Não sei se sou poeta.

Não sei se sou escritor.

Só sei que coloco as palavras.

Com bastante calor

Digo sempre o que sinto.

Para quem quiser ouvir.

Dificilmente eu minto.

Pode vir e conferir

Esses e outros escritos.

Tem aqui no meu cantinho.

Venha, é de graça e não tenha pressa...

Pode ler devagarzinho

A todos que aqui vierem.

Para ver o que propus.

Desde já agradeço.

Com Abraços de Luz


segunda-feira, 19 de maio de 2025

Marcas da Violência

 














MARCAS DA VIOLÊNCIA

























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Marcas da Violência

Romance Escrito em 2004

Rio de Janeiro - Brasil

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Agradecimentos


Ao meu filho Otávio Emanuel por se dedicar pacientemente em revisar este texto


Ao Dr. Pedro Henrique Alves, pelo carinho, paciência e suas informações elucidativas


Que Deus ilumine sempre seus caminhos













PRÓLOGO


Josef não aparentava, mas estava um pouco impaciente. Em virtude disso, aproveitou o momento e como era seu costume pegou sua agenda e a atualizou com os últimos acontecimentos. Para não demonstrar esta preocupação ao amigo, continuou conversando, tentando fazer a hora passar mais rápido.

- Interessante! Um relógio dessa qualidade parado.

- Provavelmente acabou a corda.

- Acredito que não. Que horas são Anderson?

- São vinte e três e quinze.

- Hum! Já está na hora. Vou pedir a conta e podemos ir andando.

- Antes tomemos um café... Creio que tão cedo não tomaremos um café como esse daqui.

- Certo, vou pedir... Garçom! Por favor, traga-nos café e a conta.

Tomaram o café, Josef pagou a conta e saíram. Eram vinte e três horas e trinta minutos. Do lado de fora do restaurante não havia ninguém. O segurança que deveria estar ali os esperando não se encontrava. Isso chamou a atenção de Josef, que imediatamente alertou a Anderson.

- Está acontecendo alguma coisa. Vá indo à frente e pare um táxi, que eu vou em seguida.

Anderson dobrou logo a esquina que ficava próxima e se distanciou uns cinquenta metros. Josef, ouvindo um disparo vindo daquela direção, correu para ver o que estava acontecendo e se preciso fosse, ajudar ao amigo, mas ao chegar à esquina foi parado brutalmente. Ainda conseguiu vê-lo caindo logo adiante.

- Surpreso?

- Mas o que você ganhou com isso?


























Capítulo Primeiro

Josef Nathan, 45 anos, judeu de nacionalidade austríaca, olhos frios e calculistas é um dos poucos sobreviventes dos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial, ocasião marcada pela morte de todos os seus entes queridos durante a prisão. Ao se ver livre, procurou pela Europa algum lugar para viver, entretanto suas lembranças o impediam de se sentir à vontade no Velho Continente e acabou por influência de alguns amigos escolhendo o Brasil para fixar residência, montar e cuidar dos seus negócios.

Com uma pequena herança de família que conseguiu reaver no pós-guerra, abriu sua primeira empresa no país. Atualmente, além das diversas empresas que possui, mantém seus negócios paralelos pelo mundo, em completo sigilo. Josef conseguiu em pouco mais de vinte anos construir um império, multiplicar sua fortuna e tornar-se um homem influente na comunidade Israelita e respeitado por uma enorme parcela da sociedade brasileira.

Os horrores da guerra são os principais responsáveis pela formação de seu caráter voluntarioso, dissimulado e vingativo. Entretanto, todos os dissabores vividos naquela época não lhe tiraram o charme, a elegância, o fino trato para com as pessoas, o amor à arte e o gosto refinado pela gastronomia.





Quinta-feira, nove horas da manhã do dia 14 de Novembro de 1968


Rio de Janeiro


Josef, quando estava no Rio, mantinha a sua quase rotina de todos os dias. Depois de deixar o seu automóvel - Jaguar - no Edifício Garagem, caminhava calmamente em direção ao seu local de trabalho. Como sempre elegantemente vestido, hoje com um terno de Tropical Inglês cinza grafite, feito por Lindolfo, um renomado alfaiate da cidade, uma camisa em cambraia de linho azul celeste, uma gravata italiana de seda pura azul turquesa e completando o vestuário, sapatos do Motinha de cromo alemão, feitos à mão especialmente para ele.

Seu escritório ficava localizado em um antigo imóvel, construído ainda no tempo de quando éramos colônia de Portugal, situado na Rua Gonçalves Dias nº. 39, no centro do Rio de Janeiro, em frente à famosa Confeitaria Colombo. Ocupava dois andares de um prédio de três e dispunha de oito grandes salas distribuídas e divididas da seguinte forma: Quatro salas no segundo andar, onde funcionavam o Departamento de Pessoal e Vendas, Diretoria de Administração, Departamento de Contabilidade, e o Departamento Financeiro. Quatro salas no terceiro andar onde ficavam localizadas as Secretarias dos departamentos, o Departamento Jurídico, o Arquivo Geral e a sala da Presidência. Em cada andar tinha dois toaletes amplos e luxuosos.

O Grupo Nathan & Co., como era conhecido, controlava oito empresas, sendo: - uma representação comercial, uma editora, uma administradora de imóveis, uma construtora, uma empresa de terraplanagem, uma fábrica de aramados, uma distribuidora de bebidas e um supermercado com quarenta e duas lojas espalhadas entre São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Empregava trinta mil seiscentos e dezesseis funcionários, doze diretores, oito secretárias, cento e quarenta e nove gerentes e treze assistentes, num total de trinta mil setecentos e noventa e oito pessoas. Também mantinham contrato com vinte e cinco representantes comerciais em todo o Brasil, mais mil e oitocentos contratos temporários de mão de obra para construção.

Todo o complexo onde funcionava a matriz do grupo era muito bem montado. Em seu interior podíamos encontrar peças valiosíssimas e obras de arte de todo o tipo. Os móveis eram de estilo francês, muito comum no século passado, e foram adquiridos do famoso antiquário Ernesto, um perfeito e incomparável janota que nos reporta aos do tempo do Império. Dizia ser descendente de uma tradicional família da nobreza brasileira. Segundo esse senhor, alguns desses móveis que comercializava tinham sido herdados de sua família ou adquiridos de descendentes de algum nobre. Ernesto descobriu em Josef sua mina de ouro, pois este não media esforço para obter uma obra de arte, pagando o preço que fosse e se preciso, usando até de meios não muito convencionais para tê-las.

Josef passava agora pela recepção e nela podia ser visto em uma moldura trabalhada em ouro com detalhes em esmalte, um espelho todo bordado à volta com motivos da flora brasileira, que ocupava a parede frontal. Segundo o antigo proprietário do imóvel, servia como um eficiente rebatedor de fluídos negativos. Pelo sim pelo não, Josef resolveu comprá-lo e o manteve ali. Um pouco mais ao lado, quase que encostado à parede, ele fez questão de colocar em cima de uma mesinha de jacarandá entalhada com motivos lembrando o estilo barroco, a imagem do Buda da Iluminação. Esculpida em mármore italiano, ouro e bronze, com aplicações esmaltadas e duas safiras azuis representando os olhos. Essas duas peças, a mesa e a imagem foram adquiridas num leilão em Londres e tinham a intenção de dar boas vindas a todos que ali chegassem.

Sentada a uma mesa estava Ângela, a simpática recepcionista que também acumulava a função de telefonista da empresa. Colírio matinal de todos os funcionários do escritório, que seguindo a linha de elegância do famoso empresário, seu patrão, também estava sempre muito bem vestida. Mais do que nunca sua beleza estava realçada. Apresentava-se dentro de um tailleur de linho lilás bem claro e uma blusa de seda pura com um estampado quase na mesma tonalidade. Ângela era por natureza uma mulher discreta. Cordialidade e a educação esmerada eram a sua marca registrada. Entretanto, todos os dias, esse momento da chegada do seu patrão a obrigava ao exercício dessas qualidades. Era para ela, inquietante e desconfortável, pois sendo a única a conhecer verdadeiramente aquele homem que se escondia de baixo das artes, das receitas gastronômicas, da máscara sorridente e da cordialidade, estava cada dia mais difícil conviver no mesmo espaço.

- Bom dia Ângela!

- Bom dia senhor Josef.

- Tudo bem com você? Seu filho melhorou?

- Tudo bem, graças a Deus... Sim melhorou.

- E quando ele vai para casa?

- O Júnior vai receber alta médica amanhã bem cedo.

- Ótimo, então lembra a Jurema para ela mandar nosso motorista ir apanhá-lo no Hospital e levá-los em casa... Bom trabalho.

- Muito obrigado senhor.

Impressionante, pensou Ângela; – como pode esse homem ser tão dissimulado. Quem não o conhece, só pela sua aparência, é capaz de jurar ser ele um grande samaritano, quando na verdade não passa de um homem frio, cruel, calculista e vingativo.

Ângela havia descoberto grande parte das atividades extra empresariais de Josef. A princípio por acaso, depois devido a circunstancias. Tudo aconteceu de repente, sem sua interferência ou vontade. A mesa telefônica responsável por todas as ligações dos departamentos ficou com os ramais abertos e ela pôde escutar uma ligação feita por ele. Ocasião em que pode constatar a chantagem que fazia ao Diretor do Banco Salles pressionando-o a conceder um empréstimo ao grupo. Sua curiosidade foi levando-a a escutar cada vez mais, e de tão horrorizada que ficou, e com medo de sofrer alguma represália, não teve coragem de informar o ocorrido. Quando resolveu notificar que o aparelho estava com defeito, já havia ouvido durante uma semana inteira o suficiente para colocar seu patrão na cadeia. Só não o fez por motivos óbvios. Medo de morrer.

No corredor, Josef deu uma parada na porta da sala das secretárias. Cumprimentou a todas, e dirigindo-se a sua, chamou-a até onde ele estava. Praticamente, todo dia Josef se perguntava por que aquela mulher era sua Secretária. Não tinha nenhum atrativo físico. Não se vestia com o mesmo esmero da recepcionista nem tão pouca era bonita. Ainda por cima, quase sempre emitia sua opinião em assuntos que não lhe diziam respeito. Tinha vontade de trocá-la, mas não conseguia porque como sempre chegava à conclusão que devido a sua capacidade profissional, e por saber demais sobre suas atividades, tornava-se refém dela.

- Bom dia Jurema!

- Bom dia Josef.

- Como vai... Está tudo bem por aqui?

- Está tudo sempre bem. Esperei ontem até as 18h00min, mas como você não chegava fui embora.

- Fez bem.

- Precisou de mim para alguma coisa quando chegou?

- Não precisei, aliás, eu nem vim ao escritório. Ontem fiquei envolvido com o Gualberto e a esposa. Imagine que acabei tendo que fazer uma refeição rápida para nós. Preparei um macarrão ao molho de camarão acompanhado por vinho branco. O dia voou, por isso não pude voltar à tarde. Olha só que receita simples, mas que fica uma delícia, você vai adorar.


***

Macarrão ao molho de camarão: – para seis pessoas.

Um pacote de macarrão Espaguete (500g);

Seis colheres (sopa) de óleo;

Três colheres (sopa) de pimentões picados;

Duas colheres (sopa) de cebola ralada;

Camarões miúdos (350g);

Uma lata de purê de tomate;

Uma colher (chá) rasa de açúcar;

Dois tabletes de caldo de galinha dissolvidos em meia xícara com água.

Como preparar: – Cozinhe o macarrão com água fervente e sal. Refogue juntos o óleo, o pimentão e a cebola. Junte os camarões e mexa por alguns minutos. Acrescente os demais ingredientes e deixe cozinhar por dez minutos. Escorra o macarrão e sirva-o com o molho.

***


- Ah! Jurema por favor, antes que eu esqueça, vou precisar que você pegue a pasta da Vitrine Exuberante. Está havendo desencontro de informação com relação ao que foi negociado, e o Walter pediu que eu desse uma confirmada no contrato. Não pode haver qualquer dúvida, pois corremos o risco daquele comprador de meia tigela desfazer um negócio que levou quase seis meses para ser fechado com a Diretoria deles.

- A pasta deste cliente está arquivada lá no Departamento de Vendas. Só um momento. – Jurema, voltando-se para Maria, encarregou-a de buscar o documento.

- Maria, pegue para mim a pasta da Vitrine na outra sala, por favor.

- Assim que ela trouxer lhe entrego senhor.

- Alguém ligou na minha ausência?

- Como sempre o pessoal em Belo Horizonte reclama sua presença por lá. O senhor Paulo Gomes das Lojas Fênix, o senhor Mário Henrique e o senhor Levy ontem lhe procuraram o dia inteiro. À tarde, o Secretário de Obras da Prefeitura também queria lhe falar. Pareceu-me que o homem estava aborrecido. O doutor Carlos, nosso engenheiro, também quer que o senhor dê uma olhada em todas as obras. Então, eu tomei a liberdade de dizer que talvez na próxima semana o senhor estivesse em Belo Horizonte. Fiz mal?

- Não, tudo bem. Aproveite e providencie minha ida para esta segunda feira de manhã no primeiro voo. Depois que conseguir a passagem, reserve um apartamento no Hotel Financial até quinta feira e retorne a ligação a todos que me procuraram. Confirme que estarei lá na próxima semana, e se não for lhe pedir muito, já deixe agendado com cada um o horário para os encontros. Lembre que com o Dr. Carlos vou precisar do dia inteiro. Quanto aos demais, pode marcar como sempre fazemos. Um de manhã, outro à tarde. Ah! Reserve também um dia inteiro com o Secretário, pois vou visitar as obras da Prefeitura. Aproveito e almoço com ele.

- Tem preferência ou ordem para os encontros?

- Não, ou melhor, marque na mesma sequencia em que me ligaram. Quando terminar me passe por escrito a agenda da semana com os encontros confirmados, para que eu possa ter certeza de que na sexta feira estarei de volta.

- Algo mais para essa viagem?

- Creio que não. Coloque na sua agenda para, ao longo da próxima semana, quando eu estiver viajando, ir marcando com nosso pessoal uma reunião geral para a outra segunda feira.

- Inclusive os gerentes das filiais?

- Também... A reunião será com todos.

- Então onde será a reunião? Aqui não cabe todo mundo.

- Será no auditório da associação.

- Vou reservar hoje mesmo.

- Ótimo, tem mais algum assunto para tratarmos, Dona Jurema?

- Sim, o seu amigo Jorge Cerqueira quer saber quando vocês vão poder se reunir. Ele está precisando colocar vários assuntos em dia e reclama um tempo. Se ligar de novo, o que faço?

- Sobre o Jorge vou pensar e mais tarde te falo. Você sabe que quando me reúno com ele temos que almoçar, e sempre perco o dia. Ele não abre mão das minhas receitas, e enquanto tratamos de negócios, com certeza vou ter que preparar nosso almoço.

- Parece que também estão querendo contratar nossa representação para mais um evento. Passo esse assunto para o Sr. Thomas resolver ou o senhor vai cuidar disso?

- Sobre essa representação, passe direto para o Thomas. Ele resolverá. Estou muito ocupado e não posso perder tempo com esse pessoal.

- Também ligou o senhor Charpantier, não disse o que queria e nem quem era, mas garantiu que você o conhecia e pediu que lhe ligasse assim que chegasse.

- Com o Charpantier, deixe que eu fale diretamente. É um assunto pessoal.

- Ah! Josef, minha mãe quer saber como se faz àquela torta de chocolate que você a presenteou.

- Quanto à torta, é fácil. Aproveite e anote agora, porque depois não vou ter mais tempo.


***

Torta de chocolate com amêndoas.
Massa

Um tablete de margarina (100g)
Uma xícara (chá) de farinha de trigo
Uma gema de ovo
Duas colheres (sopa) de açúcar
Recheio
Quatro colheres (sopa) de amido de milho
Três xícaras (chá) de leite
Meia xícara de chá de açúcar
Uma barra de chocolate meio amargo (200g)
Quatro colheres (sopa) de amêndoas picadas
Uma xícara (chá) de cacau em pó
Modo de Preparo: – Massa - Em uma tigela, junte a margarina, a farinha, a gema e o açúcar. Misture com a ponta dos dedos até formar uma massa lisa e homogênea. Reserve na geladeira por cerca de 10 minutos. Preaqueça o forno em temperatura média (180°C). Misture amêndoas na massa e forre uma fôrma desmontável (24 cm de diâmetro) com essa massa.

Leve ao forno por cerca de 20 minutos ou até dourar.
Recheio: – Em uma panela dissolva o amido de milho no leite. Junte o açúcar e leve ao fogo médio mexendo sempre até engrossar. Retire do fogo e misture o chocolate, mexendo até derreter. Deixe esfriar.
Montagem: – Coloque metade do recheio sobre a massa, polvilhe com metade das amêndoas. Repita a operação finalizando com as amêndoas. Polvilhe o cacau e sirva gelada.

***


- Patrícia também ligou, mas não falei nada sobre você.

- Ótimo, é melhor assim.

- Mas ela não desiste. Ontem mesmo soube que andou ligando para a fábrica e para as filiais a sua procura. Parece que o cupido deu-lhe uma daquelas flechadas e pelo visto só você vai resolver o problema. Acredito que ela vai continuar insistindo enquanto vocês não saírem.

- Vai se desvencilhando dela de qualquer maneira.

- Por que você não marca logo esse encontro e acaba de uma vez com essa ladainha? Mas cuidado, tua mulher anda meio desconfiada. Vira e mexe me dá umas indiretas, joga verde na tentativa de me pegar desprevenida e deixar escapar alguma coisa.

- Jurema, essa menina tem vinte e quatro anos. Poderia ser minha filha, mas ela não faz a mínima questão de entender que não existe possibilidade de ficarmos juntos, tampouco sermos amantes. Portanto, toda vez que me ligar, dê uma desculpa qualquer. Diga que viajei ou não estou.

- Vou acabar pedindo um aumento por isso, pois tenho que estar sempre atenta para lhe proteger com a sua mulher, e está ficando cada vez mais difícil tapear essa moça.

- Semana que vem vou estar em Belo Horizonte. Até lá vou pensando no que fazer. Certo?

- Você é quem sabe, por mim tudo bem.

- A princípio, caso ela volte a ligar me procurando, diga que estou viajando com o Thomas e que você não sabe para qual cidade fomos. Assim quem sabe ela vai se conformando e acaba desistindo de suas intenções amorosas.

- É ruim de isso acontecer, mas se você acredita, tudo bem Josef. Só não se esqueça que ela mora em Belô, então tome cuidado nos lugares que vai frequentar. Não abuse da sorte! Essa moça me parece capaz de fazer qualquer negócio só para estar com você. Depois não vá dizer que eu não o avisei...

- Tomarei cuidado, Jurema. Tomarei cuidado. “Essa mulher continua enxerida, qualquer hora eu me livro dela”. Pesou automaticamente. Não esqueça a pasta da Exuberante. Leve na minha sala depois.

- Já está na mão, pode levar.

- Obrigado. Ligue para o Banco Salles e confirme com o Adolfo para as três horas da tarde o nosso encontro.

- Só isso ou quer mais alguma coisa?

- Ah! Jurema, eu ia esquecendo. Peça ao Júlio para colocar agora na mala do meu carro nossa máquina de filmar. Vou levá-la a Belo Horizonte. Pretendo fazer umas tomadas das obras por lá.

- Nada mais?

- Sim, terminei. Qualquer coisa eu estou na minha sala. Aliás, hoje não atendo ao telefone e a ninguém de fora. Só estou para o nosso pessoal.

- Pode deixar. Cuidarei para não ser incomodado.

- Jurema, peça a Ângela uma linha exclusiva que vou ligar.

Percebia-se ao olhar que sua sala de tão grande, era dividida em duas, sem, contudo possuir uma divisória. Estes distintos ambientes serviam para receber os diretores, gerentes, técnicos para as reuniões de negócios ou alguma premiação especial a vendedores, bem como alguma eventual visita amigável. O que de fato ultimamente estava acontecendo com muita frequência.

A sala era composta por uma mesa de carvalho toda trabalhada em entalhes, feita por mãos certamente habilidosas. Sobre a mesa estavam distribuídas cuidadosamente, porta cachimbo, porta retrato com fotos de sua mulher e dos três filhos quando eram crianças, porta canetas, uma linda jarra de jade com um arranjo de orquídeas artificiais misturadas a musgos, porta clipes, um cinzeiro de cristal azul, um isqueiro em ouro e esmaltado, uma pasta plana de couro com folhas de papel tamanho ofício para rascunho, um bloco para pequenas anotações, um mata borrão e um telefone tão antigo que mais parecia uma peça de museu.

Uma cadeira de espaldar alto, acolchoada e forrada com couro, dava o toque de sobriedade e mostrava que ali ficava uma pessoa de bom gosto: o proprietário da organização.

Ao lado direito dessa mesa, e pouco mais à frente, ficavam posicionados dois sofás estilo Luiz XV, com forração bem colorida, predispostos em L, para um possível bate papo mais informal. Entre estes móveis, uma mesinha com diversas revistas atuais, sendo predominantes as de culinária, dispostas na parte de baixo. Um abajur rústico com vidros amarelados e bordados a ouro, medindo aproximadamente oitenta centímetros, embelezava aquele ambiente, assim como uma pequena estatueta esculpida em mármore rosado carregando uma ânfora de ouro com aplicações de rubis. No outro lado do sofá, sobre um pedestal de mármore, uma jarra importada de resina transparente com flores artificiais que parecem estar na água.

À frente dos sofás ficava um carrinho de chá feito em peroba rosa, onde podiam ser visto alguns copos de cristal, pequenas facas de prata bordadas com ouro e também uma bomboniér de cristal trabalhada em Art Nouveau, repleta de torradas prontas para serem degustadas com o delicioso patê de atum, criado por Josef, acondicionado em um vistoso pote de porcelana chinesa. Sob a mesa, garrafas de licores, vinhos e uísque compunham todo o pequeno complexo gastronômico. Tudo isso mencionava seu passa tempo preferido: a culinária.

Aos amantes da degustação, a receita de Josef.


***

Patê de Atum.

Duas latas de atum ralado;

Um vidro de maionese (500g);

Duas colheres (sopa) de purê de tomate;

Duas colheres (café) de mostarda;

Uma colher (sopa) de molho Inglês;

Duas cebolas médias raladas;

Um amarrado de salsa bem picadinha;

Três colheres (sopa) de azeite de oliva;

Pimenta calabresa, orégano, manjericão e sal a gosto.

Como preparar: – misture o atum com os temperos e deixe tomando gosto por uma hora. Enquanto isso junte o restante dos ingredientes e misture até igualar acrescente o atum temperado misture bem prove e por ultimo adicione sal.

***


Mais ou menos três metros à frente da sua mesa de trabalho estava a de reuniões, toda entalhada em jacarandá no formato oval. Ao seu redor viam-se vinte e duas cadeiras feitas da mesma madeira que também eram acolchoadas e forradas com couro. Sendo as presilhas desta forração, por incrível que pareça, de ouro. Segundo o Sr. Ernesto, estas peças pertenceram ao Barão de Petrópolis.

Abaixo de todos esses móveis, um tapete persa de 3,95m x 5.80m, onde os pés pareciam flutuar ao pisarem. Fora do limite deste tapete, seis grandes vasos de porcelana pintados à mão e dispostos a cada lado, sendo três com hastes de bambu e folhas artificiais. Os outros três, com arranjos de flores do cerrado brasileiro que já nascem secas. Quadros de Renoir, Picasso, Di Cavalcante e algumas gravuras menos valiosas ornamentavam as duas grandes paredes laterais. A sala estava iluminada por três enormes lustres de cristal importados da Bélgica, cada um numa tonalidade, que embelezavam e ao mesmo tempo completavam a sobriedade do ambiente.

Todo o local era devidamente climatizado para a proteção das obras de arte existentes. Podia ser visto todo um sistema de segurança instalado, onde grades de aço fechavam automaticamente todo o complexo a qualquer invasão ou tentativa de roubo. Este sistema antifurto acionava simultaneamente um alarme no prédio e outro na Delegacia Central de Polícia. Algumas vezes disparava sem motivo, levando o delegado Maciel a reclamar pelo trabalho falho e solicitar que fosse feito o devido ajuste. Josef mandou vir esse equipamento da França. Era idêntico ao usado no Museu do Louvre.

Lá estava Josef sentado à sua velha mesa, mas não conseguia se concentrar. Seu pensamento, por incrível que pareça, estava com aquela menina que teimava em seduzi-lo, um homem de quarenta e cinco anos.

Como lidar com esta situação?”, perguntava a si mesmo. “Jurema estava cheia de razão quando dizia que aquela moça era capaz de tudo”. Isso porque em parte ele era também responsável, pois durante algum tempo alimentou sua esperança de um dia poder viver com ele. Hoje estava pagando um preço bastante alto pela leviandade. Com certeza, se tivesse deixado de lado a vaidade, o orgulho e o extinto de conquista, ele não estaria passando por esse momento delicado. Mas enfim, como dizia seu avô, não adianta chorar o leite derramado. O jeito era tocar a vida para frente e resolver esse problema de uma vez, sem desculpas e sem rodeios. “Vou aproveitar esta ida a Belo Horizonte para procurá-la e acabar de uma vez com esse pesadelo que arrumei. Só assim terei tranquilidade. Que situação fui me meter! Espero que tudo se resolva rapidamente”.

- Bem, deixemos os pensamentos de lado, Josef, e passemos ao trabalho. – Pensou alto consigo mesmo.

Ah, ah! Aqui está o contrato, tudo como foi acordado na reunião. Agora um mês depois de fechado o negócio, querer mudar mesmo não havendo nada de diferente do combinado? Esse compradorzinho é mesmo um pentelho encravado, como diz o Thomas”.

Bastante irritado, característica sua de quando é contrariado, Josef pegou o telefone interno e ligou direto para o Walter.

- Walter?

- Pode falar senhor Josef.

- O safado só pode estar mordido porque passamos por cima dele na negociação e agora está fazendo de tudo para entravar o negócio.

- De quem o senhor está falando? Perguntou. Já sabendo de quem se tratava.

- De quem pode ser? Foi você mesmo que me falou ontem. Presta atenção. Vou mandar fazer duas cópias do contrato assinado por ele e pela gerência. Sendo que envio uma diretamente para a diretoria da Vitrine e a outra você vai lá pessoalmente mostrar que ele realmente está confundindo com alguma outra negociação e que nosso projeto é mesmo da ordem de Ncr$450.000,00, e não de Ncr$150.000,00, como ele quer.

- Farei isso.

- Informe também que os pedidos já estão faturados na fábrica e praticamente quase tudo está pronto para embarcar. Não tem como mudar esta operação. Lembra a ele que a desistência do contrato vai acarretar numa multa de 30% sobre o valor, que a campanha promocional não é barata e já está sendo veiculada nas revistas, rádio e televisão fazendo as chamadas para as lojas da Vitrine Exuberante, que com a desistência ele também arcará com os custos dela. Sem contar que nos comprometemos de ajudá-los com toda nossa equipe de vendas para distribuir os produtos pelo varejo.

- Pode ficar tranquilo que resolvo esse problema senhor Josef.

- Daqui a pouco a cópia do contrato estará em suas mãos. Resolva lá.

Ainda um pouco irritado fez outra ligação.

- Alô? Jurema, por favor, estou precisando de você aqui.

- Já estou indo. A propósito, a linha que você pediu já está a sua disposição.

- Está bem, qual a linha?

- A cinco. – Nesse mesmo instante, Josef pediu à telefonista internacional uma ligação para Jerusalém.

- Alô, bom dia.

- Bom dia senhor, em que posso servi-lo?

- Por favor, ligue-me para 2869785, em Jerusalém.

- Perfeitamente senhor. Com quem eu falo?

- Josef Nathan. Vai demorar?

- Tão logo completado, o avisamos.

- Quanto tempo?

- Talvez uma hora.

- Não pode ser mais rápido?

- Tentarei senhor.

- Estarei aguardando, obrigado.

Batidas na porta. Entrava Maria, mulher ambiciosa que nunca deixava passar uma oportunidade para mostrar que sua capacidade profissional também não deixava nada a desejar com relação a Jurema. Sempre que podia, deixava transparecer que suas intenções eram de ocupar uma melhor posição dentro da Empresa.

- Maria? Olha só, tenho aqui mesmo uma substituta para Jurema. – pensou Josef.

- Sr. Josef, a Jurema pediu para atendê-lo. No que posso ajudar?

- Maria, por favor, mande tirar duas cópias deste contrato. Remeta uma para a diretoria da Vitrine Exuberante, e a outra, dê ao Walter. Ele saberá o que fazer, nós já conversamos a respeito, mas antes dessas cópias serem tiradas, peça ao Thomas para vir até a minha sala.

- Vou providenciar agora.

Maria mal havia se retirado e Thomas já se apresentava na sala.

- Com licença Sr. Josef?

- Entre Thomas, sente aí.

- Está preocupado com algum problema?

- Nada que não possa ser resolvido. Antes de começarmos, segure a receita que me pediu. Desta vez com certeza você não vai esquecer, pois está tudo escrito.


***

Frango a Indonésia: – para seis pessoas.

Um frango desossado (1.200kg) cortado em pedaços;

Sal, louro, pimenta calabresa e caldo de um limão;

Duas colheres (sopa) de margarina;

Manteiga (150g);

Doze cebolas pequenas inteiras;

Um tablete de caldo de galinha, dissolvido em uma xícara (chá) de água;

Uma lata de broto de bambu.

Molho agridoce: - Uma colher (sopa) de molho inglês;

Duas colheres (sopa) de ketchup picante;

Uma colher (café) de gengibre em pó;

Meia xícara (chá) de vinagre branco;

Meia xícara (chá) de leite de coco;

Sal e pimenta a gosto.

Como fazer: – Misture os ingredientes do molho, leve ao fogo baixo até levantar fervura, e reserve. Tempere o frango e deixe tomar gosto por alguns minutos. Aqueça a manteiga e doure bem os pedaços de frango. Coloque-os num pirex untado com a margarina. Regue com a manteiga da panela que sobrar, espalhe por cima as cebolas com o broto de bambu, regue com o caldo de galinha. Depois cubra tudo com o molho agridoce. Leve ao forno quente (200º) por vinte minutos.

Acompanha; – Arroz branco, Salada de palmito, Camarão pequeno, Molho rose e Torradas.

***


Thomas era o Diretor Executivo e já trabalhava com Josef há anos, mas não conseguia se sentir à vontade nesses encontros. Fingia ler a receita que seu patrão havia lhe passado, mas estava era tentando decifrar o enigma que aquele homem ocultava. Queria saber qual era realmente sua intenção na empresa, pois os negócios andavam por si só, apesar das suas intervenções, mas muito poucas para o gigantismo do grupo. Intervenções essas não tão decisivas, e que também não eram levadas a sério por ele como principal interessado. Sua impressão era de que as empresas serviam apenas de fachada para Josef ocultar seus verdadeiros negócios, que com certeza deveriam ser ilícitos. Até aquele momento, ele não conseguira descobrir nenhum, mesmo estando sempre a investigar.

- Thomas, eu estou sabendo que as festas juninas no Nordeste para o ano que vem movimentarão Ncr$ 250 milhões nos meses de junho e julho.

- Faturamento de dar inveja a qualquer um.

- É verdade. São nesta época do ano que vários seguimentos da economia faturam com a venda de produtos típicos, tais como alimentos, bebidas, fogos de artifício, além de roupas, calçados e acessórios.

- O senhor está pensando em expandir os negócios em outro seguimento de mercado?

- Não, de forma alguma. Só estou me referindo à grandiosidade dos festejos, que vão desde os grandes eventos organizados em praças e lugares amplos, até pequenas atrações em escolas, clubes e igrejas.

- Mas isso sempre acontece em todos os anos, Josef.

- Também sei disso Thomas, mas o alto grau de informalidade dificulta o cálculo do impacto no mercado de trabalho. Dados do Ministério do Comércio e dos setores de restaurantes e bares indicam que só nas quatro principais festas nordestinas, “Campina Grande, Caruaru, São Luiz e Aracaju”, serão criados quatorze mil empregos temporários.

- Fiquei sabendo que a previsão é de que essas cidades recebam 1.4 milhões de pessoas no período. Para este ano, os governos locais e a iniciativa privada destinaram Ncr$ 8 milhões somente para os maiores arraiais do Nordeste. O Ministério tirou outro Ncr$ 1 milhão do orçamento só para apoiar as pequenas festas.

- Exatamente. Se todo esse investimento vai gerar receita para a região, por que não tomamos parte nesses ganhos?

- O senhor tem alguma coisa em mente para esse próximo evento?

- Evidente. Baseado nisso tudo, nós não ficaremos de fora no próximo ano. Já acertei alguns pedidos com nossos fornecedores de bebidas, que serão entregues em Abril de 69.

- E o Douglas? Ele já sabe disso?

- Não, primeiro quis botar você a par. Mas continua escutando que agora vou falar com o Douglas sobre a minha decisão.

- Por telefone?

- Fica tranquilo que tenho tudo escrito. Assim que eu acabar de falar com ele, discutiremos os passos a serem dados. Você traçará as metas que deverão ser atingidas.

- Alô! Jurema, ligue para o Douglas na distribuidora e passe-me o mais rápido possível essa ligação.

Dez minutos mais tarde, a ligação é completada e o gerente da distribuidora aguardava na linha.

- Sr. Josef?

- Sim, o que é Jurema?

- O Sr. Douglas já está na linha.

- Obrigado Jurema.

- Alô? Douglas? Tudo bem?...

- Tudo bem. O que manda o meu patrão?

- Escute, já tenho em mãos tudo sobre os eventos nordestinos do ano que vem. Preste atenção! Durante os festejos juninos, mais de 400.000 garrafas de cerveja decoradas estarão à venda por lá. A imagem de um casal típico do interior ilustra a embalagem da cerveja líder de mercado. Ela foi produzida pelo artista plástico João Calmon. Já a vice-líder patrocinará festas em 30 cidades nordestinas. O investimento pesado no Nordeste serve também para compensar a queda nas vendas com o frio do Sul.

- E como ficam as bebidas quentes típicas da época?

- Calma. Esse esforço das cervejas não tira os quentões, e nem bebidas como vinho de mesa, conhaque e cachaça do posto de grande atração das festas. Só elas representam Ncr$ 125 milhões da receita junina, segundo cálculos das entidades envolvidas. A cachaça lidera na preferência, são Ncr$ 75 milhões de vendas em todos os arraiais. O conhaque também é muito procurado em junho e julho e as vendas chegam aos Ncr$ 25 milhões. O vinho de mesa também fatura Ncr$ 25 milhões. Para que você tenha uma dimensão desse mercado, as bebidas quentes nesta época representam 12% das vendas anuais. As vendas de cerveja no período junino no Nordeste sobem 50% na comparação com os outros meses e se equiparam as de fim de ano.

- Pelo jeito o senhor está com alguma ideia para esse evento? Ou eu estou enganado?

- Correto. Não só tive a ideia, como já acertei a compra de Cerveja (8.000cxs), Cachaça (5.000cxs), Conhaque (250cxs) e Vinho Tinto (750cxs). Está seguindo hoje por malote a cópia desses pedidos. Por isso é que estou te ligando. Acredito que essas mercadorias devam estar chegando ao fim de Março, ou início de Abril.

- Estarei atento, mas essa quantidade me parece bem mais do que o mercado pode absorver.

- Eu sei, mas aproveitei o preço. O que sobrar já fica como estoque regulador para o fim de ano.

- Agora fiquei mais calmo.

- Pois não fique calmo não. Vá tomando suas providências para colocar essas bebidas no mercado, porque o tempo é curto. Só vamos ter dois meses para trabalhar.

- Hoje mesmo, de posse das quantidades que teremos a disposição, vou traçar uma boa estratégia para distribuí-las no mercado.

- Estou contando com o seu empenho desde já.

- Pode contar comigo, senhor.

- Mais tarde o Thomas vai acertar os detalhes com você. A propósito, também estou enviando hoje por malote a receita do bolo de bacalhau que me pediu.


***

Bolo frio de bacalhau: – para dez pessoas.

Um quilo de bacalhau do porto;

Dois pães amanhecidos, picados (400g);

Três xícaras (chá) de leite quente;

Meia xícara (chá) de azeite de oliva;

Duas cebolas grandes raladas;

Dois dentes de alho esmagado;

Duas colheres (sopa) de salsa picadinha;

Duas colheres (sopa) de coentro fresco picadinho;

Uma lata de purê de tomate;

Sal e pimenta do reino a gosto;

Seis ovos e manteiga (50g);

Um vidro de maionese; Agrião e tomate.

Como preparar: – De véspera, deixe o bacalhau de molho em bastante água fria de preferência na geladeira trocando a água três vezes. Desfie o bacalhau, tirando as peles e as espinhas. Coloque o pão numa tigela, despeje sobre ele o leite e deixe amolecer. Enquanto isso refogue junto no azeite, a cebola e o alho. Acrescente o bacalhau, a salsa, o coentro e o purê de tomate. Mexa bem e deixe em fogo baixo para secar devagar. Bata o pão junto com os ovos no liquidificador. Depois do bacalhau seco, junte o pão batido, misture e tempere com sal e pimenta. Ponha numa forma untada com manteiga. Leve ao forno já quente (200º) por 40 minutos. Desenforme e depois de frio, cubra com maionese e decore com agrião e tomate.

Acompanha: – Risoto de Sardinha e Creme de abacate.

***


- Thomas, eu tenho quase certeza de que o Douglas vai tocar esta operação, mas quero que você mostre a ele as estratégias a serem seguidas, para que não tenhamos nenhuma surpresa.

- Vou fazer os cálculos e dar a ele os subsídios para negociar.

- Uma informação sigilosa só para você. O Aldir, da Distribuidora Atlas que você bem conhece, também fechou um grande pedido e com certeza vai tentar colocar tudo lá no Nordeste. Fique atento e vamos agir rápido. O Aldir não dá ponto sem nó e não vai querer ficar com o que comprou encalhado, e nós não podemos sair atrás. Como você sabe, o mercado comporta, mas é pequeno, e quem chegar primeiro fica com a parte do leão.

- Não se preocupe que eu, na próxima semana, vou lá pessoalmente e acerto tudo com o Douglas.

- Ah, outra coisa. Quando cheguei a pouco, Jurema falou-me sobre um telefonema nos sondando para mais uma representação. Dei ordem para que ela passasse para você o recado. Resolva da melhor maneira, OK?

- Verei isso assim que terminarmos.

Jurema interrompeu a reunião para avisar a Josef que a ligação internacional estava completada.

- Já? Assim tão rápida!

- Sim, e já está na linha o senhor Roque.

Josef pegou o telefone e antes de falar descartou seu empregado.

- Bem. O que eu tinha para dizer era só isso. Tem algo mais para tratar, Thomas?

- Na verdade não. Estou é preocupado com o andamento desses movimentos estudantis. O senhor tem acompanhado? O que está achando dessa situação?

Há bem da verdade, Thomas não estava nada preocupado. Tentava sim ganhar tempo para poder escutar alguma parte daquela conversa internacional. O que não passou despercebido por Josef.

- Fique tranquilo. Estou tomando todas as providências. Na sexta-feira vamos estar todos reunidos. Na ocasião informarei e discutiremos as medidas a serem tomadas. Até lá Thomas e, por favor, agora eu preciso falar ao telefone.

- Vou dar uma checada na fábrica e só estarei aqui amanhã. Até sexta, chefe. – Mais uma vez Thomas tentou ganhar tempo.

- Não deixe de apertar a produção. Quero o pedido da Exuberante sendo entregue, no mais tardar, na segunda feira, nem que para isso a fábrica funcione todo o fim de semana. Até sexta.

- Até sexta. Pode ficar tranquilo, que eu vou providenciar para que tudo aconteça conforme o senhor deseja.

Vendo que seu patrão dava por terminada a reunião, Thomas retirou-se deixando Josef em sua sala. Saiu frustrado por não ter conseguido mais uma vez descobrir nada que pudesse ter nas mãos aquele homem.

- Alô padre, é Josef.

- Diga meu filho.

- A missa foi celebrada a tempo?

- Perfeitamente.

- Ótimo. O senhor vai poder continuar rezando para essas pessoas?

- Com certeza.

- Estou pretendendo lhe encomendar outra missa.

- É só dizer quando e onde que a realizo.

- Creio que o Levy não vai querer mais fornecer suas hóstias.

- Então como vou fazer a missa sem elas?

- Se realmente isso acontecer, o jeito é falar com o Sayad.

- Por mim não há nenhum problema. As hóstias dele também são boas. Um pouco caras, mas boas.

- Vou encomendar então. Nos falamos mais tarde.

- Até lá.

Ligação desfeita, Josef ligou para sua secretária.

- Alô, Jurema! Venha até minha sala por favor.

- Estou indo.

Enquanto aguardava sua secretária o pensamento de Josef estava nos negócios da Editora. Sentia que poderia tirar algum proveito extra do novo escritor. Jurema entra em sua sala e ele nem percebe. Tão absorto que estava até falava alto o que pensava.

- Tenho que fazer isso, talvez um pouco mais na frente...

- O que disse Josef? – Jurema o interrompeu não entendendo o que ele dizia.

- Nada, só estava pensando alto. Conseguiu confirmar o encontro com o Adolfo?

- Tudo certo. Ele vai estar lhe esperando no horário combinado.

- Faça-me um favor. Não marque a reunião do pessoal para segunda-feira. É melhor na sexta-feira, quando eu terei voltado de Belo Horizonte.

- Não sei se estará disponível o auditório na sexta-feira? Já reservei para a segunda-feira como havia pedido.

- Não deve haver problema, mas me avise se não conseguir.

- Vou mudar a reserva assim que você me liberar.

Enquanto Jurema ia anotando em sua agenda as novas determinações. Josef fez uma pequena pausa.

- ...Marque também para amanhã com o Jorge às dez horas, e adiante que vou preparar uma surpresa da terra dele. Ele vai adorar.

- Onde vai ser esse encontro, ele já sabe?

- Como sempre lembre a ele que o encontro será no clube.

- O senhor vai acompanhado de Dona Laura? Se for, tenho também que lembrá-lo de levar a esposa, se não acontece como na última reunião. Ele vai sozinho.

- Isso mesmo, Jurema. Avise, ou ele vai novamente sem a Marta. A propósito, já acertou minha viagem para segunda-feira?

- Já marquei a passagem para as 7 horas. Reservei o Hotel Financial como pediu. Estou agora agendando os encontros com todos.

- Ótimo. Assim que tiver tudo acertado, me passe a agenda porque hoje não volto mais. Amanhã nem venho ao escritório.

- Ah! Desculpe a curiosidade. Por que o senhor vai viajar num voo comercial e não no avião da empresa?

- Jurema, sua curiosidade mostra que você está sempre atenta aos andamentos de tudo na empresa. Fique tranquila que não é nada de mais. Só uma pequena precaução. Como você sabe, estamos atravessando momentos um pouco conturbados e é aconselhável não facilitar, ainda mais que recebemos informações de que nosso avião teria sido sabotado. Por isso estão fazendo uma revisão completa na aeronave, e pode ser que leve mais tempo que o normal, só isso.

- Ainda bem que tudo foi descoberto a tempo.

- É verdade, mas já é meio dia, Jurema.

- Meio dia? Nossa... Perdi a noção do tempo.

- Então pare tudo e vamos almoçar aqui na Confeitaria Colombo. É perto e podemos voltar rápido.

No Rio de Janeiro, um dos locais para almoçar que mais agradava a Josef era, sem nenhuma dúvida, aquele restaurante. Ali se sentia como que em casa. Todos aqueles lustres, mesas e balcões antigos o faziam viajar no tempo, imaginando quantos grandes negócios e decisões não tinham sido realizados e tomados ali confidencialmente durante um agradável almoço, tendo como testemunha aqueles discretos e sorridentes garçons que, de tão antigos, já faziam parte daquele cenário.

O barulho dos talheres mais a conversa das pessoas mostravam que a Confeitaria já estava completamente lotada. Não fosse a manobra de Artur, o velho amigo garçom, Josef e Jurema não teriam onde sentar. Devido às variedades de cheiros que tomavam conta daquele ambiente, o apetite ficava ainda mais aguçado.

- Como vai, Sr. Josef? Jurema... O que vai ser hoje? Algo em especial?

- Não... Estamos com um pouco de pressa. Comeremos o que você nos aconselhar.

- O mais rápido são frutos do mar. Nosso chefe de cozinha hoje está impecável. – esse é um freguês que não posso errar, pensou Artur.

- Está bem. Vamos então de frutos do mar. Qual é o melhor prato?

- Badejo ao molho rose.

- Ótimo... Artur, não esqueça do meu vinho preferido, um Châteaux-Margaux-Branc-Cantenac. Ainda tem algum no estoque?

- Com certeza, senhor.

Não havia passado vinte minutos e Artur já estava servindo-os com a mesma presteza. Como sempre aguardava ao lado para tomar conhecimento se o vinho, um legítimo “Deuxième Cru”, e a comida estavam de bom gosto.

- Excelente! Está muito bom mesmo! Pode levar meus cumprimentos ao seu chefe de cozinha. Aproveite e consiga para minha coleção essa deliciosa receita. Quanto ao vinho, não tenho o que falar.

- Obrigado. E você, Jurema? Também é da mesma opinião? Não vale agradar o patrão.

- Com certeza está muito bom, Artur. Não estou fazendo média com você e nem com meu patrão. Aqui, como todo cliente, também sou exigente e gosto desse requinte especial que a casa nos oferece.

- Antes de terminarem, trarei sua receita, Sr. Josef. Bom apetite. Com licença.

Passado alguns instantes, já estava de volta Artur com a receita.


***

Badejo ao molho rose: – para quatro pessoas.

(1/2 kg) de filé de badejo
Meia xícara (chá) de vinho branco seco
sal e pimenta-do-reino branca moída grosseiramente a gosto
Duas xícaras (chá) de farinha de pão temperada pronta para empanar
Duas colheres (chá) de curry

Molho
Seis ramos de salsinha crespa picada
Uma xícara (chá) de maionese
Duas colheres (sopa) de ketchup

Uma colher (sopa) de conhaque
Modo de Preparo: – Lave os filés, retire as aparas, seque-os e tempere com uma mistura de vinho, sal e pimenta. Deixe tomar gosto na geladeira por 15 minutos. Em seguida, empane os filés na farinha de pão misturada com o curry. Disponha-os em uma assadeira refratária, própria para ir ao forno, de 24cm de diâmetro. Cubra com papel-manteiga e leve ao forno micro-ondas, na potência alta (100%) por 7 minutos, ou até o peixe ficar cozido. Retire do forno. Molho: em uma tigela, misture com um batedor manual a salsinha, a maionese, o ketchup e o conhaque. Sirva o molho com os filés. Decore com folhas de salsinha crespa.

Acompanha: – Arroz branco, Purê de batata, Molho de camarão e Salada.

***


- Artur, por favor, traga a conta que precisamos ir agora.

- Já está aqui Senhor.

- Ótimo, pode ficar com o troco. Vamos, Jurema. Ainda temos muito que fazer. Parece que o tempo voou, já são treze horas.

Na recepção da empresa, Jurema foi chamada pela recepcionista.

- Boa tarde, Ângela. Já falou com a Jurema sobre amanhã? Não vai almoçar hoje? – Perguntou Josef.

- Já almocei senhor... Vou falar com ela agora. - Ele não perde a oportunidade de vender a boa imagem. Bem esperto, pensou.

- Jurema, peça ao Anderson para ir até minha sala assim que puder, mas que não demore muito. Lembre-o que às quinze horas tenho que encontrar com o Adolfo.

- Vou avisá-lo agora.

Ângela chamou a amiga, e falando baixo para que ninguém a ouvisse, falou:

- Você esta ficando maluca, mulher?

- Por que essa preocupação?

- Até parece que você não conhece a fera. Ouvi você falando com o Josef, está se arriscando pressionando-o daquela forma. Se ele se sentir chantageado, você corre perigo.

- Como, corro perigo? Fique tranquila que eu sei o que estou fazendo.

- Depois não vá dizer que eu não a avisei.

- Está bem, deixa-me ir que o homem está com pressa.

Anderson não é só um dos diretores do grupo. É também o fiel escudeiro de Josef. Sua dedicação e fidelidade ao patrão lembram a de um cão de guarda, sempre pronto a atender e executar suas ordens. Nada do que acontece na organização lhe é despercebido, e imediatamente Josef é posto a par. Isto sem, contudo deixar transparecer aos demais empregados essas características, pois a todos trata com educação e simplicidade. Mesmo sendo um dos diretores da organização, ao contrário de seu chefe, veste-se simplesmente procurando não chamar muita atenção.

- Pronto Sr. Josef. Podemos começar?

- Claro Anderson. Na verdade, antes quero saber se já está concluída a auditoria na fabrica de aramados.

- Estamos chegando ao final.

- Eu quero pegar o safado ou os safados. Eles não conseguirão tão cedo um novo trabalho e vão aprender a não dar mais desfalques. Quanto tempo você acha que ainda vai demorar?

- Talvez na próxima quinta feira esteja tudo concluído.

- Assim está ótimo. Quanto ao que lhe pedi acertou e atualizou toda a documentação da construtora e da empresa de terraplanagem?

- Essas nós terminamos a tempo, senhor.

- Deu para terminar inclusive o balanço da fábrica?

- Claro senhor Josef, alguma vez nossa equipe o deixou na mão.

- Eu sei que não Anderson, mas a ansiedade é por que vou encontrar-me daqui a pouco com o Adolfo e quero pressioná-lo com o documento.

- Sim, está tudo pronto, exatamente como o senhor determinou. Contudo, não estou acreditando que o banco vá liberar um empréstimo de 30 milhões de dólares para a fábrica.

- Não se preocupe com isso, sei como dobrar nosso diretor de banco.

- Se o senhor tem essa certeza, ótimo!

- O que quero é que você resolva de uma vez com nossos amigos das empreiteiras.

- Vou fazer o que estiver ao meu alcance.

- E eu vou lhe ajudar. Nesta pasta tem quinze mil dólares, cinco mil para cada um. Marque encontro com os três ao mesmo tempo. Eles precisam ter certeza de que estão ganhando a mesma quantia para fazer o mesmo serviço a nosso favor.

- É muito dinheiro, patrão.

- Eu sei, mas alerte-os de que não vou admitir nenhuma falha. Nós temos que ganhar essa concorrência de qualquer maneira. Dê a eles os valores que terão que apresentar. Caso alguma das empreiteiras que eles representam venha a vencer, não os perdoarei e serei obrigado a agir.

- Mas...

- Preste atenção, ainda não acabei Anderson. Vou viajar semana que vem. Caso eu não consiga vender nosso grupo, deixe pronta a documentação do pedido de concordata. Tão logo o empréstimo esteja na conta, daremos entrada nos papéis e avisaremos aos credores. Logo a seguir anunciaremos a falência. Tudo deve desenrolar como um relógio. Creio que fui bem claro. Posso viajar tranquilo que você se encarrega de tudo, certo?

- Vou realizar todas as tarefas como determinou. Acredito não ter porquês para dar errado. Porém, o que realmente está me preocupando é que eu seja o portador do tom de ameaça contra o pessoal das empreiteiras, que o senhor deixa transparecer. Nesse detalhe, vou deixar claro junto a eles que nada tenho a ver com suas possíveis decisões. Quanto ao grupo, o senhor tem a intenção de vender todas as empresas?

- Sim, tenho. Mas esta decisão ninguém precisa saber. Quero que fique por enquanto somente entre eu e você. Entendido?

- Com certeza. Só estou meio tonto com tanta informação.

- Ainda posso mudar meus planos e vender tudo, menos a fábrica. Depois providencio sua falência. Posso também vender a fábrica e continuar com as empreiteiras. Nada está totalmente decidido, mas pode ficar tranquilo que, seja qual for a decisão, seus empregos continuarão garantidos.

- Por mim tudo bem, será como o senhor quiser. Boa viagem e até semana que vem.

Já no corredor, Josef despediu-se das secretárias, pois só estaria de volta na outra quinta feira. Apanhou sua agenda com os compromissos da viagem e saiu para o encontro com o diretor do banco. Como a agência bancária ficava próxima de seu escritório, Josef aproveitou para dar uma caminhada e não levou muito tempo para chegar ao local, que ficava na Rua Sete de Setembro, n° 32. Já na recepção, não precisou se fazer anunciar. Eliana, a secretária de Adolfo, o esperava.

Adolfo aparentava ter uns quarenta anos. Era um daqueles homens extremamente conservadores. A sua integridade e honestidade eram o que lhe mantinha naquela posição no banco. Sendo homossexual não assumido, trazia sua fraqueza escondida a sete chaves. Mas para seu azar, a mesma foi descoberta por Josef, que agora a estava usando como trunfo para alcançar seus objetivos. O que Josef não sabia era que, ao agir dessa forma, despertara no íntimo daquele homem um sentimento que nem ele próprio conhecia. Contraíra dessa forma um perigoso inimigo capaz de chegar a extremos, quando acuado.

- Boa tarde, Eliana. É um prazer revê-la.

- Boa tarde, Sr. Josef. O Dr. Adolfo já vai recebê-lo. – Para desespero do coitado, pensou Eliana. – Acompanhe-me que vou levá-lo até ele.

Eliana bateu a porta da sala e com ela entre aberta fez a consulta.

- Senhor Adolfo, o Dr. Josef está aqui. Posso mandá-lo entrar agora?

- Pode. E por favor, não quero ser interrompido por nada.

A sala que Josef entrou era o oposto da sua. Pequena, simples e sem nenhum atrativo. Era composta de uma mesa com poucos objetos em cima, e duas cadeiras, a que Adolfo usava e uma outra para um eventual visitante.

- Com licença. Como vai, Adolfo? Tudo sob controle ou escapou algo? Não se esqueça que nossa sociedade está sempre atenta e não perdoa. – Uma pequena cutucada na fraqueza.

- Está tudo bem e controlado, Josef. Não me diga que nosso assunto vai continuar sendo aquele...

- Vai. Você sabe perfeitamente que não vou perder a concorrência do Governo, e que também não vou investir naquele pedaço da Transamazônica. Todos querem receber algum dinheiro, a começar pelo senador, que já adiantou primeiro a minha parte. Depois do ministro, só com esses dois são Ncr$500 mil. Mas ninguém garante que o Governo me pagará no momento certo.

- Devido a essa incerteza, queres a qualquer custo passar o risco para o banco?

- Exatamente, meu amigo. O banco tem de cuidar dessa festa, não eu.

- Lamento muito, mas acredito que o banco não vá liberar. Você está querendo um empréstimo no valor de 30 milhões de dólares. É uma quantia muito alta e essa sua pressão pode fazer mal a nós dois.

- Adolfo, não seja idiota. Vou lhe dar a garantia da minha fábrica, com isso você fica isento de qualquer responsabilidade. Por que estás relutando em levar minha proposta à direção geral?

- Caso algo dê errado, e eu tenho certeza de que você vai fazer dar, o banco perde.

- Disse bem. O banco perde, não você. Então, vai dar continuidade na operação? Está comigo toda a documentação da fábrica, inclusive o último balanço atualizado que cobre perfeitamente todos os riscos.

- Não, Josef. Não posso fazer isso. O banco vai descobrir e com certeza serei demitido. Onde é que vou conseguir outra colocação? Serei o principal responsável.

- Adolfo, eu acredito que você não tenha saída quanto a apresentar minha proposta. Se não estou enganado, o dólar hoje está a Ncr$3,85, certo?

- Certo, mas aonde você quer chegar?

- Já vais saber. Nesta maleta tem trezentos mil dólares, quantia suficiente para você começar a vida tranquilamente em qualquer lugar com o seu menino. Ela tanto pode ser sua como posso dá-la a outro diretor bancário. Com toda certeza vou retirar minhas contas do banco, e ao fazer isso, acredito que a sua cabeça vai rolar.

- Você continua a me chantagear... Não vais parar?

- Não. Além do mais você nada perde. Pense bem nas opções que lhe ofereço. Pode escolher: – Perde o emprego lá na frente, mas fica com muito dinheiro ou perde agora e fica sem nada, inclusive sem sua reputação. A decisão é sua. Mas não demore, que eu não tenho muito tempo. Tem até amanhã à tarde para me dar uma resposta.

- Eu não sei se conseguirei uma posição do banco tão rápido.

- Esse é um problema que com certeza você vai resolver.

- Caso eu não consiga, te ligo.

- Adolfo, eu quero viajar na segunda-feira sem essa preocupação. Não dá para ficar discutindo esses pequenos detalhes.

- Esses pequenos detalhes, como você está colocando, podem lhe custar a vida. Já pensou nisso?

Sem dar muita importância ao que Adolfo falava, e talvez nem acreditando por ter nele uma pessoa fragilizada pelo fato de ser homossexual, continuou pressionando.

- A propósito, fique com a pasta. Tenho certeza de que ela vai ajudá-lo a pensar melhor. Não ligue para meu escritório. Encontre comigo lá na cantina Azurra por volta das cinco horas, vamos comer uma boa pizza.

- Que pelo menos a pizza seja boa.

- Com toda certeza. Já pedi ao Genáro que prepare a Nona para nós.

- Josef, diante de todas essas alternativas, eu vou ter muito que pensar. Até amanhã na cantina.

- Até amanhã, Adolfo.


***

Pizza Della Nona:

Recheio:

(600g) de calabresa picada

(750g) de mussarela picada

Uma xícara de azeitona preta picadas

Seis ovos cozidos fatiados

Pimenta calabresa e orégano a gosto

(600g) de molho de tomate com cebola picadinha
Massa:
(25g) de fermento em tablete
(500ml) de água morna
(1kg) de farinha de trigo
Uma colher (sopa) de azeite de oliva
Uma colher (sopa) de sal
Uma colher (sopa) de açúcar
Modo de Preparo: – Dissolva o fermento em um pouco de água morna. Coloque sobre a mesa 750 g da farinha, faça um vão no centro e coloque ali o fermento diluído e o açúcar. Acrescente a água, o azeite, o sal e misture bem até obter uma massa lisa e homogênea. Se necessário, adicione a farinha restante, até a massa soltar das mãos. Divida a massa em 6 bolas (cada bola é uma pizza) e deixe descansar por 1 hora tampada com um guardanapo. Abra cada bola com um rolo, numa massa bem fina, num diâmetro de cerca de 30 cm. Recheie com os ingredientes seguindo a seguinte ordem: molho de tomate com cebola picadinha, mussarela, calabresa e azeitonas. Tempere a gosto. Asse em forno preaquecido (300º C), por cerca de 5 a 10 minutos, até a borda dourar. Retire do forno acrescente o ovo e sirva em seguida.

***


Este era o último compromisso que Josef tinha para aquele dia. Deixando o prédio do banco voltou a pé até o estacionamento onde sempre deixa seu automóvel. Assim que saiu do elevador do edifício garagem pode avistar que tinha alguma coisa no para-brisa do seu carro. À medida que foi se aproximando pode perceber se tratar de algum recado.

Parou, olhou a volta e viu que seus guarda costa estavam à meia distância como era de costume. Tranquilizou-se. Pegou o papel e leu.

Lembre-se, todo chantagista tem que estar preparado para tudo, até para morrer. Cuidado! Eu odeio esse tipo de conduta e vou te pegar mais cedo ou mais tarde. Ass. Reinaldo”.

Como desconfiou, constatou ser uma ameaça e o que leu não gostou. Sua mente começou a trabalhar rapidamente. Quem seria Reinaldo. Belo enigma a ser resolvido, mas pode ter certeza de que tomarei os devidos cuidados, senhor Reinaldo. Pensava ao mesmo tempo em que entrava em seu carro e partia.





















Capítulo Segundo


Sexta-feira, nove horas da manhã do dia 15 de Novembro


O dia amanheceu ensolarado, sem nuvens. Do planalto no meio das montanhas, a vista panorâmica do amplo vale era cinematográfica. Dali podiam ser vistas as mansões que começavam a serem construídas na Barra da Tijuca e em parte do Recreio. Não existia, naquele clube particular, melhor local para montar aquela cozinha onde Josef começava a preparar o almoço. Escolhera o grande pavilhão aberto e coberto com telhas de barro, do tipo portuguesa colonial, nas cores vermelho e laranja escuro, mescladas. Nele ficavam as grandes mesas, largas e compridas com seus bancos corridos, tudo em madeira de maçaranduba. O fogão a lenha estava localizado por fora deste pavilhão, quase dentro da mata, entre quatro paus rústicos e compridos com a cobertura em palha de coqueiro. Compartilhar desse local era o mesmo que estar numa região campestre.

Enquanto aguardava a chegada do amigo e sócio secreto, sua mente fervilhava.

Tudo está praticamente encaminhado. Agora só falta o Jorge acordar para a realidade e me dar razão. Tenho que convencê-lo de uma vez por todas de que é importante para nós dois. Ao mesmo tempo, não posso deixar transparecer a vantagem que vou tirar com as vendas. Não pode passar de hoje. Não vale a pena manter meia dúzia de empregos, e nós, corrermos tanto risco”.

Jorge era um típico nordestino do interior, quase sem instrução, mas de uma capacidade inigualável para os negócios. Tudo em que se metia dava certo e progredia. Estava sempre por traz de todos os investimentos. Não aparecia nunca, mas as pessoas que o representavam ou que eram seus sócios davam-lhe conta de todos os detalhes, fazendo tudo da forma como ele queria e determinava, sem nenhuma modificação. Mesmo com todo o dinheiro que possuía, era o tipo de homem sem nenhuma vaidade. Vestia-se de forma tão simples, que mais parecia um retirante recém chegado de sua terra, do que o empresário determinado e próspero. Por isso a facilidade em esconder seu verdadeiro caráter; calculista, violento e perigoso bem parecido com o do Josef.

- Josef! Josef! - Gritou Jorge da entrada, como se estivesse a procurá-lo. – Você já está agarrado a esse fogão? Parece que vives só para comer! Qual é a surpresa que estás preparando?

- Bom dia, Jorge. Como foi de viagem?

- Bom dia, correu bem.

- As notícias dizem que Paris virou um caldeirão do diabo, é verdade?

- Na verdade, Paris está calma. Essas notícias são mais sensacionalistas do que verídicas.

- Cadê a Marta? Esqueceu de trazê-la outra vez?

- A Marta está lá no salão com a Laura. Se eu a esquecesse, iríamos apanhar desta vez.

- Jorge, eu deixei a Laura lá embaixo por estratégia, assim elas ficam conversando e nós podemos pôr a casa em ordem.

- Desconfiei e por isso a deixei lá.

- Enquanto preparo nosso almoço, só eu vou falar e você só vai escutar. Depois, deixo você colocar em dia suas ideias e pensamentos. Está bem assim?

- Faça como quiser, mas antes quero saber que surpresa esta preparando aí?

- A surpresa é essa, veja com seus próprios olhos.


***

Carne de sol desfiada: – para quatro pessoas.

(750g) de carne de sol magra
Duas cebolas médias
Um pimentão vermelho
Dois dentes de alho
Quatro colheres (sopa) de óleo
Uma colher (sopa) de coentro picado
Duas colheres (sopa) de vinagre
sal e pimenta-do-reino

Modo de Preparo: – Corte a carne de sol em cubos de 5 cm, coloque de molho em água fria para retirar um pouco do sal. Deixe de molho por 4 horas trocando a água duas ou três vezes. Coloque os cubos de carne em uma panela de pressão, cubra com água fria e cozinhe por 40 minutos. Deixe esfriar e desfie a carne eliminando eventuais partes de gordura. Reserve. Retire as sementes do pimentão e corte-o em tiras finas, corte as cebolas em fatias finas e pique os dentes de alho. Reserve. Coloque em uma frigideira o óleo e aqueça bem, acrescente a carne desfiada e refogue para que a carne doure. Se necessário, acrescente mais um pouco de óleo. Retire a carne da frigideira e reserve. Acrescente mais um pouco de óleo à frigideira e refogue rapidamente o pimentão, alho picado e as cebolas. Acrescente novamente a carne à frigideira e regue com o vinagre. Deixe evaporar, salpique com o coentro e tempere com um toque de sal e pimenta-do-reino.

Acompanha: – Arroz branco, Purê de abóbora.

***


- Gostei parece que você adivinhou estava mesmo com saudade dessa comida.

- Verdade ou só esta dizendo isso para tornar nossa reunião mais agradável?

- Não estou brincando. Minha vontade, quando voltamos da Europa, foi de passar pela minha terra só para comer uma comidinha dessa.

- Foi bom saber disso, vou caprichar então.

- Manda brasa na comida e na fala, homem. Serei todo “ouvido”.

- Acompanhe então o meu pensamento. Ao assumir a presidência da República, Costa e Silva e seus assessores estavam certos de que tudo correria bem. No novo terreno que pisava, bastar-lhe-ia empregar a experiência adquirida na carreira militar, devotando o mesmo respeito que sempre demonstrara pelos regulamentos. Junto com o Castelo Branco, encomendou na época ao ministro Carlos Medeiros Silva, o principal autor do projeto que resultou na Constituição de 1967, e aos autores de seus complementos naturais, as leis de Imprensa e de Segurança Nacional, achando com isso que toda a nação iria aceitar as novas medidas com naturalidade. O início parecia sorrir-lhe, pois que, além de saber contar com a força dos regimentos, dava ainda por certa a passividade da Câmara e do Senado, ambos constituídos pelos dois conglomerados que ele acreditava representar a substância popular. O otimismo, de resto inconsciente, que transpirava de todas as camadas sociais, acabou por ceder lugar a uma inquietação crescente, na qual são evidentes os sinais de que os grandes terremotos começarão a aparecer. A ilusão de que tudo seria melhor pouco tempo durou. Uma após a outra começam a manifestarem-se as contradições do artificialismo institucional que o país foi obrigado a aceitar pela imposição das armas. Depois então da morte do estudante Edson Luís de Lima Souto durante aquela manifestação, a desordem passou a campear nos arraiais estudantis. Ao mesmo tempo o mal-estar é geral, o clero revoltoso faz sentir a sua presença até mesmo nas praças públicas. Dentro do Congresso aparentemente submisso à vontade do Palácio da Alvorada, já não passa dia sem que se manifestem sintomas da insurreição latente. Com a comprovada e estrondosa derrota sofrida ontem pelo governo, quando mais de 70 deputados da ARENA votaram contra a concessão de licença para processar o deputado Márcio Moreira Alves, a ARENA adere à rebeldia geral com tamanha evidência, que o próprio MDB sentiu que é chegado o momento da desforra. Resolveram com uma ousadia que a todos espantou enfrentar a ditadura em que vivemos desde 1964. Que as coisas venham a piorar não tenho a menor dúvida. Os militares vão apertar ainda mais. Haverá atentados, invasões e distúrbios para todo lado. Com as novas leis, a imprensa não vai poder mostrar e nem falar nada, pois eles alegarão sempre se tratar de Segurança Nacional.

- Ainda não entendi o porquê de toda essa explanação. – Jorge, já ficando impaciente, interrompeu Josef.

- É que estou tentando fazer você entender, antes que seja tarde demais, que só devemos ficar com a construtora e a terraplanagem. Venderíamos as demais empresas para o grupo que está interessado, acertando com eles a promessa de manter todo o pessoal empregado. Desta forma estou fazendo com que seu “coração patriarcal não sofra tanto”, e passaremos a ter um controle mais fácil dos nossos negócios com um capital empregado bem menor. O que achas? Concordas?

- Está bem, faça desta maneira, mas quero a garantia deles no papel de que ninguém será dispensado, do contrário não assino a documentação. Você já atualizou os valores das empresas em cruzados novos?

- Quanto à garantia, fique tranquilo que é fácil de conseguir, até porque eles não vão ter como trocar todos de uma hora para outra. Também já providenciei com o Anderson a documentação e atualização dos valores para comprovação na venda, bem como os balanços a serem apresentados ao banco e ao Charpantier.

- Josef, já que nós vamos ficar com a construtora e a terraplanagem, o melhor é transformá-las em uma só empresa, assim os encargos serão menores. Podemos criar uma engenharia de obras, tanto para atuar na área governamental como na área civil.

- Tudo isso já está no papel, encarreguei o Anderson de fazê-lo.

- Estou começando a gostar das suas ideias. Também sou obrigado a concordar que será bem mais fácil controlar tudo. Quanto ao capital restante, tenho alguns projetos que depois iremos conversar.

- Bem, já que chegamos a um acordo, mudando o assunto, quero que você saiba que já acertei com todo o pessoal.

- Com todos? Até com o senador e o ministro?

- Com esses dois ainda não, estou igual a você. Primeiro quero a garantia do governo, no papel, de que aquele trecho da obra será gerado por nós. Afinal, são Ncr$500 mil que eles pediram, e o custo da empreitada é de quase 20 milhões dólares.

- E o empréstimo vai ser aprovado? Estou imaginando a cara do Adolfo, cagão do jeito que ele é. Deve estar num dilema terrível. Ah! Você disse a ele que nós só vamos fazer uso desse empréstimo se conseguirmos ganhar a concorrência do trecho da Transamazônica?

- Logo mais às cinco horas vou me encontrar na pizzaria com o Adolfo. Ele vai dizer se nossa proposta foi aceita pelo banco. Aqui para nós, eu acredito que os trezentos mil dólares vão ter grande influência nas decisões, mas em momento algum deixei transparecer que poderemos não usar o dinheiro.

- Agora me diga. Quais as providências que você tomou para sua segurança? Eu penso que o melhor é colocarmos seguranças particulares no hangar, no iate clube e com você. Não podemos mais facilitar daqui para frente.

- Também já providenciei nossa segurança, que estará sempre a dez metros, discretamente. São cinco homens com cada um de nós.

- São de confiança?

- Sim, de extrema confiança. Esses homens são treinados principalmente para não chamar a atenção sobre nós. Trata-se de uma empresa estadunidense que acaba de chegar ao Brasil. Ela também fará a segurança dos aviões e do iate.

- Josef, nós estamos preparados para entrar no meio da construção da Auto Estrada Lagoa-Barra? Quem está coordenando? Olha que isso é uma responsabilidade enorme. Vamos ter a garantia de receber? Quem está nos dando respaldo na prefeitura?

- Fique tranquilo. O Mairton está cuidando pessoalmente desta etapa da obra e me garantiu que vamos inaugurar a estrada no ano que vem, no tempo determinado pelo Governo. Com relação ao recebimento, já estamos de posse do novo contrato. O secretário de obras é o nosso homem dentro do contexto.

- Ótimo, podemos terminar os assuntos de negócio, até porque já vem vindo a Marta e a Laura. Com elas por perto não tem como nos concentrarmos para conversar seriamente. Repare como continuam lindas.

Mesmo vestidas esportivamente, via-se que as duas mulheres eram de uma elegância que tirava qualquer observador do sério.

- Como vai Josef? Vocês nos deixaram lá embaixo por um tempo enorme. Acho que já deu para pôr tudo em dia.

- Estou bem, Marta, e com certeza terminamos.

- Ainda bem, se não tivessem terminado teriam que marcar novo encontro só os dois, pois de agora em diante nós vamos curtir esse momento raro.

- Combinado agora é só alegria, veja com seus próprios olhos esta delícia que estou preparando.

- Por falar em delícia, estou precisando de uma sugestão sua para um almoço que pretendo fazer para umas amigas francesas.

- Olha, Marta. Eu aconselho você mandar fazer um lombo, elas vão adorar e é facílimo de preparar. Logo mais, antes de irmos, dou-lhe os detalhes da receita.

Passaram o resto do dia conversando sobre amenidades e passagens sobre a viagem que acabaram de realizar pela a Europa. Por volta das quatro horas da tarde, deixaram o clube. Josef foi ao encontro de Adolfo na pizzaria, mas antes deixou a receita que Marta solicitara.


***

Lombo Agridoce: – para cinco pessoas

Duas colheres (sopa) de açúcar mascavo;
Uma colher (sopa) de ketchup;
Uma colher (sopa) de molho inglês;
Duas colheres (chá) de sal;
Meia xícara (chá) de margarina;
Um lombo com cerca de 1kg e meio;
Quatro maçãs vermelhas médias cortadas em fatias grossas;
Uma xícara (chá) de água;
Uma lata de abacaxi em fatias (escorrido);
Uma xícara (chá) de ameixas em calda;
Oito cerejas tipo marrasquino.

Modo de Preparo: – Em uma tigela, misture o açúcar, o ketchup, o molho inglês, o sal e a margarina cremosa. Fure o lombo com um garfo grande e tempere-o com esta pasta. Deixe tomar gosto por 4 horas, virando-o de vez em quando. Unte uma assadeira retangular média e reserve. Preaqueça o forno à temperatura média (180ºC). Coloque o lombo na assadeira reservada, cubra com papel-alumínio e leve ao forno por cerca de 1 hora. Retire o papel-alumínio e deixe no forno por mais 30 minutos ou até dourar. Em outra panela, coloque as maçãs e a água. Cozinhe até ficarem macias, por cerca de 10 minutos. Corte o lombo em fatias, coloque-o em uma travessa e decore com as maçãs, o abacaxi em fatias, as ameixas e as cerejas tipo marrasquino. Sirva em seguida.

Acompanha: – Arroz branco misturado c/ovos mexidos.

***


Nesse mesmo dia, Jorge em seu avião viajou para Lambari, e em sua fazenda, a Laço de Ouro, recebeu a visita de um velho conhecido. Ficaram reunidos até altas horas. Jorge, como sempre, cuidava para que todos os seus negócios fossem sempre sigilosos. Ao terminar com a reunião, mais uma vez fez sua clássica recomendação:

- Meu querido Charpantier, muito cuidado quando vocês estiverem em Belo Horizonte acertando a compra do grupo Nathan. Não quero que Josef desconfie nem de longe que sou eu que estou por trás de toda essa negociação. Prefiro que ele pense que você seja o homem de confiança do Sílvio e do Artur.

- Dr. Jorge, o senhor pode ficar descansado que toda a transação sairá perfeita e o nosso amigo não desconfiará de nada.

- Mesmo assim, muito cuidado. O Josef é uma águia velha, qualquer detalhe ou deslize por parte de vocês ele poderá descobrir.

- Não tem como ele não nos descobrir. Ele acredita que sou realmente o único comprador. Será uma surpresa quando ele vir nós três chegarmos ao cartório. Fique tranquilo que vai dar tudo certo. Agora, se o senhor não se importar, podemos descansar?

- Claro, os quartos já estão preparados.

- Não fique aborrecido, é que amanhã quero ir para Belo Horizonte e aguardá-lo lá.

- Tudo bem, boa noite.

- Boa noite, Dr. Jorge.


***


Adolfo estava nervoso e não parecia muito à vontade. Aquele tipo de pressão nada mais era do que uma chantagem que o estava deixando constrangido. Mas o que poderia fazer contra o poder daquele empresário safado e déspota? O jeito foi ceder, e agora estava ali para ver seu algoz sorrir interiormente.

- Isto sim é o que podemos chamar de pontualidade britânica. Então, dormiu bem? Ou eu é que vou ter insônia esta noite?

- Josef, não brinque comigo. Quando foi que você teve ou terá algum tipo de insônia? Pessoas como você não vão às compras, mandam buscar e acabou, mas vamos ao que nos interessa. Ontem mesmo entreguei sua proposta à direção geral. Passaram o restante do dia em reunião e hoje me deram a resposta às quatro horas.

- Meu rapaz, você está conseguindo me deixar apreensivo. Afinal; eles aprovaram ou não, a nossa proposta?

- Um momento. Nossa não, sua. Nada tenho a ver com este empréstimo, inclusive, para seu conhecimento, ele foi aprovado sem o meu aval. Fiz questão de deixar bem claro que eu não era intermediário, não concordava e nem participaria de qualquer decisão sobre o mesmo. Estava ali somente como o portador da proposta.

- Adolfo, você continua fazendo mistério. Qual foi a resposta? Será que vou ter que mandar lhe torturar para obter esta bendita informação? Porra.

- Para sua satisfação, foi aprovado. Agora vocês assinam a documentação e o dinheiro estará disponível na conta em mais ou menos um mês.

- Parabéns, você foi inteligente, ganhou um bom dinheiro e não ficou comprometido. Vou lembrar disso, quem sabe, no futuro. Se eu precisar de alguém astucioso, com certeza irei contratá-lo.

- Até aceito, Josef, mas só se for pago a peso de ouro. Bem, agora acredito que poderemos saborear nossa pizza. Vamos a ela?

- Claro, depois de todo esse suspense, mais que merecemos bom apetite.

Terminado esse encontro, Josef reuniu-se sigilosamente com seus dois seguranças que sempre estavam discretamente por perto. Determinou que eles fossem no sábado a Belo Horizonte levando a filmadora, se hospedassem no Hotel Financial sem chamar a atenção, e o aguardassem lá.


***



























Sábado, nove horas da manhã do dia 16 de Novembro


Josef resolveu dar uma passada na Sociedade Israelita, local onde também funciona a Federação de Comitê Judaico, pois sabia que haveria uma reunião sigilosa e ele queria ficar a par de tudo para não ser pego de surpresa. Afinal, não foi à toa que ele construiu todo aquele império financeiro. Muita gente dependia de toda sua habilidade, não só no Brasil como em algumas regiões pelo mundo.

Estava passando pelo pátio da Sociedade e Josef ouviu chamarem seu nome. Voltou-se. Era Isaac, o inspetor do serviço secreto de Israel. Estava disfarçado de rabino, o que o tornava uma figura ainda mais ridícula do que normalmente já era. Josef conteve o riso, mas seu interior gargalhava como se tivesse acabado de escutar uma boa piada. Pensou consigo como pode essa figura ocupar tal posição.

- Isaac! O que está fazendo aqui? Para mim você ainda estava em Israel. Tudo bem por lá? Você e a família também estão bem?

- Lá, comigo e com a família, como você mesmo sempre fala, está sob controle, mas se estou aqui, é por sua causa.

- Por minha causa?

- Sim meu amigo. Você virou alvo de um ódio ferrenho e nós dois sabemos muito bem o por quê. Precisas tirar aquele Buda da recepção da empresa.

- Ora, Isaac. Você continua dando ouvido a especulações.

- Temos informação que vocês estão correndo risco de morte. Até os palestinos estão querendo a sua cabeça e a de Laura.

- Como sempre você está exagerando.

- Lembre-se que seus filhos ainda precisam de vocês, sem contar que a vida da comunidade necessita de você na sua totalidade. Acabe de uma vez com aquela provocação, do contrário não vamos conseguir conter os mais radicais.

- Não se esqueça que sou a galinha dos ovos de ouro, e como tal, todos me protegem. Para sua ciência, nossa organização, encarregada de localizar os malditos nazistas, recebeu neste semestre a módica quantia de 2 milhões de dólares. Por que haveria eu de ficar preocupado se estão ou não tramando em me matar?

- Josef, claro que nós iremos sempre protegê-lo. Nossa grande preocupação é com os palestinos. Temos informações dos serviços secretos que eles enviaram alguns agentes para tentar eliminá-lo. Por esta razão é que estamos aqui.

- Você disse estamos aqui?

- Sim, Josef. Vieram todos. Desta vez eles querem que você reconsidere sua posição com relação ao Buda.

- Outra vez essa mesma história? Quando é que compreenderão que aquela estatueta não passa de uma obra de arte?

- Só irão voltar depois que tiverem a garantia de que você realmente vai dar fim na imagem e acabar com o impasse religioso, além de não correr mais perigo.

- Isaac, ponha uma coisa na sua cabeça e veja se consegue fazer o mesmo com as outras que estão lá dentro. Quem passou pelos horrores de uma guerra e conseguiu sair vivo de um maldito campo de concentração não se curva, não deve e não dá satisfação a quem quer que seja. Por isso, a peça continuará a me pertencer, goste quem gostar, ou não.

- Você já está sendo injusto. A preocupação com você é tanta que estás sendo monitorado, seguido, vigiado e protegido 24 horas por dia. Vamos entrar e diga você mesmo a eles que o maldito Buda será retirado hoje da saleta.

- Isaac, eu conheço bem você e eles. Sei perfeitamente o quanto estão preocupados. – Ironizou Josef. – Vamos lá, mas não vou garantir nada. Gosto daquela peça. É apenas uma obra de arte, não tem nada a ver com religião. Seu valor é inestimável. Já cheguei a recusar $100 mil dólares por ela.

- Então invente qualquer coisa e diga a eles, de forma que se convençam e lhe deixem em paz.

- Estou pensando.

- Então pense rápido, pois temos que comunicá-los agora.

- Se tem que ser assim tão rápido, o máximo que posso fazer é dizer que a vendi para o museu. Vou deixá-la lá no MAM sem tempo determinado para ser retirada de exposição. Ninguém precisa saber que ela continua sendo minha.

- Ótimo, diga a eles essa sua decisão, Josef. Tenho certeza que ficarão satisfeitos.

- Eu não, vá lá você e convença-os. Eu estarei ao seu lado, mas não direi uma única palavra.

- Por que eu, se você é que causou toda essa polêmica?

- Sim, você... Já que foi você que os trouxe aqui, você os manda de volta. O que você disser eu assino em baixo, desde que a minha vontade seja respeitada.

- Então vamos logo acabar com essa pendenga.

- Antes me diz. Tem alguma informação sobre o Reinaldo?

- Reinaldo? Quem é esse cara? Eu deveria conhecê-lo?

- Não, esquece. Foi só uma curiosidade minha. Vamos ao encontro.

Entraram em uma sala reservada bem ampla onde podia ser vista uma grande mesa ao fundo com cinco confortáveis poltronas devidamente ocupadas. No resto da sala existiam poltronas para mais ou menos cinquenta pessoas, do tipo das que existem em qualquer auditório. Isaac falou ao conselho de anciãos o que Josef havia combinado momentos antes, omitindo obviamente que a peça continuaria sendo dele. Todos, menos Samuel, concordaram, mas exigiram que a peça fosse retirada naquele exato momento do local e fosse entregue ao museu.



















Capítulo Terceiro


Segunda-feira, nove horas da manhã do dia 18 de Novembro


Cidade de Belo Horizonte


Lá estava ela sentada na sala de espera do aeroporto. Com uma revista sobre as pernas tapando-as, estava usando uma minissaia bem curta, a bolsa pendurada no ombro, um bilhetinho amassado entre os dedos, e um pacote de bolinhas de chocolate na outra mão. Ali, sentada naquela cadeira desconfortável preta, ouvindo o barulho da TV, dos aviões e dos alto-falantes avisando a chegada e a partida dos voos que não eram o que ela aguardava. Pensou sobre os últimos dias vivido, como tudo era estranho. Diria sem medo de errar que tinha sido um sonho, se não fosse real. Um sonho que ela não saberia denominar se era bom ou ruim. "Tudo depende do ângulo em que se observa", era o que provavelmente ela diria caso alguém perguntasse. Para tudo nesse mundo existem aspectos positivos e negativos. E naquele momento, ela só queria pensar nos bons. Seria uma bela surpresa para Josef. Ele iria se perguntar como ela sabia que ele estava chegando naquele voo. Era realmente muito bom ele ter a certeza de não poder controlar tudo, e principalmente a determinação dela. Como iria reagir àquele encontro inesperado? Teria que fazer parecer ser uma simples coincidência.

Patrícia escuta o anúncio da chegada do voo 606 da Varig que estava atrasado. Dando continuidade ao seu plano, dirige-se à saída de passageiros e aguarda. Logo o avista e coloca-se numa posição aonde vão se defrontar. Josef deu de cara com ela, e pela primeira impressão, pareceu-lhe estar ela procurando alguém. Os dois se olharam. Ele, surpreso, e ela, feliz. Quanto tempo que não se viam. Ele soltou a mala e foi em direção da amiga que estava fazendo de tudo para virar amante. Abraçaram-se. E sem dizer nenhuma palavra ela tentava eternizar aquele momento...

- Patrícia! Que surpresa agradável! Como soube que eu estava chegando nesse voo?

- Josef! Eu não sabia. Estou esperando uma amiga, mas parece que não veio, ou se veio, saiu e não a vi. Acabei me distraindo com você. Realmente para mim é uma surpresa muito agradável. Porque não me avisou que vinha?

- Foi uma viagem de última hora, não estava programado para vir a Belo Horizonte esta semana. Então, não vai procurar sua amiga? Pode ser que ela esteja por aí a sua espera.

- Não, ela também não sabia que eu vinha e provavelmente já foi embora. É uma pena!

- Bem, estou indo ao hotel. Dou-lhe uma carona até o centro. Vamos?

Josef fez o convite já sabendo de antemão a resposta.

- Vamos!

O movimento no aeroporto era enorme naquela segunda-feira. Dirigiram-se ao balcão de aluguel de táxi. Josef solicitou um carro e pediu urgência no atendimento.

- O táxi chegou. Vamos que estou com a agenda cheia.

- Uai? Não vamos ficar juntinhos, amor?

- Vamos sim, mas só logo mais à noite. E até lá, veja o que queres fazer. A noite será inteiramente nossa.

Entraram no táxi e Josef indicou a direção. O motorista ofereceu-se para ligar o rádio e eles aceitaram. A viagem seria um pouco demorada devido ao transito. Enquanto uma música lenta tocava, via passar pela janela do carro uma paisagem que ela quase tinha de cor em sua mente. Olhava tudo aquilo e pensava em como seria feliz se aquela situação que conseguiu criar desse certo. Esperou tanto por aquele dia. Fez tantos planos, criou tantas expectativas. Estava tão perto, mas tão perto que nem dava para acreditar que finalmente iria ter aquele homem totalmente em seus braços. Quem sabe tudo correria como ela planejara, para sempre.

Por sua vez, Josef estava com a cabeça fervilhando.

Que situação eu estou metido. Sei que homens mais velhos se envolvem com meninas. Muitos homens têm que andar com mulheres jovens para se sentirem também novos. Isso representa poder e virilidade. Como nós possuímos experiência de vida, fica mais fácil conseguir uma menina de 24 anos. Ela normalmente procura um homem com certo poder financeiro, enquanto ele deseja um corpo jovem. Mas tenho certeza que este não é meu caso. Essa garota quase me pegou desprevenido. Como será que ela soube que eu iria chegar hoje? Essa história de esperar uma amiga está muito mal contada. Eu vou descobrir quem a avisou. Também preciso encontrar a maneira certa de acabar com esse romance de vez, de alguma forma. Terá que ser a mais drástica? Se for, não hesitarei”.

- Chegamos, Patrícia. Deixarei a mala na recepção e vou ao escritório, pois tenho um encontro com o Dr. Carlos. Vemos-nos logo mais, às oito horas. Está bom assim?

- Combinado, até lá.

- Motorista, por favor, deixe minha amiga aonde ela quiser. Creio que isso paga seu serviço, certo? – Dizendo isso, deu-lhe uma nota de Ncr$ 100,00.

Patrícia continuou sua viagem até sua casa. A cabeça estava a mil e ela tinha a sensação de que aquele seria o grande dia. Não deixava de pensar um minuto sequer de como envolveria de vez aquele ricaço e garantiria sua estabilidade financeira pelo o resto da vida.

Logo na recepção do hotel encontrou com Jaguaré, seu velho conhecido e chefe do restaurante.

- Bom dia, Jaguaré! Faz tempo que não saboreio um dos seus pratos. Pretendo vir almoçar aqui hoje. Lembra do Dr. Carlos? Virei com ele e, sempre que possa, elogie suas inovações.

- Bom dia, Sr. Josef! É sinal que ele gosta, e sabendo disso, vou caprichar.

- Ah, prepare-me algo leve, pois a tarde vai ser um pouco puxada e cansativa.

- Fique tranquilo, o senhor e o Doutor gostarão. Vou esperá-lo às treze horas com um Gaspacho. Que tal?

- Excelente! Estaremos no restaurante no horário. Com licença, agora preciso deixar essa mala na recepção pois já estou atrasado. Até lá!

- Bom dia. Por favor, há uma reserva para Josef Nathan até quinta feira. Mande subir a minha mala, pois não pretendo ir ao apartamento neste momento. Até logo.


***

Gaspacho: – para quatro pessoas:

Duas colheres (sopa) rasas de cebola ralada;

Um dente de alho esmagado;

Meia xícara (chá) de pimentão verde picadinho;

Uma e meia xícaras (chá) de caldo de carne quente;

Meia xícara (chá) de ketchup;

Meia lata de creme de leite;

Sal, páprica e pimenta do reino a gosto;

Meia xícara (chá) de pepino descascado picado;

Uma xícara (chá) de beterraba cozida e picada;

Duas xícaras (chá) de cubinhos de pão torrado.

Como preparar: – Coloque os três primeiros ingredientes numa sopeira, junte o caldo de carne e deixe esfriar. Acrescente o ketchup e o creme, mexendo bem. Misture os temperos, o pepino e a beterraba. Conserve na geladeira até o momento de servir. Sirva a sopa sobre os cubos de pão torrado.

Acompanha: – Arroz frito e Creme de abacate.

***


Josef encontrou-se com Dr. Carlos e falou do almoço. Combinaram que veriam as obras na parte da tarde. Já que estava no escritório, aproveitou para examinar as novas plantas. Seu engenheiro havia idealizado novos modelos e garantia serem todas de baixíssimo custo, mas as construções seriam de excelente qualidade. Apesar da boa notícia de custo baixo e dos novos formatos das casas serem excelentes, Josef não conseguia se concentrar. Seu pensamento estava em Patrícia. Ainda não tinha encontrado uma saída para aquele romance que não fosse da maneira drástica.

Pensava consigo mesmo: – “Será que estou querendo desfrutar dessa aventura e por essa razão não encontro à solução?”.

Como já estava próxima a hora combinada para almoçar, Josef encerrou a reunião e foram ao restaurante. Antes de se dirigir ao local, Josef avistou Massanet no saguão do hotel. Discretamente mandou que instalasse a câmera de filmar no seu apartamento de forma que a cama fosse o foco central.

Josef e Dr. Carlos acabaram de almoçar e se dirigiram para as obras. O engenheiro não parava de falar um só momento. Estava ansioso para que o patrão comprovasse o bom andamento da obra, afinal, tratava-se da construção do Bairro das Mangabeiras em Belo Horizonte. No contrato com a Prefeitura, aquela obra deveria ser entregue no próximo ano. Dr. Carlos acreditava que seu projeto mudou a cara do bairro, dando um ar mais sofisticado e de elegância. Com isso, ele teria mais credibilidade nas suas ideias e decisões. Mas Josef continuava com seu pensamento longe. Já passava das sete e meia quando deu por encerrada a inspeção. Elogiou muito o trabalho deixando Carlos satisfeito, não por simples elogio, mas porque realmente estava muito bom.

Voltava agora para encarar e resolver o último compromisso do dia. Tomara uma decisão e tinha que verificar se o local da cena que pretendia fazer rolar no apartamento do hotel estava pronto. Confiava em seu segurança, mas não custava nada examinar antes para não ter surpresas depois.

O relógio marcava cinco horas da tarde quando Patrícia desligou o telefone e foi terminar de se arrumar. Vestiu uma roupa, outra e mais outra. Nada do que escolhia lhe agradava. Quanta dificuldade, quanta indecisão. Acabou escolhendo uma calça preta san tropé com uma camiseta básica que, sem sutiãs, ressaltava ainda mais seu belo corpo. Sapato alto usava sempre, para dar um certo ar de elegância. Pronta, sentou-se na beira da cama tentando controlar sua ansiedade. Difícil. Ligou a TV e deixou na estação onde poderia ficar apenas escutando algum filme. O tempo ia passando e nada de dar a hora para ir ao encontro. Já passavam das dezoito horas. Resolveu então sair, pois não aguentava mais com tanta ansiedade. Ao pôr os pés na rua, logo pegou um táxi. Já estava quase chegando ao seu destino, e começava a ver pela janela lugares conhecidos. Passou a lembrar de alguns momentos vividos. Aquele lugar marcaria um momento especial de sua vida, um grande amor. Chegou ao hotel onde Josef estava hospedado, pagou e desceu do carro. Olhou em volta e não tinha muita gente na rua. Foi entrando e dirigiu-se à recepção. Esperou um pouco, mas ninguém apareceu para atendê-la. Teve a intenção de perguntar pelo recepcionista a um dos homens que se encontrava sentado na saleta de espera, mas acabou desistindo da ideia. Ficou um tempo sem saber o que fazer, parada em frente ao balcão de atendimento, segurando a bolsa. Pensou em sentar e esperar, mas por quanto tempo? E se Josef não aparecesse? Pensou então em ir embora. Virou-se, e para sua alegria, lá estava entrando o seu grande amor.

- Atrasei um pouco, vou subir e tomar um banho rápido. Dê-me quinze minutos e estou de volta.

Precisamente quinze minutos e Josef estava de volta.

- Pronto, agora estou inteiramente à sua disposição.

- Será mesmo? Mal estou acreditando.

- Claro! Vamos tomar um drinque e dançar?

- Está bem, mas não vamos demorar, Josef.

Chegaram à pequena e aconchegante boate que com suas paredes totalmente espelhadas dava a impressão de ser gigantesca. Pediram um drinque e dançaram algumas vezes ao som da voz de um cantor que ali se apresentava só cantando músicas românticas da época. Ficaram mais algum tempo por lá, quando então a convidou para ir a um lugar mais discreto.

Foram direto ao seu apartamento no hotel.

Patrícia estava tão assanhada que foi logo tirando a roupa, ao chegar. Naquele instante, Josef teve o pressentimento de que seu plano não ia dar certo, pois quase não pôde ligar a filmadora que havia mandado esconder no guarda roupa. Também não pôde ajustar o som para que o ruído da filmagem fosse abafado. Após um banho refrescante, tomaram mais um drinque e se entregaram às maiores loucuras ali mesmo, no chão. Depois a levou para a cama e se acariciaram durante alguns momentos. Josef sempre tomando o devido cuidado para que tudo fosse registrado pela sua filmadora escondida. Aquela morena baixa e com um corpo de anjo mais parecia uma fera, tal o apetite com que o devorava sexualmente. Em seguida, ela assumiu uma postura de amazona, e naquela cavalgada frenética, não iam segurar por muito tempo a pressão do prazer que estava por vir. No auge daquele momento, ela encostou os lábios no seu ouvido e sussurrou-lhe algo que não entendeu bem. Logo de imediato a gata começou a gemer e sacudir seu corpo de uma maneira incrível. Tinham alcançado o clímax, foi como se o mundo tivesse desabado sobre eles.

Josef, deixando o ninho de amor sendo filmado vazio, levou-a novamente para o banheiro. Ela em momento algum notou que tudo o que ele estava fazendo era mecânico e premeditado. Depois do banho, deitou-a de bruços bem em frente à filmadora. Tirou da sua calça, que estava pendurada na cabeceira da cama, um lenço de linho que sempre usava e vendou-lhe os olhos, dizendo que deveria apenas relaxar e aproveitar o clima. Ao mesmo tempo em que deslizava sua boca pelas costas, acariciava suas nádegas maravilhosas mordiscando as bochechas, deixando dessa forma, sua amante excitada. Lubrificou toda a região com um pouco de vaselina e passou a introduzir-lhe lentamente um pênis de borracha que havia trazido dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo em que, com a outra mão, acariciava a pequena gruta que momentos antes já tinha visitado. Patrícia dizia estar adorando e não suspeitava que mais uma vez Josef cuidava para a cena não fugir do alcance das lentes. Patrícia gemia. Ela ficou encantada, nunca havia sido penetrada por um, mas ele ficou impressionado por ela ter recebido aquilo tudo, não reclamando em nenhum momento da penetração. Para atender ao pedido dela, possuiu-a pela frente sem tirar o consolo do traseiro. Isto sem descuidar dos movimentos, para não sair do foco da câmera e perder a cena.

Patrícia era só gemido e gritinhos contidos, dizendo ter adorado a fantasia.

Naquela noite, além de filmá-la nessa situação, voltou a penetrá-la duplamente, apenas invertendo as posições. Pensou estar fazendo de tudo para constrangê-la e desagradá-la. Infelizmente, mais uma vez fez tudo errado, o tiro saiu pela culatra e a safada adorou a sacanagem. Até mesmo quando ele mostrou a filmadora e falou que ia enviar a cópia da filmagem para seus pais, caso ela não desistisse daquela loucura de ser sua amante, obteve uma resposta que não havia imaginado.

- Se realmente fizer isso, eu mando tirar duas cópias. Uma envio para sua mulher de presente, e a outra para a imprensa. Pense bem antes de fazer qualquer bobagem.

Logo passou pela sua mente a intenção de matá-la. Seus olhos acinzentados a fuzilavam fria e ameaçadoramente.

- Não sei por que olha para mim com essa cara quando digo que vou mandar o filme de volta para sua mulher.

- Terias realmente coragem de fazer isso?

- Josef, eu não estou brincando. Você vai ser meu de qualquer maneira, seja por bem ou por mal.

- Você está completamente louca! Sabe que posso mandar te matar?

- Não tenho medo da morte. Gosto de homens como você: rico e poderoso. Você filmou nossa sacanagem? Parabéns! Também mandei fotografar todos os instantes em que estivemos juntos hoje. Caso alguma coisa me aconteça, a polícia será a primeira a saber.

- Tenho meios de realizar o que falei antes mesmo de você ou alguém ligado a você chegue à porta da delegacia.

- Você pode ser poderoso, até mesmo o maior empresário de todos, mas para mim não passa de um bobo. Agora então, depois dessas ameaças, vejo o quanto és inocente. Entretanto, eu gosto de você mesmo assim e ponto final.

- Realmente você enlouqueceu, até perdeu a noção de perigo.

- Quer saber os motivos? Vou lhe contar.

- Não perca seu tempo, eu faço ideia.

- Vou falar mesmo você não querendo. É a grana que você tem. Para mim isso significa proteção. Tem sensação maior do que saber que estou amparada por um homem como você? Vou ser a rainha, a deusa, a dona do pedaço, quer queira ou não, cherry.

- Patrícia, realmente eu lamento muito ter lhe conhecido. Jamais imaginei que fôssemos chegar a esse ponto. Contudo, mesmo assim vou lhe dar um aviso.

- Eu não quero saber de aviso nenhum. Você é que pense bem no que vais fazer.

- Preste bem atenção no que vou lhe falar, pois não irei repetir. De agora em diante, você estará sendo vigiada. Portanto não envolva mais ninguém nisso, principalmente se você gostar da pessoa. Quero alertá-la que, o seu fotógrafo, e quem mais tiverem tomado parte nessa chantagem serão executados se eu não tiver a posse dos retratos e dos negativos dentro de 24 horas. Agora, se eu conseguir todo o material antes desse tempo que estipulei, deixo vocês viverem. Podes ir embora, seu romance terminou aqui.

Patrícia simplesmente começou a chorar. As lágrimas caíam de seus olhos sem ela ter controle. Um misto de desprezo e ódio tomou conta do seu ser. Pensou em ligar para a mãe a fim de dizer o que estava acontecendo, mas ficou sem coragem. Não tinha forças e nem cara para dizer à mãe que o seu namorado, o mesmo de quem ela sempre falava bem, a tinha ameaçado de morte.

Não conseguia entender. Estava tudo tão certo, ela achava que aquele dia finalmente havia chegado. Mas de nada adiantou sua tentativa.

Sem uma explicação, num salto enxugou as lágrimas, pegou todas as suas coisas de qualquer jeito e desceu até a recepção.

Vou embora desse lugar! O mais rápido que eu puder!” – Pensava.

Já na calçada do hotel, chamou um táxi. Sua mente fervilhava, o ódio tomara o lugar do amor. Seus pensamentos estavam confusos.

Mas para onde vou? Esse homem é mais perigoso do que eu imaginava e não posso facilitar, nem comprometer mais ninguém. O que fazer? Matá-lo antes que ele me mate? Não vejo outra solução”.

Imediatamente, Josef ligou na recepção. Mandou chamar o homem que ali estava sentado e que quase não tinha sido notado.

- Massanet, é você?

- Estou aqui como o senhor mandou.

- A moça que estava comigo está por aí?

- Está em pé na calçada, senhor.

- Siga-a. Quero saber tudo o que está fazendo e com quem fala. Provavelmente ela vai se encontrar com um homem que acredito ser um fotógrafo profissional. Caso aconteça o encontro, quero todos os negativos e fotos que você encontrar com ele. Principalmente as imagens em que eu estiver com a mulher em questão. Ouviu bem? Quero todas, pois assim parecerá que é um roubo comum. Vá e não a perca um só minuto. Leve o Godoy com você, pode ser preciso seguir dois alvos. Se houver resistência por parte do fotógrafo, já sabe desde já o que fazer. Depois nos falamos novamente.

O rapaz da recepção retornou a ligação a Josef.

- Senhor, desculpe incomodá-lo tão tarde, mas como me ligaste creio que ainda esteja acordado. É que estarei de folga amanhã e o senhor ficou de me dar uma receita. Peço que a deixe aqui na recepção, que à tarde passo no hotel e pego.

- Está bem. Deixarei com o Rui. Qual foi mesmo a receita?

- Bacalhau maluco, senhor.

- Mário, amanhã quando eu descer já estará escrita para você.

***
















Terça-feira, nove horas da manhã do dia 19 de Novembro


Josef verificou em sua agenda qual seriam seus compromissos para aquele dia. Na parte da manhã, às dez horas, estava marcada a entrevista com Paulo Gomes, das lojas Fênix. À tarde, às quinze horas, com Mário Henrique, o ourives.

Já estava no corredor próximo ao elevador quando lembrou da receita que Mário havia lhe pedido. Voltou ao apartamento para pegar a receita e neste exato instante o telefone toca. Josef atende.

- Sr. Josef, sou eu! Estamos com um pequeno problema.

- Não vou falar por telefone com você agora, à noite nos encontramos.

- Mas senhor...

- Você sabe muito bem o que fazer. Faça-o e não perca tempo. Até à noite, Massanet.

Passando pela recepção, deixou a receita de Mário.


***

Bacalhau maluco: – para quatro pessoas.

Três xícaras (chá) de arroz;

Filé de bacalhau (300g);

Quatro ovos cozidos;

Uma lata de ervilha;

Queijo parmesão ralado (50g);

Azeitonas sem caroço;

Uma cebola batidinha;

Dois alhos socados;

Dois tomates sem caroço e sem pele;

Meia xícara (chá) de óleo.

Modo de fazer: – Prepare o arroz de maneira habitual, mas não deixe secar muito. Refogue o bacalhau em lascas médias no Óleo com todos os temperos. Quando estiver cozido junte as ervilhas. Numa travessa misture o arroz com o ensopado de bacalhau. Polvilhe com o queijo parmesão ralado e leve ao forno aquecido (200º) por oito minutos. Enfeite com fatias de ovos cozidos e sirva.

Acompanha: – Batata Sautê, Salada de alface e Tomate.

***


Estava descendo a escada do hotel e já avistou parada em frente à entrada uma Mercedes modelo 1968, que parecia aguardá-lo. O dia amanheceu nublado, mas ainda não chovia. Seguiu em direção ao carro e viu que realmente alguém o aguardava. Logo reconheceu o passageiro no interior do veículo. Era Paulo, que resolvera buscá-lo no hotel.

Paulo Gomes tinha trinta e três anos. Era o herdeiro universal de um dos maiores latifundiários de Minas Gerais e até cinco anos atrás não passava de um playboy mimado pela família e causador de problemas. De repente, resolvera mudar seu modo de vida e assumir a presidência dos negócios da família, o que vinha fazendo de uma forma bem moderna e objetiva, demonstrando a seus familiares que a farra e a boemia ficaram no passado. Para os amigos e conhecidos, a mudança foi sentida já na nova forma de se apresentar. Bastava olhá-lo em seus novos trajes e observar seu comportamento, que viam um homem transformado, sem, contudo ter desprezado as antigas amizades.

- Bom dia, Josef, entre. Não resisti à espera. Estou aqui para já irmos conversando.

- Bom dia. Você está parecendo um garoto, qual a razão de tanta euforia?

- Caro amigo, você não vai acreditar. Consegui dobrar a velha guarda e vamos construir um Mega Magazine. Um não aliás, quatro! Um em cada capital: Rio, São Paulo, Belo Horizonte e Brasília.

- Parabéns. Vamos comemorar com um belo almoço. Que achas de passar no Bar do Português? Fica lá em Santa Efigênia. Encomendamos uma salada e vamos para seu escritório acertar os detalhes da obra e do contrato. O Dr. Carlos já deve estar lá, combinamos de nos encontrar às dez horas.

- Ontem quando saí do escritório deixei tudo encaminhado para que ele pudesse trabalhar. Estamos chegando ao bar. Vai parar mesmo? - Perguntou Paulo, ainda não acreditando.

- Claro, meu amigo. Não deixaremos passar uma oportunidade como esta, afinal, não é todo dia que se faz nascer quatro filiais de uma vez.

- Bem, se é assim, seja feita a sua vontade. Pare o carro, Alberto. – Paulo ordenou ao seu motorista.

- Olhe! Aí está o Bar do Português.

- Vou lá e volto em minutos, Paulo.

Josef entrou rapidamente no bar. Dirigiu-se até a cozinha, já conhecia o proprietário. Lá deixou o pedido com Raimundo para fazer uma salada tropical e a forma de como deveria ser preparada, pois eles voltariam por volta das treze horas. Saiu em seguida e rapidamente rumaram em direção ao escritório da Fênix.

Paulo Gomes tinha reservado uma sala para que o Dr. Carlos pudesse trabalhar nos quatro projetos enquanto ele tratava das condições com Josef para a realização dos mesmos.

Dr. Carlos. Era assim que o engenheiro, contratado de Josef, gostava de ser chamado. Ele trabalhou rapidamente analisando todas as fotos com as dimensões dos quatro terrenos e fez o esboço do projeto arquitetônico para cada capital, deixando com Paulo Gomes para ser aprovado junto aos conselheiros da Fênix.

- Dr. Carlos, não é à toa que Josef o mantém a qualquer preço. Meus parabéns, eu não tinha imaginado as lojas dessa forma, o senhor teve muito bom gosto.

- Obrigado pelo elogio. Tentei fazer algo que agrade a todos, parece que estou a meio caminho dessa conquista.

- Acredito que nossos conselheiros aprovarão seu projeto.

Com o contrato já assinado e garantindo a realização das obras por sua construtora, nada mais os prendiam no escritório. O máximo que poderia acontecer era os projetos não serem aprovados e o Dr. Carlos ter de refazê-los. Estavam alegres e descontraídos, mas Josef continuava muito apreensivo e às vezes até disperso, o que em alguns momentos chamou a atenção dos amigos. Foram almoçar.


***

Salada Tropical: – para seis pessoas.

Duas xícaras (chá) de gomos de laranja;

Quatro bananas nanicas, maduras;

Um pé de alface e dois tomates sem caroço picados.

Molho: - Meia xícara (chá) de cebola picadinha;

Três colheres (sopa) de maionese;

Meia colher (chá) de alho bem picado;

Três colheres (sopa) de ketchup;

Uma e meia colheres (sopa) de salsa picadinha;

Três colheres (sopa) de extrato de tomate;

Sal e pimenta do reino a gosto.

Modo de fazer: – Retire a pele que envolve os gomos da laranja (cerca de seis laranjas) e coloque numa tigela. Junte as bananas cortadas em rodelas de um centímetro de espessura. Lave a alface e deixe escorrer. Misture bem os ingredientes do molho. Forre taças individuais com a alface, divida entre elas a mistura de laranja e cubra com o molho. Leve a geladeira por uma hora antes de servir.

Acompanha: – Arroz branco, Purê de batatas, Filé de Pescada e Goiabada com Queijo fresco.

***


- Então, Paulo, gostou do almoço?

- Olha, Josef, eu particularmente acredito que se o Raimundo quisesse melhorar esse prato, iria estragar. Estava excelente, nada a acrescentar nem tirar. Aonde você vai agora? Hotel ou Escritório?

- Nenhum nem outro. Estou indo encontrar com o joalheiro Mário Henrique.

- Josef, se o Mário estivesse aqui agora, você teria comprado uma briga do tamanho de uma boiada. Tenho que lhe alertar que ele se diz ourives, pois cria as joias e segundo ele, joalheiro é quem as vende.

- Não se preocupe, conheço bem a paranoia dele nesse sentido. Falei aqui entre nós, com ele trato-o de “mestre” ou de “meu ourives lapidário”. Não há título melhor que este nesta área.

- Vou mandar meu motorista lhe deixar na porta da joalheria. Pode ser?

- Sem dúvida, e desde já obrigado. Ah, à propósito, Paulo, cuide para que nossos conselheiros não coloquem obstáculos nos projetos, pois eles estão perfeitos.

Paulo providenciou para que Josef fosse levado até a joalheria.

Faltavam dez minutos para as três horas quando Josef chegou e conferiu o horário no seu relógio de bolso, um autêntico Patek Phillip que tinha adquirido num leilão na Suíça. Aproveitou e ficou apreciando algumas peças de rara beleza que ficavam expostas. A loja não era muito grande. Quem ali estivesse jamais iria imaginar que aquela porta no fundo dava para um enorme salão repleto de joias prontas e outras sendo feitas. Várias pedras preciosas estavam ali para serem lapidadas, outras para serem cravadas em peças de ouro, de acordo com cada pedido feito pelos clientes.

De bobo Josef nada tinha, como afirmara Patrícia na noite passada. Ele sabia que as joias imperiais russas têm mais de mil anos de história. Muitas das primeiras peças da joalheria russa são similares em estilo às joias usadas nas cortes do império bizantino. Durante vários séculos, o estilo pouco se modificou. Foi somente com o imperador Pedro I, conhecido como "O Grande", que a Rússia iniciou com o ocidente trocas de cultura e experiência nos mais variados campos. Por causa disto, o estilo da joalheria russa modificou-se para sempre. A grande influência dos estilos de joalheiros estrangeiros, combinada à criatividade dos joalheiros russos, terminou por estabelecer uma grande e importante indústria joalheira na Rússia. Entre os mais famosos joalheiros desta nova indústria de joias russa, está a casa Fabergé.


**

O imperador Pedro I criou o que hoje é conhecido como fundo estatal do diamante. O objetivo foi abrigar as joias da família Romanov que passariam a pertencer ao estado russo. Essas peças não poderiam ser alteradas, vendidas ou doadas. Mais tarde, em 1914, essas joias foram transferidas de São Petersburgo para o palácio do Kremlin em Moscou, só sendo encontradas, catalogadas e fotografadas por volta de 1926. Uma enorme seleção de peças, que compreendia aproximadamente 70% do total das coleções originais, foi vendida a um consórcio americano e, posteriormente, estas joias foram a leilão na casa londrina Christie’s em 1927. As joias vendidas foram dispersas por todas as partes do mundo e muitas têm até hoje paradeiro desconhecido”.

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De posse desse conhecimento histórico, Josef ia ao mesmo tempo lembrando de quando conheceu o ourives e das suas histórias fantásticas, motivo que o levou a fazer negócio com o sujeito não muito honesto. Para ele não importava, pois na verdade servia perfeitamente a seus propósitos escusos.

Mário Henrique era mestre no que fazia. Vivia escondido debaixo desse pseudônimo, porque na verdade era russo. Gostava de dizer ser descendente da famosa família de ourives e lapidadores Fabergé. Veio parar no Brasil porque seu pai teve que fugir da Rússia na guerra civil de 1917. Este estava sendo perseguido, apesar de não ser reconhecido como da família, pois era filho de Peter Carl Fabergé, que teve um relacionamento fora do casamento. Segundo ele, sua família, desde o século XVII, estava envolvida na arte. Era responsável pela criação e confecção de várias peças para o Imperador Pedro I O Grande, chegando a fundar naquela época a famosa e concorrida Maison Fabergé. Nesta eram confeccionadas as mais belas joias da família Imperial Romanov. Depois, os Fabergé foram joalheiros dos tsares Alexandre III e Nicolau II. Costumava se vangloriar de que foi na Exposição Internacional Universal, em Paris, em 1900, onde Fabergé foi aclamado Mestre de Ourivesaria. Isto na capital do país do qual, 215 anos antes, seus perseguidos ancestrais haviam fugido. As joalherias de Fabergé criaram e produziram trabalhos de imaginativa delicadeza até a Revolução Russa em 1917. Peter Carl Fabergé morreu no exílio, em Lausanne, na Suíça, em 1920.

Verdade ou não, toda essa história era um caso para ser pensado, pois os personagens existiram. Agora, por ele ser neto bastardo de Fabergé, surge a dúvida. Até porque Mário não nunca dizia o seu verdadeiro nome. Por outro lado, além de ser conhecedor profundo da arte, possuía vários croquis e desenhos de peças que foram feitas por Fabergé.

O relógio marcava três horas quando Josef resolveu entrar. Identificou-se à moça que estava próxima à porta. Esta o anunciou ao Sr. Mário Henrique, que imediatamente pediu que o acompanhasse até sua oficina.

- Como vai Josef, tudo bem? Desculpe, mas não pude deixar recado com sua secretária sobre nossos negócios. Olhe que ela tentou de todas as maneiras saber do que se tratava.

- Estou bem, mestre, mas não ligue. Jurema às vezes extrapola tentando chegar à perfeição como secretária. Onde está nosso orgulho?

- Veja com seus próprios olhos se é ou não uma beleza. Dediquei o maior cuidado e perícia nesta confecção para não haver erro. Ficou absolutamente perfeita. Quero ver quem consegue dizer que esta é uma cópia da original.

- Deixe-me ver, Mário. Trago hoje comigo uma foto que consegui junto ao museu, onde a original está guardada, para que eu possa comparar. Tem que ser exatamente igual.

- Tenho aqui algo melhor, Josef: o desenho original. Na verdade, um croqui especificando gramatura do ouro, os quilates de cada pedra colocada na peça e como foi usada a técnica para a confecção dela. Tudo elaborado e feito pelo meu avô, o qual deu forma a joia. Veja e comprove.

- Mário, confesso que estou realmente surpreso. Não pensei que fosse ficar assim tão idêntica. Se for colocada uma peça ao lado da outra, não se saberá dizer qual é a verdadeira.

- Josef, até lhe dou o direito de ficar incrédulo quanto à obra, que realmente é linda. Fico triste até de não poder dizer que é mais bonita que a original, pois são idênticas. Mas daí a duvidar do meu trabalho, não, até porque se eu não fosse capaz, com toda certeza você não me contrataria e nem pagaria os $100 mil dólares pela peça antes de vê-la.

Josef quase não acreditava no que via. Pagou realmente uma fortuna pela joia. Sabia da capacidade daquele ourives, mas mesmo assim continuava incrédulo. Era realmente maravilhosa aquela peça. Estava diante dele, nada mais nada menos, do que o “Ovo da Coroação”.

*


O Ovo da Coroação é um daqueles ovos especiais com alguma coisa no interior. Este translúcido esmalte amarelo limão lembrava o manto dourado usado pela imperatriz em sua coroação. Sobreposto está gravado o campo onde é incluída uma coroa de louros em ouro esverdeado com folhas entrelaçadas, formando uma gaiola. Cada seção contém em seus cruzamentos uma águia imperial de ouro com esmalte preto, e aposto, um diamante rosa. Como se isto não fosse suficiente Fabergé continuou a cumplicidade, incluindo um grande retrato cercado por 10 diamantes no alto e no botão do ovo. O monogramo da imperatriz pode ser visto da mesa desta pedra. A surpresa no interior deste maravilhoso ovo é a exata réplica da carruagem imperial usada em 1896 na coroação de Nicolau e Alexandra, em Moscou. Uma placa trançada de diamantes e ouro contém inscrita a data. Em ouro amarelo e morango em colorido esmalte translúcido, a carruagem é encimada pela coroa imperial em diamantes rosa e seis águias de duas cabeças no teto; é equipada com janelas esculpidas em cristal de rocha e descansos em platina. Em cada porta, uma águia imperial em diamantes.

Esta joia foi presenteada à imperatriz Alexandra Feodorovna por Nicolau II, em 1897.

*


*1


*- Texto e foto obtidos através de pesquisa na internet.


- Não fique aborrecido e nem me interprete mal. É que ainda estou em estado de choque. A peça é realmente maravilhosa. Não sei o que dizer. Meus verdadeiros parabéns, mas agora estou ansioso e quero saber quando é que vai ficar pronta à outra joia.

- Você sabe perfeitamente que esse tipo trabalho não é feito da noite pro dia, até porque a joia não pode ficar perfeita. Ela tem sim é que ficar idêntica a original, e isso, meu caro amigo, demanda certo tempo e uma grande quantia de dinheiro. Neste pormenor eu não invisto um centavo. Cabe a você determinar o tempo de demora da aquisição dos produtos para que eu possa dar início à confecção da peça. Tão logo o dinheiro esteja na minha conta, o serviço se inicia.

- Está bem, Mário, mas eu estava certo de que o Judeu aqui era eu e não você. Diga quanto tem que ser depositado, e a partir do depósito, quanto tempo vai levar para que eu tenha a joia.

- Você vai depositar $50 mil dólares referentes a cinquenta por cento do valor, a partir daí levo em torno quinze dias para conseguir o material. De posse deles, mais uns quarenta dias e você estará aqui novamente a ponto de ter um infarto, tal vai ser a beleza que verás.

- Você está maluco? Estás querendo que eu enfarte agora, ou andas testando a minha necessidade de querer a peça aumentando o preço?

- Josef, eu já sei que está marcado o leilão para a aquisição dessas peças. Sei até o valor do lance inicial, portanto faça o depósito que a joia estará na sua mão no tempo certo. No próximo dia vinte de janeiro, você estará engordando a sua conta bancária na Suíça com no mínimo $20 milhões de dólares, quantia referente à venda das peças que eu estou fabricando para você.

- Vejo que você está bem informado. Não sabia que também conhecias Jean Chevalier.

- Neste meio muita gente me conhece. Então, Josef, pare de chorar e trate de depositar logo meu dinheiro a fim de não atrasar o seu leilão. E não esqueça: uma semana antes da entrega, aviso-lhe para que deposite os outros cinquenta por cento.

- Mário, o que você está fazendo é quase uma chantagem, uma coação propriamente dita. Descobriste meu segredo e agora me encosta de encontro à parede, pois sabes que não posso desfazer o evento marcado com os colecionadores.

- Não fique assim tão chateado, afinal, esse depósito é uma ninharia se comparado ao que você vai faturar com essas peças.

- Vou pagar, mas cuidado para não espantar um bom cliente como eu. Na próxima vez, nossa negociação será diferente.

- Na próxima vez nós veremos isso, Josef.

- Não se esqueça de que os riscos são iguais tanto para mim como para você. Nós estamos na mesma embarcação, e caso o barco fizer água, com certeza você se afoga primeiro.

- Agora eu é que estou me sentindo chantageado e ameaçado, mas como tudo sempre é um risco vou fingir que não entendi.

- Então cuide para que nada dê errado. Confeccione as joias como se fosse o próprio Fabergé, caso contrário eu também posso estragar sua vidinha pacata no Brasil.

Quanto à confecção das joias, não vou nem lhe responder porque você já sabe a resposta. Afinal, eu sou um Fabergé.

- Bem, já que nos entendemos e chegamos a um bom acordo, podemos comemorar com um bom jantar. Essa discussão e a visão deste ovo me abriram o apetite. Sugiro uma boa comida italiana. O que achas, está de acordo?

- Por mim tudo bem. É melhor irmos indo para não encontrarmos o restaurante cheio, pois sei que vais querer pedir pessoalmente o prato ao cozinheiro. Certo?

- Com toda certeza. Vai ser uma comidinha bem simples. Comeremos um... deixe-me ver. Que tal um involtini alla siciliana?

- Já lhe disse, por mim tudo bem.

***

Involtini alla siciliana: – para oito pessoas.

Oito bifes de patinho de 100 g cada
Três dentes de alho
Três colheres de sopa de salsinha picada
Duas colheres de sopa de hortelã picada
Seis colheres de sopa de farinha de rosca
Quatro colheres de sopa de parmesão ralado
Duas colheres de sopa de uva passas
Quatro cebolas fatiadas finamente
(1/4) de xícara de azeite de oliva
(1/2) xícara de vinho Marsala
Uma xícara de caldo de carne
sal, pimenta do reino e ramos de hortelã para decorar.
Modo de Preparo: – Picar finamente os dentes de alho, as uva passa, salsinha e hortelã, misturar. Bater bem os bifes entre dois sacos plásticos. Temperar com sal e pimenta-do-reino. Salpicar cada bife com um pouco de farinha de rosca, com um pouco da mistura de alho e com um pouco de parmesão, enroladas como uma braciola e prender com um palito. Aquecer o azeite de oliva em uma panela e dourar as braciolas por todos os lados, acrescentar a cebolas e deixá-las dourarem, cerca de 20 minutos. Regar com o marsala e deixar o vinho evaporar pela metade, acrescentar o caldo de frango e cozinhar em fogo baixo por cerca de uma hora. Se necessário, pingar um pouco mais de caldo na panela.

Acompanha: – Purê de Batatas e Escarola refogada.

***


- Josef, não consigo entender como você pode ter cabeça para guardar toda essa culinária internacional. Mandar fazer esses pratos que ficam deliciosos, cuidar das suas atividades pessoais e ainda administrar e controlar todo o conglomerado de empresas.

- Meu caro mestre, para quem está de fora, à primeira vista parece ser um bicho de sete cabeças, mas na realidade a culinária é quando me distraio. Meus negócios particulares são altamente remunerados, como você mesmo pôde constatar. Dá-me ânimo e sou rejuvenescido a cada evento. Com relação às empresas, só supervisiono, acompanho e cobro das pessoas as quais delego poderes. Não é tão difícil como parece. Acredito até que o que fazes é muito mais desgastante, pois ninguém divide responsabilidade com você. Aproveitando que estamos falando de ourivesaria, estou interessado que você faça outro Ovo da Coroação. Este é para minha coleção, não pretendo vendê-lo. Quanto me cobrarias por ele?

- É, você tem mesmo razão. As coisas que fazemos têm que nos dar satisfação, do contrário não valem a pena. Bem, vai lhe custar $100 mil dólares, mas só posso começar a fabricação dele após a entrega desta peça que você tem urgência. Para que eu possa fazer isso, preciso que você deposite a metade, pois assim já encomendo todo o material de uma vez e não chamo tanto a atenção junto aos fornecedores. Não se esqueça que eles controlam praticamente tudo e sabem perfeitamente quais materiais utilizados para determinadas joias, podendo com isso chegar à conclusão do que estou fazendo. Não podemos nos arriscar.

- Mário, amanhã eu vou transferir o dinheiro para a sua conta como você quer, para que possas tomar as providências. Gostaria de ver mais uma vez a joia, pois pretendo deixá-la guardada no seu cofre e só apanhá-la quando a outra estiver pronta. Vou levá-las daqui direto para o Jean, que ele quer examiná-las antes de apresentá-las aos interessados. Também não quero que ninguém tome conhecimento da existência delas, assim será mais seguro tanto para mim como para você. Podemos ir?

- Podemos, vamos lá.

***


Já eram quase vinte e duas horas quando Josef chegou ao hotel. Por lá também o aguardavam seus seguranças. Por um momento ficou preocupado, já que havia dado ordem para que seguissem a jovem vinte quatro horas sem perdê-la de vista. O que teria acontecido?

- Boa noite, o que aconteceu? Quero crer que nada tenha dado errado, ou deu?

- Executamos o serviço conforme nos foi determinado – Respondeu Massanet.

- Espere, não podemos conversar aqui. Ninguém deve ouvir o que temos a tratar.

- Então aonde iremos?

- Godoy, fique na portaria. Qualquer movimento suspeito nos avise no apartamento. Vamos subir, Massanet.

- Por favor, pode me dar a chave do apartamento 909? - Pediu ao recepcionista que já estava atento na conversa.

- Aqui está, Sr. Josef. Deseja mais alguma coisa?

- Não, boa noite e obrigado.

- Então, o que aconteceu afinal de contas?

- Nós seguimos a moça até um restaurante. Lá ela entrou, sentou a uma mesa e pareceu aguardar alguém. Ficamos do balcão vigiando-a até que chegou um homem magro e alto que parecia muito agitado. Falaram por alguns instantes e o homem logo saiu às pressas. Pude notar que ele carregava uma maleta de couro pendurada no ombro. Deduzi ser o tal fotógrafo que o senhor nos alertou. Saí atrás dele sem ser notado e o Godoy ficou com a moça. De fato o homem passou a ser o nosso alvo principal, pois ele não entregou nada à moça. Acreditei naquele momento que ela o tenha alertado sobre alguma coisa e por alguma razão saiu rapidamente. Segui-o até um prédio antigo onde podia-se ler “Fotógrafo Profissional, fazemos qualquer serviço de fotografia, interna e externamente”. Aguardei um tempo para ter certeza de que não viria ninguém e entrei sem fazer barulho. Pude ver que ele começava a se preparar para revelar o filme que estava na máquina. Aproveitei sua distração e dei-lhe uma pancada firme que ficou desacordado. No momento que eu estava para sair, fui obrigado a dar outra porrada e acho que desta vez exagerei. Acredito ter-lhe quebrado o crânio.

- Massanet, esqueça os detalhes. Não estou preocupado se quebrou ou não a cabeça desse filho da puta. Quero saber se você pegou todos os filmes que estavam em poder dele.

- Peguei os que estavam com ele, todos os filmes por revelar e os que já estavam revelados. Não ficou nenhum para contar história. Com certeza estão todos aqui. São ao todo vinte nove negativos e quatorze revelados.

- E quanto a moça? Que fim vocês deram nela?

- Ela conseguiu fugir.

- Como assim? Acredito que fui bem claro com o que deveria ser feito.

- Sabemos disso e fizemos tudo certo. Não tem com que se preocupar.

- Você tem certeza de que ela não se encontrou com ninguém e não está de posse de nenhum filme?

- Quanto a isso não tenho a menor dúvida. Acontece que quando eu já estava saindo da loja, a moça chegou e ao entrar no estúdio de revelação, viu o fotógrafo desmaiado. Ela saiu correndo de tal forma que não conseguimos segui-la e nem tentamos porque poderíamos chamar a atenção. Até aquele momento eu não sabia se o homem estava morto.

- Quero saber o que o faz ficar tão tranquilo a ponto de deixar a moça sem ser vigiada.

- É que voltei em seguida ao local como um cliente normal e pude constatar que Júlio, era o nome do fotógrafo, não tinha visto nada. Só sabia que tinha levado duas ou mais pancadas na cabeça e ao acordar havia constatado que fora roubado de todos os seus filmes revelados e os por serem revelados, não sabendo como iria dar a notícia a seus clientes. Aproveitei e comprei uma máquina fotográfica para não deixá-lo perceber de que eu estava na verdade especulando. Também perguntei se ele não tinha visto alguém, pois seria bom dar parte na delegacia, o que me respondeu que não vira nada e pouco adiantaria dar a parte, pois nada estava quebrado. O dinheiro continuava no caixa e não tinha como provar nem enumerar os filmes que sumiram. O senhor pode ficar tranquilo que esses dois não representam nenhuma ameaça e nem possuem alguma prova fotográfica que possa a vir comprometê-lo.

- Lembre-se que minha reputação não pode ser questionada. Para que isso não ocorra, sou capaz de tirar qualquer um do meu caminho.

- Também temos plena consciência disso.

- Ótimo. Se você tem tanta certeza, vou esquecer este episódio. Vamos ao que interessa. Onde estão os filmes? Já os destruíram?

- Não, eles estão na mala do carro. Estou aguardando sua ordem para queimar o material.

- Bem, então o que estamos esperando? Vamos lá que eu quero vê-los queimando, de preferência em um local seguro...

- Creio que na Pampulha seja um bom local. Lá é pouco frequentado e à essa hora deve estar deserto. - Sugeriu Massanet.

Após terem queimado os filmes, Josef voltou ao hotel para descansar. Tinha tido um dia de grande tensão, mas felizmente tudo havia terminado bem. Acabara de sair do banho quando o telefone tocou. Atendeu, era Patrícia. Com toda a tranquilidade do outro lado, ela friamente ameaçou:

- Desta vez você venceu. Vamos ver da próxima. Não vou descansar até vê-lo morto, cherry.

Sem dizer mais nada, desligou o telefone. Mais uma vez Josef voltou a se preocupar, pois aquela ameaça lhe pareceu mais séria do que a de seus compatriotas. Analisando friamente, ela nada mais tinha a perder. Já eles sim, de certo fariam tudo para manter a “galinha dos ovos de ouro” viva. Foi dormir pensando naquilo.

***





























Quarta-feira, nove horas da manhã do dia 22 de Novembro


Josef fizera-se acompanhar do Dr Carlos, esse engenheiro que contratara há dois anos. A cada dia que passava, dava provas de grande capacidade, não só na elaboração das plantas para obras como também nas negociações das mesmas, sempre mostrando e ressaltando as vantagens para ambos os lados. A sua lealdade, então, era inquestionável. Por estas razões fazia-se acompanhar sempre por ele e com isso crescia cada vez mais a confiança e a amizade com aquele profissional. Estavam na sala de espera do secretário de obras da prefeitura de Belo Horizonte. Para sua surpresa, havia sido informado pela secretária que o Sr. Ronaldo estava em reunião com o prefeito e que logo iria recebê-lo. Só não soube informar se teria uma reunião com os dois. Enquanto aguardava, Josef aproveitou para rever os temas que iria abordar. Não podia deixar escapar nenhum dos assuntos, pois os contratos em andamento e os futuros envolviam alguns milhões de dólares. De repente, a porta abriu e em sua direção vieram o prefeito e o secretário de obras. Estavam sorrindo, contrariando dessa forma o que a secretária havia dito. Para ela pareceu que seu chefe estava aborrecido. Menos mal. O prefeito, como todo político, logo deu início ao diálogo.

- Bom dia, Sr. Josef. É um prazer enorme vê-lo por aqui, mas infelizmente não poderei dar-lhe a devida atenção. Porém, o Ronaldo está com todas as coordenadas e com carta branca para acertar todos os detalhes, a fim de colocá-lo a par das nossas ideias e projetos.

- Bom dia, prefeito. Quero apresentá-lo ao Dr. Carlos, nosso engenheiro encarregado de todas as obras em andamento em Belo Horizonte. Com certeza das futuras também.

- Muito prazer, Dr. Carlos. Fico feliz em conhecer o homem que projetou o novo bairro.

- O prazer é todo meu, prefeito.

- Lamento, mas terei que deixá-los. Tenho uma reunião de última hora com o governador e você deve saber como é, sempre nervoso e com pressa. Sinto realmente ter que me ausentar, pois estando o Josef aqui vou perder, com toda certeza e sem medo de errar, algum prato altamente especial como só ele sabe mandar executar. Para desespero dos chefes de cozinha dos nossos restaurantes. Talvez nos encontremos à tarde. Foi realmente um prazer conhecê-lo, Dr. Carlos. Até breve e podem ficar à vontade.

- Josef, as notícias não são boas. Eu infelizmente tenho que transmiti-las a vocês antes de inspecionarmos as obras em andamento. O prefeito acaba de me informar que sua empreiteira perdeu todas as licitações da prefeitura para as futuras obras por ordem direta da Secretaria de Finanças, e ele foi obrigado a acatar a decisão. O motivo alegado é de que o custo apresentado por vocês está muito alto, e que existem outras empreiteiras tão boas quanto a sua, com preços melhores.

- Ronaldo, você sabe tão bem quanto eu que nosso trabalho é muito superior, e os materiais usados nas obras são de primeira qualidade. Sem contar que investi uma pequena fortuna para satisfazer alguns caprichos seus. Bem que lhe avisei de que o prefeito deveria tomar parte na divisão, mas você afirmou que tudo estaria sob controle e ele nem tomaria conhecimento de nada. E agora, como vou recuperar esse prejuízo?

- Também não é para ficar desesperado, Josef. Perde-se hoje, ganha-se amanhã. Darei-lhe uma notícia de primeira mão: o prefeito pretende iniciar a construção de um metrô em Belo Horizonte que irá do Horto ao Eldorado, com conexão para o Barreiro. Já imaginou a correria que vai ser para todos os interessados apresentarem as planilhas dentro do prazo que será estipulado somente na semana que vem? Sua empresa vai sair na frente, uma vez que estou lhe adiantando esse detalhe importante.

- Ronaldo, eu não estou desesperado, mas não gosto de perder. Ainda mais quando pago por fora uma fortuna para participar das obras. Sua ambição o cegou, você deveria pelo menos ter posto no esquema o secretário de finanças.

- Pensei em ter o menor numero de pessoas envolvidas. Vamos ter outra oportunidade de trazê-lo para o nosso lado. Lembre-se vamos ter metrô.

- Pois pensou errado. Quanto a essa ideia do metrô, não vou tomar parte nessa palhaçada pois tenho quase certeza que será mais um golpe político do seu chefe para poder se eleger deputado nas próximas eleições. O meu dinheiro não vai ser usado para manter campanha de ninguém.

- Mas quem é que falou em financiar campanha?

- Vamos deixar como está. Nós entregaremos as obras daqui a alguns meses e iremos investir firme nas obras do Rio de Janeiro. Deixemos de lado os prejuízos. Quero ver o restante das obras e depois vamos almoçar. Só uma boa refeição nessas horas me recompõe.

- Nisso o prefeito tem toda razão. Nessa área você é imbatível. O que está pensando em comer hoje?

- Está aí uma boa pergunta. Enquanto nos encaminhamos lá para o canteiro de obras, vou pensando.

- Então vamos para não ficar em cima da hora.

- Dr. Carlos, vou deixar a escolha do nosso almoço por sua conta. O que desejas comer?

- Olhe, um bom peixe viria a calhar. É leve e estamos precisando ter uma digestão facilitada depois de tão boas notícias.

- Então comeremos um Salmão. Está de acordo, Ronaldo?

- Quem sou eu para contestar? Tenho certeza de que será um verdadeiro manjar dos deuses.


Trabalharam até às treze horas verificando cada detalhe das obras. Foram anotadas todas as exigências que o secretário pediu para serem tomadas. Mesmo tendo perdido o filão, Josef queria que tudo fosse entregue conforme a vontade do prefeito. Afinal, ali ficaria o cartão de visita da sua empreiteira. Tudo terminado foram para o restaurante.


***

Salmão ao pesto: – para quatro pessoas.

Molho
Um maço grande de manjericão
Dois dentes de alho
Dez colheres (sopa) de azeite de oliva
Quatro colheres (sopa) de queijo parmesão ralado
(80g) de nozes bem picadas
(500g) de salmão em quatro postas
sal e pimenta-do-reino a gosto
suco de meio limão
Três galhos de coentro
Modo de Preparo: – Tempere o salmão com o sal, a pimenta-do-reino, o limão e o coentro picado. Deixe tomar gosto por uma hora. Coloque as postas em um refratário com um pouco de azeite virgem, tampe e leve ao forno por dez minutos, tendo o cuidado de virar as posta com cinco minutos. Retire a tampa e leve ao fogo por mais dez minutos. Reserve. Coloque as folhas de manjericão no processador, juntamente com o alho, o azeite, o queijo e as nozes. Bata bem. Sirva ao lado do peixe grelhado com Arroz Branco.

***


Na parte da tarde, Josef liberou Dr. Carlos alegando que seus encontros nada mais tinham a ver com engenharia. Consultou sua agenda e verificou que também tinha livre a parte da tarde. Resolveu adiantar seus compromissos e encontrar-se de uma vez com Levy, assim teria mais tempo na quinta-feira para tratar da venda das empresas com Charpantier.

Antes de ir ao encontro com Levy, voltou ao hotel e reuniu-se com seus dois seguranças. Massanet e Godoy, pelo olhar frio que estavam acostumados a ver do patrão, logo entenderam que a missão seria pesada e pouco agradável.

- Massanet, eu tenho uma pequena missão para vocês dois.

- Diga que executamos.

- Dessa vez não pode haver falha. Conhecem o secretário de obras?

- Sim, conhecemos.

- Esse safado me deu um pequeno prejuízo de milhares de dólares. Entretanto, não vou deixá-lo usufruir o dinheiro que me tomou. Amanhã quero ler nas notícias dos jornais local que o Sr. Ronaldo sofreu um acidente fatal. Fui claro?

- Como água.

Ali mesmo Josef dispensou seus seguranças. Queria manter o encontro sigiloso como sempre o fizera. Dessa forma, seu amigo continuaria não tomando conhecimento da existência deles. Precisava mantê-los incógnito para sua própria segurança, e a deles também. Chamou um táxi e dirigiu-se até ao escritório de Levy.

Já no escritório do amigo, pediu à secretária para avisar que ele estava ali. Perguntou se poderia ser recebido naquele momento, pois sua entrevista estava marcada para o dia seguinte. Levy, logo que ficou sabendo da presença de Josef, terminou com a reunião que estava fazendo e foi recebê-lo pessoalmente na recepção.

- Josef, que surpresa! Só o esperava amanhã, está tudo bem?

- Está, Levy. É que acabei com todos os compromissos e não tendo mais nada para fazer. Resolvi vê-lo logo. Agora, se você estiver ocupado, podemos nos encontrar amanhã conforme o combinado.

- Nada disso, não vamos deixar para amanhã o que pode ser feito hoje. Vou aproveitar e fechar o escritório. Iremos para o sítio, lá poderemos conversar com mais privacidade. Como sabes, ao ar livre fica difícil alguém escutar o que estamos tratando. Também vou aproveitar para apresentá-lo a Pierre Legrant, meu novo cozinheiro francês.

- Ótimo, assim peço que nos prepare para o jantar um lombinho de porco à moda francesa. Como ele é da terra, não vou nem dizer a receita, pois com certeza ele sabe de cor. Só teremos é que degustar e curtir o que há de melhor das culinárias, “à francesa”.

- Bem, então vamos. Não temos muito tempo a perder – disse Levy, puxando o relógio – Já são duas e meia e temos que conversar muito antes do jantar. Vou aproveitar e ligar para o sítio com a intenção de avisar ao Pierre que estamos indo para lá. Direi que você quer comer o tal lombinho que ele sabe tão bem como fazer.

Durante todo o percurso, falaram sobre a situação do país, coisa que na verdade não os interessava muito. Seus negócios funcionavam de qualquer maneira; sem interferências políticas, com ou sem ditadura.

Uma hora mais tarde entravam no sítio. Assim que passaram pela porteira, Levy pediu a seu motorista que parasse. Dali eles iriam conversando, a pé, até a casa.

Estavam numa alameda onde a cada lado, de três em três metros, podia ser visto estátuas de guerreiros romanos, alguns deuses gregos e leões. No intervalo das estátuas, foram plantadas acácias, extremosas e buganvílias, que com suas sombras davam um ar acolhedor a quem por ali passasse.

- Josef, eu sei que não tenho nada a ver com seus negócios, muito menos a forma de como os conduz. Entretanto, na parte onde eu entro, não posso ficar calado vendo você colocando todos nós em risco. O que está havendo? Por acaso você enlouqueceu e esqueceu de me avisar? Como é que você entrega toda a remessa de armas que me encomendaste para a organização de Yasser Arafat?

- Levy, meu caro. De forma alguma eu enlouqueci. Ocorre que a cada negociação com nossos irmãos, eu ganho $4 milhões de dólares. Acontece que eu descobri que é você que os financia. Na verdade, eu te compro, pago e entrego a mercadoria. Você me paga de volta, não aparece nas transações, fica protegido, dá uma de bom moço enquanto eu faço todo o trabalho sujo. Com os palestinos é diferente. Não corro riscos e ainda por cima consigo ganhar o dobro. Podes estar certo de que vou continuar alimentando os dois lados.

- Não tem dinheiro no mundo que pague esse risco que você nos faz passar. Nosso pessoal ainda não descobriu que fomos nós que alimentamos nossos inimigos. Quando eles souberem, confesso que não sei o que irão fazer. Josef, reconsidere o fato. Podemos continuar ganhando uma verdadeira fortuna. Para que arriscarmos nossas cabeças abrindo tanto o leque?

- Entenda de uma vez que não somos nós que fazemos a guerra. Não temos nada a ver com ela. Se estão ou não um no território do outro, eu só alimento a estupidez deles, e do nosso aliado Padre Roque. Aliás, eu não, nós.

- Mas Josef, nós somos judeus! Você sabe perfeitamente que sou eu o financiador das milícias de Israel. Como posso trair nossos irmãos ou permitir que eles sejam? Não vão querer saber se é o Padre Roque que passa as armas para o inimigo, virão é em cima de nós.

- Levy, não se iluda. Você acha que os palestinos não viriam? Nós deixamos de ser israelenses no momento em que saímos de Israel. Por que não vivemos lá? Com toda certeza é que não compactuamos com aqueles pensamentos nem com seus modos viventes. Só continuamos judeus, não concorda?

- Sim, concordo, mas mesmo assim minha consciência diz que estamos, ou melhor, você está errado. Se continuares com isso, vais morrer.

- Não estou gostando da forma como falas. Estás me parecendo uma sinfonia orquestrada. Nos últimos dias estou ouvindo a mesma cantiga várias vezes. Não gosto de me sentir ameaçado.

- Mas até agora ninguém o está ameaçando. Só estou expondo meu ponto de vista.

- De qualquer forma, o meu recado está dado e estou atento. Quanto a minha posição, vou deixar bem claro: sendo eu o negociante, o que faço é fornecer armas; se não for eu, um outro qualquer fornecerá. Então por que deixar outro ganhar se posso ser eu esse ganhador?

- Desse jeito você está parecendo ser mais um mercenário do que um negociante.

- Entenda como quiser, mas fique certo de que aquele que melhor pagar terá a mercadoria que ofereço. Já vou lhe adiantar que quero outras três remessas. Se lhe tranquiliza, posso dizer que não é para nossos irmãos e nem para os palestinos. Essa é para o xá Reza Palevi, nossos amigos do Camboja e do Vietnã.

- Se é assim, recomendo que procures outro fornecedor, porque a partir de agora não faremos mais negócio. Como seu amigo, digo-lhe mais: se pretendes continuar fornecendo para os dois lados, corres o risco de morrer. É preciso ter cuidado, pois este novo terreno que estás querendo pisar vai lhe trazer grandes dissabores. A concorrência não perdoa intromissão nos territórios e você está querendo comer na mesma maçã que eles.

- Bem, se você deseja ficar de fora, vou comprar os armamentos com Mohamed Sayad. Estou certo de que ele não terá nada contra se eu for vender para judeus, palestinos, vietnamitas, ao xá Reza Palevi ou aos rebeldes contrários a ele.

- Vejo que você enlouqueceu de vez. Assim eu não posso mais te proteger.

- A propósito, não queira me passar atestado de idiota. Sei perfeitamente que você faz parte desses concorrentes que podem ficar incomodados com a minha entrada neste mercado. Qualquer tentativa contra minha vida não passará em branco. Eu também tenho minhas formas de defesa e posso perfeitamente também tirar do mapa aquele que atentar contra mim.

- Acredito que já nos entendemos e não iremos a lugar algum deixando ameaças pelo ar. Pense, reconsidere e quem sabe continuamos a negociar.

Já eram quase sete horas da noite quando Judith - uma velha governanta judia que acompanhava Levy desde sua infância - os chamou e anunciou que o jantar estava pronto e poderia ser servido quando eles quisessem. Como não tinham mais nada para tratar, foram jantar. Comeram com um apetite de dar inveja a um mendigo faminto. Levy, entusiasmado com o que vira, arriscou uma gozação com o amigo.

- Então, meu cozinheiro é melhor do que você esperava, certo? Isso para não dizer que é melhor do que você na cozinha.

- É verdade, mas o que você não sabe é que está correndo um grande risco, diria até de vida, pois ele não é francês; é alemão.

- Você está brincando. Como podes afirmar uma coisa dessas se nem viste o homem?

- É simples: pedi que preparasse um lombinho de porco à francesa, baseado na nacionalidade dele; ele - sem se dar conta - traiu-se, pois nos serviu um lombinho à moda alemã. Veja a diferença entre as receitas alemã e francesa.


***

Lombinho de porco: – para quatro pessoas. (alemã)

Um kg de lombinho de porco
Dois limões. Três dentes de alho
Uma colher de chá de sal
Uma colher de chá de pimenta-do-reino
Duas colheres de (sopa) de manteiga
(250g) de creme de leite
Duas gemas de ovo. Meia xícara de vinho branco seco
(250g) da parte tenra da alcachofra.
Uma colher de café de açúcar
Modo de Preparo: – Limpar bem o lombinho, esfregando-o com um limão. Temperar com o alho socado, o sal e a pimenta-do-reino. Furar a carne com um garfo e esfregar o tempero. Fritar na manteiga quente até dourar - se preferir, cortar a carne em fatias grossas de quatro cm. Retirar a gordura que se formar. Juntar o creme de leite, misturando as gemas. Retirar do fogo, regar com o vinho e deixar descansar. Misturar o suco do limão restante, os pedacinhos da casca, o sal e a pimenta-do-reino. Juntar a parte tenra das alcachofras e o açúcar. Levar ao fogo até ferver. Reservar. Antes de servir, colocar a carne no forno bem quente por 20 minutos. Regar com o molho e guarnecer com as alcachofras

Acompanha: – Arroz branco com Batatas coradas.

***


Lombinho com laranja: – para quatro pessoas. (francesa)

Um kg de lombinho de porco
Um dente de alho. Uma cebola ralada,

Um copo de vinho branco seco
Três colheres (sopa) de manteiga
Duas laranjas limas ou da Bahia
Uma folha de louro, sal a gosto e pimenta a gosto.

Modo de Preparo: – Cortar o lombinho em pequenos pedaços, temperar com alho, cebola, sal, pimenta, louro e vinho. Deixar marinar durante 2 horas. Retirar da marinada e dourar na manteiga. Juntar o líquido e cozinhar em fogo baixo até ficar macio. Descascar e tirar as sementes das laranjas. Cortar em pedaços pequenos e juntar à carne. Servir em seguida.

Acompanha: – Arroz branco com Batatas Sautê.

***


- Vou mandar chamá-lo para tirarmos isso a limpo. Posso estar empregando um nazista e o puto está me matando aos poucos. Judith mande o Pierre vir até aqui que o Josef quer conhecê-lo e dar-lhe os parabéns pelo jantar.

- Seu Levy, o Pierre já foi embora. Precisou ir mais cedo, já que a mulher dele não está passando bem; ele foi para casa.

- Tudo bem, dona Judith. Em uma outra ocasião Josef fala com ele. Amanhã, mande arrumar tudo aqui; podes ir descansar agora.

- Josef, você tem certeza de que esse cara é alemão?

- Absoluta. Mesmo sem tê-lo visto, posso sentir de longe o cheiro de um filho da puta. Garanto que ele está lhe envenenando. Vá amanhã ao médico e peça para fazer um exame de sangue.

- Vou fazer isso amanhã mesmo.

- Levy, peça ao seu motorista para me levar. Pretendo descansar mais cedo hoje. Não esqueça de me mandar notícias sobre os exames, não deixe de fazê-los.
















Quinta-feira, nove horas da manhã do dia 21 de Novembro


A manchete da primeira página dos jornais em Minas neste dia era: – Belo Horizonte está de luto: acidente no canteiro de obras mata Ronaldo Soares, o secretário de obras da prefeitura e braço direito do prefeito.

Josef já estava acordado a um longo tempo. Não tinha dormido bem. Seu organismo parecia estar reagindo a alguma coisa. Desconfiou da refeição que comera na noite anterior; tinha certeza de que um dos temperos era veneno. Pouco, mas tinha. Durante os últimos momentos ficara a analisar todos os acontecimentos vividos nos últimos sete dias. Em toda sua vida nunca tinha ouvido tantas ameaças de morte. Parecia que o mundo resolvera conspirar contra ele. Cada vez mais se conscientizava que parar com todas as suas atividades era o mais sensato. Venderia não só as empresas, mas também acabaria com a construtora, ou deixaria esta por conta do seu sócio Jorge, já que era à vontade dele continuar com ela. Podia perfeitamente sair da sociedade. Concretizaria a venda dessa remessa de armas para o Irã e a Coreia, efetuaria o leilão das joias e a comunidade que arrumasse outro patrocinador para caçar os nazistas. Talvez quem sabe o próprio Levy.

Dessa forma, nada mais o prenderia, pois o dinheiro que acumulara era suficiente para viver o resto da vida em qualquer parte do planeta, sem que ninguém soubesse quem era ou onde estava. Era uma alternativa que deveria ser realizada rapidamente. Faria isso nos próximos dias; o instinto determinava que devesse ser rápido nessa decisão. Levantou-se e antes mesmo de tomar banho ligou para sua secretária. Determinou que ela providenciasse os passaportes dele, da família e comprasse as passagens para a França, alegando que iria descansar por uns dias.

Estava quase na hora do encontro com o presidente do grupo interessado na compra das empresas. Este não iria fazer-se esperar, afinal, com a venda já praticamente acertada, esse encontro seria mais para assinaturas das documentações e registro no cartório. Terminado esses procedimentos, Josef estaria dando início a uma nova etapa da sua vida.

Desceu de seu apartamento e antes de atingir a rua, ainda no saguão do hotel, assistiu de relance à notícia que, de antemão, já sabia que iria ler.

Às dez horas, conforme tinham combinado, Josef chegava ao Cartório de Notas do 4º Ofício, na Avenida Amazonas 491. Alguns instantes depois chegavam ao local Charpantier, homem extremamente educado que ao cumprimentar Josef deixava claro um leve sotaque francês, mesmo já vivendo no Brasil há quase dez anos. Estava com um terno cinza, uma camisa de linho azul e uma gravata italiana de listras na perpendicular. Todo esse visual o mostrava ser uma pessoa de fino gosto no vestir. Vinha acompanhado de dois homens também elegantemente vestidos, os quais Josef julgou serem advogados, pois tinham posturas e aparências bem diferentes das de seguranças.

Toda a documentação trazida por Josef - que era acompanhada por uma procuração de plenos poderes assinada a contra gosto por seu sócio Jorge da Silva Cerqueira – foi passada às mãos daqueles homens que a examinaram. Em seguida, entregaram ao tabelião, que por sua vez também a leu, só que em voz alta.

Após quase três horas de leitura, Josef e os advogados assinaram todos os documentos. Após um sutil aceno de cabeça afirmativo de Charpantier, Josef teve mais uma lição de vida: concluiu que aquele homem era um executivo de alta confiança dos verdadeiros proprietários que nada faziam; só pagavam a conta. Estava terminada uma transação de 100 milhões de dólares. A documentação foi encaminhada para registro nos devidos cartórios. Estavam sendo vendidas não só as empresas, mas também os imóveis onde elas funcionavam, o que justificava o tempo gasto na apresentação de toda a papelada por parte do orador.

Como não podia deixar de ser, foram todos convidados para almoçar. Josef fez questão de sugerir o cardápio para celebrar aquele encontro. Para ele, tinha um grande significado. Logo que chegaram ao restaurante, pediu o coquetel para brindarem o fechamento das negociações. Em seguida, almoçaram e degustaram uma bela e saborosa sobremesa, tudo escolhido e encomendado por Josef desde o dia anterior.


***

Coquetel de Champanhe e morangos:

Uma garrafa de champanhe Francesa
Meio kg de morangos maduros e açúcar a gosto.
Modo de Preparo: - Bata os morangos no liquidificador com duas colheres (de sopa) de açúcar. Depois, peneire-os. Junte um copo de champanhe e misture. Leve à geladeira e, no momento de servir, junte o resto do champanhe.


Saint-Pierre grelhado com Cogumelos frescos: – quatro pessoas.

Acompanhamento.
Uma xícara (chá) de creme de leite fresco
Um envelope de açafrão em pó ou pistilos
Duas colheres (sopa) de azeite de oliva
(250g) de cogumelos paris partidos ao meio
Duas colheres (chá) de ervas finas desidratadas
Sal e pimenta-do-reino branca moída na hora a gosto
Quatro filés de Saint-Pierre com a pele
Duas colheres (sopa) de azeite de oliva
Cinco colheres (sopa) de manteiga gelada
Duas colheres (sopa) de dill picado
Modo de Preparo: – Tempere os filés de peixe com sal e pimenta-do-reino e grelhe-os numa frigideira com o azeite bem quente, com a pele voltada para baixo, por 2-3 minutos. Vire de lado e grelhe por mais 30 segundos. Retire do fogo e disponha os filés de peixe nos pratos. Coloque na mesma frigideira a manteiga, o dill e o sal. Misture bem, deixe a manteiga derreter, transfira para uma tigela, bata por 1 minuto e despeje sobre o peixe. Acompanhamento: leve ao fogo uma panela com o creme de leite e o açafrão por 5 minutos, ou até encorpar um pouco. Retire do fogo e reserve. Leve ao fogo uma frigideira com o azeite, os cogumelos e as ervas e refogue, salteando de vez em quando, por 5 minutos. Adicione a mistura de creme de leite com açafrão, acerte o sal e, depois de 2 minutos, retire do fogo. Sirva com o peixe.


Cheesecake de melão com calda de morango:

Calda
Duas colheres (chá) de açúcar de confeiteiro médio e morango picado.
Massa
Uma colher (sopa) de açúcar
Uma colher (chá) de manteiga
Uma colher (sopa) de farinha de trigo
Um ovo
Quatro colheres (sopa) de iogurte natural
Uma colher (chá) de suco de limão
Quatro colheres (sopa) de melão picado e congelado
Uma colher (chá) de raspa de limão
Quatro colheres (sopa) de queijo cottage

Modo de Preparo: – Massa: Coloque a cottage no processador, bata por 20 segundos e transfira para uma tigela. Junte o iogurte, a farinha de trigo, o açúcar e o ovo. Mexa bem e misture com cuidado o suco e as raspas de limão e o melão congelado. Recorte 2 pedaços de papel-manteiga do tamanho de 2 fôrmas de 10 cm de diâmetro e aro removível e pincele com a manteiga. Arrume os papéis nas fôrmas e despeje a massa. Leve para assar em forno médio, preaquecido, por 30 minutos, ou até dourar. Retire e reserve. Calda: coloque em uma panela os morangos, o açúcar de confeiteiro e 4 colheres (sopa) de água. Leve para cozinhar por 3 minutos, ou até formar uma calda. Se necessário, acrescente água. Retire, despeje sobre o cheesecake e sirva.

***


Por volta das dezesseis horas – já satisfeitos e não tendo mais o que conversar – despediram-se. Josef dirigiu-se ao hotel e encerrou sua conta. Pegou sua mala e junto com Charpantier foram para o aeroporto pegar o voo que os levariam ao Rio de Janeiro. Na manhã seguinte, iriam ter uma reunião tensa e bastante cansativa; precisavam descansar para estar bem relaxados e poderem transmitir o máximo de segurança a todos naquele momento de transição. O grupo inteiro passaria a ter um novo dirigente.




















Capítulo Quarto


Sexta-feira, nove horas da manhã do dia 22 de Novembro


Rio de Janeiro


Fazia silêncio no auditório da associação comercial. A presença de mais um componente a reunião deixou todos apreensivos. Josef andava pacientemente com as mãos nos bolsos e examinava vagamente um dos quadros ali exposto como se nunca o tivesse visto, antes da reunião começar.

Com a chegada de todos deu início aos trabalhos.

- Senhores, antes de darmos início a nossa reunião, quero lhes apresentar o senhor Charpantier. Meu convidado participará da nossa reunião, assim irá tomando ciência de tudo por aqui. Na próxima semana estarei viajando e só voltarei em 15 de Janeiro. Durante esse período, ele assumirá o controle das empresas; toda e qualquer informação que se fizerem necessárias deverão ser passadas a ele. Na verdade, quando nossa reunião terminar, o senhor Charpantier deixará de ser meu convidado e passará a ser o novo controlador de todo o grupo. Pediu-me para dar uma palavra antes de iniciarmos.

- Bom dia, é um grande prazer poder contar com esta equipe que ao longo desses anos vem a cada dia fazendo com que o Grupo Nathan, cada vez mais, se destaque no cenário brasileiro. Para que todos se sintam tranquilos e tenham certeza destas minhas palavras, devo informá-los que aqui somente será trocado o nome do grupo. Assim mesmo só depois da votação por todos os funcionários pela escolha do novo nome. Basicamente, era o que eu tinha a dizer. Estamos todos no mesmo barco; os novos proprietários são muito exigentes, mas também são justos. Portanto, boa sorte a todos e que continuem se dedicando profissionalmente como sempre o fizeram até aqui. Obrigado. Josef pode continuar.

- Quero que os senhores analisem esta reportagem que passo agora às suas mãos...

*


O pequeno grão rubro como sangue nasceu na africana Etiópia. No Brasil, chegou no início do século XVIII. O 'ouro verde' fez do país seu maior produtor em pouco mais de 100 anos. Sua marcha pelo interior fez cidades e alimentou fortunas; encheu os bolsos da banca privada, do baronato do café e promoveu o desenvolvimento do Império e da 1ª República. Entretanto, a economia fundada no trabalho escravo tinha um problema nas mãos: a expansão das lavouras coincidira com o fim do tráfico de escravos. Foram trazidos então imigrantes para substituir os negros, principalmente da Itália, mas muitos senhores não se davam conta de que lidavam com trabalhadores livres. Houve várias acusações contra fazendeiros que tratavam os imigrantes como escravos. Cerca de metade daqueles imigrantes voltaram aos seus países. Muitos dos que aqui ficaram, no entanto, alimentaram a área industrial. Em 1900, 92% dos trabalhadores das indústrias, especialmente concentradas no interior paulista, eram estrangeiros. A glória do café já estava com seus dias contados: a cotação começara a cair desde o final do século XIX. Em 1906, a safra chegou a 20 milhões de sacas para um consumo mundial inferior a 16 milhões. Era o começo do fim de um marcante ciclo econômico que ajudou a forjar a identidade nacional e produziu riquezas capazes de impulsionar a urbanização do país”.

*


...Baseado neste pequeno relato histórico rico em transformações eu acredito que passaremos a sentir necessidade de mudanças neste momento delicado que o país atravessa. E vejam que as mudanças são gerais, não só aqui, mas até na ciência. Hoje já está sendo realizado transplante de coração. Vocês precisam encontrar um meio alternativo para que nossos futuros investimentos sejam seguros. Notem: a cultura canavieira transformada para a de café; mão de obra escrava trocada por imigrantes. Mais tarde, esses mesmos imigrantes largam as lavouras e se adaptam às indústrias que começavam a crescer. Reparem que todos mudaram, não só os empregadores como também os empregados. Tudo isso acontecendo no final do século passado e no início deste. Mais recente, o presidente Juscelino mudou a capital do país e ao trazer as indústrias automobilísticas, mostrou que além da agricultura, podemos crescer em outras áreas. Não esperem pelas iniciativas do novo controlador. Deem ideias e subsídios para que ele possa estudar a viabilidade, afinal é por isso que continuará a pagá-los a peso de ouro como eu pagava.

- Todas essas mudanças foram realizadas através dos tempos e por mais de uma pessoa. - interrompeu Thomas, como que a querer se resguardar para o futuro.

- É por isso que deixo claro que não estou cobrando iniciativas só do senhor Thomas ou do senhor Judson. Todos estão convidados a participar deste desafio. Garanto que ninguém será dispensado por novas ideias.

- Se essa for à política adotada, será ótimo. – Ponderou Anderson, pondo a dúvida para ser discutida.

- Podem ter certeza: o Senhor Charpantier quer ação e participação de todos, sem exceção. Não vai trocar um time que é vencedor. Mas isso só mais para frente. Poderão constatar, portanto vão pensando. Vamos agora dar continuidade à nossa reunião, pois temos uma agenda cheia. Para que vocês fiquem mais entusiasmados, adiantarei o cardápio que mandei preparar. Com certeza tem tudo a ver com vocês: será filé filé-mignon dos reis.

A reunião transcorreu acalorada e participativa. A impressão era de que todos tentavam marcar seus domínios e mostrar ao novo patrão que realmente estavam ali por merecimento.

Josef orgulhava-se a cada instante. Pôde constatar que conseguira fazer de seus colaboradores, que no passado eram imaturos, inexperientes e desorganizados, os excelentes profissionais que agora discutiam os rumos das empresas com o novo dirigente.

Até Charpantier, acostumado com o ritmo dos seus executivos, estava impressionado com a capacidade profissional daqueles homens. Concluiu que eles assimilaram bem a troca da direção e não teriam grandes problemas com os novos rumos que seriam empregados.

Às quatorze horas em ponto terminaram a reunião. Acabava de chegar o serviço de boufet que Josef encomendara na Confeitaria Colombo. O cheiro não deixava dúvidas de que realmente teriam um almoço digno de reis.


***

Filé filé-mignon dos reis: – para quatro pessoas.

Uma cebola média ralada
Duas xícaras (chá) de leite
Uma xícara (chá) de vinho tinto seco
Duas colheres (chá) de açafrão
(100 g) de cogumelos em conserva fatiados
(100 g) de amêndoas sem pele picadas
Meio quilo de filé filé-mignon cortado em bifes
Três colheres (sopa) de margarina
Uma colher (sopa) de amido de milho
Uma colher (sopa) de caldo carne
Modo de Preparo: – Em uma tigela, coloque os bifes, o caldo carne e o vinho. Misture e deixe tomar gosto por 30 minutos. Em uma panela, derreta uma colher (sopa) de margarina cremosa em fogo médio e frite os bifes. Reserve em local aquecido. Em outra panela, derreta o restante da margarina cremosa em fogo médio e doure a cebola. Dissolva o amido de milho no leite e despeje na panela. Junte o açafrão, o sal e cozinhe, mexendo sempre, até engrossar. Acrescente os cogumelos, misture e coloque sobre os bifes reservados. Polvilhe as amêndoas e sirva em seguida.

Acompanha: – Arroz a grega, Batatas douradas e Bacon.

***


Ao terminarem, Josef despediu-se de todos em particular, desejando a cada um, sorte com a nova direção.

Em seguida retornou ao escritório para certificar-se com sua secretária se ela tinha conseguido providenciar os passaportes dele e da família e se as passagens para Paris estavam compradas. Pretendia embarcar no domingo.

Naquela mesma noite, deu uma passada na mansão de seu sócio para entregar a ele o recibo de transferência para a conta na Suíça no valor de 35 milhões de dólares.

- Tirei do total 5 milhões de dólares referentes a minha parte nas construtoras. Estou me retirando da sociedade. Já deixei o distrato assinado e a nova documentação já está sendo preparada.

- Porque assim tão de repente, Josef?

- Jorge, eu não te participei antes porque tomei essa decisão ontem. Quero que você entenda que os motivos são inteiramente pessoais.

- O que não entendo é a forma de como tomaste a decisão. Você está sendo ou se sentindo ameaçado?

- Não, só vou sair um pouco de cena, dar uma descansada e repensar a vida. Estou indo à Europa neste domingo e só pretendo voltar em meados de Janeiro.

- E o empréstimo?

- Quanto ao empréstimo no banco, já deixei tudo assinado. Com essa procuração você movimenta a qualquer instante o dinheiro.

- Certo, e o novo proprietário do grupo, o que achaste?

- Para seu conhecimento, nosso amigo Charpantier não é o comprador do Grupo. Ele é somente o homem de confiança dos novos proprietários.

- Já imaginava isso. Ele não pareceu ter tanto dinheiro assim para realizar tal transação.

No mesmo instante em que ouviu a afirmação que Jorge fez, a luz de alerta acendeu em Josef, que pensou: “como ele pode saber disso se não conhece e nunca viu o Charpantier?”. Resolveu terminar logo com aquele encontro e ir embora.

- Jorge, as despedidas não são o meu forte, mas preciso ir agora, antes que você tente me convencer o contrário. - Josef fez a colocação e observou a reação do amigo.

- Estou lamentando ter de desfazer nossa sociedade. Não sei os motivos que o levaram a esta decisão tão radical, mas vou respeitar. Precisamos agora antes de você ir, é tomar um drinque para comemorar a venda do grupo e os novos rumos de nossas vidas.

- Está bem, Jorge, mas não vou demorar. – “Realmente tem algo de errado. Essa não é a reação que Jorge tomaria se não estivesse por traz de tudo. Tenho que tomar muito cuidado”. - pensou Josef.












Sábado, nove horas da manhã do dia 23 de Novembro


Mais uma vez, como em todos os sábados, Josef estava na Sociedade Israelita. Desta vez seria rápido seu encontro com Isaac. Havia preparado na noite anterior um documento onde cancelava os compromissos assumidos com a sociedade. Pretendia entregá-lo e não ficaria para as considerações, pois não queria correr o risco de ser convencido a voltar atrás. A decisão que tomara era de caráter irrevogável, mas cuidara para que tudo continuasse funcionando. Indicara como sendo seu sucessor Levy, que de certa forma já era conhecido de todos.

Durante o pouco tempo que Josef esteve reunido com aqueles homens, teve a impressão de que aquele salão que tão bem conhecia, tinha diminuído, tal a maneira que seus amigos o trataram. Todos estavam muito cautelosos em lidar com ele. Era como se não quisessem que ele descobrisse algum segredo ou desconfiasse de alguma trama que pudessem estar armando. Constatou ser mais um de seus pressentimentos e resolveu tomar os devidos cuidados à guisa de se preparar para se antecipar aos acontecimentos que por ventura estivessem por acontecer.

Não estava nada satisfeito, mas o que pudessem estar tramando não seria executado agora. Pareceu-lhe que ainda precisavam de tempo para ajeitar as coisas; assim foi para casa arrumar o que faltava e tentar pôr as ideias em ordem, deixando traçado todo um plano que mandaria executar caso alguma lhe acontecesse.


Sexta-feira, nove horas da manhã do dia 29 de Novembro


Não tinha completado uma semana que Josef viajara. Três reuniões estavam sendo realizadas quase que simultaneamente, duas em Minas Gerais e outra no Rio de Janeiro, cujo motivo e tema central era Josef Nathan, que com certeza ficaria surpreso se tomasse conhecimento da existência delas. Mais ainda, tendo ele como personagem principal.


Rio de Janeiro


Levy, o negociador de armas para as milícias de Israel e agora também financiador da organização antinazistas; Saul, o caçador de nazistas; Isaac, o inspetor gerente do serviço secreto de Israel; e Samuel, líder radical religioso, estavam reunidos no Copacabana Palace Hotel. Todos esses homens eram perigosíssimos e inescrupulosos. Acostumados a manipular, controlar, fomentar inspirações religiosas e até mesmo matar quando alguma coisa organizada ou alguém punha seus interesses em risco.

De todos eles, o pior e mais sanguinário era Saul. A perda de seus pais em um campo de concentração na Alemanha o tornara daquela forma. Sua obstinação em procurar nazistas pelo mundo afora, prendê-los e levá-los a julgamento passou a ser a razão da sua existência. E quando a situação lhe era favorável, ele mesmo dava a sentença final. Eliminava sem dó e sem piedade aquele que, para ele, era mais um dos executores de seus familiares.

Samuel não era menos perigoso. Usava a capa da religiosidade para obter seus intuitos e não media as consequências. Se preciso fosse, também chegava ao extremo sem demonstrar qualquer arrependimento.

Isaac, na verdade, estava sempre mais preocupado com as causas de seus irmãos e com a segurança do povo judeu, uma vez que os palestinos não davam trégua um momento sequer. Isto fazia com que grande parte do seu tempo fosse destinado a descobrir e neutralizar as ações deles.

Quanto a Levy, sua preocupação era de ganhar cada vez mais dinheiro, mas desde que não trouxesse risco à sua vida nem aos seus negócios.

- Meus irmãos, por um lado estamos felizes porque vamos eliminar o fornecedor de armas para os palestinos. Por outro lado, lamento informá-los que nossos agentes descobriram quem foi que as forneceu. Não é o Padre Roque, como pensávamos, mas sim nosso irmão Josef. Você, Levy, sabia de tudo e o protegeu. Por quê?

- Não é que o tenha protegido. – defendeu-se Levy – Até porque só descobri há duas semanas e achei que conseguiria fazê-lo entender do quanto estava errado. Mas me enganei, Isaac. Josef vai continuar comprando armas, agora com o Sayad, e fornecendo aos nossos inimigos. A ganância é tanta que está se envolvendo agora com Irã, Camboja e Vietnã. Por isso é que estou aqui para traçarmos o plano de eliminação, mas não podemos de forma alguma deixar indícios que nos comprometam. Josef sempre agiu com cautela e grande discrição; seu lado negro ninguém desconfia. Não é à toa que ele é tão querido e influente junto às autoridades, à sociedade e até mesmo na nossa comunidade.

- Não se preocupem. – tranquilizou Samuel – Quanto a nossa comunidade, podem ficar tranquilos que direi toda a verdade. Não vou enganá-los como você fez com a história do Buda de ser doado para o museu. Fui o único que não concordou e fiquei mal perante todos. Quanto à sociedade e autoridades, todos saberão das atividades ilícitas e graves de Josef pela imprensa, pois darei todas as informações da sua dupla vida. Todos ficarão perplexos e indignados; com isso logo esquecerão e não irão nos trazer problemas. Mas também não quero só a cabeça dele; esse padre vai junto. O Roque saberá que fomos nós e duas coisas poderão acontecer: ele tentará nos denunciar ou se vingar. Inimigo não se deixa livre nas costas.

- Por mim elimino os dois como faço com os nazistas, e faço com o maior prazer. É só dar a ordem que eles ficam de vez lá na Europa.

- Nada disso, Saul. O padre até pode ser executado lá, mas Josef tem que morrer aqui no Rio; será mais fácil. As investigações não são tão eficientes. Na França, a Interpol iria investigar, ligaria os dois casos, nós seríamos acionados para ajudar. Logo juntaria os fatos e pronto, chegaria até nós. Não podemos de forma alguma nos arriscar.

- Decidido. Se estão todos de acordo, quando Josef voltar da Europa, morre. Meu pessoal ficará encarregado de executar o trabalho com a máxima segurança. Agora, em homenagem a ele, vamos almoçar e de preferência bem ao estilo dele. Mandei fazer o cozido meridional.


***

Cozido Meridional: – para seis pessoas.

(1kg) de patinho cortado em cubos regulares;

Sal, pimenta do reino e orégano a gosto;

Uma colher (chá) de sálvia;

Dois dentes de alho amassados;

Duas colheres (sopa) de manteiga;

Duas cebolas cortadas em rodelas;

Meia lata de estrato de tomate;

Uma xícara (chá) de vinho branco seco.

Como fazer: – Tempere a carne com sal, pimenta, orégano, sálvia e alho. Deixe tomar gosto por uma hora. Refogue a carne na manteiga, dourando-a por igual. Junte a cebola e refogue. Acrescente o extrato de tomate, o vinho e uma xícara (chá) de água quente. Tampe a panela e cozinhe em fogo baixo, por hora e meia. Se necessário acrescente mais água quente. A carne deve ficar macia e o molho grosso.

Acompanha: – Arroz a grega e Salada de Alface e Tomate.

***


Minas Gerais


Jorge ex-sócio e amigo de Josef; Charpantier seu novo testa de ferro; Silvio Rios e Artur Costa – os dois novos donos do Grupo Nathan – reuniram-se na fazenda Laço de Ouro, que ficava entre os municípios de São Lourenço e Lambari. Os três não tinham a menor ideia do perigo que era trabalhar e se associar a Jorge Cerqueira.

Jorge fazia parte de uma organização secreta cujo lema era a lealdade e fidelidade ao extremo. Qualquer um que se desviasse disso, membro ou não da organização, não importava quem fosse, que cargo ocupasse na vida pública ou privada e até mesmo sua influência social, não o livrava de uma punição radical.

Após essa reunião, eles ficariam sabendo o terreno em que estariam pisando futuramente.

- Senhores, estamos aqui reunidos porque quero ter certeza de que não vou me arrepender se mandar eliminar o Josef. Ao mesmo tempo, aproveitarei a oportunidade para deixar bem claro a vocês de que eu não perdoo traição. E então, Charpantier, já deu para constatar se em todas as transações realizadas eu fui mesmo passado para traz por Josef ou era só um pressentimento sem fundamento? Não consigo imaginar como pude ser tão idiota de me deixar envolver por ele e vê-lo acumular tanto dinheiro.

- Sr. Jorge, pelo que pude sentir analisando o que o Anderson me apresentou, realmente foram desviados alguns milhões de dólares. O impressionante é que Josef não se deu ao trabalho de forjar balanços para encobrir os roubos. Desviava na cara de pau, sem contar que em todas as obras do governo o que era superfaturado ele desviava para uma conta em Paris. Os lucros eram divididos da seguinte forma: quarenta por cento para o senhor e sessenta por cento dele. Agora mesmo os senhores compraram as empresas por $100 milhões e ele prestou conta de $80 milhões.

- Vou lhe fazer mais uma pergunta: em momento algum ele desconfiou que você trabalhava para mim ou que eu continuava sendo o sócio majoritário de tudo?

- Quanto a isso, não precisa ter dúvidas. Ele acreditou que eu era realmente o homem de confiança do Silvio e do Artur. Mas por que essa preocupação agora?

- Você não conhece o Josef. Se ele desconfiar, mesmo que de leve, meus planos vão por água abaixo. Por isso toda cautela é pouco. Quero continuar incógnito como na época em que ele comandava tudo. Dessa forma não apareço e nunca serei o suspeito; mas uma coisa vocês podem estar certos: eu tenho alguns conhecidos que farão este trabalho para mim. Quando o Josef voltar da Europa, morre. Podemos agora almoçar. Pedi que fosse feito algo da fazenda do jeito que Josef mandaria fazer.


***

Escalopinho de frango caipira com pimenta rosa:

(500g) de peito de frango em fatias, farinha de trigo
Duas cebola pequenas e uma cenoura
Um talo de salsão e manjerona
Duas colheres (sopa) cheias de manteiga
conhaque
Uma colher (sopa) de pimenta rosa
sal e pimenta-do-reino a gosto
Modo de Preparo: – Com um batedor de carne, bata as fatias de frango, protegendo-as com duas folhas de papel-manteiga para não se romperem. A seguir, passe-as na farinha de trigo. Reserve. Descasque as cebolas, raspe a cenoura e pique-as bem, juntamente com o salsão. Em seguida, refogue-os em uma panela com a manteiga. Junte o frango e doure dos dois lados. Regue com o conhaque, sal e pimenta-do-reino e cozinhe por 8-10 minutos. No final, adicione as folhas de manjerona picadas com as mãos.

Acompanha: – Arroz branco e Batatas douradas e bacon.

***


Belo Horizonte


Também estavam reunidos no Hotel Plaza de Belo Horizonte Júlio Delamare, o fotógrafo e verdadeiro amante de Patrícia; Mário Henrique, o joalheiro; Patrícia e Pierre, o cozinheiro francês que na verdade era alemão. Todos inimigos e sedentos de vingança, com motivos suficientes para matar Josef.

Pierre juntara-se ao grupo porque tomara conhecimento da grande quantia envolvida na venda das joias. Como tinha intenção de eliminar Josef, pensou juntar o útil aos seus propósitos e foi logo sentenciando:

- Então, eliminamos ou não Josef? O que vocês decidem?

- Não podemos vacilar e nem demorar em tomar uma decisão. Apesar de não ter sido tão grave o que Josef mandou fazer no meu estúdio fotográfico, sinto-me prejudicado pois indiretamente perdi a minha fonte financeira. A partir do momento da sua decisão de terminar o romance com a Patrícia, e para incentivá-los, meu voto é que o matemos. Só que você, Mário, terá que nos dar uma parte da venda dessas joias que serão leiloadas. Precisamos também sair beneficiados dessa empreitada macabra.

- Tudo bem. Depois que eliminarmos o Josef vocês terão uma parte, mas antes teremos que conversar com Jean Chevalier, o leiloeiro, e ajudá-lo estrategicamente no momento da venda. Estando todos de acordo, o meu voto também é para matá-lo. Estão em jogo nada mais, nada menos que 20 milhões de dólares ou mais. Não vou perder isso por nada.

- Por mim, quero mais é que ele morra. Não vou poder mesmo desfrutar do dinheiro dele como sua mulher. Além do mais, o filho da puta me enganou e me sacaneou legal por um longo tempo. Não vou ter nenhum remorso.

- Já que é unanimidade a votação para que Josef seja eliminado, podem deixar por minha conta que eu trato de tudo. Será menos um judeu no mundo a me perseguir. Quando ele voltar da Europa, morre. Para comemorar nosso futuro promissor vamos almoçar, e de preferência com algo bem especial. Acredito que Josef pediria nesta ocasião um ensopado.


***

Ensopado à húngara: – para oito pessoas.

Uma cebola picada
Uma colher (sobremesa) de sal
Seis colheres (sopa) de óleo
Uma folha de louro
Meia colher (café) de páprica picante
(100g) de toucinho defumado em fatias médias
Uma xícara e meia de (chá) de água fervente
Uma xícara (chá) de suco de tomate
Meia xícara (chá) de vinho branco seco
Um kg de coxão mole ou alcatra em fatias grossas
Uma xícara (chá) de feijão branco já cozido em água e sal ou em conserva
Uma pitada de noz-moscada
Modo de Preparo: – Leve a cebola e o óleo ao fogo. Quando a cebola começar a dourar, adicione 1/4 de xícara de água fervente. Tampe a panela e deixe-a no fogo até que a água seque. Junte a carne e o toucinho. Deixe-os dourar e refogue-os do mesmo modo que fez com a cebola, acrescentando água quente sempre que necessário. Misture a páprica, o sal, a noz-moscada, o louro, o suco de tomate e o vinho branco. Tampe a panela e cozinhe em fogo médio por 1 hora ou até a carne amaciar. Junte o feijão branco, torne a tampar e cozinhe mais 10 minutos.

Acompanha: – Arroz branco e Salada de Vagem com Cenoura em tiras finas.

***
















Sexta-feira, 13 de dezembro de 1968


Rio de Janeiro


Às 17 horas, o presidente Artur da Costa e Silva reuniu seus 23 ministros no Palácio das Laranjeiras para receber o aval das medidas radicais que pretendia tomar: fechar o Congresso; suspender o direito de habeas-corpus aos acusados de crimes contra a segurança nacional; restabelecer ao presidente os poderes de intervir nos estados e municípios, cassar mandatos e suspender direitos políticos.

À noite, o locutor Alberto Cury, ao lado do ministro da Justiça Gama e Silva, anunciava em rede nacional as novas medidas contidas no Ato Institucional n° 5.

Uma coincidência que, no mínimo, incomodou a esquerda ateísta que repugnava as superstições tão típicas dos brasileiros. “Sexta-feira treze”. Estava instaurada a partir desta data a censura aos meios de comunicação. Como se um blecaute repentino fizesse apagar a luz no fim do túnel, acabava a esperança de que os militares pudessem cumprir a promessa de que o regime autoritário seria provisório.

Para sorte de Josef, estas medidas amenizaram um pouco os instintos de vingança dos seus inimigos, pois com o endurecimento da ditadura ficara muito mais arriscado executarem seus planos.





Capítulo Quinto


Domingo, nove horas da manhã do dia 05 de janeiro de 1969


Paris


Desde a infância, a vida não permitiu a Josef viver de ilusões. Agora, mais do que nunca sabia dos riscos que estava correndo. Tomara a decisão de que essa seria sua última transação. Desfaria sua sociedade com seu amigo, o religioso padre Roque, e passaria a viver o resto de seus dias tranquilamente em sua quinta no subúrbio de Paris. Reunira-se no próprio aeroporto onde acabara de chegar seu velho conhecido e agora o novo fornecedor de armas, Samir Ozir Sayad, para tratar da compra de mais uma remessa, uma vez que Levy não mais faria negócios com ele; de como seriam feitas as entregas e também informá-los da sua decisão de se aposentar em seguida.

- Padre Roque, este é Sayad.

- Muito prazer, Roque.

- Padre, antes quero lhe informar que estou me aposentando e esta é a última transação em que faço parte. A partir de agora, se você desejar continuar com os negócios, terá de ser sozinho. Por isso nos reunimos para que vocês se conheçam e acertem seus futuros negócios, se desejarem.

- Mas qual a razão que o levou a tomar essa decisão?

- Não preciso mais de dinheiro. O que tenho dá para me sustentar sem trabalhar até a minha terceira geração. Se quiserem mais, eles que trabalhem quando chegar o momento.

- Tem mais alguma coisa por traz de tudo?

- Tem meu amigo: ameaças. Não foram feitas, mas posso sentir no ar.

- Então faça o que seu coração mandar.

- Acredito que você também deva analisar a situação.

- Farei isso com certeza, mas vamos ao que interessa. - Josef voltou a acertar com Sayad:

- Sayad, essa remessa será encaminhada para três interessados.

- Eu só coloco a mercadoria num local; a entrega é por conta de vocês.

Padre Roque, dirigindo-se ao Sayad, perguntou:

- Estão Sayad, quando podemos contar com as armas?

- É só dizer quando a querem. Quando estiver depositado em minha conta os 10 milhões de dólares dessa remessa, eu as entrego.

- E você me entrega tudo em Jerusalém.

- Não. Fica bem fácil para mim e com menos risco para você, eu lhe entregar em Beirute. Lá meu pessoal tem pleno domínio na alfândega.

- Bem, acredito que nos próximos dias nossos clientes depositem em minha conta o dinheiro da transação. Aí imediatamente transfiro a sua parte, Sayad. Negócio fechado? – Perguntou Josef.

- Fechado.

- Vou estar no Rio de Janeiro na próxima semana, Sayad. Como nos comunicaremos?

- Também vou estar lá negociando com os chefes do MR-8 e da Vanguarda Popular. Estarei hospedado no Hotel Gloria. Podemos aproveitar e nos encontrar por lá. Combinado?

- Combinado.

Segunda-feira, nove horas da manhã do dia 13 de Janeiro de 1969.


Chovia forte quando Josef saiu do Paris Hotel du Panthéon, uma belíssima moradia do século XVIII, frente ao Panteão, próximo do jardim de Luxemburgo e da famosa Sorbonne, localizado na Place du Panthéon nº 19. Estava um pouco atrasado e precisava chegar o quanto antes ao Aeroporto de Orly para encontrar-se com seus dois seguranças de extrema confiança: Aristóteles Massanet e Demétrius Godoy, que acabavam de chegar do Brasil.

Massanet e Godoy tinham outros nomes quando eram membros do serviço secreto de Israel. A total dedicação que esses dois homens mantinham por Josef era devido ao fato de haverem conseguido novas identidades, serem libertados e protegidos por ele. Quando estavam presos aguardando para serem executados na Palestina, Josef conseguiu tirá-los da cadeia secretamente, trocando-os por outros dois palestinos que foram executados no lugar deles. Nem mesmo o pessoal de Israel tomou conhecimento dessa ação, tanto que para todos os dois estavam mortos.

Após acomodá-los no Paris Hotel de la Sorbonne, na Rue Victor Cousin nº 6, próximo ao hotel em que estava hospedado, Josef foi à Caixa Geral de Depósitos na Avenue Marceau nº 83, pois os aguardaria para poder efetuar a transferência para as contas que ali abririam. Hospedar-se em um hotel e hospedá-los em outro, sendo os hotéis de três estrelas, foi a forma que encontrou para não chamar a atenção. Tinha a sensação de que estava sendo seguido desde que chegara a Paris.

Toda essa operação fora realizada com a maior discrição possível. Foram para o La Tour d’Argent, um antigo restaurante aberto em 1780 na Quai de la Tournelle nº 5e. Sua cozinha clássica e variada deixava praticamente todos se sentindo em casa no que toca a parte alimentar, além de proporcionar uma belíssima vista sobre o rio Sena; mesmo com a chuva que continuava a cair.

Acomodados estrategicamente de forma que não pudessem ser ouvidos, Josef passou a orientar seus seguranças sobre o que ele queria que fosse feito:

- Vocês devem estar se perguntando por que razão os trouxe aqui. Fi-los abrir uma conta conjunta em Paris e nela depositei 2 milhões de dólares.

- Realmente até agora não entendemos nada. Esse dinheiro todo é para alguma transação em que o senhor não quer aparecer?

- Não se trata de nenhuma transação. O dinheiro é pagamento de um desejo meu que vocês terão que realizar.

- Como assim? Podes explicar melhor?

- Claro. Caso eu morra de repente assassinado, acidentado ou envenenado, vocês deverão investigar e, sem que ninguém saiba, descobrir o mandante e quem fez o trabalho sujo. Descobertos os canalhas, sejam quem for, quero que os matem. A todos, não quero que escape nenhum. Vocês podem até não fazer este trabalho, pois estarei morto, mas é o risco que vou correr. Por isso a quantia tão alta. Também não quero que eles os comprem e assim vocês desistam da minha vingança pós-morte. Está esclarecido agora esse nosso encontro?

- Completamente esclarecido. Podes ter certeza de que nós iremos realizar sua vontade, caso realmente o matem.

- Ótimo. Então, está aqui neste envelope uma relação com os nomes e o dossiê de cada um dos prováveis mandantes do meu assassinato e o que quero que façam. Com toda certeza um deles será também o executor. Não há nenhuma novidade, vocês conhecem a todos. Quando vocês chegarem ao Brasil, não percam tempo. Comecem logo com as investigações, vejam se fizeram alguma reunião; provavelmente estão divididos em grupos.

- A princípio pareceu ser mais difícil, mas se já os conhecemos...

- Prestem bem atenção. Não se iludam, todos eles são perigosíssimos. Se desconfiarem de alguma coisa, eles os matam sem pestanejar. É muito dinheiro que está em jogo. Nesta relação tem também os prováveis lugares onde possam se encontrar, se é que já não o fizeram.

- Parece que você esqueceu quem somos e o que sempre fizemos. Não se preocupe conosco. Sabemos nos cuidar.

- Após terem executado minha vingança, e quando já estiverem em segurança, quero que enviem para a delegacia central – aos cuidados do delegado Maciel – este outro envelope.

- Bem, acredito que possamos agora desfrutar da comida francesa, não é patrão?

- O tempo em que convivemos é tanto que já não somos mais patrão e empregado. Já somos amigos.

- Ficamos felizes em saber disso.

- Então, para confirmar minha amizade, darei a vocês uma dica: caso minhas suspeitas se confirmem, mate-os de uma vez porque assim as suspeitas não cairão em vocês. Tenham pressa em acabar o serviço, mas cuidem também da segurança de vocês para que possam desfrutar do dinheiro que estou lhes dando.

- Agiremos rápido com certeza, para depois usar o dinheiro tranquilamente.

- Quanto à comida, vocês bem sabem que a minha especialidade é uma boa refeição. Mas interessante, eu os trouxe aqui porque pensei que quisessem algo mais parecido com a comida grega.

- Josef, então você achou que nós viríamos a Paris, e aqui, no centro da mais famosa culinária, iríamos comer outra coisa, que não fosse a francesa?

- Se querem assim, daqui a instantes estaremos saboreando um magret grelhado com molho de uva e mostarda, mas antes fiquem sabendo que não os trouxe aqui em vão. Neste local já foram tomadas grandes decisões com relação ao destino do povo francês.

- É mesmo? O que, por exemplo?

- A trama da revolução francesa é uma delas. Não consta nos livros e poucos sabem, mas foi aqui que começou tão importante fato histórico.


***

Magret grelhado com molho de uva e mostarda: – para quatro.

Um magret de pato com cerca de 350 g
(1/2 kg) de uvas benitaka maduras, mas firmes.
Meia xícara de vinho branco doce
Quatro colheres (sopa) de azeite de oliva
Duas colheres (sopa) de mostarda
Sal e pimenta-do-reino a gosto
Modo de Preparo: – Lave bem o magret e seque com toalha de papel. Reserve. Retire as uvas do cacho, lave-as e parta ao meio. Coloque-as numa tigela e regue com o vinho. Leve ao fogo uma frigideira de fundo grosso por 2 a 3 minutos, ou até ficar bem quente. Adicione o azeite de oliva e deixe por mais 2 minutos. Coloque o magret (com a pele voltada para baixo) e deixe por 4 minutos, ou até dourar e ficar com a pele crocante. Vire o magret de lado e deixe por mais 2 minutos. A parte externa deve ficar dourada e crocante e a parte interna vermelha. Antes de retirar o magret, polvilhe o sal e a pimenta-do-reino. Retire do fogo e reserve. Na mesma frigideira, coloque as uvas com o vinho e a mostarda. Cozinhe, mexendo de vez em quando, por 5 minutos, ou até as uvas ficarem macias e o molho encorpar um pouco. Retire do fogo, fatie o magret, coloque nos pratos e regue com o molho de uvas. Para finalizar, salpique mostarda em grãos e decore com cebolinha verde. Sirva com Arroz branco e Salada.
Dicas: – Existe muita variedade de uvas. Além da Benitaka, a Thompson e a Niágara são outras opções para pratos salgados.

***


Quando terminou o almoço, Josef os informou que estaria voltando ao Brasil no dia seguinte para resolver os últimos negócios pendentes. Pediu que eles ficassem na França por mais alguns dias para não ligarem a data da viagem deles àquele encontro realizado. Quando voltassem ao Brasil, não mais se aproximassem dele. Assim, eles não seriam comprometidos no futuro, pois até aquele momento, ninguém sabia que eles eram seus seguranças. Também não precisariam levar francos para trocar no Rio de Janeiro. Chamariam atenção. Por isso, Josef depositaria na conta deles Ncr$ 500 mil para todos os gastos daquela missão.

- Acredita mesmo ser necessário tudo isso, Josef.

- Massanet, Godoy, eu sei o que estou falando. Quero que de agora em diante não nos encontremos e nem nos comuniquemos mais. Vocês estarão seguros e não comprometerão o que tem que ser feito.

Josef levantou-se, os abraçou fortemente e recomendou mais uma vez.

- Tomem o máximo de cuidado, e não confiem em ninguém.

- Josef, você está falando como se fosse morrer e não creio que isso não vá acontecer. Pode ficar tranquilo que não vamos nos aproximar, mas estaremos, discretamente, sempre bem perto. Boa viagem e até breve.

- Volto a insistir. Vocês estarão lidando com inimigos que não perdoam. Olhem essa reportagem. Estão vendo? O padre Roque era meu sócio e amigo. Foi executado na semana passada logo depois de se encontrar comigo. Um mistério para a policia francesa, mas eu sei quem são os autores, por isso os chamei aqui. Tenham muita cautela, caso contrário não vão aproveitar um centavo do dinheiro depositado lá e aqui.

- Pare de se preocupar. Se for realmente preciso, nós saberemos o que e como fazer sem levantar suspeitas ou sermos descobertos.

- Então obrigado e quem sabe, até breve.





















Quarta-feira, nove horas da manha do dia 15 de Janeiro


Belo horizonte


Josef mal acabara de chegar da Europa. Deixou sua bagagem no hotel e viajou imediatamente para Belo Horizonte, onde iria encontrar-se com Mário Henrique e entregá-lo o depósito do restante do pagamento. Apanharia as joias e as traria para o Rio de Janeiro, local da realização do leilão.

Outra vez, se colocadas lado a lado, não se saberia dizer qual a verdadeira, qual a cópia. O esmero com que foi feita e a beleza da nova joia o deixou maravilhado com o que via. Era o Azov.


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O ovo tem padrão em ouro e volutas rococó decoradas em diamantes. Esculpido em uma peça sólida de jaspe heliótrope, decorado em estilo de Luís XV. O fecho consiste de um rubi e dois diamantes. O interior do ovo é forrado com veludo verde. O ovo contém uma réplica do cruzador Pamiat Azov, feito em ouro e platina, com janelas em pequenos diamantes. O nome “Azov” aparece na popa do navio, que descansa em uma placa de água marinha representando a água. A placa tem uma borda dourada envolvendo o modelo para remoção de dentro do ovo. Presenteado pelo tsar Alexandre II para sua esposa, a tsarina Maria Feodorovna, na Páscoa de 1891.

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**- Foto e texto obtidos através de pesquisa na internet.



Satisfeito com o resultado final, Josef despediu-se do ourives e retornou ao Rio. Desta vez não o convidou para jantar, alegando que precisava descansar, pois estava viajando desde a manhã de terça-feira e a diferença de fuso horário estava pesando. Estava também com o tempo contado, pois ainda teria que realizar alguns encontros no dia seguinte, antes de retornar à França; mas mesmo assim não deixou de tomar um chá com torradas para celebrar o encontro, como era seu costume. Josef sempre dizia que todo e qualquer negócio só era realizado, consolidado ou se concretizava quando terminava em uma mesa degustando algo bonito e saboroso.





Quinta-feira, nove horas da manhã do dia 16 de Janeiro


Rio de Janeiro


Josef ainda sentia os efeitos da viagem. A diferença horária mais a ida a Belo Horizonte no dia anterior para acertar as contas e pegar as peças encomendadas ao joalheiro Mário Henrique o deixaram cansado. Porém, não podia deixar de encontrar-se com Jean Chevalier, famoso leiloeiro que atuava por toda a Europa. Sua experiência em comandar leilões de peças de origem duvidosa, como também réplicas perfeitas de joias famosas, não lhe permitia tal falha.

Faria antes uma caminhada na orla de Copacabana. Assim poria as ideias em ordem e tentaria encontrar um jeito de se antecipar aos acontecimentos que seu sexto sentido intuía. Terminado o pequeno exercício, voltou ao hotel. Tomou um banho e saiu; havia marcado o almoço com Jean num restaurante bem simples, localizado na rua Domingos Ferreira n°242. Achava que assim ficaria o maior tempo possível no Rio sem ser notado. Aquele local era o ideal para seus propósitos. Quem passava diante daquele estabelecimento não imaginava que ali era servida uma comida de primeira qualidade, e tão pouco seus inimigos poderiam pensar que ele estivesse naquele local. Logo que chegou, encomendou para às treze horas o almoço aos dois. Sabia que Jean iria gostar muito de comer uma moqueca brasileira, pois todas as vezes que se encontraram estavam na Europa e ele sempre dizia que, quando fosse ao Brasil, comeria uma. Dali dirigiu-se a agência central do Banco do Brasil, onde iria encontrar-se com o leiloeiro e passá-lo a guarda do contrato do cofre em que as joias estavam guardadas. Pagaria também os seus 100 mil dólares pelo leilão que iria realizar.

Não demorou muito e chegou Jean, como sempre agitadíssimo.

- Meu amigo, quando é que você vai estar calmo? Não é possível um ser humano viver dessa forma. Assim vais acabar tendo um derrame ou infarto.

- Josef, quando eu morrer vou ter a eternidade para descansar e ficar relaxado. Por enquanto não está dando. Inventaram o dia com poucas horas; por mim, bem que poderia ter 48 horas. Aí sim estaria de bom tamanho.

- Jean, se com 24 horas você já faz o que faz, não quero nem imaginar o que seria um dia de 48 horas para você.

- Por falar em dia curto, vamos agir porque tenho outro encontro daqui a três horas. Trouxe o dinheiro? As peças estão aí para que eu possa examinar?

- As duas peças estão guardadas no cofre, e, como você pediu, seu pagamento está todo em notas de $100. Também trouxe uma pasta para facilitar o transporte do dinheiro caso você queira levá-lo em mãos.

- Então o que está faltando? Quero ver as peças.

- Tenha um pouco de calma. O gerente já foi avisado e está vindo com toda papelada para assinarmos e nos levar até ao reservado. Daqui a um instante você poderá verificar como elas são lindas e perfeitas. Tenho certeza que você e nossos clientes ficarão satisfeitos. Terminando aqui, iremos almoçar; já passei antes no restaurante e encomendei seu prato preferido. Eu também tenho um compromisso ainda hoje. Se tudo correr como planejei, amanhã estarei viajando de volta para a Europa.

- Pelo que entendi, você não vai estar presente no leilão? Mais uma vez deposito o dinheiro, como sempre, na conta da Suíça, certo?

- Sim, você sabe muito bem que eu não gosto dessas badalações com esses colecionadores.

Passados alguns momentos, o gerente apareceu. Josef e Jean assinaram toda a documentação. Foram levados para a cabine reservada e o leiloeiro pôde inspecionar as joias. Ficou impressionado com as peças: jamais esteve diante de uma falsificação como aquela. Realmente era impossível dizer qual a verdadeira. Terminada toda a conferência, os dois foram almoçar.


***

Moqueca de peixe: – para duas pessoas.

Três colheres (sopa) de azeite de dendê
(400g) de badejo em postas
Três tomates maduros grandes fatiados
Duas cebolas grandes fatiadas
Meia xícara (chá) de coentro picado
Molho
Um tomate grande cortado em rodelas
Uma cebola cortada em rodelas
Duas xícaras (chá) de leite de coco
Uma colher (sopa) de suco de limão
Uma e meia xícara (chá) de coentro picado
sal a gosto

Modo de Preparo: – Molho: bata no liquidificador o tomate, a cebola, o leite de coco, o suco de limão, o coentro e o sal por 5 minutos, ou até obter uma mistura homogênea. Retire e reserve. Em uma frigideira grande, aqueça o azeite de dendê, adicione a mistura reservada, as postas de peixe, o tomate, a cebola e o coentro. Deixe no fogo por cerca de 15 minutos, até borbulhar. Retire e sirva.

Acompanha: – Arroz branco, Pirão de peixe e Farofa.

***


Terminado o almoço, mais uma etapa havia sido cumprida dentro do que Josef planejara. Pagara o serviço que Jean iria realizar na segunda-feira dia vinte e deixara tudo acertado para a realização do leilão no próprio banco. Agora só faltava acertar com o Sayad a nova remessa de armas para o Irã, Camboja e Vietnã. Ver com ele quem iria entregar as encomendas nos devidos lugares e viajar de volta para Europa, desaparecendo como fumaça ao vento.

Josef voltou ao hotel e descansou até as dezessete horas. Já estava quase na hora de encontra-se com Sayad. Ia tomar um banho quando da recepção o informaram que o Sr. Anderson procurava por ele insistentemente, dizendo se tratar de urgência.

- Pode deixá-lo subir até ao apartamento? – alguém perguntou.

- Pode mandar subir. – autorizou Josef.

A campainha soou e Josef logo atendeu.

- Entre, Anderson. Como soube da minha estada no Rio? Aliás, como soube que eu estava hospedado nesse hotel?

- Fiquei sabendo hoje por acaso lá no escritório e resolvi vir até aqui lhe avisar, pois escutei que você está correndo risco de vida. Eles vão te matar, não sei quem. Entretanto existe uma trama para eliminá-lo e me pareceu que têm outras pessoas também querendo a mesma coisa, só que eu não consegui descobrir.

- Eu fico grato com a preocupação, mas estou sabendo. Sei até quem são os interessados. Só não sei quem vai ser o executor, por isso estou correndo contra o tempo. Acertando tudo aqui, viajo para a Europa e desapareço. Pelo que pude entender você usou nosso serviço de escuta que instalei.

- É verdade. Não sabendo da existência da aparelhagem, falaram abertamente, então pude escutar tudo. Acontece que eles também estão correndo e foram bem claros quando disseram que a hora era essa. Deram a entender que o serviço será feito o mais rápido possível.

- Anderson, você não devia ter vindo ao meu encontro. Agora você também corre risco de vida. Eles estão me vigiando e saberão que você veio me visitar; vão ligar os fatos e chegarão à conclusão de que você veio me alertar. Lamentavelmente, não tenho como lhe proteger. Você também vai morrer.

- O senhor acha que eles seriam capazes de me matar?

- Lógico! Eu morrendo, você é uma testemunha de acusação e eles não vão deixar nenhum rastro. Só há uma solução: você vai ficar comigo o tempo todo. Daqui a pouco estarei encontrando um dos maiores traficantes de armas no mundo. Nossa sorte é que ele virá com seus seguranças, aí falo com ele e estaremos protegidos até a hora de embarcarmos para Europa.

- Não é tão fácil assim, Josef. Primeiro eu não tenho dinheiro para me custear no exterior, segundo a minha família fica refém desses canalhas e não posso fazer nada.

- Pense que só teremos de nos manter vivos até a madrugada. Ligue agora para a sua mulher e ponha ela a par do que está acontecendo. Mande-a se arrumar e ir com seus filhos ao aeroporto nos aguardar. Diga a ela que não precisa de mala; leve na mão casacos e suéteres.

- O senhor deve estar sonhando. Como iremos sair do país sem passaportes? Depois, como iremos passar na alfândega lá no destino?

- Não se preocupe. Viajamos no meu avião particular. No aeroporto em Paris, sairemos no meu carro e não será preciso passar pela alfândega. Sempre que chego de viagem dou um agrado a todos e nunca sou revistado. Quanto a viver na França, deposito uma quantia para que você possa viver o resto dos seus dias tranquilo.

- Infelizmente, eu não tenho toda essa certeza que o senhor tem; mas como parece não ter alternativa, vou ficar com o seu plano.

- Então, meu amigo, não perca mais tempo. Enquanto tomo um banho, ligue daqui do quarto mesmo para sua mulher e bote em prática o que falei. Assim que eu terminar com a chuveirada, ligo para o Sayad e coloco-o a par de tudo. Peço que ele mande dois ou três seguranças para nos acompanhar até o seu hotel.

Os seguranças chegaram. Eram dezoito horas e trinta minutos quando Josef e Anderson saíram para encontrarem com Sayad. De Copacabana até a Glória foram em silêncio, não estavam confiando nem no motorista do táxi que os conduzia. Quando chegaram ao hotel, Sayad já os estava esperando e aconselhou que mudassem o local do jantar. Sabia que a mania de Josef de sempre deixar encomendado o que iria comer era como marcar seus passos para que o inimigo o seguisse. Anderson então sugeriu ir ao bar Bico Doce, um estabelecimento bem antigo fundado em 1895 que era bem escondido. Estava localizado na Rua do Rosário 74 lj. n° 3 e a sua entrada era feita pelo Beco da Cancelas.

Ao chegarem ao restaurante, Josef cruzou com Adolfo, que acompanhado por um homem jovem, estava de saída. Cumprimentaram-se sem muito entusiasmo. Enquanto seus amigos se dirigiram para a mesa que o garçom os indicava, Josef resolveu aproximar-se do pequeno balcão na entrada à direita, onde estava uma jarra com flores para respirar-lhe o perfume. Imagine o que experimentou Josef, diante dele, lá estava ela. Sim ela, Patrícia com um cálice de Martine a saboreá-lo e fingindo não estar vendo-o. Um raio, caindo a seus pés, não o teria perturbado tanto. Recuara de modo brusco, os olhos estavam turvos pelo sangue que lhe subira à cabeça. Derrubou ao chão uma travessa de sorvetes da bandeja que o garçom levava para algum cliente. Rolou tudo sobre o tapete. Nesse instante, desejou estar enterrado a cem metros de profundidade. Por sorte, um artista célebre acabava de entrar no pequeno restaurante junto de alguns fotógrafos com suas máquinas infernais tirando fotos para todo lado. Foi esquecido e pôde se recompor e contemplá-la em todo o esplendor de sua beleza. Pareceu-lhe mais alta, mais cheia de formas, mais sedutora do que nunca. Suas vestes, de imaculada brancura, ondeavam em pregas sobre seu corpo. Suas espáduas e seu pescoço se destacavam contra o decote, seus cabelos de um negro de ébano desatavam-se em cachos que lhe davam à face um traço forte e decidido. Ao passar perto dela, voltou-se e acreditou ter lido no seu olhar de um azul marcante e zombeteiro que ela iria tentar seduzi-lo outra vez. Só que desta vez viu a morte estampada em seu rosto. Mas, nesse turbilhão de pensamentos, viu-se separado de Patrícia por alguns instantes. Reencontraram-se pouco depois, diante do pequeno bar. Então ela, encostando seu corpo ao dele, ofereceu-lhe um copo sorrindo calmamente, dizendo-lhe com uma voz cuja lembrança nada poderá jamais apagar de sua memória:

- Josef, eu não esqueci nossa primeira e última noite. Apesar de não ter sido como eu imaginei, faria tudo de novo. Será que você sairá ganhando sempre, cherry? O que achas de tentarmos outra vez?

- É uma pena, porque já esqueci e posso garantir de que não haverá outra vez, Patrícia.

- O que eu posso fazer? Nada, pelo visto. Mas mesmo assim continuo acreditando que o seu fim está bem próximo.

- Cuidado com as palavras. Posso garantir que as paredes têm ouvidos, e caso me aconteça algo, podes ficar comprometida.

- Josef, eu não estou nem um pouco preocupada. Quero mais é vê-lo morto.

- Preciso ir, não posso mais lhe dar atenção. Meus amigos estão me esperando para jantar. Até mais, menina.

Josef acomodou-se à mesa com os amigos e passaram a conversar sobre tudo o que estava acontecendo. Sayad concordava plenamente com tudo que Josef tinha exposto e acrescentou que ele era também peça deste tabuleiro a ser eliminada. Sabia que os judeus o perseguiriam caso eles conseguissem escapar. Se os eliminassem, ele também passaria a ser uma testemunha.

Como o restaurante não era muito grande, Josef pôde visualizar bem no canto, como que querendo se esconder, Patrícia, acompanhada por um homem que não soube quem era. Também não fazia a menor diferença saber, pois não tinha mais intenção de encontrar-se com ela. Porém mesmo assim ficou intrigado: era muita coincidência o destino reuni-los ali. Mas enfim, como dizem os franceses, “c’est la vie”.

Entre conversas e pensamentos, Josef, que tinha escolhido a bebida, chamou o garçom para fazer o pedido, mas foi interrompido por Sayad.

- Desta vez você não fala nada. Eu vou escolher uma bela refeição e a sobremesa da minha terra. Mostrarei ao Anderson como nossa comida tem variedades e não deixa nada a desejar.

- Que bom, assim tenho menos uma preocupação. Prepare-se, Anderson, porque a comida árabe é boa, contudo muito forte.


***

Carneiro com amêndoas

(1 kg) de carneiro
Um dente de alho
Três colheres (sopa) de azeite de oliva
Duas cebolas médias
Uma xícara e meia de arroz
Quatro xícaras de água
Sal e pimenta-do-reino
Um tablete de caldo de carne
Quatro colheres (sopa) de uva passa
Quatro colheres (sopa) de amêndoa
Um envelope de açafrão
Uma colher (sopa) de extrato de tomate
Meio maço de hortelãs fresca
Modo de Preparo: – Cortar a carne em tirinhas. Fritar o alho inteiro no azeite até dourar. Retirar. Juntar a carne e refogar com a cebola. Colocar o arroz, o extrato de tomate, o sal, a pimenta, o caldo de carne e a água. Cozinhar em fogo moderado até o arroz ficar pronto. Adicionar as passas, as amêndoas e a hortelã picadas.

***


Mamul

Massa
Duas xícaras (chá) de manteiga sem sal
(1 kg) de semolina (sêmola de trigo)
(3/4) de xícara (chá) de leite frio
Uma colher (chá) de água de flor de laranjeira
Açúcar
Recheio
(250 g) de figos turcos
(100 g) de nozes trituradas grosseiramente
Uma colher (chá) de água de flor de laranjeira
Modo de Preparo: – Massa: – em uma panela, derreta a manteiga, retire do fogo e deixe esfriar. Coloque a semolina numa tigela e adicione, aos poucos, a manteiga. Misture bem e deixe descansar por 8 horas. A seguir, acrescente, aos poucos, o leite, a água de flor de laranjeira e amasse bem com as mãos.

Recheio: – passe os figos no processador e transfira para uma tigela. Junte as nozes e a água de flor de laranjeira e misture. Abra pequenas porções de massa com as mãos, coloque um pouco de recheio e feche. Passe pela semolina, molde às fôrmas própria e leve ao forno médio, preaquecido, até dourar. Assim que retirar do forno, desinforme e passe pelo açúcar.

***


O jantar transcorreu normal. Como sempre, a comida estava irretocável. Josef chegou até a esquecer do perigo que corria, tal a descontração reinante. Só quando Anderson perguntou a que horas iriam ao aeroporto é que Josef voltou à realidade.

- Sayad, nós estamos indo a Paris assim que sairmos daqui. Eu gostaria de saber quando chegará a encomenda dos nossos amigos e quem vai entregar. Ontem, eles depositaram na minha conta em Paris o combinado, e no mesmo instante, M. Leblanc transferiu para a sua conta no Crédit Suisse seus 10 milhões de dólares.

- Fique tranquilo. Com a morte do padre Roque, amanhã mesmo Samir estará embarcando para receber a encomenda lá no Oriente, a fim de distribuí-la aos devidos lugares, como você determinou. Não vai ter erro, eu garanto. Você volta para o hotel agora ou vai ao aeroporto?

- Não, nós faremos hora por aqui no restaurante. Quando estiver para fechar, iremos direto ao aeroporto.

- Não posso ficar aqui mais tempo. Tenho que resolver uns assuntos ainda hoje, todavia vou deixar um dos meus homens aqui por medida de segurança. Ele já está recomendado para não se afastar um milímetro de perto de vocês. A qualquer movimento suspeito, ele não hesitará em matar. O homem é treinado para isso. Tens alguma colocação a fazer, Josef? Se não, estou indo embora.

- Não, acredito que estaremos protegidos. São quase vinte e três horas e o pessoal do hotel já deve ter deixado minha mala no avião. Daqui a pouco também iremos ao aeroporto, e caso meu comandante já esteja por lá, partiremos imediatamente. Podes ir que estamos bem; até uma outra vez e cuide direito das entregas.

- Então até o nosso próximo encontro no Oriente. Lá é menos perigoso. – riram.

Josef não aparentava, mas estava um pouco impaciente. Em virtude disso, aproveitou o momento e como era seu costume pegou sua agenda e a atualizou com os últimos acontecimentos. Para não demonstrar esta preocupação ao amigo, continuou conversando, tentando fazer a hora passar mais rápido.

- Interessante! Um relógio dessa qualidade parado.

- Provavelmente acabou a corda.

- Acredito que não. Que horas são, Anderson?

- São vinte e três e quinze.

- Hum! Já está na hora. Vou pedir a conta e podemos ir andando.

- Antes tomemos um café. Creio que tão cedo não tomaremos um café como esse daqui.

- Certo, vou pedir. Garçom... Por favor, traga-nos café e a conta.

Tomaram o café, Josef pagou a conta e saíram. Eram vinte e três horas e trinta minutos. Do lado de fora do restaurante não havia ninguém. O segurança que deveria estar ali os esperando não se encontrava. Isso chamou a atenção de Josef, que imediatamente alertou a Anderson.

- Está acontecendo alguma coisa. Vá indo à frente e pare um táxi, que eu vou em seguida.

Anderson dobrou logo a esquina que ficava próxima e se distanciou uns cinquenta metros. Josef, ouvindo um disparo vindo daquela direção, correu para tentar ajudar o amigo, mas ao chegar à esquina foi parado brutalmente. Ainda conseguiu vê-lo caindo logo adiante.

- Surpreso, Josef?

- Mas o que você ganhou com isso?











Penúltimo Capítulo


Sexta-feira 2 horas da manhã do dia 17 de Janeiro


O telefone toca alto e insistente na delegacia central.

Quando aquele aparelho tocava, o Dr. Maciel já sabia: era do gabinete do governador. Atendeu e ao saber da notícia vinda do palácio, ficou uma fera. Como era possível ocorrer duas mortes na sua jurisdição e ele só tomar conhecimento pelo próprio governador? Ainda mais sendo o cadáver de pessoa tão influente no cenário político e social. Josef Nathan, quem diria, estava morto. Dirigiu-se imediatamente para o local.

Maciel esteve às voltas com as investigações, preso aos dois locais onde se encontravam os cadáveres durante toda a madrugada. Seriam crimes interligados ou simples coincidência? Os corpos estavam muito próximos um do outro, dando a entender que sim. Um, aparentemente, parecia morte natural. Somente com o resultado da autópsia teria certeza. Porém, qual teria sido o motivo de seu acompanhante não permanecer junto ao cadáver, que sem sombra de dúvidas tinha sido assassinado? Mas por quê? Quem teria feito o trabalho, um homem ou uma mulher? A mando de quem? Seria vingança? Teria sido algum grupo radical ou religioso? Algum amante? Quem era o acompanhante do empresário? Era o que Maciel se perguntava a todo instante, pois estava diante de um verdadeiro mistério. Para complicar ainda mais seu trabalho, a imprensa já estava farejando como sempre. Aqueles repórteres fazendo perguntas para todo lado pareciam até metralhadoras giratórias. Por essa razão, o delegado resolveu intervir diretamente antes que seus homens falassem o que não deviam, além deles tentarem entrar no restaurante para fazer suas próprias investigações.

- Meu caro amigo, este não é um serviço como o de vocês da imprensa, o nosso trabalho não pode ser feito às claras. Tem que ser sigiloso. Não pretendemos fazer a divulgação daquilo que formos descobrindo, como se fosse um boletim médico, para que vocês transformem em notícias. Se acharem que o nosso trabalho deva ser assunto comercial, vocês devem reclamar com o governador. Nossa investigação é sigilosa. Qualquer detalhe sobre o andamento das investigações desses crimes poderá atrapalhar na sua elucidação. Todo diretor de jornal interessado neste caso deverá se dirigir diretamente a mim, que será informado, com o maior prazer, desde que se comprometa direta ou indiretamente a não fazer qualquer declaração ou divulgação sobre tal fato para o público. Em resumo, nosso plano é divulgar prontamente tão logo tenhamos resolvido o caso, para o bem dos familiares, das empresas e das instituições públicas. Posso garantir que será feito com absoluta franqueza e certeza. Acredito que todas as fotos tenham sido tiradas. Já sabem as identidades dos cadáveres. Com isso e mais a imaginação de vocês, os jornais já podem ser rodados. Então agora, senhores, por favor, nos deixem trabalhar.

O delegado logo foi informado de que o corpo que estava mais adiante era do acompanhante de Josef. Chamava-se Anderson, um dos seus funcionários de confiança. Com essa informação, algumas perguntas foram respondidas, todavia existiam outras a serem elucidadas.

Amanhecera; manhã imediata à madrugada em que ocorreram as duas mortes e os jornais já tinham estampado na primeira página as fotos de Josef e Anderson. Os títulos eram os mais variados e chamativos:


Vingança ou crime passional?

Assalto após jantar!

Jantar maldito!


Maciel liberou os corpos para que fossem encaminhados ao necrotério onde deveriam ser autopsiados. Porém antes guardou uma caderneta e uma agenda, ambas com capa de couro, que estavam na maleta de mão de Josef. Tinha esperança de conseguir com o médico legista mais alguma pista que pudesse resolver aqueles dois crimes. Assim que chegou, procurou o Dr. Padilha e pediu-lhe atenção especial para aquele caso, pois o governador o incumbira de acompanhar pessoalmente.

- Fiquei impressionado com dois detalhes: a ponta dos dedos arroxeados e seu semblante tenso como se tivesse descoberto que iria morrer. Pode-se atribuir essa mudança à ação de algum veneno, doutor Padilha? Teria ele ingerido algum?

- À primeira vista sim, se não tivesse consciência. E acredito que não teve. O Sr. Josef pode ter ingerido algo envenenado sem se dar conta do perigo que estava correndo. Creio que quem o acompanhava era de inteira confiança, por isso não desconfiou. O arsênico atua como veneno irritante e violento. A dose mortal é de 0,06 - 0,18 g. Na autópsia de uma vítima de assassinato, se existe suspeita de envenenamento por arsênico, o forense o determina analisando os cabelos e as unhas através do Teste de Marsch, em que se forma AsH3 e que o identifica. Mas só poderemos ter certeza no final dos exames. Fique tranquilo, que vou estar atento aos pequenos detalhes. Mais tarde nos falamos, vou trabalhar agora.

Maciel voltara para a delegacia. Continuava aborrecido com seu pessoal. Não tinha ainda os perdoado por tal falha cometida. Antes de instalar-se à sua mesa, pediu que ninguém o incomodasse. Abriu sua agenda e começou a montar o quebra cabeça que se formara com as informações obtidas no pequeno restaurante. Ali ficara sabendo que o famoso empresário jantara acompanhado por duas pessoas; seu empregado e um homem que descreveram parecer ser de origem árabe. Este deixara o local por volta das vinte e duas horas e cinquenta minutos. Josef e seu acompanhante às vinte e três horas e trinta minutos. Ficou sabendo também que Josef cumprimentou Adolfo, o diretor do Banco Salles, rapidamente na entrada do restaurante e que por alguns instantes também havia conversado com uma bela mulher. Ela foi descrita por seu informante como sendo interessante, sensual, descontraída. Pareceu-lhes ser íntima do morto, apesar de não mais se encontrarem no ambiente. Essa jovem também jantara acompanhada por um homem magro de mais ou menos trinta anos, que deveria ser repórter, pois tirara fotos do local do crime pouco antes dele chegar. Através do porteiro, tomou conhecimento que os três chegaram por volta das dezenove horas e quarenta e cinco minutos acompanhados por dois seguranças. O tal árabe conversara na saída com os dois homens e fora embora acompanhado somente por um, ficando o outro no local. A mulher com o acompanhante, logo a seguir, também saiu e finalmente Josef e Anderson. “Como eram os últimos fregueses, eles entraram para jantar e não demorou dez minutos para vir a notícia dos crimes ocorridos por ali. Não vi nada.”, acrescentou o porteiro, como que querendo se inocentar e fugir de algum testemunho.

Maciel estava muito satisfeito, para não dizer o contrário. Até agora sabia da existência de quatro suspeitos para serem identificados e interrogados e não tinha a mínima ideia de quem seriam e nem onde encontrá-los. De certo só podia contar com o diretor do banco que também gostaria de ouvir. Olhou para cima de sua mesa e viu a caderneta e a agenda que pegara na pasta de Josef. Sua mente encheu-se de esperança: quem sabe não encontraria ali alguma pista que o levasse a desvendar aqueles crimes. Resolveu abri-la para avaliar o conteúdo.

Na primeira página, como título estava escrito:

Gaspacho: - para quatro pessoas, abaixo vinha os detalhes de uma receita.

Na segunda página também como título estava lá escrito:

Bolo frio de bacalhau: - para dez pessoas, abaixo detalhes desta outra receita.


Mas que diabo era aquilo? Toda a caderneta só tinha receita de comida. Quando acabou de ler, constatou que tinha perdido quase uma hora e não encontrou nada que pudesse levá-lo a alguma investigação. Conseguiu, entretanto, saber que o morto era amante da boa culinária e que pelo jeito levava a sério e se divertia com aquilo. Pareceu-lhe ser um bom hobby, tanto que resolveu mandar tirar cópia de todas as receitas para tentar se divertir também.

Restava agora a agenda. Torceu intimamente para que o morto tivesse o mesmo cuidado de registrar tudo o que iria fazer no seu dia a dia. Qual não foi a sua alegria, quando ao abri-la aleatoriamente, lá estavam registrados os encontros que tivera realizado. Continha um relatório sucinto do realizado a cada encontro, tipo: hora, nome, local, assunto tratado e término.

Leu rapidamente a primeira e a última pagina.


Primeira página

Ano 1954 - Quinta-feira 01 de Abril:

9 horas – Saulo Domingues - Polícia Federal – Registro de entrada no Brasil – 10 horas.

12 horas – Isaac Feldman, Samuel Guellby, Levy Straus e Saul Coctovisk – Confeitaria Colombo – Confraternização – 14 horas.

15 horas – Samuel Guellby – Clube Israelita do Rio – Inscrição – 16 horas.

17 horas – Jorge da Silva Cerqueira – Copacabana Palace – Assinatura do Contrato de Sociedade, presentes: O Tabelião e as testemunhas, Levy Straus e Saul Coctovisk – 18 horas.


Última pagina

Ano 1969 - Quinta-feira 16 de Janeiro:

11 horas – Jean Chevalier – Banco do Brasil (Ag. Central) – pagamento, entrega das joias e controle do cofre – 12,30 horas.

13 horas – Jean Chevalier – Restaurante na Domingos Ferreira, n°242 – Almoço – 14 horas.

17,10 horas – Anderson – Debret Hotel – Risco de vida.

19 horas – Sayad – Hotel Glória – Armas.

19,40 horas – Sayad, Anderson e Patrícia – Bar Bico Doce – Informação da transferência de $10 milhões de dólares para banco suisso e acerto das entregas das armas no Oriente.

22,40 horas – ida para o aeroporto.


Constatou também que iria precisar de muita atenção. Como sabemos, as agendas são divididas mês a mês referentes ao ano em curso. Aquela não. A começar pela capa de couro com seu monogramo em ouro; era uma agenda bem diferente das utilizadas pela a maioria dos executivos. Podia se dizer que era um arquivo confidencial, pois só havia registro do que ele, Josef, achava importante.

Sem medo de errar, Maciel calculou que levaria o dia todo lendo as anotações da agenda, mas também tinha certeza de que ao terminar chegaria aos mentores dos crimes e consequentemente ao assassino.

Passava do meio dia. Cansado e com fome, Maciel chamou o detetive Peixoto para irem almoçar num dos restaurantes que existia próximo a Praça Mauá. Levou as agendas, a dele e a do morto, pois pensava em continuar lendo uma e fazendo anotações na outra. Quando chegou ao restaurante, o garçom perguntou o que eles queriam comer, e Maciel, sem pestanejar, entregou a caderneta marcada em uma das receitas para que o cozinheiro a preparasse.


***

Bacalhau gratinado ao molho branco: – para quatro pessoas.

(700g) de bacalhau

(150g) de camarão médio limpo

Uma cebola grande picada

Uma lata de creme de leite

Quatro batatas graúdas cortadas em rodelas

Um ovo cozido

(60g) de azeitonas preta sem caroço

(100g) de queijo parmesão fresco ralado na hora

Quatro colheres de (sopa) de azeite extra virgem

Uma colher de (sopa) de amido de milho

Salsa picada e sal a gosto

Maneira de fazer: – Dessalgar o bacalhau (trocar a água de três em três horas, de um dia para o outro). O recipiente deve ficar na geladeira. Depois cozinhar o bacalhau em água fervente. Retirar a pele, a espinha e desfiar em pedaços graúdos; Em uma panela, com a água do bacalhau, cozinhar as batatas por quinze minutos. Colocar o bacalhau desfiado espalhado no centro de um pirex e colocar as batatas fatiadas ao redor, polvilhar a salsa picada. Reservar.

Para o molho: em uma panela, adicionar o azeite extra virgem, a cebola picada, o creme de leite, o camarão e sal a gosto, até adquirir fervura. Adicionar o queijo ralado e o amido aos poucos (sempre mexendo), por aproximadamente três minutos (ou até engrossar). Cobrir o bacalhau com o molho, adicionar o ovo cozido (cortado em rodelas) e as azeitonas pretas sem caroço ao redor. Polvilhar com queijo ralado. Levar o pirex ao forno (280º) por quinze minutos e servir.

***


Não demorou e o próprio cozinheiro veio até eles ponderando que ali era um restaurante de cardápio simples e prato feito. Aquilo que eles estavam querendo comer só existia num cinco estrelas. Maciel se contentou em comer bife, batata frita, feijão e arroz.

Ao terminar, voltou para a delegacia, ligou para avisar à mulher que continuaria trabalhando e não iria para casa. Estaria incumbido pelo governador a elucidar aquele caso.

Agora em conjunto com Peixoto, voltara a ler a agenda em voz alta. Faziam as anotações que julgavam importantes, mas a aparente paz reinante na delegacia logo foi interrompida.

O telefone voltou a tocar - era o Dr. Padilha. Maciel tomou conhecimento de que Josef havia sido envenenado - mas não da forma que imaginavam - ingerindo alguma bebida ou comida. Na autópsia, foi constatado que alguém havia lhe aplicado uma injeção letal com o veneno de uma serpente mamba negra. Quem o fez sabia perfeitamente o que estava fazendo, pois aplicou diretamente em sua veia jugular externa esquerda. Provavelmente alguém bem forte o imobilizara por instantes e fizera o serviço. A morte foi quase que instantânea.

O doutor Padilha também informou que qualquer pessoa com conhecimento e influência em laboratórios que lidam com venenos e soros de ofídios, pode adquirir qualquer especialidade. O usado foi do tipo neurotóxico, que paralisa e afeta particularmente os centros respiratórios. A morte sobrevêm por asfixia se a vítima não for socorrida a tempo, o que provavelmente aconteceu. Corais verdadeiras e najas também são exemplos de serpentes portadoras deste veneno. Vou aprofundar na análise para saber qual de qual delas o veneno foi usado. Esses dados foram logo anotados, pois não tinham tempo para esperar até a documentação ser liberada e enviada para a delegacia. Ato contínuo chamou Queiroz e mandou que ele fosse até ao Instituto Osvaldo Cruz investigar sobre um possível desaparecimento ou doação de veneno para alguém, ou a algum laboratório de menor porte. Também solicitou a seu colega em São Paulo que procurasse saber o mesmo junto ao Instituto Butantã.

O delegado Maciel providenciou a documentação exigida por Lei para que o corpo pudesse ser liberado e enviado para a França, local onde seria sepultado.

No aeroporto, o governador do estado fez uma breve homenagem no pátio onde se encontrava a aeronave que iria conduzir o corpo de Josef em sua última viagem. Estavam presentes Maciel e sua equipe, deputados, vereadores, ministros, senadores, vários funcionários das empresas que estiveram sob o comando de Josef e quase todos os que tramaram sua morte.

Com a exceção dos envolvidos no crime que ali estavam presentes, ninguém conseguia entender o porquê daquela morte. Somente Ângela tinha ideia dos motivos que levaram à execução daquele crime. Era conhecedora dos prováveis assassinos, mas não tinha como denunciar suas suspeitas sem se incriminar e ter que responder a um processo por escutar ligações feitas pelo seu patrão sem autorização judicial. Mais uma vez, por medo, calou-se.

Após o encerramento da homenagem a Josef, o delegado Maciel e sua equipe retornaram a delegacia, ainda tinham muito que ler para começar as investigações.

Patrícia, cuja presença a homenagem passou despercebida, rapidamente retornou ao hotel. Quanto menos aparecesse, mais difícil seria encontrá-la, afinal ela esteve presente praticamente na cena do crime e momentos antes conversara com a vítima. Resolveu que não sairia do apartamento até a hora do leilão, na segunda feira. Presa a seus pensamentos, Patrícia olhava pela janela do apartamento do hotel as pessoas na calçada que esperavam suas conduções para retornarem a suas casas, depois de mais um dia de trabalho.

Tinha sido bom viajar e passar uns dias naquela cidade. Tinha sido bom passar por aquele friozinho gostoso na barriga e sentir o gosto de sangue na boca, que passou a lhe agradar tanto. Tinha sido ótimo comparecer na cerimônia de despedida feita em homenagem a Josef, seu amante, a quem tanto passara a odiar. Tinha sido ótimo poder rever a cidade que marcou uma época da sua vida, e que depois de tudo aquilo estava marcando ainda mais. Tinha sido ótimo, enfim, poder dar um basta a uma relação que vinha remoendo seu coração, fazendo-a se desgastar e ficar presa a um sentimento que agora ela não precisaria mais ter. Seria ótimo participar do leilão como parte integrante da trama para aumentar o valor das peças.”

Patrícia pensava que seria bom viajar para o velho continente. Estava certa de que se arriscar e enfrentar o perigo de frente foi o melhor caminho e a melhor opção para alguém como ela, que passou a viver fugindo dos sentimentos e das ameaças. Agora sim poderia dizer: “estava tudo terminado e enterrado”.

























Sábado, nove horas da manhã do dia 18 de Janeiro


Massanet e Godoy chegaram por volta das vinte e uma horas na mesma sexta-feira em que o corpo de Josef fora embarcado para Paris. Seguindo as instruções deixadas por ele quando em vida, levavam uma vantagem enorme sobre o delegado Maciel. Conheciam todos os envolvidos na morte e sabiam os prováveis locais onde encontrá-los. Dessa forma não perderam tempo: alugaram dois carros para que tivessem mais mobilidade e também não chamassem tanta atenção quando fossem viajar. Tinham traçado todos os planos para executar a vingança. Para que desse certo, tudo teria que funcionar como um relógio suíço. Então eles hospedaram-se no Hotel Glória, cada um num apartamento. Não queriam que soubessem que estavam juntos. Precisavam estar perto do grande traficante de armas para controlar seus movimentos. Tinham a intenção de entrar no apartamento em que Sayad estava hospedado e tentar pegar algum de seus pertences que pudesse incriminá-lo em tudo o que eles iriam executar.

Levantaram bem cedo e tomaram o café da manhã no próprio apartamento. Em seguida, desceram até a recepção, sempre separados. Godoy procurou saber em qual apartamento estava hospedado Sayad e ali mesmo da portaria solicitou uma entrevista com ele. No mesmo instante, Massanet se dirigiu para o apartamento que ouvira o recepcionista dizer. Não demorou e Sayad apareceu no salão acompanhado por quatro seguranças. Godoy se apresentou como sendo segurança por profissão e já foi logo lamentando, dando a entender que não teria chance de fazer parte de sua guarda pessoal, uma vez que ele estava acompanhado pelos quatros homens. Sayad confirmou que sim e saiu. Massanet desceu com sua mala e fechou a conta. Godoy pouco tempo depois fez o mesmo. Na portaria, cada um solicitou um táxi, tomando o cuidado de não pegarem os táxis que fazem ponto nas imediações do hotel - já que tais veículos eram conhecidos dos atendentes, e poderiam servir como testemunhas.























Segunda-feira, nove horas da manhã do dia 20 de Janeiro


O leilão estava marcado para as quatorze horas e trinta minutos. Massanet e Godoy estavam tranquilos porque sabiam que até lá ninguém iria fugir. Ficaram no hotel até as doze horas, dali saindo para almoçar. Para lembrarem o antigo patrão e amigo, foram à Confeitaria Colombo e pediram um dos pratos preferidos de Josef.


***

Peixe a marinara: – para quatro pessoas.

Merluza (600g);

Uma xícara de farinha de trigo; Óleo para fritura;

Quatro batatas médias;

Duas cebolas pequenas cortadas em rodelas;

Um dente de alho socado;

Meia lata de purê de tomate;

Meia xícara (chá) de água quente;

Azeitonas pretas (60g);

Sal, pimenta e manjericão a gosto;

Como fazer: – Corte o peixe em pedaços pequenos e passe-os pela farinha de trigo. Frite-os no óleo não muito quente para dourar por igual. Coloque-os num pirex untado. Enquanto isso cozinhe as batatas inteiras em água e sal. Escorra-as, retire as peles e corte-as em rodelas finas. Espalhe-as sobre o peixe frito e conserve quente. Retire parte do óleo da fritura e refogue a cebola e o alho. Junte o purê de tomate, a água quente, os temperos e as azeitonas sem caroços. Deixe ferver por quatro minutos e despeje sobre as batatas. Sirva a seguir.

Acompanha: – Arroz branco e Salada mista.

***


Momentos antes de começar o leilão, estavam reunidos discretamente dentro da Igreja da Candelária: Jean, Pierre, Patrícia, Júlio e Mario Henrique. Esta rápida reunião foi pedida por Jean, que queria deixar acertado o esquema a ser usado por eles no sentido de elevar o preço das joias ao máximo possível, sem com isso despertar a suspeita dos verdadeiros interessados pela compra.

O salão nobre da agência do Banco do Brasil, onde estariam sendo leiloadas as duas joias de Josef, começava a ficar pequeno, pois o número de pessoas curiosas e os interessados na compra eram muito grandes. Talvez pelo fato do proprietário das principais joias ter sido assassinado.

No meio de todas aquelas pessoas estavam Massanet e Godoy. Já tinham descoberto a existência do plano que o joalheiro traçara com seus comparsas Pierre, Patrícia e Júlio. Puderam constatar que os quatros estavam em posições estratégicas. Na certa iriam instigar ao máximo os verdadeiros interessados nas peças, a fim de obterem um valor maior na venda. Dessa forma, o rateio seria maior entre eles. Godoy, que ficara encarregado de vigiá-los, descobriu que o joalheiro envolveu o leiloeiro na trama. Seria este quem iria depositar o dinheiro na conta de Josef na Suíça. Também estavam presentes o delegado Maciel, o inspetor Queiroz e o detetive Peixoto, tentando ali encontrar alguma pista que pudesse solucionar o crime cometido contra Josef. Por não entenderem de arte e nem terem informação de que as joias famosas que seriam leiloadas eram duas cópias, o que na realidade constituía um crime, jamais conseguiriam ligar aquelas pessoas envolvidas com o leilão ao assassinato.

Jean Chevalier abriu o leilão falando em um portunhol com seu sotaque francês, mas que dava para todos entenderem.

- Boa tarde a todos. É com grande pesar que inicio nosso leilão e antes de tudo pediria aos presentes um minuto de silêncio em memória do Sr. Josef Nathan.

Passado o minuto de homenagem, continuou.

- Entretanto é com grande alegria e satisfação que realizo a intermediação dessas joias, que são verdadeiras obra de arte. Serão leiloados três lotes: – o primeiro deles é constituído de dois ovos: – o Azov e o Ovo da Coroação. O lance inicial e de 15 milhões de dólares.

Não tinha terminado de anunciar o valor inicial e veio a primeira oferta.

- 18 milhões. – Gritou Pierre, com seu forte sotaque de alemão.

- Eu ouvi 18, dou-lhe uma... – Ouviu-se o som do martelo ecoar pelo salão.

- 20 milhões. – Berrou outro interessado lá no fundo do salão.

- 20 milhões, alguém mais? Essas joias não se veem outras iguais em lugar nenhum do mundo. Dou lhe uma... Dou-lhe duas...

- 23 milhões. - Arriscou Patrícia.

Maciel olhou para a dona do lance e pensou consigo; “quem será essa jovem que não me é estranha? Mas 23 milhões, não é qualquer um que dispõe dessa quantia, por tanto Maciel você não há conhece”.

- Bela oferta... Dou-lhe uma... Dou-lhe duas... Será que eu ouvi 25 milhões? - Era a senha que Jean combinara para que seus comparsas não dessem mais nenhum lance. Fecharia a venda em 25 milhões.

Sua experiência estava mais uma vez certa. Alguém no meio dos interessados levantou levemente o braço, sem fazer nenhum alarde, confirmando o lance em 25 milhões.

- O cavalheiro aqui presente confirmou os 25 milhões. Mais alguém? Dou-lhe uma... Dou-lhe duas... Dou-lhe três...

Jean bateu o martelo fortemente e anunciou a venda.

- Vendido para o cavalheiro de terno azul marinho.

Todos se voltaram para ver o novo proprietário, que agora era só sorrisos.

O leilão continuou. Tendo o leiloeiro acelerado o seu final. Fato que não passou despercebido por Maciel.

Como previram Massanet e Godoy, os quatros conseguiram rapidamente elevar o preço das duas peças e apuraram 25 milhões de dólares, que foram pagos em espécie e deixados depositados no próprio cofre que Chevalier manteve na agência bancária até o final do leilão.

Terminado o leilão, todos saíram pela mesma porta lateral – a que dava para a rua Primeiro de Março – Um a um, separadamente, pegaram um táxi.

Massanet e Godoy fizeram o mesmo, mandando o motorista seguir a uma relativa distância o carro em que estava Chevalier. Além de ele estar de posse das duas malas com o dinheiro da venda das joias, com certeza todos iriam se encontrar em algum lugar para dividir o lucro.

Os carros foram parando e todos se reuniram em frente ao nº 39 da Avenida Rio Branco.

- É aqui que eles vão dividir o dinheiro, Massanet.

- Rápido Godoy, não podemos perdê-los de vista.

Todos entraram no prédio. Não desconfiaram que estavam sendo seguidos pelos dois ex-seguranças de Josef.

Ali funcionava, no último andar, uma casa de câmbio com ligação direta a uma agência bancária francesa. Provavelmente, todos aqueles dólares seriam depositados em contas que seriam abertas por cada um deles.

Os setes entraram no elevador. Não tinha ascensorista naquela hora. Jean marcou o vigésimo segundo andar e Massanet o terceiro.

***


Maciel ficou sabendo que as investigações nos Institutos do Rio e São Paulo não acrescentaram nada para ajudar a elucidar o assassinato de Josef e seu empregado Anderson. Se alguém conseguiu algum veneno em uma das instituições, provavelmente deu uma boa remuneração para permanecer oculto.

Para complicar ainda mais as suas investigações, às dezessete horas recebeu a notícia do assassinato de quatro pessoas dentro do elevador do prédio n° 39 da Avenida Rio Branco.

Dirigiu-se com Peixoto ao local. Pelos documentos das vítimas pode constatar serem todos conhecidos de Josef, pois seus nomes constavam em sua agenda particular. Também pode identificar a jovem como sendo a mesma que estava presente no restaurante no dia em que Josef foi assassinado.

- Peixoto, nós temos agora mais um caso para elucidar e continuamos na estaca zero do primeiro.

- Maciel, todas essas pessoas eram ligadas ao falecido. Estarão sendo eliminadas a mando do senhor Josef?

- Não diga besteira. Quem mandou eliminá-los estava atrás é do dinheiro do leilão e provavelmente é o mesmo autor dos outros crimes.

Já passava das vinte e uma horas quando uma agitação tomou conta da delegacia onde era lotado Maciel. O delegado especial da Polícia Civil do Rio de Janeiro estava agora com mais um caso para resolver. Segundo ele, parecia que resolveram espalhar cadáveres pela jurisdição sob a sua responsabilidade. Os repórteres fazendo plantão na porta vinte e quatro horas por dia, o governador e o prefeito a todo instante querendo saber como estavam as investigações sobre o assassinato de Josef e seu empregado. Era demais. Em sua sala, há quase três horas, estava Jean Chevalier. Ainda tremia, mas mesmo assim não cansava de repetir para Maciel através do intérprete que arrumaram, pois com o nervosismo ele não conseguia falar uma única palavra em português.

- Assim que a porta fechou e o elevador deu início à subida, um deles travou o mecanismo e deram início ao extermínio sem dizer uma única palavra. Antes deles apontarem as armas em minha direção, pude ver todos caindo como se fossem bonecos seus peitos estavam todo ensanguentado. Os dois apontaram ao mesmo tempo para mim e dispararam; só sei que foram seis tiros porque quando abri minha camisa, pude ver preso no meu colete todos os projéteis. O que estranhei é que não ouvi nenhum tiro dado por eles. Liberaram o elevador e desceram no terceiro andar levando as malas com o pagamento das joias que foram vendidas no leilão.

Maciel fez mais algumas perguntas, anotou o que achou importante e liberou o leiloeiro. Não tinha porquê mantê-lo preso; sabia que eles estavam se dirigindo para o banco para depositar o dinheiro em suas contas, mas não tinha como provar. Além do mais, o cônsul francês acabava de chegar e começava a pressioná-lo no sentido de liberar seu compatriota, pois o mesmo precisava de acompanhamento médico devido ao estado em que se encontrava.





















Quarta-feira, nove horas da manha do dia 22 de Janeiro


Minas Gerais


Jorge, Charpantier, Silvio Rios e Artur Costa mais uma vez estavam reunidos na fazenda Laço de Ouro. Agora com a finalidade de comemorar a morte de Josef e o empréstimo de 30 milhões de dólares feito no Banco Salles que Josef deixara assinado. Jorge rapidamente transferira da conta da fábrica para sua conta particular na Suíça.

O dia passara rapidamente e já tinha anoitecido quando, de repente, ouviram vários tiros seguidos.

- O que está acontecendo lá fora, Jorge? – Charpantier perguntou dando um salto.

Como Jorge trouxera seus quatro seguranças, achou que eles estivessem espantando algum gato selvagem ou até mesmo treinando.

- Tenha calma, deve ser os rapazes que estão atirando. Nada de mais.

- Tem certeza? Não seria melhor irmos ver o que eles estão fazendo? – Insistiu Silvio Rios.

- Já disse para vocês não se preocuparem, os rapazes sempre fazem isso quando estão por aqui.

- Bem se é assim, então vamos comer antes que a comida fique fria. – Lembrou Artur Costa.

Sempre que ia à fazenda, seus seguranças executavam essa prática, por isso a tranquilidade de Jorge. Lá fora o silêncio voltou a reinar e a descontração tomou conta do encontro novamente.

Massanet havia deixado um dos carros numa rua secundária em Lambari e embarcara no outro automóvel onde estava Godoy, para chegar até a fazenda. Eles sabiam que Jorge não se separava nunca de seus seguranças e provavelmente iriam encontrá-los por lá. Dessa forma, teriam que usar de toda a técnica adquirida quando ainda eram agentes. Tomaram o máximo de cuidado para que nenhum deles escapasse. Deixaram o carro estacionado a oitocentos metros da entrada da fazenda e entraram passando pela parte onde o capim estava mais alto. Quase que como uma cobra eles deslizaram pelo mato até bem próximo dos seguranças. Pegaram os quatro de surpresa, não dando chance sequer de defesa. Depois de eliminarem todos eles, Massanet e Godoy – que agora usavam capuz para esconder suas identidades - entraram na sede da fazenda, amarraram fortemente e prenderam todos os empregados no celeiro. Em seguida, invadiram o salão onde os quatro jantavam tranquilamente.

- Assina ou morre? – Perguntou Massanet a Jorge.

- Mas o que é isso? – Quis saber Charpantier, como sempre apavorado.

- Não temos tempo para conversa. Assina logo. – Obrigou Massanet.

Sem dar muita explicação, apresentava o documento já pronto para que Jorge assinasse. Assim que Jorge assinou o documento, obrigaram a Charpantier, Silvio Rios e Artur Costa a também assinarem como testemunhas.

Os três ainda puderam ver que atestavam uma procuração com a data bem anterior a atual onde Jorge, obrigado, dava plenos poderes a Massanet e a Godoy. De posse da procuração que os autorizava a movimentar a conta na Suíça, ali mesmo eliminaram os quatros.

Da mesma forma que chegaram, partiram. Saíram rapidamente da fazenda sem serem vistos, não deixando nenhuma pista.

***
























Sexta-feira, nove horas da manhã do dia 24 de Janeiro


Rio de Janeiro


No Rio de Janeiro, reunidos no Copacabana Palace Hotel estavam Levy, Saul, Isaac e Samuel. Não tinham encontrado explicação para a morte de Josef. Não que estivessem sentindo a sua falta, mas sim porque não sabiam quem fizera o serviço e era de vital importância descobrir, para a própria segurança deles. Da forma que fora feito, achavam que as investigações poderiam chegar até eles, e com isso vir à tona todas as atividades escusas de que participavam. Também todas aquelas mortes acontecendo nos últimos dias, com pessoas que tinham de alguma forma ligação com Josef, os alertavam para o perigo que estavam correndo.

- Meus amigos a situação fugiu do nosso controle. – Alertou Levy.

- Não há nada que não possamos controlar. – Garantiu Saul.

- Não é bem assim. Precisamos saber quem eliminou Josef e quem está eliminando todas essas pessoas. - Ponderou Isaac

- A impressão que eu tenho, me é assustadora. – Falou Samuel.

- Do que você está falando, Samuel?

- É como se, do além, Josef comandasse sua vingança. - Samuel respondeu quase que mecanicamente.

- Não diga bobagens. Quem está por aí vingando o Josef, se é que realmente o estão vingando, pertence ao mundo dos vivo, e nós temos que descobrir quem é, pois pelo o visto nós seremos os próximos.

Massanet e Godoy já sabiam que não tinham sido aqueles homens que mataram Josef, mas eles estavam tão acuados que acabariam os identificando como sendo os vingadores misteriosos que estavam agindo e com certeza os eliminariam. Por isso, infiltraram-se no Hotel vestidos de garçons para atender aos pedidos que vinham dos apartamentos. Desta forma poderiam executar com segurança o serviço e manter oculto o último desejo de seu amigo Josef.

Eles mal acreditaram o que acabavam de escutar; acabara de chegar um pedido do apartamento 606 onde estavam reunidos seus alvos e o encarregado do serviço orientava o pessoal como agir, pois o almoço só deveria ser servido por volta do meio dia. Queriam para agora uma garrafa de champanhe e quatro taças de cristal.

- Vamos rápido, esse é o momento. Alertou ao Godoy.

Massanet e Godoy, sem que ninguém notasse, dirigiram-se para o terceiro andar e ficaram esperando o garçom que entregaria o pedido no apartamento. Quando este apareceu saindo do elevador, imobilizaram-no, vendaram seus olhos e o prenderam no apartamento em frente ao 606, que estava vazio.

Godoy bateu suavemente e aguardou ser atendido.

- Pode entrar, a porta está aberta. – Gritou alguém no interior.

Entrou, deixando entreaberta a porta para que Massanet também pudesse entrar. Calma e gentilmente colocou a bandeja em cima da mesa e foi servindo o champanhe nas taças. Quando viu que seu amigo também entrara, não perdeu tempo. Sacou sua pistola e juntos executaram os quatros, que não tomaram nem conhecimento de que iriam morrer, tal a velocidade que se deu o ato.

Nenhum disparo foi ouvido devido as suas armas possuírem silenciador.

Nesta operação, agiram de forma a confundir a polícia e desviar de vez qualquer suspeita ou pista que levassem a eles, uma vez que tantas vertentes de investigações poderiam ser seguidas, já que eles deixaram no local, caído ao chão, o passaporte de Sayad. Com isso, pensariam se tratar da desavença existente entre judeus e palestinos ou até mesmo a eliminação de um fornecedor de armas, o Levy, por seu concorrente. Estava terminado o trabalho de vingança que eles haviam se comprometido com seu ex-patrão e amigo em realizar.

Mais uma vez, calmamente como se nada tivesse acontecido, foram almoçar ao estilo de Josef.


***

Rigatoni a quatro queijos: – para quatro pessoas.

(75 g) de queijo parmesão
(75 g) de queijo gruyére
(75 g) de queijo edam
(75 g) de queijo fontina
(1/2 kg) de macarrão rigatoni ou outro tipo de massa curta
Meia xícara (chá) de manteiga
Sal e Pimenta-do-reino moída na hora a gosto e Sal picada.
Modo de Preparo: – Rale os queijos, coloque-os numa tigela, misture e reserve. Cozinhe a massa numa panela grande com 5 litros de água fervente, mexendo de vez em quando, por 12 minutos, ou até ficar al dente. Retire do fogo, escorra e reserve a água e a massa separadamente. Numa panela, derreta a metade da manteiga em fogo baixo. Acrescente a massa, misture cuidadosamente e, aos poucos, adicione, mexendo delicadamente, a mistura de queijos, a manteiga restante e 1/2 xícara (chá) da água reservada. Deixe cozinhar, sem parar de mexer, até o queijo começar a derreter. Retire imediatamente do fogo. Se a preparação ficar muito seca, junte um pouco mais da água do cozimento. Acerte o sal, se necessário, e distribua a massa nos pratos. Polvilhe a pimenta e sirva a seguir.

***


Mais uma vez o telefone tocava e era o direto do gabinete do Governador. Quando Maciel tomou conhecimento dos quatros assassinatos no Copacabana Palace Hotel, deu um salto da cadeira. Sabia agora perfeitamente quem eram aqueles homens e o que realmente faziam, graças à agenda de Josef. Haviam sido executados; Levy, o fornecedor de armas para as milícias de Israel e financiador da organização antinazistas; Isaac, inspetor gerente do Serviço Secreto de Israel; Saul, o caçador de nazistas; e Samuel, líder radical religioso dos israelitas.

Imediatamente chamou o Peixoto, o Queiroz e foram para o hotel.

- Precisamos andar rápido, e deter esses dois maníacos. – Comentou Maciel.

- Mas o que te faz afirmar serem apenas dois os maníacos? – Questionou Queiroz.

- É verdade, pode ser mais de dois a fazer esse trabalho. – Peixoto concordou com Queiroz.

- Dois ou mais estão executando, mas ainda tem o mentor. – Afirmou Queiroz.

- Não importa quantos são, temos é que acabar com essa matança indiscriminada. Prendendo os executores, nós chegamos no mandante.

Chegaram ao hotel. No local do crime nada havia sido tocado. Ninguém viu nada nem escutaram o barulho dos disparos. Lá estava um passaporte jogado no chão, que poderia ser de qualquer um deles. Pegou para examinar e constatou que não era de nenhum deles, mas sim de Samir Ozir Sayad, personagem que também fazia parte das anotações na agenda de Josef.

- Parece que o nosso amigo, estava com pressa e deixou cair seu passaporte na hora da fuga. – Opinou Peixoto.

- Ou alguém deixou de propósito para incriminá-lo. – Queiroz deixou a dúvida no ar.

- Parece que quanto mais complicado fica, mais você gosta, em Queiroz? – O delegado chefe brincou com ele.

Apesar de todos aqueles corpos ainda conseguiram rir. Maciel mais experiente verificou se tratar de um passaporte falso.

Maciel pensou consigo mesmo, outro mistério a ser resolvido. De certa forma, parecia que tudo começava a tomar corpo em suas investigações. Pensava que Sayad usara Pierre, um dos seus seguranças que era de nacionalidade alemã, para eliminar Josef. Assim, pareceria uma vingança pessoal. Pierre fora assassinado, a mando do próprio Sayad, como queima de arquivo, levando com ele Patrícia, Júlio, e o joalheiro falsificador, já que estavam todos juntos no momento da operação.

Agora varias perguntas habitavam o seu imaginário.

Por que todos eles estavam juntos? Iriam dividir o produto da venda das peças entre eles? Já que Josef estava morto e não tinha ninguém para reclamar o dinheiro? Parecia claro, Jean Chevalier na certa iria dividir o produto da venda na própria agência bancária que funcionava no último andar daquele prédio, tirando logicamente uma parte para ele.

Fazia sentido.

Aos poucos Maciel ia dando forma aos seus pensamentos. Quem sabe? Se tivesse com a razão era mais um mistério que ia sendo desvendado e encaixado naquele maldito quebra-cabeça, mas ainda faltava um detalhe a ser esclarecido. As mortes de Jorge, Charpantier, Silvio Rios, Artur Costa e dos quatros seguranças ocorridas na fazenda Laço de Ouro, o que teriam a ver com todos esses assassinatos? Para esta operação Maciel acreditava que fora executada por vários homens, e para isso só mesmo Sayad com sua organização teria condição de realizar com tamanha precisão. Mas porquê ele faria isso? Aqueles homens nada tinham a ver com seus negócios, ou tinham?

Outro detalhe intrigante é que todas as execuções foram realizadas com a precisão de um relógio suisso e no espaço de dois dias para cada uma. Era como se Sayad ou alguém da intimidade de todas as vítimas soubesse onde que elas estavam ou o que iriam fazer. Também lhe parecia que o responsável pelas execuções tinha pressa e não perdia tempo. Maciel achou que ficaria sabendo quando prendesse Sayad, o famoso e tão procurado árabe traficante internacional de armas. Se o prendesse, é claro, pois a essa hora, com todas aquelas pessoas eliminadas, ele acreditava que não fosse haver mais assassinatos. Provavelmente, Sayad já teria fugido do país, pois nenhuma dificuldade teria para fazê-lo.


























Sábado, nove horas da manhã do dia 25 de Janeiro


Acabava de levantar voo, rumo à Suíça, o avião da Swissair. Dentro dele viajavam dois cidadãos acima de qualquer suspeita, portadores dos passaportes de nacionalidade grega. Srs. Aristóteles Massanet e Demétrius Godoy. Um portava uma procuração com plenos poderes, passada por Jorge da Silva Cerqueira em favor de Aristóteles Massanet, com firma reconhecida e autenticada, para movimentar a conta N° 001.260.054.939 no Union des Banques Suisses (UBS). O outro, Senhor Demétrius Godoy, levava uma mala especial de mão com 25 milhões de dólares em notas de mil. Massanet e Godoy viajavam com a certeza de terem comprido o último desejo de Josef, só não conseguiram saber qual deles executara o trabalho de eliminação.

Nove horas e trinta minutos. Outro aparelho estava levantando voo: em seu avião particular, deixava a cidade o Sr. Mohamed Sayad, com destino a Istambul, sem ser molestado pelas autoridades de plantão do aeroporto. Este era verdadeiramente um cidadão honrado. Samir Ozir Sayad usava seu verdadeiro nome para poder sair do país.

Dez horas da manhã. Mais um voo da Air France com destino a Europa. Neste, confortavelmente acomodado na primeira classe estava M. Jean Chevalier. Ainda apavorado pelo susto que passara, mas feliz por estar indo embora para Paris.

Através de sua rede de informantes, Maciel ficou sabendo da partida de Mohamed Sayad. Com essa informação, desistiu de tentar prender o traficante de armas e voltou às investigações para tentar montar o enorme quebra-cabeça que todos aqueles assassinatos criaram.

Depois de estar trabalhando algumas horas, para sua surpresa, um envelope lacrado endereçado a ele acabara de ser entregue na portaria por um mensageiro. Ao abri-lo, constatou serem informações sobre todas as pessoas que acabaram de ser eliminadas nos últimos dias. Melhor dizendo, era um dossiê completo delas, feito nada mais nada menos, por Josef. Confirmando dessa forma tudo o que estava anotado em sua agenda. Também pareceu a Maciel ser mais uma confissão do seu envolvimento nos crimes como sendo o mandante do que uma simples informação do caráter de todas aquelas pessoas, mesmo que não declarada claramente.


***
















Último Capítulo


Suíça


Massanet e Godoy chegaram à Berna por volta de uma hora da manhã, horário local, e foram direto para La Pergola Swiss Quality Hotel, localizado na Avenida Belpstrasse 43. Precisavam urgentemente descansar. Os últimos dias foram agitados e altamente estressantes. A experiência vivida não fora benéfica para eles. Por essa razão, juraram um ao outro que nunca mais aceitariam uma missão como aquela.

- Godoy, vou lhe dizer o que estou sentindo: - O Josef nos deu uma quantia que não precisaremos nunca nos preocupar, mas mesmo assim acho que pagamos um preço muito alto pelo favor que devíamos a ele. Não acha?

- Realmente foi muito perigoso e desgastante, mas o importante é que lhe pagamos tudo, ao cumprir o seu pedido. Daqui para frente eu pretendo viver uma vidinha bem tranquila, se possível até monótona.

- Que tal uma sociedade? - Propôs Massanet.

- Não vejo nada que impeça. Na Grécia acertamos isso. - Concordou.

Acordaram e tomaram um banho bem quente para reanimar, pois ainda estavam no inverno e fazia muito frio. Fizeram o desjejum e foram ao banco de Crédito Suisso a fim de realizarem todas as operações necessárias para que os 55 milhões de dólares fossem depositados e transferidos para a conta deles, em Paris. Não tinham pressa, tudo o que havia para fazer agora era desfrutar o que o dinheiro e a vida pudessem lhes proporcionar. Permaneceram discretamente descansando na Suíça por trinta dias.

Tinham informação de que a Sra. Laura, viúva de Josef, voltaria a Paris só no final do mês de Fevereiro.

Segunda-feira, nove da manhã do dia 03 de Março de 1969


Paris

Hotel Saint Gregoire


Charmoso hotel quatro estrelas, instalado numa mansão do século XVIII, abriga um verdadeiro oásis de paz entre Saint Germain-des-Prés e Montparnasse. Cores agradáveis, com lareiras para quebrar o frio durante o inverno, visão do pátio e o conforto do passado, tudo isto junto para dar a este lugar uma maravilhosa atmosfera intimista. Possuía vinte quartos, com toques pessoais para cada um deles. Eram iluminados e belamente decorados com conforto acolhedor, mobília elegante, banheiros totalmente equipados e um charmoso terraço privativo em alguns deles.

Massanet e Godoy estavam agora sentados na ampla sala da recepção do hotel, aguardando a chegada da Sra. Laura Smith Nathan. Pretendiam, assim que ela chegasse, ir a Caixa Geral de Depósitos, na Avenue Marceau nº 83, e efetuar a transferência dos $55 milhões de dólares da conta deles para a conta dela. Esse dinheiro a pertencia.

Laura ainda não tinha assimilado bem os acontecimentos dos últimos dias. Além de Josef, perdera num curto espaço de tempo cinco velhos amigos, todos assassinados. Teriam a ver com a morte de seu marido? Essa era a indagação que atualmente fazia parte de seus pensamentos. Agora, para culminar, esse convite para encontrar-se com duas pessoas que sequer sabia quem eram. Como insistiram e ainda por cima afirmavam ser um dos últimos desejos de seu marido, resolvera atendê-los. Laura chegou ao hotel rigorosamente no horário combinado e reparou que os dois homens sentados no salão deveriam ser com quem ela iria se encontrar. Massanet e Godoy levantaram e aguardaram que ela se aproximasse.

- Senhora Laura, meu nome é Aristóteles Massanet e este é meu sócio Senhor Demétrius Godoy. Nós somos os advogados de Josef.

- Muito prazer. Interessante... Eu nunca ouvi Josef falar dos senhores.

- Éramos uma espécie de conselheiros para assuntos especiais. Todos os seus negócios só eram realizados depois que eram analisados por nós. Sempre no mais rigoroso sigilo.

- Bem, os senhores conseguiram esse encontro comigo porque disseram ser a última vontade de meu marido. Podem me dizer do que se trata?

- Claro, é para isso que estamos aqui. – disse Massanet.

- Nós temos que transferir para a senhora a quantia proveniente do leilão das duas joias que fora realizado em vinte de janeiro, na Cidade do Rio de Janeiro. – concluiu Godoy.

- Mas eu não sei do que os senhores estão falando. Não devo aceitar tal quantia. – Laura estranhou não ter conhecimento do tal leilão e também não saber da existência dessas joias, pois seu marido a colocava a par sobre tudo que fazia.

Massanet então relatou o que ali mesmo em Paris, pouco antes de morrer, Josef os encarregara de fazer.

- Senhora, fomos nós que adquirimos as joias como investimento. Josef nos avisou que seriam leiloadas. Ele já tinha inclusive contratado um leiloeiro para realizar o leilão. Queria com o dinheiro obtido na venda das peças comprar uma quinta no sul da França. Determinou que nós nos encarregássemos de tudo, devido estar sem tempo, tanto que abrira uma conta em nosso nome e determinara que o dinheiro do leilão fosse nela depositado.

- Essa é uma história estranha que vocês estão me contando.

- A razão de todo o segredo é que ele queria fazer uma surpresa à senhora com esse presente, mas como ele foi assassinado, não podemos continuar com o dinheiro que lhe pertence na nossa conta.

Diante de tal colocação, Laura resolveu aceitar e foram para o banco. Lá, quando ficou sabendo o valor que iria receber, perguntou discretamente aos dois quanto tempo eles trabalhavam para seu marido. Qual não foi sua surpresa quando disseram que estavam juntos há quinze anos. Só então acreditou que eram conselheiros de seu marido nos negócios e que portanto deveriam ser recompensados por tamanha lealdade. Determinou que eles só transferissem para ela 30 milhões de dólares, o restante que ficasse com eles como reconhecimento pelos trabalhos prestados ao longo de tantos anos. Ponderaram que haviam sido devidamente remunerados e que não era preciso se preocupar. Ela insistiu, dizendo ser um presente dela e de seus filhos e que não aceitaria recusas. Assim ficou estabelecido.

Laura continuou vivendo em Paris e nunca soube das verdadeiras atividades de seu marido. Obteve dos dois a garantia de que, se ela precisasse de alguma coisa, era só pedir que prontamente eles a atenderiam.

Massanet e Godoy resolveram voltar imediatamente para sua terra natal e viver o resto de seus dias nas ilhas gregas, tranquilos e ricos.























Segunda-feira, nove horas da manhã do dia 03 de Março de 1969


Rio de Janeiro


Maciel com suas investigações também descobrira que Sayad esteve hospedado no Hotel Glória e quando lá esteve obteve algumas informações bem importantes.

- Bom dia. Sou Maciel e este e o detetive Peixoto.

- Bom dia, o que desejam.

- Pode verificar se esse senhor esteve hospedado aqui?

- Sayad? Um momento.

Enquanto o recepcionista procurava no livro de registro o que Maciel lhe pedira, este foi tomando informações com os mensageiros e o porteiro.

- Olá, como vão vocês. Têm um tempo?

- Tudo bem. Está um pouco tumultuado, mas dá para atendê-lo.

- Por acaso vocês lembram de uns três homens que estiveram uns dias atrás hospedados aqui?

- Sim, parece que um era árabe e os outros dois com certeza eram gregos, foi...

Antes mesmo de ter a informação oficial do Hotel, já ficou sabendo que Sayad dera parte sobre o roubo de seu passaporte. Também ficou sabendo que naquele mesmo dia, dois hóspedes de nacionalidade grega deixaram o hotel, não permanecendo nem vinte e quatro horas hospedados. Foi este fato que chamou a atenção e levou a todos suspeitarem de terem sido eles os autores do roubo. Maciel satisfeito com o que descobrira agradeceu a todos e foi embora.

O delegado da cidade de Lambari esteve no Rio seguindo informações obtidas sobre os crimes ocorridos por lá e em conversa com Maciel lhe pôs a par de tudo que aconteceu naquela cidade. Segundo os empregados da fazenda, tinham sido dois homens que fizeram o serviço. Só não tinham visto os rostos, mas na cidade notaram a presença daqueles estranhos quando se juntaram, deixando um dos carros próximo à praça; e na volta, quando se separaram, indo embora cada um no seu automóvel. Os carros que usaram tinham placas do Rio de Janeiro e eram alugados. A descrição das roupas feitas pelo pessoal da cidade batia com a que o pessoal da fazenda descreveu. Com todas essas evidências, Maciel passou a ter certeza de que eram os mesmos. Dois homens altos, de pele morena bem clara, quase branca, do tipo abrutalhado, tinham os cabelos mesclados, castanho claro e branco. Essas mesmas informações tinham sido dadas pelo leiloeiro francês, na agência onde alugaram os automóveis, no Hotel Glória pelos porteiros e recepcionistas, pelo garçom do Copacabana Pálace Hotel que fora imobilizado pouco antes de atender ao pedido do apartamento 606, e pelo mensageiro que entregara o envelope de Josef na delegacia.

Maciel e Queiroz, quando em Belo Horizonte, também ficaram sabendo que, na ocasião em que Josef hospedou-se no Hotel Financial, esteve acompanhado de dois homens.

- Olá, tudo bem?

- Tudo. Deseja algum apartamento, ainda temos um de frente. – Respondeu o Rui, recepcionista do hotel, e mesmo reconhecendo aqueles homens como sendo da polícia ofereceu acomodações.

- Não. Só queremos saber se este senhor... – Maciel mostrava um retrato de Josef e não terminou de fazer sua pergunta.

- Dr. Josef! Mas claro, sempre que vem a Belo Horizonte ele se hospeda aqui. Perdemos um bom hóspede, é uma pena. Da ultima vez que se hospedou estava acompanhado por dois senhores também muito gentis.

Não foi preciso Maciel falar nada. Pelo Rui ficou sabendo tudo o que queria. A descrição dada por ele não deixava dúvidas de se tratarem das mesmas pessoas. Maciel agora estava certo de que aqueles homens eram seguranças de Josef. Como conheciam a todos e tinham posse do elaborado dossiê feito por Josef, resolveram vingar o patrão ou simplesmente cumpriram suas últimas ordens.

Com todas as peças juntas, só faltava saber se a nacionalidade e o nome verdadeiro deles eram os mesmos que usaram ao se hospedarem no Hotel Glória. Na Polícia Federal constava a entrada e a saída dos dois no país com os nomes iguais aos usados no hotel. De posse de todas essas informações, Maciel conseguiu do governador a autorização e o dinheiro para viajar até Paris, cidade de onde saíram os dois criminosos. Lá tentariam junto com a Interpol localizá-los e prendê-los.

Maciel acreditava que com isso, estariam resolvidos todos os assassinatos ocorridos com as pessoas ligadas a Josef e o seu envolvimento como mandante dos crimes. Ficando pendente somente saber, quem o havia assassinado.




Quarta-feira, nove horas da manhã do dia 05 de Março


París

Hotel de la Sorbonne


Antes de ir ao escritório da Interpol, Maciel tentaria um encontro com a senhora Laura, pois mesmo que ela não soubesse das atividades escusas do marido, com certeza deveria saber da existência dos seguranças e talvez até do paradeiro dos dois.

Maciel conseguiu marcar para a tarde sua entrevista com a Sra. Laura. Seu sexto sentido lhe dizia que faltava muito pouco para por as mãos naqueles criminosos.

Ao terminar a ligação que marcara o encontro, Maciel voltou a seus pensamentos.

- Que insondáveis mistérios regem o destino de um homem! – Maciel pensou alto.

- Porque a conjectura agora? – perguntou Queiroz.

Como se não tivesse escutado o que o amigo perguntara, continuou.

- Que mente humana poderia explicar o que levara Josef Nathan agir de tal forma? Um homem bem sucedido, com uma mulher maravilhosa ao lado e com algumas inigualáveis qualidades, expor-se a ponto de por a própria vida em risco. E o pior, perdê-la.

- O poder a qualquer preço – respondeu Queiroz automaticamente – acredito eu, que só isso responde essas perguntas.

O delegado voltando à realidade concluiu.

- Bem, na verdade não e isso que nos interessa agora – lembrou Maciel – que tal aproveitarmos para dar umas voltas pela cidade?

- Acho uma boa ideia.

Como era a primeira vez que iam a Paris, foram visitar os principais pontos turísticos da cidade antes de se encontrarem com a viúva. Por volta das dezesseis horas alugaram um táxi e foram para o boulevard Saint Germain, onde a senhora Laura sugeriu que se encontrassem, o café literário Lês Deux Magots. Local tradicional francês, sempre freqüentado por intelectuais, filósofos, artistas e turistas que vinham conhecer o famoso estabelecimento fundado em 1873, que fica localizado na 6 place Saint Germain des Pres.

Quando lá chegaram já a encontraram sentada a uma das mesas que ficava bem ao fundo. Maciel apresentou-se. Era a primeira vez que se falavam, apesar de a conhecer de vista nas festas realizadas pelo governador Negrão de Lima e também nos encontros beneficentes realizados pela esposa do político. Ela sempre comparecia acompanhada do marido.

Sempre que Laura ia aquele café com Josef, gostavam de sentar ali naquele local porque podia apreciar as duas antigas estátuas que ornavam a sala do estabelecimento.

Em conversa, ficaram sabendo que os maiores intelectuais do século se encontraram ali:

- Vocês sabiam que aqui era o ponto de encontro preferido de Jean-Paul Sartre, Ernest Hemingway, Simone de Beauvoir, Picasso, Jean Giraudoux, Fernand Legér, Elsa Triolet e Albert Camus, dentre outros? – declarou Laura.

- Esse local é realmente sofisticado e muito aconchegante. Não me admiro que eles gostavam de vir aqui. – diagnosticou Maciel.

Queiroz olhava para Maciel não entendendo nada, como que a perguntar por que a demora em perguntar se ela sabia dos seguranças e se saberia onde poderiam estar. Até porque, de todos aqueles nomes mencionados por ela, só ouvira falar de Picasso.

Depois de tomarem o tradicional café que sempre vinha servido em xícaras personificadas, e deixado a Sra. Laura falar sobre tudo que queria, Maciel comentou sobre os dois empregados de Josef.

- Senhora Laura, nós temos conhecimento da existência de dois homens que foram muito ligados a seu marido e que eram da sua extrema confiança. Saberia onde nós poderíamos encontrá-los? Precisamos interrogá-los para tentar esclarecer alguns fatos e desvendar o mistério da morte de Josef e seu empregado Anderson.

A informação obtida veio de encontro a sua quase certeza.

- Senhor, dias atrás me encontrei com dois homens que se apresentaram como sendo advogados de meu marido. Nunca tomei conhecimento de suas existências, entretanto acredito que, se for sobre as mesmas pessoas que estamos falando, eles voltaram para a Grécia. Disseram que iriam terminar seus dias nas ilhas gregas, mas não sei em qual exatamente. Mencionaram as Ilhas Jônicas. – disse Laura.

- Acredito que sejam as mesmas pessoas. Sua informação é de grande valia.

Maciel, por educação, ainda permaneceu alguns minutos conversando, deixando por conta daquela senhora determinar o encerramento da entrevista.

Terminado o encontro, Maciel ligou para o Rio de Janeiro e comunicou ao governador que estavam indo para a Grécia. A prisão dos responsáveis por todos aqueles crimes estava próxima; era só uma questão de tempo.

Maciel e Queiroz, antes de viajarem para a Grécia, resolveram desfrutar das delícias que a culinária francesa proporciona. Maciel, baseando-se na caderneta de Josef, não teve dificuldade em escolher o que comer.


***

Bistecas ao molho cítrico: – para quatro pessoas.

Quatro bistecas de vitela
Uma colher (sopa) de azeite de oliva
Duas colheres (sopa) de manteiga
UM copo de vinho branco seco
Casca de laranja ralada (três laranjas)
Suco de laranja (três laranjas)
Duas cebolas pequenas, (250g) de creme de leite
Salsinha, cebolinha, sal e pimenta em grão
Modo de Preparo: – Temperar as bistecas com sal e pimenta e marinar na mistura de vinho, suco de laranja, cebola picada e salsinha por pelo menos 6 horas. Refogar na manteiga misturada ao azeite, dourando de todos os lados. Coar o líquido da marinada e acrescentar as bistecas, juntamente com a casca ralada das laranjas. Ferver até o líquido reduzir pela metade. Adicionar o creme de leite e salpicar com cebolinha picada.


Quinta-feira, nove horas da manhã do dia 06 de Março


Atenas


Não foi a toa que Massanet e Godoy escolheram voltar para seu próprio país e lá terminar seus dias. Se existe um lugar para onde todo mundo já sonhou em ir um dia, este lugar com certeza é a Grécia.

Suas ilhas são maravilhosas! Entre as paisagens magníficas e as ruínas milenares, os mitos vencem a história e os sonhos navegam por mares de um azul incrível!

A Grécia sempre provoca suspiros: o romantismo das ilhas, a sofisticação dos cruzeiros, as praias paradisíacas, o sonho de estar debaixo do sol entre casinhas brancas e o azul do mar. Ali se faz o encontro do Oriente com o Ocidente, a presença próxima dos deuses, a grandiosidade dos templos, o mistério das ruínas.

Em fim, pisar numa praia grega pela primeira vez é uma grande experiência. A começar pelo fato de que, para chegar nela, você participa de um cruzeiro pelo mar Egeu.

Maciel e Queiroz não perderam tempo e viajaram no dia anterior para Atenas, pois teriam que ter obrigatoriamente ajuda. Primeiro porque não falavam o idioma do país, e segundo que para procurar por Massanet e Godoy nas ilhas habitadas onde poderiam estar escondidos, só mesmo com ajuda da polícia local. Este trabalho de investigação eles não poderiam fazer, no máximo acompanhariam de perto.

No escritório policial, Maciel, conversando em inglês com o inspetor Temístocles, ficou sabendo da presença de Sayad na cidade e que o mesmo já estava sob vigilância permanente. Também foi registrada pela a alfândega local a entrada no país dos dois criminosos, que agora com essa informações também seriam procurados. Segundo o Inspetor não seria tão difícil, pois se eles eram judeus, provavelmente estariam na ilha de Corfu, que é uma das ilhas Jônicas.

Essa notícia despertou a suspeita em Maciel, e como todo bom policial, não podia descartar suas ideias; Sayad não estaria na Grécia para negociar com algum comprador internacional. Talvez tenha descoberto que seu passaporte fora roubado por Massanet para incriminá-lo nos crimes; estaria ali para acertar as contas com eles. Era muita coincidência. Comentando o que estava pensando com Queiroz e o inspetor, eles não só concordaram com a hipótese como resolveram dar mais atenção nessa linha de investigação.

Partindo desse pressuposto, o Inspetor Temístocles determinou que sua equipe seguisse nessa linha de raciocínio e verificasse se Massanet e Godoy haviam feito algum registro na ilha.

A hora parecia que voava naquela cidade encantadora. Já eram quase treze horas quando resolveram almoçar. Temístocles recomendou que fossem ao restaurante Hermion, situado na antiga aldeia de Plaka. Possivelmente tudo o que existia antes de Atenas ser declarada a capital da Grécia.

Hermion é um restaurante bem acomodado no jardim de uma rua sem saída. Sua especialidade é preparar receitas consagradas da culinária grega, caso do espetinho de carneiro grelhado, e das entradas quente, como o mousaká.

Acomodaram-se, e Maciel mais que depressa recorreu às receitas de Josef e pediu a Temístocles que encomendasse um “lombo na neve” de acordo como estava especificado ali na caderneta. Queria ver como seria aquela receita feita por um cozinheiro grego.


***

Lombo na neve

Uma colher (sopa) de sal
(1/2) litro de óleo
Duas folhas de louro
Três dentes de alho socados
Uma colher (café) de pimenta-do-reino
(1/2) colher (sopa) de queijo parmesão ralado
(1/2) litro de vinho branco seco
(2 kg) de lombo de porco
(1/2) colher (café) de colorau
Três claras de ovo
Modo de Preparo: – Coloque o lombo em uma travessa funda e tempere-o com o sal, o alho, a pimenta, o colorau, o vinho e o louro. Deixe o lombo tomar gosto por 6 horas. Coloque-o em uma travessa, junte o óleo e leve ao forno quente por 1 hora. Regue o lombo de vez em quando com o próprio molho. Vire o lombo e deixe-o assar por mais 30 minutos. Depois, coloque-o em uma travessa. Bata as claras em neve. Espalhe-as sobre o lombo e polvilhe-as com queijo ralado. Leve o assado ao forno quente por 10 minutos.

Acompanha: – Arroz à grega.

***


Estavam os três acomodados e já saboreando um dos pratos mais servidos naquele local, quando se aproximou um policial e comentou alguma coisa com Temístocles. Logo o inspetor constatou satisfeito que tudo parecia estar caminhando como Maciel pensara.

- Maciel, seus homens tem um restaurante em Benitses e acabo de ser informado que Sayad foi para a ilha de Corfu.

- Benitses é nesta ilha? Quando vamos para lá?

- Sim, é um dos mais belos lugares da ilha. Iremos assim que terminarmos. Pelo visto, trata-se de um acerto de contas como você mesmo previra. Ele não viria tão longe só para negociar armas. – Comentou Temístocles.

- Precisamos andar rápido, quem sabe com um pouco de sorte não prendemos a todos de uma vez. – Se entusiasmou Queiroz.

Terminaram de almoçar.

- Maciel, eu tenho a obrigação de lhe confessar que está receita melhorou em muito este nosso prato que é tradicional.

- Você não está falando isso só para me agradar?

- De forma alguma, Ficou realmente bem melhor. Sua receita está de parabéns.

Descontraídos, e parecendo velhos amigos, foram tentar embarcar em algum voo para a ilha. Por instrução do inspetor, a ilha de Corfu já estava fechada. Não saía ninguém. No aeroporto e nem nos portos marítimos, todos que quisessem viajar seriam identificados, dessa forma seria impossível que os três fugissem.

Numa rápida inspeção ao aeroporto, Temístocles recebeu a informação de que o avião de Sayad estava estacionado no hangar Epsilon desde sua chegada e que ele fora para a ilha em um avião fretado.

O Inspetor comentou com Queiroz e Maciel:

- Na certa usou dessa estratégia com a intenção de nos confundir. Sua rede de informantes é grande; ele sabe que está sendo monitorado, mas sua determinação o impulsiona a seguir em frente rumo à vingança.

- Parece que estamos no caminho certo. – confirmou Maciel.





















Ilhas Jônicas


Este grupo consiste em sete ilhas principais: Corfu, Paxi, Kefallonia, Zakynthos, Ithaki, Lefkada e Kythira. Espalhadas ao longo da costa ocidental da Grécia, as Ilhas Jônicas são o único grupo que não está no mar Egeu e têm muitas reminiscências da sua vizinha Itália. Sem ser a pequena Meganisi, nenhuma está por descobrir. Corfu, com a sua vegetação, a sua geografia e as suas quedas de água, é considerada por muitos como a ilha mais bonita da Grécia.

Quatro horas era a vantagem que Sayad tinha sobre Temístocles, Maciel e Queiroz, o que os deixava preocupados. Mesmo estando monitorado, Sayad possuía meios e recursos suficientes para descobrir onde Massanet e Godoy estavam. Iria eliminá-los e voltaria a desaparecer como sempre fez pelo mundo afora.

Assim que pisaram em Corfu, uma viatura especial os aguardava. Aristóteles foi rapidamente posto a par dos movimentos de Sayad: assim que ele chegara à cidade, hospedou-se no Hotel Bella Venézia, que fica localizado na Zambeli Street nº 04. Durante três horas não saiu do hotel, até que recebeu a visita de Andréas, o chefe da máfia na Grécia. Tudo o que acontecia nas ilhas a ele era comunicado; comandava o jogo e a prostituição de seu iate, de onde quase não saia.

Os dois estavam agora no Hotel Bella Vista, situado à sudeste de Benitses, a somente 12 km da cidade de Corfu.

- Maciel, eu estou começando a acreditar que sua viagem não será em vão.

- Também acredito, Temístocles. Preciso que tudo dê certo.

- Graças aos seus dois fugitivos, tiraremos de circulação mais dois criminosos: esse Andréas, que tem me enchido as medidas há algum tempo, e o Sayad.

- Não vamos nos deixar enganar pelo excesso de confiança.

- Com excesso ou sem excesso não tenha dúvidas. Nós agora iremos pegá-los. – sentenciou o inspetor – Acredito que Sayad pretende fugir com a ajuda do Andréas, mas não conseguirá pois providenciei que seu iate seja cercado pela guarda costeira.

Pelo rádio, Temístocles era informado que estavam todos cercados e não havia o risco de Sayad e Andréas pegar Massanet e Godoy. Os primeiros, permaneciam no hotel e não tinham se dado conta do cerco; os outros dois, como estavam trabalhando no restaurante que haviam arrendado e sem desconfiar da operação policial não fugiriam.

Simultaneamente Temístocles ia colocando Maciel a par de tudo o que acontecia. Tentava explicar com seu inglês ruim que o hotel era perto do centro da vila de Benitses, onde havia uma seleção de restaurantes nas barras e as famosas lojas de café ao longo da praia.

- Maciel, nosso pessoal está nos esperando para efetuar a prisão dos quatro.

- Temístocles, nós devemos primeiro prender Sayad e Andréas e só depois efetuarmos a prisão de Massanet e Godoy.

- Por que essa preocupação? Eles não conseguirão ir a parte alguma, mesmo que tentem.

- Porque Sayad e Andréas sabem que estamos atrás deles. Já esses outros, não sabendo o que está acontecendo, não fugirão.

Foram os vinte minutos mais longos que Maciel viveu. A expectativa foi grande, mas tudo tinha terminado de forma satisfatória. Estavam todos definitivamente presos sem que fosse disparado um único tiro.

Os experientes policiais tomaram o cuidado de não juntar os quatros. Assim, puderam interrogar primeiro Sayad e Andréas, para depois então tentar manter presos Massanet e Godoy sob a acusação de envolvimento com os dois primeiros.


Sexta-feira, nove horas da manhã do dia 07 de Março


Estavam reunidos na central de polícia: Temístocles, Maciel e Queiroz. Ainda não tinham dormido e o cansaço estava estampado em seus rostos, mas a satisfação que sentiam pelo dever cumprido suplantava tudo. Sem dúvida alguma aquelas prisões iriam melhorar em muito o currículo profissional deles. Isso também podia ser visto em suas fisionomias. Após terem devidamente registrado a ocorrência policial realizada no dia anterior, Maciel encaminhou todas as provas que tinha incriminando a Massanet e Godoy como os autores dos assassinatos, para a embaixada do Brasil em Atenas. Seria preciso a intervenção diplomática para mandar de volta ao Brasil aqueles dois criminosos, uma vez que eles eram gregos, não tinham cometido nenhum delito na Grécia e negavam qualquer participação nos tais crimes. Alegavam não ter motivos para cometê-los já que não conheciam as vítimas mencionadas.

Terminado todo possesso burocrático, Maciel e Queiroz se despediram de Temístocles e voltaram ao hotel para descansar. Há dois dias não sabiam o que era dormir.

No dia seguinte, bem cedo, tinham acabado de tomar café quando chegou o inspetor de polícia e Queiroz aproveitou para comunicar:

- Não venha falar de trabalho, agora somos simples turistas. Só iremos viajar no domingo, até lá estamos de férias.

Antes que pudessem falar mais alguma coisa, Temístocles, cheio de orgulho e aquela ponta de vaidade que todo grego tem, convidou:

- Então venham, meus amigos. Vim apanhá-los para conhecer alguns pontos turísticos, afinal, além da cidade ser o berço da civilização europeia, aqui é a terra dos deuses da mitologia.

- Onde pretende nos levar? – perguntou Queiroz.

- Vocês não podem ir embora sem antes conhecer o conjunto de prédios que formam a Acrópole. A começar pelo Partenon, o Museu e o Erechtheion, famoso pelas estátuas das seis Caryatides, colunas esculpidas em mármore na forma de seis jovens.

Eram quinze horas quando terminaram de ver todas as maravilhas que Temístocles mostrou. Por sugestão de Queiroz, foram almoçar e outra vez Maciel pegou a famosa caderneta para determinar o que iriam comer em comemoração aos resultados alcançados.

Desta vez, Temístocles não se conteve:

- Esclareça minha curiosidade. - perguntou a Maciel

- O que é que queres saber?

- Você tem como hobby cozinhar?

- Passou a ser de uns tempos para cá, ou melhor, vai ser, pois ainda não tive tempo de pôr em prática os ensinamentos aqui contidos.

- Então de quem é essa caderneta?

- Bem, isso já é uma outra história. Quem sabe numa outra ocasião te conto em detalhes.

- Parece que ela lhe conquistou, ou estou enganado?

- Posso garantir que realmente essa caderneta deu uma mudada em minha vida.


***

Carneiro com batata: – para quatro pessoas.

Oito bistecas de carneiro
sal e pimenta-do-reino a gosto
Uma colher (chá) de cominho
Meia xícara (chá) de suco de laranja
Dois limões
Quatro colheres (sopa) de azeite de oliva
Oito batatas médias
Meio maço de hortelãs fresca
Modo de Preparo: – Temperar as bistecas de carneiro com o sal, a pimenta, o cominho, o suco de laranja e de limão. Dourar a carne no azeite sem o suco. Ferver até reduzir pela metade. Reservar. Cozinhar as batatas com casca. Quando estiverem macias, escorrer e descascar. Colocar as bistecas numa travessa refratária untada com manteiga, juntar as batatas, cobrir com o suco fervido e polvilhar com hortelã picada. Levar ao forno por alguns minutos apenas para aquecer.

***




























Sexta-feira, dez horas da manhã do dia 10 de Maio


Rio de Janeiro


Maciel e Temístocles foram promovidos. Tornaram-se amigos e sempre que podiam se comunicavam para trocar experiências profissionais e novas receitas de culinária, seus novos hobbies. Maciel não só adquiriu o hábito de cozinhar como passou a vestir-se esmeradamente e a frequentar leilões de arte, fato que o levou a adquirir algumas peças raras nesses eventos e também em alguns antiquários famosos que passou a conhecer depois do contato com a agenda de Josef.

Dois meses após as prisões realizadas em Atenas, Maciel foi informado de que Sayad e Andréas conseguiram subornar com 4 milhões de dólares aqueles que tinham a responsabilidade de mantê-los presos. Dessa forma, mais uma vez escaparam e não foram levados a julgamento. Quanto a Massanet e Godoy, ficou sabendo que devido a enorme burocracia existente para indiciá-los na Grécia pelos crimes cometidos no Brasil e a falta de provas envolvendo-os nas atividades de Sayad e Andréas, foram postos em liberdade. Venderam o restaurante da ilha e desapareceram como fumaça.

Maciel e sua equipe concluíram os três inquéritos policiais abertos, referentes aos assassinatos ocorridos no Rio e que ficaram sob a responsabilidade do seu departamento. Constando nos relatórios que os autores das chacinas no Copacabana Palace Hotel e na Avenida Rio Branco foram os gregos Aristóteles Massanet e Demétrius Godoy, a mando de Josef. Só não os apresentando à Justiça porque conseguiram escapar da justiça, em Atenas.

Quanto ao terceiro inquérito, foi arquivado. Não conseguiram descobrir, dentre todos os que foram assassinados por vingança, o verdadeiro assassino de Anderson e de Josef Nathan.


Quarta-feira, dez horas da manhã do dia 15 de Maio


Ângela não fazia outra coisa a não ser rezar para que o delegado conseguisse desvendar aquele mistério e prendesse o assassino de Josef Nathan. Rezando, ela acreditava que sua culpa por ter se omitido seria diminuída. Mas como os noticiários dos jornais davam conta de que o delegado Maciel arquivara o inquérito sobre o assassinato, ela resolveu prestar seu depoimento espontâneo e dar algumas informações que provavelmente iriam ajudar nas investigações.

Maciel estava na delegacia comentando com seu companheiro sobre o final do caso Josef.

- Queiroz meu amigo pela primeira vez sinto-me impotente diante das circunstâncias. Será que realmente existe o crime perfeito? – Indagava meio triste ao seu companheiro.

- Não acredito. Nós nos perdemos em algum momento nas investigações ou alguém ajudou o assassino encobrindo alguma prova circunstancial.

- Sim, mas quem? Se nós sequer conseguimos chegar a um suspeito concreto. Os indivíduos que tínhamos viraram cadáveres e nada indicaram que esse ou aquele tenha cometido o crime. Virou um mistério sem solução.

Nesse instante, entra em sua sala o detetive Peixoto, que anunciava:

- Delegado, temos uma visita que o senhor vai gostar muito de saber.

- Quem é agora?

- É a Sra. Ângela que quer vê-lo.

- Mande-a entrar, Peixoto. – Maciel apressou-se a dizer.

Deu um salto, levantando de sua cadeira já com a fisionomia sorridente.

- Creio que desvendaremos o mistério e desmascararemos aquele que está pensando que cometeu o crime perfeito, mesmo que depois de morto.

- Maciel, desde quando morto pensa? – Perguntou o Peixoto.

Maciel recebeu a senhora Ângela em sua sala e no final da entrevista virou-se para Queiroz dizendo:

- Definitivamente, não existe o crime perfeito meu velho.

E voltando-se para a senhora Ângela agradeceu.

- Obrigado, graças as suas informações podemos desvendar o grande mistério.











Segunda-feira, oito horas da noite do dia 20 de Maio


O restaurante Bar Bico Doce estava totalmente lotado fato que chamava atenção para o dia que era. Dois cavalheiros elegantemente vestidos dirigiram-se ao garçom. Indagaram onde poderiam sentar, pois haviam feito reserva. Acomodados, fizeram o pedido e passaram a conversar descontraidamente tomando um drinque antes da comida ser servida.


***

Farofa de Milho Verde: – para seis pessoas.

Três colheres (sopa) de manteiga;

Uma xícara (chá) de toucinho picado;

Uma cebola média ralada;

Uma lata de milho verde;

Quatro ovos cozidos;

Meia xícara (chá) de ameixa preta seca picada;

Meia xícara (chá) de azeitona sem caroço picada;

Três colheres (sopa) de salsa picadinha;

Duas xícaras (chá) de farinha de milho.

Como preparar: – Aqueça a manteiga e frite bem o toucinho. Junte a cebola e refogue. Acrescente o milho verde, as azeitonas, a ameixa e os temperos. Misture as gemas à farinha e junte aos poucos aos ingredientes, mexendo bem até obter uma farofa solta. Por fim junte a clara bem picada. Coloque num pirex e sirva.

Acompanha: – Arroz branco, Carne de porco assado e Salada.

***


Alguns meses depois de sua última estada naquele restaurante, Adolfo, o diretor do banco, voltava ao Bar Bico Doce para jantar acompanhado do bioquímico Reinaldo: o funcionário do departamento de pesquisa do Instituto Osvaldo Cruz que era seu cúmplice, amante e o pivô das chantagens e pressões que sofrera durante várias semanas por Josef. Agora livre de qualquer suspeita, já que os jornais dos últimos dias davam conta do encerramento das investigações e do arquivamento do caso Josef e seu empregado Anderson.

Qualquer um via em seu rosto a alegria e a sensação de liberdade, pois realmente estava livre de qualquer ameaça da parte de Josef Nathan. Estavam tão distraídos que nem notaram quando o delegado Maciel, o detetive Peixoto e o inspetor Queiroz entraram no restaurante e caminharam até sua mesa.

- Boa noite, senhor Adolfo.

- Boa noite. Está tudo bem, delegado?

- Sim está tudo bem. Mas creio que para vocês não.

- O que o senhor quer dizer com isso?

- Que os senhores estão presos.

- Podemos pelo menos terminar nosso jantar em paz?

- Claro que podem. Terminando o jantar, acompanhe-nos. Seremos discretos... Nós estaremos os esperando na saída.

- Ah! Delegado, podemos saber o motivo da prisão?

- Evidente. Duplo homicídio dos Srs. Anderson e Josef Nathan.

Maciel e seus acompanhantes desconhecendo que o restaurante tinha uma outra saída para a Rua do Ouvidor, que só era usada pelo dono e os funcionários, não se preocuparam com uma possível tentativa de fuga. Entretanto com o que eles não contavam aconteceu. Adolfo e Reinaldo aproveitando-se desse detalhe saíram por aquela porta, desaparecendo.

























Sábado, nove horas da noite do dia 20 de Julho


Angra dos Reis


Após quatro meses, mais uma vez o delegado Maciel e o inspetor Queiroz seguindo algumas pistas encontraram Adolfo e Reinaldo em ambiente idêntico ao anterior, um restaurante. Entretanto, desta vez não permitiram que eles saboreassem o prato pedido, a sós. Sentaram-se a mesa e saborearam juntos o delicioso jantar.


***

Salmão Caramelizado: – porção para quatro pessoas.

Quatro filés de salmão de 200 g cada
Uma colher de chá de pimenta-do-reino em grãos
Uma colher de chá de dill seco
Uma colher de chá de coentro em grãos
30 g de sal grosso
90 g de açúcar mascavo
Duas colheres de sopa de óleo
100 ml de vinho branco
Molho
3/4 de mostarda de dijon
60 g de açúcar mascavo
Duas colheres de sopa de azeite e água suficiente para a receita

Como preparar: – Coloque no liquidificador o sal grosso, açúcar mascavo, pimenta em grão, coentro em grão e o dill seco. Bata até obter um pó bem fino coloque em um prato e coloque cada filé de salmão sobre esta marinada seca apertando bem, para fazer uma crosta de um dos lados. Reserve. Preaqueça o forno em temperatura média. Prepare o molho colocando os ingredientes em uma panela e levando-a ao banho-maria até que o açúcar de desmanche. Aqueça 2 colheres de óleo em uma frigideira e quando bem quente, coloque o salmão com o lado da crosta para baixo. Doure por 2 minutos, vire e doure por mais 2 minutos. Regue com o vinho branco e leve ao forno para terminar de dar ponto, cerca de 10 minutos.

Acompanha: – Arroz branco e batata sauté.

***




1*- Foto e texto obtidos através de pesquisa na internet.

2**- Foto e texto obtidos através de pesquisa na internet.

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