas, vestiu a
amarela, quando deveria estar usando a branca. Os sapatos, sempre
marrons, e o blazer combinando com a calça.
Terminado todo o
ritual pega seu carro e com ele vai até ao estacionamento próximo
do Metrô, onde embarca religiosamente no terceiro vagão e desce na
estação da Carioca.
Toma um cafezinho na
cafeteria do Edifício Central e as sete e cinquenta da manhã,
religiosamente, entra na portaria do prédio onde trabalha.
Pronto.
Outra rotina a
partir de agora se faz presente em sua vida. Seu escritório fica no
sexto andar mas não usa o elevador. Subir as escada é um hábito
que pratica há mais de quinze anos, mas não sobe sem antes pegar
suas correspondências e cumprimentar ao porteiro e todos os seis
ascensoristas, um a um. No segundo andar passa pela recepção do
curso de informática que ali funciona e admira a linda recepcionista
recém contratada sem deixar é lógico de também cumprimentá-la.
Enfim, até chegar ao seu escritório sempre passa pelas salas dos
amigos que ali dividem com ele há anos, aquele espaço. Costuma
dizer, sem medo de errar, que conhece cada pedacinho e cada fresta
que ali existe. Ritual completado, lá esta ele sentado em sua
confortável cadeira, prontinho para começar a rotina trabalhista.
Como em todos os
dias retira do bolso seu velho relógio Patek Philippe e o consulta:
São precisamente nove horas da manhã.
Começa a trabalhar,
porém, não pode deixar de lembrar. Nesta sexta-feira notara que as
pessoas que o conhecem cumprimentaram-no de forma diferente do
costume: - o zelador do seu edifício se referiu ao dia como se algo
novo fosse acontecer, detalhe - ele era um pessimista nato; por sua
vez, o vendedor de bilhete no metrô, um homem sempre sisudo e de
poucas falas disse: - hoje o dia promete seu Antenor, olha só, lhe
chamando atenção para uma rapariga exótica que acabara de passar;
o proprietário da cafeteria mandou essa: - então Antenor, está
preparado para o dia de hoje? Por que ele deveria estar preparado? No
sinal o guarda de trânsito alertou: - cuidado ao atravessar seu
Antenor espere o sinal fechar senão pode não ver mais a rua. Também
não entendeu. Sempre esperou para passar ao outro lado da rua; - O
porteiro do prédio em que trabalha, sempre sorridente, também se
referiu ao dia de forma não muito positiva. Muito estranho! Um dos
ascensoristas manifestou-se da seguinte forma: - hoje estou
pressentindo que o dia não vai ser só de sobe e desce e por
incrível que pareça seu colega do elevador ao lado ao escutar tal
comentário, também concordou; a recepcionista reclamou: - não vejo
a hora de ir embora desse prédio hoje isso aqui está sufocante, e o
dia mal começou. E nas salas por onde passou então? Todos de alguma
forma ou por algum motivo lhe pareceram diferentes. Acabou por
concluir que o dia estava estranho, muito estranho mesmo. Seria por
estar vestindo amarelo?
Tantas foram as
mudanças de comportamento que Antenor pensa no pior, mas porque
pensar no pior? Com a mente borbulhando resolve entregar-se ao
trabalho para esquecer tudo aquilo e de tal forma se entrega, que até
esquece da hora de almoçar. Ao se dar conta descobre que o dia tinha
terminado e já está sim é na hora de voltar para casa.
Novamente outra
etapa de rotina diária. Fechar seu escritório, descer pelas escadas
ir de sala em sala se despedir dos amigos, pois agora só os veriam
na segunda-feira.
Assim faz.
Desce todos os
andares e qual não é a sua surpresa quando de cima do último lance
das escadas vê aquela multidão. Algumas daquelas pessoas ele
conhece bem.
Estão todas
aglomeradas a sua frente impedindo que termine de descer os degraus,
e pelo que tudo indica aquela multidão se estende até a saída
principal do prédio. Mas o que será que está acontecendo por aqui?
- Se pergunta Agenor.
Avista mais à
frente, Noêmia, a amiga de porta escritório, e gesticula
perguntando.
― O que está
acontecendo?
― Estamos presos!
- Respondeu.
― Como estamos
preso? - Grita já nervoso.
De onde Antenor
estava não dava para ver nada. Resolve então se certificar de perto
o que acontecia, e de desculpa em desculpa e com licença daqui e com
licença dali, vai se chegando até onde esta Noêmia.
O aperto é total,
mal pode respirar. Dali também não vê nada. Nem os altos prédios
que sempre estavam a frente do seu, consegue ver. Tenta ir mais
adiante e ouve o grito lá da frente:
― Não empurra se
não podemos cair no nada.
Cair no nada. Que
diabos está acontecendo aqui? - Pensa.
Se aperta mais um
pouco e segue na direção da porta de saída.
Para.
Se ajeita na ponta
dos pés e mesmo assim continua a não ver nada.
Mesmo
com as reclamações e pedidos de cuidado, força mais um pouco e
consegue chegar próximo a saída. É quando para seu espanto e
surpresa entende o porque da amiga ter lhe dito que estavam todos
presos. Não via nada diante do prédio, mas nada mesmo. Vazio
total.
De certa forma seus
amigos haviam previsto aquilo. Era realmente um dia diferente de
todos os outros. Afinal, simplesmente não tinha mais para onde ir,
pois toda a rua sumira.
Perfume
Indesejável
Dionísio
é motorista de táxi há muitos anos e apesar de sua mulher achar
desnecessário e ser contra, ele ainda trabalha sábados, domingos e
feriados, todos sem exceção, não atendendo aos seus pedidos para
descansar e se distrair com a família. Entretanto após esta
experiência vivida decidiu atender a esposa.
Naquele
sábado de verão Dionísio saiu para trabalhar às dezoito horas, um
pouco mais tarde que o de costume. Ainda bem próximo de casa –
para ser mais exato, na Praça Jauru –, foi logo parado. Muito se
estranhou com aquele passageiro ali por Jacarepaguá, porque,
normalmente, o pessoal do local sempre pedia o serviço dos táxis
existente na área por telefone. “Mas já que apareceu um perdido
no caminho, vamos atendê-lo” – pensou.
Seu
primeiro cliente era de estatura mediana, moreno, magro, de olhos
negros penetrantes e frios. O cabelo era preto e totalmente liso;
vestia calça, cinto e sapato branco com uma camisa tipo social de
seda, estampada nas cores azul e amarelo dourado, de fundo também
branco.
Ele
abriu a porta dianteira, e com um lenço na mão, fez menção de
limpar o banco. Não deu continuidade ao ato, pois viu que o carro e
os assentos estavam bem cuidados. Sentou-se elogiando a conservação
do táxi, mas não se identificou. Em seguida pediu que o levasse até
Nilópolis, na Baixada Fluminense. Usava um perfume forte que
lembrava o cheiro peculiar de flores que enfeitam os caixões
mortuários.
Alguma
coisa dizia a Dionísio que deveria tomar o máximo de cuidado com
aquele passageiro. – uma espécie de sexto sentido – Na tentativa
de começar uma conversa e tornar aquela viagem melhor, mas sem saber
o que dizer, a clássica pergunta foi sua salvação:
-
Por onde gostaria de ir, senhor?
O
homem olhou-o com um olhar frio e distante e falou secamente.
-
Podemos ir por dentro mesmo. Assim aproveito e dou uma passada por
uns lugares que não vejo há muito tempo, e no caminho revejo
antigos amigos.
Dito
isso, voltou a ficar calado. Quando estavam passando em frente ao
cemitério de Ricardo de Albuquerque, pediu que fizesse o contorno na
praça alegando que queria comprar umas flores. Assim foi feito e
Dionísio parou quase em frente à floricultura existente na rua ao
lado do cemitério. O passageiro, que até aquele momento ainda não
tinha se identificado, desceu do carro e o chamou para ir junto.
Caminharam até a loja. Dentro desta, seu perfume que já era forte
se misturou ao cheiro das flores que lá estavam e ficou mais
acentuado. A forma como tratou a dona da floricultura pareceu ser
íntima, entretanto Dionísio não pode deixar de notar a surpresa
demonstrada por ela ao vê-lo. Comprou duas dúzias de rosas nas
cores brancas, vermelhas, rosas e amarelas. Misturando-as, juntou a
elas alguns ramos verdes e um pouco de mato chamado chuva de prata.
Pediu para a senhora atrás do balcão, que continuava paralisada e
pálida, para fazer um arranjo bem bonito. Em seguida, bateu nas
costas de Dionísio e falou:
-
Enquanto ela prepara meu arranjo, vamos até aqui, no bar ao lado,
tomar uma cerveja.
-
Posso até acompanhá-lo, mas eu não bebo, ainda mais quando estou
trabalhando. – Respondeu-lhe Dionísio.
-
Então vai tomar um guaraná. – Insistiu o misterioso passageiro.
-
Tudo bem, vou aceitar o refrigerante. – Não tendo mais
alternativas, concordou.
O
bar era amplo, com umas oito mesas espalhadas; tinha duas portas para
entrar. Quando chegaram ao local, reparou que ele examinou todo o
ambiente. Ficaram em pé e encostados no balcão: Dionísio de costas
para a rua e o salão, e ele ao contrário, olhando o salão e a rua.
Assim que entraram, ele pediu um conhaque, uma cerveja e o guaraná.
Antes mesmo de tomar a cerveja, bebeu o conhaque num só gole.
Dionísio percebeu que a pessoa que os servia não estava à vontade
com a presença deles. Ao final não o deixou pagar o refrigerante, e
antes mesmo que Dionísio terminasse de beber seu refrigerante, tomou
mais dois copos de conhaque. Pensou: “esse cara vai ficar bêbado e
vou ter problema com ele”. Voltaram até a floricultura e apanharam
o arranjo de flores que já estava pronto. O sujeito pagou e falou
para a mulher:
-
Amanhã vou mandar três bonecos para vocês enfeitarem, mas não
precisa caprichar. – Sua voz tinha mudado completamente de
tonalidade quando proferiu aquela frase.
A
mulher, que continuava pálida, instintivamente se benzeu. Ele riu e
saiu puxando Dionísio pelo braço. Entraram no carro e atravessaram
mais adiante para o outro lado da linha férrea. Assim que o fez, um
pouco mais à frente na direção de Anchieta, ele novamente mandou
parar na porta de um bar mercadinho. Outra vez pediu para
acompanhá-lo. Mandou descer uma cachaça, uma cerveja e um
refrigerante. Dionísio presenciou a mesma cena de antes: o dono do
mercadinho estava lívido e quase não conseguia pronunciar uma
palavra. Não dava para entender o porquê daquelas reações. O
misterioso passageiro pediu um cigarro e Dionísio automaticamente
disse que não fumava. Aí o homem virou-se para ele e, com ironia,
perguntou:
-
Você não bebe... Não fuma... Será que também não trepa?
Não
respondeu. Fez um ar de sorriso, mas não estava se sentindo a
vontade com aquele sujeito. Ele pediu outra cachaça e mais uma
cerveja, bebendo tudo quase que de uma só vez. Comprou além de um
maço de cigarros, outras coisas no mercadinho e pediu para
embrulhar. Pagou a conta e foram embora. Não se sabe se já era
efeito da bebida ou o quê. O fato é, que o homem resolveu falar:
-
Preciso encontrar minha irmã. Estou preocupado com ela, essas flores
são dela e as compras para meu irmão, que está sem trabalhar. –
Falou de uma forma como que há justificar seu comportamento.
-
Esse seu gesto é muito bonito, mas porque está preocupado com sua
irmã? Ela está doente?
-
Não. Ela foi e agredida pelo marido. Também quero saber por que
aqueles safados ajudaram a ele a espancá-la. Isso não vai ficar
barato.
Dionísio
continuou calado. O perfume daquele homem, agora mais acentuado,
continuava impregnando tudo à volta e sua voz soava assustadora.
Chegaram
em Nilópolis e ele começou a orientar no caminho a ser seguido.
Vira pra cá, vai em frente, vira pra lá. De repente falou:
-
Pode estacionar ali na frente daquela birosca.
Desceram
mais uma vez; eram dez horas da noite. Tinha uma rapaziada sentada na
mureta da varanda do barzinho, bebendo. Quando o viram, baixaram a
cabeça e pararam de conversar. Silêncio total e inquietante.
Estavam todos assustados. Parecia que confrontavam um fantasma, igual
à mulher da floricultura e ao dono do mercadinho.
Ele
lançou a pergunta ao ar, para todo mundo ouvir.
-
Minha irmã, alguém sabe onde ela está?
Alguém
respondeu que não sabia. Ele continuou:
-
Vocês estão é me escondendo, mas não tem problema. Vou
encontrá-la. E os safados que bateram nela, sabe onde eles estão? –
Perguntou, se dirigindo agora àquele que tinha lhe respondido
anteriormente.
-
Dizem que estão lá para o lado de São João.
-
Hoje eu pego todos eles. – Afirmou enfurecido.
Dizendo
isso foi em direção ao banheiro do bar, mas antes pediu outro
conhaque, uma cerveja e perguntou a Dionísio se ele ia tomar outro
refrigerante, que para não contrariá-lo aceitou. Foi quando um
senhor que estava no meio deles chegou perto dele e falou tão baixo
que parecia até que não queria que o próprio Dionísio escutasse.
-
Pelo jeito o senhor não sabe quem é esse homem, né?
-
Não, nunca o vi mais gordo. – Respondeu normalmente.
-
Imaginei, mas fala baixo, amigo. Ele foi conhecido aqui na favela
como Índio, o pior dos matadores que existiu na Baixada. Era muito
perigoso.
Continuava
falando tão baixo que quase não dava para ser ouvido.
-
Por que o senhor diz que ele existiu? – Dionísio quis saber.
-
Porque correu a notícia que ele havia morrido, mas parece que foi
outro o enterrado. O caixão dele estava fechado e não foi aberto.
-
Sabe o por que de não ter sido aberto?
-
Isso é um mistério até hoje. Hum! Esse cheiro é igual ao do dia
do enterro.
-
Então você está dizendo ele não morreu e está de volta? –
Indaguei, rindo.
-
Não sei não, mas é o que está parecendo. Que está estranho,
está.
-
Vai querer me convencer que estou conduzindo uma assombração no meu
táxi?
-
Você é quem está falando. Eu não disse nada e como a família
dele toda mora aqui na comunidade, pode ser que estejamos enganados.
Pelo jeito, está procurando o marido da irmã, que junto com mais
dois quase a mataram de tanta pancada. Com certeza vai empacotá-los
quando os encontrar. O senhor precisa arrumar um jeito de pular fora
dessa.
Começava
a fazer sentido o aviso que Índio deixara na floricultura, mas agora
não dava mais para desvencilhar-se dele. O relógio estava marcando
uma quantia elevada e Dionísio não ia perder o valor daquela
corrida por nada. A final, o dinheiro com que ele pagou suas contas,
– na floricultura, no bar e no armazém – era verdadeiro, e não
tinha nada do outro mundo.
Índio
saiu do banheiro bebeu a cerveja, dois conhaques e pagou a conta.
Veio em direção a Dionísio, que encostado no carro, mal podia
acreditar que um homem pudesse beber tanto e ainda continuasse
andando sem cambalear, não aparentando qualquer sinal de embriaguez.
Índio
pegou as flores e as compras no carro, e de novo, ao sair andando, o
chamou:
-
Vem comigo.
-
Espera um pouco que eu vou fechar o carro. – Falou preocupado.
-
Pode deixar essa merda aberta aí mesmo. Todo mundo já sabe que eu
voltei e que você está comigo, ninguém vai mexer nele.
Lá
foi ele obrigado novamente a segui-lo. Desta vez entraram ainda mais
na favela. As pessoas, assim que os avistavam, fugiam para dentro de
suas casas procurando os evitar. Pode ser até que ele estava
influenciado pelo que tinha ouvido e presenciado até ali, mas essa
era a impressão que Dionísio tinha.
Parou
na frente da casa do irmão. Olhou para todos os lados. A rua estava
deserta. Entrou, e lá de dentro gritou:
-
Entra aí, piloto.
Dionísio
entrou e viu ele bebendo mais uma dose de cachaça. Melhor dizendo,
bebeu um copo cheio. O irmão também parecia estar vendo
assombração. Quando acabou de beber, perguntou pela irmã.
Muito
nervoso, o rapaz disse que não sabia onde ela estava. Aí escutou
Índio avisando, alto e em bom som:
-
Zeca, não adianta ela se esconder para proteger o marido. Vou
matá-lo junto com os dois safados assim que os encontrar. Você
também não devia acobertá-los. Tenho de ir. Essas compras são
para você e entrega essas flores para Gilda, eu sei que você sabe
onde ela está.
Após
esse mal estar, o sujeito dirigiu-se ao Dionísio:
-
Vamos embora, piloto.
Voltaram
tudo a pé novamente até o táxi e as pessoas agiram da mesma forma.
Era notório: – por onde eles passavam os moradores do lugar
olhavam às escondidas pelas frestas das janelas e pelas portas
entreabertas. Parecia que ninguém tinha coragem de cruzar o caminho
do tal Índio. Quando chegaram ao carro, não tinha uma viva alma na
rua e nem no bar. Dionísio estava impressionado e com medo; nesse
momento ele já não sabia se o que sentia era por ser o cara um
matador profissional ou por ser uma possível assombração. Entraram
no veículo e Dionísio escutou o que não queria:
-
Vamos a São João de Meriti.
-
Daqui eu não sei como ir para lá.
-
Isso não é problema, eu ensino.
Dionísio
realmente não conhecia nada por ali e o tal do Índio passou a
orientá-lo qual caminho seguir. Sem mais nem menos, de repente
convidou-o para pegar umas mulheres e ir para um motel fazer uma
noitada. Recusou. Ele agora rindo, mas com uma voz bem diferente.
Aliás, bem diferente da que Dionísio já estava acostumado a ouvir.
Afirmou:
-
É, parece que você também não transa.
Como
queria se livrar dele o mais rápido possível, nem deu muita atenção
ao que acabava de escutar e continuou dirigindo. Mas como é que ele
iria fazer? – Pensava. À medida que o caminho ia sendo percorrido,
o local começou a parecer-lhe familiar, pois tinha trabalhado por
ali como vendedor. Aí Dionísio falou:
-
Aqui eu já conheço. Logo ali é a estação de São João. Se
atravessarmos a cancela em frente, saímos na Pavuna. Se formos para
a direita, na próxima cancela, volto para Ricardo. Certo?
-
Ótimo. Já que você não quer curtir a noite e não vai mais se
perder, pare o carro que aqui eu fico.
Dionísio
parou na esquina da encruzilhada, da rua com a linha férrea. O
sujeito lhe deu uma nota de cem reais para pagar sessenta e três, e
desceu. Quando ele virou para dar o troco, a porta continuava
entreaberta e o misterioso passageiro caminhava no meio da
encruzilhada.
Era
exatamente meia noite.
Como
fumaça Dionísio viu seu passageiro sumir na escuridão. Olhou
rapidamente para todos os lados e nada, o local estava deserto e
muito escuro. Assustado, ainda pode ouvir aquela mesma voz dizer:
-
A vida é curta. Beber, fumar e transar faz parte dela. Aproveite.
Nada
mais ouviu, além de uma risada sinistra, mas aquele perfume de
flores ainda pairava no ar, mais forte do que nunca.
Insatisfação
geral
Amanhecera.
José um renomado escritor acordara inspirado, mas não muito
disposto a escrever. Porém tinha que adiantar ao máximo o seu
texto, pois aquele seria o último fim de semana que passaria
escrevendo na fazenda. O final do livro pensava fazê-lo dentro do
próprio museu em que trabalhava, palco onde praticamente desenrola
toda sua história.
O
dia estava muito bonito, desses, que não dá para ninguém botar
defeito, mesmo assim, encaminhou-se preguiçosamente em direção a
varanda resmungando, sem sequer imaginar que a reclamação era
também o tema do dia entre os seus pertences.
Uma
cadeira de espaldar alto, a mesa de jacarandá com tampo de vidro, um
notebook, uma impressora, as folhas de papel, um grampeador, o velho
telefone, um cachimbo inglês, um isqueiro, o pacote de fumo e um
cinzeiro de Pau Brasil, peças integrantes daquela comprida e ampla
varanda, comentavam suas mazelas, cada um querendo mostrar que o seu
sofrimento era maior que o do outro. Sem, contudo encontrarem um bom
termo para a situação.
-
Pessoal, acabou a moleza, o homem está vindo para cá. – Avisou o
telefone.
-
Xi! Estou pressentindo que hoje terei que imprimir muito. –
Resmungou a Impressora.
-
Espero que se mantenha calma e não desregule. Estou cansado de ficar
engastalhado em você. Sempre que isso acontece saio todo amassado,
rasgado e vou parar no lixo. – Lembrou o papel.
-
Pois eu vou adorar se isso acontecer. Só assim não perco meus
dentes. – Desejou o grampeador.
-
Cachimbão meu velho companheiro de guerra, se prepara também; já,
já você vai levar fumo. – Fez questão de lembrar o notebook.
-
Não gosto nem de lembrar. Toda vez que ele me abre, perco parte dos
meus cabelos. O jeito é rezar para que hoje ele tenha esquecido o
fósforo, só assim não pegamos fogo. – Resmungou o pacote defumo.
-
Melhor mesmo é que ele pegue o telefone e não pare de falar. –
Torceu o cachimbo.
-
Também acho. Assim ele não me bate desesperadamente. – Concordou
o notebook e também reclamando. – Ainda estou todo dolorido da
sessão de ontem.
-
Vocês são muito engraçados. Esquecem que se isso acontecer eu é
que sou obrigado a sentir aquele mau hálito, que mais parece o bafo
do diabo. Tomara que ele comece logo a fumar e a escrever, assim ele
não me agarra com aquela mão fedida e eu continuo cheiroso. –
Disse o telefone.
-
Agora sim, alguém disse algo que prestasse. O bom mesmo é que ele
fume. Dessa forma, ao invés de sentar em mim ele vai andar de um
lado para o outro nesta longa varanda e quando cansar vai se debruçar
no parapeito me deixando livre por mais tempo. – Falou a velha
cadeira.
-
Egoístas, só pensam em vocês. Esquecem que ele ao me usar, respiro
fumaça, queima meu corpo, deixa sarro na minha boca e me morde o
tempo todo. – Reclamou o cachimbo.
-
Sofredor sou eu. Não se esqueça, nobre cachimbo, que a todo
instante recebo seu golfado de cinzas e o restante de suas brasas por
todo meu corpo, deixando marcas irreparáveis. – Afirmou o
cinzeiro.
-
E eu, o que digo? Suporto o peso de todos vocês, estou fosco, com
algumas lascas nas bordas, continuo sendo arranhado a cada vez que os
puxam ou os arrumam em cima de mim, estou manchado de nicotina e
tenho cinzas acumuladas à volta de quase toda minha extensão.
Aguento tudo isso, e ainda por cima sou obrigado a ouvir todo dia
suas reclamações. – Disse o tampo da mesa.
-
Cala essa boca seu intruso do inferno! Está reclamando porquê? –
Gritou a mesa.
-
Mas o que isso? Sempre nos demos tão bem. Por que essa agressividade
assim tão fora de hora? – Surpreendeu-se o tampo de vidro.
-
Eu sim é que sou a mais prejudicada, meus donos durante todos esses
anos me torturaram, rabiscaram-me, furaram-me, cortaram-me,
queimaram-me e quando me racharam trocaram a minha cabeça por você,
um vidro vagabundo de quinta categoria. Tem algo pior que isso? –
Lamentou-se a mesa de jacarandá.
-
Vê-se logo que você não sabe o que diz, minha cara. Graças a mim
você continua tendo utilidade. Vagabundo mesmo é esse nosso dono,
que quando está aqui, não faz nada além de ficar sentado nessa
cadeira o dia inteiro escrevendo baboseiras. – Defendeu-se o grosso
tampo de vidro.
-
Pensei que fossem me esquecer. – Reclamou a cadeira – Na verdade
quem mais sofre aqui sou eu. Olhem bem para mim. Vocês são muito
jovens, por isso nem imaginam como já fui majestosa. Como acham que
eu me sinto agora? Várias personalidades ilustres já me usaram;
barões, condes marquesas e até ministros. Naquela ocasião eles
sentavam numa almofada de pena de ganso, forrada em couro de cromo
alemão, afixada a meu corpo e, diga-se de passagem, sem cheiro ruim.
Hoje estou aqui bamba de tanto ele me gangorrear e com uma
almofadinha de espuma picada envolta num pano fedorento, jogada
encima de mim, e ainda por cima tendo que suportar o peso desse
imbecil gordo e vagabundo que você acaba de mencionar, pode?
Nesse
exato momento José chega ao portal da varanda e como estivesse
ouvindo todas aquelas reclamações a seu respeito, falou alto e
decidido:
“Deixa
de preguiça e vai trabalhar José, que hoje você tem muito a
escrever”.
Dizendo
isso automaticamente pegava seu cachimbo em cima da mesa e o enchia
de fumo.
“Onde
será que coloquei os fósforos?” – Pensou José.
A
curiosidade pode matar
No
vilarejo Barra Perdida, a vizinhança do bairro Sintonia, já não
aguentava mais tanta correria e barulheira naquela casa. Não havia
um só final de semana que aqueles moradores deixassem passar em
branco. Já na sexta feira começavam a ser entregues as carnes e as
bebidas para o churrasco do dia seguinte, e o alvoroço era total no
local, principalmente na hora em que as garrafas de cervejas vazias
eram devolvidas. Nesse exato momento a vizinhança tinha uma amostra
de como seria o final. Era batata. Todo mundo já ficava sabendo: o
pagode começava no sábado, e se estenderia até as tantas. E como
de costume, continuava até à tarde do Domingo e no final da
reunião, novamente aquela confusão e a gritaria arretada. Mais um
final de semana se aproximava e a expectativa como sempre era geral.
Na residência vizinha a esse evento um casal comentava apreensivo.
-
Rodolfo, nós teremos sossego neste Domingo ou será como nos outros
finais de semana? – Margarida perguntava a seu marido que
descansava tranquilamente no canto da varanda.
-
Da minha parte estou torcendo para que tenhamos paz. Mas isso, só
Deus sabe, minha filha. Só Deus sabe!
-
Eu respeito e concordo que todos devem se distrair, mas toda semana!
Isso não pode continuar eternamente, alguém tem que achar uma
solução e dar fim a esse martírio. Há continuar desse jeito
acabaremos neuróticos.
-
Ouvi dizer que os vizinhos estão se reunindo e pesquisando uma forma
para solucionar o problema. Pelo ardor com que me falaram, parece até
que estão dispostos a contratar alguém especializado. Pensam até
chegar ao extremo, ao extermínio se for o caso.
-
Será que eles vão ter coragem para chegar a tanto? – Margarida
mostrou-se preocupada.
-
Nos dias de hoje, com a violência dominando, não duvido de nada.
Tudo é possível, mas o melhor é irmos dormir que amanhã é um
novo dia. Precisamos estar descansados para aguentar o repuxo.
Não
demorou muito e naquela mesma noite vários convidados começaram a
chegar. Trazendo junto o barulho costumeiro daqueles dias festivos.
-
Mas o que é isso Rodolfo? Hoje não é sexta feira? – Perguntou
meio na dúvida Margarida.
-
Pelo jeito o pagode vai começar mais cedo. Provavelmente será
dobrada a confusão.
Lá
pelas tantas – de madrugada – o pagode ainda comia solto no
quintal. O barulho de algumas garrafas quando quebravam era infernal.
Em vários pontos podia ser visto cerveja derramada; a impressão que
dava é que de tão bêbedos já não acertavam a boca. No meio da
cantoria, de vez em quando, podia-se ouvir uma ou outra mulher
gritando:
-
Mata! É muito abuso. Mata logo!
Curiosos
Rodolfo e Margarida mantinham-se escondidos para não serem vistos,
mas mesmo assustados conversavam no quintal ao lado de toda aquela
confusão.
-
O que será que está acontecendo dessa vez? – Perguntava
Margarida. – Essas mulheres estão incentivando que matem. Mas por
que essa violência?
-
Fica calma que daqui a pouco eles terminam. Quando tudo acalmar irei
até lá para ver o que aconteceu.
-
Nada disso. Não vou deixar você ir lá. Pode ser perigoso. O muro é
muito alto e pelo jeito estão armados. – Proibiu Margarida.
Como
previra Rodolfo, logo acabou o pagode e tudo serenou.
-
Vou lá agora. – Disse Rodolfo baixinho procurando não ser ouvido.
-
Não, não vá! Estou lhe pedindo. É perigoso!
Mas
Rodolfo não atendeu aos pedidos da mulher. Subiu no muro deu uma
rápida olhada e pulou para o outro lado. Os minutos pareciam se
arrastar vagarosamente. Passados alguns instantes, para desespero de
Margarida, ela ouviu novamente uma mulher gritando.
-
Olha lá!
-
Onde? – Dessa vez a voz era masculina.
-
Atrás da mesa tentando se esconder, não deixa fugir! Mata logo!
-
Calma que eu vou matar.
-
Rápido, está querendo fugir pelo muro. Não deixa, não deixa
fugir. Mata! Mata logo, homem!
Rodolfo
rapidamente pulou de volta para casa, sem antes dar mais uma olhada
por cima do muro e apavorado gritava procurando sua mulher. Estava
realmente esbaforido.
-
Margarida! Margarida!
-
Que foi que aconteceu homem? Nossa! Você esta fedendo a cerveja
pura. Não tem vergonha. Invade a casa dos vizinhos e ainda bebe a
cerveja deles?
-
Não é nada disso Margarida. Assim que pulei quase me afoguei com
tanta cerveja espalhada pelo chão. Mais à frente, dei de cara com o
cadáver da Esmeralda estendido. Você não faz ideia do que vi. Foi
terrível.
-
Eu lhe disse para não ir lá. – Lembrou Margarida. – Mas a sua
teimosia é maior que a prudência.
-
Quase sobrou para mim. Por pouco não fui apanhado – Rodolfo ainda
estava pálido ao lembrar.
-
Então o melhor é sairmos logo daqui do quintal. Não estou me
sentindo nada segura. – Sugeriu a Margarida.
O
casal já mais calmo e em plena fuga, ainda pode ouvir a dona da casa
do outro lado gritar.
-
Zezinho! Tire essas baratas mortas daqui. Estão me dando nojo.
Editora
AG - Classificação do XXVII Concurso Internacional Literário -
Março 2009
A
curiosidade pode matar - 7º lugar
Convidado
a participar do novo lançamento de suas coletâneas com o conto: - A
curiosidade pode matar
O
velório
Começava
a disputa familiar pela herança de Damasceno, um rico e poderoso
fazendeiro do estado de Goiás. Típico matuto do interior, mas que
de bobo nunca teve nada.
Mal
acabara de falecer. Seu corpo ainda estava sendo velado numa das
capelas existente no pequeno cemitério da cidade de Baliza,
localidade quase na divisa com Mato Grosso, e a luta já se mostrava
ferrenha. Parentes que em vida nunca o visitaram, agora chorosos se
faziam presentes na pequena capela, afinal tinham que dar o ar da
graça, pois logo seria lido o inventário deixado pelo morto. A
impressão que dava era que o local tinha sido reservado
exclusivamente para aquele velório, pois não havia outro defunto.
A
maioria dos que ali estavam, chorava falsamente, entretanto o defunto
sorria. Sim, você leu corretamente, – o defunto sorria – e se
leu certo, deve estar agora intrigado e se perguntando: Porquê
sorrindo? É simples, mas terá que continuar com a leitura para
descobrir o porquê desse sorriso.
Aquele
encontro estava longe de ser um funeral ou uma cerimônia religiosa
tradicionalmente adotada para a despedida de um ente querido logo
após sua morte. Mais parecia uma reunião festiva, onde cada um
ostentava o máximo de joias, que podia usar, para dar a entender que
da herança deixada, não precisavam e não estavam interessados.
Enfim, uma coisa insignificante e de segundo plano. Na verdade, só
aparência, pois o que queriam mesmo era saber quanto tinha tocado
para cada um deles.
O
tempo passava e o defunto continuava sorrindo, para alguns pareceu
até que o sorriso havia se acentuado.
Por
volta da meia noite, seis homens fortemente armados entraram
rapidamente no recinto. Quatro deles, se dispuseram estrategicamente
pelo local, enquanto os outros dois anunciavam se tratar de um
assalto e automaticamente foram recolhendo os pertences de valor. A
ação foi tão rápida que não houve reação. Ao terminarem, um
dos ladrões pediu a atenção dos presentes.
-
Senhores... Senhoras... Devem estar lembrados de que quando nós
entramos, eu anunciei que era um assalto. Certo?
-
Ninguém aqui é surdo, e muito menos idiota. E claro que lembramos.
– Respondeu um dos presentes, que nem parente era.
-
Pois bem. Gostaria muito que não entendessem dessa forma e não
registrassem queixa na delegacia deste roubo.
-
Então você acha que pode entrar aqui, nos roubar, sair e viver como
se nada tivesse acontecido? – Reagiu o mesmo que falara
anteriormente.
-
É isso o que quero que todos entendam. O que aconteceu aqui não foi
um roubo, mas sim o pagamento de algumas dívidas, de jogo, que o
senhor Damasceno deixou na praça.
-
Você além de ladrão é um gozador. – Reclamou um dos filhos do
morto.
-
Não reclamem comigo. Reclamem com o morto.
-
Além de tudo você deve ser louco, para fazer uma sugestão dessa. –
Um outro filho deixou no ar a afirmação.
-
Engano seu, Altair. Fazermos esse assalto no dia em que ele estivesse
sendo velado foi ideia dele mesmo. Ele nos garantiu que todos os
presentes estariam com dinheiro e portando tantas joias que daria
para saldar todas as suas dívidas. Sou obrigado a concordar que ele
estava com razão. A dívida está totalmente paga.
Dizendo
isso, saíram como entraram; – rapidamente.
Os
ladrões, além de levarem todo o dinheiro e as joias dos familiares,
comeram e beberam o lanche que os parentes e amigos tinham levado
para passar a noite no velório, deixando-os morrendo de raiva e
também de fome.
Quando
tudo serenou puderam constatar mais uma vez, que o defunto continuava
sorrindo. Começaram a atribuir aquele ar de riso, ao constrangimento
e susto que acabaram de sofrer com o roubo encomendado por ele.
Pela
manhã acharam muito estranha a presença do padre da pequena cidade,
uma vez que Damasceno era ateu, e para completar a surpresa ele
estava acompanhado do Arcebispo de Goiânia. Afinal, quem e porquê
os teriam chamado ali.
Não
dando importância à surpresa e incredulidade dos presentes, o padre
Alvarez foi logo cumprimentando um a um e em seguida aproveitou para
apresentar o Arcebispo.
-
Caríssimos fiéis. Gostaria imensamente de neste momento dizer
algumas palavras em sufrágio da alma do nosso querido Damasceno,
porém deixarei essa honra para que Dom Aloísio, nosso Arcebispo, o
faça.
Feita
a apresentação o religioso tomou imediatamente a palavra.
-
Meus irmãos, eu sei que não devia dizer isso, mas não vejo outra
maneira de expressar todo o nosso contentamento, não só meu, mas de
toda a igreja. Nós tivemos o privilégio e a graça de conhecer o
senhor Damasceno. Homem íntegro e de caráter nobre. Eu tenho
certeza de que assim que vocês tomarem conhecimento de quem
realmente foi esse nosso irmão que acaba de fazer seu desenlace,
também se sentirão orgulhosos de terem convivido com ele.
Como
todo religioso que se presa, Dom Aloísio aproveitou o momento para
dar vazão aos seus dotes de oratória. Falava muito, mas não
chegava aos finalmente, e isso estava deixando os parentes cada vez
mais curiosos em saber o tamanho da integridade e da nobreza do
velado. Até que não aguentando mais tanta falação e querendo dar
um basta naquilo tudo, Altair, um dos filhos perguntou:
-
Dom Aloísio. Convivi com meu pai durante toda sua vida. Dia após
dia, noite atrás de noite. E pelo que sei, ele sempre deixou bem
claro a sua posição religiosa; – ele foi um ateu convicto. Muito
me espanta essa sua rasgação de seda para com alguém que nunca
frequentou sua igreja e muito menos acreditava no seu Deus?
-
Por isso mesmo, meu filho. Esse homem durante toda a sua existência
teve posição contrária a nós, entretanto nos últimos momentos de
vida deu-se conta do quanto estava errado em negar o Divino, e num
ato de total desprendimento nos procurou e doou todos os seus bens.
Sua fazenda em especial deixou para que a igreja fizesse dela a
morada dos necessitados, e nela montasse uma escola que ajudasse seus
filhos a alcançar a sabedoria. Sinto-me orgulhoso de tê-lo
conhecido em vida e digo com toda certeza, que Deus o está recebendo
de braços abertos no céu. Agora que todos tomaram conhecimento do
que este grande homem fez, espero que a paz possa estar presente no
coração de todos.
Com
essas palavras, assegurando a Damasceno sua entrada no céu, pareceu
aos olhos dos presentes que o defunto sorria mais ainda. Agora só
restava saber se esse sorriso era por sua entrada no paraíso ou
porquê havia pregado aquela peça em todos.
Ninguém
acreditava no que acabara de ouvir. Mas era o Arcebispo que falara,
então não podia ser mentira, pensava a maioria.
O
enterro estava marcado para as quatro horas da tarde. Altair
desesperado, por saber não ter mais direito a nada, resolveu ir até
ao cartório da cidade, precisava por a limpo aquela história. Lá
constatou que realmente seu pai havia doado tudo o que tinha para a
Arquidiocese, que era a responsável pela administração da fundação
religiosa. Voltou ao cemitério e confirmou a todos o que tinha sido
dito pelo Arcebispo.
Não
ficou ninguém para assistir ao sepultamento de Damasceno, mas quando
o caixão desceu ao túmulo, uma forte gargalhada foi ouvida no
cemitério se misturando com a dos coveiros, que acabavam de saber da
história.
Complicando
a vida
Claudemir,
Manfredo e Afrânio ficaram órfãos ainda nos primeiros anos de
vida. Por causa desse trágico acontecimento foram criados por três
famílias amigas, mas que não eram seus parentes. Raramente os três
irmãos se viam quando criança, só vindo a acontecer alguns
encontros quando já estavam na adolescência. Praticamente por volta
dos dezoito anos é que Manfredo passou a ter um relacionamento com
seus irmãos, mesmo assim não tão constante e também foi nesta
época que conheceu alguns de seus parentes de sangue. Assim a vida
foi passando, sempre afastado dos irmãos e familiares... Manfredo
sempre gostou de não depender dos seus padrinhos e assim que dera
baixa do exército precisando dar continuidade a sua vida
profissional, não perdeu tempo. Saiu em busca de um trabalho digno
da sua capacidade. Sabia que não podia contar com seu irmão mais
velho, pois o mesmo já havia deixado bem claro que não o indicaria
na empresa em que trabalhava. Alegando que lá não permitiam que
irmãos ou até mesmo parentes distantes trabalhassem juntos.
Manfredo mesmo assim não se importando com essa informação
inscreveu-se para ser vendedor em um dos depósitos de vendas que a
tal empresa mantinha em Madureira, um subúrbio do Rio. Já que seu
irmão trabalhava no departamento de ações na matriz, entendia que
dessa forma não estariam trabalhando juntos.
Foram
prestados exames intelectuais e psicológicos. Depois de realizadas
as entrevistas e feitos os exames médicos, Manfredo é aprovado e
contratado para trabalhar como vendedor. Entretanto não existia vaga
naquele depósito e ele foi transferido para a filial da empresa que
funcionava no bairro de São Cristóvão. Para sua surpresa também
não tinha uma vaga para o cargo de vendedor. Como o nível do seu
conhecimento estava acima do exigido para a função, os responsáveis
pela seleção não quiseram descartá-lo e devido a isso ele foi
aproveitado como assistente do gerente do depósito, que funcionava
junto daquela filial.
Lá
na matriz seu irmão ficou sabendo e naquele fim de semana foi
visitá-lo. Quando chegou nem o cumprimentou, indo direto ao assunto
que estava lhe incomodando.
-
Manfredo você esqueceu do que lhe falei?
-
Bom dia! Não dormimos junto, meu irmão. Esqueceu as boas maneiras?
-
Você não está respondendo a minha pergunta.
-
Claudemir, eu estou trabalhando na filial em São Cristóvão. Jamais
a diretoria ficará sabendo que somos irmãos e se isso acontecer
basta dizer que nos conhecemos há pouco tempo.
-
Como posso falar isso, Manfredo? Ficou maluco?
-
Meu irmão. Está esquecendo que nós dois fomos apresentados ao
nosso primo de sangue um dia desses? E que oitenta por cento da nossa
família nós ainda não conhecemos?
-
Mas isso é outra coisa. Não fomos criados juntos, mas sempre que
possível nos encontrávamos.
-
Pois o encontro com nosso primo vai passar a ser a nossa história.
Se me perguntarem, direi que o conheci outro dia. Faça o mesmo.
Dizendo
isso deu por encerrada a discussão. Claudemir saiu soltando fogo
pelas ventas e foi embora. Manfredo continuou trabalhando naquela
função. Em seis meses deu mostra de ser um profissional capaz e
versátil, além de conquistar um espaço social na empresa. Sendo em
seguida promovido para a função de caixa da filial de vendas, cargo
que exigia extrema confiança da gerência. Não demorou muito e já
era o caixa geral daquela filial. Sua capacidade e senso profissional
saltavam aos olhos da direção da empresa, tanto que na primeira
oportunidade foi transferido para o depósito de Botafogo no cargo de
subgerente.
A
trajetória de Manfredo dentro da empresa era impossível de ser
notada e como tal seu nome sempre era citado nas reuniões da
diretoria como exemplo de profissional a ser seguido pelos demais
funcionários. Seus superiores nunca perdiam a oportunidade de
mostrar que daquela forma a empresa cresceria cada vez mais e todos
sairiam lucrando. Todavia seu esforço e dedicação também eram o
combustível que alimentava a inveja da maioria dos colegas. Seu
irmão continuava não se dando por satisfeito e sempre que se
encontravam batia na mesma tecla. Obviamente sua ponderação era
rebatida com a mesma resposta.
Como
toda grande empresa, ela também estimulava em muito o social entre
seus funcionários, com isso quase todas as seções tinham um time
de futebol para os mais jovens. Todo ano era realizado um campeonato
interno com a participação de todos os times. No segundo mês do
ano todos eram reunidos para disputar um torneio relâmpago e
comemoravam com um churrasco o início da temporada, depois durante o
decorrer do ano, os times se enfrentavam todo fim de semana em busca
do título.
No
ano seguinte, Manfredo passou a fazer parte do time de futebol do seu
departamento. Compareceu ao evento esportivo e também ao churrasco
inaugural. Seu irmão Claudemir que também fazia parte do time de
futebol da matriz estava presente e a semelhança física entre ambos
chamou a atenção dos demais colegas de trabalho o que levou ele
outra vez a conversar com Manfredo.
-
Está vendo o que você arrumou?
-
O que foi que eu arrumei? Até agora não vi nada e nem notei nenhuma
reação por parte da diretoria.
-
É só uma questão de tempo, logo irão nos chamar para tirar a
limpo do porquê de estarmos trabalhando juntos.
-
Primeiro não trabalhamos juntos e depois basta você contar à
história que combinamos.
-
Eu não combinei nada. Recuso-me a mentir, mesmo que você ache ser
por uma boa causa.
-
Faça como quiser. De minha parte, caso me perguntem eu vou contar da
forma que lhe falei.
Os
dois continuaram nas semanas seguinte se encontrando durante os
jogos. Assim que confirmaram o parentesco entre eles, seus colegas
viram a grande oportunidade de tirar o Manfredo do caminho. Daquele
dia em diante sua derrocada foi tramada pelos inimigos que não se
conformavam com sua ascensão vertiginosa dentro da empresa. Não era
mais possível Manfredo continuar trabalhando ali, uma vez que seu
irmão fazia parte do quadro de funcionários. Isso feria o estatuto
interno e assim deu-se início a campanha do seu desligamento e o
primeiro da lista nesta luta era nada mais nada menos que o seu
próprio irmão.
-
Precisamos fazer alguma coisa. Estou correndo o risco de perder meu
emprego.
-
O jeito é denunciá-lo. E aguardar os acontecimentos.
-
Eu não posso denunciá-lo, façam vocês.
Assim
fizeram e Manfredo logo foi chamado na diretoria e perguntado sobre
seu parentesco com Claudemir. Não teve nenhuma dúvida e contou à
história que dissera ao irmão que iria falar. Há de que se
conheceram meses antes, como acontecera realmente com seu primo.
Claudemir também foi chamado e não confirmou o que seu irmão
dissera, inclusive foi ele o maior responsável por sua demissão.
Não tendo alternativa a diretoria se viu obrigada a ceder as
pressões que não eram poucas. Mas só oito meses mais tarde, e
depois de muita pressão para afastá-lo é que demitiram o Manfredo.
Nessa mesma ocasião todas as pessoas envolvidas no episódio
Manfredo, foram transferidas para o depósito em que ele trabalhava,
o de Botafogo.
Estavam
todos felizes, mas o que os inimigos de Manfredo não contavam foi
com a desativação deste depósito quatro meses mais tarde, com isso
foram demitidos todos os funcionários que ali trabalhavam, inclusive
o irmão dele.
Um
tiro no próprio pé
Um
novo processo de recrutamento e seleção estava acontecendo naquela
multinacional de renome. Tal projeto ficava sob a responsabilidade
dos supervisores distritais, e não da gerência. Depois de
escolhidos os melhores dentre os que se apresentaram, vinte e cinco
desses profissionais foram levados para um hotel da cidade serrana de
Friburgo para realizarem o curso onde daria a eles o conhecimento de
todos os produtos que iriam comercializar, bem como saber regras e
normas internas da empresa.
Durante
as três semanas, tempo que levou para serem passadas todas as
informações necessárias, em momento algum foi dito a eles que os
aprovados no curso seriam contratados, mas que alguns teriam de morar
nos locais em que iriam trabalhar. Essa falta de informação causou
um transtorno, pois nenhum dos novos vendedores concordou em mudar de
cidade. Inclusive ao serem pressionados ameaçaram demitirem-se antes
mesmo de começarem a trabalhar.
Os
responsáveis por essa falha não tendo alternativa acharam que
poderiam contornar a situação obrigando os vendedores antigos a
mudarem-se, no lugar dos novos contratados, pois aqueles
provavelmente não pediriam demissão. Tinham muito mais a perder do
que os novos. Dessa forma estariam cumprindo a determinação da
gerência e consertando o erro por eles cometido. Assim ficou
combinado entre os supervisores.
Odair,
segunda-feira saiu de casa bem cedo e foi para a filial. Essa era a
rotina antes de viajar. Passava no escritório onde normalmente havia
uma pequena reunião informando sobre promoções de produtos para o
período, deixar os relatórios de vendas, de despesas e para pegar
propagandas.
-
Bom dia Marta, tudo bem? – Odair cumprimentou a secretária.
-
Comigo está, mas se prepara que tem novidades para vocês, e não
são nada boas.
-
O que está havendo?
-
Não posso falar. Na reunião você vai ficar sabendo.
“Quanto
mistério”. – Pensou Odair, mas não a deixou sem resposta.
-
Tudo bem. Não se preocupe, vou lá encarar a fera, não tem jeito
mesmo.
-
Boa sorte.
Já
estavam presentes todos os vendedores do setor. Só estavam esperando
ele chegar para começar a reunião. Odair sentiu que ia se aborrecer
e se preparou psicologicamente antes de entrar na sala.
-
Olá, bom dia! - Se espantou, pois não conhecia aquele homem que
estava sentado no lugar do Alberto, seu supervisor.
-
Bom dia. Meu nome é Márcio Couto o novo supervisor desta área.
Você é o Odair, certo?
-
Sim sou eu.
-
Então fique sabendo. Você tem até o final do mês para estar
morando em Volta Redonda. Do contrário vou lhe demitir no dia
trinta.
Forma
estranha de negociação. A falta de tato do atual supervisor deixou
a todos irritados e resultou num início de queda de braço. Quem
venceria? O Mais forte ou o mais inteligente?
-
Acho melhor não esperar até lá. Pode me demitir agora mesmo,
porque eu não vou me mudar. – Odair respondeu no mesmo tom.
-
Calma, não se precipite e pense direito. – Esse cara vai me trazer
problemas, pensou Márcio
-
Estou calmo e já pensei. Não vou mudar. – Afirmou Odair.
Márcio
por sua vez pensou preocupado com o desenrolar que conversa estava
tomando. Preciso acabar com essa resistência de uma vez, caso
contrário ele vai jogar a equipe contra mim.
Odair
era o melhor vendedor de todo o setor. Estava preste a ser promovido
a treinador de vendas, apesar de não ter conhecimento disso e pela
forma como o novo supervisor falou com ele, também não sabia.
-
Até o final do mês temos muito tempo, dá para você pensar com
calma... Bem, eu hoje vou levar toda equipe para sua área e fazer um
trabalho especial. Veja qual distribuidor vai atender os pedidos da
blitz que iremos fazer. – Com essa medida Márcio acabava de mudar
a sequência de trabalho da equipe.
-
Podemos entregar para o Comercial Junqueira, para o Possidente ou
para o Bevoreli. Qualquer um deles está acostumado a fazer esse
trabalho.
-
Ótimo. Enquanto o pessoal varre todo o varejo eu fico com você
durante a semana para conhecer os principais clientes. Principalmente
estes que você mencionou.
-
Tudo bem.
-
Então fica combinado. Vocês passem em casa, peguem suas malas e nos
encontramos no posto da policia rodoviária para viajarmos juntos.
Não
sendo preciso passar em casa, pois já estava preparado para viajar,
antes de se encontrar no local indicado, Odair resolveu passar pela
matriz da empresa e comunicar à gerência o que estava acontecendo.
Lá foi orientado pelo gerente de treinamento para fazer seu trabalho
como vem fazendo e que não assinasse nenhuma demissão. Ele iria
resolver aquela situação quando o supervisor Márcio voltasse da
viagem.
Naquela
noite no hotel, Márcio conversou com Odair na tentativa de
persuadi-lo a mudar, mas como mais uma vez não conseguiu seu
objetivo apresentou-lhe uma carta de demissão. Este orientado pela
gerência não a assinou obrigando Márcio a usar um outro vendedor
para assinar como testemunha.
No
segundo e terceiro dia de trabalho a todos os clientes que Márcio
era apresentado ele fazia questão de informar que estava trocando o
vendedor da área. Para sua surpresa a reação desses clientes não
foi favorável à mudança, deixando-o preocupado a ponto de ponderar
com Odair sobre sua decisão de não mudar para aquela cidade.
-
Veja só, você praticamente tem a maioria dos clientes a seu favor,
não dá para reconsiderar e arrumar um jeito de vir morar aqui?
-
Não tem como Márcio, minha mulher trabalha fora e não posso de uma
hora para outra simplesmente mandá-la pedir demissão.
-
Por que você não aluga um quarto por aqui. Só para dormir e
guardar o seu material.
-
Se a empresa pagar o aluguel, não vejo nenhum problema.
-
De forma alguma, a responsabilidade da moradia é sua.
-
Então nada feito. Continuo viajando e me hospedando nos hotéis como
sempre fiz.
-
Mas você é teimoso. Vai perder o emprego por uma bobagem.
-
Parece que você não sabe mesmo de nada. A minha área de atuação
também abrange toda a baixada fluminense. Mudando pra cá, vou
passar a viajar ao contrário e aonde vou dormir quando estiver por
lá.
-
Bem esse é um problema seu.
-
Acredito ser mais seu do que meu.
-
Sem problemas. Vou voltar ao Rio e comunicar a gerência o seu
afastamento.
Márcio
ao voltar, sem saber que a gerência estava a par dos últimos
acontecimentos, foi surpreendido. Não podia demitir ninguém e teria
que se virar para convencer um dos novos vendedores a se mudar no
lugar do Odair, pois o acertado era de que os novos contratados é
que morariam nas áreas de viagens.
Odair,
sabendo que sua cabeça poderia rolar, seguiu o conselho do gerente
de treinamento e seguiu fazendo seu trabalho, só que resolveu abrir
seu problema para os três maiores clientes da área e os mais
chegados a ele, que ao tomarem conhecimento do verdadeiro motivo
daquela mudança, reagiram de forma inusitada. Reuniram-se e
compraram toda a cota de vendas do Odair para aquele mês.
Para
desespero de Márcio a gerência ficou sabendo que Odair havia
coberto seus objetivos antes mesmo do fechamento das vendas. Com o
resultado positivo na área sob a responsabilidade de Odair e como o
quadro junto aos novos vendedores não se modificou, Márcio é que
acabou desligado da empresa no final daquele mesmo mês.
A
prima do interior
Lá
estava Fernando saindo do Rio de Janeiro para visitar Odete e sua
família em Além Paraíba. Eram uns parentes da sua mãe que ele só
conhecia de nome.
Contava
nessa ocasião com dezessete anos e estava nessa viagem muito contra
vontade.
Imagina
ter que visitar uns velhos lá no meio do mato, num final de semana,
quando poderia estar desfrutando do futebol, tira gosto e cerveja com
a rapaziada durante o dia e a noite. Ou até mesmo participando do
"hi-fi", nome dado aos bailes da época, com suas amigas e
amigos depois do namoro. Uma condenação era o tal "passeio".
Sabia
que a tal de Odete tinha cinco filhos, mas não fazia ideia de como
eram. Sendo assim o preconceito falava mais alto.
Para
Fernando deviam ser uns matutos do interior, onde o progresso passava
pelo lado de fora da cidade. Provavelmente no máximo ouviam falar
das coisas da capital pelo rádio e ficavam a imaginar, pois com
certeza ainda não havia o poder da televisão por lá.
Com
isso, foi se preparando durante o trajeto, que era longo, para dar as
informações que certamente gostariam de saber. Perguntas do tipo "é
verdade que a água do mar é salgada?", "tem muitos
cinemas?", "o Maracanã é grande mesmo?", "vai a
muitos bailes de formatura?", etc, etc e etc.
"Nossa,
isso vai ser duro de aturar!". Fernando não parava de pensar na
situação que iria encarar.
Lembrou
ter ouvido falar que os filhos da tal parente eram três rapazes e
duas moças.
Agora
ele se perguntava: será que regulavam com a sua idade? São bem
informados? As meninas serão bonitas ou feias? Como será que se
vestem?
Lembrou
das festas à caipira. "Ridículo! Não! Não é possível que
se vistam daquela forma!"
Apreensivo
e cansado da viagem, perguntou ao seu pai se ainda faltava muito para
chegar à tal cidade. A resposta de que a viagem deveria durar mais
ou menos uma hora o deixou mais agitado.
Achou
melhor tirar um cochilo para relaxar, afinal não tinha mais como
evitar o encontro. O jeito era se conformar e torcer para tudo ser
diferente do que estava imaginando.
O
tempo passou. Seu pai o acordou informando que já estavam chegando.
Olhou pela janela do ônibus e viu que estavam atravessando uma ponte
sobre um rio bem largo e de águas barrentas. Era diferente dos rios
que estava acostumado a ver na sua cidade, estreitos e com pouco
volume d'água.
Logo
descortinou-se uma praça, com a estação ferroviária de um lado e
o comércio do outro. Imaginou ser ali o centro da cidade, local onde
aconteciam os grandes festejos. Quem sabe os jovens também se
reunissem por ali.
Chegaram
e desembarcaram as malas. Da rodoviária podia ver o hotel onde se
hospedariam, mas logo chegaram os primos de sua mãe, que não os
deixaram ir ao hotel. Alegaram que a casa era grande e confortável o
suficiente para acomodá-los durante a estada por lá.
No
carro que os levava, Fernando continuava preso aos seus pensamentos,
agora já não tão preconceituosos. Viu que as pessoas do local não
se vestiam como imaginava.
Na
frente da casa confirmou ser ela bem espaçosa. Estava localizada na
margem do tal rio que vira quando chegou e isso o deixou intranquilo.
Prestes a entrar, sua apreensão aumentou, pois até aquele momento
não tinha visto os filhos da Odete. Como seriam?
Entraram,
se acomodaram e nada de aparecer o restante da família. Na verdade
só a mãe da Odete estava lá, uma senhora beirando os setenta anos
e responsável, ao que pareceu, pelo bom cheiro do tempero da comida.
Já
era hora do almoço naquela sexta feira, e a fome logo fez Fernando
esquecer seus problemas existenciais. Enquanto comiam, ficou sabendo
que as meninas e um dos meninos almoçaram mais cedo e estavam na
escola. Os dois outros estavam trabalhando e todos só estariam de
volta às seis horas da tarde. O que fazer até lá? Eis a grande
questão a ser resolvida.
Os
mais velhos estavam num entusiasmo só, afinal havia anos que não se
viam e a conversa comia solta entre eles.
Fernando
foi encorajado a dar uma volta pelo bairro para conhecer o local. Não
havia perigo. Por ser o lugar pequeno, todos se conheciam. Segundo
Odete, a maioria dos moradores já sabiam que eles, seus parentes,
chegariam de visita. Andou por todo canto e chegou a ser
cumprimentado várias vezes.
Nunca
vira tanta tranquilidade. Parece que as pessoas não tinham pressa
naquela parte do mundo e a sensação era de que a hora não passava
― na verdade se arrastava.
"Que
martírio! Esse final de semana vai ser longo demais para o meu
gosto!", resmungava sozinho.
Voltou
para a casa e resolveu esperar pelos primos na varanda. Aproveitaria
o tempo para continuar com a leitura do seu livro.
Entretido,
não se deu conta de que a hora passara, nem de quando as duas moças,
suas primas, chegaram da escola. Assustou-se quando as duas ao mesmo
tempo numa brincadeira deram-lhe as boas vindas gritando "bem
vindo à roça, primo", seguidas de uma bela risada.
Apresentaram-se
descontraidamente como os jovens da época e já começaram um bate
papo como já se conhecessem a anos.
Fernando
quase não conseguia se concentrar na conversa. O julgamento
precipitado das meninas foi por água abaixo. Cristina e Elisabete
eram duas moças alegres, bem informadas e antenadas com o que estava
acontecendo no momento, mesmo estando tão longe da capital.
Entretanto, o que mais lhe impressionou foi a beleza da Elisabete, a
prima mais nova. Não conseguia disfarçar, estava enamorado. E lhe
pareceu que a recíproca era verdadeira.
Os
três conversavam animadamente quando foram alertados do adiantar da
hora. Precisavam dormir. Fernando notou que a hora voara. Que pena!
Na
manhã de Sábado todos estavam em pé logo cedo, o que chamou
atenção dos mais velhos, pois normalmente ficavam na cama até as
tantas.
Novas
conversas, olhares, risos e inevitavelmente o flerte. Elas visitavam
os amigos apresentando o primo recém chegado da cidade. Assim o dia
inteiro estiveram juntos indo a todos os locais. À noite a conversa
já não era mais a três, e sim a dois, com o incentivo da irmã
mais velha. Fernando e Elisabete já estavam namorando.
A
hora passou mais rápido ainda. Pensaram e reclamaram os dois. Tinham
uma madrugada no meio da vida deles para atrapalhar aquela magia que
o amor constrói. Logo ele estaria indo embora. Como ficariam?
Quem
diria! O rapaz da cidade estava amarrado na moça do interior. Onde
foi parar o preconceito? Parece que o amor falou mais alto.
Amanheceu.
Tudo
era alegria. Entretanto, à medida que a hora passava os corações
dos jovens enamorados se entristeciam. O tempo como sempre correu
normal, mas para eles voou.
Chegou
a hora da despedida. Mil promessas trocaram, cartas seriam escritas
para estreitar mais suas afinidades e no ar havia expectativa de um
encontro breve.
Cartas
foram trocadas como o prometido.
Após
três meses se encontraram novamente. Desta vez a menina do interior
veio conhecer a cidade grande. Encantou-se com que viu, e com a
proximidade o amor ficou mais fortalecido. Durante uma semana os dois
curtiram o romance minuto a minuto sem desperdiçar um segundo, mas a
separação era inevitável.
Elisabete
voltou para sua pequena cidade e Fernando seguiu sua vida junto aos
amigos. No início oito eram as cartas trocadas por mês, e nelas as
juras de amor eterno eram o tema central que entremeava as novidades
de cada um.
Porém,
Fernando e Elisabete não contaram com a distância entre eles e as
oportunidades de novos namoros surgirem.
Com
o tempo essa cartas foram diminuindo, o amor eterno esfriando e
quando se deram conta, tudo passou a ser apenas uma nostálgica e
doce recordação.
A
Azarada
Azaraldina Honorata,
este é o nome que a menina recebeu de seus pais.
Coitada. Não sabia
do fardo que carregaria pela vida afora.
Tudo começou pouco
antes de nascer. Aliás, é preciso registrar aqui que ela nasceu há
cinquenta anos na bucólica cidade de Ibiá, interior de Minas
Gerais, no ceio de uma das famílias mais podres do lugar.
No último mês de
gestação, sua mãe estava sendo examinada no precário posto de
saúde da cidade por seu médico, quando a velha cadeira de
ginecologista quebrou e todos foram ao chão: gestante, médico e
enfermeira.
Por pouco Azaraldina
não sofreu uma sequela. Porém, logo que nasceu, outro acidente
marcou sua vida. A alça da balança que pesava os bebês na
maternidade rebentou e ela caiu. Dessa vez não escapou. Fraturou a
coluna, vindo a ficar corcunda.
O
tempo passou, mas a falta de sorte não - muito
pelo contrário, passou a fazer parte de sua vida de tal maneira que
acabou se acostumando e já não dava tanta importância a tudo que
lhe acontecia. Chegava às vezes a fazer piada com o seu azar.
Poucos
eram os seus amigos. Aliás, a bem da verdade apenas duas colegas do
orfanato em que viveu sua infância e adolescência - ficara
órfã aos dois anos -
continuaram a amizade. Já adulta resolveu vir ganhar a vida na
cidade grande e mudou-se para Belo Horizonte. Já na ida para a
capital foi experimentando a força do seu azar, pois o ônibus em
que viajava furou quatro vezes os pneus, atrasando em mais de oito
horas a viagem. Era reclamação de todo lado. Várias vezes escutou
afirmarem: “Tem algum pé frio aqui dentro desse ônibus?”, “Faço
essa viagem toda semana e nunca isso aconteceu!”, “Nossa! Parece
que o azar resolveu viajar também!”.
Azaraldina ria às
escondidas.
Em Belo Horizonte
foi morar numa pensão, dessas só para moças. No pequeno quarto
havia um armário com quatro divisões, uma para cada moradora, e
dois beliches, cada um encostado nas laterais do aposento. Coube para
ela o de cima. Logo na primeira noite, ao deitar-se, o estrado de sua
cama rebentou e ela veio abaixo, caindo em cima da colega que já
estava dormindo. Resultado, um corte profundo em sua cabeça e o
braço quebrado da nova colega.
Mesmo com tanta
falta de sorte, Azaraldina não se deixava abater. Batalhou e
conseguiu um emprego de recepcionista numa firma que vendia pisos e
que tinha como mostruário o belo piso na entrada da recepção.
Feliz com o trabalho que ia começar no dia seguinte, passou na loja
exotérica e comprou pedras de cristal para energizar o ambiente, uma
figa, uma pequena ferradura e um pé de coelho. Escondeu tudo na
bolsa para afastar o azar. Não podia perder aquele emprego.
Tudo
corria bem nas primeiras horas, até quando o gerente da empresa, ao
entrar na recepção, escorregou no piso que acabara de ser limpo e
caiu - suspense no ar.
Azaraldina rezava para que nada de grave tivesse acontecido. Apenas
um pequena luxação no pé, mas com a primeira cliente que entrou
naquele dia a coisa foi mais grave: a senhora quebrou a bacia e meteu
um processo na empresa.
Durante os dois
meses em que Azaraldina ali trabalhou, toda semana alguém
escorregava naquele piso, e olha que nunca houve registro de tantos
escorregões. Até ela foi vítima. Conclusão, foi demitida.
Os anos foram
passando. Casou e teve filhos, mas o azar era seu companheiro
inseparável.
Viúva, voltou a
trabalhar para poder sustentar os cinco filhos. E de emprego em
emprego, de azar em azar, foi vivendo sua vidinha precariamente.
Já com quarenta e
sete anos, conseguiu um trabalho como operadora de telemarketing. Já
no primeiro dia de trabalho seu companheiro inseparável deu o ar da
graça. A luz e o sistema de telefonia de metade do centro da cidade
foram interrompidos e sua empresa, que estava localizada nesta área,
não pôde dar continuidade aos trabalhos. Na semana seguinte, o
computador em que trabalhava foi o causador de uma pane geral no
sistema operacional da empresa. Tudo parado novamente. Foram dois
dias para identificar a origem do problema. Três meses depois, outra
vez a empresa foi paralisada por uma pane no sistema de telefonia
oriundo da caixinha telefônica ligada ao seu computador. Todos foram
dispensados novamente e ela mais uma vez demitida.
Nesse dia resolveu
fazer um lanche em uma dessas carrocinhas de cachorro quente que
ficam na rua. Foi contaminada por uma dessas bactérias que se
instalam no intestino e vão fazendo buracos na parede intestinal.
Sofreu quatro cirurgias devido ao problema e, como o tratamento para
acabar com a bactéria não dava resultado, resolveu que iria voltar
para sua cidade natal pois meteu na cabeça que queria ser enterrada
no mesmo lugar onde estavam seus pais.
Assim fez, mas os
transtornos causados pelo seu azar não pararam por aí não. Mesmo
depois de morta, por onde seu corpo passou, deixou estragos. Pouco
antes de falecer, ao dar entrada no hospital, aconteceu um blecaute
que levou ao falecimento de mais doze pessoas que estavam na UTI.
Perfazendo assim, no total de mortos daquele dia, o fatídico número
13. Seu corpo foi levado ao necrotério da cidade para confirmar a
causa mortis. Ao sair do local, o carro fúnebre pegou fogo. Trocados
o caixão e o carro, o corpo de Azaraldina seguiu para o cemitério.
Não havendo vaga nas capelas de lá, ficou do lado de fora em uma
das alamedas esperando a desocupação para ser velada pelos
familiares. Um temporal não previsto ocorreu, e novamente seu caixão
se acabou, dessa vez não pelo fogo mas pela água. Corre corre, e um
novo caixão comprado.
Com muito custo seus
familiares conseguiram junto à direção do local dividir o espaço
de uma das capelas. Para lá levaram o corpo de Azaraldina.
Estavam todos na
capela mais antiga do cemitério e as rachaduras pelas paredes
mostravam que era preciso uma reforma urgente no local.
Novamente a
tempestade caiu, e junto com ela a velha capela. Dessa vez o corre
corre foi maior, pois eram os familiares de dois corpos tentando se
refugiar dos escombros e da chuva.
Com mais esse
acontecimento, a família resolveu enterrar o corpo rapidamente para
não causar mais prejuízos a ninguém. Afinal, era muito o azar que
rondava aquele corpo.
Mesmo já estando
escuro, mais uma vez a direção do cemitério cedeu e atendeu aos
pedidos dos familiares de Azaraldina, permitindo que aquele corpo, em
especial, fosse enterrado fora do horário. Partiram todos em direção
ao local do sepultamento. A procissão seguia lentamente, e de onde
estavam ouviram ao longe o sino tocar, avisando a hora de um outro
enterro não especificado. Mas como tais badaladas poderiam ocorrer,
se era noite e não mais se fazia sepultamentos naquela hora?
Os coveiros
apreensivos resolveram apressar os trabalhos, e nessa pressa um deles
escorregou no lamaçal que se formara devido à chuva. Ao cair, bateu
a cabeça na quina de uma das sepulturas do local e ali mesmo morreu.
Novo corre corre.
Ninguém mais queria ficar perto do corpo de Azaraldina. Até os
coveiros evitaram voltar ao local.
Fala-se que até
hoje os restos do caixão e dos dois corpos permanecem expostos ao
tempo. Aquela parte do cemitério, que era bem retirada, ficou
isolada e não mais recebeu qualquer outro sepultamento.
Tempos mais tarde a
notícia de tanto azar se espalhou pela cidade, e devido a isso o
cemitério foi fechado. Ninguém queria se aventurar a entrar ou
trabalhar naquele local.
E você, que acaba
de ler, conhece alguém que tem ou emane tanto azar assim?
O
Bispo e o Fazendeiro – 2
A
notícia de que Rafael, um assíduo fiel da paróquia de Sant’Ana,
havia ganhado na loteria correu que nem rastilho de pólvora e chegou
aos ouvidos de Dom Amorim, bispo da diocese. Este por sua vez, em
conversa com o padre Onofre, responsável por aquela paróquia,
deixou claro que gostaria de estar com Rafael e que se fosse possível
providenciasse para trazê-lo até ele, pois gostaria muito de
conversar com aquele fiel escolhido de Deus.
Assim,
passados alguns dias, lá estava Rafael diante de Dom Amorim,
ouvindo-o. Não entendia como que de uma hora para outra, o bispo
passou a lhe dar tamanha atenção. Ainda recordava-se que há bem
pouco tempo atrás, quando tentou um encontro, não foi nem recebido.
Qual seria a razão da radical mudança? Seria pelo fato de ele ter
acertado o prêmio acumulado da loteria? Iria ele lhe pedir dinheiro
para as obras da igreja? – Pensava ao mesmo tempo em que escutava
aquele homem falar.
Por
sua vez, Dom Amorim, um dedicado religioso seguidor da doutrina
cristã, sendo conhecedor da simplicidade de Rafael e julgando sê-lo
ingênuo e de fácil manipulação, resolveu protegê-lo. Não
deixaria passar a oportunidade para alertá-lo sobre os falsos amigos
e interesseiros que provavelmente tentariam se aproximar dele para
tirar alguma vantagem, usando da famosa e antiga conversa de cerca
Lourenço para enganá-lo. Por isso o encontro.
O
bispo parecia ansioso na busca de encontrar as palavras para
ajudá-lo, mas continuava conversando calmamente. Falava de vários
assuntos ao mesmo tempo sem se prender a um em específico e emendava
um problema atrás do outro da diocese, quase o deixando tonto. Até
que conseguiu entrar no assunto envolvendo o dinheiro que ganhara.
-
E então, meu filho. Já pensou a respeito do que fazer com o
dinheiro que ganhou na loteria?
-
Estou comprando a fazenda Outeiro Santo. Pretendo plantar e lidar com
gado.
-
É aquela fazenda abandonada que fica aqui ao norte de Diamantina?
-
Essa mesma. O senhor a conhece, Dom Amorim?
-
Conheço, mas não é um pouco longe, meu filho?
-
Nem tanto, é aqui mesmo no Vale do Jequitinhonha. Com apenas duas
horas a cavalo e estamos aqui na cidade. De automóvel é bem mais
rápido.
-
Ah! Muito bom. É uma região que está necessitando muito de ajuda.
Acredito que seu investimento naquela região vai contribuir bastante
para o progresso dela.
-
Foi o que eu pensei. Na verdade o corretor que me procurou para fazer
o negócio achou que estava me enganando, mas não estou comprando
gato por lebre. Sei que vai ser preciso trabalhar muito.
-
Com esse seu entusiasmo, Rafael, eu tenho certeza de que a sua
fazenda vai ficar bonita e produtiva como nunca esteve.
-
Eu sei disso, seu bispo, e para isso eu conto com a ajuda do senhor.
Era
o que Dom Amorim queria ouvir. Tendo-o próximo de si, poderia
ajudá-lo e protegê-lo dos aproveitadores.
-
Pode contar sempre, Rafael, não só com a minha ajuda, mas também
com a de Deus. Você vai ver que trabalhando juntos tudo se
transformará.
-
Nada disso, Dom Amorim. Só quero contar com a sua ajuda.
-
Como assim? Não o estou entendendo.
-
É simples. O senhor conhece muito bem aquele pedaço de terra e não
vai poder negar; enquanto Deus esteve lá sozinho, nada foi feito.
Não vai ser agora que ele irá me ajudar.
-
Como não, meu filho? É evidente que Ele vai lhe ajudar.
-
Nada disso, mas o senhor sim poderá me ajudar e muito.
O
bispo, não querendo contrariá-lo, resolveu concordar e escutar o
que ele pretendia. Com o tempo o faria entender o quanto era
confortante estar com Deus.
-
Está bem, mas o que eu posso fazer para ajudar você?
-
Preciso que na próxima missa o senhor esteja presente e use a
pregação em nosso favor.
-
Não estou entendendo muito bem isso de “nosso favor”. A onde
você quer chegar?
-
Vou lhe explicar. Quero que o senhor incentive e faça ver aos fiéis,
que também são meus empregados, para não fazerem questão das
exigências trabalhistas. E como eu já ofereço a eles casa e comida
lá na fazenda, não há necessidade de receberem mais do que o
salário mínimo.
Dom
Amorim entendeu o quanto estava enganado sobre a ingenuidade de
Rafael e chamou-lhe a atenção severamente. Afinal, como poderia
imaginar que o dinheiro tivesse transformado tanto aquele homem
simples que ele pensava conhecer.
-
Quando eu estou pregando não me canso de repetir: todo filho precisa
amar, respeitar seu próximo e estar em contato com as coisas de
Deus, Rafael. Como posso agora de repente fazer o que você está me
pedindo? Não posso ir de encontro a tudo que prego e acredito só
para compactuar com sua ganância, meu filho.
Rafael,
demonstrando não estar nem um pouco preocupado com o que Dom Amorim
acabava de falar, continuou com sua tentativa de convencê-lo a lhe
ajudar.
-
Lembre-se de que estou disposto a lhe dar comissão sobre os lucros,
sem contar que pretendo fazer algumas reformas por aqui. Basta para
isso que os convença de que não precisarão vir à cidade para
fazer compras, pois estou mandando fazer, lá, uma grande mercearia
onde eles terão de tudo. Da agulha ao chapéu.
-
Rafael, todo esse dinheiro o está cegando e não lhe deixa
raciocinar. Pense melhor no que está querendo, o que você vai fazer
é pior do que escravizar.
-
Isso é uma questão de ponto de vista seu, Dom Aguiar. O que estou
tentando fazer é que o meu dinheiro retorne aos meus cofres, e não
vá parar em mãos alheias. Tenho absoluta certeza de que assim será
muito melhor para todos.
-
É lamentável o que acabo de ouvir, mas vou rezar para que o Senhor
o ilumine e o traga para a realidade cristã. Mesmo assim peço que
reconsidere essa sua atitude e mude sua posição.
-
Lamentável digo eu, Dom Amorim. Pense bem. O senhor precisa fazer o
que lhe pedi. Vai deixar passar a oportunidade de ganhar um dinheiro
extra que não é pouco, com o qual poderá reformar toda a igreja e
concertar a casa paroquial?
-
Rafael, meu filho, as coisas não funcionam dessa maneira. Tenho
certeza de que eu e o padre Onofre conseguiremos o dinheiro para as
reformas sem ser preciso compactuar com a exploração dos seus
empregados. Torno a lhe pedir, reconsidere. Será melhor para você.
Saiba que Deus está vendo tudo, meu filho.
-
Lamento muito que o senhor tenha tomado essa decisão, Dom Amorim. Da
minha parte, não só continuarei com meu projeto, como alertarei
meus empregados para que não façam doações para suas obras.
O
Rei e o Sábio
Enquanto
príncipe, Ozir era uma doçura de pessoa. Não havia um só súdito
no reino que não o amasse. Com a morte de seu pai tornou-se pelas
circunstancias o novo rei. Durante algum tempo manteve seu
temperamento calmo e de fácil trato, porém com a descoberta do
poder que tinha nas mãos foi se modificando, de tal forma que
ultimamente não conseguia mais se controlar. Perdera a paciência
por completo, tornando a vida na corte insuportável. Por menor que
fosse o delito cometido por alguém já estava disposto a infligir
rigorosa pena. E quando mais grave, até a de morte. Foi quando a
pedido da rainha, sua amada esposa, resolveu recorrer ao grande
sábio. Reuniu-se com seu primeiro ministro e ordenou-lhe que
trouxesse à sua presença o sábio do reino.
-
Quer que mande buscar o Merval, majestade? – Perguntou-lhe o
primeiro ministro.
-
E tem outro sábio no reino por acaso? Eu ainda não ouvi falar de
outro.
Como
sempre seus nervos andavam a flor da pele, mas o ministro procurou
acalmá-lo.
-
Vou providenciar para que vossa majestade seja atendida
imediatamente.
-
Faça isso o mais rápido possível, Górgoran.
Merval
morava fora dos domínios do reino, muito afastado da cidade. Sua
avançada idade foi o principal motivo da demora de sua chegada ao
castelo. Deixando o rei mais irritado do que de costume.
Após
oito longos meses de espera, finalmente o rei foi avisado por
Górgoran que o sábio havia chegado. Só faltava autorizar a sua
presença diante dele.
-
Mande-o vir agora. – Ordenou o rei enfurecido pela demora.
O
velho sábio entrou no grande salão e sem nenhuma pressa ou
cerimônia dirigiu-se ao rei.
-
O que está acontecendo de tão grave, majestade? Para mandar me
chamar.
O
rei, vendo aquele ancião marcado pela fragilidade, num esforço
sobrenatural conteve sua ira e relatou-lhe pacientemente o que
sentia. Ao final perguntou-lhe:
-
Diante do tudo que lhe expus, de que adianta minha coragem para mudar
as coisas, se não tenho a serenidade para usufruir as mudanças?
-
Meu rei, eu tenho a impressão que você está sofrendo tudo isso que
acaba de me relatar por ter esquecido o sentido da humildade.
-
Mas eu sou o rei!
-
Eu não lhe disse que não o é. O poder deve ser praticado,
entretanto a humildade pode caminhar junta.
-
Tenho que me preocupar com os impostos e manter a lei. Por isso puno
os infratores.
-
Até os reis necessitam da humildade, majestade. Sem essa sabedoria
fica bem mais difícil guiar seus súditos.
Mais
uma vez o rei sentiu vontade de explodir, mas respondeu-lhe
docemente.
-
Pode acreditar meu velho, encontro-me numa encruzilhada. O sofrimento
é muito grande e já não sei mais o que fazer.
-
Exercite, majestade. Permita que venham diariamente a sua presença,
seus súditos. Cobre-os as suas obrigações e deveres, mas trate-os
com dignidade.
-
Mas é por não saber mais me controlar, nem quando devo usar de
humildade, que não os recebo mais. – O rei continuava conversando
amavelmente com o sábio.
-
A solução do seu problema só se realizará através do exercício.
Comece desde já.
-
Ultimamente uso e abuso da arrogância. Será que conseguirei?
-
Para saber terá que tentar, majestade. – Pacientemente o velho
sábio empurrava o rei de contra seu orgulho e prepotência.
-
Nunca o importunei, quando recorro à sua ajuda, você só me diz
isso?
-
Exatamente, nada mais do que isso. – O velho ancião sorria
interiormente com o desespero do rei.
-
Não sei se conseguirei, meu velho. – Lamentou o rei, docilmente.
-
Saiba que todos nós temos em nosso interior a arrogância e a
prepotência. Não deixe que elas assumam o controle e esmaguem a
humanidade e a simplicidade.
-
Fácil é falar quando se sabe.
-
Mas você sabe, esqueceu de quando era o príncipe.
-
Já faz tanto tempo, não sei se conseguirei.
-
Então tente. Só saberá se conseguiu depois que colocar em prática
tudo o que nós estamos conversamos.
-
Não tenho tanta certeza. – Lamentou-se mais uma vez.
-
Tente. Eu já estou indo majestade.
-
Mas já está indo? Eu não o dispensei e ainda não acabei!
-
Você não. Eu sim, mas lembre-se: – respeitando-me, controlaste
sua arrogância e trataste a um dos teus súditos com humanidade, por
tanto acabas de alcançar a sabedoria para distinguir uma coisa da
outra. Pratique-a mais vezes, não é tão difícil assim.
Momentos
Bernadete,
mulher rica, elegante e atraente. Bem casada e amada por todos.
Virou-se na cama e deparou com sua imagem no espelho.
As
labaredas na lareira por trás dela e a meia luz do aposento,
distorciam um pouco a imagem confundindo-a.
Seria
ela mesmo que estaria ali?
Pensou...
No
marido, nos filhos, nos pais e nos amigos.
Que
vergonha! Como podia estar ali traindo a confiança de tanta gente.
Por
um momento arrependeu-se de tal ato.
Valdir,
seu amante, saiu do banho pegou as taças de cristal e as encheu com
o melhor Champanhe.
Beberam
e voltaram a fazer amor...
Paciência:
Ação e Reação
Emanuel
estudava na mesma escola desde o jardim de infância. Contava agora
quinze anos e cursava a primeira série do segundo grau. Pelo tempo
de convívio, todos o conheciam e viam nele uma pessoa extremamente
calma e atenciosa. Um pouco reservado para fazer novas amizades, mas
sem dúvida alguma, leal aos amigos e possuidor de bom caráter.
Dalmo,
seu novo colega, um irresponsável que acabara de ingressar na escola
no ano anterior, vinha insistentemente provocando-o diariamente de
todas as formas. Ignorava aos pedidos de que parasse com aquelas
brincadeiras fora e dentro da sala de aula, que só serviam para
irritá-lo e desviar sua atenção do que estava sendo ensinado pelo
professor. Na verdade não só a dele, mas de todos os colegas da
classe.
A
paciência de Emanuel vinha sendo testada há algum tempo e
ultimamente mais acintosamente, pois seu colega aumentara a dose das
brincadeiras de mau gosto. Um belo dia, entretanto, e para espanto de
todos, ele a perdeu. Depois de ser perturbado por Dalmo diversas
vezes naquela manhã e não sendo atendido em seu pedido para
encerrar com a brincadeira de mau gosto, levantou-se e numa fração
de segundos o esmurrou, quebrando seus óculos e machucando-lhe
levemente o rosto.
Desequilibrado
e meio atordoado pelo soco, Dalmo caiu por cima das carteiras.
Alvoroço
total no ambiente. Como foi acontecer aquilo?
Ninguém
imaginava que Emanuel fosse tomar uma atitude tão drástica. Na
verdade nem os responsáveis pela escola entenderam, mas não podiam
culpá-lo totalmente. Afinal, ele por diversas vezes havia
comunicado, aos professores e ao inspetor, que seu colega o estava
importunando, sem que ninguém tomasse uma providência. Sequer
chamaram a atenção de Dalmo e em momento algum comunicaram aos seus
responsáveis sobre sua conduta na escola.
Por
outro lado, esses mesmos responsáveis pela ordem do recinto, embora
não tendo sido a forma correta a tomada de decisão por parte de
Emanuel, foram unânimes em concordar que seu ato impulsivo
contribuiu para que; não só o Dalmo, mas também os demais colegas
que alimentavam a perturbação passassem a se portar condignamente
na escola e a prestar mais atenção à aula.
Tal atitude, mesmo
que errada, acabou beneficiando não só a ele, mas também aos
demais colegas de turma que se sentiam prejudicados com aquelas
brincadeiras.
Trajetória
fatal
Os
amigos de Eça que já o conheciam bem e sabiam que ele quase não se
alimentava direito resolveram convidá-lo para fazer um lanche.
Estavam
dirigindo-se para a lanchonete quando de repente o pânico tomou
conta da praça, uns corriam enquanto outros se jogavam ao chão para
se protegerem das balas que os dois homens que passavam em uma moto
atiravam para todo lado. Estavam sendo perseguidos pela polícia.
Quando
o perigo passou e Eça que também havia caído ao chão, não se
levantou, seus amigos correram para socorrê-lo, pois viram que ele
havia sido alvejado por uma bala perdida. Levaram-no rapidamente para
o pronto socorro para que fosse atendido. Mas ele não resistiu ao
ferimento e faleceu.
Os
moradores da Colina Azul, uma de muitas comunidades carentes que
existem pelo país afora, sentiam-se órfãos naquele momento. Não
falavam de outra coisa no velório. O aparecimento a dois anos, de
Eça, pela redondeza tinha mudado para melhor não só o
comportamento dos que ali viviam, como suas condições de vida.
Era
completamente diferente dos padres, pastores e políticos que por ali
constantemente passavam. Os primeiros sempre em busca unicamente do
dinheiro para suas igrejas e templos; já os últimos só apareciam
para prometer melhorias, na intenção de conseguir os tão sonhados
votos para se elegerem. Todos sem exceção, mesmo conseguindo seus
intentos, não faziam nada para melhorar a vida deles. Enfim, na
essência eram todos iguais; – vazios e egoístas, mas espertos
aproveitadores da boa fé.
No
pouco tempo de convivência que as pessoas da comunidade tiveram com
Eça aprenderam com seus ensinamentos, sua luta e suas ideias, que
era preciso formar uma associação de assistência social e uma
cooperativa, para que eles próprios administrassem e melhorassem
suas condições de vida.
Não
perderam tempo.
Com
a ajuda e orientação dele, o que era um sonho virou realidade.
Fundaram a associação dos moradores, onde passou a funcionar o
centro de instrução e recreações para os adolescentes e neste
mesmo local, um grande espaço foi criado para atendimento sociais,
com advogados, médicos, dentistas e assistente social dando todo
apoio necessário aos moradores da comunidade, além é claro, da
cooperativa que oferecia os alimentos e os remédios a preço mais
baixo que todos os supermercados e drogarias da redondeza.
Aos
jovens, não deixava dúvidas: deveriam estudar e lutar sempre por
aquilo que acreditassem ser o melhor, não importando o tempo que
levasse para consegui-lo.
As
conquistas e as melhorias implantadas por ele naquela comunidade
mudaram a vida de todos, contrariando com isso os grandes interesses
de alguns, que eram contrários a essas melhorias e por esse simples
ato, Eça pagou com a própria vida, conforme ficou comprovado mais
tarde com as investigações. Fora executado.
Ainda
no velório e lembrando do que ele fizera, na e para a comunidade,
todos cada vez mais se conscientizavam de que deveriam manter a chama
da cidadania acesa e seguir com as ideias e os conselhos de Eça.
Mesmo tendo sido
retirado da vida, as ideias de Eça não foram desperdiçadas, e o
que os poderosos não contavam, aconteceu. A semente da dignidade foi
semeada em outras comunidades sendo seus frutos colhidos mais tarde.
A
Voz da Consciência
Um
grande concurso de literatura estava sendo realizado por um renomado
banco. Os prêmios para o primeiro, segundo e terceiro lugares eram
de fazer qualquer um tentar ser escritor. O tema pedido era; “quem
acreditou em mim”.
Fernando,
um homem mestiço, e já com a idade avançada, viu neste concurso a
oportunidade de homenagear Hernâni, seu tio postiço e já falecido,
que no passado acreditando nele o apoiou, quando acusado de ter
roubado as joias de sua irmã Lelete, uma autêntica representante da
raça alemã. Aliás, toda a família era descendente de europeus.
Sendo
um escritor que até aquele momento não havia conseguido editar
nenhum texto, achou que vencendo o concurso, ou quando muito tirasse
o terceiro lugar poderia ele próprio financiar a primeira edição
de um dos seus livros. Com isso passou a elaborar o mini texto de
trezentos caracteres, exigência pedida para concorrer.
Terminado,
revisado e corrigido Fernando enviou seu texto ao banco, feliz por
estar homenageando seu tio mesmo que para isso expusesse seus
“familiares”, pois manteve os reais nomes dos personagens em
questão.
Dois
meses mais tarde através de um e-mail, enviado pelos organizadores
do concurso, recebeu os agradecimentos por sua participação e tomou
conhecimento do resultado do mesmo.
Seu
nome não aparecia entre os primeiros ganhadores.
Logo
veio o desapontamento e a curiosidade de conhecer as histórias
vencedoras. Ao fazê-lo, encontrou defeito nos três textos
vencedores; Um, achou apelativo. Outro, uma grande invencionice. E o
terceiro, totalmente sem sentido. Foi dormir pensando que o critério
adotado para a escolha dos textos não fora correto ou provavelmente
não foi feito por profissionais da área literária o que lhe
causava mais indignação. Como podia um concurso literário ser
avaliado por pessoas não capacitadas? Era o fim da picada. –
Imaginava tudo aquilo, sem ter a certeza de que o que pensava era
verdadeiro. Na verdade tudo não passava de uma frustração por não
ter sua história escolhida. Achava que dessa forma não havia
conseguido homenagear seu tio.
Assim
logo adormeceu.
Lá
pelas tantas da madrugada acordou e voltou a pensar e a julgar o
resultado. Não era possível que ele não tivesse conseguido ao
menos o terceiro lugar. Sua história havia sido bem contada e sem
sombra de dúvidas era muito melhor que as vencedoras. - “na sua
opinião é claro”.
Durante
alguns minutos ficou remoendo e lamentando não ter ganhado um
daqueles prêmios. Que injustiça?
De
repente uma voz suave pareceu soprar-lhe ao ouvido:
“Fernando...
Fernando... Esqueceu que quando você tomou conhecimento do concurso
sua primeira intenção só foi homenagear seu tio? Então, por que
toda essa indignação se o objetivo inicial foi alcançado? Jamais
se desfaça de um ato nobre por um punhado de dinheiro. Asseguro-lhe
que não se sentirias bem”.
Depois disso, aquela
agitação cessou e ele voltou a dormir em paz.
Os
Demóstenes
Demóstenes
de Alcântara Martins, ilustre senador da republica. Eleito a quarta
vez pelo voto direto. Homem tido como íntegro e a cima de qualquer
suspeita. Formado em direito, usineiro e próspero fazendeiro na área
de pecuária. Sua renda mensal do ano que passou foi em torno R$
2.000.000,00.
Demóstenes
de Alcântara Martins, homônimo, de origem extremamente pobre e não
tão ilustre quanto o senador. Desempregado desde novembro último,
mas também um homem íntegro e sem nenhuma mancha. Conseguiu
terminar o primeiro grau. Sua renda mensal quando trabalhava era de
R$ 950,00. Isso porque fazia três horas de serão todos os dias.
O
senador Demóstenes há mais de dez anos não sabe o que é declarar
imposto de renda e para não perder o costume não declarou esse ano
também.
Já
o seu homônimo, mesmo sem ter a necessidade de fazer tal declaração,
não deixa passar um ano sequer sem enviar a mesma. Entretanto esse
ano deixou de fazê-lo devido a sua internação, que por culpa de um
erro médico encontra-se em coma na UTI de um hospital público, há
cinco meses.
A
Receita Federal como todo o ano não se furtou em avisar. Mandou sua
correspondência de advertência ao senhor Demóstenes.
Ilustríssimo
Senhor Senador,
Doutor
Demóstenes de Alcântara Martins.
Tomamos
a liberdade de informar a Vossa Excelência, que nos últimos cinco
anos não temos registro de ter recebido sua declaração do Imposto
de Renda. Solicitamos que verifique junto a seu contador se procede
nossa lembrança. Caso já tenha regularizado tal situação queira
desconsiderar essa correspondência.
Secretário
de Fazenda.
Demóstenes
quando saiu do coma a primeira coisa que quis saber foi à data em
que estavam. Tão logo soube, perguntou para a sua mulher se ela
tinha providenciado a entrega da declaração do imposto de renda.
Sua
mulher carinhosamente pediu para que ele não se preocupasse com
aquilo, afinal eles nem eram obrigados a fazer declaração. Mesmo
assim José mostrava-se preocupado com tal situação. Passados
alguns dias obteve alta do hospital e foi para casa.
Como
todos aqueles que não entregaram a declaração do imposto de renda,
também recebeu a notificação da receita federal.
Senhor
Demóstenes.
Nossos
computadores acusam o não recebimento da sua declaração do ano
passado.
Compareça
dentro de 48 horas para regularizar tal situação. O não
comparecimento a este órgão implicará na inclusão do seu bem (uma
casa) na divida ativa da união, sob pena de confisco da mesma e
perda da inscrição no cadastro de contribuintes.
Secretário
de Fazenda.
Sua
excelência, o senhor Demóstenes, honrado senador da República,
continuou viajando pelo Brasil e o mundo as custa dos contribuintes,
e desfrutando de tudo a que tem direito, não dando a menor atenção
para a cobrança recebida.
Já o senhor
Demóstenes, humilde cidadão, com o impacto da cobrança voltou a
ser internado e encontra-se em coma.
Amor
Passageiro
Júlio
conheceu a bela Clarice num final de semana dentro do ônibus.
Estavam indo para numa dessas festas que aparecem de repente e se vai
só porque nada se tem para fazer.
O
casal chamava a atenção de todos por sua beleza. Era o par
perfeito. A inveja e o desejo tomavam conta da maioria dos presentes,
deles por ela e delas por ele. Desse encontro começou o namoro, que
hoje em dia é comum dizer “ficaram” e desse ficar passaram as
juras de amor eterno. Tudo ia as mil maravilhas. Até música para
ela, ele fez. Casaram-se e o sucesso bateu-lhes a porta. Tudo era só
felicidade.
A
vaidade burra e a busca pela beleza perfeita o levaram a uma
plástica. Diga-se de passagem, desnecessária. Como se a natureza
quisesse se vingar pelo desperdício, a operação que era coisa
simples, complicou. Júlio entrou em coma e ao retornar dela, trouxe
junto as sequelas. Com os movimentos comprometidos e a fala
arrastada, passou rapidamente de belo, a fera.
Tristeza
total e geral.
Que
pena! Aquele amor que parecia eterno, imediatamente desapareceu,
deixando-o só com sua nova parceira.
A cadeira de rodas.
Voo
Trágico
Conceição
do Mato Dentro.
Os
filhos do lugar como costumam mencionar sua localização assim; –
A capital mineira do ecoturismo. Aqui é pertim di bel-orizonti.
Como
toda cidade do interior sempre tem um caso para ser contado, está
também tem o seu. – Só não sei se é verdade, mas juro que vou
contar tintim por tintim sem mudar uma só vírgula dessa história.
Padre
Augusto, incansável e fiel seguidor dos dogmas da igreja elegeu o
dia treze para nesta data todos os meses realizar sua missa, uma vez
que não era ele o pároco oficial da pequena cidade. Tinha sido
transferido para lá há nove meses.
Já
há alguns meses, todo santo dia uma beata da paróquia trazia um
recado do centro, para o padre Augusto.
-
Padre, sua benção...
-
Deus a abençoe irmã.
-
Andam falando do senhor lá no centro.
-
A senhora anda frequentando aquele terreiro de macumba?
Como
todo brasileiro que se presa; vai, mas diz que não, mentiu.
-
Não senhor! Ouvi falar num sei bem onde.
-
Deixa que falem não tem problema.
Chegou
novamente o dia treze e lá estava o padre Augusto mais uma vez em
sua pregação sentando o pau na outra religião.
-
Minhas irmãs e meus irmãos o terreiro do seu Joaquim e casa do
diabo são a mesma coisa... Afastem-se de lá... Depois não venham
dizer que eu não avisei.
Padre
Augusto ameaçava até de excomunhão aqueles que por ventura a
frequentassem, mesmo que só por curiosidade.
Maria
Padilha, uma das beatas mais velhas, passava dos oitenta anos,
procurou o padre depois da missa e o alertou.
-
Escuta padre! Fiquei sabendo lá no centro que o senhor mete o pau na
macumba é por que tem medo de ser médium.
-
Não diga besteiras, dona Maria Padilha e pare de ir lá porquê
senão serei obrigado a proibir até mesmo a senhora de vir às
missas.
Tantos
foram os recados e as investidas junto ao padre, insistindo na sua
mediunidade, que ele resolveu tirar a limpo tal situação. Sem
qualquer aviso prévio, num dia reunião, ele foi pessoalmente ao
centro.
Assim
que chegou ficou surpreso com a quantidade de fiéis presentes no
local. Alguns, até de branco estavam vestidos. Eram médiuns.
Entrou
terreiro adentro indo direto na direção do Pai de Santo que naquele
momento já estava incorporado.
Era
sessão de povo de rua.
Aquele,
vendo o padre caminhando em sua direção deu ordem aos Ogãs para
que tocassem um determinado ponto.
Não
foi possível dar mais nem um passo. O padre caiu de joelhos dando
uma forte gargalhada. Ao levantar-se, cantando, cumprimentou e
apresentou-se.
Boa
noite, gente...
Como
vai... como passou...
Tranca-rua
é pequenino...
Mas
é bom trabalhador...
Rararara!!!
Para
surpresa de todos lá estava de batina e tudo, o padre Augusto,
incorporado com o Exu Tranca-ruas
E foi assim que eu
escutei, contei e nada aumentei.
Moralização
São
Pedro conversava com São Paulo durante sua caminhada matinal.
-
É Paulo, o homem lá de cima me chamou e me deu a nova direção a
seguir.
-
Do que você está falando, Pedro?
-
Vou explicar; “Ele” não aguenta mais ver essa montoeira de santo
andando pra lá e pra cá sem fazer nada de produtivo.
-
Mas porquê isso agora?
-
É que “Ele” acha um desperdício. Tantas almas perfeitas aqui e
à toa, enquanto no setor 171 da terra o caos impera sob o controle
de almas imperfeitas. Fui obrigado a concordar com “Ele”. O homem
está cheio de razão.
-
E o quê “Ele” pretende fazer?
-
“Ele” quer que todos os santos encarnem imediatamente e
permaneçam por lá durante oitenta anos. Tempo suficiente para eles
ocuparem todos os cargos chave do setor e arrumar de uma vez por
todas aquele local.
-
Esse local lá na terra não é o Brasil?
-
É lá mesmo.
-
Xi! Aquilo lá não tem jeito não, Pedro. E melhor tomar outra
providência.
-
Mas o homem quer assim. O que eu posso fazer?
-
Isso não vai dar certo. Escuta o que estou lhe falando. E quando
começaremos a enviar santos?
-
Imediatamente. Amanhã encarnam de uma só vez 8.000.
-
Nossa! Pelo visto a coisa é pra valer.
-
Com certeza. Depois de amanhã irão os restantes.
-
E quantos mais, são?
-
Mais 5.000 e pronto, está completo o quadro da moralização.
Assim
foram cumpridas as determinações do altíssimo. Todos encarnaram.
Foram educados nos melhores colégios. Formaram-se e ocuparam todas
as posições de comando no país. O tempo passou rapidamente. Um
belo dia São Pedro foi chamado à presença de Deus.
-
Pois não Senhor. No que posso servi-lo?
-
Pedro? Por acaso você esqueceu de enviar nossos santos ao Brasil
conforme ordenei?
-
De forma alguma, Senhor. Enviei-os no devido tempo. Eles já devem
estar até voltando da missão, pois já se passaram os 80 anos.
Prazo que o Senhor mesmo determinou.
-
Então algo deu errado. Procure saber e me informe, porque pelo que
estou sabendo não mudou nada no setor 171. Muito pelo contrário,
piorou demais.
-
Vou verificar Senhor e o colocarei a par.
São
Pedro saiu esbaforido para saber o que tinha acontecido, afinal nem
ele e nem São Paulo acompanharam de perto a missão. A pressa era
tanta que esbarrou com São Paulo e não notou.
-
A onde você vai dessa maneira, Pedro? – Paulo segurou-o pelo braço
parando sua trajetória.
-
Cadê os santos, Paulo? Pelo tempo sei que já voltaram, mas onde
eles estão?
-
Eu lhe avisei que não ia dar certo. Você não quis acreditar. E não
foi por falta de aviso!
-
Deixa de conversa e diz logo onde estão?
- Estão todos lá
no inferno.
Aprendendo
pelos corredores
Esse
caso me foi contado, como uma piada e aos risos dos presentes, quando
eu ainda viajava por Brasília. Se realmente aconteceu não posso
garantir, entretanto foi narrado com a riqueza de detalhe que
transcrevo agora.
Dia
primeiro de Janeiro. Posse dos novos mandatos no Congresso Nacional.
Após as solenidades todos os políticos estavam dirigindo-se ao
salão nobre para o coquetel, quando um dos novos deputados, eleito
para o primeiro mandato, dirigiu-se ao velho astuto e experiente
senador.
-
Excelência, sabe me dizer se temos ratos aqui no Congresso?
-
Fale baixo, nobre deputado. Você está querendo comprometer a casa?
-
Como assim? Por que toda essa preocupação?
-
Não vê que estamos rodeados por jornalistas? Estão sedentos por um
novo caso. Não bastam os que já nos preocuparam no ano passado?
Quer arrumar mais um?
-
Mas eu só estou querendo saber sobre a existência ou não de ratos,
nada mais.
-
E você acha que isso não nos compromete?
-
Evidente que não, senador.
-
Evidente que sim, senhor deputado. Com a avidez por notícias que o
pessoal da imprensa anda, logo irão transformar seus pequenos ratos
em grandes bodes expiatórios, que com certeza seremos nós.
-
Mas como pode o senhor pensar dessa forma, excelência?
-
Nobre deputado, vê-se logo que este é o seu primeiro mandato. O
senhor ainda terá muito que aprender nesta casa.
-
Senador, eu só perguntei...
-
Pois não pergunte, deputado. Ainda mais quando se trata de assunto
tão comprometedor e sendo a hora nada apropriada. Daqui para frente
procure só observar. Entendeu?
-
Estou começando a entender, excelência.
-
E o que o nobre deputado entendeu dessa nossa conversa? Posso saber?
-
Entendi que precisamos zelar pela aparência. Evitando ao máximo
falar de assuntos que possam vir a nos comprometer, afinal temos que
nos manter acima de qualquer suspeita. Certo?
-
Certíssimo. Vejo que entendeu perfeitamente.
-
Pelo entusiasmo com que defendeu meu silêncio, penso que por
enquanto...
-
É melhor nem pensar, deputado... Nem pensar. Pode vir a se
comprometer seriamente.
-
Não estaria o senhor, radicalizando, excelência?
-
Lembre-se deputado; – silêncio, observação e caldo de galinha
não fazem mal a ninguém.
Uma
grande amizade
Armindo,
ex-gerente de uma grande multinacional, nos últimos dez anos vivia
de teimoso, como todo pobre, mas mesmo assim jamais perdera o senso
de humor. Tinha perdido o emprego e desde então não mais conseguiu
se colocar, passando a viver de trabalhos que nada tinham a ver com
ele.
Um
belo dia estando no supermercado a fazer compras com sua mulher,
avistou na saída dos caixas um velho conhecido que há vinte e cinco
anos atrás havia empregado na empresa onde trabalhava, alias não só
a ele, mas também a sua mulher, só que em outro local.
Armindo
achegou-se despercebidamente de Lauro e num movimento rápido fingiu
roubar-lhe a chave do carro, mas continuou parado esperando a sua
reação. Este, com ar de superioridade levantou um dos cenhos,
olhou-o e fingindo grande esforço para lembrar, perguntou:
-
Nogueira? – Era o sobrenome de Armindo e com o qual é conhecido no
mercado.
-
Estou tão diferente assim, Lauro?
-
Não muito, mas tem bastante tempo que não lhe vejo e a gente
ficando velho muda um pouco... Sabe como é.
-
Não, não sei. Só estou com sessenta! – Riu. Você é que está
diferente. Está parecendo até um português.
-
Português, eu? Com essa cara de paraibano? – Riu também. Como vai
a família?
-
Todos bem. – E mostrando sua mulher que estava ao lado perguntou
irônico: “Não está conhecendo mais a Magda”?
-
Claro! Como vai, Magda? Tudo bem? – Cumprimentou meio sem graça.
Magda
respondeu afirmativa e Armindo deu continuidade ao papo.
-
Onde você está agora?
-
Sou supervisor de vendas... – Dizendo o nome da empresa que não
vem ao caso. Agora mesmo no mês passado estive em Portugal pela a
empresa. - Falou não cabendo de contentamento.
-
Então está explicado. Vai ver por isso o achei parecido com um
português. – Outra vez riu.
-
E você, onde está?
-
Estou desempregado. A propósito, lá tem vaga para um quase velho?
-
Não, no momento não, mas não temos problemas com idade. Manda-me
seu currículo que vou ver o que dá para fazer.
-
Farei isso, mas me diga o que achou de Portugal.
-
Uma maravilha, outra cultura. É a Europa, você sabe como é. –
Elogiou cheio de vaidade.
Despediram-se
depois de terem batido um longo papo no estacionamento lembrando os
velhos tempos.
Naquele
dia mesmo, tão logo chegou em casa Armindo enviou seu currículo por
e-mail ao amigo.
Lauro,
meu amigo,
Conforme
o combinado, aí vai meu Currículo.
Abraços,
Nogueira.
Armindo
recebeu no outro dia a seguinte resposta do velho amigo:
Bom
dia, Nogueira.
Vamos
ver o que Deus terá reservado para você, e que ele abençoe nossos
contatos.
Um
abraço,
Lauro
Batista.
Alguns
meses depois, nada ainda tinha sido reservado para Armindo. E pelo
visto Deus também não tinha abençoado os contatos, pois nunca mais
se falaram e nem se encontraram, mesmo com algumas tentativas do
Armindo.
Do
sonho à realidade
Adalgamir não tinha
mais aquela determinação em ter um carro 0km, pois já não seria o
primeiro; e verdade seja dita, não tinha a menor intenção de
comprar um novo carro. Portanto, não deu muita atenção quando
Sigismundo, o vendedor de consórcios de automóveis, veio visitar
seu amigo no escritório para vender um.
Porém
ao saber que Aldegundo, seu amigo, não fizera negócio e tendo sido
ele o responsável pelo vendedor ter ido visitá-los, Adalgamir
resolveu fazer parte daquele novo grupo de consorciados que se
iniciaria.
Para
surpresa de ambos foi logo sorteado no primeiro sorteio.
Visitou
a agência da concessionária e lá escolheu o melhor carro do
momento. Como gostava de viajar, aproveitou e mandou que fosse
instalado um bagageiro.
Chegando
no condomínio a vizinhança não pôde deixar de notar aquele carro
vermelho.
A
família ficou encantada com a aquisição, mas Adalgamir não
conseguia entrar naquele clima de alegria que contagiara a todos.
Tinha
a sensação de que algo não muito bom iria acontecer -
e
aconteceu. Em menos de uma semana estava parado no sinal quando Dona
Gravitolina, uma senhora desatenta ao volante, entrou na traseira do
seu carro. Discussões à parte, o veículo foi consertado.
Não
demorou muito e teve a notícia de que o plano de consórcios havia
mudado, e o seu também. Passara de 50 prestações para 75 sem
nenhum aviso ou consulta. Adalgamir decidiu que não pagaria uma
prestação a mais. Decidiria na Justiça tal arbitrariedade.
Pois
bem, aquela sensação de que não deveria ter comprado o carro
aumentava a cada dia, a ponto de até sonhar. Foi num desses sonhos
que se viu parando num estacionamento quando, ao retornar para pegar
o carro, só encontrou o bagageiro suspenso por quatro canos no
local.
Acordou
assustado e comentou com a Audicréia, sua esposa. Mas a mesma
enfatizou que tudo aquilo não passava de um sonho.
Adalgamir
teve as suas dúvidas.
Passado
os 50 meses, parou de pagar o consórcio e o caso foi parar na
Justiça.
Seu
amigo, o advogado Furdêncio garantia sempre que a causa seria ganha.
Entretanto, num belo dia, bem cedo, um oficial de justiça o acordou
e levou seu automóvel, só deixando o bagageiro apoiado no muro da
garagem, igualzinho ao sonho que teve.
Progresso
Auge
dos anos cinquenta. O progresso chegava a todo vapor. Cada vez mais
os automóveis tomavam conta das ruas. A televisão começa a fazer
parte da vida das pessoas mais abastadas, entretanto ainda era comum
vermos pela cidade, o lixo sendo recolhido em carroças puxadas por
burros. Incrível, mas era a pura realidade da época.
Gustavo,
condutor de uma das carroças da limpeza urbana estava com o tempo
contado para terminar seu trabalho. Precisava ir a maternidade
visitar sua esposa que acabara de dar a luz. Não via a hora de
conhecer seu novo filho.
Sabendo
que o hospital ficava do outro lado da linha férrea. Resolveu ver o
bebê rapidinho durante seu trabalho. Deixou a carroça estacionada
em frente à passagem de nível e lá foi. Não demoraria nada.
Correu atravessando a rua livrando-se dos poucos carros que passavam
com exímia maestria. Seu trabalho dera-lhe também essa habilidade
para lidar com aquele novo perigo. Já na travessia da linha não
teve tanta sorte e foi atropelado por um trem que passava naquele
momento.
A
noite sua mulher ainda no hospital assistiu pela televisão a notícia
de sua morte.
O
Garanhão
Numa
operadora de cobrança, dessas que abrigam uma enorme quantidade de
rapazes alegres, lá estava ele, o Garanhão.
Não
se pode dizer que ele era o protótipo da espécie, pois não era
alto e tampouco bonito, mas dominava como ninguém o mistério da
sedução.
Em
toda a empresa não havia quem não ficasse imantado pelo seu
carisma. Entretanto, um grande segredo estava adormecido ou guardado
a sete (cores) chaves, sabe-se lá, que nem mesmo ele tinha se dado
conta. Até que, logo após uma festa carnavalesca na empresa, esse
segredo aflorou e o cobiçado garanhão não teve mais como segurar
tais impulsos de alegria.
Durante
alguns dias após essa descoberta, ele ainda tentou em vão conter a
desenfreada mudança. Mas como não obteve êxito, resolveu
entregar-se de corpo e alma ao grupo dos alegres.
Para
mostrar que estava decidido no intento de se assumir, naquele dia já
foi trabalhar vestindo uma camisa na cor rosa com a estampa de uma
bela flor nas costas.
Logo
que chegou na empresa a alegria foi quase que geral. Só ficaram
entristecidos os amigos mais chegados e a mulherada que sempre
alimentou a chance de poder a qualquer hora desfrutar algum prazer
com ele. Tudo isso porque, até pouco tempo, o mesmo, além de noivo,
era tido como grande pegador.
Depois
disso restou a dúvida: O suposto garanhão era pegador de que?
O
visitante indesejado
Naquele
sábado, Maldonado e Arlete acordaram bem cedo e saíram para as
compras no supermercado, pois tinham a intenção de ficar com o
resto do dia livre para outros afazeres.
Quando
voltaram já o encontraram refastelado em sua varanda. Parecia até
que a casa era dele, tal a maneira como os recebeu.
Não
disseram nada, devido à surpresa do momento, e ele também não,
obviamente. Mas logo que abriram a porta foi inevitável, ele
adentrou sem nenhuma cerimônia e se instalou.
O
que fazer?
Diz
a boa educação que deveriam receber bem o visitante, pois é a
partir desse ato que saberiam se ele voltaria ou não a visitá-los.
Entretanto, o casal não fazia a mínima questão de que voltasse.
Decidiram
então cortar o mal pela raiz, mesmo que isso fosse de encontro aos
seus princípios. Mas como?
Gritar
não seria de bom alvitre, pois chamaria a atenção dos vizinhos e
eles poderiam interpretar mal tal atitude.
Uma
boa comida é claro que o levaria a visitá-los outras vezes, já uma
de pior qualidade provavelmente não mais o deixaria tão seguro em
retornar. Tinham de ser rápidos na decisão, pois poderiam perder o
controle da situação e com certeza se arrependeriam amargamente.
Assim
o fizeram:
Que
gritar que nada! Comida? Nem boa e nem ruim.
Cada
um pegou uma vassoura e meteram a porrada naquele rato safado que
achou que ia se dar bem na nova mansão, mas o trataram com o máximo
respeito pós mortem.
Enterraram-no
bem fundo no belo jardim da casa e colocaram uma pequena placa
avisando aos futuros visitantes da espécie. “Se não fores o Super
Mouse, acabarás aqui.”
Passeio
Mortal
Certa
vez Maneco se viu dormindo em sua cama: Como posso estar ali estando
aqui, se perguntava.
Mas
não acabou ai, de repente, sentindo que realmente podia flutuar saiu
janela afora. Meio sem entender o que estava acontecendo resolveu
passear pela cidadezinha.
Maravilha!
Posso voar! Gritava alegremente.
Mais
tarde voltou, mas não encontrou seu corpo no quarto. Onde estaria
ele? – Pensou.
Viu
Alice, sua irmã, chorando. Tentou lhe perguntar o que estava
acontecendo, mas ela não o ouvia. Resolveu segui-la para ver aonde
ia.
Surpresa!
Foi
parar no cemitério. Entrou com ela. Na capela viu uma família
reunida, mas não reconheceu ninguém.
Quem
teria morrido? - Pensou.
Aproximou-se
do caixão e viu que era ele!
Gritou
apavorado: – Sou eu!
Não
pensou duas vezes. Pulou dentro do seu corpo e levantou gritando.
Estou
vivo de gente... Estou vivo!
Alvoroço
geral nas capelas.
Feliz,
Maneco saiu porta afora abraçado com a irmã. Entretanto, Jurandir,
o velhinho intrometido que por ali passeava, com o susto caiu
fulminado.
A
Bala Perdida
Comunidade
da Pomba Branca. O nome refere-se ao símbolo é da paz, mas o
tiroteio comia solto na região.
O
corre-corre era geral. Desespero total. Ninguém se arriscava a por a
cara na janela, quanto mais, o corpo na rua.
Em
pouco tempo o local estava deserto.
Lá
do fundo de um dos becos chegava o choro de criança, que aos poucos
tomou conta do lugar. Impressionante o pulmão daquele guri. Devia
ter uns seis anos no máximo, mas gritava como gente grande.
Quando
o tiroteio acabou, acudiram o menino, que logo justificou o seu
berreiro.
-
Tem uma bala perdida.
Entraram
na casa a procura de alguém que pudesse ter sido atingido por algum
tiro, mas não encontraram ninguém. Lá dentro dormia sua mãe
bêbada que nem um gambá e sem nenhum ferimento.
Tentaram
acalmar a criança de todas as formas, mas em vão. Ela continuava
insistindo que tinha uma bala perdida. Continuaram com a procura pela
redondeza.
Depois
de procurarem por meia hora e não encontrando ninguém ferido,
desistiram, mas não deixaram de dar atenção ao garoto explicando-o
que não havia nenhuma bala perdida.
Entretanto
o guri ainda chorando, rechaçou dizendo:
-
Tem sim, uma bala perdida. Olha aqui olha. Tinham três balinhas no
meu saquinho agora só tem duas.
Calculando
O
início da tarde mais parecia noite, tal a quantidade de nuvens
negras. Tudo indicava que a tempestade começaria a qualquer momento.
A forte ventania e os relâmpagos que já riscavam o céu eram a
prova disso, calculou Jandira.
Começou
rapidamente a fechar todas as janelas da casa grande e, de uma delas,
avistou lá fora no meio do pátio, amarrado ao tronco, o escravo
fujão Dionísio ― o amor da sua vida.
Correu
a falar com Ágata, sua ama, calculando que ela intercederia por ele,
pois se o mesmo ficasse ali, morreria na certa.
Teve
como resposta: “Não vou atendê-la. Meu marido viajou e não posso
desautorizar o capataz. Calcule o que ele diria.”
Logo
teve início a violenta tempestade.
Jandira,
desesperada e sem nada poder fazer, rezava para que o tempo se
acalmasse.
No
final da tarde, Oduvaldo, o amor de Ágata, chegando de viagem,
avistou ao longe o seu escravo mais valioso preso ao tronco e
deduziu: “Ele deve ter fugido de novo, por isso está preso”.
Correu para tirá-lo de lá, calculando que se um raio atingisse o
escravo, teria um enorme prejuízo.
Como
ele estava amarrado fortemente, Oduvaldo teve dificuldade em
soltá-lo. E no desespero, não calculou que também poderia ser
atingido.
Da
janela onde a chuva batia forte e dificultava a visão, Jandira e
Ágata se esforçavam para assistir a cena desesperadora, calculando
como tudo acabaria.
Não
demorou e elas logo viram quando os dois foram atingidos por um raio
fatal...
O
último ato
Não
se falava noutra coisa na cidade. A mídia a todo instante avisava
que seria uma única apresentação daquela companhia estrangeira.
Durante
seis meses, Moacyr, juntou dinheiro para comprar o ingresso e
assistir a peça.
Dia
e hora marcados lá estava ele, foi o primeiro a chegar no saguão do
teatro, aguardando para se acomodar. Tinha comprado o camarote mais
próximo do palco e ter uma visão privilegiada. Pagou uma fortuna,
mas estava feliz. Um pouco nervoso e preocupado com sua barriga, mas
feliz.
Começou
a peça. Atores em cena. Figurino deslumbrante. Via tudo sem perder
um único detalhe. Acústica excelente parecia até que os atores
falavam para ele, tal a clareza.
Moacyr
estava fascinado com tudo a sua volta, era a primeira vez que ia a um
teatro, e esse, era o Municipal do Rio de Janeiro. De um pouco
nervoso, passou a muito nervoso. Soltou um peidinho! Achou que tinha
se sujado. Passou a mão na bunda por fora da calça, mas não
conseguiu confirmar sua suspeita.
Primeiro
intervalo. Deixou o camarote e dirigiu-se rapidamente ao banheiro,
pois precisava ver se tinha se sujado e porque também já não
aguentava mais, tanta dor na barriga. Passou o intervalo inteiro no
vaso sanitário. Quando saiu, pode ouvir o anúncio do segundo ato.
Correu e se acomodou. A dor de barriga continuava. Moacyr já
desesperado, em pé e com calafrios rezava para aguentar até o
próximo intervalo. Conseguiu.
Segundo
e último intervalo. Saiu correndo em direção ao banheiro. Lá se
deparou com todos os reservados ocupados. Esperou saltitando pé em
pé e suando frio de tanta dor e vontade de cagar. Quando o último
ato foi anunciado, ele acabava de sentar-se ao vaso. Cortou pela
metade o que estava fazendo, se ajeitou e voltou correndo. Afinal
aquela companhia não iria se apresentar novamente na cidade e ele
não podia de jeito algum perder aquele ato. Na pressa, ao entrar no
camarote escorregou e caiu. Na queda, bateu a cabeça e desmaiou. Ato
contínuo cagou-se todo, ainda desmaiado. O cheiro de merda
impregnava todo o ambiente. Os olhares se voltaram para seu camarote,
mas não viam nada, pois, ele desmaiado continuava caído ao solo.
Terminou
a peça.
Moacyr
acordou com os funcionários do teatro levando-o para tomar banho.
Descobriu duas coisas; estava todo cagado e não assistiu o último
ato da peça.
Doença
maligna
Juvenal
saiu de casa naquele domingo e não voltou. Valquíria, sua mulher,
estranhou pois ele não tinha o hábito de demorar. A noite passou e
ele não apareceu. No dia seguinte, já preocupada, a esposa saiu à
sua procura. Esperando encontrá-lo, passou em todos os locais que
ele gostava de frequentar. Nada, nem sinal dele.
Dois
dias mais tarde, Juvenal foi encontrado dormindo debaixo do viaduto.
Levado para casa, foi cuidado e tratado com todo carinho. Estava
muito mal. Dias depois, sumiu outra vez. Mesma maratona de busca.
Achado e levado para casa, Valquíria resolveu levá-lo ao médico,
que logo pediu vários exames.
Com
os resultados em mãos, o diagnóstico foi rápido: insanidade mental
em último estágio, sem contestação.
A
prova estava visível na tomografia cerebral. Aparecia nela o escudo
do Flamengo.
Desvendando
a Justiça
Praticamente
toda a família estava reunida na ampla varanda da fazenda a espera
de algum comunicado. Entretanto até aquele momento ninguém se
manifestara reivindicando qualquer quantia pelo sequestrado. O juiz
Yuri acabara de se oferecer para levar o dinheiro do sequestro que
seu tio, o desembargador Orles, sofrera. Quando veio o anúncio...
-
O Dr. Breno, o delegado Mol e o juiz Brigs estão subindo.
Todos
ouviram pelo interfone o aviso vindo da portaria e voltaram à
atenção para o carro de polícia que subia em direção ao antigo
casarão que pertencera ao Barão do Mato Alto.
-
O Brigs? O que esse canalha está fazendo aqui? – Indagou Laura,
mãe de Yuri.
-
Calma, não vamos nos precipitar. – Recomendou Justus, o pai de
Yuri.
-
Terão descoberto algo sobre o sequestro? – Dúvida levantada pelo
ministro do supremo tribunal, o Senhor Aral.
-
Preparem seus corações, que vem notícia do tio Orles. – Yuri
tentava preparar sua tia Ilma e seu primo Melo, que estavam na casa
de seus pais para não tomarem um choque.
Na
verdade, nem de longe imaginava que quem receberia o choque era ele.
O delegado Mol prendera o juiz Brigs, pois descobrira ser ele um dos
mandantes do sequestro.
-
Delegado, por que o senhor trouxe esse senhor a nossa casa? –
Perguntou Yuri.
-
Não tive alternativa, juiz.
-
Como assim? Pode se explicar melhor?
-
Claro que posso. Descobri que o juiz Brigs, junto com o Dr. Breno e
seu pai, são os responsáveis pelo sequestro do seu tio. Como pode
ver, não tive outro jeito.
Yuri,
incrédulo, quis saber do próprio pai se tal acusação era
verdadeira.
-
Ouvi bem o que o delegado acaba de nos informar, pai?
-
Fomos obrigados a realizar o sequestro, filho.
-
Mas por quê?
-
Foi à maneira que encontramos de ter o voto dele a nosso favor.
-
Sequestrado ele não vota, esqueceu?
-
Por isso mesmo. Sem o voto contra dele, nós venceríamos e após as
eleições nós o soltaríamos.
-
Custo a acreditar no que ouço, mas enfim, o que está feito está
feito. O que você pretende fazer, delegado?
-
Estou aqui justamente para saber sobre isso. O que fazer?
-
Agiu muito bem vindo até nós, delegado. – Elogiou a senhora
Laura.
-
Então, o que faço agora?
-
Nada e não se preocupe, que nós nos encarregamos do caso a partir
de agora. Afiançou o ministro Aral.
-
Já entendi, vou abortar toda operação, libertar o acusados e não
efetuar nenhum registro. Certo? – Ironizou o delegado.
-
E cuide para que a imprensa não tenha acesso aos resultados das suas
investigações, delegado Mol. – Recomendou o ministro Aral com ar
ameaçador.
-
Fique tranquilo, senhor. Boa noite. – Despediu-se o delegado, agora
sem deixar transparecer sua indignação.
-
Boa noite. – Despediram-se todos quase que ao mesmo tempo.
Campanha
Eleitoral
Naquela
pequena cidade do interior, o sujeito revoltado estava sentado no
banquinho do pé sujo da esquina soltando a língua nos políticos,
quando de repente chegou um. É claro que tudo parou. Até porque,
quem é que consegue falar mais do que um verdadeiro político em
campanha. Este por sua vez como que a não desmitificar a fama de
falador, começou a soltar o verbo. Era promessa de todo tipo e para
todos os gostos.
Mas
como é que o senhor vai fazer isso? - Surgiu do nada a pergunta.
Quem
perguntou? - Quis saber o político.
Eu.
- Acusou-se o sujeito que a pouco metia o pau neles, (os políticos).
É
simples, assim que eu me eleger vou fazê-lo meu assessor e você
será o responsável direto pelo cumprimento das minhas promessas. -
Assegurou o político.
Mas
quem garante que o senhor irá cumprir o que acaba de falar. -
Fustigou o sujeito.
Ah!
Isso você terá que pagar para ver. - Afirmou o político.
Pagar
para ver? Mas ainda nem recebi e já terei que pagar? - Reclamou o
sujeito.
Correto,
mas não vai lhe custar muito, na verdade você só terá que
angariar votos a meu favor para que tudo o que foi dito aqui se
realize. Fácil, não? - Sorriu o político certo de que havia
convencido mais um para sua nobre causa (locupletar-se).
“Afinal
não é assim que sempre funciona? Promessas mirabolantes mais ilusão
do povo é igual a voto certo.”
O
político dando por encerrada sua apresentação despediu-se e foi
embora.
-
E aí pipoca? ( era o apelido do sujeito em questão) Vai trabalhar
para o futuro deputado? - Surgiu a sarcástica pergunta.
-
Nem a pau Juvenal! Ele nem disse quanto eu ia ganhar... Como posso me
comprometer?
O
negociador
Na
sala de reunião de um grande banco, Álvaro e Roberto, presidente e
vice-presidente respectivamente, discutiam sobre a eficiência e a
capacidade de um dos gerentes em negociar. Estava em jogo sua
promoção ao cargo de diretor naquela organização.
-
O Ivo é capaz de efetuar qualquer tipo de negócio e de qualquer
maneira. Até mesmo se estivesse vestido como um indigente ele se
sairia bem. – Garantiu Roberto defendendo o seu preferido para o
cargo de diretor.
-
Você não acha que está exagerando um pouco? Temos outros
profissionais tão bons quanto ele. Eu por exemplo posso citar...
Álvaro
foi logo interrompido.
-
Mas não seriam capazes do que eu falei. – Roberto tornou a
afiançar o que tinha dito.
Desse
impasse surgiu o desafio da aposta.
-
Aposto cem mil reais que o Ivo não consegue negociar dessa forma. –
Álvaro duvidou.
Roberto
não se intimidou.
-
Apostado, mas qual instituição será beneficiada?
-
Quem vencer escolhe. Não só a instituição, mas também quem será
o promovido. – Lembrou Álvaro.
-
Combinado.
Aposta
acertada, os dois foram consultar o funcionário em questão se
toparia o desafio. Ivo sem saber que sua promoção dependeria do seu
sucesso, impôs sua condição.
-
Tudo bem eu aceito, mas se conseguir realizar a negociação eu mesmo
quero escolher a instituição a ser beneficiada com a quantia.
Nenhum
dos dois se opôs à reivindicação.
Como
já era de esperar, Ivo foi mal recebido na loja de antiguidades. Não
se importou com o atendimento a ele dispensado. Depois de muito
procurar encontrou a antiguidade que seria colocada no salão do
banco.
-
Gostei muito dessa aqui, quanto custa?
Eudes,
o dono da loja, que não estava nem um pouco satisfeito com a
presença daquele cliente mal vestido, que mais parecia um mendigo,
deu o preço bem acima do valor real. O dobro.
-
Duzentos mil reais.
-
A peça é realmente muito bonita e valiosa, mas esse não é o seu
valor real e o senhor sabe muito bem disso.
Começando
com esse argumento, Ivo deu continuidade a sua intenção de compra e
negociando habilmente, conseguiu convencer o senhor Eudes a vendê-la
por noventa mil reais. Um preço menor do que realmente ela valia e
ainda conseguiu que a mercadoria fosse entregue na sua residência
sem custo adicional. Dessa forma também conseguia não revelar quem
realmente ele era, pelo menos até aquele momento como fora
combinado, pois agora tendo de pagar com seu cartão de crédito,
provavelmente seria descoberta sua identidade.
-
Com certeza esse homem tem bom gosto. – Comentário do proprietário
com os vendedores.
-
É o que está me parecendo. – Concordou um dos vendedores. – Mas
como terá conseguido tanto dinheiro para efetuar essa compra?
-
Grande mistério, mas antes de entregar este pedido pedirei para a
polícia investigar, mesmo com o seu cartão não tendo sido
recusado, quero saber quem realmente ele é. – Sentenciou o
proprietário.
-
Provavelmente ainda tem muito dinheiro. Só que agora por algum
motivo prefere viver como se fosse um abandonado. Comentou o mesmo
vendedor.
-
Ou quem sabe ele não é um milionário excêntrico e resolveu nos
gozar? – Concluiu o outro vendedor.
Ivo
saiu da loja do esperto antiquário, feliz. Tinha cumprido todos os
quesitos e ganhado a aposta para a instituição de caridade
que ele mesmo iria escolher.
Em contra partida,
Bob, o antiquário, não entendia como pôde se deixar envolver por
aquele mendigo. Acabara de vender a antiguidade mais rara da loja por
um preço abaixo do estipulado.
Seu
Venâncio: o funcionário padrão
Qualquer
empresa quer ter um funcionário como o Sr. Venâncio.
Entretanto,
onde ele resolveu trabalhar?
Isso
mesmo! Naquela operadora de cobrança, que abrigava vários rapazes
alegres e o garanhão, não podia de forma alguma faltar ele, o seu
Venâncio. E para lá ele foi.
Na
visão de todos, por sua simplicidade e gentileza, ele era um amor de
criatura.
Desde
que começou a trabalhar nunca chegou atrasado. Não lhe era chamado
a atenção por nenhum motivo. Não tirava hora de lanche,
economizando com essa medida o café que a empresa oferecia pela
manhã. Não se tinha notícia do mesmo sair para almoçar. Sempre
que solicitado, apresentava rapidamente a tabela de descontos
atualizada.
Seu
Venâncio não atrapalhava o andamento do serviço, pois não era
visto conversando pelos corredores. Seu humor era contagiante pois,
sempre que era mencionado, não havia um funcionário que não
sorria. Não fazia fofoca e nem falava mal de ninguém. Enfim, um
encanto de pessoa a ponto do dono da empresa querer saber de quem se
tratava, já que dos mais de quatrocentos funcionários, só não
conhecia o Venâncio.
O
único problema é que, apesar de todas essas qualidades, até hoje
não se tem notícia de alguém tê-lo visto vestido. A não ser por
um funcionário que sempre solicitava seus préstimos e este que
relata.
Dessa
forma a única conclusão plausível é que ele, o seu Venâncio, não
passa de uma grande farsa, fruto dessa gostosa imaginação.
O
herói voador
Dona Eugenia, uma
senhora de 90 anos, estava conversando com alguns vizinhos no portão
de casa, acompanhada do seu genro, quando surgiram quatro marginais
anunciando o assalto e obrigando todos a entrar.
Foi aquele "Deus
nos acuda", um corre-corre geral, mas o fator idade pesou e Dona
Eugenia teve que obedecer a ordem dos bandidos. Já dentro da casa,
ela e seus familiares foram amarrados e amordaçados. Os safados
começaram a pegar tudo que viam pela frente.
Louro Goia, o
falante papagaio de estimação de dona Eugênia, começou a voar
pela casa e a berrar qual um louco: "Tropa de Elite osso duro de
roer!". Os bandidos não acreditavam no que ouviam.
E o papagaio
continuava voando e gritando "Tropa de Elite osso duro de
roer!".
Até que um deles,
provavelmente o chefe, deu a ordem: "Acabem com esse maldito
falador!".
Largaram o que
estavam fazendo e começaram a caçada ao voador. Pula daqui, pula de
lá, depois de algum tempo perdido conseguiram pegar o papagaio, que
ainda assim mais uma vez conseguiu gritar "Tropa de Elite osso
duro de roer!".
- O que fazemos
agora, chefe? - perguntou o que estava com o pássaro na mão.
- Pisa nele, idiota!
Mata esse maldito!
Os quatro pisotearam
o papagaio várias vezes, até terem certeza de que ele estava morto.
Entretanto essa perda de tempo foi mortal para eles também, pois os
vizinhos que fugiram chamaram a polícia, que chegou e prendeu todos
eles ainda dentro da casa.
Louro
Goia foi sepultado no cemitério dos animais com honras e glórias da
vizinhança.
Ironia
da morte
Amadeu
nascera no dia 29 de fevereiro. Quando alcançou o entendimento,
costumava brincar dizendo que as pessoas que nascem nesse dia só
fariam aniversário oficialmente de quatro em quatro anos. Com isso,
vivia a vangloriar-se que viveria muito mais e que levaria mais tempo
para envelhecer do que as demais pessoas. E mais, quanto às chances
de morrer no dia do seu aniversário então, era remota.
Com
essa brincadeira ia levando a vida. Porém, o que o levava na verdade
a brincar desta forma era o pavor de saber que um dia teria de
morrer. Nada o tirava mais do sério nem o preocupava tanto quanto
essa realidade inevitável. E esse assunto complicava mais, quando
algum amigo de molecagem lembrava que todos ao nascer já vinham com
a passagem de volta para o além, comprada.
Por
acreditar ser a morte uma ignorante, pois desde criança a via
levando as boas pessoas e deixando as que ele achava ruim, às vezes
passava em sua mente a vontade de fazer o mal, mas logo se
conscientizava de que este não era o caminho, teria que descobrir
outro. Dedicou-se a estudar.
Amadeu
fizera bacharelado em Biblioteconomia e Documentação, além de
alguns cursos de extensão. Todo esse estudo foi à forma encontrada
para distrair a cabeça, parar de pensar na morte e encontrar um meio
de enganá-la o máximo possível. Trabalhando na Biblioteca, um
local tranquilo, só frequentado por estudiosos e intelectuais ele
acreditava estar mais protegido ali. Quando perguntado porquê
escolhera aquela profissão, justificava dizendo: – tudo ali dentro
permanece vivo.
Na
sua concepção, não se sabe de onde tirou essa ideia, costumava
dizer: – As bibliotecas sofrem ao longo dos anos a ação do tempo,
as guerras, a censura e as pragas, contudo isso, mesmo assim elas
conseguem sobreviver a todos esses ataques. É por isso que eu
acredito que a morte jamais executará seu trabalho lá dentro.
O
tempo passou e a idade veio chegando sorrateira como acontece com
todos, mesmo para os que nasceram naquela data. Estava para completar
sessenta anos e como não podia deixar de ser, as pequenas doenças e
os mal-estares também vieram junto. Mais até do que nos seus
amigos.
Amadeu
envelhecia e não deixava de temer a morte, razão pela qual passava
a maior parte do seu tempo dentro da biblioteca. Mesmo com a idade
continuava pensando que dessa forma estaria livre dela ou pelo menos
a prorrogando. Nos últimos tempos raramente ia para casa, e seus
familiares já não sabiam mais o que fazer para mantê-lo junto a
eles. Hoje, porém estavam todos felizes, pois sabiam que no dia
seguinte – 29 de fevereiro, seu aniversário – ele ficaria em
casa. Tinham tudo praticamente organizado e pronto para a festa,
afinal não era sempre que se fazia aquela idade. Entretanto, naquela
madrugada Amadeu acordou passando muito mal e com fortes dores no
peito.
“Não
posso morrer no dia do meu aniversário”. – Pensou.
Levantou
rápido, se arrumou e saiu de casa deixando um bilhete explicando sua
ausência.
Sua
mulher e os filhos pensaram que ele fora para o hospital, mas qual?
Ao invés disso dirigiu-se para a biblioteca, pois o medo da morte o
fazia pensar que ali estaria seguro. Chegando lá se sentiu aliviado,
a dor até desaparecera, deitou na poltrona que tinha no seu
escritório para descansar e ali adormeceu.
Amanhecera.
Marivaldo, seu colega de trabalho, chegou mais cedo do que o de
costume e estranhou encontrá-lo ali deitado no sofá. Não era seu
costume. Tentou acordá-lo, mas não conseguiu; Amadeu não respondia
à sua chamada. Estava morto. Ao invés da festa; velório.
Magda,
sua mulher comentava com os amigos:
-
Meu marido passou a vida com medo e fugindo da morte. Nem mesmo suas
previsões e o que achava se concretizaram; – não morrera tão
velho como sempre previa, faleceu justo no dia de seu aniversário e
dentro do local que achava mais impróprio, a biblioteca onde
trabalhava.
-
A morte não escolhe lugar nem hora. – Disse um amigo.
Que
ironia da morte. – Pensava seus familiares.
Esperança
inabalável.
Solange
não estava nada satisfeita nos últimos anos. Há muito que sua vida
virara de pernas para o ar. Não podia mais viajar, nem passear e tão
pouco se distrair, já que a situação financeira da família
tornara-se extremamente difícil.
Além
do mais, também tinha se aposentado, e sentia falta dos tempos da
escola barulhenta, quando ainda ensinava a criançada. Em seus
pensamentos, agora sempre rondavam as piores ideias. A incerteza do
amanhã era sua companheira constante, assim como passou a fazer
parte de seu pensamento o sentimento de ter se tornado uma inútil;
coisa que não era nem de longe. Por algumas vezes surpreendeu-se
pensando até em acabar com a própria vida, ou sair porta afora e
sumir, mas logo deixava essas ideias de lado. Sabia não ser esse o
caminho; tinha uma família que ela adorava de paixão e a controlava
nos mínimos detalhes. Por essas razões, nada desse mundo a faria
deixá-los.
Fazia
sua rotina diariamente. Levantava cedo, fazia e servia o café da
manhã e logo despachava todo mundo. Um filho para o trabalho, o
outro para a escola. O marido, como estava desempregado, para o
escritório onde ficava o computador. Arrumava as camas e colocava a
roupa suja na máquina de lavar. Enquanto isso era processado, lavava
a louça da noite anterior e a do café da manhã. Logo em seguida
começava a preparar o almoço e ao mesmo tempo ia estendendo a roupa
lavada para secar. Após a refeição recolhia-as da corda e as
passava. Não sendo dia de faxina, quando tudo estava terminado,
começava sua agonia. Como todo animal encarcerado, andava por dentro
da casa procurando alguma coisa para passar o tempo. Não
encontrando, dava uma meio descansada assistindo algum programa na
televisão. Algumas vezes estava pelo quintal a cuidar do jardim ou a
limpar a frente da casa, sempre com a esperança de acabar com aquela
sensação de vazio. Mas tudo era em vão.
Tinha
doado seu cão, mistura de Labrador com vira-lata. Embora este
tivesse lhe mordido a mão, ainda sentia muita falta dele.
Assim
Solange ia levando sua vida, mas sempre cutucava o marido, pois este
botara na cabeça que era escritor e sonhava conseguir editar um
livro, não fazendo mais nada do que escrever. Atitude esta que a
deixava muito preocupada, pois o que recebia de aposentadoria era
pouco para sobreviver e seu marido não tinha nenhuma fonte de renda.
Entretanto, Osório acreditava piamente que iria conseguir editar
seus textos e não desistia. Essa sua insistência algumas vezes
causava mal estar ao casal, mas logo voltavam ao equilíbrio e ele
tornava a lhe pedir ajuda.
-
Nós vamos conseguir e tudo vai voltar a ser como era antes, mas
preciso que você faça a revisão gramatical - Dizia Osório, cheio
de esperança.
-
Eu não vou perder meu tempo corrigindo nada. Acorda, homem! Para de
viajar na maionese! Você não vai nunca conseguir editar esses
textos. Se ainda fosse famoso eu não diria nada, mas você não o é.
- Solange sempre procurava trazê-lo à realidade.
-
Eu entendo como você se sente, mas na minha idade é muito difícil
tentar uma recolocação, por isso estou apostando nesses textos.
Preciso fazê-los acontecer.
-
Pelo jeito você não vai desistir, não é mesmo?
-
Tenho que continuar acreditando que vale a pena insistir. – Dizia
Osório cheio de alegria e orgulho.
Solange
continuava irredutível, mas a insistência de seu marido acabou por
convencê-la. E como existem mais coisas entre o céu e a terra que a
nossa vã filosofia pode imaginar, um dia o inesperado aconteceu.
Tantas foram às editoras às quais Osório enviou seus textos, que
uma resolveu editar um deles a título de experiência. Para grande
surpresa dos editores e alegria dele, o livro foi sucesso absoluto e
virou um best-seller. Logo outros textos seus eram editados acabando
de vez com as dificuldades. Tudo voltou a ser como era antes, graças
ao sonho, a insistência e a perseverança de Osório.
Ratos
e Gatos de gravata
Desde o primórdio
dos tempos, para o nosso bem, os ratos foram condenados pelos Deuses
a viverem isolados nos esgotos. Entretanto, passados alguns milhares
de anos, resolveram que deveriam tentar a sorte na superfície. Para
isso marcaram uma reunião onde compareceriam os representantes de
várias regiões, e nesse dia traçariam seus novos destinos.
No
dia escolhido lá estavam ratos de todos os tipos: grandes e
pequenos, pretos e brancos, velhos e jovens, fortes e fracos, da roça
e da cidade. A impressão geral é de que nenhum faltara ao chamado.
E ninguém se preocupava com tantas diferenças, porque na verdade
sabiam-se irmanados em torno de um sonho comum: viver na superfície
e comandar do grande queijo redondo, afinal, porquê só eles vivam
nos esgotos e os gatos tão ladrões quanto eles não. Seria a
suprema felicidade…
Mas
como, se para chegar a esse queijo teriam que esmagar uma quantidade
enorme de gatos? Os ratos representavam apenas 0,00042% da população
total daquela região.
Já
que estavam todos reunidos, começaram a conversar e desenvolver
estratégias.
― Vamos
acabar com alguns desses gatos! Assim seremos a maioria! ― Diziam
uns.
― Para
que isso? O queijo é grande o bastante para todos! ― Disse um
outro.
―
Devemos socializar
esse queijo e dividi-lo em partes iguais! ― Acrescentou o mais
velho.
Os
discursos filosóficos eram emendados um após o outro e cada um ao
seu término era aplaudido e ovacionado. Nunca se vira antes tanta
união e fraternidade entre as ratazanas e os camundongos. No final
ficou decidido que estudariam minuciosamente o comportamento daqueles
gatos e tentariam se igualar a eles, para que dificilmente fossem
distinguidos uns dos outros.
Após
algum tempo de sacrifício os ratos conseguiram se igualar aos gatos
de tal maneira que até os Deuses não perceberam. Era chegado o
glorioso dia de se infiltrarem na superfície. Saíram
dos esgotos todos os ratos: fortes, fracos, velhos, novos, pretos,
brancos. Passaram a fazer parte de todos os segmentos sociais, mas o
objetivo maior era o grande queijo redondo.
Uma nova reunião
foi feita para saber como seria a divisão daquele enorme queijo e
quem saborearia dele.
Depois de muita
polêmica ficou decidido que já estando o queijo dividido em duas
partes: a meia lua voltada para cima ficaria sob a responsabilidade
dos jovens camundongos e a outra meia lua voltada para baixo seria
comandada pelas ratazanas mais velhas e experientes e elas é que
dariam a aprovação final em tudo.
Aprovado o projeto
de socialização do queijo, tomaram posse. Mas logo a maioria dos
ratos também perceberam que não mais havia diferença entre os
ratos e gatos, pois todos eram farinha do mesmo saco. Os ratos mais
fortes, juntos com os gatos, continuaram a enganar e subjugar os mais
fracos, a fazer leis para se proteger e a aprovar aumentos de
impostos sobrecarregando a todos. Tudo isso para poderem tirar do
queijo uma parte maior.
Agora só resta aos
humanos exterminar esses ratos e gatos do Congresso, ou esperar que
os Deuses tomem essas providências.
Proposta
Diabólica
-
Táxi! – Gritou o estranho homem na beira da calçada, que
aparecera do nada.
Paulo
parou seu carro e ouviu a pergunta do cidadão que acabava de entrar
em seu carro.
-
O senhor pode ficar a nossa disposição o dia inteiro?
Aquele
passageiro cheirava a enxofre puro.
-
Como nossa, se só estou vendo o senhor?
-
É que outras pessoas nos aguardam. – Respondeu rindo.
-
Depende, o que desejam que eu faça?
-
Sou agenciador de programas para a alta sociedade.
-
Mas como funciona isso?
-
Meus clientes têm o desejo de se relacionar intimamente com um
taxista.
-
Tem que ser eu? Por acaso fui escolhido ou eles se interessaram por
qualquer um?
-
Não, a escolha é feita por meu chefe e eu sou encarregado de
recrutar.
-
Você trabalha para alguma agência de emprego?
-
Mais ou menos... Então? Você vai passar o dia na residência deste
casal?
-
Fazendo o que, propriamente? – Paulo insistiu em saber.
-
Ora transando com os dois ao mesmo tempo, ora só com ele, ora só
com ela.
-
Agora sim está ficando interessante... Mas quanto eles estão
pretendendo pagar pelo serviço extra? – Especulou o motorista já
com a intenção de aceitar.
-
Aceita ou não?
-
Você ainda não me respondeu sobre o pagamento!
-
Vai depender da sua atuação.
-
Como assim?
-
A tabela varia: – Se for boa você continua livre; se for razoável,
terá uma nova chance; se for ruim terá que frequentar o curso de
reciclagem que meu chefe administra.
-
E quem faz essa avaliação: – o diabo? – Paulo gozou o
passageiro sem saber na verdade de quem se tratava.
-
Que isso, amigo? Sou eu mesmo, meu chefe tem mais o que fazer. Ele só
entra em ação se a sua atuação estiver abaixo da crítica. –
Riu mostrando uma dentadura pra lá de amarela, de tão sujos que
estavam seus dentes.
-
E esse curso que teu chefe ministra é feito no inferno? – Paulo
continuou ironizando.
-
Agora você acertou em cheio, meu amigo. É lá mesmo.
-
E você que fica assistindo o meu desempenho aqui.
-
Claro, eu daqui e ele lá do escritório. Como vou poder avaliar seu
desempenho? Não posso ser enganado.
-
Se me garantir que vai avaliar na melhor tabela, leva um qualquer. –
Paulo continuava com a ironia.
-
Desculpe, mas não preciso de remuneração. Temos um contrato com
eles pela eternidade e somos bem pagos.
Nessa
hora o cheiro do enxofre se acentuou ainda mais.
-
Meu amigo, não faço negócio do qual eu não possa ter controle.
-
Basta que você se esforce. Se precisar faça um acordo com o meu
chefe que ele te ajuda.
-
Opa! Assim fica complicado. Melhor deixá-lo fora dessa conversa.
-
Ai sim complicou. Não tem como deixá-lo de fora, Ele participa de
tudo e adora assistir essas festinhas.
-
Vai que eu passo com eles o dia todo e no final eles dizem que não
gostaram? Como eu faço?
-
Você vai poder reclamar diretamente com meu chefe.
O
motorista demonstrando preocupação resolveu terminar aquele
encontro.
-
Com essa resposta, aí mesmo é que acaba de complicar a coisa.
-
É pegar ou largar. Aceita?
Paulo
virou-se para responder ao passageiro.
-
Não posso aceitar. Tenho outro compromisso neste momento.
Para
sua surpresa ele tinha desaparecido.
O
herdeiro
Iran
herdara com a morte da sua mulher aquela enorme fazenda. Parece que
depois disso acentuou ainda mais a sua avareza, que não era pouca.
A
vista da paisagem passou a ser aconchegante, graças à construção
do lago e da arborização colocada à volta, imposição feita por
sua mulher um pouco antes de morrer, e essa vontade custou a Iran uma
fortuna que vivia a reclamar tal desperdício. Seu apego ao dinheiro
era tanto que certa vez ao ser indagado pelo irmão se poderia pagar
o tratamento que seu sobrinho precisava fazer, respondeu:
-
Acha mesmo que eu gastaria meu dinheiro com doença, Alfredo?
-
Mas o meu filho pode morrer se não for operado urgente.
-
É a vida, meu irmão. Não posso fazer nada.
Seu
velho e compreensivo amigo Ari, dedicado espírita, que estava
presente neste momento chegou a interceder em favor do menino, mas
foi em vão.
Quinze
dias mais tarde morria o sobrinho desafortunado.
Algum
tempo depois da morte do menino, Iran foi visitado pelo amigo Ari,
que o repreendeu e alertou:
-
Sua atitude com seu irmão não foi digna de um cristão.
Arrependa-se enquanto há tempo.
-
Do que deveria eu me arrepender?
-
O pior cego é aquele que não quer ver, meu irmão.
-
Ari, deixe as citações para uma outra ocasião.
-
Então vou lhe dar um conselho; Já que você não quer mudar,
procure deixar algum dinheiro à mão para um eventual tratamento que
possa precisar. Sem ele, você poderá morrer.
-
Não estou doente. Por que faria isso?
-
E só uma precaução. Pense a respeito.
-
Não. De forma alguma farei isso.
Ari,
vendo que não conseguiria dissuadir o amigo de sua posição, deu
por encerrada a conversa e a visita. O tempo passava e Iran
continuava cada vez mais avarento. Praticamente virou uma doença
esse seu comportamento.
Sabendo
disso, seu amigo Ari mais uma vez voltou a visitá-lo.
-
E então meu amigo, como tem passado?
-
Mais ou menos. Vez por outra a saúde da umas rateadas.
-
Iran, você ainda lembra do que lhe falei?
-
Claro, mas não é nada de tão grave, que um bom chazinho de ervas
não possa resolver.
-
Eu continuo com o mesmo pensamento. Você precisa deixar um dinheiro
aqui na fazenda para qualquer emergência.
-
Não posso deixar de aplicar meu dinheiro. Além do mais, o meu
procurador é o Alfredo, meu irmão. Esqueceu-se? Ele não me
deixaria morrer por falta de recurso. Afinal, o dinheiro ainda é
meu, ele só o administra para mim.
-
Não se esqueça que você se enfiou nesta fazenda, longe de tudo e
de todos.
-
Não tem problema. Qualquer coisa mando avisar meu irmão.
-
Ponha pelo menos um telefone aqui para poder se comunicar
rapidamente.
-
Ficou maluco? Acha que vou desperdiçar meu dinheiro com essa
porcaria? Será mais uma conta para eu pagar.
-
Trata-se de uma necessidade.
-
Com certeza assim que souberem da existência dele, ligarão para me
pedir dinheiro. Não farei isso.
Ari
resolveu não falar mais nada. Era perda de tempo, sabia que não
mudaria o pensamento do amigo. Devido a sua teimosia, Iran dois anos
mais tarde vem a pagar um preço bastante alto. Sofre um AVC ficando
totalmente incapacitado e não podendo se mexer e sem meio de se
comunicar, dias mais tarde falece por falta do atendimento médico
especializado que não pode chamar.
No
velório, por curiosidade Ari em conversa com Alfredo, o procurador
do falecido, quis saber.
-
Por que você não cuidou do seu irmão? Pelo que sei ele tinha
recursos para o tratamento.
- Disse-o bem, “ele
tinha recursos”. Entretanto, sendo eu o seu único herdeiro, você
acha mesmo que eu gastaria meu dinheiro com doença, Ari?
O
Garanhão II
Naquela
famosa operadora de cobrança, que abrigava uma grande quantidade de
rapazes alegres, eles começaram a semana entristecidos. Afinal, o
grupo foi desfalcado pela mais recente aquisição, que,
arrependendo-se de sua decisão anterior (voltou para o armário),
regenerou-se - e
pelo visto voltou à ativa em grande estilo.
O
Garanhão tomara tal decisão atendendo aos seus instintos másculos
e também devido ao grande apelo da mulherada que não se conformava
com aquela atitude (androgenára-se). O seu retorno à normalidade
foi logo notado, pois veio trabalhar com uma calça de brim não tão
justa e uma camisa azul escuro fabricada sob a grife Aldeia dos
Ventos, da tribo Skate Board, cujo símbolo é uma caveira.
Para
espanto de alguns ele não parou por aí. Neste primeiro dia, durante
o expediente, demonstrou sua atenção em larga escala, e na saída
fez-se acompanhar de uma das interessadas. Essa cena passou a ser
corriqueira, motivando grande confusão entre as disputantes ao posto
de “primeira dama”, como ele gostava de se referir àquela que
conseguisse conquistar seu coração.
Não
demorou muito e a situação fugiu ao seu controle, de tal forma que
na sexta-feira, após o expediente, estavam todos reunidos em frente
ao prédio tomando o tradicional chopinho, quando o garanhão chegou
acompanhado de uma das pretendentes.
Seu
ar, que era de superioridade, logo se perdeu ao avistar vindo na sua
direção a ex-noiva, mulher de poucas palavras e decisão rápida.
Tinha estatura bem mais alta que a sua e impunha certo respeito por
estar sempre séria. Ela não disse nada, e sem mais nem menos desceu
a lenha nele, o que foi seguido pelas surras das outras que se
sentiam usadas.
O
Garanhão apanhou tanto que, sem poder revidar, acabou cheio de
hematomas e arranhado. Já todo rasgado de nada valeram suas
súplicas, pois a ex-noiva e as outras rapidamente o deixaram de
cueca no meio da rua.
Ao
final, foi embora da mesma forma que chegou: pisando firme e sem
dizer uma única palavra.
Conquistar
ou não?
Oduvaldo estava
sentado há horas naquele banco da praça. Seu olhar perdia-se na
distância como a querer encontrar lá no infinito as respostas para
tudo que tinha lhe acontecido.
Trabalhara duro na
vida até ali. Por várias vezes viajou a trabalho e com isso não
pode acompanhar de perto o crescimento de seu filho. Sua mulher
sempre lhe perguntava se valia a pena tudo aquilo, mas na sua cabeça
nada era mais importante que uma bela casa e um bom automóvel na
garagem.
Esquecia-se das mais
simples necessidades, tipo; curtir um fim de semana com a mulher e
filhos ou ir a uma reunião festiva dos amigos e parentes.
De repente, da noite
para o dia, Oduvaldo viu seu carro importado e a bela mansão com
vista exuberante para o mar serem soterrados com o deslizamento da
encosta ocorrida na região. Quase perdera a família e a própria
vida. Teria valido a pena tanto esforço e sacrifício?
Uma
campanha, um MBA
Quinto
dia de uma promoção comercial. Até aquele momento a venda dos tais
produtos em evidência não tinha decolado.
Os
empregados responsáveis pelo evento estavam todos reunidos
confortavelmente na aconchegante varanda existente no terraço do
grande atacado de variedades, aguardando a chegada do gerente e do
exigente proprietário da organização.
Enquanto
isso Oduvaldo, – que acabara de fazer MBA em Administração, e era
pós-graduado com mestrado em marketing – recém contratado como
gestor de negócios por todas essas qualificações e muito bem
remunerado, ouvia do dono da empresa uma significativa reclamação.
-
Quando olhei para aquilo lá na entrada da loja não imaginei que
alguém fosse capaz de fazer tal coisa, Oduvaldo. Pode me explicar
quem foi o autor da ideia?
Como
dizer ao patrão que tinha partido dele a iniciativa daquela
campanha.
-
É realmente impressionante, e ao que tudo indica não está surtindo
o efeito desejado.
-
Com certeza! Ainda bem que voltei antes da minha viajem de férias e
pude constatar o erro a tempo. O que me diz de suspender a campanha e
corrigir seu curso?
-
Farei isso imediatamente, seu Gregório.
-
Antes faça o favor de pegar sua equipe e ensine-os como deve ser
feito.
-
Embora eu tivesse certeza de que os envolvidos no trabalho não eram
lá muito qualificados, não imaginei que conseguisse chegar a tanto.
Vou tomar as providencias para que não errem novamente.
-
Não entendi ainda por que você deixou fazerem aquilo, se sabia das
limitações deles?
-
Não há justificativa eu sei, mas deixei de propósito para que os
responsáveis das outras seções a vissem e não cometessem o mesmo
erro.
-
Mas é o meu dinheiro que está queimando. Não é uma burrice deixar
aquilo lá exposto tanto tempo? Reúna o pessoal e oriente para que
aquilo não se repita novamente.
-
Pode deixar. Vou falar com eles ainda hoje.
Oduvaldo
não perdeu tempo e partiu para o alerta.
-
Todos já tomaram conhecimento daquela “merda” que foi feita?
-
Não. Do que o senhor está falando?
-
Então não sabem que aquilo feito lá na entrada da loja não pode
ser repetido?
-
Mas foi o senhor quem mandou fazer daquele jeito, só cumprimos sua
determinação.
-
Refaçam tudo. Até porque, o patrão não está nem um pouco
satisfeito com as vendas.
-
Então o que iremos fazer para não cometer outro erro? Ou melhor,
como o senhor mesmo disse, “aquela merda!”
-
Primeiro, jogaremos todo o material fora, é claro.
-
Só isso, senhor?
-
Evidente que não. Vamos elaborar outra campanha e corrigir o que
erramos, pois se acontecer de novo, a empresa não arcará com o
prejuízo e todos já sabem como iremos ficar.
-
Na “merda”. – Respondeu rapidamente um dos funcionários sem
pensar.
-
Vejo que entenderam o meu recado e aprenderam como trabalhar.
-
Quanto ao recado entendemos perfeitamente, mas com referência a nova
campanha, o senhor ainda não disse nada.
-
Usem da imaginação, já os ensinei da vez passada e não vou
repetir tudo novamente. Vocês precisam arcar com as
responsabilidades do que vão criar. É para isso que são pagos.
Está encerrada a reunião.
Maus-caracteres
Quando
não é para ser, tudo aquilo que se tenta realizar acaba indo por
água abaixo e essa experiência como tantas outras no cotidiano das
pessoas merece ser contada, mesmo que não seja uma das vitoriosas.
Logo
após seu desligamento da empresa em que trabalhava, meu amigo
Herbert resolveu ter seu próprio negócio e para isso providenciou a
abertura da tão sonhada firma.
Como
sempre trabalhou na área comercial de vendas de produtos populares,
achou que deveria continuar no mesmo seguimento e concentrou seu
esforço na montagem de um atacado voltado para a distribuição de
mercadorias.
Seus
sonhos não eram pequenos, era o que sempre me falava, e dentre eles
estava o de poder empregar um número cada dia maior de pessoas, bem
como atender os pequenos varejos da periferia que não podiam comprar
as quantidades que as multinacionais e os grandes distribuidores
impunham a eles.
Firma
quase que montada deu início aos negócios mesmo faltando o Alvará
de Licença. Avisei do risco que correria sem tal documento, mas
como precisava ganhar a vida resolveu arriscar assim mesmo.
No
começo conseguia dar conta das entregas das mercadorias vendidas,
por seus três vendedores, com seu automóvel de passeio.
Entretanto,
vendo o volume de vendas aumentar e também precisar do automóvel
para atender as necessidades da família resolveu comprar um veículo
próprio para fazer as entregas.
Pesquisou
qual dos que estavam disponíveis na época melhor o atenderia. Saiu
vencedor o furgão Fiorina.
Procurou
e comprou um.
Seu
primeiro prejuízo deu-se com dois meses de trabalho, quando teve que
reforçar o furgão pois sua estrutura não aguentou o tranco. Mais
dois meses e foi obrigado a retificar do motor.
Os
meses passaram e nada do Alvará ser liberado.
Era
o Governo Sarney, inflação galopante, congelamentos, planos
mirabolantes para conter a inflação, mas nada disso tirava o ânimo
de Herbert e ele trabalhava cada vez mais para dar conta da demanda
das entregas.
Nesse
meio tempo é eleito o Sr. Fernando Collor de Melo, o caçador de
Marajás, tido como a salvação da lavoura. Na época, com a
inflação já batendo na casa dos 85%.
Ledo
engano, pois ao assumir o governo confiscou aplicação financeiras e
a poupança dos brasileiros, deixando todo mundo com apenas Cr$
50,00.
Com
essa medida Herbert foi obrigado parar com sua atividade e não tendo
dinheiro para fechar a empresa a mesma continuou como se estivesse
funcionando, mas até aquele momento o Alvará de licença da
Prefeitura não havia sido expedido.
Seu
segundo e derradeiro prejuízo deu-se com a visita de um fiscal do
ICMS que, não encontrando ninguém no endereço da firma, a mesma
estava fechada, aplicou-lhe uma multa à revelia, da qual só tomou
conhecimento cinco anos mais tarde, quando a mesma já estava sendo
ajuizada e seus bens pessoais correndo risco de irem a leilão. Bem,
tudo isso foi resolvido a contento.
Entretanto,
sua última experiência negativa com a tão sonhada firma foi quando
precisando de recursos resolveu vender o furgão.
Logo
apareceu o comprador interessado, era o dono de uma lavanderia na
Barra da Tijuca e também funcionário do Banco Central.
Tudo
acertado, o mesmo pagou 30% em dinheiro e pediu que seu cheque
pessoal do Banco do Brasil no valor restante fosse depositado uma
semana mais tarde, pois sua empresa estava sem caixa e o cheque seria
descontado do seu pagamento na devida data.
Assim
foi feito.
Cheque
depositado e após compensação devolvido por ter sido sustado pelo
emitente.
Fomos
até a tal lavanderia na Barra para receber o valor do cheque, mas
não encontramos o cidadão e na ocasião o funcionário que nos
recebeu informou que ele só aparecia no local ao final de cada mês.
Não
restando alternativa fomos até ao Banco Central onde o cidadão
trabalhava, lá chegando, na portaria fomos avisados que o mesmo nãos
se encontrava.
Desconfiamos
ser a desculpa de que todo safado dá e então sugeri ao meu amigo
que fossemos falar diretamente com o chefe dele.
Para
nossa surpresa seu chefe não demonstrou nenhuma dúvida com o que
tínhamos explanado, e na mesma hora ligou para onde seu funcionário
estava e convocou sua presença na sala.
Ao
chegar e nos ver, o pilantra se espantou e logo foi se desculpando,
mas seu chefe secamente o cortou e mandou que pagasse o valor em
dinheiro na hora, o que demorou alguns instantes, tempo suficiente
para ele retirar o dinheiro no caixa interno que funcionava no Banco
Central e pagar meu amigo.
Até
hoje quando nos encontramos damos gargalhada com a cara de espanto do
sem vergonha.
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