“Juramento da Princesa Isabel como Regente do Estado e como herdeira do trono Brasileiro.”


15
de Novembro 1889 - A
República
no Brasil
O
embarque para o exílio
Todos
permaneceram o dia 16 detidos no Paço, com soldados com baionetas e
cavalarianos cercando o prédio. Ficou acertado que no dia seguinte,
domingo, 17/11, por volta das 15 h, D. Pedro II e os demais
embarcariam, tendo sido permitido a ele assistir de manhã à missa
na Capela do Carmo, vizinha ao palácio. Mas, de madrugada, o Conde
d´Eu foi inesperadamente despertado com a chegada do seu ajudante de
ordens, o tenente-coronel João Nepomuceno de Medeiros Mallet,
acompanhado do brigadeiro José Simeão de Oliveira, que lhe
comunicou que o governo provisório temia o derramamento de sangue na
partida da família imperial, pois soubera que havia um grupo
disposto a provocar atritos quando da saída do monarca.
Acordado,
o Imperador foi informado que deveria se vestir para embarcar.
Surpreso e revoltado, disse "que não sairia como um negro
fugido...". Mas, por volta das três da manhã, foi escoltado
juntamente com a Imperatriz e toda a família, além de alguns
amigos, para o Cais Pharoux, bem atrás do Paço Imperial, hoje Praça
XV. Somente um coche negro puxado por dois cavalos estava à
disposição, onde foram os imperadores e a princesa Isabel; os
demais seguiram a pé. Uma lancha do Arsenal de Guerra, tripulada por
quatro alunos da Escola Militar, aguardava-os, sendo transportados
para o pequeno cruzador Parnaíba, apelidado de "gazela do mar",
fundeado na Baía da Guanabara, próximo à Ilha Fiscal.
Às
10 horas da manhã chegaram os três jovens príncipes, Pedro de 14
anos, Luiz de 11 anos, e Antônio de 8 anos, que se encontravam em
Petrópolis, acompanhados pelo seu preceptor, o Barão de Ramiz
Galvão, e do engenheiro André Rebouças, amigo da família
imperial, que havia subido a serra especialmente para trazer os
filhos da Redentora e do Conde D´eu. A bordo, profundamente abalada,
estava a Imperatriz D. Thereza Christina, que muito chorava; não
menos comovida estava a Princesa Isabel, mas aliviada com a chegada
dos seus filhos.
O
segundo decreto assinado por Deodoro concedia ao Imperador deposto
uma soma de dinheiro para sua viagem à Europa. O tenente Jerônimo
Teixeira França foi incumbido de levar esse documento do governo
provisório a D. Pedro; primeiramente deveria ser entregue no Paço,
mas o major Mallet, receando que o imperador pudesse criar algum mal
estar no momento, não deixou entregá-lo, o que foi feito somente a
bordo do Parnaíba. Mas ele recusaria por mais de uma vez a oferta
monetária. Entre os poucos amigos que foram se despedir de D. Pedro
II, estava o velho almirante Joaquim Marques Lisboa, o marquês de
Tamandaré.
Ao
meio-dia de 17 de novembro de 1889, a embarcação sob o comando do
capitão-de-fragata José Carlos Palmeira, levantou ferros e partiu
em direção a Ilha Grande para encontrar o paquete Alagoas, da
Companhia Brasileira de Navegação a Vapor, o mais novo e moderno
navio de passageiros da marinha mercante do Brasil, que fora
requisitado pelo governo republicano, para levar a realeza destronada
para o exílio na Europa, e o seu pequeno séquito. Além dos membros
da família imperial, de André Rebouças, viajaram o barão e
baronesa de Loreto, Franklin Américo de Meneses Dória, e a sua
esposa Maria Amanda Lustosa Paranaguá; o marquês e a marquesa de
Muritiba, Manuel José Vieira Tosta e sua esposa Maria José Velho de
Avelar, amiga e dama da princesa Isabel; a octogenária viscondessa
de Fonseca Costa, Josefina de Fonseca Costa, dama da Imperatriz por
mais de 40 anos; o professor de línguas orientais dr. Cristian F.
Seybold; o médico do imperador Claudio Velho de Motta Maia, conde
Motta Maia, e seu filho Manoel Augusto, de 14 anos; as criadas da
imperatriz Joana de Alcântara, Leonídia L. Esposel, Ludomilla de
Santa Mora, Maria da Gloria e Julieta Alves; o criado do príncipe D.
Pedro Augusto François N. Boucher; os criados dos filhos da princesa
Isabel, Eduardo Damer, e Guilherme Wagner Camerloker; o professor dos
príncipes mais novos Fritz Stoll, além de Francisco de Lemos Faria
Pereira Coutinho, o conde de Aljezur, substituindo o mordomo
imperial. O transbordo dos passageiros para o navio Alagoas foi
realizado com dificuldades e perigos de um mar agitado, sendo a
Imperatriz ajudada por dois marinheiros.
O
novo governo determinou que o encouraçado Riachuelo da Marinha de
Guerra, sob o comando do então Capitão-tenente Alexandrino Faria de
Alencar (seria ministro da Marinha em três governos da República),
fizesse a escolta até a linha do Equador do Alagoas, já fora de
águas territoriais brasileiras. Durante a viagem Dom Pedro notou a
que a velocidade da embarcação estava muito lenta e indagou ao
comandante do navio - português, mas brasileiro por adoção -, João
Maria Pessoa, a velocidade do Riachuelo. Foi informado que era de
apenas sete ou oito milhas náutica. Apesar de não ser antigo -
tinha apenas pouco mais de cinco anos de uso - e D. Pedro II de muita
boa memória, sabia que quando foi construído sua velocidade máxima
era de 16 milhas. Concluiu-se que a embarcação de guerra estava com
problemas mecânicos. Um dia o imperador reclamou ao capitão Pessoa,
e apontando ao 1º Tenente João Augusto do Amorim Rangel, oficial da
Marinha que estava a bordo para cumprir as determinações das
autoridades republicanas, juntamente com seu colega, o 2º Tenente
Antônio Barbosa de Magalhães Castro:
-
Diga a esse moço que vem a bordo, que se o Riachuelo é honraria, eu
dispenso; se quer dizer receio, eu não quero voltar. O Brasil não
me quer, vou-me embora!
Na
altura da Bahia, no dia 22 de novembro, para alívio de todos, e em
especial de D. Pedro, o Riachuelo encerrou sua missão, e deu meia
volta para dirigir-se a Salvador, e o Alagoas pode então seguir sua
longa viagem, em uma velocidade compatível com suas
caldeiras.
Durante
a viagem, o jovem príncipe D. Pedro Augusto, neto de D. Pedro II, e
por ele criado e pela imperatriz, desde a morte de sua mãe a
princesa Leopoldina de Bragança, quando contava com quase cinco anos
de idade, começou a dar sinais de debilidade mental. Com mania de
perseguição, no seu primeiro surto psicótico, tentou esganar o
comandante do navio, a quem acusava de ter recebido dinheiro para
eliminar a todos. Contido e confinado em seu camarote, foi acometido
de delírios persecutórios, chegando a envolver seu corpo numa boia
salva-vidas, temendo que o navio fosse bombardeado. Alternando
momentos de excitação e de letargia, Pedro Augusto jogava garrafas
ao mar com pedidos de socorro. Pelo menos uma dessas mensagens, foi
encontrada na praia de Maragogi, próximo a Maceió, em Alagoas.
Posteriormente seu pai, o príncipe austríaco Luís Augusto de
Saxe-Coburgo-Gota, o internou primeiro em Graz, e depois em um
sanatório em Tülln an der Donau, onde permaneceu por quarenta anos,
até sua morte em 1934.
No
dia 1º dezembro, houve uma parada para reabastecimento em São
Vicente, no arquipélago de Cabo Verde, uma possessão portuguesa, no
oceano Atlântico, próxima da costa africana. Os passageiros foram
autorizados a descer, e foram visitar alguns pontos da cidade,
incluindo uma igreja, onde rezaram. Dessa escala, foi içada na popa
do Alagoas uma bandeira imitando o "M" do Código
Internacional de Sinais, com o fundo completamente vermelho e sobre
filetes brancos as 21 estrelas em filete azul, sendo a estrela do
centro maior. Essa bandeira foi entregue em alto mar pelo comandante
do Riachuelo ao capitão Pessoa, como símbolo do novo regime
brasileiro. A nova bandeira iria causar uma quase crise com Portugal,
que determinou a sua retirada por não ser reconhecida de acordo com
as normas internacionais. Para evitar maiores problemas, o governo
provisório brasileiro determinou que durante a permanência do navio
em águas portuguesas não fosse arvorado nenhum pavilhão.
Quando
da partida do Alagoas, o navio da marinha portuguesa Bartolomeu Dias,
que estava no porto, deu uma salva de 21 tiros de canhão. Nesse
momento, foi içada a bandeira do Império, e todos que estavam a
bordo, se levantaram e bateram palmas, alguns emocionados até as
lágrimas. Da embarcação lusitana e de alguns navios alemães que
ali se encontravam, tripulantes e passageiros sacudiram lenços
brancos. No dia seguinte, foi comemorado a bordo o 64º aniversário
do Imperador, que ficou muito comovido ao ouvir as palavras de
saudação do comandante Pessoa em sua homenagem, quando este ergueu
um brinde, ao lado dos presentes. D. Pedro respondeu com palavras
trêmulas:
-
Bebo a prosperidade do Brasil!
Em
Portugal
Em
7 de dezembro, com a bandeira do Império tremulando no mastro, o
Alagoas finalmente chegou a Lisboa. D. Pedro foi recebido com honras
por seu sobrinho D. Carlos, e toda a corte portuguesa. Permaneceu na
capital lusitana por 15 dias. Nesse curto período, visitou o túmulo
de seu pai D. Pedro I (D. Pedro IV para os portugueses), na Igreja de
São Vicente de Fora, onde rezou, e depositou, no mesmo local, uma
coroa de flores no túmulo do Rei Luís, recentemente falecido, tendo
participado de uma missa em intenção da alma desse seu sobrinho.
Foi a escolas superiores, associações científicas, como o Museu do
Carmo, a Escola Politécnica, o Curso Superior de Letras, onde
assistiu aulas, o bairro lisboeta da Alfama, o Jardim Zoológico, a
Escola Médica, o Hospital São José, a Academia de Ciências, o
Mosteiro dos Jerônimos, onde colocou uma coroa no túmulo do poeta e
escritor português Alexandre Herculano, e no hotel onde ficou,
recebeu algumas visitas. Esteve também nos palácios das
Necessidades, residência dos reis de Portugal, e de Queluz, em
Sintra. Nesse permaneceu em silêncio por muito tempo, meditando,
diante da cama aonde havia falecido seu pai. Esteve ainda na Ajuda,
palácio real de verão, e em Belém, residência oficial dos
príncipes reais, para retribuir as visitas do Rei e da família real
portuguesa fizeram no hotel Bragança, onde estava hospedado com sua
família e comitiva.
Seu
sobrinho D. Carlos seria coroado rei de Portugal em 28 de Dezembro, e
D. Pedro resolveu então realizar uma visita à região do Minho, no
norte do país. No dia 22, chegou a Coimbra, sendo recepcionado pelos
estudantes e professores da velha universidade, e depois seguiu para
a cidade do Porto. Seu único intuito era não perturbar os festejos
reais. No Porto, enquanto visitava a Academia de Belas-Artes, no
mesmo dia 28, a imperatriz D. Thereza Christina, com a saúde
debilitada, sofrendo de bronquite, amargurada e abalada com a
situação causada com a proclamação da República, e o consequente
exílio, faleceu repentinamente, aos 67 anos de idade. Avisado do
grave estado, retornou rapidamente ao hotel, mas quando chegou sua
companheira por longos 46 anos, estava morta. Sua tristeza foi
profunda; em silêncio, chorou a partida de sua amada Thereza
Christina. Sua filha Isabel, com seu marido Conde D´Eu, e seus
filhos tinham ido à Espanha visitar os tios, os condes de
Montpensier que lá residiam, e retornaram a Portugal assim que
receberam a notícia do passamento da imperatriz.
O
corpo de D. Thereza Christina, depois de embalsamado, e velado na
igreja da Lapa - local onde permanece guardado o coração do
imperador do Brasil, D. Pedro I - foi transportado de trem do Porto
para Lisboa e depositado no Panteão dos Braganças na Igreja de São
Vicente de Fora, ao lado da segunda imperatriz do Brasil, D. Amélia,
com a presença da família real portuguesa, e autoridades. Após os
funerais de sua esposa, permaneceu poucos dias em Lisboa, seguindo
para a França, hospedando-se em Cannes, para fugir do forte inverno
europeu.
Exílio
e morte do imperador
Menos
de dois anos depois, o Imperador se encontrava em Paris, para
participar das sessões do Instituto de França, na Academia de
Ciências, da qual era sócio. Em 24 de novembro, foi fazer um
passeio em carruagem aberta até Saint-Cloud, nas margens do rio
Sena, onde apesar do frio do inverno resolveu fazer uma caminhada. No
dia seguinte, amanheceu febril, contraindo um forte resfriado e seu
estado de saúde foi se agravando.
O
último imperador do Brasil veio a falecer aos vinte minutos do dia 5
de dezembro de 1891, vitimado por uma pneumonia aguda no pulmão
esquerdo, em um modesto quarto do Hotel Bedford, três dias após
completar 66 anos de idade.
D.
Pedro II, em seu leito de morte, estava vestido com o uniforme de
marechal do Exército imperial brasileiro, com as condecorações do
Brasil, França, Portugal, e um crucifixo em suas mãos, que havia
recebido do Papa Leão XIII. Um livro, significando que descansava
sobre o conhecimento, foi colocado embaixo do seu travesseiro com
terra de todas as províncias (hoje estados) brasileiras. Um pedido
que havia deixado por escrito.
O
governo francês resolveu prestar as últimas homenagens de Estado ao
Imperador brasileiro, e comunicou à princesa Isabel que aceitou as
honras oficiais, mas o governo brasileiro protestou por essa atitude.
No Brasil, ao saberem da morte do antigo monarca, o comércio fechou
as portas, e várias missas foram realizadas por sua alma por todo o
país.
O
corpo embalsamado do imperador foi levado para a Igreja da Madalena,
situada perto da Praça da Concórdia, a poucos passos do hotel onde
morreu. Ao meio dia de 9 de dezembro, com o caixão coberto com a
bandeira do Império brasileiro, colocado em um catafalco elevado na
nave da igreja, foi celebrada as exéquias solenes, pelo arcebispo de
Paris, com a igreja totalmente lotada, e a presença da Casa Militar
do presidente da França, Sadi Carnot, que o representou. Além dos
presidentes da Câmara e do Senado da República francesa, esteve
presente o cônsul-geral de Portugal em Paris, o escritor Eça de
Queiroz, todo o corpo diplomático, dentre inúmeras
autoridades.
Pelas
ruas de Paris, 80 mil homens das tropas francesas participaram das
honras. O coche fúnebre, puxado por oito cavalos cobertos de negro,
foi escoltado pela guarda republicana, acompanhado por uma banda de
música militar tocando a marcha fúnebre de Chopin, e nada menos que
300 mil pessoas, apesar do frio, foram prestar as homenagens a D.
Pedro II. Quando o cortejo passou pela Praça da Concórdia, foram
prestadas as honras militares, e uma bateria de artilharia deu as
salvas de estilo. O corpo foi transportado em um trem especial para
Lisboa, com uma parada em Madrid, onde a Casa Real espanhola prestou
também suas homenagens. Em Lisboa, o rei D. Carlos, toda sua
família, o ministério, altas autoridades, e milhares de pessoas
participaram também das honras e despedidas ao velho imperador
brasileiro. Na igreja de São Vicente de Fora, o cardeal Dom José
Sebastião de Almeida Neto, Patriarca de Lisboa, recebeu o esquife.
Depois de rezada uma missa, o corpo do Imperador foi colocado ao lado
da imperatriz Thereza Christina, no panteão da família
Bragança.
No
governo Epitácio Pessoa, em 1920, foi revogado o decreto de
banimento da família imperial, e no ano seguinte a bordo do
encouraçado São Paulo, da Marinha de Guerra, os restos mortais de
D. Pedro II e de D. Thereza Christina foram trazidos para o Brasil.
No ano de 1939, foram finalmente depositados em um túmulo
especialmente construído na catedral de Petrópolis, no estado do
Rio de Janeiro, em solenidade presidida pelo então presidente
Getúlio Vargas.
Antônio
Sérgio Ribeiro, advogado e pesquisador. É diretor do Departamento
de Documentação e Informação da ALESP.
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